20 fevereiro, 2019



Comparando o retrato na pintura e na fotografia, deve-se realçar o papel do tempo na relação do olho com a mão que, respectivamente, pinta ou dispara. Tanto o pintor como o fotógrafo podem ser excelentes caçadores de rostos. E o resultado até pode ser igual, uma vez que há pintura cujo hiper-realismo se confunde com a fotografia e fotografia que se aproxima da pintura. Mas os processos são diferentes.

O pintor estuda o modelo e depura-o, sabendo que irá reproduzir não o rosto que se vê mas uma ideia de rosto, ainda que com fotográfica verosimilhança. O que fez Leonardo com a natureza empírica da senhora Lisa del Giocondo? Olhando para o seu rosto, mutável e condicionado por múltiplos factores quotidianos, conferiu-lhe incorruptível identidade. Se agora se descobrissem retratos dela com outras expressões, resistiríamos a associá-las ao rosto que fixámos na sua eterna inteligibilidade, adquirindo o estatuto de impuras emanações. Já o fotógrafo, em virtude de um processo mecânico marcado pela velocidade, é um caçador de instantes mergulhado na turbulência do real. Enquanto o pintor pensa, reflecte, imagina, projecta, dorme e sonha com o rosto que persegue para o poder gravar num plano ideal, o fotógrafo, por muito conhecedor e estudioso que seja de um rosto, não tem tempo para uma construção subjectiva a não ser que seja encenada. Não usa a mão para pintar mas para disparar. Dispara, podendo mesmo conseguir o instante perfeito mas nunca tem o controle da situação, está sempre dependente das flutuações desse rosto. Por isso, o rosto fotografado, por muito icónico que se torne e dê a ilusão de ser o verdadeiro e único rosto daquela pessoa empírica, será sempre um rosto contingente, relativo, submetido às suas variações.

O resultado até pode ser o mesmo, e há, de facto, rostos fotografados que adquiriram o estatuto de arquétipo. Mas o processo será sempre diferente. Suponhamos que no tempo de Leonardo já existia a fotografia e que um certo fotógrafo teria captado a mesma expressão pintada pelas mãos de Leonardo. Ora, o que os nossos olhos veriam seria o mesmo mas o processo subjectivo da construção do rosto, bem diferente. O pintor é um homem livre, um criador, um filósofo do rosto ou um artista que pensa o rosto. O fotógrafo, por muito sensível e intuitivo que seja, será sempre mais um engenheiro do rosto, alguém precisa da máquina para caçar um rosto que nunca lhe pertencerá completamente. Mesmo na produção estudada de um rosto, a máquina instalará sempre uma distância entre sujeito que fotografa e objecto fotografado. Enquanto o pintor trabalha "de olhos fechados", absorvendo mentalmente o objecto retratado para o tornar imanente à sua consciência, o fotógrafo, ainda que dispare centenas de vezes sobre um mesmo rosto, este ser-lhe-á sempre transcende e cuja posse terá sempre que dividir com a sua máquina.

19 fevereiro, 2019


Morreu, com 95 anos, o marinheiro do célebre beijo de Times Square. Há uns anos que já havia morrido a enfermeira beijada, com a avançada idade de 91 anos. Agora que tudo acabou de vez não será de menosprezar a irónica melancolia de o beijo ter ocorrido num sítio chamado Times Square, consequência de um festivo impulso juvenil. Faz toda a diferença. Uma das mais célebres fotografias do século XX transforma-se assim, e para todo o sempre, numa barroca vanitas


18 fevereiro, 2019

Há uma teoria filosófica segundo a qual as nossas escolhas não são livres mas determinadas por causas que não conseguimos controlar e das quais podemos mesmo não ter consciência. Podemos resumi-la numa simples frase: "Não fui eu mas o meu cérebro". Tenho a ilusão de ter sido "eu" a escolher mas isso só acontece por não ter consciência da sua causa. Se eu cair de um 5ºandar, sei que não estou a cair porque quero mas porque a força da gravidade a isso me obriga. Também no meu corpo, no meu organismo, no meu cérebro existem "forças de gravidade", só que, não tendo consciência delas, acredito existir um "eu" que me permite agir livremente e independentemente de qualquer causa que me obriga a agir de uma certa maneira. Sou uma marioneta mas sem saber que o sou apenas porque não tenho consciência dos fios invisíveis que me movem.

Perguntemos agora: porque odeio a pessoa A, me apaixono pela pessoa B, simpatizo com a pessoa C? O que estará a acontecer em mim que possa explicar tudo isso? Ninguém decide livremente odiar, amar, simpatizar ou antipatizar, isso não acontece por via de uma deliberação, de uma reflexão. Podemos assim voltar à frase que resume a teoria atrás referida mas, neste caso, afirmando: "Não sou eu que odeio mas o meu cérebro", "Não fui que me apaixonei mas o meu cérebro", "É o meu cérebro e não eu que simpatiza com aquela pessoa".

O que vejo quando olho para um espelho? O meu corpo? Não, vejo a pele que reveste o meu corpo, essa película exterior que cobre o meu corpo. Mas o meu corpo são os meus órgãos, as minhas vísceras, as minhas veias, o meu sangue, as minhas bactérias, o meu líquido linfático, o meu suco gástrico, a minha bílis, as minhas células, o meu sémen, as minhas hormonas, os meus neurotransmissores, os meus ossos, os meus músculos, os meus tendões, e tanta coisa que vive no meu corpo sem me passar sequer saber pela cabeça que existe. Mas quando me olho ao espelho vejo apenas uma pele que torna o meu corpo suportável e não abjecto e repugnante. No fundo, também o "eu" que sinto a apaixonar-se, a odiar ou a simpatizar é apenas uma camada exterior, visível, que torna a minha existência individual suportável para mim e para os outros. Mas, no fundo, um "eu" tão fictício e ilusório como o que em tempos se considerou ser a alma. 

Eu olho para a minha mão, o meu joelho, o meu pé e sei que são meus, apesar de, ao contrário das meus pensamentos, emoções, sentimentos, serem exteriores à minha consciência tal como o teclado em que escrevo ou a mesa sobre a qual está o teclado. Não posso dizer que vivo com eles desde que nasci, pois mais do que serem parte de mim são também aquilo que eu sou. Mas o que vejo quando penso no cérebro? Eu não vejo o meu cérebro nem considero que o meu cérebro está em mim como estão a minha mão, o meu joelho ou o meu pé. Serei mais "eu" a estar no meu cérebro do que o meu cérebro em "mim" e quando julgo pensar no meu cérebro o que provavelmente acontece é o meu cérebro a pensar sobre si próprio embora me dando a ilusão de ser eu a pensar nele. Tudo isto leva a pensar-me como um fantasma, um mero espectro embora disfarçado por um "eu" que me torne suportável enquanto indivíduo, tal como o meu corpo sob a minha pele. Que o meu cérebro trate bem de si próprio para o meu "eu" ter uma aparência saudável é a minha grande esperança, se bem que nada possa fazer para que isso aconteça ou deixe de acontecer.

15 fevereiro, 2019

Há muito que sigo um critério para perceber o quanto gosto de um quadro: desejar ou não tê-lo na minha sala, fazer dele parte do meu quotidiano. Pode ser um critério pouco original, elementar, demasiado simplista. Mas é eficaz e a sua simplicidade, mais do que um defeito, é uma virtude, sendo também ainda com base nele que vou construindo o meu museu imaginário. Já bem mais complicado é explicar por que razão gosto ou não gosto. Posso explicar, mas ficando por um plano meramente sensorial, invocando coisas como a cor, a luz, uma certa organização formal, deixando naturalmente de lado o seu conteúdo como fará um defensor do realismo socialista ou de uma arte social e politicamente comprometida. Mas ficar por esse plano significa colocar uma obra de arte no de um alimento que me propicia prazer, de uma camisa ou de um aroma, em detrimento de um outro tecnicamente complexo e mais subtil intelectualmente, o que parece manifestamente injusto para a obra de arte. Porém, depois de dormir umas horas sobre o assunto, sou levado a acreditar que sim.

Se meter um triângulo de Toblerone na boca, sinto prazer mas se meter um pedaço de fígado de cebolada a reacção é de repulsa. Que posso eu dizer para explicar por que gosto de um e detesto o outro, a não ser que "gosto porque gosto" ou "não gosto porque não gosto", sem saber o motivo para gostar ou não gostar e sem ter decidido gostar ou não gostar? E o mesmo se passa ao sentir mais prazer com o som  do violoncelo do que com o do violino, quando numa loja prefiro uma camisa a outra ou prefiro o aroma do café acabado de moer ao de um refogado. Dir-se-á que uma obra de arte, tendo uma natureza espiritual, exigirá sempre um elemento psicológico superior, uma justificação sustentada racionalmente ou que a sua apreciação implica um gosto passível de ser educado e refinado culturalmente. Aceito a possível relação entre as duas coisas mas não uma conexão necessária, ou mesmo contingente, entre elas.

O especialista num pintor ou corrente pode explicar de um modo tecnicamente claro e objectivo diversas razões para justificar o seu valor. Porém, do mesmo modo que se pode compreender a explicação científica de um nutricionista sobre o valor nutritivo dos brócolos sem termos que gostar de os comer, tal compreensão não nos obriga a gostar desse pintor. Como também podermos não gostar de uma pessoa, apesar de lhe reconhecermos várias qualidades. Depois, é verdade que o juízo de gosto na arte pode ser educado, levando-nos assim pensar num plano superior ao de gostos primários como o paladar ou o olfacto.  Mas a possibilidade de ser educado não implica atribuir-lhe uma causa erudita ou intelectualmente superior. O nosso olfacto, hoje, está mais educado do que o de uma pessoa do século XIX. Certos cheiros que seriam tão normais que nem se daria por eles, são hoje considerados incómodos ou mesmo insuportáveis. Também o prazer suscitado por um bom vinho ou por uma peça de roupa pode ser educado, não sendo o vinho ou a roupa obras de arte criadas para serem contempladas. Em relação à arte, terei que admitir ser a educação do gosto importante, preparando o terreno para uma sensibilidade estética que de outro modo seria difícil obter. Mas isso é também o que se passa no filme "O Menino Selvagem", quando o médico que educa o pequeno Victor, que cresceu sozinho na floresta, leva-o a desenvolver a sua sensibilidade olfactiva, visual ou táctil. E o facto de existir essa prévia sensibilidade estética face à arte está muito longe de ser razão suficiente ou até necessária para apreciar uma obra, do mesmo modo que uma educação do paladar não implica apreciar um vinho que outros considerarão de elevado valor.

