Qual o grau de grandeza de uma coisa? Como diria Heraclito de Éfeso, responder com os olhos não passa de uma distracção que nos afasta do essencial. A mesa é grande se comparada com a caneta mas pequena em relação à casa que por sua vez é pequena em relação à rua. Uma formiga é enorme face a uma bactéria, e um castelo, visto do céu, não passa de um ponto na paisagem. É verdade que precisamos de saber medir para sobrevivermos na vida quotidiana. Se os sapatos forem demasiado grandes ou pequenos não servem para calçar; um pavilhão é pequeno para os Rolling Stones mas enorme para uma banda de garagem; três mil quilómetros é uma distância impensável para ir de carro almoçar de carro a qualquer lado mas de avião até dá para dormitar um pouco. Precisamos, pois, pragmática e racionalmente, de medir, quantificar, gerir a ordem de grandeza das coisas.
Mas há uma outra ordem de realidade que não a esparramada à frente dos olhos, que esbate a distância entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno. Por exemplo, no Azul: o marido ri ao acabar de contar uma anedota e, nesse momento, morre ele e a filha que segue no banco de trás. E a morte é o segundo momento mais importante da vida de uma pessoa. Ele não sabe, ela não sabe, a filha muito menos - embora soe absurdo haver menos saber do que o não saber - mas nós vemos o óleo a pingar, gota a gota, minúsculas e invisíveis gotas, preparando atomicamente, lentamente, cinicamente, eficazmente, o segundo momento mais importante da vida do pai e da filha contra uma árvore que até poderia estar dois miseráveis metros ao lado do sítio onde tudo terminou num igualmente miserável segundo.
Nós temos a tendência para pensar em grande, uma fixação nos grandes acontecimentos que irrompem no mundo para o mudar, umas vezes para pior, outras tantas para melhor, certamente resultado de um cérebro viciado na grandeza ontológica. Mas é um tear de finíssimos e pequenos fios cuja insustentável leveza tudo decide. Diz-nos Homero que Penélope «[...] trabalhava de dia ao grande tear/mas desfazia a trama de noite à luz das tochas». Também na vida é assim, com o grande tear que faz e desfaz sem que vejamos um palmo à frente do nariz, tecendo coincidências e descoincidências, as primeiras sobressaltando-nos com o que aconteceu por causa de um simples segundo ou vinte metros de distância, as segundas, sem que delas nos apercebamos uma vez que não podemos ter consciência do que por causa de um segundo ou de vinte metros de distância não chegou a acontecer. Não conhecemos a textura da realidade, a sua ínfima vitalidade, limitando-nos a viver nela como se sobrevoando uma floresta víssemos apenas umas vagas cores e formas, fazendo parecer tudo linear, planeado, controlado, previsível. É mesmo preciso penetrar na floresta para entender como somos esmagados por ela. Umas vezes para nosso prejuízo, outras, benefício. Mas quase sempre para nem uma coisa nem outra.
Nós temos a tendência para pensar em grande, uma fixação nos grandes acontecimentos que irrompem no mundo para o mudar, umas vezes para pior, outras tantas para melhor, certamente resultado de um cérebro viciado na grandeza ontológica. Mas é um tear de finíssimos e pequenos fios cuja insustentável leveza tudo decide. Diz-nos Homero que Penélope «[...] trabalhava de dia ao grande tear/mas desfazia a trama de noite à luz das tochas». Também na vida é assim, com o grande tear que faz e desfaz sem que vejamos um palmo à frente do nariz, tecendo coincidências e descoincidências, as primeiras sobressaltando-nos com o que aconteceu por causa de um simples segundo ou vinte metros de distância, as segundas, sem que delas nos apercebamos uma vez que não podemos ter consciência do que por causa de um segundo ou de vinte metros de distância não chegou a acontecer. Não conhecemos a textura da realidade, a sua ínfima vitalidade, limitando-nos a viver nela como se sobrevoando uma floresta víssemos apenas umas vagas cores e formas, fazendo parecer tudo linear, planeado, controlado, previsível. É mesmo preciso penetrar na floresta para entender como somos esmagados por ela. Umas vezes para nosso prejuízo, outras, benefício. Mas quase sempre para nem uma coisa nem outra.










