19 julho, 2018

Devido a uma apocalíptica catástrofe, em poucos minutos Portugal vai ficar submerso. Eu tenho a possibilidade de seleccionar 20 figuras públicas que irão ser salvas dentro de um bote, as quais irão mais tarde refazer o país. Sem qualquer ponta de idolatria ou hagiográfica veneração, uma dessas figuras seria a procuradora Maria José Morgado. Há pessoas de quem gostamos, que respeitamos ou em quem temos confiança, ou não, apesar de não as conhecermos ou de termos delas apenas um vago e distante conhecimento. Embora seja deste tipo o meu conhecimento dela, Maria José Morgado é uma mulher de quem gosto, que respeito e em quem tenho confiança, num nível muito acima da média. Por isso resolvi ler a sua entrevista no PÚBLICO de hoje.

Lembrando o tempo em que resolveu deixar de ser revolucionária, fala de uma certa ressaca pelo vazio que foi encontrar após tanta adrenalina descarregada. Que depois foi combatida lendo e estudando bastante mas também com exercício físico intenso. Eu achei graça a esta resposta pois vai ao encontro de uma ideia que considero bastante verosímil: grande parte do que somos, mas também do que não somos, deve-se a uma questão energética. No romance A Amiga Genial, diz Elena: "[...] fiz muitas coisas na vida mas sem convicção, sempre me senti um bocado desligada das minhas acções". Cá está, havia em Elena um défice energético que marcou uma distância entre si e si. Outras pessoas estão completamente mergulhadas no que fazem e no que são -  ou melhor, são o que fazem ou fazem o que são - sem qualquer tipo de dúvidas ou mediação introspectiva. Serão assim os revolucionários mas também não revolucionários nas mais diversas funções, seja no mundo político, empresarial, militar ou mesmo pessoal. Há pessoas que parecem estar sempre ligadas à corrente, verdadeiras máquinas de agir, para as quais o tempo interior quase não existe. Se os fins de toda essa tensão energética forem uns, o mundo só terá a ganhar, se forem outros, terá a perder, noutros casos ainda - a maioria - nem uma coisa nem outra. Pelo que se pode depreender da entrevista, Maria José Morgado encontrou o equilíbrio certo entre a energia necessária para o mundo e a falta dela para as coisas onde o seu excesso se torna prejudicial, seja para o mundo, seja para si próprio. Bendito exercício físico intenso que ajudou a curar a ressaca.

18 julho, 2018

Conheço algumas pessoas que choraram em Auschwitz. Já tentei várias vezes mas não consigo perceber porquê. Auschwitz-Birkenau não é mais do que um museu composto por vários edifícios no meio de uma vasta área. Nalguns deles podem-se ver fotografias e cartazes informativos acerca do campo ou ainda alguns objectos pertencentes aos prisioneiros como, por exemplo, sapatos. Esta relação visual com o lager é a mesma que teremos num campo de batalha onde morreram milhares de pessoas ou que se pode ter, num domingo de manhã, em visita guiada, ao largo de São Domingos, a respeito do massacre de Lisboa. Um tipo de relação em que os olhos atenuam o esmagador peso do essencial. Como ver numa caixinha as cinzas de alguém que outrora foi um ser humano que nunca conhecemos, também o que os nossos olhos vêem num museu ou no espaço onde em tempos aconteceu algo esmagador, não passa de um  vestígio mudo de uma realidade que fugiu dali para sempre. 

Auschwitz será para sempre o ânus do mundo, o nível mais repugnante e desprezível a que desceu o ser humano. Mas o que verdadeiramente choca, envergonha e, sim, mexe com os nervos de uma pessoa, é a própria ideia de Auschwitz, a pulsação do seu sentido, ou melhor, da falta dele, para além da representação visual que serve para satisfazer a nossa inesgotável curiosidade, diria Nietzsche, uma socrática curiosidade, como se pode aferir pela quantidade de telemóveis, tablets e máquinas fotográficas sempre a disparar durante a visita, ao longo da qual uma guia vai dando toda a informação necessária e que as pessoas ouvem com toda a atenção como se acabassem de chegar há pouco à Terra. Ou à História.

Lê-se o Primo Levi, e, sim, vai-se respirando fundo para ir resistindo àquela descida aos abismo. Acaba-se As Benevolentes, o vertiginoso romance de Jonathan Littel, e precisa-se de algum tempo para regressar à normalidade depois de toda aquela orgia demencial de destruição tão racionalmente organizada como se de uma qualquer normal empresa alemã de sucesso se tratasse. Aí, sim, entramos no elemento do próprio horror, do absurdo, sentindo-se tanto o calor inocente das vítimas como o calor sádico dos algozes, construindo-se mentalmente a ideia-chave de tudo aquilo e na qual só muito relutantemente se consegue acreditar. Mas depois de ter acreditado em tudo o que havia para acreditar, de ter percebido tudo o que haveria para perceber e de ter sentido tudo o que havia para sentir, os olhos que chegam ao museu de Auschwitz-Birkenau apenas servem para ver e já sem qualquer lágrima para verter.

17 julho, 2018


Diz o povo, e com razão, que o hábito não faz o monge. O provérbio é antigo mas também evidente a sua actualidade. Apenas os hábitos mudaram, sendo, como sempre, muito mais, e variados, do que os próprios monges. O verdadeiro monge, esse, nem se lembra que o tem vestido.

15 julho, 2018

ROMAN CIESLEWICZ - MONA TSE TUNG


Do que mais gosto nesta montagem do artista polaco é a ambiguidade no que respeita à sua verosimilhança. Se virmos o original que serve de base a esta montagem, percebemos uma certa associação entre o seráfico e contemplativo rosto do jovem Mao Tse Tung e o da jovem italiana pintada por Leonardo. Uma associação que seria impossível com a cara de parvo de Nixon, o ar de sacanice inteligente de Kissinger ou a tão soviética sisudez de Brejnev. Daí uma certa verosimilhança nesta montagem em virtude do facto dos dois jovens partilharem um ethos comum. Porém, ver o rosto de La Gioconda enfiado nesta farda revolucionária chinesa é um contra-senso que logo denuncia a natureza impossível da imagem, reduzindo-a a uma dimensão caricatural e humorística.

O contra-senso pode ser entendido de duas maneiras. A mais óbvia, resulta da consciência da distância entre o contexto histórico da imagem original de Mao e o contexto histórico de Mona Lisa, a qual fica de imediato descontextualizada. O mesmo se passaria se vestíssemos Péricles de fato e gravata ou D. Sebastião com um fato de astronauta. Mas há uma outra mais subtil. Já se disse tudo e mais alguma coisa sobre o rosto de Mona Lisa. Mas existem duas Monas Lisas: a mulher real, que viveu num espaço e tempo reais e que foi pintada pelo génio italiano, e a mulher cujo rosto se emancipou face à identidade empírica da jovem mulher. Eu não sei qual a semelhança entre as duas Monas Lisas. Pode ser grande ou pequena mas para o caso não interessa. Por muito grande que seja, o rosto da Mona Lisa de Leonardo, ganhou vida própria, ou mesmo o valor absoluto de um arquétipo, que faz extraí-la do seu contexto empírico, a Renascença italiana, e ultrapassar ainda a psicologia de uma mulher real, para se tornar simplesmente num rosto cuja psicologia subsiste na própria pintura. Mas o que dizer sobre o rosto de Mao, abstraindo-nos da farda e do chapéu? Sim, ficarmos apenas com o rosto de Mao. Mas será sempre o rosto de um homem normal, ainda para mais sem o sfumato, essa delicada película com que Leonardo faz transcender ainda mais o rosto do seu modelo. Ver, pois, o rosto de La Gioconda  como ersatz do rosto de Mao, contribui ainda mais para o não-sentido da montagem.

Uma montagem feita por um polaco, que associa a imagem de um revolucionário chinês com a imagem de um pintor italiano, levada para França. Polónia, China, Itália, França, países cheios de História, diria mesmo com excesso de História, como alguém disse a respeito do povo judeu. Mas História que passa completamente ao lado do eterno, imutável e puramente ideal rosto de La Gioconda. Podemos legitimamente permutar rostos independentemente das suas épocas históricas. O nosso D. João V, sem peruca e vestido segundo um padrão actual, passaria por um homem do século XXI. Rostos são rostos. Do mesmo modo, poderíamos colocar nesta farda revolucionária de Mao, ainda que por piada, o rosto de Trump, de Putin ou até da senhora Merkel. O efeito, seria, obviamente caricatural. Fazê-lo com o rosto de Mona Lisa já é completamente diferente, mesmo até diferente de outros rostos femininos antigos, por exemplo, Rafael ou Ticiano. Porque a verdadeira Mona Lisa nunca existiu nem nunca existirá a não ser nos pincéis de Leonardo.

14 julho, 2018

Há um pequeno ensaio de I. Berlin, chamado Political Judgement cujas principais questões são: o que significa uma sabedoria política? Ou ser politicamente competente? Há uma «ciência política» tal como há uma Biologia ou uma Química? Será que, na realidade política, existem leis, invariáveis, mecanismos inexoráveis e previsíveis, permeáveis ao exercício da razão? A sua resposta é veemente: não!

É por isso que, sendo ele herdeiro de um certo iluminismo, arrasa por completo a pretensão de reduzir tudo ao poder da razão. Pior ainda: aplicar tais pretensões. Lenine, Estaline, Hitler, Mao, Ceausescu, Chavez são homens que quiseram fazer política com uma doutrina colocada na mesinha de cabeceira. Homens que olharam para as suas sociedades e não viram outra coisa senão um laboratório onde poderiam aplicar o seu programa, a sua agenda racional. Para Berlin, os grandes pesadelos políticos do século XX, embora por razões distintas, continuam a ser herdeiros da fé iluminista segundo a qual é possível construir uma sociedade a partir de um modelo racionalmente elaborado no ateliê científico do político enquanto sábio ou vidente iluminado, deslumbrado com os seus ideais.

Ora, a realidade não é assim. A realidade, a verdadeira realidade é multicolor, evanescente, contraditória, fugidia e demasiado feita de misturas para poder ser catalogada como as borboletas. Daí Berlin preferir políticos como Colbert, Washington, Talleyrand, Disraeli, Bismarck, Churchill ou Roosevelt. Homens que, mais do que matemáticos ou engenheiros da política, olharam para esta através da intuição, do improviso, de uma sabedoria prática e não doutrinária. É por isso também, considera, que romancistas de águas profundas como Tolstói ou Proust, estando atentos às pequenas partículas atómicas do real, ao invisível, aos caprichos da alma, entendem muito melhor a realidade do que fanáticos racionalistas como Holbach, Helvétius ou La Mettrie, três dos principais inspiradores da revolução da qual hoje se comemora o aniversário. Infelizmente, as críticas de Berlin, continuam actuais. É que há muito robespierrezinho escondido em muitos dos nossos engenheiros sociais, e se é verdade que já não se cortam cabeças por fora, existem diversas maneiras de as cortar por dentro. 