Justificar o gosto por um quadro, recorrendo a uma explicação técnica ou racional resulta de uma falaciosa inversão causal: nós acreditamos que gostamos, apresentando uma razão para isso mas, no fundo, o que acontece é apresentarmos a explicação porque gostamos, sendo o gosto anterior à explicação. Claro que pode haver quadros dos quais gostemos, invocando uma causa para o explicar, por exemplo, associando-o a determinadas situações da nossa vida, podendo algumas delas ser mesmo fúteis ou caprichosas. Mas se for esse o caso, trata-se de uma explicação extra-artística tal como poderá ter valor afectivo um objecto que outra pessoa desprezaria pela sua insignificância, como uma simples pedra.

Assumir a mera sensibilidade como causa do juízo estético na arte não significa fazer descer a arte ao nível da perfumaria, da gastronomia ou do vestuário. A contemplação de uma obra de arte permite uma experiência intelectual e emocional que um perfume, um alimento ou peça de roupa jamais terão, por muito "gourmet" que se possa ser com o nariz ou os olhos. Mas trata-se de uma experiência que terá como condição necessária uma adesão espontânea no plano da sensibilidade.  E mesmo quando nos esforçamos para gostar do que antes não gostávamos, o esforço será da sensibilidade e não do intelecto.

14 fevereiro, 2019

No Ipsílon da semana passada, Pedro Portugal escreve este artigo intitulado «Porque é que os conservadores odeiam a arte do presente?» Trata-se de um exercício de manipulação argumentativa com um grau de requinte raramente visto. Primeiro, porque associa conservadorismo a extrema-direita ou direita trauliteira, o que está longe de ser verdadeiro. O facto de pessoas de extrema-direita não gostarem  de arte contemporânea não significa que toda a gente que não gosta de arte contemporânea seja de extrema-direita. Depois, porque para defender nomes de artistas contemporâneos cujo nome rapidamente cai no esquecimento, invoca nomes de pintores do século XIX, conservadores, que também caíram no esquecimento. Pois, e ainda bem que caíram uma vez que a sua pintura é mesmo de fugir como são os casos de Bouguereau ou Cabanel, querendo  isto significar que uma má relação com a arte contemporânea está longe de significar apreciar maus pintores conservadores ou vir defender uma pintura de «pores-do-sol, flores, gatinhos, corações, crianças brancas e outras coisas belas», colocando "o menino da lágrima" num plano superior ao de muitos pintores consagrados. Finalmente, porque também se esqueceu de referir que nem toda a arte contemporânea é lixo, embora nalguns casos até o seja literalmente e eu já os vi. Há artistas que continuam a respeitar a arte e a dignificá-la. Defender a arte contemporânea como um todo face aos seus críticos, significa criar uma fortaleza onde não existem critérios de demarcação entre o que tem e não tem valor. Em vez de tentar defender a arte contemporânea de inimigos sem relevância sociológica e descredibilizá-los para, por oposição, credibilizar o seu campo, do género "Se quem nos ataca é mau isso deve querer significar que temos valor", seria mais indicado Pedro Portugal fazer um exercício de auto-crítica. O melhor serviço que poderia fazer à arte contemporânea, do que dela ainda se pode salvar.

13 fevereiro, 2019


Pensemos num espírito desejoso de criar novas linguagens, como era o de Picasso. Que, embora tecnicamente o pudesse fazer, já não queria mais pintar como Monet, Degas, Pissarro, Van Gogh, e muito menos ainda como Rembrandt, Velasquez ou Ticiano. Para quê chover no molhado, pintar o que já foi pintado, a última coisa desejada por um espírito inquieto? Há aquele jogo que consiste em correr à volta das cadeiras e as pessoas vão perdendo à medida que aquelas vão deixando de estar disponíveis. Picasso teve sorte pois quando começou a pintar havia ainda muitas cadeiras disponíveis, ocupando, com artística autoridade, algumas delas.

Espíritos desejosos de criar novas linguagens sempre houve e irá continuar a haver. Mas pensemos num deles, hoje, vendo-o a olhar para a tela em branco ou para os diversos materiais que tem à sua frente e com os quais poderá fazer arte. O nosso artista tem um problema óbvio: muito menos cadeiras disponíveis para se sentar do que as que tiveram Picasso, Modigliani, Schiele, Kandinsky, Mondrian, Klein, Malevich, Richter ou Tàpies. Ele olha para a tela em branco e sabe que já não pode pintar o que já foi pintado e quanto mais coisas tiverem sido pintadas menos haverá para pintar. E o que de facto acontece é que vai sendo cada vez mais recorrente pegar no pincel e sofrer, não a angústia da influência mas a a angústia do já pintado, receando imitar, reproduzir, enfim, papaguear. E quem diz um pintor diz também um compositor, um escritor ou até um arquitecto que, à sua maneira, é um artista. Trata-se, portanto, de perceber que já não há espaço no jogo de cadeiras, mais valendo acabar com ele e recomeçar com outras cadeiras completamente diferentes. Não quer isto dizer que o pintor moderno não goste dos pintores que o tempo tornou clássicos. O que nunca faltou foi pintores modernos a passarem os seus dias nos grandes museus para aprenderem com os clássicos. Mas cá está: cadeiras que já foram ocupadas e que por isso deixaram de servir. Mas há sempre novas possibilidades para jogar: acabam-se as cadeiras, criam-se urinóis.

Eis uma razão para o facto de a arte contemporânea se ter intelectualizado cada vez mais: um ilimitado pensamento que compensa os limites do olho. A arte deu sempre a ver e assim irá continuar. Mas esgotando-se o campo da cor, da forma, da expressão, da narrativa enquanto elementos intuitivamente visuais, a saída está num "ver" cada vez mais subjugado ao "pensar", às ideias, a conceptualizações diversas, sejam estas, sociais, políticas ou meramente formais. Claro que há pensamento na arte clássica, na qual, de resto, já incluiremos os velhos modernos de ontem e anteontem. Os artistas sempre pensaram, e muito. A arte é cosa mentale, lembrava Leonardo. Mas havendo sempre um equilíbrio, uma harmonia entre o conteúdo e a forma ou entre o elemento intelectual e estético propriamente ditos, o que hoje está cada vez difícil de conseguir. Claro que o artista poderá sempre dizer que não se trata de uma incapacidade ou dificuldade mas de um objectivo assumido e até desejado. Não acredito. Trata-se mesmo de um problema de falta de cadeiras que, mais cedo ou mais tarde, levará à morte da arte, há muito antecipada filosoficamente por Hegel. Morte da arte não significa deixar de criar obras que podemos continuar livremente a considerar como sendo arte. Morte, no sentido de se tratar de obras que se perdem no efémero, num puro experimentalismo protagonizadas por artistas que, ao contrário de outros que começaram por ser incompreendidos mas a quem o tempo fez justiça, ninguém percebe ou alguma vez perceberá, ou que são expressas numa linguagem para ser desmontada intelectualmente, perdendo-se cada vez mais o seu sentido propriamente estético, e longe de mim, mas mesmo muito longe, considerar a beleza como desígnio central da arte como defenderão os mais conservadores. 

12 fevereiro, 2019


Se a arte for sobretudo entendida como exercício intelectualmente estimulante, feita para pensar ou como mero pretexto para pensar sobre coisas que lhe são exteriores, nesse caso então, e muito sinceramente, prefiro fazer palavras cruzadas.


11 fevereiro, 2019


Os meus pais tiveram três carros, todos eles brancos. Para mim eram apenas carros que por acaso eram brancos e sempre olhei para carros brancos enquanto carros simplesmente brancos. Um dia alguém me disse que os carros brancos lembram electrodomésticos. Foi um clique. Desde então, sempre que olho com mais atenção para um carro, apercebendo-me de que é branco, passei a ver um carro que parece um electrodoméstico, e quanto maior e mais volume tiver, mais electrodoméstico me parece. Mostrei vários quadros de Vermeer numa sala de aula. Para a esmagadora maioria dos alunos não são mais do que quadros nos quais se vêem homens e mulheres a fazer diversas coisas como escrever cartas, tocar instrumentos ou conversar. O que falta ali é também e tão só um clique que permita ver uma obra de arte, e que obra de arte, onde antes apenas havia homens e mulheres em salas a fazer diversas coisas. Consegui-lo, chamará para o campo da arte e da sensibilidade estética quem, até aí, via só com os olhos, tal como eu também já tive um tempo em que os carros brancos eram só carros brancos por ser apenas com os olhos que olhava para eles.


06 fevereiro, 2019


Por cada átomo de memória haverá sempre outros, muitos mais, de esquecimento, falsas memórias, auto-manipulação, dissimulação. A consciência está sempre refém de um eterno presente, não podendo estar onde ainda não esteve mas também sem poder voltar onde já esteve. E não há Teseus para o labirinto do tempo. Haverá o sabor da madalena, dirão os proustianos. Mas não, madalena há só uma, a original e no interior do labirinto, voltar a encontrá-la jamais passará de uma doce ilusão através de um jogo de espelhos.


05 fevereiro, 2019



Há músicas que nunca ficarão na cabeça ou no coração de alguém (no estômago seria improvável). Por exemplo, a 10ª Sinfonia de Bethoven ou o seu Quarteto de Cordas nº 17. Isto, pela simples razão de que nunca existiram. Não se trata sequer de estarem perdidas, algures e nunca virem a ser encontradas. Não, o compositor morreu, nunca chegando a compor o que poderia ter composto se não tivesse morrido. Meditar melancolicamente sobre o que poderiam ter sido se vivesse mais uns anos é um exercício vazio e infrutífero. Não dá para saber ou sequer imaginar. Mais interessante, academicamente, embora não menos especulativo, será pensar no que poderia estar hoje o compositor a fazer se não fosse habitual as pessoas morrerem antes dos cem anos mas por volta dos trezentos. Seria um compositor conservador, mantendo a sua linha romântica, ou ir-se-ia adaptando aos novos tempos, passando pelo dodecafonismo ou mesmo ao ponto de fazer música com panelas de pressão e outros utensílios domésticos?

