08 dezembro, 2016

O COMBOIO

Irmãos Lumière | Chegada do comboio à estação [fotograma]

Os fios que o acaso tece são sobretudo surpreendentes quando ocorrem as mais improváveis coincidências. Um segundo a mais ou a menos, um metro a mais ou a menos, virar à direita em vez de à esquerda ou à esquerda em vez de à direita, e o surpreendente facto que nos leva a dizer com um sentimento de perplexidade «Que grande coincidência!», nunca teria chegado a ocorrer.

O que nunca nos passa pela cabeça é o que nunca chegou a acontecer...por mera coincidência. De igual modo, um segundo a mais ou a menos, um metro a mais ou a menos, virar à direita em vez de à esquerda ou à esquerda em vez de à direita, e teria acontecido o que nunca chegou a acontecer. Nunca nos passa, nem poderia passar pela cabeça. Como diria Parménides de Eleia, não se pode pensar o que não é, não há pensamento ou discurso para o que não existe.

Cada pessoa tem o seu currículo de coincidências para contar: três, quatro, meia dúzia, umas mais impressionantes do que outras. Porém, tão ou mais impressionantes são as muitas, provavelmente bem mais do que as anteriores, coincidências que fizeram com que não acontecesse uma coincidência que teria mudado o rumo das vidas, sem termos sequer consciência de que também elas mudaram por causa do que nunca chegou a acontecer. Nas vidas, para além de sabermos o como e porquê de muita coisa que muda, há também muita coisa que não muda sem sabermos como e porquê, por não sabermos que não chegou a acontecer. Para nós, que só temos olhos para o que é, nada mudou. Mas quem, como Deus ou um romancista,  tem olhos para o que é e o que não é, há mudança precisamente por nada ter chegado a mudar.

Um dos meus contos preferidos de Nabokov chama-se 'Acasos' e é precisamente sobre as coincidências de uma coincidência que não chegou a acontecer. Um casal russo, marido e mulher, separados há cinco anos devido à revolução, sem saberem um do outro, quase se chegam a encontrar na carruagem-restaurante de um comboio na Alemanha, o que teria sido uma grande coincidência resultante de múltiplos acasos. Mas foi também um conjunto de acasos que fez com que, por um triz, tal encontro não chegasse a ocorrer.  Logo depois, ele morre enquanto ela segue o seu percurso em busca dele, sem saberem que estiveram no mesmo comboio, fazendo a mesma viagem. O que no conto acontece e não acontece no comboio é, noutro plano, a própria vida.

05 dezembro, 2016

PHOTOMATON E RADEX


[mais, aqui]

O Manifesto Comunista não foi publicado num ano qualquer. Foi em 1848. Para a história, não é apenas mais um ano, como o de 1847 ou de 1849, ainda que nestes tenham acontecido coisas importantes. Há anos assim. Por cá, 1640, 1910 ou 1974 não são iguais a 1639, 1911 ou 1973. Em França, 1789 distingue-se bem de 1788, mas já em Inglaterra 1688 e 1689 surgem associados, o que não acontece com os vulgares pares de 1686 e 1687 ou 1690 e 1691.

Nesse ano de 1848, um ano conhecido por 'Primavera dos Povos', um ano de revoluções na Europa, de grandes esperanças e confiança no futuro, são deveras impressionantes a auto-confiança e optimismo do Manifesto enquanto cartão de apresentação de um mundo novo. Todavia, ontem, ao consultá-lo, não pude deixar de me surpreender com esta passagem cujo impacto talvez tenha sido acentuado pelas melancólicas feições de um dia cinzento e chuvoso:

«Todas as relações fixas e enferrujadas com o seu cortejo de vetustas ideias e concepções são dissolvidas, todas as novas que vão surgindo ficam velhas antes de terem um esqueleto que as suporte. Tudo o que é sólido e estável se volatiliza [...]»

Num texto tão revolucionário e triunfal como é o Manifesto, qual ode proletária, qual salmo vermelho que anuncia a gravidez de um futuro mais-que-perfeito, em que se ouve a uivante locomotiva da história com as suas rodas e engrenagens, em que se sentem os espasmos de um mundo novo, esta passagem surge com a cruel e amarga sapiência de um coro grego. Não deixa de ser estranho ler isto pouco mais de 150 anos depois, olhando para o futuro do Manifesto como sendo o nosso passado. É quase como estar com o professor John Keating, vendo fotografias dos já todos mortos antigos alunos quando eram jovens. Não se trata de um juízo de valor, de um desejo, de uma impressão subjectiva. Nada disso, é a violência atroz do tempo na textura da realidade, tão objectiva e cruamente como um coração desenhado num cimento ainda fresco.

Um dia cinzento e chuvoso pode ser a causa de sentimentos melancólicos face à perda irreversível de todas as coisas que florescem e se dissolvem de novo na terra. No campeonato das causas, porém, é difícil rivalizar com a ironia dos acasos, vindos de onde menos se espera. Eu leio a referida passagem já na parte final da página 63, a qual fez emergir o melancólico estado de espírito que acabo de evocar. Quando viro a folha para continuar na página seguinte, ainda a cismar no que acabo de ler, vou dar com uma folhinha de Radex, um dos meios usados para corrigir letras, palavras ou frases no tempo em que se usavam máquinas de escrever. O Radex era tão importante que não se podia passar sem ele. Seria impensável começar a bater texto sem o Radex. Aquela folha de Radex estava imaculada, não chegou a ser usada. Certamente que a coloquei ali como marcador (lembro-me de as usar como marcador). Não me lembro por que razão ficou na página 64 em vez da página 34 ou 76. Mas não deixa de ser impressionante a coincidência entre uma frase nova sobre a morte de tudo provocada pelo tempo, e uma folha de Radex nova mas, como as folhas caídas de Outono que vagueiam sem destino, enfim, como a mão morta de Marcenda de O Ano da Morte de Ricardo Reis, no seu juvenil corpo, perdida e inútil dentro daquele livro que já foi novo, naquele primaveril ano dos povos.

Ainda me lembro da sensação de ter comprado a máquina de escrever, com o meu dinheiro ganho a trabalhar nas férias, antes ainda de ir para a faculdade, e com a qual passei dias e noites da minha vida a escrever, acolitado pelas folhas de Radex. Diz-me a primeira página do Manifesto, junto da minha assinatura escrita com uma letra que já não é a minha, que o livro foi adquirido em Fevereiro de 1983. Livro sobre o qual bastante escrevi para uma cadeira de Filosofia Social e Política, quase acreditando na sua profecia e na inexorável lei da história que a acompanha. Tinha 22 anos e aos 22 anos, quando o futuro ainda está longe de ser passado, temos o direito de acreditar em tudo, pois é ainda demasiado cedo para saber que tudo o que é sólido e estável se volatiliza.

04 dezembro, 2016

O SOL DO NABAL

Botticelli | Inferno [Malebolge]

Chega a ser comovente a intrépida fé e ingenuidade destes homens (eu deveria acrescentar, como agora se diz, «e destas mulheres», mas aproveito o facto de o artigo remeter mesmo só para homens e assim escapar à ditadura do politicamente correcto) no fim do capitalismo e na reanimação do Lázaro comunista. Já menos digno de comoção e mais digno de uma esforçada indulgência cristã é a sua não menos intrépida estupidez, só batida pela intrépida hipocrisia de todos aqueles que, na mesma linha de um fundamentalista islâmico, execram um sistema de cujos benefícios adoram usufruir.

Há desde logo uma diferença fundamental entre o capitalismo e o comunismo que pode ajudar a explicar a teimosa longevidade do primeiro e a vida, felizmente, breve do segundo. Este foi projectado por ideólogos do século XVIII e XIX, uns de pendor mais filosófico, outros, mais engenheiros políticos, no silêncio meditativo dos seus gabinetes recheados de livros condimentados com excelsos valores e princípios. Enquanto programa social e político, o comunismo foi um coelho saído de uma cartola teórica, para gáudio de infantis crédulos deslumbrados pelas luzes, lantejoulas e ouropéis de tão grandioso espectáculo circense. O problema é quando os coelhos saem do circo para a realidade. Quebra-se a magia e o encanto de tão amorosa teoria e, como diria Steiner, depois de um fim-de-semana chega sempre uma 2ª feira de manhã em que é preciso gerir a realidade. E a realidade é o que todos sabemos: pobreza, opressão, tortura, milhões e milhões de mortos e até mesmo ao nível estético, uma pobreza confrangedora com a sua arte socialista e uma arquitectura que parece ter saído da mão de alguém que passou uma noite em branco com violentas cólicas renais. Como diria Lenine, partam-se os ovos que forem precisos até termos finalmente a omelete. Omelete invisível, como diria Isaiah Berlin, daí os ovos partidos nunca chegarem ao fim, sempre em busca da tão desejada omelete.

E o capitalismo? O capitalismo não surgiu dos gabinetes ou ateliers de ideólogos que, com uma regra e esquadro na mão, projectaram uma dada sociedade de acordo com certos princípios e valores. Engels, um intelectual simpático, ao que parece, boa pessoa e que até fazia anos no mesmo dia que eu, sentiu tanta necessidade de criar um protagonista para o capitalismo, ainda que simbolicamente, que acaba por dizer uma coisa muito engraçada, para não dizer divinamente cómica, no prefácio à edição italiana de 1893 do Manifesto do Partido Comunista:

O Manifesto presta plena justiça ao papel revolucionário desempenhado pelo capitalismo no passado. A primeira nação capitalista foi a Itália. O fim da Idade Média feudal e o início da era capitalista moderna são assinalados por um figura colossal: um italiano, Dante, ao mesmo o último poeta da Idade Média e o primeiro poeta dos tempos modernos. Hoje, como em 1300, avizinha-se uma nova era histórica. Dar-nos-á a Itália o novo Dante que assinalará a hora do nascimento desta nova era, a era proletária?