13 julho, 2018

Tornou-se habitual, sobretudo nas pessoas que fazem questão de falar bem, dizer "virtualidades" em vez de "virtudes". Ainda há dias, uma política da nossa praça referia-se às "virtualidades da geringonça". Eu gosto de palavras como "piedade", "compaixão", "caridade" ou "misericórdia", e digo-as. Mas, vá, percebo um certo pudor em dizê-las devido à sua ressonância religiosa, a qual, diga-se de passagem, também não morde. Mas, "virtude"?  Raios, custa assim tanto dizer "virtude"? Ou será porque a ideia de virtude, com toda a sua força moral, tem um sentido cada vez mais virtual?

12 julho, 2018

Uma coisa que me incomoda é, numa exposição temporária, só poder ver um quadro importante pertencente a uma colecção privada sem um espaço museológico que o torne acessível a toda a gente, graças à boa vontade do proprietário que o emprestou. Sim, é um privilégio estar a vê-lo mas também sabendo que se trata de uma condição excepcional e que terminada a exposição nunca mais irei pôr-lhe a vista em cima. Não se trata de reconhecer qualquer ilegitimidade quanto à sua posse. Se a pessoa o comprou é porque alguém o vendeu e longe de mim pôr em causa a transacção.

Aqui há uns anos, no Q&A do The Guardian, perguntaram ao Bryan Ferry qual era, exceptuando propriedades, a coisa mais cara que possuía. Era uma obra de arte mas afirmou logo de seguida que não lhe pertencia verdadeiramente, tendo apenas a tarefa de a conservar para a geração seguinte. Está bem, abelha! Devia estar a pensar nos filhos e nos amigos dos filhos que vão lá a casa. Vamos supor que, para facturar numa situação de grande crise, o Estado venderia à Madonna e ao George Clooney os palácios da Pena e de Queluz, para suas residências privadas. É inconcebível? É. Mas também é bom não esquecer que foram construídos precisamente para serem residências privadas, às quais só tinham acesso os moradores e seus convidados. No fundo, se vendidos agora, voltariam a encontrar a sua natureza, com os seus quartos, salas, cozinhas e jardins privados. Acontece que, por serem de interesse público, qualquer pessoa ganhou o direito de lá entrar. Perder esse direito seria perder o direito a um património que é de todos porque do interesse de todos ainda que não seja de todos.

O mesmo se passa com as obras de arte de colecção privadas. Mal descubro num livro ou na Internet uma obra que me interessa, vou ver o sítio onde se encontra. Vejo então que faz parte de uma colecção privada à qual o público não tem acesso e sinto-me verdadeiramente alienado. O mesmo pintor tem quadros que podem ser vistos por todos e quadros que só podem ser vistos por quem o seu proprietário quer que sejam vistos. Raios, não é justo, por muito legítimo que seja. Com pena minha, não conto ver a colecção do Isabella Stewart Gardner. Mas o facto de saber que as suas obras estão acessíveis ao comum dos mortais, deixa-me apaziguado. Não vou mas sei que posso ir. Em sentido contrário, saber que em Portugal pode haver quem compre um quadro de enorme valor para o ter pendurado na sala, deixa-me com a sensação de me estarem a tirar algo que me pertence, não achando grande piada a esse bombom dado à criancinha para acalmar a birra, que é um dia poder vê-lo no caso de existir uma exposição temporária para a qual generosamente será emprestado. 

11 julho, 2018

A ESTÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO INSTAGRAM

Há pessoas que detestam ir ao supermercado. Há pessoas que não detestam ir ao supermercado mas detestam estar na bicha para pagar na caixa. Eu serei um felizardo uma vez que gosto de ir ao supermercado. Em relação a estar na bicha, embora considere haver coisas na vida mais interessantes para fazer, reconheço que é rara a vez em que não haja motivos para uma pequena e instantânea sociologia de supermercado.

Hoje, depois de fazer as minhas compras ali no Modelo, dirigi-me para a bicha para pagar. Estava enorme, obrigando-me a uma estadia maior do que o habitual mas, cá está, aprende-se sempre alguma coisa! Estava lá para aí há 5 minutos quando passam dois homens, mais velhos do que eu, com aquele ar de bom português cuja única condição para emborcar duas ou três minis é parar, tendo um deles, com uma valente bigodaça e um cestinho de plástico na mão dito para o outro: "Eh pá, ganda fila que prá qui tá". O sociólogo que há em mim ganhou logo ali o dia. Em primeiro lugar por ver dois homens que, em tempos, nem de um supermercado se podiam aproximar sob pena de arriscarem a sua masculinidade, andando agora ali às compras com a mesma naturalidade com que comem caracóis e discutem o Sporting numa esplanada ali da avenida.Claro que em 2018  já não se trata de novidade nenhuma mas apreciei invocar o contraste. Agora, surpreendente, mas surpreendente mesmo, foi ver o bigodaças a dizer "fila" em vez de "bicha". Surpreendente e até chocante. Para mim, um homem a sério continua a dizer "bicha". "Fila" tornou-se uma expressão mais feminina ou de homens urbanos obcecados com a elegância, que passaram a considerar a palavra "bicha" rude e boçal. Isso, para mim, não passa de uma traição ao bom, velho e vernacular Português. Ver aquele homem a dizer aquilo foi, pois, uma desilusão, levando-me a pensar que, mais ano, menos ano, a palavra "bicha" está para a nossa língua como tantas outras que, hoje, só conseguimos ler em escritores como Camilo ou Aquilino.

Mas o empírico benefício de estar numa bicha de supermercado não acabou aqui. A demora permitiu-me ainda ler com mais atenção as capas das revistas ali expostas. Foi o caso do número de Verão da revista Women's Health cuja capa aqui trago:



Em abstracto, se pensar numa revista dedicada à saúde, irei pensar em assuntos relacionados com pulmões, fígados, rins, estômagos, pele, olhos, ouvidos e assim. Porém, se também em abstracto pensar numa revista dedicada especificamente à saúde da mulher, a minha mente viajará até ao misterioso mundo da gravidez, da menstruação, da menopausa, da candidíase, da secura vaginal, da infecção urinária, dos quistos nos ovários, dos miomas, das histeroctomias e outras coisas assim do género. Porém, como se pode empiricamente constatar nesta revista dedicada à saúde da mulher, a realidade é bastante diferente. 

Entretanto, podemos considerar que o destaque dado ao rabo de Rita Pereira numa revista dedicada à saúde da mulher não passa de um mero acidente. Mas o sociólogo que há em mim, casmurro, não se pode ficar apenas pelo território da contingência social, devendo ir à procura de padrões e invariáveis. Foi o que fiz. E o que descubro eu na Women's Health de Maio/Junho de 2015? 



Exacto! O rabo de Rita Pereira. Neste caso, para além de como perder 6 quilos, uma barriga firme, comida com poucas calorias, fatos de treinos cool, cabelos à prova de ginásio e corpo de praia, temos a preciosa indicação de que bastam 20 minutos diários para se conseguir um rabo perfeito, o qual, presumo, é o mesmo que dizer o rabo de Rita Pereira. Ora, tudo isto pode parecer algo desfasado da realidade, levando-nos a presumir serem as pessoas desta revista algo taralhocas. Porém, se levarmos a sério este artigo, assim como a obsessão moderna relativamente às selfies do Instagram e do Facebook, seremos obrigados a reconhecer que a saúde feminina está cada vez mais reduzida a um plano, que parecendo obsessivamente físico, não deixa de ser obsessivamente mental. Posso estar enganado mas creio que, por este andar, num futuro próximo, a Cirurgia Estética e a Psiquiatria irão ultrapassar a Ginecologia e a Obstetrícia enquanto especialidades ligadas à saúde da mulher.

A saúde masculina, já por si bem menos complexa do que a feminina, pelos vistos, também


10 julho, 2018

Durante as refeições, que ele comia no seu escritório, invadiam-no pensamentos importantes. Geralmente era incapaz de dizer o que acabava de  levar à boca. Reservemos a consciência para as ideias importantes que se alimentam dela: é-lhes indispensável. Sem consciência são inconcebíveis. Mastigar e digerir, pelo contrário, são funções autónomas. Elias Canetti, Auto de Fé.


Sim, compreendo, embora não concorde uma vez que comer é para mim assunto de alguma importância. Depois, trata-se de um dualismo errado: o que não falta por aí são processos mentais, cuja mastigação e digestão é tão autónoma e mecânica como a mais básica das funções vitais.

20 junho, 2018

LICHTENSTEIN NO COLOMBO

Meu deus, já faz dezoito anos que resolvi ir a Serralves ver a exposição do Andy Warhol. Eu nunca gostei dele mas, sendo uma pessoa de espírito aberto e que gosta de dar o benefício da dúvida, lá fui com cartesiana prudência, liberto de prévios pensamentos e sentimentos, metendo entre parêntesis tudo que sabia a seu respeito de modo a poder lá chegar com o mais puro e virginal olhar sobre a sua obra. Creio que não resisti quinze ou vinte minutos. O suficiente para dar o meu rico tempo por mal empregue e concluir que não fosse a criatura americana e um produto muito bem vendido, a começar pelo próprio, e estaria reduzido a uma mais do que merecida irrelevância. 

Foi há muito tempo mas lembro-me bem do meu enorme desconforto por estar a ver tudo aquilo no espaço formal de um museu. Eu não tenho nada contra outdoors, as montras da Zara ou os carros comerciais que andam pelas ruas com o logotipo da empresa, mas se eu entrasse num museu para ver outdoors, montras da Zara ou carros comerciais sentir-me-ia a pessoa mais estúpida do mundo em vez de me sentir apenas estúpido. Quero por isso saudar a exposição de 41 obras de Roy Lichtenstein no Colombo, no âmbito de um projecto de divulgação artística.  Se na altura dos saldos passar por lá para fazer umas compras e, no entretanto, ver a exposição, estou certo de que dessa vez não irei sentir o mesmo desconforto de Serralves. Eu sei que parece demasiado rebuscado ir buscar a Física aristotélica para esta conversa mas foi mesmo dela que me lembrei para concluir que se cada objecto tem o seu lugar natural o das obras de Roy Lichtenstein é precisamente o Centro Comercial Colombo, algures entre uma loja da Zara e uma KFC. Mehr Licht, implorou Goethe no seu leito de morte. More Lichtenstein, irão desejar os comerciantes e clientes, certamente empolgados por esta erupção de arte na catedral do consumo.