Mas temos ainda uma outra possibilidade a respeito do que não existe: esta. Mais do que inútil, porque o que iremos ouvir nunca será o resto da sinfonia que Schubert nunca chegou a concluir, trata-se ainda de um exercício que retirará aos dois existentes andamentos da sinfonia, a sua misteriosa identidade resultante da sua incompletude. Sucede com a Sinfonia Incompleta de Schubert o mesmo que com as melancólicas beleza das ruínas ou de uma igreja inacabada. Ainda bem que a natureza, a estupidez humana ou a inclemência do tempo pouparam tantos dos que são hoje alguns dos mais belos e interessantes monumentos. Mas também foi a natureza, a estupidez humana ou a inclemência do tempo que esculpiram o que viria a ser a definitiva identidade de muitos lugares. Imaginemos a abadia de S. Galgano, em Itália, inteira. Fosse esse o caso e jamais Andrei Tarkovski a teria escolhido para o seu filme «Nostalgia». E pensemos como deixaríamos de ver Isabel Archer a atravessar as ruínas de Roma, tal como Henry James a imaginou, no caso de a cidade ter sido preservada até hoje. Ou no quadro de Caspar David Friederich se em vez de um vestígio de abadia tivéssemos a abadia propriamente dita.

Os despojos da história são tão património como o que a história nos legou por inteiro. Tentar completar o que incompleto ficou, para além, do seu evidente artificialismo, significa rasgar uma identidade que acabaria por se cristalizar. A Vénus de Milo não foi feita para existir sem os braços, como uma mulher nascida com uma anormalidade genética. Mas colocar, hoje, o que terão sido originalmente os seus dois braços, seria também marcá-la com uma outra anormalidade genética porque é sem os seus dois braços que o tempo haveria de esculpi-la. O mesmo se passa com a Sinfonia Incompleta do genial compositor austríaco que, com a sua morte aos 31 anos, terá como maior obra o que nunca chegou a compor e, por isso, nunca chegaremos a ouvir. 

03 fevereiro, 2019



Aconteceu-me há dias uma coisa deveras estranha: estou a tomar banho, olho por acaso para o ralo do poliban e vejo uma rosácea gótica. Ou estou a ficar tão esteta, tão esteta, tão esteta, que até já consigo ver uma rosácea gótica no ralo do poliban, ou então estou a ficar tão abstruso, tão abstruso, tão abstruso, que até já consigo ver uma rosácea gótica no ralo do poliban. Admito serem ambas algo preocupantes. Seja como for, verdadeiramente preocupante, e não apenas algo preocupante, será um dia estar a olhar para uma rosácea gótica e ver o ralo de um poliban.


25 janeiro, 2019




           And all you touch and all you see
Is all your life will ever be

                                                                              Pink Floyd, Dark Side of the Moon

23 janeiro, 2019


Errar é mais coisa da vontade do que do entendimento. Uma pessoa não erra por pensar que 8x7 são 54, que a capital da Costa do Marfim é Kampala ou que a tomada da Bastilha ocorreu no dia 14 de Junho de 1789. Erra, sim, só quando decide aceitar (acreditar) isso como verdadeiro. É assim um bocadinho como o facto de que pensar em assaltar uma loja não faz da pessoa um ladrão, e de não se ser assassino só por pensar em matar alguém. Portanto, erramos, não por pensar o que pensamos, ainda que seja falso, mas por decidir o que decidimos. Ora, como temos de passar a vida a tomar decisões, a vontade acaba por nos forçar a errar mais vezes do que gostaríamos. Há, todavia, uma possibilidade de tal não acontecer: não agir, não fazer, não ir, não desejar, enfim, não querer, isto é, deixarmos de estar dependentes da nossa frágil vontade. Também se tivermos dor num braço, uma boa maneira de deixarmos de a ter e até mesmo de não voltarmos a tê-la, é cortar o braço. Fica o assunto arrumado. Com a decapitação da vontade passa-se o mesmo. Há exemplos históricos disso: eremitas, anacoretas, estilitas, monges e freiras que se recolhem nas suas celas, fazendo muitas vezes voto do silêncio. O mundo fica lá fora enquanto eles ficam resguardadinhos dentro de si mesmos. Mas podemos estar perante algo paradoxal: deixa-se de viver para não errar mas deixar de viver será provavelmente o erro supremo, o maior de todos os erros. A pessoa sente-se protegida do erro mas é ao sentir-se protegida dele que acaba por ficar mais exposta a ele. Não agir é também um modo de agir, não querer, um modo de querer, não desejar, um modo de desejar. E mesmo não ir é um modo de ir para onde se vai ficar, não existindo no mundo não-lugares onde nos possamos tornar não-pessoas. Daí, em suma, ser preferível assumirmos o erro por nossa conta e risco. É que enquanto o pau vai e vem folgam as costas. 



22 janeiro, 2019


Gente velha, ou perto disso, como é o meu caso, costuma dizer, com laivos de sapiência tardia, que seria bom voltar a ser jovem mas sabendo o que se sabe hoje. O que não passa de uma melancólica ilusão. É verdade que confiamos mais no que sabemos hoje por oposição ao que não sabíamos antes. Mas nunca pensamos no que não sabemos hoje mas que viríamos um dia a saber, se vivêssemos mais. Se vivêssemos duzentos anos, passaríamos a ser agora tão ingénuos como já fomos, embora acreditando que já deixámos de o ser. Quanto mais se vive mais há para saber e, sendo assim, menos se sabe, e sem se poder saber o que não se sabe. É verdade que se soubesse o que se vem a saber depois, há erros que seriam evitados. Mas se chegássemos aos duzentos anos, não iríamos evitar os outros erros que iríamos na mesma cometer. Os erros partem sempre à nossa frente e nós, pobres tartarugas, nunca os conseguimos apanhar.


19 janeiro, 2019


Dizia Camus, no Mito de Sísifo, que o único problema verdadeiramente filosófico é o suicídio: saber se a vida vale ou não a pena ser vivida. Isto de filósofos reflectirem e falarem sobre o suicídio faz-me lembrar aquela piada de Unamuno  a respeito da dúvida cartesiana, chamando-lhe "dúvida de estufa", aquela dúvida de quem, com o seu roupão vestido, está confortavelmente sentado em frente à lareira. Com o suicídio passa-se o mesmo. Vários filósofos não varreram o problema para debaixo do tapete, tendo a coragem de lhe fazer umas festinhas com a pena. Mas outra coisa será, como um náufrago em desespero, mas ao contrário, agarrá-lo pelo pescoço para se prender a ele e deixar-se levar por ele rumo ao nada. Esse, sim, ou quem já esteve agarrado a ele ainda que sem se deixar levar por ele, percebe de suicídio e a sua resposta não poderia ser mais firme e inequívoca. Tudo o resto não passa de tagarelice filosófica. 


16 janeiro, 2019

HÁ MACHADO QUE CORTE A RAIZ AO PENSAMENTO?


Não. Está, pois, certa a canção. O pensamento nem sequer tem raízes, sendo também por isso que, ao contrário das árvores se movimenta livremente, dando bons frutos ali ou acolá. O pensamento é como o vento para o qual também não há morte: sopra livre sem sabermos muito bem de onde vem e para aonde vai. Claro que existem machados que podem ameaçar, chocar, ferir ou mesmo decepar o pensamento. É o que não falta na história. E um machado, ao contrário, das facas de dois gumes, só tem um gume e, por muito polido que se apresente, é sempre para o pior e mais sinistro lado que aponta. Mas, depois o pensamento volta a renascer pois é essa a natureza de quem nasceu para pensar e que o faz com a mesma naturalidade com que respira.

O que acontece muitas vezes é já não apetecer pensar, estar cansado de pensar ou não se saber muito bem o que pensar, parecendo que os pensamentos se gastaram, sendo o discurso do ódio, do ressentimento, do medo ou das pulsões mais tribais, o que mais segurança dá e melhor responde às nossas necessidades mais imediatas. E quando não apetece pensar, basta um sim, um não, uma linha recta. Não é preciso mais nada. E, claro muitos machados para ir cortando o excesso de vegetação que só serve para atrapalhar, não se descansando enquanto o processo de desflorestação não estiver acabado.

Mas, cá está. Do mesmo modo que somos máquinas desejantes, somos também máquinas que pensam. Depois de grandes machadadas há sempre um regresso à normalidade, quando se percebe o inferno que é viver num deserto sem árvores de fruto no qual a vida se resume aos aspectos mais primários da existência, rebaixando-nos ao nível dos animais. Seja como for, um machado será sempre um instrumento perigoso, devendo ser levado a sério. Daí que o melhor mesmo seja ignorá-lo o mais possível mas não esquecendo nunca as razões de quem sente vontade de brincar com ele. Se é verdade que o pensamento faz parte da nossa natureza, a atracção pelo abismo do deserto não faz menos e, por vezes, está mesmo ao virar da esquina.

14 janeiro, 2019


Não sei se por alteração dos níveis de serotonina ou dopamina, tenho momentos na vida em que caio num certo pessimismo face à natureza humana. Mas também é verdade que a realidade é generosa e muitas vezes me dá um enorme contributo para o combater. É o caso de situações como esta ou esta. De facto, quando um treinador de uma equipa de infantis de futsal da Póvoa de Santa Iria agride uma jovem árbitra, ou quando adeptos de Beja e de Massamá se põem à pancada durante um jogo de futebol de iniciados, isso mostra que mesmo nas situações mais comuns da existência humana podemos sentir que está em jogo a coisa mais importante da nossa vida e pela qual matamos ou morremos. Não, não é preciso ser jogador do Real Madrid ou treinador do Liverpool numa final da Liga dos Campeões, estar numa final de uns Jogos Olímpicos, de um mundial de natação ou no court de Wimbledon ou Roland Garros para nos sentirmos as pessoas mais importantes do mundo a disputar o troféu mais importante do mundo. Nem ser herói porque morremos numa batalha onde defendemos a liberdade da tirania e do despotismo ou porque arriscamos a vida a salvar uma criança de uma casa em chamas. Nada disso. Qualquer um de nós é a pessoa mais importante do mundo e seja lá o que fazemos será sempre a coisa mais importante do mundo, nem que se trate de um jogo de infantis de futsal ou de iniciados de futebol entre clubes de bairro. Ora, se isto não é deveras animador e grande motivo de esperança e entusiasmo para toda a humanidade, então nada saberei sobre o que o possa ser, voltando assim a ficar refém das caprichosas movimentações dos meus níveis de serotonina e dopamina, condenado a acordar de manhã céptico face ao que a natureza humana continuará a ter para nos dar.



