26 maio, 2018

A ESTETICIZAÇÃO DO ABISMO



Ao longo de vários anos, entre 1838 e 1865, o compositor Franz Liszt foi transcrevendo para piano as nove sinfonias de Beethoven. Ouvi-las assim permite uma experiência mais intimista e mais próxima da sua construção original, anterior à sua monumentalidade orquestral e vocal. É quase como estar perante o seu genótipo. Ora, foi a transcrição da nona sinfonia que ontem resolvi meter na aparelhagem para me ajudar na árdua tarefa de passar uma montanha de roupa a ferro. Entretanto, vou no 3ªandamento quando, de repente, me vem à cabeça o Paco Bandeira. Pode ser chocante mas inevitável a partir do momento em que já se ouviu várias vezes a Ternura dos 40. Razão tinha Nietzsche quando dizia que quando se olha muito para o abismo, o abismo passa a olhar também para nós. Talvez isso ajude também a perceber por que razão Luís II se exilou em Neuschwanstein: procurar, romanticamente, o abismo que julgava merecer.

24 maio, 2018


Foi através de Albino Forjaz de Sampaio (Palavras Cínicas) que conheci Georges Rochegrosse, pintor, ilustrador e gravador francês. Não foi uma grande descoberta. Basta pensar um bocadinho no que foi a pintura francesa do século XIX e depois olhar para a de Rochegrosse para logo se perceber estarmos noutra dimensão. Também é verdade que Forjaz de Sampaio não se refere ao artista ou à obra mas apenas a este trabalho, que se apresenta com dois títulos, "Angústia Humana" ou "A Corrida da Felicidade". Mas embora a sua visão seja correcta, torna-se demasiado descritiva, limita-se a registar o que os olhos vêem: o modo como as pessoas estão vestidas, os empurrões, as pisadelas, os socos, os rostos doentes, a condição dramática e agónica de toda aquela gente, da competição, da ambição, do desejo de poder, quando, afinal, o que os espera, lá no alto, é a morte. Porém, não fala do que me parece ser o mais importante: sobem para quê?

Todos nós procuramos bens que não são fins em si mesmos mas meios para atingir outros bens. A gasolina é um bem necessário para outro bem que é pôr um carro a andar, enquanto meio para outro bem que é poder ir ao médico, enquanto meio para se obter outro bem que é uma receita, enquanto meio para outro bem que são os comprimidos, que são um meio para se conseguir outro bem que é dormir melhor, que é um meio para outro bem que é uma pessoa sentir-se bem durante o dia. Chegados aqui, já ninguém pergunta para que serve uma pessoa sentir-se bem durante o dia. Os mais empreendedores ainda poderão dizer que sentir-se bem é um meio importante para trabalhar melhor, ser mais produtivo. Sim, também. Mas sentir-se bem é um estado que toda a gente procura seja em que circunstância for, inclusivamente quando se pretende não fazer absolutamente nada.

Ora, é este tipo de exercício que deve ser feito ante a deprimente cena pintada por Rochegrosse. Por que deseja toda aquela gente subir tanto? Que tipo de bens procuram e por que os procuram? Dinheiro? Poder? Prestígio?  À partida, não há nada de errado em querer dinheiro, poder ou prestígio. A questão é quando o desejo de ter dinheiro, poder ou prestígio conduz a uma luta sem fim e é precisamente neste ponto que está o valor da cena. Rochegrosse começa por baixo mas eu prefiro ir logo à parte de cima. Olhemos para as pessoas que estão no topo, já com os braços livres para os esticar. Suponhamos agora que estas mesmas pessoas irão ser ultrapassadas pelas que estão imediatamente abaixo delas, as quais, depois, irão ser igualmente ultrapassadas por outras. Ora, por muitas ultrapassagens que possam existir, por muito grande que seja escalada, acontece a esta torre humana o mesmo que com a bíblica Torre de Babel: sobe, sobe, sobe, mas nunca chegará a um fim. Por muito que subam e se espezinhem subindo, será sempre o ar, o vazio, o nada, que irão encontrar e, em última instância e inevitavelmente, a morte. Trata-se de saber se toda esta existência agónica, toda esta luta, corrida, ansiedade, angústia, conduz àquele bem que Aristóteles, na Ética a Nicómaco, considera ser o mais valioso dos bens e, este sim, o verdadeiro fim em si mesmo: a felicidade. Parece-me que esta corrida, mais do que ser uma corrida de cada um contra todos os outros será uma corrida de cada um contra si mesmo, sendo a derrota o mais provável dos fins.

23 maio, 2018

Depois de uns cinquenta anos a ver filmes, tenho dificuldade em eleger um que possa considerar o da minha vida. Porém, ainda hoje, e desde há muitos anos, o meu início de filme preferido continua a ser o de Lágrimas e Suspiros e o meu final preferido continua a ser o de Aconteceu no Oeste. Posso não ter o filme mas tenho as suas perfeitas pontas. Bom seria, tentando chegar a uma perfeição ainda maior, poder juntar aquele começo e aquele final num mesmo filme, dando origem a uma perfeição maior. Mas por muito estimulante que seja o exercício não me parece possível um filme com aquelas duas pontas. Juntar perfeições nem chega a ser condição necessária ou suficiente para outras perfeições. Não é, simplesmente, condição. Direi mesmo não serem raras as vezes em que ao se tentar juntar perfeições, dá-se origem a tremendas e absurdas imperfeições.   