14 junho, 2018

O SENHOR VÍTOR

Hoje passei pelo senhor Vítor e cumprimentei-o dizendo "Bom dia, senhor Vítor". Eu jogava ao berlinde e já o senhor Vítor era senhor Vítor, continuando a sê-lo até hoje e até sempre. Isto para mim é normal, como creio ser normal para o senhor Vítor ser tratado por senhor Vítor. Mas a pessoa que diz isto é a mesma que fica desconfortável quando é cumprimentada na rua por um "Bom dia, senhor professor" ou "Bom dia, senhor doutor". Eu sei que para quem me cumprimenta desta maneira, sou tão senhor ou tão doutor como para mim o senhor Vítor é senhor Vítor e provavelmente nem lhes passa pela cabeça não me tratarem por senhor ou doutor como pela minha também não passa não tratar o senhor Vítor por senhor Vítor.

O passado é o que já não existe, o futuro o que ainda não existe. Mas entre o que deixa de existir e o que ainda não existe, existem momentos que são como a foz de um rio, onde a água já não é doce mas também ainda não é salgada. O poeta Ovídio bem se poderia lembrar de metamorfosear a foz de um rio no deus Janus.  Janus, o deus das duas faces, uma virada para o passado, outra para o futuro. É pois este o meu estado ao tratar o senhor Vítor por senhor Vítor mas sentindo-me desconfortável quando passo eu a ser o senhor, mesmo sabendo ter idade para o ser. O estado de quem é apanhado entre dois tempos, um que ainda existe mas em vias de deixar de existir, outro que já existe mas ainda com vestígios do anterior.

Também é isto que acontece muitas vezes na história. O que normalmente vemos na história são épocas, eras, períodos, revoluções que destroem realidades para para darem lugar a outras: Antes de Cristo/Depois de Cristo, Alta Idade Média/Baixa Idade Média, Monarquia/República, Estado Novo/Democracia, Grécia Antiga, Renascimento, Absolutismo, Revolução Francesa, descolonizações, etc. Mas a história também é feita de vidas materiais e espirituais que se vão desvanecendo sem se dar por elas. Vamos um português de 1875 e facilmente o distinguimos do português de 1926. Mas há muita coisa no primeiro que já prepara o segundo como este tem muita coisa do primeiro. Coisas que aparecem e desaparecem quase sempre como um gás incolor e inodoro que tanto nos invade como se esvai, sem que demos por isso.

13 junho, 2018

CENOTÁFIOS

Não vejo o acto de ler como um bem em si mesmo nem o não ler como um mal. Ver as coisas dessa maneira revela uma visão bibliocêntrica que põe em causa a liberdade de não ler, de se obter prazer por outras vias, de se poder ser normal, realizado e feliz sem precisar de ler, e que o digam os Esteves sem metafísica deste mundo. Ler é bom? Sim, claro. Há livros que me deram e a muitas outras pessoas um enorme prazer, mas também não me parece especialmente dramático não sentir qualquer prazer em ler e que os tais livros, ou mesmo quaisquer outros, que me deram, e a outras pessoas, prazer, nada digam a muitas pessoas que, só por isso, devem ser vistas como imundos trogloditas. Nem entendo que se possa ser melhor ou pior pessoa por ler ou deixar de ler.

Posto isto, quero agora evidenciar esta entrevista. Diz o entrevistado haver pessoas que compram livros, não para ler mas para coleccionar. Parece-me, entretanto, que o facto de se comprar livros que não vão ser lidos não se esgota na referida situação de desejar tê-los apenas enquanto peças de colecção. Parece-me ocorrer também o facto de se comprar livros não devido a um gosto pela leitura mas pela ideia de gosto pela leitura. Mais do que ler, gosta-se da ideia de ler ou de ter o que se gostaria de ler. Isto acontece porque ainda vivemos sob um paradigma bibliófilo, o que está muito longe de implicar que toda a gente lesse ou gostasse de ler. Significa apenas ver o livro como elemento fundamental da nossa história e civilização, sendo por isso valorizado por elites sociais e culturais que arrastavam consigo muitas outras pessoas que se habituaram a ver no livro uma peça importante da sua educação e formação. Trata-se, porém, de um paradigma em crise. Crise que não se avalia pela ausência de livrarias, pela ausência de livros e pela ausência de pessoas que compram livros. Aliás, nunca se publicou tanto como agora e nunca se compraram tantos livros como agora, o que acontece porque ainda fomos educados a ver o livro como elemento fundamental da nossa educação e formação, associando a sua ausência à ausência de educação e formação. E é bom comprar um livro, levar o livro para casa, abri-lo, cheirá-lo, folheá-lo, passar os olhos por ele. Livro que se compra porque se ouviu, algures, falar nele, talvez até num jornal, porque se tem boas referências do autor, porque é um autor que já foi percebido como autor que se deve ter para se poder ter o que se considera dever ter.

Porém, depois de tudo isto, da parte bonita de tudo isto, vem o mais difícil: ter de os ler. O que não é impedimento para se falar nele, de sentir que se leu apenas pelo mágico poder da sua posse, ou até mesmo rejubilar por se encontrar alguém que também o tem e do qual também gosta, apesar de também não o ter lido. Sim, é perfeitamente possível duas pessoas conversarem sobre um livro, apenas porque o têm, apenas porque gostam da onda do autor ou só apenas porque o folhearam e sabem umas coisas sobre ele. É neste sentido que os livros se tornam cada vez mais cenotáfios. O cenotáfio é um túmulo que invoca uma pessoa que lá não está. Não está mas é como se estivesse, não deixando por isso de ser homenageada. É isso que os livros são cada vez mais numa estante. Estão lá mas apenas para invocar a sua ideia, o seu valor, a sua memória.

12 junho, 2018


Na feira do livro de Lisboa havia uma banca onde se encontrava Maria do Carmo Vieira com uma petição contra o acordo ortográfico. Apesar do meu cepticismo face a este tipo de iniciativas, a minha simpatia pela causa levou-me, sem hesitar, a assinar, enquanto íamos dando dois dedos de conversa. Fiquei perplexo com o empenho militante com que ela está envolvida nesta causa. Mas ainda mais fiquei, à despedida, pelo modo emocionado como manifestou a sua gratidão por eu ter assinado. Insisto quanto ao meu cepticismo, que não é defeito mas feitio, nem tendo já sequer idade para o mudar. Mas que inveja! Inveja pelo entusiasmo e espírito militante de pessoas que saem à rua com fé e esperança, regressando todos os dias a casa com a consciência do dever cumprido, só parando quando, um dia, o coração deixar definitivamente de bater. Eu tenho simpatia por esta causa, como posso ter por outras. Coisa bem diferente é estar apaixonado e sentir o coração a bater mas isso já eu não sei o que é.


11 junho, 2018

O ROSTO E AS MÁSCARAS


Eis um momento descontraído e informal da tomada de posse do novo governo espanhol. Pretendo realçar o facto de estarem todos a rir, ou a sorrir mas, também, ou sobretudo, não o fazerem pelo mesmo motivo. Aquelas pessoas formam uma estrutura visual única, mas disseminadas em diversas partes como ilhas sem contacto entre si. Comecemos pelo lado esquerdo. Temos um grupo cujo centro é o rei onde a animação ou mesmo o espírito de paródia são inequívocos. À sua direita está uma mulher de casaco branco a rir enquanto conversa com outra cujo rosto não vemos. Pela posição do corpo e a direcção do olhar, percebe-se que o motivo por que ri nada tem que ver com o que faz rir o grupo anterior. Depois, mesmo na margem da fotografia, um homem ri, e percebe-se que a sua conversa também decorre sem qualquer ligação com as outras. Termino com o homem e a mulher em primeiro plano. Não estando a rir como os outros, as expressões e posição dos braços denunciam uma clara boa disposição resultante de uma descontraída troca de palavras.

Não se trata de uma mera coincidência. Se estivermos sentados num café, de certeza que iremos observar pessoas com expressões completamente diferentes. Numa mesa veremos pessoas divertidas, noutra mesmo ao lado já veremos outras conversando com ar sério, fazendo de cada mesa uma unidade básica sem qualquer ligação com as outras. Mas não é isso que acontece nas quatro unidades desta imagem. E não acontece por se tratar de uma fase da cerimónia que impele as pessoas para a alegria e descontracção, ao contrário do momento mais formal e solene em que todos devem estar com ar grave e sério. Porém, não há nada escrito que obrigue as pessoas a dizerem piadas ou a puxar assuntos que permitam uma alegre empatia entre si. Por que razão tal acontece?

Há um texto das Notas Contemporâneas, intitulado A Decadência do Riso, no qual Eça lamenta a traição do seu tempo ao famoso mandamento de Rabelais «Riam, riam, porque rir é o que é próprio do homem!». Mostra pois a sua revolta face a um tempo sorumbático cuja melancolia romântica surge em claro contraste com a primaveril alegria renascentista e barroca que, contrariou as «soturnas torres feudais» entretanto «abandonadas às corujas e aos fantasmas». Um tempo em que a humanidade entristeceu, em que se esqueceu da boa gargalhada, em que os filhos são educados a conter o riso porque associado à falta de juízo. Tudo isto por causa da civilização. De uma civilização que, ao contrário do que acontece com o selvagem africano, ainda capaz de rir com saudável energia e espontaneidade, obriga as pessoas à ordem, à regra, a uma seriedade política, social, artística, literária, tornando doloroso o acto de pensar.

Regressasse agora Eça à pátria e facilmente iria perceber o quanto as coisas mudaram. O provérbio segundo o qual mais vale cair em graça do que ser engraçado deu lugar a um facto evidente: é preciso ser engraçado para cair em graça. É muito provável que grande parte dos portugueses nunca tenha ouvido falar de Rabelais mas também não precisam para poderem vestir a sua camisola. O sentido de humor, rir, mostrar alegria, estar feliz e contente deixou de ser um estado reactivo, uma manifestação espontânea perante um dado estímulo particular, para se tornar num padrão de cultura que condiciona a relação com o mundo e com os outros. Hoje, quem não ri é um marginal, um auto-excluído do sistema convencional, alguém que resiste à pressão que impele as pessoas para a descontracção e ligeireza.