Tirando o lado divertido de poder imaginar uma nova versão do cantor de Beatriz Portinari com uma foice e martelo bordados num aveludado colete novecentista, é absolutamente espúria esta entronização ideológica do florentino príncipe das letras, estando até ao nível do poder visionário daquele. E sem sairmos de Florença, nem mesmo Maquiavel, apesar de já ali teoricamente germinar a política moderna, poderá estar associado a qualquer projecção de uma sociedade capitalista. O capitalismo surgiu espontaneamente, sem programa, sem filosóficos wishful thinkings, tendo acabado por singrar simplesmente porque resultou. Pronto, resultou, seja lá o que isso for! Como uma semente que penetra espontaneamente a terra, que vai crescendo até acabar numa árvore que, essa sim, depois é cuidada e alvo de toda a atenção porque cria riqueza, sendo a partir dela que tudo gira. O que não aconteceu com o comunismo dos filósofos, engenheiros e revolucionários, que, ao contrário do que diz Albano Nunes, que não sendo cego, não quer ver, morreu mesmo no século XX, o mesmo século em que nasceu, e de doença prolongada. Chegou, viu mas não venceu, bastando um rato catita para esmagar a mesma montanha que esmagou milhões de animais na sua orwelliana quinta.

O capitalismo está em crise? Deuses, mas o capitalismo é sinónimo de crise. Porém, acaba sempre por sobreviver, não porque forças totalitárias o imponham e o defendam com cães de guarda, como aconteceu com os regimes comunistas, mas porque, pelo menos por enquanto, não existe alternativa, podendo-se dizer a seu respeito o mesmo que Churchill sobre a democracia. Agora, independentemente das suas crises, injustiças e imperfeições, foi o capitalismo que permitiu o maior nível de desenvolvimento, de bem-estar e justiça social ao ser humano. Ainda hoje (e não é agora o momento de discutir os níveis de felicidade dos índios da Amazónia ou de remotas tribos da Papua-Nova Guiné), é esse capitalismo tão odiado pelos arautos de amanhãs cujas cordas vocais romperam, que faz com que seja melhor viver na Alemanha, na Suécia ou até num país modesto como Portugal, do que nas velhas URSS, Bulgária, Roménia, DDR ou Albânia, para já não falar nas actuais Cuba ou Coreia do Norte.

O comunismo é uma criação filosófica com péssimos resultados na prática. Mas, aproveitando esta gente a sua vocação para o exercício filosófico, bem podia deixar de vez os catecismos e começar a perceber que o comunismo é uma impossibilidade lógica. Igualdade e liberdade, palavras escritas a ouro em pedra inquebrantável como a que Moisés desceu o Monte Sinai, são inconciliáveis. É como ter Sol na eira e chuva no nabal. Podem aproximar-se mas sem nunca chegar a tocar-se. E, até ver, onde melhor se aproximaram, foi precisamente em países capitalistas. Claro que empurrado por certos princípios e valores que devemos ao bom senso e honestidade intelectual de muita gente. Que apesar de diferentes tinham em comum o facto de não serem comunistas.  

02 dezembro, 2016

A QUEDA DE UM ANJO

Federico Fellini | Amarcord

São muitas, algumas célebres, as histórias de pessoas que, sob a pele de cordeiro, escondem uma terrível e perversa identidade, descoberta demasiado tarde em situações trágicas. O fenómeno está mais que estudado pela Psicologia, popularizado pelo senso comum, exemplarmente dramatizado pelo cinema e literatura. O costume: o tipo era uma simpatia, amigo do seu amigo, um bom compincha lá no café, entre umas cervejas e o futebol na Sport TV, a vizinhança só tinha a dizer bem dele e aos familiares nunca lhes passou pela cabeça qualquer necessidade de falar sobre Kevin. Depois, desafiando a incredulidade e perplexidade de todos, vêm-se a descobrir não sei quantos cadáveres enterrados no quintal, ou quem diz isso, diz crianças vítimas da sua perversa e impenitente predação, ou a mulher e os filhos friamente assassinados antes de incendiar a casa.

Mas o que dizer de uma aluna que me escreve isto num teste sobre Freud: «O estádio fálico é a fase do desenvolvimento afetivo, pois é quando os órgãos genitais estão localizados no centro da atividade»? Isto foi escrito pela mais improvável e inverosímil rapariga: tímida, discreta, inocente mesmo, enfim, a última pessoa que eu imaginaria a escrever esta desaforada poção de lascívia. Trata-se, por isso, de um fenómeno oposto ao referido anteriormente. Enquanto no primeiro vemos lobos escondidos sob as peles de cordeiros, neste, pelo contrário, o que vemos é uma inocente ovelha escondida sob a pele de uma loba uivante. Começa pela ideia, tremenda, de o desenvolvimento afectivo estar ligado a qualquer coisa de fálico. E, como se isso não bastasse, depende da centralidade dos genitais. E que centralidade. Repare-se no carácter intransitivo de 'actividade'. Não é uma actividade 'de' ou 'para'. Não, é 'a' própria actividade, a actividade propriamente dita, a actividade em si mesma, a actividade das actividades, qual versão degenerada de um sublime e carnalmente depurado cântico dos cânticos. E tudo isto para explicar o zénite da afectividade. Qual mãe, qual pai, qual ama, qual educadora de infância, quais avós, qual mano ou manos: desenvolvimento afectivo, a suprema afectividade, é presumir os genitais no centro 'da' actividade.

Ora, enquanto no primeiro fenómeno são os outros que se devem proteger dessas pessoas diabólicas, no caso desta pobre rapariga, é ela que tem de ser protegida dos outros. Costumam os alunos dizer que um dia depois de fazerem um teste já se esqueceram da matéria que ainda na véspera sabiam tão bem. Não se pode dizer que esta aluna soubesse propriamente a matéria. Mas, para seu bem e tranquilidade, queira Deus que se esqueça rapidamente do pouco que julga saber. 

01 dezembro, 2016

A MARGEM



Sou iberista, daí o dia de hoje, tal como a implantação da república, ser a comemoração de um drama nacional. Como considero injusta, já que Portugal permaneceu como nação, a perda de Olivença. Todavia, já não faz sentido discutir a independência de Portugal face a Espanha, discutir o problema da 'monarquia vs república' em Portugal, ou discutir o destino de Olivença. 

Podemos discutir os princípios, e eu gosto de discutir os princípios. Acontece que a história é um rio cuja corrente é demasiado forte para os frágeis braços dos princípios. Discuti-los, enquanto a história nos arrasta sem apelo nem agravo, é ficarmos na ridícula posição dos dois jogadores de xadrez perdidos no seu jogo, ou na célebre discussão sobre o sexo dos anjos, enquanto Constantinopla cai nas mãos dos turcos. Acima da verdade estão os deuses e o rio corre sem sabermos muito bem porquê e para quê, para um mar que fica muito longe. Quis a história que alguns países existissem e outros deixassem de existir. Quis a história que alguns países permanecessem monárquicos, outros republicanos. Como quis a história que algumas cidades mudassem de país. A história quer, e o que ela quer que tenha de ser, tem muita força. Daí que enlaçar ou desenlaçar as mãos não passe de um inocente jogo de xadrez onde tanto faz ganhar como perder. O melhor mesmo é viver o presente sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, e ficar na margem, vendo a corrente do rio, sem precisarmos de procurar a Ave de Minerva, cujas asas são tão pesadas que nunca chega a levantar voo. A história é dos peixes mas esses são demasiado surdos para qualquer tipo de sermão.

30 novembro, 2016

O DISCÍPULO

Rembrandt | O filósofo em meditação

Encontro no supermercado um aluno a quem dei aulas de filosofia há uns quinze anos e que não via desde essa altura. Encontro emotivo, conversamos um bocado e, no fim, engolindo em seco e com uma expressão meio comovida, diz-me que eu o tinha marcado como professor. E para mostrar que não estava a dizê-lo só da boca para fora, lembrou ter sido comigo que aprendeu a palavra "estultícia" ou ter sido comigo que ficou a saber que, ao sermos apresentados a alguém, fica melhor dizer "muito gosto" do que "muito prazer". 
Ainda há quem diga que dois anos de filosofia não servem para grande coisa.

23 novembro, 2016

ESTÉTICA TRANSCENDENTAL












A poética do espaço é feita de corredores, escadas, varandas, salas, jardins, cantos, esquinas, praças, armários, ruas, secretárias, quartos, gavetas, avenidas, areais, bosques, arcas, cofres, sótãos, caves, miniaturas, janelas. A poética do tempo, também.













17 novembro, 2016

O BALÃO


Dizia-me há meses a mãe de uma aluna, falando um pouco da sua vida pessoal, ter sido vítima de violência doméstica por parte do ex-marido e pai da minha aluna. Feitas as despedidas, comecei a pensar no modo como esta mulher, décadas atrás, se teria referido ao facto de o marido lhe bater. Diria que o marido lhe batia, que era violento mas nunca embrulharia os seus actos no conceito de 'violência doméstica'. Isto, porque o conceito de 'violência doméstica', sendo recente, não poderia ser invocado décadas atrás.

A minha questão agora é a seguinte: podemos dizer que só existe violência doméstica a partir do momento em que existe o respectivo conceito? À primeira vista, parece não haver necessidade de um conceito para que a coisa exista, dando razão ao historiador Lucien Febvre quando diz que muitas vezes a coisa em si existe antes da palavra dela ter sido inventada. Porém, sinto-me tentado a responder que sim, que só começa a existir violência doméstica a partir do momento em que existe o respectivo conceito. Décadas atrás, uma mulher poderia dizer que o marido lhe batia, maltratava, esbofeteava, esmurrava, pontapeava. Poderia dizer que era bruto, tinha mau feito, e sim, dizer também que era violento. Em suma, todo o tipo de descrição possível e imaginária a respeito de um comportamento violento. Porém, ao não arrumar toda essa descrição no conceito de 'violência doméstica', o que se passa na sua consciência é diferente do que se passa na consciência de uma mulher que o faz. Na ordem puramente descritiva e objectiva dos factos, o que se passa com a primeira mulher é exactamente o mesmo que se passa com a segunda. Uma bofetada dada sob as mesmas condições e circunstâncias assume sempre o mesmo sentido. Já num plano subjectivo não é assim. Para a primeira mulher, uma bofetada pode ser brutal, violenta, injusta, repugnante, podendo levá-la a odiar o marido. Quando assim é, o seu esquema mental está ao nível do pensamento concreto e da adjectivação, o mesmo nível de uma criança quando diz 'bom' ou 'mau', 'bonito' ou 'feio'. Para a segunda mulher, podendo ser a bofetada igualmente adjectivada como brutal, injusta, repugnante, o simples facto de pensar nela como acto de violência doméstica, muda a sua percepção do facto, permitindo um enquadramento moral, social, cultural e até jurídico dessa bofetada, estando já ao nível do pensamento abstracto, ao contrário do primeiro caso, próximo das primárias intuições de uma criança ou mesmo de um animal maltratado pelo dono.