21 maio, 2018

ENTRE ASPAS E DEDINHOS

Garotos, ainda vá, mas adultos passarem a vida a dizer "entre aspas", erguendo ligeiramente os braços para fazer o gesto com os dedinhos, embora cómico, não deixa de ser confrangedor. Imaginemos um português, cuja língua não tem o "do" inglês, sendo tão inexpressivo a falar que fica sem conseguir colocar a voz no tom certo para dar à frase o seu sentido interrogativo ou exclamativo. Dirá então: "Olha, a que horas vais ter ao café, ponto de interrogação". Ou: "Este bacalhau está mesmo delicioso, ponto de exclamação." Pronto, dizer "entre aspas", com os dedinhos a dar a dar, vai dar no mesmo. Raios, custa assim tanto dizer "grosso modo" quando falta a palavra exacta ou mais directa (sem termos de reduzir os outros a uma espécie de autistas que reduzem toda a linguagem a um sentido literal) para o que é preciso transmitir? O modo pode ser grosso mas a língua portuguesa sairia bem mais fina, embora também seja verdade que a fineza já teve melhores dias.

20 maio, 2018

OLHA PARA O QUE EU DIGO


Do mundo, interessa-me apenas a dose certa para manter o equilíbrio entre o meu mundo privado e a parte daquele em que me calhou viver. A leitura diária de um jornal e uma hegeliana oração matinal de 20 minutos que consiste em consultar as capas de jornais nacionais e internacionais (com ligação ao que me faz levantar as orelhas), permite-me saber o que se passa para além da minha rua.

Basta isto para perceber a mera lógica alfandegária do fim das fronteiras. Em Portugal, não se fala noutra coisa senão em Sócrates, Pinho ou Bruno. Chega-se ali a Badajoz e já ninguém sabe quem é Pinho ou Bruno, e de Sócrates só os mais politizados terão uma vaga ideia. Entretanto, este assunto chega a Elvas e mais parece a parte final da  imponente onda que já só lambe a areia. Mas é pena pois é bem mais estimulante. Os casos de Sócrates, Pinho ou Salgado são, sem dúvida, políticos e merecedores de introspectiva reflexão em congresso. Mas são sobretudo casos judiciais, enquanto o de Bruno não passa de um problema de gestão desportiva de um clube de futebol.

Já o caso de Pablo Iglesias e Irene Montero tem uma natureza mais ideológica e que me motiva duas questões: 1. Pode alguém como uma ideologia anticapitalista ser rico ou ter um estilo de vida apenas ao alcance de quem é rico? 2. Não sendo rico, pode pedir empréstimos bancários para ter um estilo de vida apenas ao alcance de quem é rico? Fico-me só pela discussão ideológica, pondo de lado a habitual espuma dos dias, como é o caso da virginal reacção do dirigente espanhol ao problema ("Sou sincero, não imaginava que isto iria provocar um debate e notícias destas dimensões"), a fazer lembrar a reacção do presidente do Sporting quando se refere aos incidentes de Alcochete como sendo "chatos", ou o facto de ter afirmado há uns anos que um político como Luis Guindos não merece qualquer confiança do povo, por comprar uma casa por um valor... próximo daquele com que o casal fez agora a sua hipoteca.

Pablo Iglesias e Irene Montero, sendo deputados, têm um nível de vida que lhes permite a hipoteca de uma moradia de luxo, com piscina, jardim e casa de hóspedes. Mas não deveriam fazê-lo, e não se trata apenas de proteger a imagem de alguém cujo estilo assume ostensivamente, e até narcisisticamente, uma posição de contra-corrente face ao sistema que tanto criticam, lembrando os primeiros cristãos face à hierarquia político-religiosa judaica. É muito mais do que isso: a vertente anti-capitalista e modelo de sociedade preconizado pelo Podemos é incompatível com o facto de haver pessoas ricas ou cujas vidas impliquem a posse de certos bens considerados luxuosos.

Pode dizer-se que a partir do momento em que "ainda" não se vive no tipo de sociedade que a sua ideologia defende, essas pessoas não são mais, nem menos, do que as outras, tendo o direito de usufruir dos mesmos bens. Mas isso é como uma pessoa ser fortemente contra a corrupção mas, atendendo ao facto de esta existir, não querer ficar em desvantagem, sem acesso a bens resultantes de actos de corrupção. Não dá, pois estamos a falar de princípios e não de um contrato que deve ser cumprido pelas várias partes. Militantes de qualquer partido anticapitalista, que não gosta da economia de mercado e que luta contra os interesses de quem, graças a essa economia, se demarca da restante sociedade, não podem sequer sonhar em ter uma casa ou carro cuja posse só é possível em virtude dos benefícios tornados possíveis por esse modelo de sociedade que combatem. Desejar, isso sim, uma casa ou um carro cujo valor médio corresponde à casa ou carro possíveis em função do tipo de economia e sociedade que defendem. Pelas mesmas razões, nem pensar em frequentar restaurantes de luxo, vestir roupas de marca, perfumes que não sejam os que se vendem no supermercado, dormir em hotéis com mais de duas estrelas, em suma, todo o tipo de bem que apenas existe porque existem elites sociais e económicas tornadas possíveis por uma economia de mercado.