Daí o feliz relevo desta fotografia: um insignificante microcosmos mas que revela ao mesmo tempo o mesmo tipo de dinâmica estrutural que submete os indivíduos ao seu poder num contexto social mais vasto. Se um destes indivíduos, em vez de estar a rir ou simplesmente animado e descontraído, estivesse com o mesmo ar grave e sério apresentado no momento mais formal da tomada de posse, isso teria um significado político. Tudo na política são máscaras, sendo aquela uma simples continuação das relações sociais vulgares, apenas com a diferença de ver os seus comportamentos mais sufragados publicamente. Quem disse que o estruturalismo está morto?

10 junho, 2018

NIETZSCHE PARA PRINCIPIANTES


Ontem, no parque da cidade do Porto, durante o concerto de Nick Cave, chovia. E o cantor pediu para que continuasse a chover.



09 junho, 2018

Há uma zona da feira do livro de Lisboa em cujos pavilhões se encontram alfarrabistas. Ver por ali todos aqueles livros no meio de uma feira cada vez mais moderna, vibrante e cheia de atractivos, não deixa de provocar uma certa melancolia. Livros que já foram frescas novidades, best sellers que faziam parte de qualquer biblioteca pessoal durante os anos 40, 50, 60, 70 ou até 80, e anunciados com pompa e circunstância, estão agora ali como obsoletas velharias que só interessam mesmo a coleccionadores imbuídos de um certo romantismo arqueológico. A questão é acontecer o mesmo na parte moderna, vibrante e atractiva da feira. A grande maioria daqueles milhares livros vai passar mais rapidamente à história do que passaram os anteriores, esmagados pelo peso das recentes novidades, como no quadro de Bruegel em que peixes vão engolindo outros peixes que, por sua vez, comem outros peixes. Há qualquer coisa de mórbido em todo aquele sonoro colorido no meio de uma cidade onde não se consegue parar de editar mas onde também dificilmente se consegue parar para ler.

08 junho, 2018

CRONOCRACIA

"A sobrecarga do sistema vasovegetativo com a excitação sexual não descarregada é o mecanismo central da angústia" Wilhelm Reich, A Função do Orgasmo

O vago sociólogo que há em mim leva-me diariamente às capas dos jornais, sendo a do Correio da Manhã a que mais me enche as medidas, ainda que me fique só pelos preliminares, digamos assim. Hoje, porém, o título: «CIÊNCIA GARANTE -Tempo ideal para relação sexual é meia hora», não poderia deixar-me indiferente, levando-me a ir em busca da notícia. Se há assunto que considero aborrecido para falar, pensar, discutir, problematizar, é o sexo. Mas o mesmo não se passa com a cada vez maior transformação do pensamento científico não só numa ideologia mas também numa religião ou catecismo para uso diário, fazendo-me sentir uma militante vontade de não me calar. 

Auguste Comte é hoje um desconhecido mas com o seu nome em muitas ruas espalhadas pelo país dos philosophes. Assim mais ou menos como as muitas ruas Cândido dos Reis que existem por cá: toda a gente conhece o nome mas ninguém sabe quem foi. Ah, e com um pequeno busto na praça da Sorbonne, em Paris, mesmo ao pé da livraria Vrin, só com livros de de Filosofia, grande parte dos quais ele iria rejeitar por não se enquadrarem no seu evangélico modelo de racionalidade científica. Porém, lá no seu céu positivista, onde repousa eternamente, há-de ser um morto feliz ao perceber cada vez mais como, cá em baixo, as pessoas precisam de gerir (a palavra é feia mas creio que apropriada) as suas vidas em função de empenhadas e surpreendentes descobertas científicas.

Ele é a quantidade de calorias, de vitaminas, de sementes, de frutos milagrosos, de iogurtes, de ovos, de batatas, de água por dia. Ele é o que faz bem aos olhos, à pele, às unhas, ao cabelo. Ele é o tempo ideal para fazer caminhadas e o ritmo ideal para que a caminhada surta efeito, se o exercício físico deve ser feito em jejum, desportos que fazem bem ao cérebro (creio que se exclui o xadrez). Ele são as microscópicas impurezas que se escondem nas maçanetas das portas, nos telemóveis, nos teclados de computador, nos esfregões da louça, entre os dentes de quem não usa fio dental. Ele são os psicólogos a ensinar, do alto da sua ciência, como devem os pais educar os filhos, os trabalhos de casa, os benefícios de aprender música, qual o tempo diário correcto com o telemóvel e jogos. Enfim, ele é mesmo muita, muita coisa mesmo.

O sexo, claro, teria de ficar no pódio. Desta vez, em concreto, para sugerir a ideia de que todo o casal deverá ter junto de si um cronómetro sempre que pratique o acto, de modo a funcionar em científica conformidade com padrões cientificamente testados por esforçados e competentes e cientistas que zelam pelas nossas vidas. Diria mais, um cronómetro com alarme para avisar nos momentos certos. Isso, independentemente de quaisquer circunstâncias. Registe-se então: mete-se o alarme nos 18 minutos quando se começa, passados os quais se volta a marcar, desta vez, entre os 8 e os 13 minutos. A partir daqui já se entrará em excesso, ameaçando a padronizada normalidade dos tempos certos, ou "timings", como agora se diz.

Muito bem, mas tenho uma dúvida. Kristen Mark, da Universidade do Kentucky, entrevistou 14400 pessoas que assumiram desejar que a duração fosse maior do que os 10 minutos de média, número a que se chegou a partir de um inquérito junto de 4000 britânicos. Será que faltarão apenas os 3 minutos para atingir os 13 minutos que a ciência considera o máximo ideal, ou as pessoas gostariam de, em vez dos científicos 13 minutos, fossem 15, 16, 18, 25, quiçá, hora e meia ou até, no caso do sexo tântrico, um fim-de-semana inteiro, apenas com alguns intervalos para comer e ver o telejornal? Se for o caso, e essa é a minha esperança, podemos estar perante um corte epistemológico entre o espontâneo desejo do senso comum e a racionalidade da descoberta científica ou mesmo de um acto de resistência contra a prepotência racional do dogmatismo científico e dos seus mecânicos cronómetros. Quando Reich escreveu A Função do Orgasmo, fê-lo com a convicção de se tratar de um texto revolucionário, centrando a libertação da humanidade no sexo, graças a um enquadramento científico e político. Quem sabe se hoje não será o contrário: ser revolucionário é aprender a resistir a uma visão científica do sexo ou, já agora, de tudo o resto. No caso do sexo, começando por lembrar o mito de Cronos, o qual devorou os seus filhos. 

07 junho, 2018

"Muitas das vezes, quando temos muito tempo para pensar, fazemos asneira."
                                                                                            Jorge Andrade, ex-futebolista (daqui)

Acho magnífico, e até comovente, como alguém que fica para a história por ter dado pontapés e cabeçadas numa bola, entende tão facilmente o que não consegue muita gente que expele inteligência e erudição por todos os poros. Para reforçar o nexo causal que surge na frase, tomo a liberdade de a reformular: "É precisamente pelo facto de se pensar em demasia que muitas vezes se faz asneira". Sobretudo a partir do século XVIII, tendo o século XX as suas manchas impossíveis de remover, houve milhões de pessoas que sofreram na pele e no espírito o efeito de profundos e complexos pensamentos saídos de gabinetes cheios de livros, de cafés europeus onde se discutiram ideias sobre como tornar o mundo melhor, de clubes e organizações onde se organizou a passagem à prática de tais pensamentos. Diz-se que quando o sábio aponta para a lua, o louco olha para o dedo. Acontece que nem sempre é assim. Quer dizer, distinguir o sábio do louco.

Michel de Montaigne, presidente de câmara e vitivinicultor numa zona de bons vinhos como é Bordéus, faz, nos seus Ensaios, uma sugestiva distinção entre jardineiros e botânicos, para explicar como os primeiros podem saber cuidar muito melhor das plantas do que os segundos. Noutra parte da obra a distinção é topógrafos e cosmógrafos, neste caso, para mostrar a vantagem de conhecer bem os terrenos por onde se anda em vez de complexas teorias sobre os mesmos. O problema do pensamento é, muitas vezes, a sua liberdade, pior ainda quando entregue a si próprio durante demasiado tempo, mesmo quando a realidade se encarrega delicadamente de o mostrar. Daí que a melhor maneira de pensar seja por cabotagem. Pensamento por cabotagem. De porto em porto, sempre com a costa à vista, pode-se chegar mais longe e melhor do que com aventuras pelo oceano adentro sem conhecer as águas por onde se navega e sem instrumentos de orientação. O mar livre e aberto dá tempo para todo o tipo de pensamentos, reflexões e experimentações mas também quanto mais nele se avança, maior é a profundidade para quem naufraga.

06 junho, 2018

Na história de Pigmalião temos o escultor que se apaixona pela estátua feminina que ele próprio criou e que, graças à piedosa Afrodite, se transforma numa mulher verdadeira para felicidade do seu afortunado criador. É interessante comparar esta história com a de Caterina Campodonico (1804-1882), humilde vendedora de nozes de Génova. Apesar da sua pobreza, passou grande parte da vida a poupar dinheiro, não só para vir a ser sepultada na zona mais cara do cemitério de Staglieno, mas também pagar ao escultor que viria a fazer a estátua dela para colocar junto ao túmulo.

É tocante a sensualidade e erotismo com que Ovídio, nas Metamorfoses, descreve a experiência de Pigmalião face ao seu modelo de pedra transformado depois em carne. Já a história de Caterina Campodonico não poderia estar mais nos antípodas da anterior: uma mulher que deixa de se interessar pela vida só para poder conquistar uma marmórea eternidade. De um lado, a estátua que deixa de o ser para viver a sua vida de mulher, do outro, a mulher que se anula para fingir viver uma vida de estátua. Seria agora tentador vir aqui lamentar o facto de ter abdicado de tanta coisa ao longo da vida para se tornar numa estátua depois de morta, enfim, o radical oposto do velho carpe diem. Não vou entrar nesse tipo de moralismo até porque respeito a liberdade da sua decisão.

O que sobretudo me interessa na história de Caterina é o modo como acaba por antecipar o século seguinte, aquele a quem alguém chamou o "século do povo". A humilde vendedora genovesa poderia tornar-se uma espécie de padroeira do homem comum do século XX ou, até mais ainda, do século XXI. Os séculos XX e XXI, devagarinho, de mansinho, viriam a ser aqueles onde as estátuas de grandes figuras, boas ou más, não importa, foram perdendo toda a importância pública e privada. D. João I, Camões, D. José, Marquês do Pombal, Saldanha? Estátuas em cemitérios como em tantos do século XIX? Nada disso tem importância hoje, já ninguém ambiciona a sua estátua fúnebre. O que acontece, sim, e de um modo cada vez mais gritante, e, por que não, dizê-lo, escandaloso, é a pretensão de tantas criaturas, que, ao olharem para si próprias, conseguem ver a importância de uma estátua, quando afinal não passam de gente vulgar, insignificante ou até mesmo, nalguns casos, absolutamente desprezível. 