Embora não pareça, não é a violência doméstica que aqui me traz. Lembrei-me apenas deste episódio pelo facto de 'pós-verdade' ser a palavra do ano para os dicionários Oxford. 'Pos-truth' serve para traduzir situações em que os factos objectivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais. Ora, enquanto facto puro e duro não se trata de nada de novo. Encontramos isso já na Grécia e Roma antigas e tem sido sempre assim até hoje. Claro que dispomos de palavras/conceitos para situações em que os factos objectivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais: demagogia, manipulação, 'lavagem ao cérebro', assim como um generoso conjunto de falácias informais que ajudam a tomar consciência do fenómeno. Mas o facto desta palavra composta assumir expressamente a ideia de verdade relegada para um plano secundário, poderia ajudar a formar uma melhor consciência do fenómeno, levando as pessoas a defenderem-se mais facilmente do fenómeno.

Mas não sejamos ingénuos. Quando se trata de crenças, seja nas ideologias, nas religiões, nas idolatrias várias, no desporto, a verdade será sempre o que menos importa. Para dois adeptos de clubes diferentes que jogaram entre si, discutir o fora de jogo, o penalty, se é mão na bola ou bola na mão, se foi bem ou mal expulso, nunca será uma busca da verdade e de uma consciência objectiva dos factos. E o mesmo se passa nas outras áreas onde a fé, as emoções, as paixões e os interesses são o que mais conta. Muitas mulheres poderão ser salvas graças ao conceito de 'violência doméstica', uma vez que ganham uma maior consciência da sua triste e vil situação, dando razão ao jornalista Karl Kraus quando diz que a linguagem é a mãe, não a criada do pensamento. Já nas referidas áreas, nunca seremos salvos de nós próprios, pois o pensamento, o verdadeiro pensamento, é o que menos importa. Até porque em muitos casos nem chega sequer a existir pois é mais o que nos separa do que aquilo que nos une, defendendo cada um o que é seu. Falar ou pensar (chamemos-lhe assim), neste caso, não é mais do que passar o tempo a encher balões que naturalmente irão rebentar.

16 novembro, 2016

É A FELICIDADE, ESTÚPIDO!

[Lewis Hine | Família italiana em Ellis Island]

Vale a pena esta entrevista de Martin Wolf, a qual, embora centrada em aspectos de natureza política e económica mais conjunturais, remete para dois grandes desafios que devemos ter pela frente: as magnas questões da distribuição da riqueza e o sentido da vida. Eis a filosofia política e a metafísica a irromperem na agenda da política e da economia, as quais deixam assim de estar entregues a si próprias.

O que diz o comentador do Financial Times lembra-me aquela história em que um filho diz ao seu pai muito rico que só pode ser feliz se casar com Maria, uma rapariga pobre. O pai, perplexo e ansioso, pergunta-lhe "- Ser feliz?! E o que ganhas tu com isso, meu filho?!". Olhando para a economia, e economia tem que ver com a criação e gestão da riqueza, fico a pensar no modo como tantos empresários, políticos, economistas, sentirão a mesma perplexidade daquele pai rico: afinal, para que serve a felicidade? Que importância tem a felicidade? O que se ganha com a felicidade? O que vale a felicidade perante dezenas de gráficos económicos e financeiros? A questão do sentido da vida passa pela da felicidade. Não por acaso, Aristóteles, homem que muito reflectiu sobre questões políticas, ao analisar a questão do supremo bem, o fim último para o qual tudo se deve dirigir como um rio para o mar, remete-o para a felicidade ('eudaimonia') e a vida boa.

Naturalmente que não cabe ao Estado gerir a felicidade das pessoas ou impor um sentido às suas vidas. A felicidade será sempre, antes de mais, uma questão que deve ser gerida pessoalmente e de um modo pluralista. Como bem se sabe, meter-se o Estado na vida das pessoas para as salvar de si mesmas, costuma trazer pesadelos. Mas entregar a política e a economia a si mesmas sem fins superiores que as norteiem, significa desvirtuar as respectivas essências. Parafraseando livremente um conhecido judeu mas quase sempre esquecido, o homem não foi feito para a política e a economia mas antes a política e a economia para o homem. Pensa-se muito em economia, fala-se muito de economia, debate-se muito a economia. Claro, é incontornável para um país como para qualquer pessoa que precisa de bem governar a sua casa entre deveres e haveres. Mas também faz falta não perdermos de vista o que pensavam os gregos, homens como Platão, Aristóteles, Epicuro, assim como todos os seus filhos, netos e bisnetos, alguns deles chamados Adam Smith ou Stuart Mill, que foram reformulando os seus pensamentos ao longo dos séculos. O que deveria ser a economia senão uma ciência da felicidade?

12 novembro, 2016

SOLOS



Abel Salazar [Notas de Filosofias da Arte] é tão compreensivo e até condescendente com as imperfeições técnicas de Franz Hals, como terrivelmente implacável com a perfeição clássica de Jacques-Louis David da qual, manifestamente, não gosta. Para dar cabo do pintor francês escolheu o seu célebre Rapto das Sabinas.

O que diz ele de tão negativo a respeito do quadro? Que, no meio de uma situação tão humanamente dramática como a que está a ser retratada, lhe falta vida, fúria, tensão, emoção, sangue, espontaneidade nos movimentos. Tudo ali foi estudado e preparado apenas para, com base numa rigidez formal, mostrar a beleza escultórica de alguns corpos e não para traduzir o verdadeiro sentido da acção. Tem toda a razão. São pintores como ele, acrescento eu agora, que ajudam a perceber a reacção romântica que exacerbará os ânimos e as tensões arteriais dos europeus ilustrados e, por arrasto, os europeus em geral, fazendo desta vez Marx ter razão com aquela ideia de que a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante.

Mas vai mais longe Salazar: «Cada uma das figuras, nesta composição, seria um belo estudo; reunidas nesta cena teatral, não se integram numa síntese de efeito; concentram-se no seu papel, isolando-se na exibição plástica». Quer dizer, estamos perante uma cena colectiva, mas onde cada figura parece suspensa na sua própria individualidade. Estão fisicamente próximas e até envolvidas. é verdade, mas, no fundo, ensimesmadas, concentradas nos seus próprios gestos, presas a uma teatralidade pessoal que acaba por se sobrepor ao drama colectivo em jogo. Como se o pintor quisesse ser Deus que pega no comando da televisão, prime a tecla que pára a imagem, ficando de repente tudo suspenso, em silêncio, numa rigidez egípcia e em que cada personagem se isola de todas as outras, fechando-se no seu próprio mundo pessoal. Também aqui volta a ter razão. Creio, no entanto, que este último defeito acaba por, ironicamente, enriquecer o sentido narrativo e psicológico do quadro.

Para ver se me safo com isto, recorro a um dos aspectos mais impressionantes de Guerra e Paz: o modo como Tolstoi alterna entre a grandiosidade épica e a intimidade psicológica de algumas personagens. O romance mostra-nos a história ao vivo. Uma história feita de massas, multidões, grandes movimentações sociais e políticas. Mas, depois, através de uma espécie de zoom fotográfico, deixamos a grande batalha, a intriga política, o salão, para entramos cada vez mais na consciência de cada um dos seus actores sociais deitado na escuridão da sua cama antes de adormecer. E, então, na intimidade da consciência de cada um, percebemos que cada consciência é um mundo próprio, fechado sobre si, auto-justificado e auto-motivado. A história é feita por milhões de eus, uns, protagonistas, outros, actores secundários. Mas cada um entregue a si próprio, sobrepondo o seu mundo individual ao mundo em geral. Como se a história fosse um concerto para piano e orquestra em que, neste caso, todos se sentem o solista e não apenas mais um músico anónimo da orquestra. Paradoxalmente, ou talvez não, sentindo-se solistas, ficarão mais sós do que numa dinâmica colectiva na qual cada um se sente uma peça que só faz sentido em relação com as outras peças. David, neste quadro, sem querer mostrar isso, respeitando apenas as rígidas regras da academia, acabou por consegui-lo.

11 novembro, 2016

NEW SKIN FOR THE OLD CEREMONY

[Imagem: Robert Altman | A Noite Fez-se Para Amar]

A palavra alemã para "curiosidade" é muito mais engraçada do que a portuguesa. Decompor "neugier" dá qualquer coisa como desejo ou cupidez do que é novo. Que uma criança seja extremamente curiosa eu ainda consigo perceber. A sua natural curiosidade é um importante impulso para poderem ser preenchidas com conteúdos que as enriqueçam. Que os adultos sejam tão ávidos pelo que é novo já me faz uma certa confusão. Não consigo deixar de ficar surpreendido com  as movimentações sociais geradas quando aparece qualquer coisa de novo. Seja um carro, um centro comercial, um gadget, um sistema operativo, um disco, um livro, uma exposição, um restaurante, um bar, eu sei lá, tudo o que possa ajudar a compor a ideia de dolce vita graças ao efeito psicológico da novidade. Sinceramente, não consigo entender esta cupidez pela Vita Nuova que tão depressa se faz velha.

Gosto bem mais de velhos cemitérios, de abadias em ruínas, de uma pintura com 500 anos, dos mesmos versos de sempre, de uma velha escada de madeira, da ornitológica musicalidade do Bussaco, do mar sempre eterno e fiel a si mesmo, do ladrar de um cão vindo de uma quinta numa manhã de outono, de um relógio parado. E entre tantas e tantas outras coisas que, sendo tão velhas, fazem-me sentir sempre novo, ao contrário de tantas e tantas coisas novas e que rapidamente me fazem sentir velho, das canções de Leonard Cohen, que ainda ontem estive a ouvir, juro pelos meus filhos, sem saber que tinha morrido. Apetecia-me dizer aquela asneira que sai quando entalamos o dedo numa porta ou o Benfica sofre um golo. Mas limito-me a dizer que irei continuar sempre a ouvir-te e a chorar por dentro contigo, Leonardo.