Como bom partido populista, diz o Podemos que nem é de esquerda ou de direita, velhas categorias que já não respondem aos problemas da actual sociedade. É, sim, contra males, como a existência de privilegiados e não privilegiados ou de uma minoria enriquecida e uma maioria empobrecida. Pois bem, percebe-se que o Podemos quer acabar com os pobres, o que só lhe fica bem. Mas, pelos vistos, também não se dá bem com os ricos. Acontece que uma sociedade em que os pobres passem todos a viver como os ricos é impossível. A existir igualdade social nunca será por cima mas por baixo ou pelo meio. Por baixo, sim, é fácil, basta pensar nos países que foram e ainda são inspirados por ideologias anti-capitalistas. Pelo meio, também é possível mas para isso são necessários modelos que contrariam o projecto social e económico de partidos como o Podemos.

Pablo Iglesias e Irene Montero fazem muito bem em desejar uma moradia de luxo. Apenas deveriam mudar de partido para o fazer. Mas também é natural que, nesse caso, tivessem mais dificuldade em ser eleitos e, assim, usufruir do vencimento de deputado que permitiu a hipoteca que tanto desejaram. 

19 maio, 2018

A NOITE E OS RISOS


Já me diverti com bastantes livros. Mas sou tão pouco dado às gargalhadas, àquele espasmo sonoro que sai tão impetuoso e inesperadamente, que consigo lembrar-me bem do sítio e momento em que raras vezes me saíram diante de um livro. A primeira, devo-a a Eça, tinha eu 20 anos, altas horas numa daquelas noites que passava a ler durante as férias. A última foi hoje de manhã e devo-a de novo ao génio de Eça. Não sei se é para fechar um círculo mas também não é coisa que importe. O que sei é que, indo um dia desta para melhor, serei menos um que um dia deu queirosianas gargalhadas. Sendo cada pessoa um simples átomo, a sua morte representa apenas o fim das memórias desse átomo. Nada de dramático, portanto. Mas será bem triste o tempo em que Eça irá deixar de ser lido, morrendo, a jusante, os sorrisos, risos ou gargalhadas que, a montante, começaram a ser escritos pela sua pena fina e mordaz. Entrar numa igreja ou palácio em ruínas não deixa de ter o seu encanto romântico e serena melancolia. Um livro de Eça que deixar de ser lido é como uma catedral submergida mas que, ao contrário da tocada por Debussy, ficará irremediavelmente perdida no fundo do mar e com os seus risos silenciados pela escuridão.

16 maio, 2018

CADEIA CAUSAL


Eis, rapidamente, o que se entende por cadeia causal, servindo-me da definição de Simon Blackburn: "A sequência de acontecimentos que conduz a um certo efeito final , onde cada membro da sequência causa a ocorrência do membro seguinte." Numa mesa de bilhar, colocamos várias bolas seguidas, ligeiramente afastadas umas das outras. Damos uma tacada na primeira que, depois, vai bater na segunda que, depois, vai bater na terceira e assim sucessivamente. O encadeamento é tal que, para perceber o modo como as bolas ficaram distribuídas no final, teríamos de filmar o processo para, depois, com a imagem a andar para trás em câmara lenta, podermos estabelecer todas as ligações causais. Trata-se, neste caso, de uma situação puramente física. Mas podemos aplicar a mesma ideia a tudo, incluindo as nossas vidas, para explicar todo o processo de causas e efeitos que levou a sermos o que somos e por que somos, o que fazemos e por que fazemos, o que nos acontece e por que nos acontece.

Pronto, agora já posso falar desta fotografia (Ivor Prickett, World Press Photo 2018, categoria General News, First Prize Stories). O seu centro é claramente o rosto  luminoso da menina, é para esse rosto que se dirige tão naturalmente o nosso olhar como uma pedra que cai na direcção do chão. Mas o rosto luminoso, livre e aberto da menina não está só. Está apertado entre duas mulheres de preto e rosto coberto, abraçando a da frente em busca de protecção. Não fosse a menina e teríamos uma uniforme e monótona sequência de mulheres vestidas de preto e rosto coberto.

Mas podemos ver a fotografia noutro prisma e agora, sim, volto à cadeia causal. Esta menina mostra aqui o seu rosto luminoso, livre e aberto porque é uma criança. Se esta mesma fotografia fosse feita num futuro próximo, já não iríamos ver o seu rosto mas apenas mais uma mulher de preto e cara tapada.  É neste sentido que podemos estabelecer, para além da ordem visual da fotografia, uma ordem lógica. Nas duas mulheres entre as quais se encontra a menina, podemos desvendar tanto o seu passado como o seu futuro. A mulher de trás é o mundo que já existia antes desta menina e que a recebeu. Nasceu ali, no mundo daquela mulher de preto, não na Dinamarca, Uruguai, Canadá, Quénia ou Nova Zelândia. Mas é precisamente por ter nascido nesse mundo que a menina irá ser um dia como a mulher da frente. O que esta fotografia nos mostra, por isso, é uma nesga de luz entre um passado e um futuro negros, num mundo onde o rosto das mulheres não é livre e aberto, podendo, como no caso ainda desta menina, mostrar a sua luz.