05 junho, 2018

Já me tem acontecido entrar na sala de um museu, olhar de repente para um quadro que nunca tinha visto, por vezes não passando de uma imagem sincrética devido à distância e, mesmo assim, conseguir identificar o autor. Sempre que isso acontece fico bastante satisfeito mas esclareço que isto nada tem que ver com um sentimento de vaidade ou coisa do género. Nem poderia ter. Como acontece com toda a gente, há coisas que sei e coisas que não sei (infinitamente mais do que as primeiras), há coisas que sei e muita gente não sabe (muitas delas não interessam nem ao Menino Jesus) e coisas que muita gente sabe mas eu não sei. Não há pois motivo para vaidades, apenas um prazer privado que nasce e morre naquele preciso momento.

Quem me pode ajudar a explicar tal satisfação é Katherine Weber, num romance chamado A Lição de Música, título pedido emprestado ao quadro de Vermeer com o mesmo nome. Perto do final, diz a narradora que Vermeer "Pintou a nossa maneira de ver, e não apenas aquilo que podemos ver". Na mouche! Parece-me, todavia, que o que diz de Vermeer é extensivo a qualquer outro grande pintor. O que há de especial com muitos pintores não são apenas certas qualidades técnicas. O que faz um grande pintor é sobretudo a sua capacidade de criar um mundo novo, o qual jamais existiria não fosse a sua imaginação. Um mundo no qual depois entramos para reconhecer as suas características únicas e inconfundíveis, que tanto podem ter a realidade empírica como referência, como serem auto-referenciais no caso de caminharem para a abstracção.

Visitar certos pintores é como visitar lugares já conhecidos. Se nos meterem num avião de olhos vendados e horas depois formos largados numa rua ou praça onde nunca tenhamos estado, pode acontecer adivinharmos, ainda que por aproximação, o sítio onde nos encontramos. Há espaços, arquitecturas, atmosferas, pessoas que só poderão existir na Índia, no meio dos EUA, na Argentina, na África, no sul, centro, norte ou leste da Europa. Depois, ruas ou praças que só existirão em Itália, outras na Holanda ou na Bélgica, outras ainda no centro da Europa como é o caso de Viena, Praga ou Cracóvia, recantos que só existem em Lisboa, Paris, Nápoles, Argel ou Marraquexe, certas paisagens que se vêem no norte da Escócia, Ilhas Faroé ou Açores, nunca num mediterrâneo seco e salpicado de oliveiras, figueiras e laranjeiras, enfim, pequenas aldeias que associamos à Arménia, Noruega, Mali, Grécia ou à nossa Beira Baixa.

O mesmo se passa com a pintura. Com quadros para os quais olhamos e logo pensamos no mundo criado pelo seu pintor. Artistas que ao pintarem os seus quadros acabam também por pintar a nossa maneira de os ver, uma vez que olhar para cada quadro implica uma maneira própria de olhar. Cá está! O pintor pinta o que podemos ver quando resolve criar um mundo e sendo assim, o que podemos ver é o que o pintor resolveu que iríamos ver. E tanto assim é, que ainda não vimos o mundo de um pintor que ainda não nasceu e que irá ser criado num futuro próximo. O que implica, também, pintar a nossa maneira de ver. Do mesmo modo que ler um texto é reescrevê-lo na nossa mente, aprendendo a ler com os textos que os escritores escreveram, aprender a olhar para o mundo de um pintor é aprender a pintar com os olhos o que ele previamente pintou com a mão. Daí o prazer de reconhecer um quadro que vemos a primeira vez, o prazer de ter aprendido a pintar com os olhos, movimentando-nos naquele mundo com o à vontade com que nos movimentamos na nossa própria casa, ainda que de olhos fechados.

31 maio, 2018

PUREZA E PERIGO


Uma das primeiras coisas que aprendemos na escola é a diferença entre substantivo e adjectivo. Mas uma coisa é a gramática, outra o pragmatismo da vida. Isto porque existem palavras que sendo substantivos tornam-se igualmente adjectivos em função de certos contextos sociais e idiossincrasias, qualificando negativamente ou positivamente as pessoas. Por exemplo, substantivos como "comunista", "empresário", "toureiro", "americano", "judeu", "preto", "político" e tantos outros.

Substantivo que se tornou agudamente adjectivo é "mulher". Não no mundo normal, pois para a esmagadora maioria das pessoas uma mulher é apenas uma mulher mas para certas mulheres cuja imaginação mistifica o que a esmagadora maioria das pessoas pensa sobre uma mulher. É assim que funciona o interior de cabeças como a de Isabel Moreira. Falo de Isabel Moreira apenas devido a esta recente indignação a respeito deste filme. Eu não conheço Isabel Moreira, o que até me deixa bastante feliz e aliviado, embora haja sempre o risco de um dia passar por ela na rua pois pode dar-se o caso de olhar para ela durante mais de três segundos, o que me pode trazer consequências desagradáveis. Porém, ao contrário do que se passa com a mente de um morcego, é muito fácil saber o que acontece no interior da sua sempre que surge qualquer referência, comentário, imagem, enfim, qualquer coisa, que envolva mulheres.

Pronto, o filme é muito mau e só a minha enorme paciência me permitiu chegar ao fim, mas também não é isso que importa. Limita-se e mostrar uma mulher em sofrimento associado ao tabaco, vendo-se, através de várias analepses, o contraste entre o presente e tempos felizes em que ainda tinha saúde mas onde a presença do cigarro, à época, inocente, se revela, a posteriori, terrivelmente ameaçadora. Apenas isto, e nada no filme mostra que uma mulher, por fumar, vai "ser mal-amada, não vai encontrar o amor ou desproteger os seus filhos". Por sinal, acaba por ser precisamente o contrário, o que qualquer pessoa normal consegue ver. Mostra, sim, que fumar faz mal, neste caso, uma mulher, tal como aconteceria se fosse com um homem.

De acordo com o fascismo isabelino, o problema aqui é mesmo ser uma mulher, presumindo eu que aceita o facto de fumar fazer mal à saúde. Se fosse um homem na mesma situação, tudo seria normal pois um homem doente é apenas um homem doente. Já uma mulher doente não pode ser apenas uma mulher doente, tendo que existir um qualquer sentido latente escondido no conteúdo manifesto, o qual tem de ser desconstruído. Ora, é precisamente aqui que se pode constatar uma doentia e fanática obsessão face à substantiva pureza  da mulher. Do mesmo modo que, num filme, um preto não deve surgir associado a nada de negativo sob pena de se estar a incitar crenças e sentimentos racistas, também uma mulher deve estar protegida de qualquer tipo de impureza que possa manchar a sua identidade. Se uma mulher grita é histérica. Se uma mulher está deprimida é porque as mulheres são depressivas, se uma mulher política tem mau feitio ou uma mulher executiva é pérfida é porque estamos a achincalhar mulheres com sucesso social. Em suma, uma mulher tem de ser pura, não no sentido de ter de casar de branco e com um ramo de laranjeira na mão mas de manter uma imaculada identidade pessoal e social.

Porém, trata-se de atitude totalitária e persecutória em que o feitiço se vira contra a feiticeira. Quanto maior for esta doentia necessidade de salvaguardar a identidade da mulher, de a proteger de todos os perigos e ameaças, mais se evidencia o facto de não ser a mulher, ao contrário do homem, apenas um género revestido de normalidade. Não se trata aqui de defender a mulher face a situações de discriminação que já não deveriam existir, lutando por uma normalidade e equidade a que obviamente tem direito. Trata-se, sim, de continuar a alimentar a fragilidade da mulher como na história da princesa e da ervilha. Enquanto houver uma simples ervilha por baixo de vários colchões, a mulher irá continuar a sentir-se ameaçada. O que nunca acontecerá com um homem, ainda que durma sobre sacos de ervilhas. Ai que bom ser homem!

30 maio, 2018

Homem de poucas certezas, hoje, ao entrar no elevador, consegui ter uma. Pior do que um mau livro, uma má canção, um mau filme ou uma má pintura, é um  mau perfume.

29 maio, 2018

Frequentar com alguma assiduidade um lar de idosos é bastante esclarecedor sobre a importância do sentido da vida para justificar a própria vida. Ver velhos, todo o dia sentados no mesmo sítio, em silêncio, abúlicos, a olhar para o chão, para uma parede ou, o que vai dar no mesmo, uma televisão, sem receberem visitas ou terem alguém a pensar neles, sem terem que fazer, que pensar, que dizer, que esperar e, mesmo assim, não só não querem morrer como ainda têm medo de morrer, torna fútil uma discussão racional com vista a uma qualquer legitimação do desejo de viver. Podemos invocar mil e uma razões para querermos viver. Mas a mais importante, a que verdadeiramente conta, é a mesma de uma anémona ou do mais insignificante dos insectos.

26 maio, 2018

A ESTETICIZAÇÃO DO ABISMO



Ao longo de vários anos, entre 1838 e 1865, o compositor Franz Liszt foi transcrevendo para piano as nove sinfonias de Beethoven. Ouvi-las assim permite uma experiência mais intimista e mais próxima da sua construção original, anterior à sua monumentalidade orquestral e vocal. É quase como estar perante o seu genótipo. Ora, foi a transcrição da nona sinfonia que ontem resolvi meter na aparelhagem para me ajudar na árdua tarefa de passar uma montanha de roupa a ferro. Entretanto, vou no 3ªandamento quando, de repente, me vem à cabeça o Paco Bandeira. Pode ser chocante mas inevitável a partir do momento em que já se ouviu várias vezes a Ternura dos 40. Razão tinha Nietzsche quando dizia que quando se olha muito para o abismo, o abismo passa a olhar também para nós. Talvez isso ajude também a perceber por que razão Luís II se exilou em Neuschwanstein: procurar, romanticamente, o abismo que julgava merecer.

24 maio, 2018


Foi através de Albino Forjaz de Sampaio (Palavras Cínicas) que conheci Georges Rochegrosse, pintor, ilustrador e gravador francês. Não foi uma grande descoberta. Basta pensar um bocadinho no que foi a pintura francesa do século XIX e depois olhar para a de Rochegrosse para logo se perceber estarmos noutra dimensão. Também é verdade que Forjaz de Sampaio não se refere ao artista ou à obra mas apenas a este trabalho, que se apresenta com dois títulos, "Angústia Humana" ou "A Corrida da Felicidade". Mas embora a sua visão seja correcta, torna-se demasiado descritiva, limita-se a registar o que os olhos vêem: o modo como as pessoas estão vestidas, os empurrões, as pisadelas, os socos, os rostos doentes, a condição dramática e agónica de toda aquela gente, da competição, da ambição, do desejo de poder, quando, afinal, o que os espera, lá no alto, é a morte. Porém, não fala do que me parece ser o mais importante: sobem para quê?