13 janeiro, 2019



Entendo o fascínio aqui expresso por se beber um vinho feito quando Napoleão ainda era vivo. Admito mesmo um fascínio maior do que o de Roland Barthes em A Câmara Clara, perante uma fotografia, de 1852, do irmão mais novo de Napoleão, ao ver os olhos que viram o próprio imperador. Mas um fascínio que, como todo o fascínio, não passa de uma ilusão e mistificação. Jaime Vaz esquece-se do tempo, esse siamês irmão da morte que, implacável, tudo destrói e a nada perdoa, mesmo que se trate de um vinho adormecido numa escura garrafa no interior de uma escura garrafeira há duzentos anos. Perguntava Heraclito, no fragmento 16, «Quem poderá esconder-se do fogo, que não dorme? O vinho pode ter sido feito com Napoleão ainda vivo mas o vinho que se irá beber hoje é o vinho feito com Napoleão ainda vivo mais duzentos anos em cima dele, fazendo com que já não seja o vinho feito com Napoleão ainda vivo mas com um Napoleão já morto há duzentos anos. E o tempo é como o fogo: o seu calor tanto gera, traz as coisas à vida, como destrói, retirando depois a vida que lhes deu. O vinho do tempo de Napoleão que vamos beber hoje é como o rio de Heraclito: cada vez que entramos nele, já serão outras as águas que correm por ele. 



02 janeiro, 2019

DOIS MIL E DEZANOVES

Ficou célebre e causou polémica aquela frase da senhora Thatcher em que nega a existência da sociedade, pois só os indivíduos existem. A frase em si nada tem que justifique tamanha celebridade. Trata-se de uma vexata quaestio que já vem dos gregos, que depois vem animar bastante as universidades medievais (o romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa, passa por aí) e que ainda faz parte do cardápio filosófico contemporâneo. 

Já a polémica fará mais sentido devido ao veneno político e ideológico que da frase emana. Mas dá para entender a ideia, a qual consiste em duvidar que o todo existe anteriormente às suas partes, sendo apenas estas consideradas reais. Ora, levar a frase a sério, impede, por exemplo, um professor dizer, numa aula, que a turma não existe mas apenas 30 alunos à sua frente, que não existe uma equipa chamada Benfica mas 11 jogadores ou que os próprios Beatles nunca existiram, apenas quatro músicos chamados McCartney, Lennon, Harrison e Ringo. Percebe-se assim que levar a frase a sério trará problemas à nossa habitual forma de pensar e perceber a realidade com que lidamos diariamente. Onde já me parece haver alguma razão para a desconfiança thatcheriana face à abstracção do todo, é quando no final de cada ano se deseja um "bom ano". Ora, se há coisa que não tem qualquer significado é precisamente um "bom ano". A parte boa é que um "mau ano" também não. 

Um ano tem 365 dias. Pois, é muito dia. Como pode assim haver um bom ou mau ano? Pode-se ter um bom ou mau dia ou mesmo, vá, uma boa ou má semana. Já um mês bom ou mau é coisa difícil de conceber mas é quando se chega ao bom ou mau ano que os circuitos entopem. Vejamos uma pessoa que esteve desempregada durante bastante tempo e que em Janeiro de 2019 consegue um emprego a ganhar muito bem e com o qual se sentirá bastante realizada profissionalmente. Depois, fará montes de coisas ao  longo do ano que lhe darão imenso prazer. Só que no dia 20 de Dezembro é gravemente atropelada por um tipo todo contente a falar ao telemóvel, morrendo depois de três dias de grande sofrimento. Questão: 2019 foi um bom ou mau para esta pessoa? Sim, fez muita coisa boa durante o ano, mas pode-se considerar "bom ano" aquele em que a pessoa morreu, considerando que morrer não é propriamente uma coisa agradável, sobretudo quando se desejaria continuar a viver por muitos mais e bons anos? E o mesmo é válido para o contrário: uma pessoa que andou grande parte do ano aos caídos mas que em Novembro ganha o Euromilhões, graças ao qual passará a fazer montes de coisas que lhe darão imenso prazer e que passado uma semana tem a bater-lhe à porta 874 candidatos a serem o homem ou a mulher da sua vida. De novo a questão: esta pessoa teve um bom ou mau 2019?

Claro que o ano existe enquanto realidade astronómica. Só que, como muito bem sabe Don Fabricio, astrónomo amador em O Leopardo, os ciclos astronómicos pouco têm que ver com a espuma dos 365 dias que preenchem o nosso bem terreno calendário. A espuma que se forma na areia quando a onda morre já entretanto desapareceu quando chega a segunda onda. Isso, sim, é a realidade, a realidade dos dias bons e maus ou do próprio dia que pode ter momentos bons ou maus. Daí que, de certeza absoluta, venhamos a ter vários 2019. O dos dias bons, o dos dias maus, o dos dias nem bons nem maus, e tudo isso devido às mais diversas razões. Ainda assim, dá para perceber a bondade de quem, por ser mais simples, deseja um bom ano aos outros. A mesma razão que me leva também a desejar um bom ano a quem passar por aqui.

31 dezembro, 2018


«Hoje todas as faltas são protegidas pelo modernismo que tudo admite quanto maior for a imperfeição e eu quero ser um homem do meu tempo.» Carta de Carlos Reis a Maria Adelaide Lima Cruz 21 julho de 1924.

«O mês passado, a mais recente escola de pintura era, como todos sabem, a dos ângulos curvistas. Foi isto em Abril, e como estamos nos fins de Maio, é de crer que a essa escola já se tenha seguido outra mais avançada. Apresentaram-se os novos inovadores no último «salão dos independentes» de Paris. Foi uma boa precaução terem aparecido em Paris, e não no Cartaxo ou no centro de África, do contrário ainda a esta hora não teríamos dado por êles.» Agostinho de Campos, Carlos Reis e as modas em pintura, 1925

«À considérer cette «manière», ce style preste et un peu hâtif, on se rend vite compte que M.P.R. Picasso veut tout voir, veut tout exprimer. Certes,  on imagine aisément que la journée n'est pas assez durable pour ce frenétique amant de la vie moderneGustave Coquiot, prefácio do catálogo da exposição de Picasso na Galeria Vollard, que decorreu entre os dias 25 de Junho e 14 de Julho de 1901.


Pronto, está bem, o pintor Carlos Reis não está virado para modernices, querendo ser um homem do seu tempo. Um homem do seu tempo? O que significa ser um homem do seu tempo? No primeiro quartel do século XIX já andava Goya entretido com as pinturas negras. Turner pintou Chuva, Vapor e Velocidade em 1844. A primeira exposição impressionista no estúdio de Nadar é em 1874. Ainda nesse século vemos a pintar, entre tantos outros, Cézanne, Seurat, Van Gogh, Munch, Ensor, Gauguin, Vallonton, Bonnard, Vuillard, Denis, Redon. Já no século XX, bem antes ainda da carta de Carlos Reis a Maria Adelaide, temos em plena actividade artística, entre tantos outros, Klimt, Schiele, Kokoschka, Malevitch, Kandinsky, Marc, Modigliani, Soutine, Bracque, Picasso, Kirchner, Corinth, Beckmann, Nolde, Dix, Grosz, Chagall, Ernst, Chirico, os Delaunay, Mondrian, Klee, Redon. Matisse, Feininger, Campendonk . Ah, o Urinol de Duchamp é de 1917 e o português Amadeo de Souza-Cardoso morre em 1918, alguns anos, portanto, da carta de Carlos Reis. Volto então a questionar o que significa ser Carlos Reis um homem do seu tempo. Porém, não sei responder. Ele, como Agostinho de Campos, pode digerir mal os ímpetos modernos e ser pouco atreito a modas. Mas querendo, teimosamente, ser um homem do seu tempo, acaba por ser de tempo nenhum.

Por outro lado, é impressionante, mesmo muito impressionante, a evolução de Picasso depois de chegar a Paris com 19 anos. Pensar que Les Demoiselles d'Avignon é de 1907 quando pouco antes, andava pelo período azuis e rosa e outras experimentações, não pode deixar de impressionar. Daí a ironia involuntária, pois só percebida a posteriori, nas palavras de Coquiot no catálogo da exposição, se pensarmos que em 1901 ainda está no começo de tudo, quando Picasso só mal começa a ser Picasso, esse "amante da vida moderna", sempre ansioso por ser outro dentro do mesmo.

Eis, pois, um conservador e um revolucionário, duas visões completamente distintas do relógio e do calendário: um pintando enquanto olha para o ponteiro das horas, outro a pintar freneticamente, levado pelo ritmo insaciável do ponteiro dos segundos. Um, desejando permanecer numa identidade vazia e pura, o tal "seu tempo", livre  da mácula da negação, da contradição, o outro olhando para a tela que acaba de pintar mas já pensando numa nova linguagem. Superação ou conservação, eis a questão. Há uma palavra alemã, "aufhebung", que tem um duplo e contraditório sentido: precisamente, superação e conservação. Assim como uma criança que deixa de o ser para se tornar adolescente, que depois também nega para ser adulto. Estados que são negados mas que farão sempre parte da identidade dessa pessoa. Podemos deixar de ser crianças mas a criança que fomos nunca deixará de fazer parte de nós.

Nós só temos mesmo que aceitar a história e o tempo, tal como aceitamos as leis da natureza. Temos de olhar para o futuro e o anjo da história não sabe voar noutra direcção pois é um vento forte aquele que o empurra. Porém, podemos desejar acelerar mais ou acelerar menos, conforme o projecto de cada um e respectiva visão do mundo. Agora, uma coisa é o ritmo individual de pintores como Carlos Reis ou Picasso, outra será o ritmo da história. A chave estará mesmo, muito provavelmente, na síntese entre os dois: conservação e superação. Saber avançar mas também saber cuidar de todo um património de valores, referências, materiais ou imateriais, que outros nos deixaram. Que Carlos Reis e Picasso quisessem ser o que foram, isso foi lá com eles, e nenhum mal veio ao mundo por causa disso, antes pelo contrário. Mas uma sociedade imóvel e que despreza o progresso ou uma sociedade apenas virada para o futuro e que despreza o passado, são dois modelos de sociedade que apresentam perigos que devemos a todo o custo tentar evitar.


30 dezembro, 2018


A crença na imortalidade do homem explica-se por um narcisismozinho antropológico que faz com que ao contemplarmos o nosso reflexo na água, vejamos uma especial criatura lá bem no centro da criação e acima de todas as outras que nasceram sem alma, desde os vis insectos aos amados cães e gatos lá de casa. Estes nascem vivem e morrem, é assim e pronto, enquanto a nós, graças a uma criação à imagem e semelhança do criador, espera-nos um especial destino após a morte. Isto, na religião. Na filosofia desde cedo que se segue essa linha mas com variações e explicações mais sofisticadas. Seja como for, nenhuma escapa a esse narcisismo. E bem podem vir com a conversa de que somos pó e ao pó havemos de voltar pois isso nada mais é do que nos atirarem pó para os olhos, pois há sempre a porta da salvação para quem nela quiser entrar, certamente mais desempoeirado.