15 maio, 2018

HARMONIA DOS CONTRÁRIOS





Uma dicotomia implica uma diferença mas duas coisas diferentes apenas circunstancialmente serão dicotómicas. Peixe, árvore, carro, livro, são coisas muito diferentes mas não dicotómicas. Pensar em peixe, não leva a pensar em árvore, pensar em árvore, não leva a pensar em carro, pensar em carro não leva a pensar em livro. O que há de quase paradoxal numa dicotomia é o facto da oposição radical entre duas coisas acabar por uni-las num todo em que a existência de uma implica a existência da outra: bem/mal, norte/sul, sagrado/profano, aberto fechado, céu/inferno, deus/diabo, guerra/paz

A primeira coisa que me passou pela cabeça quando vi esta fotografia de Francesco Pistilli (World Press Photo 2018, nomeação na categoria General News) foi este quadro de Sorolla. Há muitas imagens que fazem pensar noutras. Nada mais natural do que olhar para um ou outro quadro de Bruegel e vir à memória um de Bosch, e o mesmo se pode passar entre George Grosz e Otto Dix ou entre Monet e Pissarro. Associação que ocorre em virtude de uma semelhança, seja no todo, seja num pormenor. Mas isso faz apenas com que se interseccionem, partilhem um ponto comum, o qual, se não existisse, anularia qualquer associação. Mas mesmo havendo as semelhanças entre duas coisas, são sempre contingentes ou relativas. Qual é a semelhança entre um leão e um caracol? Nenhuma. Mas se pusermos o leão e o caracol ao lado de um micro-ondas, passam a partilhar semelhanças: são seres vivos, alimentam-se, movimentam-se, etc..

O que acontece entre a fotografia e a tela de Sorolla é uma ligação que resulta de cada uma ser a absoluta negação da outra. Já não se trata, como no caso anterior, de encontrar um ponto comum ou uma semelhança relativa e contingente mas de poder ver melhor uma através da outra, pois cada uma é, radicalmente, o que a outra, radicalmente, não é. Ver Clotilde, mulher de Sorolla, e uma das filhas, mergulhadas num manto de brancura revela serenidade, pureza, harmonia, tranquilidade, conforto, lar, amor, tudo isso assegurado, e mesmo reforçado, pela força monocromática da tela.  Na fotografia, por sua vez, há também uma figura humana quase submergida na cor. Mas desta vez para revelar a experiência absolutamente contrária: solidão, abandono, perdição, desconforto, depressão, exílio, total ausência de amor. Tudo isso, como na tela de Sorolla, reforçado por uma força monocromática mas de sentido contrário.

Nunca mais irei pensar numa sem pensar na outra, seja qual for a ordem.

14 maio, 2018

O INSTANTE DECISIVO



Wilhelm Dilthey é um filósofo alemão do século XIX, pouco conhecido mas que teve um papel importante ao distinguir duas áreas do saber: as ciências da natureza e as ciências do espírito. Uma coisa é explicar fenómenos meramente causais, mecânicos, físicos, como são os naturais; outra é compreender situações vividas por seres humanos, movidos por desejos, emoções, sentimentos, ideias. Explicar é o que faz uma ciência como a Biologia perante o comportamento das formigas ou o efeito de um aminoácido num organismo. Já a História, perante factos como a Magna Carta, a Revolução Francesa ou as angústias existenciais e morais do PS, o que tem de fazer é compreender.

A conversa vem a propósito desta fotografia de Ryan Kelly, 2ºprémio da World Press Photo 2018, na categoria "Spot News". O que aqui se vê são pessoas que protestavam contra uma manifestação de extrema-direita, sendo atropeladas por um supremacista branco. Dificilmente conseguimos imaginar um instante mais decisivo e irrepetível do que este impressionante congelamento da acção. Um segundo antes ou depois e perdia-se o momento. No entanto, o que aqui vemos é simplesmente o microscópico instante de uma sequência temporal, impossível de captar a olho nu. Mas se a situação tivesse sido acompanhada por uma câmara de filmar que estivesse ali com o simples e ingénuo objectivo de fazer a reportagem da manifestação, apanhando por acaso o atropelamento, poderíamos igualmente ver toda a milimétrica sequência através dos seus fotogramas, até chegarmos ao que iria coincidir com a fotografia. Trata-se apenas de um facto neutro em que se vêem corpos e objectos numa determinada posição devido a uma sequência de causas e efeitos. Lembra o que diz Platão, no Fédon, quando se trata apenas de explicar o que acontece num corpo humano que caminha na rua, através do movimento dos ossos, músculos, tendões, órgãos, etc.