10 novembro, 2016

A VIDA, ESSA GRANDE ESCULTURA


Não sei se Miguel Ângelo tinha sentido de humor mas arrisco dizer que sim. Quando ele dizia que fazer uma escultura é a coisa mais fácil do mundo pois é só pegar num bloco de pedra e tirar o que está a mais, só podia estar a levar a coisa para a brincadeira. A piada, no entanto, pode ter um sentido mais sério e profundo. Lá no fundo (embora também possa ser à superfície), é também como escultores que deveríamos encarar a vida: um bloco de pedra enorme e sempre, sempre, sempre a retirar o que estiver a mais, até o artista, finalmente, apagar as luzes do seu atelier para dormir o sono eterno.

09 novembro, 2016

NOITE DE CRISTAL


Não houve hoje aula onde os alunos não mostrassem o seu pânico perante a vitória de Trump. Uma colega, assustada e incrédula, veio ter comigo em busca de uma explicação para tão bizarro facto, querendo transformar-me num oráculo para ler o futuro. Desdramatizei o assunto em todas essas situações, dando pequenas e humildes lições de Realpolitik, mostrando ainda que Donald Trump não irá ser propriamente um Luís XIV governando a América a partir de uma Casa Branca versalhesada.

Eu, não sendo de história, sou especialmente sensível aos seus sortilégios, apetecendo-me mais lembrar a Noite de Cristal, que faz hoje, dia 9 de Novembro, 78 anos (os factos históricos, com o tempo, tendem a transformar-se em ideias, conceitos, abstracções mas, por estranho que pareça, aconteceram em dias específicos, como o de hoje que, já agora, está meio chuvoso e melancólico, talvez igual àquele em que os Maias foram habitar o Ramalhete), do que dedicar-me ao exercício de pensar no que vai acontecer com a próxima administração norte-americana, assunto sobre o qual me parece haver demasiado fumo para a quantidade de fogo que arde sem se ver.

Há dias, dei por mim a reparar na quantidade de vezes que falo do nazismo nas minhas aulas. Se eu tivesse um eterno aluno que assistisse desde sempre a todas elas, iria pensar que tenho uma relação obsessiva e doentia com o assunto. Provavelmente terei. Estava eu a tentar perceber isto quando me lembrei de uma criança que tinha um medo quase caricato de fenómenos naturais. Ouvia falar de um terramoto não sei onde e entrava logo em pânico, fazendo perguntas de 30 em 30 segundos sobre terramotos. Ouvir o vento soprar ou assobiar era outra drama, dando frenéticos saltinhos com as mãos nos ouvidos. Mesmo depois de lhe explicarem que o vento não era assim tão forte para se ter medo, não desistia, garantindo que o vento lhe dizia: «Aaaanda caaaá....Aaaanda caaaá...Aaaanda caaaá...», não lhe dando qualquer sossego. 

Admito que a minha obsessão face ao nazismo seja algo infantil como a do garoto. Mas também é verdade que quando a história se lembra de tremer ou de assobiar ventos ciclónicos, os resultados, tal como nas catástrofes naturais, também não são bonitos de se ver. A Noite de Cristal foi há 78 anos. A Noite de Cristal foi hoje.

07 novembro, 2016

HAMLETIANA


Sou dos que pensam que quando a esmola é grande o pobre desconfia. Daí não entender por que prezamos tanto a liberdade com que, ao contrário dos outros animais, fomos dotados pelo Criador. Não estou a pensar na liberdade civil ou política, o direito de querer fazer A em vez de B ou de votar em A em vez de B, mas no seu sentido mais metafísico: termos um livre arbítrio que nos permite fazer A em vez de B ou recusar fazer A em vez de B.

Nós só não nos imaginamos sem liberdade porque estamos habituados a tê-la. Se não a tivéssemos não sentiríamos a sua falta. Por exemplo. deverei sentir pena por não conseguir apreciar um arraial minhoto, um jogo de críquete ou uma daquelas estúpidas instalações contemporâneas que se vêem por aí nos museus e galerias de arte? Não, não consigo ter pena por não ter o que não quero ter, nem cuja falta sinto. Só tenho pena de não ter o que quero ter, o que desejo, aquilo de que preciso. Do que não desejo, do que não quero ter e do que não preciso, não, não tenho qualquer pena por não ter. Se as árvores falassem e eu lhes perguntasse se sentiriam pena por não serem livres, não se poderem deslocar ou por uma macieira não poder dar laranjas em vez de maçãs, elas iriam certamente responder que não. Porque uma árvore é apenas o que é, e se tivesse consciência de si teria aprendido a ser apenas o que é, do mesmo modo que a natureza não ficaria triste por ser Outono em vez de Primavera ou época de sementeiras em vez de colheitas, porque apenas seria o que é.

O ser humano ufana-se de ser livre, de ser a única peça da criação que dispõe da liberdade  de poder ser, de desejar, de precisar.  Eu não. Não posso dizer que tenha inveja das árvores pois as árvores não têm consciência de si e um ser humano sem consciência de si não é bem um ser humano e eu gosto de ser um ser humano. Mas Deus não precisava de ter sido tão sacana connosco e bem nos podia ter facilitado mais a vida, restringindo as nossas possibilidades de desejar, as nossas possibilidades de ter e as nossas possibilidades de ser. Em cada possibilidade de ser resultante da nossa vontade, submergem implacavelmente infinitas possibilidades de não ser, o que faz com que por causa da liberdade sejamos a única peça da criação que, por vontade própria, é mais o que não é do que aquilo que é.

06 novembro, 2016

A PERSONAGEM DESCONHECIDA

Thomas Eakins | Estudo de Movimento, 1885

Em nada podemos estar firmes, pois vivemos no meio de mil revoluções diversas: as idades, e a fortuna continuamente combatem a nossa constância; tudo consiste em representação que começa não para existir, mas para acabar, menos para ser, do que para ter sido. As cousas parece que nos vão fugindo, até que nós vimos a desaparecer também. Matias Aires, Reflexões sobre a Vaidade



Hawthorne e Melville não foram apenas grandes amigos, criaram também duas das personagens mais enigmáticas e inquietantes da literatura, cujas histórias foram cunhadas com os seus próprios nomes: Wakefield e Bartleby. Várias interpretações são possíveis de ambas as personagens. Começando por Wakefield, que conheci primeiro, já lá vão uns bons anos, tornou-se desde logo, para mim, a mais eloquente expressão da invisibilidade humana. 

Quem é Wakefield? Um pacato londrino que informa a mulher de que se irá ausentar uns dias por razões profissionais. Só que vai mas não volta, desaparecendo sem deixar rasto. E para onde vai Wakefield? Para a Nova Zelândia? Para uma obscura aldeia africana? Uma recôndita quinta em Sintra? Frio, muito frio, muda apenas para uma rua a seguir à sua, a partir da qual irá a observar a mulher sem sem visto por ela. Isto, durante 20 anos, até que um dia regressa a casa com o mesmo sorriso tranquilo com que a tinha deixado anos antes. Deixemos o escritor explicar que tipo de homem era Wakefield: um homem sem «instintos conjugais», com uma enorme «acalmia afectiva», «O mais constante dos maridos, em razão de uma espécie de indolência que o poupava a oscilações de humor», «Mantinha a cabeça ocupada com divagações indolentes», enfim, «Os pensamentos que tinha só raramente encontravam vigor para se fazerem palavras, e redundavam, inevitavelmente, em nada». Entretanto, durante o seu exílio interior, embora misturado com a multidão, descobre que a vida em Londres continua igual, o mundo continua igual, a própria mulher continua a ter uma vida normal. De novo, Hawthorne, o seu criador: «Pobre Wakefield! Mal sabes tu o pouco que representas neste mundo».

Wakefield, apesar de toda a sua carne e osso, é um homem feito daquela invisibilidade que anula grande parte da humanidade, como um nevoeiro tóxico que apaga o rasto das acções de qualquer pessoa vulgar. Um bom funcionário cumpridor e responsável. Um bom cidadão. Um marido respeitador da mulher. Mas nada mais do que isso. Wakefield existe, mas atravessa a vida como uma fantasma.

Anos depois, ao conhecer Bartleby, caí na tentação de pensar que a natureza espectral de Wakefield teria de ser ultrapassada pela de um homem que apenas diz «I would prefer not to» e que acaba por morrer nessa condição. Bartleby representa a absoluta auto-anulação, desistência, a mais extrema perda de consistência ontológica. Trata-se, porém, de uma ilusão que logo fiz dissipar. A radical espectralidade de Bartleby torna-o, paradoxalmente, numa personagem absoluta, com uma visibilidade ímpar, densa, maciça, que nos convoca para a sua dissolução e em cuja direcção, como uma personagem de Kafka, não é possível deixar de dirigir o olhar. Bartleby será tudo menos um homem vulgar, ficando esse triste estatuto reservado para Wakefield. Wakefield continuaria a ser para mim o campeão da invisibilidade, sem rivais à altura, incluindo o homem de Porlock.

Há dias, porém, fui obrigado a rever a minha classificação, tendo descoberto alguém que destronou o desonroso estatuto de Wakefield. Aconteceu num conto de Nabokov chamado «La Veneziana». Não vou aqui falar do conto mas apenas de um capítulo, que não chega a uma página, que serve apenas para introduzir uma personagem da qual nada se sabe, o velho guarda de um castelo pertencente a um coronel onde numa dada noite acontecem coisas estranhas. E o que faz a personagem? Nada. Enquanto guarda viu qualquer coisa de estranho mas resolveu nada fazer. Ora, este brevíssimo capítulo que apenas serve para dizer que há um velho guarda que nada fez, nada disse, nada mudou, não serve absolutamente para nada, não passando de um parêntesis inútil, supérfluo, quase a fazer lembrar aqueles jornalistas televisivos que fazem um directo a meio da noite só para dizerem que não está a acontecer nada. Ou melhor, serve para o escritor, pouco depois de o começar, terminá-lo, dizendo: «Assim, o simpático, inócuo velhote, qual anjo-da-guarda, atravessa por momentos esta narrativa e logo desaparece nos domínios nebulosos de onde foi evocado por um capítulo da pena». Eis a ironia de Nabokov no seu melhor, a sua destreza para misturar o ser e o nada, o visível e o invisível, o que é e o que poderia ter sido.