Mas não é apenas na crença na imortalidade que se manifesta esse narcisismo. O facto de darmos individualmente excessiva importância à nossa morte é farinha do mesmo saco, ainda que para outro pão. Claro que faz sentido pensar na nossa própria morte pela radical importância que tem nas nossas vidas, ou agir de maneira a evitá-la. Porém, pensar demasiado na sua própria morte ou sentir um excessivo medo de morrer, recusando aceitar tranquilamente esse inevitável destino, não passa de uma espécie de contínua "selfie existencial". Quem passa o seu tempo a auto-fotografar-se revela uma necessidade mórbida de impor a sua existência, virando-se doentiamente para si próprio em vez de o fazer para o mundo ou para os outros. Ora, quem teima em não aceitar a sua morte também não admite a sua saída de cena, estando em negação relativamente à ideia de não ser mais importante do que os que que já morreram e dos que irão morrer, e de não passar de alguém que por acaso nasceu e cuja morte o espera desde esse dia. Não se trata de instinto de sobrevivência ou de conservar o seu ser. É o narcisismo de quem não aceita deixar de ver a sua imagem reflectida no espelho, tal como a outros custa largar o telemóvel sempre virado para si pois isso os faz desaparecer.



28 dezembro, 2018

O TÚNEL


Calhou encontrar uma rapariga do meu tempo, uma daquelas pessoas que se vêem de dez em dez anos ou mais, por mero acaso na rua, durante esta época natalícia. O grande clássico nestes encontros, após despachar as secções do trabalho e dos filhos, é a maléfica passagem do tempo sobre as nossas envelhecidas pessoas, distribuindo-se as maleitas por ambos os interlocutores: a tendinite que dá uma dor de morrer quando se estica o braço, o problema no joelho, o raio das costas que não deixam ter posição, os pés sempre frios a pedirem o saquinho de água quente na cama, subir ladeiras ser o cabo dos trabalhos, a memória que já não é a mesma, o ouvido que, não tarda, está a pedir o aparelho que sempre associámos aos avós, enfim, a qualidade do sono que já teve dias bem melhores. Concluiu ela então, com um irónico suspiro e o amarelo sorriso do derrotado, que a velhice só traz coisas más. Eu, com autoridade filosófica, neguei, lembrando uma qualidade que só a idade pode trazer: a sabedoria! Os olhos dela animaram e a boca rasgou um sorriso em que o amarelo deu lugar a uma cor sadia: «-Sim, verdade, a sabedoria!». 

O que eu não quis explicar é o que significa essa sabedoria. Se fui eu a acender a luz no fundo do túnel, também não iria ser eu a apagá-la, ainda para mais depois de ver aquele sorriso iluminado por ela.



27 dezembro, 2018

-Mais cedo ou mais tarde nós vamos organizar a vida de modo que não haja pobres, mas...
-Não haverá pobres? Eu mesma pensei nisso. Mas não consigo imaginar como. 
                                                                                             Nikolai Tchernichévski, "O Que Fazer?"

Uma das vantagens de um romance face a um livro de história é a possibilidade de entrarmos na consciência de uma pessoa que nos livros de história aparece diluída em abstracções como o "Homem do Renascimento", a "França do século das Luzes", o "Revolucionário russo do século XIX". Aproveito então esta gentil oferta do escritor russo, que nos dá numa bandeja a consciência de Vera Pavlovna, uma jovem idealista que cresceu na Rússia do século XIX, face à erradicação da pobreza.

Na sua frase, convém reparar na diferença entre pensar e imaginar. Nós associamos "imaginar" a um exercício livre de constrangimentos técnicos ou racionais, enquanto o acto de "pensar" surge habitualmente ligado a exercícios mentais mais criteriosos e exigentes. Quando Vera Pavlovna assume já ter pensado na possibilidade de um mundo sem pobres mas sem conseguir imaginar como, inverte estes sentidos. Quer dizer, pensar nisso é fácil, aliás, podemos pensar o que quisermos. O problema é saber como concretizá-lo, "vendo" esse mundo e não apenas "pensá-lo", o que leva a jovem a embater numa enorme e espessa parede que não deixa ver o que pode estar para lá dela. Acontece que a sua dificuldade não é propriamente científica e técnica mas muito mais do que isso: uma limitação imposta por um paradigma moral e social. Ela não consegue perceber como pode isso ser feito porque vive num mundo, a de um certo modo ainda medieval Rússia do século XIX, onde a pobreza é vista como sendo tão natural como as estações do ano e onde os seres humanos surgem com diferentes níveis de direitos e dignidade. Ela percebe a bondade e elevação da sua ideia mas sente-se tão impotente como alguém que em pleno Inverno russo desejasse acordar com um céu azul e um calor primaveril numa paisagem cheia de flores e passarinhos chilreando, tornando-a, assim, de certo modo, utópica. 

Daí que dizer esta frase na Rússia do século XIX nunca será o mesmo que dizê-la num país europeu em pleno século XXI. Porque, entretanto, o paradigma é outro. Continuam a existir as estações do ano, as leis da Física são as de sempre mas não existe um determinismo social que imponha a existência de pobres, sendo esta cada vez mais vista como uma anormalidade, uma excrescência social, algo que existe mas que faz cada vez menos sentido existir. Daí que imaginar um mundo sem pobres, surja hoje como problema científico e técnico, que, ao contrário do que acontece no mundo de Vera Pavlovna, permite um maior optimismo e esperança, tal como acontece na saúde face a uma nova vacina ou medicamento que visam combater uma doença. Claro que não podemos esquecer toda a discussão ideológica à volta do problema da redistribuição da riqueza e da maior ou menor legitimidade da desigualdade social. Enquanto se continuar a achar normal que um CEO ganhe escandalosamente mais do que o operário ou o funcionário que são parte do sucesso de uma empresa (muito raramente pelo insucesso), a discussão irá continuar, contaminando assim também a parte científica e técnica das soluções. Mas haverá, hoje, sem dúvida, um terreno partilhado por esquerda e direita sobre  o que se considera ser um nível mínimo de decência, o qual tende gradualmente a subir por força de uma evolução moral e social. É esse mundo que vemos há décadas e é esse mundo que a Europa deve continuar a ver, o tal mundo que o muro impediu Vera Pavlovna de ver.
                                                                             

23 dezembro, 2018


Pelo facto de já me ter aqui motivado umas linhas, poderia ser levado a dizer que ando a perseguir este quadro de Jan Bruegel, o Velho. Creio, porém, que pela força das circunstâncias, será mais ele a perseguir-me do que eu a persegui-lo, até porque é do pai que sou devoto e não do filho. Mas como um espírito maligno que nos assola durante a noite, foi de novo este quadro que emergiu na minha perturbada mente após este artigo no El País de hoje, e que bem pode casar com este (acesso restrito) artigo de Pedro Santos Guerreiro no Expresso de ontem. O artigo do diário espanhol não esquece a crise das ideologias clássicas e dos partidos tradicionais que, apesar de em campos opostos, estiveram na base da construção europeia, mas centra-se sobretudo na ausência de um discurso intelectualmente esclarecido no espaço público, enfraquecendo cada vez mais vez mais a figura do intelectual como fazedor de opinião. Como é dito no artigo, quem não concorda nada com a ideia de uma demissão dos intelectuais enquanto intervenientes no espaço público, é Michela Murgia.

Tem razão. E o problema passa principalmente pela crise da imprensa tradicional mas também, e admito que tempos atrás não me passaria pela cabeça dizer tal coisa, da televisão enquanto principal meio de comunicação de massas. Que o povo sempre foi bronco e ignorante, sabe-se desde Platão e muitos séculos depois mostra-o de uma forma eloquente Shakespeare na sua peça Júlio César. A crise da inteligência, do pensamento, do conhecimento não está no povo que há-de ser sempre o que foi. O problema está no suicídio social das classes médias que em tempos, e para além do dinheiro, claro, via a inteligência, o pensamento e o conhecimento como meio de promoção social, resolveu descer ao níveis primários da estupidez popular, chafurdando, quase em exclusivo, no Facebook, no Twitter, no WhatsApp, nas caixas de comentários dos jornais on line ou nos vídeos do Youtube. E, quando assim é, quando os partidos tradicionais, ainda que com todos os seus defeitos e pecadilhos, perdem a sua voz, quando a academia perde a sua voz, quando os jornais perdem a sua voz e baixa-se o som da televisão para não incomodar, então resta-nos apenas rezar para que os protagonistas do quadro do Bruegel filho, com a sua espontaneidade social, não façam estragos de maior na sala onde ainda se mantêm alguns traços de um mundo civilizado e ordeiro para ficarem apenas circunscritos à rua. Rua essa, é bom lembrar, que sempre existiu mas guiada por gente com livros debaixo do braço lidos nos cafés europeus, entretanto substituídos por espaços cuja música nem deixa conversar ou onde o telemóvel se tornou a ponte privilegiada entre o espírito e a realidade.

20 dezembro, 2018


Afinal, o que pode ou não ser considerado utópico? Não é assim tão óbvio. Há coisas que já terão sido consideradas impossíveis de realizar mas que graças à evolução moral da humanidade, tecnologia ou mesmo certos acidentes históricos, se tornaram realidade. Mesmo hoje haverá algumas que julgaremos impossíveis mas que o futuro mostrará não o serem. Ora, se assim é, é porque foram erradamente consideradas utópicas, uma vez que utópico é o que por natureza não é realizável.

Para termos a certeza do que é verdadeiramente utópico em vez de aparentemente utópico, podemos jogar pelo seguro, saindo da realidade empírica, feita de mudança e com o poder de tornar verdadeiro o que já foi falso e falso o que já foi verdadeiro, para um plano meramente lógico. Sendo assim, podemos ter a mais absoluta certeza de que é impossível ser ao mesmo tempo casado e solteiro ou simultaneamente verdadeiro e falso a proposição "O João está sentado nesta cadeira". Só que isto não resolve o problema pois a ideia de utopia remete para um contexto de impossibilidade social e política e não de impossibilidade lógica. Sendo assim, haverá mesmo alguma coisa de cujo carácter utópico podemos ter a certeza? Há. Isto, se previrmos o futuro, tomando como pressuposto a concepção de natureza humana que conhecemos do passado e do presente.