Ora, muito diferente é o "instante decisivo" de que falava Henti Cartier-Bresson. Dizia ele que, na fotografia, o assunto não é dado pelo facto, o qual, em si mesmo, não tem qualquer interesse. O que verdadeiramente importa é saber olhar para o facto mas para compreender a sua profundidade, a qual, muitas vezes, também não é vista a olho nu. Daí que uma boa fotografia envolva simultaneamente "o cérebro, o olho e o coração".  A fotografia é, neste sentido, como dizia Leonardo da Vinci a respeito da pintura, cosa mentale, transmitindo, não uma simples realidade física ou factual mas uma impressão. Por isso não faz sentido «disparar o obturador como uma metralhadora, fotografando rápido e mecanicamente, enchendo-nos de coisas inúteis que confundem a memória e prejudicam a nitidez do todo». O instante decisivo é um momento único e irrepetível como o da fotografia lá em cima mas buscando um significado que só a máquina pode desvendar graças à argúcia e sensibilidade do fotógrafo.

Voltando a Platão, uma coisa é explicar o movimento do corpo através de uma causalidade física, outra será compreender por que se movimenta. É o corpo de alguém que vai trabalhar, namorar, almoçar, comprar o jornal? E se vai comprar o jornal, qual será e por que razão é esse que compra? Vai triste, alegre, pensativo, contrariado? E o que haverá de insólito no seu andar, nos seus gestos, no seu olhar, e que os músculos, os tendões e os ossos só por si não podem explicar? É por isso que esta fotografia, ao contrário das muitas de Henri Cartier-Bresson, nada me diz. Satisfaz a nossa algo fútil e caprichosa curiosidade em vermos o que não conseguimos a olho nu, podemos ainda gabar a qualidade da máquina ou a apurada técnica do fotógrafo, as quais tornam possível tão espectacular fotografia, e pronto, já está. Parece-me pouco.   

13 maio, 2018

O QUADRO NA PAREDE DA SALA


Podem ser várias as justificações para se gostar ou não de um quadro. Umas mais espontâneas, intuitivas e ingénuas, outras mais técnicas e racionais, outras ainda tão tortuosas que duvido que os próprios as consigam entender se pensarem nelas uma segunda vez. Eu confesso ter há muito um critério que, humildemente, aceito ser considerado bastante estúpido: gosto de um quadro se desejasse tê-lo pendurado numa parede da minha sala no caso de isso ser possível. Se, pelo contrário, essa ideia me suscitar indiferença ou antipatia, significa que me é indiferente ou que não gosto dele.

Estarei, assim, a pôr a pintura no mesmo plano do cortinado, do tapete, do abat-jour, uma vez que o critério que me leva a gostar ou não deles também tem que ver com a maneira como os imagino e desejo na minha sala? Uma semelhança que pode soar algo insultuosa para a pintura, baixando-a à condição de simples decoração (nem sequer de arte decorativa), entrando mesmo em contradição com o irritante marketing das lojas dos museus que vendem abat-jours, cinzeiros, tabuleiros de cozinha, chapéus-de-chuva com belas pinturas estampadas, ou desta linha da Louis Vuitton.

Porém, tal semelhança entre a pintura e o cortinado não significa que pintura e cortinado tenham de ser semelhantes. O facto de ter gambas e um bolo de chocolate no frigorífico porque ambos me dão prazer não significa que a minha relação com as gambas seja a mesma que tenho com o bolo de chocolate. O facto de um gato e um elefante terem em comum não serem apenas seres vivos mas também animais, vertebrados e mamíferos, não significa que a minha relação com um gato seja a mesma que possa vir a ter com um elefante. Também gostar de ver um quadro na minha sala não significa que lá esteja pela mesma razão do cortinado que também gosto de ver e que olhe para ele da mesma maneira. Significa que gostaria de o ver como quadro e que passaria a gostar ainda mais da minha sala pelo simples facto de ele lá estar para o ver.

Qual a razão por que vou a um museu? Ou escolho um museu em vez de outro? O que me leva a ir um museu só para ver três quadros por não ter tempo para mais? E por que razão fico em pulgas só de pensar que vai haver uma certa exposição? A resposta é muito simples: poder ver, à minha frente, de nariz encostado, todos aqueles quadros. Se vou lá é porque gosto de os ver e se gosto mesmo muito deles não me irei cansar de os ver. É como certas músicas que oiço há mais de 40 anos ou textos que terei sempre prazer em reler. Ora, se me dirijo propositadamente a um sítio só para poder ver um quadro que me dá prazer, imagine-se o prazer que seria poder vê-lo na minha sala. Um prazer que é diferente do proporcionado pelo cortinado, pelo simples e bastante óbvio facto de um quadro ser um quadro e um cortinado ser um cortinado.