Wakefield, apesar de tudo, é uma personagem que acompanhamos algum tempo, onde se chega a desenhar uma subjectividade, um mundo interior. Este guarda, porém, apesar da sua pura exterioridade, ou antes, por causa da sua pura exterioridade, é, por excelência, a personagem-que-não-teve-força-para-chegar-a-sê-lo, uma personagem que como as almas penadas, pode emergir no real, ainda chega a tocar levemente na sua superfície, mas sem nunca chegar a deixar uma delével marca, um pequeno rasto, uma sombra fugaz, num mundo onde, talvez por rodar sobre si próprio no tempo, tudo foi feito para nele escorregar.

Herman Melville termina o seu Bartleby com a célebre frase: «Ah, Bartleby! Ah, humanidade» Confesso a minha tentação de deslocar a frase para o velho guarda do conto de Nabokov. O problema é que nada dele, nem sequer o seu nome, saberei dizer para o invocar, ainda que esse nome desconhecido seja o mais vulgar de toda a humanidade.

05 novembro, 2016

MORS TUA, VITAMINA

Katia Chausheva | Persephone's Dress


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos


Hoje, no mercado, peço dois quilos de romãs. Diz-me a velhota que as romãs fazem muito bem à saúde, que se deve comer um romã por dia, uma sobrinha com cancro foi aconselhada a fazê-lo e melhorou bastante, e que um senhor com cancro na próstata, que se preparava para fazer quimioterapia, começou a comer romãs todos os dias e curou-se só com isso. Bom dia, até à próxima, dirijo-me a outra banca para comprar uns suculentos e rosa-alaranjados dióspiros que ainda ao longe me atiçavam o desejo. Diz-me o velhote que uma doutora, médica mesma e cujo marido também é doutor, médico mesmo, vai lá sempre comprar dióspiros, e dizem eles que os dióspiros fazem muito bem à saúde.

Por momentos, senti-me não no mercado para comprar frutas e legumes mas numa farmácia. Eu acho muito bem que as pessoas se preocupem com a saúde. Eu também me preocupo e se há coisa na vida que não me apetece é morrer. Mas esta doentia obsessão com alimentos que fazem bem à saúde, apesar de cultivada por médicos, jornais, revistas, sites, descobertas científicas da nossa mais fina modernidade, não deixa de ser um enorme atavismo. Leva-nos até ao tempo das cavernas em que a vida não passava de uma luta pela sobrevivência, em que a morte e a doença espreitava a cada minuto, em que a «consciência de si» quase se reduzia a uma consciência da nossa radical fragilidade e finitude.

Dizia um filósofo alemão do século XIX chamado Schelling [Sobre a Essência da Liberdade] que «A angústia da vida desloca a criatura do seu centro» Eu penso nos velhotes do mercado que me embrulham as romãs e os dióspiros num colorido discurso clínico que, felizmente, dispensa receita médica, e o que me vem à cabeça é a perda de um centro. Para que serve a saúde? Sim, para que serve? Pronto, a saúde é muito importante e basta uma reles amigdalite (e sabe Deus o que eu já passei com amigdalites) para o lembrar. Mas será a saúde um bem em si mesmo ou simplesmente um meio para um bem superior? Nós não nascemos para ter saúde, não vivemos para ter saúde, não andamos aqui no mundo para ter saúde, e não é para termos saúde que não queremos morrer. Ter saúde, como um martelo que espeta o prego e o prego que permite pendurar o quadro na parede, só faz sentido se servir para alguma coisa, se fizermos alguma coisa com ela, sendo esse, sim, o verdadeiro centro. Pelo contrário, toda esta atávica angústia face à saúde é como nos centrarmos na eficácia do martelo e na qualidade do prego, esquecendo o quadro na parede.

Eu quero lá saber se uma romã ou um dióspiro fazem bem à saúde. Eu desejo é a romã e o dióspiro porque uma romã é uma romã é uma romã é uma romã, e um dióspiro é um dióspiro é um dióspiro é um, dióspiro, esses diáfanos objectos de desejo que Perséfone nos deixa ciclicamente antes do seu anual exílio. Onde, um dia, definitivamente exilado, apodrecido e sem sabor, logo após uma curta ou prolongada doença, me esquecerei de os desejar. 

03 novembro, 2016

UM ANTROPÓLOGO EM MARTE

[Suddenly Last Summer]

Se me pedissem para imaginar um daqueles pesadelos que fazem uma pessoa acordar em pânico, a gritar por socorro, o que me vem logo à cabeça é um asilo psiquiátrico do século XIX, onde doentes, depois de prenderem e amordaçaram médicos e enfermeiros, me obrigam a passar horas sob um ruído de música infernal do século XXI, organizadas por eles, para se divertem com expressões e movimentos insanes em três apocalípticos concertos em simultâneo. Se só de pensar nisto se fica ansioso, imagine-se o que seria vivê-lo na realidade. Seria, não, é, pois esta realidade quase existe: a minha escola durante a campanha eleitoral de três listas para a Associação de Estudantes.

Quem desejar conhecer o pensamento político de Platão, deve começar por ir à minha escola em período de campanha eleitoral para assistir à festa da democracia, que o filósofo odiava,  no seu mais puro e democrático esplendor: barulho ensurdecedor em cada um dos corners das três listas, com a garotada (num texto chamado Górgias, Platão compara o povo a crianças manipuladas com guloseimas) a dançar à frente deles conforme a preferência pelo tipo de barulho ensurdecedor e a cor das t-shirts oferecidas pelas das listas para dar um toque ainda mais folclórico e tribal ao ambiente democrático que por lá se vive. Ontem, ao passar por aquela  moderna ágora, legítima, embora espúria herdeira da velha ágora grega, onde a democracia assume toda a sua plenitude eleitoral, cheguei a recear ter estuporado o meu ouvido direito com um projéctil sonoro vindo de uma coluna junto à qual, entre outras, os candidatos passam longos momentos a explicar os seus programas eleitorais com os decibéis da música democraticamente martelada nos ouvidos dos eleitores.

Apesar do susto, só tenho de me sentir gratificado por este momento de elevado espírito democrático. Se a escola deve preparar os alunos para o mundo, nada melhor do que este tipo de campanha eleitoral iniciática para um dia mais tarde continuarem a viver este racional espírito democrático nos futuros comícios cheios de música e bandeirinhas, nas arruadas cheias de beijinhos e abraços que incluem crianças ranhosas e peixeiras com restos de escamas nas luvas para gáudio de políticos urbanos que, ciclicamente, descem ao povo em democrática expedição. E se aqueles, junto do povo ululante, deverão sentir-se uma espécie de antropólogos na Nova Guiné, eu, como ser racional que tento ser, sinto-me, nestes dias de pleno e intenso espírito democrático na minha escola, como Oliver Sacks, um antropólogo em Marte.

02 novembro, 2016

EM BUSCA DO TEMPO NÃO PERDIDO



Ao passearmos por um cemitério, a nossa relação com pessoas que morreram há 50 ou 60 anos não é igual à relação com alguém que morreu há meia dúzia de dias, semanas ou meses. É normal. Normal, porque projectamos o nosso tempo no tempo do próprio morto. Passar pela campa de alguém que morreu há 60 anos é como passar por alguém que já morreu dentro da própria morte. Já uma pessoa que morreu há poucos dias ou anos, permanece viva, uma vez que, apesar de morta, viveu uma vida que coincidiu parcialmente com a nossa.

Porém, esta discriminação sentimental face aos mortos, como se houvesse mortos que merecem mais a nossa compaixão do que outros que nos deixam mais indiferentes, é injusta. Injusta, porque na morte não há tempo. O tempo, essa coisa dos anos, meses, semanas, dias, horas ou minutos, faz parte da vida e não da morte. A morte é temporalmente informe, uma espécie de buraco dentro do qual só existe uma eternidade   onde não existe diferença entre 2500 anos e um simples minuto.

A nossa memória de alguém que morreu há dois dias é naturalmente diferente da  nossa memória da pessoa que morreu há 2500 anos, do mesmo modo que a vida desta nada tem que ver com a vida da primeira. A memória e a vida são feitas de tempo, mas nesse buraco sem tempo que é a morte, não há longe nem perto, não há passado, presente ou futuro, não há muito nem pouco.
Quando passeamos por um cemitério, a sua superfície continua a ser uma superfície moldada pela consciência dos vivos que, com a sua consciência do tempo, vão arrumando os mortos no calendário. Às escuras, silenciosas e oceânicas  profundezas da morte estão sempre, todos eles, a acabar de chegar, como se tivessem sempre lá vivido. 

24 outubro, 2016

OUTONO

[Bussaco]

Quando me perguntam pela minha estação preferida, por comodidade, costumo responder que é o Outono. De facto, gosto muito do Outono e será no Outono que gosto de fazer algumas das coisas que mais gosto de fazer na vida, como acordar num dia de chuva. Mas também não é no Outono que gosto de fazer algumas das coisas que mais gosto de fazer na vida, como acordar num dia sem ser de chuva. Por isso não posso verdadeiramente dizer que o Outono seja a minha estação preferida apesar de ser a minha estação preferida. Do que gosto mesmo é das passagens de umas estações para as outras. Mais do que das estações gosto dos seus intervalos. Os intervalos não são estações. São a transmigração das estações num corpo circular que vai nascendo e morrendo com a mesma tranquilidade com que chove e faz sol, frio e calor.

Gosto muito da estabilidade e da previsibilidade. Se eu pudesse, seria feito de leis como as da natureza e de estar sujeito ao ciclo das estações. Saberia que vou arrefecer porque vem o Outono. Depois, que iria nevar porque é Inverno. Meses depois, aquecer suavemente, florir e verdejar para finalmente terminar o ciclo com um Sol escaldante que pediria um bom banho de mar ou a frescura de uma bela sombra.