Todos nós procuramos bens que não são fins em si mesmos mas meios para atingir outros bens. A gasolina é um bem necessário para outro bem que é pôr um carro a andar, enquanto meio para outro bem que é poder ir ao médico, enquanto meio para se obter outro bem que é uma receita, enquanto meio para outro bem que são os comprimidos, que são um meio para se conseguir outro bem que é dormir melhor, que é um meio para outro bem que é uma pessoa sentir-se bem durante o dia. Chegados aqui, já ninguém pergunta para que serve uma pessoa sentir-se bem durante o dia. Os mais empreendedores ainda poderão dizer que sentir-se bem é um meio importante para trabalhar melhor, ser mais produtivo. Sim, também. Mas sentir-se bem é um estado que toda a gente procura seja em que circunstância for, inclusivamente quando se pretende não fazer absolutamente nada.

Ora, é este tipo de exercício que deve ser feito ante a deprimente cena pintada por Rochegrosse. Por que deseja toda aquela gente subir tanto? Que tipo de bens procuram e por que os procuram? Dinheiro? Poder? Prestígio?  À partida, não há nada de errado em querer dinheiro, poder ou prestígio. A questão é quando o desejo de ter dinheiro, poder ou prestígio conduz a uma luta sem fim e é precisamente neste ponto que está o valor da cena. Rochegrosse começa por baixo mas eu prefiro ir logo à parte de cima. Olhemos para as pessoas que estão no topo, já com os braços livres para os esticar. Suponhamos agora que estas mesmas pessoas irão ser ultrapassadas pelas que estão imediatamente abaixo delas, as quais, depois, irão ser igualmente ultrapassadas por outras. Ora, por muitas ultrapassagens que possam existir, por muito grande que seja escalada, acontece a esta torre humana o mesmo que com a bíblica Torre de Babel: sobe, sobe, sobe, mas nunca chegará a um fim. Por muito que subam e se espezinhem subindo, será sempre o ar, o vazio, o nada, que irão encontrar e, em última instância e inevitavelmente, a morte. Trata-se de saber se toda esta existência agónica, toda esta luta, corrida, ansiedade, angústia, conduz àquele bem que Aristóteles, na Ética a Nicómaco, considera ser o mais valioso dos bens e, este sim, o verdadeiro fim em si mesmo: a felicidade. Parece-me que esta corrida, mais do que ser uma corrida de cada um contra todos os outros será uma corrida de cada um contra si mesmo, sendo a derrota o mais provável dos fins.

23 maio, 2018

Depois de uns cinquenta anos a ver filmes, tenho dificuldade em eleger um que possa considerar o da minha vida. Porém, ainda hoje, e desde há muitos anos, o meu início de filme preferido continua a ser o de Lágrimas e Suspiros e o meu final preferido continua a ser o de Aconteceu no Oeste. Posso não ter o filme mas tenho as suas perfeitas pontas. Bom seria, tentando chegar a uma perfeição ainda maior, poder juntar aquele começo e aquele final num mesmo filme, dando origem a uma perfeição maior. Mas por muito estimulante que seja o exercício não me parece possível um filme com aquelas duas pontas. Juntar perfeições nem chega a ser condição necessária ou suficiente para outras perfeições. Não é, simplesmente, condição. Direi mesmo não serem raras as vezes em que ao se tentar juntar perfeições, dá-se origem a tremendas e absurdas imperfeições.   

21 maio, 2018

ENTRE ASPAS E DEDINHOS

Garotos, ainda vá, mas adultos passarem a vida a dizer "entre aspas", erguendo ligeiramente os braços para fazer o gesto com os dedinhos, embora cómico, não deixa de ser confrangedor. Imaginemos um português, cuja língua não tem o "do" inglês, sendo tão inexpressivo a falar que fica sem conseguir colocar a voz no tom certo para dar à frase o seu sentido interrogativo ou exclamativo. Dirá então: "Olha, a que horas vais ter ao café, ponto de interrogação". Ou: "Este bacalhau está mesmo delicioso, ponto de exclamação." Pronto, dizer "entre aspas", com os dedinhos a dar a dar, vai dar no mesmo. Raios, custa assim tanto dizer "grosso modo" quando falta a palavra exacta ou mais directa (sem termos de reduzir os outros a uma espécie de autistas que reduzem toda a linguagem a um sentido literal) para o que é preciso transmitir? O modo pode ser grosso mas a língua portuguesa sairia bem mais fina, embora também seja verdade que a fineza já teve melhores dias.

20 maio, 2018

OLHA PARA O QUE EU DIGO


Do mundo, interessa-me apenas a dose certa para manter o equilíbrio entre o meu mundo privado e a parte daquele em que me calhou viver. A leitura diária de um jornal e uma hegeliana oração matinal de 20 minutos que consiste em consultar as capas de jornais nacionais e internacionais (com ligação ao que me faz levantar as orelhas), permite-me saber o que se passa para além da minha rua.

Basta isto para perceber a mera lógica alfandegária do fim das fronteiras. Em Portugal, não se fala noutra coisa senão em Sócrates, Pinho ou Bruno. Chega-se ali a Badajoz e já ninguém sabe quem é Pinho ou Bruno, e de Sócrates só os mais politizados terão uma vaga ideia. Entretanto, este assunto chega a Elvas e mais parece a parte final da  imponente onda que já só lambe a areia. Mas é pena pois é bem mais estimulante. Os casos de Sócrates, Pinho ou Salgado são, sem dúvida, políticos e merecedores de introspectiva reflexão em congresso. Mas são sobretudo casos judiciais, enquanto o de Bruno não passa de um problema de gestão desportiva de um clube de futebol.

Já o caso de Pablo Iglesias e Irene Montero tem uma natureza mais ideológica e que me motiva duas questões: 1. Pode alguém como uma ideologia anticapitalista ser rico ou ter um estilo de vida apenas ao alcance de quem é rico? 2. Não sendo rico, pode pedir empréstimos bancários para ter um estilo de vida apenas ao alcance de quem é rico? Fico-me só pela discussão ideológica, pondo de lado a habitual espuma dos dias, como é o caso da virginal reacção do dirigente espanhol ao problema ("Sou sincero, não imaginava que isto iria provocar um debate e notícias destas dimensões"), a fazer lembrar a reacção do presidente do Sporting quando se refere aos incidentes de Alcochete como sendo "chatos", ou o facto de ter afirmado há uns anos que um político como Luis Guindos não merece qualquer confiança do povo, por comprar uma casa por um valor... próximo daquele com que o casal fez agora a sua hipoteca.

Pablo Iglesias e Irene Montero, sendo deputados, têm um nível de vida que lhes permite a hipoteca de uma moradia de luxo, com piscina, jardim e casa de hóspedes. Mas não deveriam fazê-lo, e não se trata apenas de proteger a imagem de alguém cujo estilo assume ostensivamente, e até narcisisticamente, uma posição de contra-corrente face ao sistema que tanto criticam, lembrando os primeiros cristãos face à hierarquia político-religiosa judaica. É muito mais do que isso: a vertente anti-capitalista e modelo de sociedade preconizado pelo Podemos é incompatível com o facto de haver pessoas ricas ou cujas vidas impliquem a posse de certos bens considerados luxuosos.

Pode dizer-se que a partir do momento em que "ainda" não se vive no tipo de sociedade que a sua ideologia defende, essas pessoas não são mais, nem menos, do que as outras, tendo o direito de usufruir dos mesmos bens. Mas isso é como uma pessoa ser fortemente contra a corrupção mas, atendendo ao facto de esta existir, não querer ficar em desvantagem, sem acesso a bens resultantes de actos de corrupção. Não dá, pois estamos a falar de princípios e não de um contrato que deve ser cumprido pelas várias partes. Militantes de qualquer partido anticapitalista, que não gosta da economia de mercado e que luta contra os interesses de quem, graças a essa economia, se demarca da restante sociedade, não podem sequer sonhar em ter uma casa ou carro cuja posse só é possível em virtude dos benefícios tornados possíveis por esse modelo de sociedade que combatem. Desejar, isso sim, uma casa ou um carro cujo valor médio corresponde à casa ou carro possíveis em função do tipo de economia e sociedade que defendem. Pelas mesmas razões, nem pensar em frequentar restaurantes de luxo, vestir roupas de marca, perfumes que não sejam os que se vendem no supermercado, dormir em hotéis com mais de duas estrelas, em suma, todo o tipo de bem que apenas existe porque existem elites sociais e económicas tornadas possíveis por uma economia de mercado.

Como bom partido populista, diz o Podemos que nem é de esquerda ou de direita, velhas categorias que já não respondem aos problemas da actual sociedade. É, sim, contra males, como a existência de privilegiados e não privilegiados ou de uma minoria enriquecida e uma maioria empobrecida. Pois bem, percebe-se que o Podemos quer acabar com os pobres, o que só lhe fica bem. Mas, pelos vistos, também não se dá bem com os ricos. Acontece que uma sociedade em que os pobres passem todos a viver como os ricos é impossível. A existir igualdade social nunca será por cima mas por baixo ou pelo meio. Por baixo, sim, é fácil, basta pensar nos países que foram e ainda são inspirados por ideologias anti-capitalistas. Pelo meio, também é possível mas para isso são necessários modelos que contrariam o projecto social e económico de partidos como o Podemos.

Pablo Iglesias e Irene Montero fazem muito bem em desejar uma moradia de luxo. Apenas deveriam mudar de partido para o fazer. Mas também é natural que, nesse caso, tivessem mais dificuldade em ser eleitos e, assim, usufruir do vencimento de deputado que permitiu a hipoteca que tanto desejaram. 

19 maio, 2018

A NOITE E OS RISOS


Já me diverti com bastantes livros. Mas sou tão pouco dado às gargalhadas, àquele espasmo sonoro que sai tão impetuoso e inesperadamente, que consigo lembrar-me bem do sítio e momento em que raras vezes me saíram diante de um livro. A primeira, devo-a a Eça, tinha eu 20 anos, altas horas numa daquelas noites que passava a ler durante as férias. A última foi hoje de manhã e devo-a de novo ao génio de Eça. Não sei se é para fechar um círculo mas também não é coisa que importe. O que sei é que, indo um dia desta para melhor, serei menos um que um dia deu queirosianas gargalhadas. Sendo cada pessoa um simples átomo, a sua morte representa apenas o fim das memórias desse átomo. Nada de dramático, portanto. Mas será bem triste o tempo em que Eça irá deixar de ser lido, morrendo, a jusante, os sorrisos, risos ou gargalhadas que, a montante, começaram a ser escritos pela sua pena fina e mordaz. Entrar numa igreja ou palácio em ruínas não deixa de ter o seu encanto romântico e serena melancolia. Um livro de Eça que deixar de ser lido é como uma catedral submergida mas que, ao contrário da tocada por Debussy, ficará irremediavelmente perdida no fundo do mar e com os seus risos silenciados pela escuridão.