Por outro lado, o critério que me leva a gostar da ideia de ter um quadro na minha sala não é apenas o da beleza, o qual me parece ser o único do cortinado. Eu não acho o Metropolis, de George Grosz ou o Guernica, de Picasso, belos quadros. Podem ser muita coisa mas bonitos não são. Mas são excelentes quadros que me dão muito gosto ver e gostaria por isso de os poder ver numa sala minha (algo difícil no caso do segundo). A relação que temos com um quadro pode ser como a que temos com certas pessoas. Há pessoas que gostaríamos de poder ver todos os dias, outras com as quais gostamos de estar de vez em quando e outras ainda que queremos é vê-las pelas costas. E pelas mais distintas razões com todas elas.

O critério da parede da sala é um critério que remete para o plano da intimidade, de uma feliz rotina que contribui para tornar a vida mais confortável, harmoniosa e espiritualmente rica. Precisamente o que não consigo ver em muita obra que se faz por aí. Admito que algumas possam ser muito interessantes e inteligentes, e que até possa gostar de as ver no museu. Mas do mesmo modo que posso ter gostado do empregado que me serviu muito bem no restaurante, não implicando isso que queira fazer dele meu amigo ou voltar a encontrar-me com ele fora do restaurante, também posso gostar de ver uma certa obra que não me deixe uma especial saudade ou me faça sentir o desejo de voltar a vê-la. O que não acontece com as obras de que gosto, as tais que nunca me canso de ver e que bem gostaria de ver penduradas na minha sala. Este, claro, é o meu primeiro critério. Agora, por que gosto de cada uma individualmente já dependerá das mais díspares razões, as quais muito dificilmente conseguiria reduzir a um simples e único critério comum. 

12 maio, 2018

ESTÉTICA E MORAL





Dentro da complexa relação entre o conceptual e o sensível, existe na arte uma também complexa relação entre o seu conteúdo moral ou socialmente aversivo e o belo. Fará sentido olhar para uma pintura ou fotografia onde se revelam situações horríveis mas induzindo no receptor um prazer estético? Vemos uma situação horrível mas, ao mesmo tempo, isso que vemos é também belo. Uma tensão que, entretanto, é bem mais evidente na pintura ou da fotografia do que na música ou na literatura.

A música, sendo feita de sons, afecta directamente o sistema nervoso central como um dedo numa ferida, podendo dar origem a reacções internas (alegria, tristeza) e externas (rir, chorar, dançar, abanar a cabeça, bater o pé no chão). Sendo o ouvido um órgão mais abstracto do que o olho, isso torna possível fazer da beleza da música a causa do seu dramatismo e consequente emoção no ouvinte. Daí não fazer sentido considerar a Sinfonia nº3 de Gorecki bela «apesar» da tristeza dos seus temas. Faz sentido, sim, dizer que é «por causa» da sua beleza que a tristeza dos seus temas sai reforçada, induzindo no ouvindo um sentimento moral. Ora, sendo a palavra ainda mais abstracta do que o som, isso faz com que na literatura, sobretudo na poesia, o mesmo aconteça com qualquer  texto cujo tema seja aversivo (guerra, miséria social, morte, solidão, desgosto amoroso), contribuindo a beleza do discurso para uma maior consciência daquele.

Chegados à pintura e à fotografia, a tensão aumenta, sendo estas duas fotografias disso um bom exemplo. Ambas denunciam situações horríveis, sensibilizado o receptor para o problema, mas sendo ao mesmo tempo duas belas fotografias, diria mesmo, esteticamente irrepreensíveis, tanto na construção do desenho como no plano cromático ou no da luminosidade. Na primeira, vemos um jovem rinoceronte branco, drogado e vendado, pouco antes de ser libertado, tendo obtido o primeiro prémio da World Press Photo 2018, na categoria «Ambiente». Na segunda, uma das nomeadas para fotografia do ano, ainda no mesmo concurso, temos uma rapariga raptada pelo Boko Haram, cujo destino seria uma missão suicida, tendo conseguido fugir. Em ambos os casos, e ao contrário do que se passa com o som e a palavra, estamos perante o que em Psicologia se designa por «dissonância cognitiva» e que serve para explicar, por exemplo, como é possível ter ideias e crenças negativas em relação ao tabaco mas, ao mesmo tempo, adorar fumar. No caso destas duas fotografias chego mesmo a desenvolver um certo sentimento de culpa por me suscitar o mesmo tipo de prazer estético que sinto perante certos quadros cujos temas sugerem felicidade e harmonia ou são moralmente edificantes.

Trata-se, por isso, insisto, de uma relação complexa uma vez que o elemento propriamente estético, em vez de reforçar, poderá mesmo ofuscar a nobreza moral da arte comprometida com causas sociais e políticas retirando-lhe toda a violência que também podemos ver quando, a olho nu, assistimos a um verdadeiro massacre, corpos decepados, imagens manchadas de sangue ou pessoas exprimindo um sofrimento atroz. A textura visual, bem diferente da sonora ou do que acontece com a palavra, que nem textura tem, funciona, nestas situações, como um bálsamo apolíneo cujo efeito esteticizante apazigua a nossa relação com o tema, tornando-a mais fútil e superficial.