Dizer que se gosta especificamente de uma estação é como gostar da linha horizontal de um electrocardiograma de alguém que acaba de morrer. Gostar dos intervalos das estações é gostar da renovação das estações que se repetem infinitamente para nós também nos podermos repetir infinitamente. Daí não ficar centrado no Outono, obcecado pelo Outono, ter só sentidos e alma para o Outono. Porém, por mais voltas que o calendário dê, por mais prazeres que as estações me tragam, chego sempre ao Outono com a sensação de regresso a casa, na qual em todos os seus espelhos me reconheço.

23 outubro, 2016

TEMPOS LÍVIDOS


A sinonímia pode ser encarada de modo diferente. Uma coisa é olhar para a língua de um modo apenas funcional, reduzindo-a à sua máxima simplicidade, outra coisa é vê-la como exercício de seres racionais, em virtude da qual se podem exprimir pensamentos, emoções, sentimentos, ou descrever objectos, paisagens e factos, exprimindo, de um modo mais subtil e complexo, a 'vida do espírito'. Não por acaso, Hannah Arendt abre o livro com este título, onde se fala de ausência do pensamento, mergulhado nas convenções quotidianas, com um pequeno texto de Martin Heidegger onde é dito que o pensamento não produz sabedoria prática utilizável.

Existem situações em que o uso de diferentes sinónimos parece ser arbitrário. Será muito diferente dizer que se ficou 'perplexo', 'estupefacto' ou 'atónito'? Se diferenças há, eu não as vejo, a não ser por mera sensibilidade fonética. Partindo deste exemplo, eu entendo o objectivo de Beckett em escrever numa língua que não era a sua para se obrigar a uma maior contenção e disciplina na linguagem. Mas nem toda a sinonímia deve ser entendida deste modo arbitrário, nem o pensamento humano tornar-se beckettiano. Por exemplo, branco, alvo, lívido, ebúrneo, níveo, lácteo, têm em comum a referência de um elemento cromático. Porém, em virtude de uma diversidade, tanto etimológica,  como sinestésica, o seu uso deixa de ser arbitrário, passando a obedecer a critérios mais apertados.

Pensemos no modo como se pode abordar a pele de uma mulher. Dizer que uma mulher tem uma pele branca pressupõe um mero juízo funcional e objectivo. Como elemento de identificação física, diz-se que uma mulher tem a pele branca do mesmo modo que também se diz que é loira, trabalha numa loja, mora em Elvas e tem um Opel Corsa branco com tecto de abrir. Porém, será a mesma coisa descrever a pele de uma mulher como alva, tendo 'alva' que ver com alvor ou alvorada, enquanto primeira claridade do dia? Ou a pele de uma mulher como láctea, tendo 'lácteo' que ver com leite? Ou nívea, enquanto associada à neve? Ou ebúrnea, estando associado ao marfim? Também 'lividez', enquanto sinónimo de 'brancura', terá de ser usado num contexto muito específico, associado a doença, desmaio, má disposição. Dizer que alguém tem uma pele lívida ou que 'ficou lívido' não é o mesmo que dizer alguém tem uma pele branca. Daí se poder dizer que o Opel Corsa é branco mas nunca que o Opel Corsa é lívido.

Quando descreve a chegada de Maria Eduarda ao Hotel Central, Eça fala de 'uma senhora alta, loira, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea'. Estamos, com esta frase, em plena essência da literatura, enquanto construção idealista, em oposição ao exercício meramente funcional da língua com base num materialismo grosseiro no modo como se constrói a percepção da realidade. Se traduzirmos o modo como Eça descreve a sua carne, num registo meramente funcional, objectivo e pragmático, parece querer simplesmente dizer que Maria Eduarda é boa como o milho. Objectivamente: Eça invoca uma carne branca que submerge [ou emerge, fico baralhado] debaixo do véu escuro, uma carne que tanto provoca o desejo de acariciar como de agarrar e apertar. Uma carne que tanto provoca a mão que, ao nível da pele, acaricia ou afaga [carícia e carinho têm a mesma raiz] como a garra feroz e predadora que domina a carne apetitosa da fêmea. Porém, ao traduzir verbalmente o esplendor físico de Maria Eduarda por 'carnação ebúrnea', ocorre um processo de depuração literária que, embora mantenha a linguagem no plano da descrição física ou material, condensa-o esse num outro mais formal e ideal.

Daí fazer sentido Baudelaire dizer, para realçar o contraste com a depuração estética do artista, que 'a foda é o lirismo do povo' [Plus l’homme cultive les arts, moins il bande. Il se fait un divorce de plus en plus sensible entre l’esprit et la brute. La brute seule bande bien, et la fouterie est le lyrisme du peuple, Journaux Intimes, 1887]. Mantendo-nos neste registo, podemos assim dizer que reduzir a linguagem a um plano funcional é reduzi-la a  uma crueza quase animal, associá-la aos mecanismos mais básicos e funcionalmente indispensáveis da mente humana. Para quê dizer 'alvo' ou 'níveo' ou 'lívido' se basta dizer 'branco'? Agora, o problema não é o povo falar assim. O povo sempre falou assim e até tem piada ao falar assim. Grave, é a academia, a escola, a classe científica, os intelectuais, acompanharem os novos tempos, entrando na lógica do popular, rejeitando o prazer e a subtileza da erudição. Isso pode ser visto, tanto ao nível do cada vez maior desprezo da escola face ao esforço necessário para poder ler bons textos e escrever um português decente, como, num plano social, de uma cada vez maior velocidade da mensagem e redução da escrita a uma discursividade instintiva, assim como ainda, no caso de Portugal, país onde tanto se revoga, do miserável Acordo Ortográfico. Parece que, de repente, passou tudo a querer falar e escrever como o povo que fode, reduzindo a linguagem à sua mera funcionalidade. Por isso, no que à linguagem diz respeito [entre outras coisas], parece que estamos mesmo literalmente fodidos. E mentalmente lívidos, claro.

22 outubro, 2016

O PESO E A LEVEZA


Aula das 8.30, os alunos vão entrando na sala e entretendo o meu nariz com um pregnante desfile de perfumes. Decido abrir as hostilidades, não com o sumário, mas dizendo que o pessoal este ano anda bastante peneirento. Digo isto e sinto de imediato uma enorme estranheza por me ouvir dizer a palavra 'peneirentos'. Nós falamos mas raramente nos ouvimos a falar. Dizemos coisas, temos consciência delas, mas a nossa voz emite palavras para o exterior sem sentirmos o seu peso. A palavra 'peneirento' saiu espontânea e automaticamente como qualquer outra palavra das muitas que emito todos os dias mas, desta vez, sentindo a sua presença como se de um corpo sonoro se tratasse, com um peso e volume sobrepostos à sua natureza formal. Assim como estar com alguém com quem temos uma relação distante e formal, e calha dizermos 'merda' porque nos esquecermos de um documento importante. 'Merda', neste caso, não é uma simples massa de ar feita de vogais e consoantes da qual nem nos apercebemos, mas uma dura e pesada pedra lançada pela nossa boca aos ouvidos da outra pessoa. A estranheza aconteceu, neste caso, por se tratar de uma espontânea ressurreição, após um desaparecimento de décadas num qualquer armário de um obscuro quarto de arrumações da minha memória. 

Eis, pois, o que aconteceu na minha consciência. Não menos interessante foi o que aconteceu na consciência dos alunos. Eles nunca tinham ouvido a palavra, um desconhecimento perfeitamente normal, uma vez que está praticamente extinta. Mas a minha frase, dita assim, sem perceberem o contexto, fez com que a palavra, embora feita da mesma massa de ar de vogais e consoantes de 'este', 'ano', 'pessoal', 'anda' 'bastante', de leve e rápida absorção, se tornasse uma pedra cujo peso e volume não passa despercebido. Dei-lhes uma pista: andam peneirentos por causa dos perfumes. Nesse momento, alguma luz se terá acendido. Se uma pessoa é peneirenta por usar perfume, isso deve querer significar 'vaidosa'. Muito bem. É mais ou menos assim que aprendemos palavras como 'corajoso', 'fleumático', veemência', 'subtil' ou 'egocêntrico'. Não é como apontar para uma pá e uma vassoura e dizer: 'Isto é uma pá e aquilo é uma vassoura'. Ou como aprendemos uma linguagem estrangeira, por exemplo, alemão: 'apfel é maçã', 'fenster é janela', 'baum é árvore'. Ambas aprendizagens ostensivas, em que temos a plena consciência de que estamos a aprendê-las. No caso de 'peneirento', é o contexto que permite a sua aprendizagem de um modo, não ostensivo, mas associativo.

Acontece, porém, que alguns alunos, sentindo a estranheza da palavra 'peneirento', em comparação com a clareza e evidência da palavra 'vaidoso', logo se vestiram de arqueólogos para tentar decifrar o seu sentido. Arqueólogos em busca de uma palavra, da sua conquista, da sua posse, da sua materialidade como se de um valioso objecto se tratasse. Não chegaram lá. Eu próprio, confesso, quando a usava, nunca perdi dois segundos a pensar por que razão se chama 'peneirento' a uma pessoa. Desta vez, a estranheza dos alunos obrigou-me a esse exercício. Fez-se luz, e agora, bem forte, dentro de mim, que esta coisa de ser velho dá-nos algum avanço, e perguntei o que era uma peneira. Ninguém sabia o que era uma peneira e eu expliquei. Nesse momento, perceberam de imediato o que eu havia percebido, sabendo agora porque em tempos se chamava peneirento a uma pessoa, tendo o mesmo significado de vaidoso, que todos eles expiram como massa de ar de vogais e consoantes.

Acontece que vai 'vaidade'ou 'vaidoso', tal como 'peneirento', têm um significado muito para além dessa vaga massa de ar que retine no cérebro, permitindo os naturais mecanismos descritivos da realidade ou da comunicação entre pessoas. Ou seja, uma pedra com um peso e um volume que lhe fazem ganhar uma consistência da qual não nos apercebemos. E o mesmo se passa praticamente com toda a nossa linguagem, fazendo de nós cabeças falantes com palavras atiradas para fora mas que no interior têm a consistência de bolas de sabão lançadas para o ar para rapidamente se dissiparem em cabeças que ouvem.