16 maio, 2018

CADEIA CAUSAL


Eis, rapidamente, o que se entende por cadeia causal, servindo-me da definição de Simon Blackburn: "A sequência de acontecimentos que conduz a um certo efeito final , onde cada membro da sequência causa a ocorrência do membro seguinte." Numa mesa de bilhar, colocamos várias bolas seguidas, ligeiramente afastadas umas das outras. Damos uma tacada na primeira que, depois, vai bater na segunda que, depois, vai bater na terceira e assim sucessivamente. O encadeamento é tal que, para perceber o modo como as bolas ficaram distribuídas no final, teríamos de filmar o processo para, depois, com a imagem a andar para trás em câmara lenta, podermos estabelecer todas as ligações causais. Trata-se, neste caso, de uma situação puramente física. Mas podemos aplicar a mesma ideia a tudo, incluindo as nossas vidas, para explicar todo o processo de causas e efeitos que levou a sermos o que somos e por que somos, o que fazemos e por que fazemos, o que nos acontece e por que nos acontece.

Pronto, agora já posso falar desta fotografia (Ivor Prickett, World Press Photo 2018, categoria General News, First Prize Stories). O seu centro é claramente o rosto  luminoso da menina, é para esse rosto que se dirige tão naturalmente o nosso olhar como uma pedra que cai na direcção do chão. Mas o rosto luminoso, livre e aberto da menina não está só. Está apertado entre duas mulheres de preto e rosto coberto, abraçando a da frente em busca de protecção. Não fosse a menina e teríamos uma uniforme e monótona sequência de mulheres vestidas de preto e rosto coberto.

Mas podemos ver a fotografia noutro prisma e agora, sim, volto à cadeia causal. Esta menina mostra aqui o seu rosto luminoso, livre e aberto porque é uma criança. Se esta mesma fotografia fosse feita num futuro próximo, já não iríamos ver o seu rosto mas apenas mais uma mulher de preto e cara tapada.  É neste sentido que podemos estabelecer, para além da ordem visual da fotografia, uma ordem lógica. Nas duas mulheres entre as quais se encontra a menina, podemos desvendar tanto o seu passado como o seu futuro. A mulher de trás é o mundo que já existia antes desta menina e que a recebeu. Nasceu ali, no mundo daquela mulher de preto, não na Dinamarca, Uruguai, Canadá, Quénia ou Nova Zelândia. Mas é precisamente por ter nascido nesse mundo que a menina irá ser um dia como a mulher da frente. O que esta fotografia nos mostra, por isso, é uma nesga de luz entre um passado e um futuro negros, num mundo onde o rosto das mulheres não é livre e aberto, podendo, como no caso ainda desta menina, mostrar a sua luz.

15 maio, 2018

HARMONIA DOS CONTRÁRIOS





Uma dicotomia implica uma diferença mas duas coisas diferentes apenas circunstancialmente serão dicotómicas. Peixe, árvore, carro, livro, são coisas muito diferentes mas não dicotómicas. Pensar em peixe, não leva a pensar em árvore, pensar em árvore, não leva a pensar em carro, pensar em carro não leva a pensar em livro. O que há de quase paradoxal numa dicotomia é o facto da oposição radical entre duas coisas acabar por uni-las num todo em que a existência de uma implica a existência da outra: bem/mal, norte/sul, sagrado/profano, aberto fechado, céu/inferno, deus/diabo, guerra/paz

A primeira coisa que me passou pela cabeça quando vi esta fotografia de Francesco Pistilli (World Press Photo 2018, nomeação na categoria General News) foi este quadro de Sorolla. Há muitas imagens que fazem pensar noutras. Nada mais natural do que olhar para um ou outro quadro de Bruegel e vir à memória um de Bosch, e o mesmo se pode passar entre George Grosz e Otto Dix ou entre Monet e Pissarro. Associação que ocorre em virtude de uma semelhança, seja no todo, seja num pormenor. Mas isso faz apenas com que se interseccionem, partilhem um ponto comum, o qual, se não existisse, anularia qualquer associação. Mas mesmo havendo as semelhanças entre duas coisas, são sempre contingentes ou relativas. Qual é a semelhança entre um leão e um caracol? Nenhuma. Mas se pusermos o leão e o caracol ao lado de um micro-ondas, passam a partilhar semelhanças: são seres vivos, alimentam-se, movimentam-se, etc..

O que acontece entre a fotografia e a tela de Sorolla é uma ligação que resulta de cada uma ser a absoluta negação da outra. Já não se trata, como no caso anterior, de encontrar um ponto comum ou uma semelhança relativa e contingente mas de poder ver melhor uma através da outra, pois cada uma é, radicalmente, o que a outra, radicalmente, não é. Ver Clotilde, mulher de Sorolla, e uma das filhas, mergulhadas num manto de brancura revela serenidade, pureza, harmonia, tranquilidade, conforto, lar, amor, tudo isso assegurado, e mesmo reforçado, pela força monocromática da tela.  Na fotografia, por sua vez, há também uma figura humana quase submergida na cor. Mas desta vez para revelar a experiência absolutamente contrária: solidão, abandono, perdição, desconforto, depressão, exílio, total ausência de amor. Tudo isso, como na tela de Sorolla, reforçado por uma força monocromática mas de sentido contrário.

Nunca mais irei pensar numa sem pensar na outra, seja qual for a ordem.

14 maio, 2018

O INSTANTE DECISIVO



Wilhelm Dilthey é um filósofo alemão do século XIX, pouco conhecido mas que teve um papel importante ao distinguir duas áreas do saber: as ciências da natureza e as ciências do espírito. Uma coisa é explicar fenómenos meramente causais, mecânicos, físicos, como são os naturais; outra é compreender situações vividas por seres humanos, movidos por desejos, emoções, sentimentos, ideias. Explicar é o que faz uma ciência como a Biologia perante o comportamento das formigas ou o efeito de um aminoácido num organismo. Já a História, perante factos como a Magna Carta, a Revolução Francesa ou as angústias existenciais e morais do PS, o que tem de fazer é compreender.

A conversa vem a propósito desta fotografia de Ryan Kelly, 2ºprémio da World Press Photo 2018, na categoria "Spot News". O que aqui se vê são pessoas que protestavam contra uma manifestação de extrema-direita, sendo atropeladas por um supremacista branco. Dificilmente conseguimos imaginar um instante mais decisivo e irrepetível do que este impressionante congelamento da acção. Um segundo antes ou depois e perdia-se o momento. No entanto, o que aqui vemos é simplesmente o microscópico instante de uma sequência temporal, impossível de captar a olho nu. Mas se a situação tivesse sido acompanhada por uma câmara de filmar que estivesse ali com o simples e ingénuo objectivo de fazer a reportagem da manifestação, apanhando por acaso o atropelamento, poderíamos igualmente ver toda a milimétrica sequência através dos seus fotogramas, até chegarmos ao que iria coincidir com a fotografia. Trata-se apenas de um facto neutro em que se vêem corpos e objectos numa determinada posição devido a uma sequência de causas e efeitos. Lembra o que diz Platão, no Fédon, quando se trata apenas de explicar o que acontece num corpo humano que caminha na rua, através do movimento dos ossos, músculos, tendões, órgãos, etc.

Ora, muito diferente é o "instante decisivo" de que falava Henti Cartier-Bresson. Dizia ele que, na fotografia, o assunto não é dado pelo facto, o qual, em si mesmo, não tem qualquer interesse. O que verdadeiramente importa é saber olhar para o facto mas para compreender a sua profundidade, a qual, muitas vezes, também não é vista a olho nu. Daí que uma boa fotografia envolva simultaneamente "o cérebro, o olho e o coração".  A fotografia é, neste sentido, como dizia Leonardo da Vinci a respeito da pintura, cosa mentale, transmitindo, não uma simples realidade física ou factual mas uma impressão. Por isso não faz sentido «disparar o obturador como uma metralhadora, fotografando rápido e mecanicamente, enchendo-nos de coisas inúteis que confundem a memória e prejudicam a nitidez do todo». O instante decisivo é um momento único e irrepetível como o da fotografia lá em cima mas buscando um significado que só a máquina pode desvendar graças à argúcia e sensibilidade do fotógrafo.

Voltando a Platão, uma coisa é explicar o movimento do corpo através de uma causalidade física, outra será compreender por que se movimenta. É o corpo de alguém que vai trabalhar, namorar, almoçar, comprar o jornal? E se vai comprar o jornal, qual será e por que razão é esse que compra? Vai triste, alegre, pensativo, contrariado? E o que haverá de insólito no seu andar, nos seus gestos, no seu olhar, e que os músculos, os tendões e os ossos só por si não podem explicar? É por isso que esta fotografia, ao contrário das muitas de Henri Cartier-Bresson, nada me diz. Satisfaz a nossa algo fútil e caprichosa curiosidade em vermos o que não conseguimos a olho nu, podemos ainda gabar a qualidade da máquina ou a apurada técnica do fotógrafo, as quais tornam possível tão espectacular fotografia, e pronto, já está. Parece-me pouco.   

13 maio, 2018

O QUADRO NA PAREDE DA SALA


Podem ser várias as justificações para se gostar ou não de um quadro. Umas mais espontâneas, intuitivas e ingénuas, outras mais técnicas e racionais, outras ainda tão tortuosas que duvido que os próprios as consigam entender se pensarem nelas uma segunda vez. Eu confesso ter há muito um critério que, humildemente, aceito ser considerado bastante estúpido: gosto de um quadro se desejasse tê-lo pendurado numa parede da minha sala no caso de isso ser possível. Se, pelo contrário, essa ideia me suscitar indiferença ou antipatia, significa que me é indiferente ou que não gosto dele.

Estarei, assim, a pôr a pintura no mesmo plano do cortinado, do tapete, do abat-jour, uma vez que o critério que me leva a gostar ou não deles também tem que ver com a maneira como os imagino e desejo na minha sala? Uma semelhança que pode soar algo insultuosa para a pintura, baixando-a à condição de simples decoração (nem sequer de arte decorativa), entrando mesmo em contradição com o irritante marketing das lojas dos museus que vendem abat-jours, cinzeiros, tabuleiros de cozinha, chapéus-de-chuva com belas pinturas estampadas, ou desta linha da Louis Vuitton.