11 maio, 2018

OLÍMPICO CATOLICISMO


Pronto, tenho que admitir, o meu espírito pagão já teve melhores dias. Ontem, dia da espiga, dia de ir para o campo celebrar a fecundidade e primaveril renovação da natureza, resolvi entrar em duas igrejas, separadas por poucos metros no Chiado e nas quais nunca havia entrado, apesar de passar por elas vezes sem conta: a Basílica dos Mártires e a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação. Entro na primeira e logo encontro imensos turistas com ar nórdico. Talvez em virtude de também ali estar na condição de turista, resolvi fazer um exercício mental: transfigurar-me em homem alto, loiro, de olhos azuis, falando uma daquelas línguas que a morte falaria se tivesse boca para o fazer, para tentar entender o impacto que aquela igreja iria ter no protestante em que eu me tornara.

Foi tremendo. Começou logo pelo altar principal para onde logo olhei, no extremo oposto da entrada, verdadeiro centro simbólico de uma igreja, que não por acaso se chama cristã. Quem lá estava não era, como seria de esperar numa igreja cristã, um Cristo, mas uma mulher. E uma mulher à qual havia pessoas a rezar. Tentando afugentar o choque inicial, resolvi circular. Do lado direito, uma caixa de esmolas para o culto de Santo Expedito, cheia de placas metálicas colocadas por inúmeros fiéis para agradecer Graças do santo. Olho para a direita, no extremo oposto, vejo uma caixa igual e vou espreitar. Outra caixa de esmolas, também cheia de placas metálicas, mas desta vez para agradecer a São Judas Tadeu. Entretanto, resolvo avançar para observar os diversos altares laterais que percebi existirem. Foi então que dei conta dos altares de Santa Luzia, de Nossa Senhora das dores, de São Miguel Arcanjo, de Santa Filomena, de Santa Cecília e de Santo António.

O alto, loiro e de olhos azuis que há em mim ficou de tal modo atordoado, uma vez que sempre ouvira ser Portugal um país cristão, que agora já nem me lembro se havia por lá algum Cristo. A minha perturbada memória faz-me acreditar que sim mas de tal modo perdido e insignificante no meio de toda aquela overdose hagiográfica, que já nem sei onde estaria e, não menos importante, a fazer o quê. Saí estupefacto daquele católico Olimpo, resolvendo ir então até à igreja vizinha, não sem antes cumprimentar o poeta sentado na Brasileira, na esperança de que o que havia visto não passasse de uma inconsequente excentricidade. Entro e, a medo, tapando um dos meus olhos com a mão, olho lá para o fundo. E o que vejo?  Uma mulher! Novamente, uma mulher como centro daquela igreja cujo nome agora começa a fazer sentido para mim. Foi então já com a voz de Lutero a soar tonitruantemente no meu cérebro "Sola scriptura, sola scriptura, sola scriptura", que resolvo fazer um novo périplo mas apenas para ter a mesma e estranha experiência da igreja anterior.

Saio rapidamente para a famosa luz de Lisboa, desta vez com a noção clara do que já havia lido em tempos mas com alguma dificuldade em acreditar: o catolicismo não é mais do que um politeísmo cujas figuras sagradas, como em Homero, seja na Odisseia ou na Ilíada, vivem no meio de nós, intercedendo ou não por nós, podendo nós ter uma relação melhor ou mais personalizada com uns do que com outros. Em suma, no dia da espiga acabei por não deixar de ter uma experiência pagã, se bem que no interior de um igreja, vá, cristã. Valeram-me os dois pastéis de nata que comi no Camões com canela e açúcar para repor os níveis energéticos tão rapidamente gastos numa igreja católica deste maravilhoso mas estranho país do sul da Europa, abençoado pelo Sol e pelo mar.
  

07 maio, 2018

MARXISMO


Por mero e já não sei se feliz ou infeliz acaso, o meu primeiro contacto mais formal com a Filosofia foi através de uma «História da Filosofia» de Julián Marías, hoje apenas conhecido por ser pai de Javier Marías, o qual também teve um tempo em que só era conhecido por ser filho de Julián Marías. Ao ler o livro tinha a sensação de estar a pisar um terreno muito diferente do que encontrava nos livros de Enyd Blyton, da revista Gina ou dos resumos da Bola à segunda-feira, mas achando piada a descobrir os nomes de certos filósofos gregos e acreditando que talvez um dia viesse a entender as suas ideias, as quais me pareciam interessantes ainda que sem saber porquê. O impacto foi tal que acabei por pedir como prenda de anos a «História da Filosofia» de Nicola Abbagnano, da qual ouvira falar ao ter a disciplina de Filosofia. Catorze volumes! Uma floresta de nomes, teorias, correntes, conceitos e até de fotografias de gente com ar austero e cujas cabeças só podiam estar cheias de ideias profundas que abriam as portas para verdades apenas acessíveis a quem os lesse.