Consideremos, por exemplo, as ideias de "liberdade" e de "igualdade". É verdade que hoje encontramos nos países mais avançados, um maior nível de liberdade e igualdade do que no tempo da Revolução Francesa. Mas se pensarmos, algo romanticamente, numa sociedade em que a liberdade e a igualdade são assumidas de um modo absoluto, a natureza humana obriga-nos a deduzir a impossibilidade da sua concretização. Podemos conseguir uma igualdade absoluta, sim, mas sacrificando a liberdade, a qual, se fosse absoluta, iria sacrificar a igualdade. O mesmo se passa, invocando Maquiavel, numa sociedade em que a piedade cristã esteja em perfeita harmonia com uma concepção racional de justiça. Como fazer justiça perdoando o assassino ou o violador? E como ser piedoso com ele se quisermos fazer justiça, tomando em consideração o acto que praticou? Não estou a pensar nas diferentes posições do juiz e do sacerdote, as quais, podem, de facto, ser contraditórias, atendendo aos seus diferentes papéis, um social e político e o outro religioso. Estou a pensar, sim, num modelo político-jurídico que assuma ao mesmo tempo as duas dimensões. Em suma, existem incompatibilidades lógicas mas também incompatibilidades sociais e políticas, devendo ser estas e apenas estas, classificadas como utópicas. Tudo o resto é humanamente possível, para o bem e para o mal, convém acrescentar.

19 dezembro, 2018


Engraçado como dois quadros podem explorar o mesmo sentido apesar de duas lógicas visuais opostas. Refiro-me a dois quadros de Bruegel: uma das suas torres de Babel (a de Viena) e a Queda de Ícaro, que está em Bruxelas. A oposição consiste no modo como o pintor inverte a relação entre a visão central e a visão periférica nos dois quadros no que toca aos respectivos motivos centrais, sem que isso belisque a sua unidade conceptual e moral. Vejamos a torre. 



O seu efeito visual é de tal modo esmagador, que passa despercebido o facto de se erguer no meio de uma cidade. A cidade está lá, e até bem visível, mas o poder centrípeto da torre puxa coercivamente o nosso olhar como se nada mais existisse em seu redor. Isso é conseguido de duas maneiras: pelo próprio poder intrínseco da torre mas ainda pelo modo como pinta a cidade. Olhando em pormenor (aumentar aqui), reparamos que apesar dos contornos precisos das primeiras casas, é muito vagamente, de um modo quase impressionista, que a cidade ali surge, ao contrário da torre, onde percebemos diversos e ínfimos pormenores cuja precisão permite uma visão realista, dir-se-ia hoje, fotográfica. 

Espreitemos agora A Queda de Ícaro:



Ícaro? Onde está Ícaro? Este quadro mais parece uma bem humorada versão renascentista de "Onde está Wally?". Um quadro cujo centro, como o título indica, é a história do malogrado filho de Dédalo que quis chegar ao Sol, mas sendo precisa alguma atenção para o descobrir. Em primeiríssimo plano o que vemos é um homem a lavrar e, mais adiante, um outro guardando o seu rebanho, enquanto no mar navegam barcos na sua actividade comercial ou piscatória. Reina aqui uma absoluta tranquilidade que quase permite ouvir o som dos passarinhos misturado com o relaxante das ondas do mar. Ora, são precisamente estes homens que vivem nas casas anuladas pela torre de Babel. Quem vive naquelas casas são os homens e as mulheres humildes dos quadros de Bruegel, todos aqueles que vemos num bailarico, numa boda de casamento, a vir da caça, a trabalhar no campo ao longo das quatro estações do ano, a comer ou a dormir a sesta no intervalo de um dia de trabalho. Homens e mulheres que não se vêem dentro das suas casas enquanto a torre sobe rumo ao céu e que surgem em plena actividade quotidiana no momento em que Ícaro acaba de cair na água.

Em ambos os quadros temos uma subida e uma queda, o contraste entre uma ideia ambiciosa e a sua ruína. E, imune a esse duplo movimento, as pessoas nas suas vidas normais, discretas, sem megalomanias, vivendo em harmonia com as mais razoáveis possibilidades da natureza humana. Neste sentido, ambos os quadros poderão apresentar, para além do seu histórico fundo religioso e moral, concentrado na apologia de uma aurea mediocritas, uma leitura política que remete para a velha e sábia expressão popular "Quanto maior for a subida, maior será a queda". E que, por contraste, nos pode levar a pensar nos trabalhadores do segundo quadro, com o Sol a desaparecer no fio do horizonte, regressando às casas do primeiro quadro. Nada me diz que a cidade que se vê mais ao fundo no segundo quadro não seja a mesma do primeiro, vista noutra perspectiva. Com a torre, entretanto, já desaparecida, ao contrário das casas, que por lá continuam, embora antes passassem despercebidas perante o poder esmagador daquela.
  

18 dezembro, 2018


Enquanto trabalhava o busto de Luís XIV, Bernini confessou que «o segredo nos retratos é exagerar o que é belo, acrescentar um pouco de esplendor, reduzir o que é feio ou insignificante, ou até suprimi-lo quando for possível». Eis o Photoshop avant la lettre. Ora, quando um escultor como Bernini diz uma coisa destas está a pensar em pessoas como o rei de França e assim, cuja verdadeira natureza fica dissimulada na pedra. Pela primeira vez na história, passámos a ter o povo, que sempre foi feio e rude, igualmente deslumbrado com a sua imagem no espelho virtual, ombreando com os senhores de outrora. Já não existem Berninis com o seu virtuosismo artístico. Mas podem fazer-se milagres com um rato na mão. 

17 dezembro, 2018


No Fausto, pelo menos no de Goethe, o único que conheço, quando Mefistófeles tira Fausto do seu mundo de escolásticos alfarrábios para levá-lo a ver o mundo, começa, sintomaticamente, por uma taberna. A origem da história é pós-medieval e hoje já não faria sentido levá-lo para esse tipo de lugares, cujo ambiente descrito na obra não é difícil imaginar. Hoje, Mefistófeles nem sequer precisaria de fazer Fausto sair de casa para fazer a sua iniciação pelo lado mais sórdido da natureza humana e da mundaneidade. Bastar-lhe-ia pegar num computador e ligá-lo à Internet.


15 dezembro, 2018





Tive a sorte de ter uma professora primária bastante religiosa, que nos contava histórias bíblicas em vez das injecções de cidadania que hoje os professores são obrigados a dar às crianças no seu papel de enfermeiros republicanos. Isso permitiu-me, não tendo eu qualquer contacto pessoal com a religião durante os meus primeiros anos de vida, perceber facilmente o assunto deste quadro quando vi pela primeira vez a sua reprodução: a torre de Babel. Situação impossível hoje, em que até a própria catequese serve para ver filmes cuja edificação moral não ponho, todavia, em causa. Talvez influenciado pela moral da história, associada à poderosa intervenção divina para punir o orgulho e ambição dos homens, lembro-me de ter ficado com a ideia de estar perante a representação de uma ruína, de um desolador cenário de abandono e destruição. Só muitos anos depois, já adulto, lendo sobre ele e vendo a imagem com atenção, percebi tratar-se da construção da torre e não da sua destruição. 

Para além de enorme cronista visual da sua época, Bruegel é um dos mais intelectualmente engenhosos e subtis pintores de todos os tempos. Escondidos no meio da esmagadora beleza de alguns dos seus quadros, tanto podemos encontrar desafiantes enigmas como piscadelas de olho para  duplas leituras, dando espaço para renovadas interpretações. Não faço ideia se, nesta sua torre de Babel do Kunsthistorisches de Viena (existe uma outra em Roterdão) o pintor faz questão de jogar com essa ambiguidade. Objectivamente, o que aqui vemos é a construção da torre e se nos aproximarmos para observarmos todos os seus pormenores não restam quaisquer dúvidas. Mas se nos afastarmos, e afastarmos ainda mais até ficarmos com uma mera gestalt da imagem, o que vemos é essencialmente uma ruína. Este movimento de aproximação e afastamento coloca-nos na posição de seres bicéfalos que conseguem ver uma coisa e a sua contrária, neste caso, construção e destruição, fazendo da contradição elemento essencial da sua identidade. Apesar da bíblica moral desta história, não vejo este quadro como sendo propriamente uma vanitas. Ou melhor, também o é, sim, só que, para além de divergir da canónica representação da vanitas, vai para além dela. Enquanto na vanitas tradicional o presente e o futuro surgem através de elementos distintos que chocam entre si, nesta torre, vemos o começo e o fim concentrados num mesmo plano. Sem ser preciso mexer os olhos, bastando apenas fazer zoom in e zoom out, descobrimos duas torres completamente distintas, percebendo que no seu começo está já escrito o seu fim.

Nós vivemos no espaço e no tempo, somos sempre um «ser aí». Como diria Hegel, um conhecido filósofo alemão do século XIX, entretanto esquecido, isso faz-nos cair na tentação de uma visão unilateral da realidade, um pouco como acontece com os cavalos que, por causa das palas, só conseguem ver o que está diante dos seus olhos, sem qualquer ligação ao que se encontra à sua esquerda ou à sua direita. Acontece que montante só existe em função de jusante e jusante em função de montante. Quem olha para o pequeno fio de água que sai da nascente não vê o enorme oceano, quem olha para a imensidão do oceano já não consegue conceber o que começou por ser um fio de água. É normal que assim seja. Mas o que Bruegel mostra com a sua torre, ou melhor, o que eu, livremente ou mesmo abusivamente, perante o quadro, faço Bruegel querer mostrar com a sua torre, é que isso pode ser perigoso. E fá-lo, evitando aquele fácil e demasiado didáctico movimento diacrónico entre o antes da mulher jovem e bela com as suas jóias, e a sua decrepitude, ou o antes dos frutos frescos com as suas folhas viçosas e o seu posterior amarelecimento e apodrecimento. Fá-lo, sim, mas colocando não só a vanitas num plano histórico-político, mostrando o ambicioso rei (para quem, segundo o historiador romano Flávio Josefo, «a única maneira de afastar os homens do temor de Deus, era torná-los dependentes do seu próprio poder» contemplando a sua obra enquanto alguns se ajoelham perante ele, como também, obrigar a ver no empolgante começo de um grandioso projecto a triste e desoladora alvorada do seu próprio fim. Como diria o já citado Hegel, no seu célebre prefácio da sua Fenomenologia do Espírito, o verdadeiro não é o aqui e agora, o verdadeiro não é a memória do recente nem a expectativa do futuro próximo, «O verdadeiro é o todo», esse final crepúsculo sobrevoado pela Ave da Minerva que, com os seus olhos cheios de sabedora irá ver o que, para nós, na nossa cegueira de simples criaturas que nascem e morrem in illo tempore, não passa ainda de uma ignorante escuridão.