Porém, tal semelhança entre a pintura e o cortinado não significa que pintura e cortinado tenham de ser semelhantes. O facto de ter gambas e um bolo de chocolate no frigorífico porque ambos me dão prazer não significa que a minha relação com as gambas seja a mesma que tenho com o bolo de chocolate. O facto de um gato e um elefante terem em comum não serem apenas seres vivos mas também animais, vertebrados e mamíferos, não significa que a minha relação com um gato seja a mesma que possa vir a ter com um elefante. Também gostar de ver um quadro na minha sala não significa que lá esteja pela mesma razão do cortinado que também gosto de ver e que olhe para ele da mesma maneira. Significa que gostaria de o ver como quadro e que passaria a gostar ainda mais da minha sala pelo simples facto de ele lá estar para o ver.

Qual a razão por que vou a um museu? Ou escolho um museu em vez de outro? O que me leva a ir um museu só para ver três quadros por não ter tempo para mais? E por que razão fico em pulgas só de pensar que vai haver uma certa exposição? A resposta é muito simples: poder ver, à minha frente, de nariz encostado, todos aqueles quadros. Se vou lá é porque gosto de os ver e se gosto mesmo muito deles não me irei cansar de os ver. É como certas músicas que oiço há mais de 40 anos ou textos que terei sempre prazer em reler. Ora, se me dirijo propositadamente a um sítio só para poder ver um quadro que me dá prazer, imagine-se o prazer que seria poder vê-lo na minha sala. Um prazer que é diferente do proporcionado pelo cortinado, pelo simples e bastante óbvio facto de um quadro ser um quadro e um cortinado ser um cortinado.

Por outro lado, o critério que me leva a gostar da ideia de ter um quadro na minha sala não é apenas o da beleza, o qual me parece ser o único do cortinado. Eu não acho o Metropolis, de George Grosz ou o Guernica, de Picasso, belos quadros. Podem ser muita coisa mas bonitos não são. Mas são excelentes quadros que me dão muito gosto ver e gostaria por isso de os poder ver numa sala minha (algo difícil no caso do segundo). A relação que temos com um quadro pode ser como a que temos com certas pessoas. Há pessoas que gostaríamos de poder ver todos os dias, outras com as quais gostamos de estar de vez em quando e outras ainda que queremos é vê-las pelas costas. E pelas mais distintas razões com todas elas.

O critério da parede da sala é um critério que remete para o plano da intimidade, de uma feliz rotina que contribui para tornar a vida mais confortável, harmoniosa e espiritualmente rica. Precisamente o que não consigo ver em muita obra que se faz por aí. Admito que algumas possam ser muito interessantes e inteligentes, e que até possa gostar de as ver no museu. Mas do mesmo modo que posso ter gostado do empregado que me serviu muito bem no restaurante, não implicando isso que queira fazer dele meu amigo ou voltar a encontrar-me com ele fora do restaurante, também posso gostar de ver uma certa obra que não me deixe uma especial saudade ou me faça sentir o desejo de voltar a vê-la. O que não acontece com as obras de que gosto, as tais que nunca me canso de ver e que bem gostaria de ver penduradas na minha sala. Este, claro, é o meu primeiro critério. Agora, por que gosto de cada uma individualmente já dependerá das mais díspares razões, as quais muito dificilmente conseguiria reduzir a um simples e único critério comum. 

12 maio, 2018

ESTÉTICA E MORAL





Dentro da complexa relação entre o conceptual e o sensível, existe na arte uma também complexa relação entre o seu conteúdo moral ou socialmente aversivo e o belo. Fará sentido olhar para uma pintura ou fotografia onde se revelam situações horríveis mas induzindo no receptor um prazer estético? Vemos uma situação horrível mas, ao mesmo tempo, isso que vemos é também belo. Uma tensão que, entretanto, é bem mais evidente na pintura ou da fotografia do que na música ou na literatura.

A música, sendo feita de sons, afecta directamente o sistema nervoso central como um dedo numa ferida, podendo dar origem a reacções internas (alegria, tristeza) e externas (rir, chorar, dançar, abanar a cabeça, bater o pé no chão). Sendo o ouvido um órgão mais abstracto do que o olho, isso torna possível fazer da beleza da música a causa do seu dramatismo e consequente emoção no ouvinte. Daí não fazer sentido considerar a Sinfonia nº3 de Gorecki bela «apesar» da tristeza dos seus temas. Faz sentido, sim, dizer que é «por causa» da sua beleza que a tristeza dos seus temas sai reforçada, induzindo no ouvindo um sentimento moral. Ora, sendo a palavra ainda mais abstracta do que o som, isso faz com que na literatura, sobretudo na poesia, o mesmo aconteça com qualquer  texto cujo tema seja aversivo (guerra, miséria social, morte, solidão, desgosto amoroso), contribuindo a beleza do discurso para uma maior consciência daquele.

Chegados à pintura e à fotografia, a tensão aumenta, sendo estas duas fotografias disso um bom exemplo. Ambas denunciam situações horríveis, sensibilizado o receptor para o problema, mas sendo ao mesmo tempo duas belas fotografias, diria mesmo, esteticamente irrepreensíveis, tanto na construção do desenho como no plano cromático ou no da luminosidade. Na primeira, vemos um jovem rinoceronte branco, drogado e vendado, pouco antes de ser libertado, tendo obtido o primeiro prémio da World Press Photo 2018, na categoria «Ambiente». Na segunda, uma das nomeadas para fotografia do ano, ainda no mesmo concurso, temos uma rapariga raptada pelo Boko Haram, cujo destino seria uma missão suicida, tendo conseguido fugir. Em ambos os casos, e ao contrário do que se passa com o som e a palavra, estamos perante o que em Psicologia se designa por «dissonância cognitiva» e que serve para explicar, por exemplo, como é possível ter ideias e crenças negativas em relação ao tabaco mas, ao mesmo tempo, adorar fumar. No caso destas duas fotografias chego mesmo a desenvolver um certo sentimento de culpa por me suscitar o mesmo tipo de prazer estético que sinto perante certos quadros cujos temas sugerem felicidade e harmonia ou são moralmente edificantes.

Trata-se, por isso, insisto, de uma relação complexa uma vez que o elemento propriamente estético, em vez de reforçar, poderá mesmo ofuscar a nobreza moral da arte comprometida com causas sociais e políticas retirando-lhe toda a violência que também podemos ver quando, a olho nu, assistimos a um verdadeiro massacre, corpos decepados, imagens manchadas de sangue ou pessoas exprimindo um sofrimento atroz. A textura visual, bem diferente da sonora ou do que acontece com a palavra, que nem textura tem, funciona, nestas situações, como um bálsamo apolíneo cujo efeito esteticizante apazigua a nossa relação com o tema, tornando-a mais fútil e superficial.

11 maio, 2018

OLÍMPICO CATOLICISMO


Pronto, tenho que admitir, o meu espírito pagão já teve melhores dias. Ontem, dia da espiga, dia de ir para o campo celebrar a fecundidade e primaveril renovação da natureza, resolvi entrar em duas igrejas, separadas por poucos metros no Chiado e nas quais nunca havia entrado, apesar de passar por elas vezes sem conta: a Basílica dos Mártires e a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação. Entro na primeira e logo encontro imensos turistas com ar nórdico. Talvez em virtude de também ali estar na condição de turista, resolvi fazer um exercício mental: transfigurar-me em homem alto, loiro, de olhos azuis, falando uma daquelas línguas que a morte falaria se tivesse boca para o fazer, para tentar entender o impacto que aquela igreja iria ter no protestante em que eu me tornara.

Foi tremendo. Começou logo pelo altar principal para onde logo olhei, no extremo oposto da entrada, verdadeiro centro simbólico de uma igreja, que não por acaso se chama cristã. Quem lá estava não era, como seria de esperar numa igreja cristã, um Cristo, mas uma mulher. E uma mulher à qual havia pessoas a rezar. Tentando afugentar o choque inicial, resolvi circular. Do lado direito, uma caixa de esmolas para o culto de Santo Expedito, cheia de placas metálicas colocadas por inúmeros fiéis para agradecer Graças do santo. Olho para a direita, no extremo oposto, vejo uma caixa igual e vou espreitar. Outra caixa de esmolas, também cheia de placas metálicas, mas desta vez para agradecer a São Judas Tadeu. Entretanto, resolvo avançar para observar os diversos altares laterais que percebi existirem. Foi então que dei conta dos altares de Santa Luzia, de Nossa Senhora das dores, de São Miguel Arcanjo, de Santa Filomena, de Santa Cecília e de Santo António.

O alto, loiro e de olhos azuis que há em mim ficou de tal modo atordoado, uma vez que sempre ouvira ser Portugal um país cristão, que agora já nem me lembro se havia por lá algum Cristo. A minha perturbada memória faz-me acreditar que sim mas de tal modo perdido e insignificante no meio de toda aquela overdose hagiográfica, que já nem sei onde estaria e, não menos importante, a fazer o quê. Saí estupefacto daquele católico Olimpo, resolvendo ir então até à igreja vizinha, não sem antes cumprimentar o poeta sentado na Brasileira, na esperança de que o que havia visto não passasse de uma inconsequente excentricidade. Entro e, a medo, tapando um dos meus olhos com a mão, olho lá para o fundo. E o que vejo?  Uma mulher! Novamente, uma mulher como centro daquela igreja cujo nome agora começa a fazer sentido para mim. Foi então já com a voz de Lutero a soar tonitruantemente no meu cérebro "Sola scriptura, sola scriptura, sola scriptura", que resolvo fazer um novo périplo mas apenas para ter a mesma e estranha experiência da igreja anterior.

Saio rapidamente para a famosa luz de Lisboa, desta vez com a noção clara do que já havia lido em tempos mas com alguma dificuldade em acreditar: o catolicismo não é mais do que um politeísmo cujas figuras sagradas, como em Homero, seja na Odisseia ou na Ilíada, vivem no meio de nós, intercedendo ou não por nós, podendo nós ter uma relação melhor ou mais personalizada com uns do que com outros. Em suma, no dia da espiga acabei por não deixar de ter uma experiência pagã, se bem que no interior de um igreja, vá, cristã. Valeram-me os dois pastéis de nata que comi no Camões com canela e açúcar para repor os níveis energéticos tão rapidamente gastos numa igreja católica deste maravilhoso mas estranho país do sul da Europa, abençoado pelo Sol e pelo mar.