19 outubro, 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA


Após múltiplas viagens pelos lugares mais recônditos do planeta, Lemuel Gulliver terá chegado à conclusão de que existem mundos que, sendo para nós risíveis, exóticos, bizarros, não são vistos desse modo por quem neles vive. É verdade que nem Gulliver, nem tais lugares, existiram de facto, mas a experiência que temos da realidade, a começar pela nossa, não andará longe disso. Aliás, o objectivo da sátira é precisamente obrigar o homem inglês ou europeu, vá, ocidental, a confrontar-se com a sua própria estupidez.

A imperfeição do mundo começa na terrível e opressiva fatalidade de terem que conviver, lado a lado, pessoas estúpidas e inteligentes. O mundo seria perfeito se existissem apenas pessoas estúpidas ou apenas pessoas inteligentes. Um mundo apenas de pessoas estúpidas seria tão perfeito como um mundo de anémonas ou de percevejos. Nós detestamos percevejos mas eles lá vivem as suas vidinhas, seja lá o que isso for, de acordo com o que a natureza fez deles. Também um mundo só de pessoas inteligentes seria perfeito, como é perfeito o mundo dos Houyhnhms, os cavalos sensíveis, educados e inteligentes que olham para os humanos yahoos com a mesma repugnância que nós dedicamos aos percevejos.

Uma escova de dentes é tão perfeita como uma pulseira de oiro, possuindo cada uma delas a sua própria e incomensurável perfeição, pois não se lavam os dentes com pulseiras, nem se enfeita o pulso com escovas de dentes. Não tem qualquer mal, faz mesmo parte da evolução haver o Cro-Magnon e o Homo Sapiens. O problema surge a partir do momento em que o Cro-Magnon deseja viver no quintal do Homo Sapiens, pois a estupidez do primeiro é inconciliável com a inteligência do segundo. Tentar conciliá-las é tão absurdo como confrontar um jogador de hóquei em patins com um jogador de basquetebol, jogando cada um o seu próprio jogo. Quem ganha, quem perde? Nem sequer há aqui lugar para uma quantificação. São incomensuráveis, uma vez que não se trata de uma questão de grau (como é o caso de um jogador de basquetebol que é melhor do que outro jogador de basquetebol) mas de natureza, uma natureza da qual cada um deles se reclama. Muito bem. Como jogar, quando no basquetebol não há patins e balizas e no hóquei não há sapatilhas e cestos? O que festeja um jogador de hóquei em patins quando marca um golo, nada diz a um jogador de basquetebol pois é de uma natureza e de uma linguagem que este não entende. No final, cada um deles chega às respectivas conclusões acerca da estupidez e inadequação do outro à realidade.

Infelizmente, é também isso que acontece num mundo de gente estúpida e inteligente, embora sem um árbitro neutro que decida quais as regras que devem ser cumpridas. Isso faz com que a estupidez seja tão legal e socialmente legítima como a inteligência, apesar de muitas das consequências dela serem repulsivas e, nalguns casos mesmo, criminosas. Vivem assim lado a lado, iguais num mundo de pessoas supostamente iguais, apesar de iguais terem muito pouco. Infelizmente, juntar a perfeição da estupidez à perfeição da inteligência não dá uma perfeição ainda maior. Na verdade, acontece muitas vezes que somar implique subtrair. Dá, digamos, uma valente dor de cabeça antropológica que teima em resistir ao longo de um processo histórico que teve o seu início há muitos milhares de anos e que nunca terá um fim.

15 outubro, 2016

STURM UND DRANG


Schiller, num estilo bem stürmerich, cria Karl Moor para o transformar num herói revoltado com uma sociedade hipócrita, apesar de destruir tudo à sua volta, ou melhor, precisamente por destruir tudo à sua volta. O seu impetuoso temperamento, visto como expressão da sua liberdade e autenticidade, é, para o escritor alemão, um sinal de nobreza. A nobreza de um espírito indomável que se recusa a pactuar com um mundo que lhe é imposto. Ao elevar a desenfreada liberdade do indivíduo acima de uma sociedade sem alma, compara a liberdade do seu herói à liberdade de Faetonte que, no carro do Sol, guia os cavalos para a sua perdição. Morre, sim, mas livremente, não como um amanuense, um simples militar em serviço, uma flácida marioneta manipulada por invisíveis fios morais, sociais, políticos, despenhada nos sombrios abismos da vulgaridade. Morre, sim, mas a guiar os seus cavalos, não a ser guiado por outros.

Sempre gostei do romantismo do século XIX, que por sinal começa no século XVIII, sendo Schiller uma das suas mais insígnes penas. Mas, enquanto ideologia, nada me atrai no Sturm und Drang a não ser, e aqui, sim, assumo a minha morbidez, um fascínio pelos aspectos mais sórdidos da alma humana. A 'apoteose da vontade romântica' tem tanto de ridículo, infantil e ingénuo como de perigoso combustível, justificando, por isso, terapêuticas refrigerações. Que ideia é essa de ver Faetonte a conduzir livremente o seu carro? Ou Karl Moor a destruir livremente o mundo à sua volta? Livres? Mais não são do que altifalantes dos seus mais obscuros humores e paixões. Não tivesse Karl Moor saído da imaginação de quem o criou e perguntaria que fios invisíveis explicam as suas desenfreadas acções. Fios invisíveis que o tempo, vários acasos e infelizes circunstâncias poderão transformar em rijas cordas que roubarão a liberdade ou a vida a quem tiver o azar de ficar neles enrolados só por ter estado no lugar errado à hora errada da história.

Um forte e indigesto Sturm und Drang, ok, durante o dia, vá, no máximo até ao jantar. Antes de apagarmos a luz, de sermos sorrateiramente dominados por aquele escuro e subterrâneo sono que produz os seus monstros, será sempre preferível um chazinho quente com o riso de um Voltaire ou de um Swift, a bonomia fleumática de um David Hume, as dúvidas e incertezas meio adolescentes de um Montaigne, a pícara alegria de um Cervantes. Teremos assim uma noite descansada com sonhos cor de rosa sobre um fofinho colchão de aurea mediocritas.

13 outubro, 2016

RAVEL E EINSTEIN


Claro que um forte intelecto é um fenómeno universal, e Vela tinha um cérebro primeiro escalão. A faceta científica merecia o maior respeito. Ravelstein, contudo, sustinha que eram escassos os exemplos de grandes personalidades entre os cientistas. Grandes filósofos, pintores, homens de Estado, advogados, sim. Mas homens ou mulheres das ciências dotados de uma grande alma - isso era extremamente raro
- É a ciência deles que é grande, não as pessoas.
  Saul Bellow, Ravelstein

Allan Bloom, o Ravelstein do famoso roman à clé com o mesmo nome, foi um homem grande em todos os aspectos: no físico, intelecto, gestos, desejos, atitudes, influência na sua corte de ex-alunos colocados na mais elevada esfera da política norte-americana. Tudo nele era excessivo, incluindo a própria morte, vítima de SIDA, em vez de uns vulgaríssimos cancro ou enfarte do miocárdio. Tão excessivo que faz o autor do romance acabar com a chave de ouro: 'Não é fácil entregar à morte uma criatura como Ravelstein'.

Será o seu juízo a respeito dos cientistas, igualmente excessivo? Ou não passará apenas de uma blague, uma engraçada provocação só para espicaçar as consciências, num tempo em que a figura do cientista surge cada vez mais como a grande referência intelectual da humanidade? Não por acaso, até na cultura popular o célebre físico Albert Einstein surge como símbolo supremo de inteligência superior e de genialidade. 'Ser um Einstein' significa 'Ser um crânio', e 'Ser um crânio' é, por antonomásia, ser cientista.

Vamos ver. A ciência é feita, diariamente, por milhares e milhares de cientistas que formam o que podemos chamar 'comunidade científica'. Cientistas de todas as idades, de muitas nacionalidades e dos quais nunca ouvimos falar. Não sejamos injustos face a tal anonimato: todos eles foram brilhantes alunos na escola, os melhores de todos, fazendo depois um percurso universitário de grande qualidade, desde a licenciatura até ao pós-doc. Desconhecidos, sim, claro, mas sem deixarem de ser reconhecidos como 'crânios' ou 'cérebros''. Apesar disso, somos forçados a reconhecer, como diz Ravelstein, não haver entre eles lugar para grandes personalidades, seres humanos geniais, dotados de uma 'grande alma'. Está bem. Mas o que dizer dos grandes cientistas? Daqueles que, com as suas descobertas e invenções, estão na origem de revoluções científicas, na mudança de paradigmas que nos levaram a perceber o mundo com outros conceitos e teorias? Ser cientista anónimo numa universidade francesa ou num instituto alemão é uma coisa, outra bem diferente é ser um Galileu, um Newton, um Darwin, um Maxwell, um Mendel, uma Madame Curie, um Einstein, um Max Planck, um António Damásio. Ora, não estará Ravelstein a ser injusto face a estes monstros sagrados da actividade científica e matemática?

Pensemos no Teorema de Pitágoras. Diz-se 'de Pitágoras' por ter sido formulado por um filósofo chamado Pitágoras em vez de outros que se chamaram Platão ou Aristóteles. Fosse um destes e chamar-se-ia Teorema de Platão ou Teorema de Aristóteles, tal como existem os Sólidos Platónicos ou a Lógica Aristotélica. Suponhamos agora que Pitágoras não teria sequer chegado a nascer. Implicaria isso desconhecermos, hoje, dia 13 de Outubro de 2017, 25 séculos depois de Pitágoras não ter existido, a ideia de o quadrado da hipotenusa ser igual à soma do quadrado dos catetos? Seria de todo improvável, como também o seria desconhecermos que a Terra gira em torno do Sol, as leis da hereditariedade, a teoria do electromagnetismo, mesmo dando-se o caso de os pais de Galileu, Mendel ou Maxwell não se terem conhecido e procriado. O teorema é de Pitágoras, sim, não por ter sido o seu criador mas, como Pedro Álvares Cabral, ter sido ele a lá chegar primeiro, tendo todo o mérito por isso, resultado da sua inteligência, esforço, ousadia e conhecimento que fazem com que só uma elite consiga tais descobertas.