14 dezembro, 2018

BELLE DE JOUR


Entrar hoje na loja de um museu é participar numa experiência verdadeiramente pornográfica, sendo os actores as próprias obras que, numa espécie de vida dupla, saltam das hieráticas e institucionais paredes onde se encontram penduradas, para palcos hard-core como ímans para o frigorífico, copos, chapéus de chuva, caixas de óculos, chocolates, porta-chaves, tabuleiros, tolhas de papel ou tábuas de skate. Mas o mais insólito palco que me foi dado a ver até hoje foram lenços de assoar, sórdida fetichização que só consigo ver ultrapassada por rolos de papel higiénico com um clássico barroco ou impressionista. O que até pode fazer algum sentido se pensarmos nalgumas obras contemporâneas, permitindo uma perfeita harmonia com o sentido estético da obra mas também com o sentido performativo ou conceptual de muita arte contemporânea, tão idolatrada por uma daquelas obscuras minorias que lembra os espectadores dos cinemas porno de outrora, só que, neste caso, comprazendo-se numa orgulhosa clandestinidade feita de intelectualíssimas e esteticíssimas erecções. Ser, hoje, obra de arte, representando dignamente o seu papel num museu perto de si, está, sem dúvida, cada vez mais difícil. 


13 dezembro, 2018


Há dias, durante um teste, um aluno pergunta-me as horas e eu pergunto-lhe se já ouviu falar numa coisa chamada relógio. Já, mas lembrando-me que também já estamos no século XXI, pedindo-me se poderia consultar o telemóvel para ver as horas. Eu digo que não, invocando o Regulamento Interno da escola. Ganhei, ou melhor, o século XX ganhou ao século XXI. Mas uma vitória que não passa de um último cartucho numa batalha perdida. Irá chegar o dia em que um relógio num pulso será tão anacrónico como hoje alguém retirar um relógio do bolso preso a uma corrente. Ou um par de suspensórios. Ou uma navalha de barbear no lavatório da casa de banho. Ou uma combinação. Ou uns sapatinhos de dormir feitos de lã. Ou uma braseira numa mesa de camilha. Ou uma máquina de costura ou de escrever numa divisão da casa. Ou um candeeiro a petróleo. Ou tantas outras coisas que já fizeram parte do mais comum quotidiano e que não resistem a essa «tempestade chamada progresso», com «a sua catástrofe única, que acumula ruína sobre ruína, dispersa a nossos pés». A mais antiga prenda de Natal que me lembro de receber, e em que a alegria de a receber esteve em absoluta conformidade com o desejo de a receber, presumindo que por isso mesmo a terei recebido, foi um relógio. Na minha viagem de finalistas do liceu, no sul de Espanha, fomos um dia a Ceuta. O que nesse se passou na cabeça de muitos (não da minha, sempre fiel aos ponteiros) com grande excitação, foi poder comprar muito mais barato nessa cidade um relógio digital, que ainda era novidade e último grito da tecnologia. Não haverá hoje em Portugal uma única criança cujo maior desejo para o Natal seja receber um relógio ou um único jovem que se excite com a ideia de comprar um relógio mais barato numa qualquer exótica cidade. O século XXI ainda é jovem com os seus dezoito anos de idade. Mas no a relógios diz respeito, e para quem nasceu dentro dele, já atingiu a sua plena maioridade
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10 dezembro, 2018



Soube que os museus de Paris fecharam no sábado, incluindo, claro, o Louvre, onde se encontra pendurada a senhora Lisa há mais de 200 anos, actualmente, para gáudio de milhares de turistas, muitos dos quais lá vão só para poderem fotografá-la ou se auto-fotografarem com ela. Daí eu conseguir imaginar o seu ricto subtilmente alterado para as fotografias da praxe quando, no domingo de manhã, regressou à sua rotina diária, depois de 24 horas de absoluta paz e silêncio num dia em que não era suposto tal acontecer. Os turistas, esses, não devem ter dado por nada.

05 dezembro, 2018

Ninguém sai de casa com a intenção de se entregar à tristeza mas pode-se sair de casa com a clara intenção de se entregar à melancolia. A tristeza não se procura, evita-se, foge-se dela, havendo uma razão para se estar triste. Mas se virmos bem faz todo o sentido procurar, activamente, a melancolia. A melancolia não tem de ter uma causa o que faz toda a diferença face à tristeza, apesar de serem sentimentos vizinhos. A melancolia é uma espécie de tristeza mas uma tristeza evanescente, uma tristeza vaga e indolor, faltando-lhe a intensidade dramática da tristeza propriamente dita. Estar melancólico é um estar triste sem tristeza, daí a suavidade poder ser intencionalmente procurada, porque, sendo uma tristeza sem conteúdo, atenua o peso desta, tornando-se numa espécie de tristeza amiga quando não é possível estar alegre.

A melancolia, enquanto exercício espontâneo da alma, joga muitas vezes com uma esteticização da tristeza através de elementos exteriores: paisagens, ambientes, meteorologia, objectos, silêncios. Graças à transferência de um interior dorido para um exterior indutor de sensações agradáveis, é possível uma depuração e, consequentemente, um alívio da tristeza. Em vez de concentrada na sua própria dor, a alma humana sublima essa dor na paisagem, no nevoeiro, na chuva, nas luzes das casas ao anoitecer, nas folhas amarelas espalhadas pelo chão, no vazio do deserto ou de um mar infinito. E assim, o que antes era dor passa a ser vivido de um modo contemplativo, em que o sujeito triste passa a ser um espectador da sua tristeza exposta em diversos palcos do mundo. A alma continua triste mas passa a ver a tristeza do lado de fora. E o que antes eram chagas, lágrimas e esgares de dor transforma-se num sereno silêncio no qual já só vagamente se pressente os tristes dias passados. 

04 dezembro, 2018

O LENHO RETORCIDO

Enquanto almoçava no bar da escola, numa mesa ao lado, um grupo de alunos esteve durante vários minutos a cantar alegremente uma canção do Toy que eu pensava chamar-se "Toda a noite" mas cujo título, vim depois a saber, é "Coração não tem idade (vou beijar)". Não é propriamente dramático estar a almoçar enquanto um grupo de alunos canta aquilo. Todas as profissões têm os seus riscos e ser professor não é excepção. O problema é que desde então, como um vírus, a canção não me sai da cabeça, chegando mesmo ao ponto de dar por mim a assobiá-la enquanto arranjava duas romãs, esse fruto tão barroco e em cuja natureza nada remete para a canção maliciosamente instalada nos meus circuitos neuronais. Há muito que o tinha percebido mas graças a esta canção percebi também, por experiência própria, por que razão Thomas Morus projectou a sua utopia numa ilha. E por que razão, fossem os anabaptistas na cidade de Münster em 1534, os jacobinos franceses do século XVIII, os soviéticos ou nazis do século XX ou tantas outras experiências de carácter milenarista, todos eles tenham sentido necessidade de cortar não só com o passado mas também com tudo o que pudesse representar uma ameaça à sua pureza. O que, entretanto, a experiência do bar da minha escola me mostrou, é que o perigo maior não vem, afinal, de fora mas de dentro. Muita gente haverá a qual nem que passasse um dia inteiro a ouvir aquela canção, iria alguma vez assobiá-la ou ouvi-la mentalmente. Se foi o meu caso é porque há na minha natureza qualquer coisa que me faz assobiá-la ou ouvi-la mentalmente. Paciência. Não serei perfeito mas também há muito que a isso me habituei. Ao que não me habituaria seria a viver numa ilha, um pedaço de terra rodeado de água por todos os lados. Mas é para lá que os ditadores desejam enviar pessoas como eu. 

30 novembro, 2018


O principal motivo pelo qual a literatura se tornará cada vez mais irrelevante resulta da crescente irrelevância do que já foram três boas razões para ler. Ler já foi entretenimento quando ainda não havia televisão mas sobretudo televisão onde se pode ver tudo o que se quer e à hora que se quer, internet, telemóvel com as suas múltiplas e acessíveis funções ou meios de transporte que levassem as pessoas para fora da sua área de residência. Ler também já foi um meio de afirmação social. Não ter a sua bibliotecazinha com o cânone literário da época, não conhecer ou citar os autores certos poderia ser tão desprestigiante como não saber estar à mesa ou não ter bom gosto a vestir. Ler também já foi um meio para aprender, saber coisas, ficar mais culto graças aos conhecimentos obtidos através da leitura de um romance. Acontece que já nada disso faz sentido. Daí que explicar a alguém que deve ler por causa de um putativo benefício, seja como explicar a uma criança que deve comer brócolos em vez de vez batatas fritas por ser mais saudável. A única razão que pode levar uma pessoa a ler e gostar de ler é o próprio prazer da leitura, o prazer do texto, um prazer que se esgota em si próprio como o prazer de comer chocolate ou de nadar em água quente num dia frio.

Vejamos estes dois excertos, ambos de Proust.

«[O mar] Encanta-nos, como a música, que não traz em si, como a linguagem, vestígios das coisas, que nada nos diz dos homens, mas imita os movimentos das nossas almas. Erguendo-se com as vagas, caindo com elas, o nosso coração esquece as suas próprias fraquezas e consola-nos numa harmonia íntima entre a sua tristeza e a do mar, que confunde o seu destino e o das coisas.» Os Prazeres e os Dias


«Naquela manhã, no jardim das Tulherias, o sol adormeceu em todos e cada um dos degraus de pedra, como um adolescente louro cujo sono leve é logo interrompido pela passagem de uma sombra. Encostados ao velho palácio reverdescem rebentos novos. O sopro do vento encantado casa com o perfume do passado o odor fresco do lilás. As estátuas que nas nossas praças públicas nos assustam, como se fossem loucas, aqui, sossegadas, nas alamedas, sob o verde que lhes protege a brancura, sonham.» Os Prazeres e os Dias

Muita gente se interroga acerca do motivo por que o mar fascina tanto, atraindo o nosso olhar durante longos pedaços de tempo. Ora, o primeiro texto dá  o seu plausível contributo para satisfazer a curiosidade. Será uma curiosidade menor mas agora que lemos o texto de Proust também nos apercebemos que o impacto de uma estátua num espaço aberto é bem diferente do que tem no interior de um jardim, contribuindo o texto para uma reflexão sobre o assunto. E se ambos os textos ajudam a perceber melhor os respectivos temas, tal como ler Guerra e Paz ajuda perceber melhor a história do século XIX, não é sobretudo para isso que servem mas para fruição do próprio texto como se a música de Debussy ou Satie se metamorfoseasse em palavras para serem lidas. Palavras para serem lidas vagarosamente, repetidamente se necessário for, com o desejo de as sublinhar para voltarem um dia a serem lidas de novo como uma fotografia antiga que nunca nos cansa. Neste sentido, o texto, tal como o mar, afasta-se da linguagem comum, sendo evasiva face ao mundo ainda que a este se refira, sendo o prazer de olhar para o texto da mesma natureza do prazer de olhar para o mar ou para a brancura de uma estátua nas Tulherias, assombrada por uma luz verde.

Daí Kundera ter razão quando diz que o conhecimento é a única moral do romance. Não no sentido enciclopédico, para saber o que foi a batalha de Borodino, como era o Chiado do século XIX ou a vida quotidiana em Auschwitz, mas para descobrir, como dizia Broch, o que apenas um romance, e não uma enciclopédia, um livro técnico, ou o Google, pode descobrir. E a grande descoberta será mesmo a da própria linguagem do mesmo modo que a grande descoberta da música não é mais do que sons. 

27 novembro, 2018

O CAMELO, O LEÃO E A CRIANÇA

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      «E que faz o santo na floresta?»- perguntou Zaratustra.
      O santo respondeu: 
     «Faço canções e canto-as. E, quando faço canções, rio, choro e murmuro; portanto, louvo a Deus.
    Ao cantar, chorar, rir e murmurar, louvo a Deus que é o meu Deus. Mas que nos trazes tu de presente?»
     Quando Zaratustra ouviu estas palavras, despediu-se do santo e disse:
     «Que teria eu para vos dar? Mas deixai-me ir embora depressa, para que não vos tire nada!»
     E assim se separaram um do outro, o velho e o homem feito, rindo, tal como riem dois garotos.     Mas quando Zaratustra se encontrou só, falou assim no seu íntimo:
   «Será, então, possível? Este velho santo ainda nada ouviu dizer, na sua floresta, de que Deus morreu



A grande diversidade humana deste quadro de Bruegel pode ser arrumada em diferentes categorias consoante a posição de cada pessoa face ao acontecimento descrito pelo pintor: o caminho de Jesus para o calvário. Num primeiro plano, os que fazem parte do círculo de Jesus, lamentando e sofrendo sem nada poderem fazer para evitar a Paixão. Depois, as que se riem, insultam o condenado, lançando sobre ele todo o seu desprezo. Como qualquer voyeur moderno que pára na estrada para se regalar com um acidente, há os que assistem só para fugir à monotonia de uma vida na qual rareiam os acontecimentos excepcionais. Enfim, temos ainda os soldados, os quais, ainda que sendo parte activa da cena, estão ali apenas para cumprir ordens, muito provavelmente sem saberem porquê.

Mas há um pequeno grupo, mesmo por baixo do monte onde se encontra o moinho, que embora passe despercebido merece a nossa atenção. O que não é novidade, tratando-se do pintor flamengo. Olhar com mais atenção para o que passa despercebido é o tipo de exercício que Bruegel mais nos pede para fazermos em muito da sua obra. Neste caso, um grupo de crianças que brinca, que se diverte, completamente alheado do motivo que leva toda aquela gente ali. Aquelas crianças somos cada vez mais nós, europeus do século XXI.

No século XIX, e mesmo em parte do século XX o Cristianismo era ainda a grande referência da nossa identidade cultural mas também, ou por causa disso, da consciência e comportamento individual de cada um, fosse por uma forte adesão aos seus valores, rituais e emoções, fosse por uma acérrima rejeição deles. Não por acaso, são desse tempo organizações e movimentos políticos alimentados por uma ideologia anti-clerical e anti-religiosa ou perspectivas filosóficas marcadas pelo ateísmo. Nada disso acontece hoje. Somos cristãos, vivemos rodeados de igrejas, comemora-se o Natal ou a Páscoa, mas já mergulhados nos nossos divertissements modernos e cada vez mais afastados de uma longa história que teve Cristo como centro de gravidade. Não por acaso, é comum ler ou ouvir, hoje, no campo da igreja, com grande respeito embora com alguma condescendência intelectual, nomear filósofos ateus como Nietzsche ou Feuerbach. Tal acontece porque, invocar ateus da velha guarda, torna possível continuar a fazer da religião ou de um cristianismo agonizantes, centro de debate, resistindo-se assim mais um pouco à indiferença daquelas crianças que brincam no quadro de Bruegel.

Estas crianças, mesmo com a morte de Cristo à sua frente, já nada sabem dela. Não sofrem com ela, não se regozijam com ela, apenas se divertem enquanto o filho de Deus caminha para o seu calvário. Depois do camelo que suporta os valores cristãos, depois do leão que se revolta contra os valores cristãos, temos por fim a criança, na sua santa inocência, que, para além de serem períodos de férias, vive o Natal para comer e receber prendas, que vive a Páscoa para poder ir a caminho do Algarve, comendo amêndoas e ovos de chocolate e que um dia entrará numa igreja apenas para poder, com o telemóvel, postar depois uma foto turística numa qualquer rede social. Nascem crianças e é como crianças que irão morrer.

26 novembro, 2018



Uma pessoa entala o dedo numa porta e sente uma fortíssima dor. Dias depois já só sentirá uma moínha, meses mais tarde lembra-se disso ou conta-o a alguém tendo apenas uma ideia conservada na memória. O mesmo acontece com o prazer ou qualquer outro tipo de experiência. Isso faz com que a relação de uma pessoa com as suas próprias experiências internas se torne idêntica à sua relação com as experiências internas dos outros. Alguém me diz que sente uma dor de dentes, outra fala-me do prazer que está a sentir ao comer um Magnum de amêndoas. Percebo as suas experiências de dor ou prazer pois também já senti dor de dentes e prazer com o gelado. Porém, a relação que mantenho com essa minha dor ou esse meu prazer não é diferente da relação que mantenho com a dor ou o prazer das outras duas pessoas. Perante a minha dor ou prazer passados, sou tão outro para mim mesmo como os outros que me falam das suas experiências de dor ou prazer.

Acontece que se vive sempre num presente cuja fugacidade torna rapidamente tudo em passado. O chocolate que agora como, rapidamente se transforma no chocolate que comi e da memória que tenho dele. A bela paisagem que vejo à minha frente, por muito grande que seja o meu esforço perceptivo para a conservar o melhor possível na memória, horas depois, já pouco tem que ver com a vívida sensação ao olhar para ela. E o mesmo se passa com tudo o que se vive, dos momentos mais felizes aos mais infelizes, passando pelos neutros, que são a esmagadora maioria. É por isso que olho para trás e vejo sempre um fantasma, o que não acontece quando me relaciono com as experiências dos outros. Entendo o outro mas assumo-o sempre como alguém completamente exterior a mim. Já com as minhas experiências é diferente. Eu sou eu, fui eu que fiz, fui eu que vi, percebo que sou quem está nessas experiências mas, ao mesmo tempo, vejo-me como um outro dentro de mim, um eu cujas experiências se desfizeram na morte de cada presente, tornando-me a toda a hora num outro, invisível dentro dos contornos da sua visibilidade. Enfim, um fantasma.


09 novembro, 2018




Na sala de espera da dentista pego numa Nova Gente, de Setembro, visto os números mais recentes, mas também os da Caras, os meus preferidos sempre que vou à dentista, já estarem em mãos alheias, isto enquanto, mesmo por cima da minha cabeça, a SIC transmite uma telenovela portuguesa. Páginas tantas, viro uma folha e a primeira coisa que vejo na página seguinte é um título com a palavra "CASAMENTO" (percebi depois que se referia à relação entre a cantora Britney Spears e o seu personal trainer). Mas no preciso momento em que os meus olhos lêem a palavra "CASAMENTO", oiço a palavra "casamento" vinda da boca de uma das personagem que falavam por cima da minha cabeça. Não foi um segundo antes. Não foi um segundo depois. Foi num único e mesmíssimo momento, um decisivo momento com diria um antigo grego, de unidimensional esplendor.

04 novembro, 2018

25 outubro, 2018



A mente humana é uma coisa estranha. Quando, há dias, vi esta fotografia de Vivian Maier, a primeira coisa que me veio à cabeça foi o célebre capricho de Goya «O Sono da Razão Produz Monstros". Ser estranho não é o mesmo que não fazer sentido, podendo significar apenas o facto de, até neurologicamente, não sabermos exactamente como associamos espontaneamente coisas tão diferentes. Mas cá está, hegelianamente falando, primeiro acontece e então depois encontramos um sentido para o que acontece. 

Vemos aqui, a dormir, um homem mergulhado em jornais e revistas. O que não deixa de ser paradoxal. Tanta informação que torna possível uma maior consciência do mundo e de si ou mesmo uma formação pessoal mais rica... e o homem dorme. Mas não será precisamente isso que está a acontecer hoje, e cada vez mais? Vivemos mergulhados em informação que vai chegando ao minuto através de jornais, revistas, televisão, rádio, redes sociais, notícias on line com as mais diferentes e, nalguns casos, obscuras origens. Toneladas de informação que, em muitos casos, não só banaliza o real, tornando-nos indiferentes a ele, como acaba por ser factor de ignorância e desinformação cuja consequência pode ser dramática para o tipo de sociedade que aprendemos a ver como sendo a mais livre e justa. Se, noutros tempos, aconteceram coisas más por ausência de informação, hoje coisas más podem acontecer por excesso de informação. Monstros passados, quer à esquerda, quer à direita, emergiram porque, por ausência de informação, as pessoas dormiam e quando acordaram já era demasiado tarde. Monstros actuais podem emergir por as pessoas dormirem só que, desta vez, por excesso de informação. Seja como for, o resultado será sempre o mesmo: o sono da razão produzir sempre, mas sempre, os seus monstros.

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De Vivian Maier conhecia apenas algumas fotografias, certamente as mais conhecidas, incluindo alguns auto-retratos. Mas depois de ver este documentário fiquei absolutamente fascinado pela mulher por trás da fotógrafa.