E se os pais de Mozart, Tolstoi, Rembrandt, Frank Lloyd Wright ou Lenine, não se tivessem conhecido? Algum outro ser humano teria composto a Flauta Mágica, escrito Guerra e Paz, projectado a Fallingwater House ou influenciado o curso da história da mesma maneira? Como diria Isaiah Berlin (embora a respeito da  natureza dos valores morais e políticos), não existe a sinfonia antes de ser composta, esperando que alguém a descubra para ser depois tocada. Admitir isso, só como lúdico e divertido exercício leibniziano onde se conceba todas as combinações possíveis do universo. O Teorema de Pitágoras ou as Leis de Newton, sim, existem independentemente de quem os formulou, não precisando deles para nada, do mesmo modo que já no Paleolítico era verdadeiro, logo, uma evidência racional, o facto de que se A é maior que B, e B maior que C, então A é maior que C, ainda que nenhum ser humano tivesse disso consciência. Pitágoras e Newton, como Álvares Cabral, apenas lá chegaram, o que faz com que sejam os cientistas a pertencer à ciência e não a ciência a pertencer aos cientistas.

Já em áreas como a literatura, a pintura, a música, a arquitectura, a política, ou até mesmo a filosofia, não existe uma verdade ou evidência racional que imponha um modelo mecânico de pensamento que depende necessariamente do modo como o mundo está organizado para se poder legitimar. Como a ciência, sim, são áreas onde a inteligência, o esforço e a inteligência se revelam fundamentais. Mas onde também a liberdade criativa, a abertura, a espontaneidade, a imaginação, originalidade, enfim, a genialidade de um espírito que depende apenas de si próprio, acabam por explicar a obra que nasce e que só desse espírito poderia ter nascido. Creio ser isso que pretende Ravelstein ao dizer ser a ciência grande e não os cientistas. No caso dos outros, é a sua grandeza que vai fazendo a grandeza das áreas aos quais ficarão eternamente ligadas.

12 outubro, 2016

O ESPECTRO

Ré Soupault

Uma casa decadente onde tudo parece estar num processo de corrupção. O papel de parede que se rasga e esboroa, o móvel cheio de mazelas e habitado por objectos que para ali estão, abandonados, sem saberem bem a fazer o quê. Que mulher será aquela? Trata-se de uma mulher real, reflectida no espelho, embora tão estática e indiferente como os objectos que ainda acreditam pertencer-lhe, fazendo lembrar os fiéis animais perante o túmulo do dono só porque é ali que se encontra o seu corpo ou o que começa a restar dele. Mas um espelho que também poderia ser a moldura da pintura de uma mulher, representando, numa espécie de altar profano, a mulher que, outrora, viveu naquele estranho lugar esquecido no tempo e de todos. Ao não vermos o original, quer dizer, a verdadeira mulher sentada naquela sala com uma expressão ausente, exacerba-se a sua especular imagem como entidade irreal, mágica, fantasmagórica, vinda sabe-se lá de que etéreo mundo. Fosse jovem e bonita e poderia ser um anjo renascentista. Mas não, nada disso e deixemo-nos de especulações delirantes. O reflexo daquela mulher naquele espelho é apenas e tão só a antecipação real do que ela ainda não é mas que já se prepara para ser, rumo ao não ser. E quando desaparecer de vez daquele espelho, ir-se-á então mesmo saber que o móvel não é um altar, nem aquela mulher, simples, indefinida, inefável, digna de lá ser invocada através de uma pintura que a imortalizasse, como a mãe de Whistler. Ainda que lute por não o ser, a fotografia será sempre uma arte do fugaz e do efémero, por muito estáticas e perenes que se apresentem as suas personagens. A arte pode produzir artificialmente, seja no estúdio do pintor ou pela caneta do escritor, entidades irreais, mágicas, fantasmagóricas. A vida encarrega-se de o fazer naturalmente.

06 outubro, 2016

HÁ SÓ UMA TERRA


Sendo Torres Novas uma terra pequena, conhece-se muita gente de vista. Conheço, há décadas, pessoas com quem nunca falei, embora saiba onde trabalham, onde moram, se são casadas ou solteiras, se têm filhos ou cão, quais os cafés ou supermercados que frequentam. Já tem acontecido encontrar algumas delas fora de Torres Novas, o que cria uma situação estranha. Sei, pela experiência, que se for em terras como Tomar, Santarém ou Leiria, o que acontece é olharmo-nos com mais atenção só para confirmar que somos a tal pessoa lá da terra, mas sem motivo para cumprimentar ou sequer uma expressão de simpatia. Já se acontecer em Lisboa, pode surgir um discreto sorriso de reconhecimento ou uma subtil inclinação da cabeça em jeito de cumprimento que não se quer bem assumir. Pessoas que se vêem no dia-a-dia em Torres Novas acabam por se tornar "desconhecidos íntimos", e o facto de se encontrarem ali, na grande cidade, possibilita esse reconhecimento que, nalguns casos, pode mesmo levar a um pudico "Bom dia" ou "Boa tarde", uma cortesia que sai por instinto. 

E se o inesperado encontro surgir muito mais longe ou num sítio onde não é suposto encontrar pessoas aqui da terra? Bem, neste caso, será quase fatal meter conversa, saindo um simpático e mais desempoeirado "Então, por aqui...?!", o que dará lugar a relatório detalhado sobre o que se faz por ali. Mas vejamos. Se, numa manhã, ao ir para o trabalho, eu parar para perguntar a essa mesma pessoa que vejo todos os dias mas com quem nunca falei, onde conta passar férias ou ir no fim-de-semana seguinte, irá pensar que tenho um sério problema psiquiátrico para resolver. Eu poderia alegar que, sendo nós da mesma terra, vendo-nos com frequência na rua ou no supermercado, a curiosidade sobre nós enquanto "desconhecidos íntimos" pode ser considerada normal. Mesmo assim, desconfio que continuará a pensar que tenho um sério problema psiquiátrico. Porém, se for lá longe, as exactamente mesmas pessoas já parecerão velhos amigos, todos felizes e contentes pelo encontro inesperado, falando das suas vidas de modo bem arejado. Qual a razão? Direi mesmo, a única razão: sermos da mesma terra. 

Um dia, era eu rapaz novo, estava sozinho à boleia na fronteira de Irún. Após horas de braço esticado, aproxima-se um rapaz com ar de ser português ou espanhol. Era português e também se preparava para pedir boleia. A partir daí andámos juntos. As vicissitudes de andar à boleia fizeram com que, depois de um dia perdido e uma noite a dormir ao relento, debaixo de uma árvore, no dia seguinte, em vez de descermos para Portugal, fossemos levados para Bilbau por um camionista suíço que depois nos pagou a viagem nocturna de comboio para Madrid, onde chegámos de manhã cedo, partilhando uma lata de sardinha como pequeno-almoço. Como só havia comboio para Portugal quase à meia-noite, passámos o dia a vaguear, quase sem dinheiro, por toda a cidade. Não podíamos ser mais diferentes. Eu, na altura, era de esquerda, lia Marx e assim, tinha acabado de passar dois meses na Alemanha no meio de alemães alternativos que liam Reich, Marcuse e Fromm, e as raparigas tinham pêlos nas pernas e nos sovacos, enquanto ele era um beto reaccionário, com roupinha de marca, mesmo à boleia. Eu era calmo e tímido, ele, meio espalhafatoso. Onde para mim era branco, para ele era preto, onde para ele era branco, para mim era preto. Em suma, tinha tudo para correr mal. Mas o facto de sermos portugueses, de falarmos a mesma língua e vivermos na mesma casa ligou-nos, criando um sentimento de comunhão e segurança que em Portugal se tornaria improvável.

Um ribatejano e um minhoto, na Suécia, percebem que são portugueses. Um português e um sueco, em Miami, Hong Kong ou Manila, percebem que são europeus. Os círculos concêntricos parecem acabar aqui. Mas não. Vejamos, existem versões modernas das velhinhas Viagens de Gulliver. São livros ou filmes de Ficção Científica que revelam, a anos-luz da Terra, formas de vida completamente distintas da nossa. Da nossa? Como assim? De Portugal? Da Suécia? Dos Estados Unidos? China? Filipinas? Não, da Terra. Não por acaso, a tripulação da série "Espaço 1999" tem brancos, pretos, orientais. Faz sentido. A anos-luz da Terra, que importância tem isso? A mesma que teve, para mim, encontrar um beto com roupa de marca quando estou sozinho à boleia, longe de casa, ainda a sonhar com as alemãs de pêlos nas pernas e nos sovacos. Ou a importância que tinha ele ser de direita, de contar anedotas sem piada ou ver filmes parvos. Quando se está longe de casa, a dormir debaixo de uma árvore, ouvir, na nossa língua, anedotas sem piada ou ouvir falar de filmes parvos é tão gratificante, tão confortável, tão heimatlich como ser alternativo aos 20 anos com um lenço palestiniano ao pescoço a acariciar uma alternativa perna feminina com alternativos pêlos.

A mesma razão que leva um ser humano a gostar de encontrar um outro desconhecido num planeta distante da Terra, é, noutra escala, a que leva uma pessoa de Torres Novas a gostar de encontrar outra pessoa de Torres Novas numa terra longínqua. Ou a mesma que leva alguém, numa ilha deserta perto da qual naufragou e onde vive sozinho há anos, a gostar de ver chegar outra pessoa. Neste caso, pouco importa se é branco ou preto, culto ou inculto, se fala a nossa língua, Inglês ou apenas uma língua bárbara. É humano e basta, o suficiente para nos tornarmos "desconhecidos íntimos". Não quero dizer com isto que devemos sentir elevados arrebatamentos fraternais perante a humanidade, darmos as mãos, andarmos aos beijos e abraços no meio da rua, a tratar toda a gente por "tu" porque somos irmãos. Utopias parvas só servem para vender canções e impingir ideologias a totós. Mas também não custaria muito estarmos mais atentos ao que nos une do que ao que nos separa. Neste caso, não numa terra chamada Torres Novas, mas na mesma Terra da qual todos fazemos parte e que nos faz ser o que somos.