Quarenta anos se passaram e lá continuam todos aqueles filósofos com o seu ar austero e as suas cabeças cheias de ideias profundas para nos revelarem as verdades a que temos direito. Um deles, algures no meio de todo aquele espesso matagal, é Karl Marx. Logo aí percebemos ser Marx apenas mais um filósofo entre dezenas de outros que disseram coisas antes, ao mesmo tempo e depois dele. Daí estranhar-se haver uma coisa chamada «marxismo» e pessoas que se consideram «marxistas».  Olhamos à nossa volta e se não vemos platonistas, aristotelistas, agostinhistas, anselmistas, cartesistas, leibnizistas, humistas, kantistas, fichtistas, hegelistas, schopenhaeuristas, carnapistas, wittgensteinistas, ricoeuristas ou deleuzistas, por que raio havemos de encontrar marxistas?  Claro que todos nós sentimos mais inclinados para uns do que para outros e não vem mal ao mundo por causa disso, incluindo Marx. Sim, incluindo Marx, por estranho que pareça, se pensarmos nos tremendos actos praticados por marxistas e que transformaram o marxismo, mais do que num sistema filosófico, num pesadelo que só uma minoria de fanáticos teima em defender na sua «aldeia gaulesa» contra os ventos da história.

Apesar de Kant ser um grande filósofo que ainda hoje continua a alimentar ideias em áreas tão distintas como a ética, a estética, o direito ou a epistemologia, tal não implica que seja ideologicamente transformado em kantismo para depois dar origem a uma legião de kantistas. Por um lado, pela dogmática ousadia que é transformar as ideias de um filósofo num sistema fechado que submeta toda a realidade ao seu poder explicativo. Por outro lado, porque embora cada filósofo tenha ideias que se mantêm abertas e estimulantes, outras há que são filhas do seu tempo, outras ainda que resultam de aspectos idiossincráticos e, não menos importante, outras que podemos apenas considerar erradas. Nenhum filósofo tem sempre razão ou está completamente errado. Acontece com Marx e com todos. Claro que haverá sempre filósofos que iremos considerar mais estimulantes do que outros. Mas transformar Marx em «marxismo», alimentando insaciavelmente essa tremenda ambição sistémica e doutrinária, é deitar fora o bebé com a água do banho, sendo a maneira mais eficaz de matar um filósofo chamado Karl Marx, embora também se tenha posto a jeito devido a uma certa arrogância intelectual e científica, mas que de científico tinha muito pouco.

O marxismo e uma legião de marxistas forçou Marx a deixar de ser apenas mais um filósofo na «História» de Nicola Abbagnano para ficar colado a revoluções sangrentas, gente morta à fome de um modo programado, pobreza, prisões, perseguições, exílio, regimes sem liberdade e na qual a vida dos cidadãos era controlada pelo partido. Quando há 30 anos conheci Marx julguei que iria ser marxista mas não foi preciso muito tempo para deixar de o julgar. Mas, independentemente disso, gostaria de ter Marx vivo no debate das ideias, tanto para refutar algumas delas do mesmo modo que se refutam a de qualquer outro filósofo, até porque é disso que vive a Filosofia, como para aproveitar outras que podemos considerar úteis para o nosso tempo e para o que aí vem. Se, todavia, em vez das ideias de Marx for o marxismo que iremos continuar a enfrentar, o debate nem chega a começar. É que um sistema, qualquer sistema, sendo tão grande e fechado sobre si mesmo, nunca tem ponta por onde se lhe pegue.

04 maio, 2018

SORRISOS NUMA MANHÃ DE PRIMAVERA



Entro na sala de aula, vou para junto da minha secretária, e enquanto os outros se vão sentando, duas alunas, com um interesse e entusiasmo pouco usuais, correm aos saltinhos até junto a mim, perguntando se posso dar a minha opinião sobre um assunto que, avisam, nada tem que ver com filosofia, e que logo percebi terem estado a discutir. Eu digo que sim. Pergunta-me a mesma aluna o que é para mim mais forte: dizer, a uma pessoa, «amo-te» ou «adoro-te» Dou a minha opinião, mando-as sentar e começo a aula. Quase hora e meia depois, chegado aquele momento em que se percebe que a aula está terminada, um aluno pede-me se pode fazer uma pergunta que nada tem que ver com a matéria. Eu digo que sim. Pergunta-me então se também acho que as paixões só servem para fazer sofrer e que seria bem melhor as pessoas não se apaixonarem. Dou a minha opinião, mando-os embora e, já sozinho, enquanto arrumo as minhas coisas, percebo que agora sim, que desta é que é, e é mesmo oficial: começou a Primavera. 

01 maio, 2018

EMANAÇÃO CINEMATOGRÁFICA

Thomas Eakins | Clara

Pode um texto ser mais expressivo do que a imagem que lhe corresponde, por exemplo, num filme? Sim, pode, e por uma razão óbvia: há processos mentais cuja subjectividade e complexidade só a palavra permite exprimir. E se for o caso de um texto meramente descritivo? Sim, também, podendo as palavras ser mesmo mais reais do que a sua imagem. Não se trata, pois, de uma imagem a valer mais do que mil palavras mas de palavras que valem muito mais do que as imagens.

Vejamos três passagens de Middlemarch:

«Rosamond moveu o pescoço e passou a mão pelo cabelo, afectando a imagem de uma indiferença plácida»

«Mrs. Hackbutt friccionou as costas de uma das mãos na palma da outra, juntando-as sobre o seu peito, e deixou que os seus olhos percebessem vagamente o desenho do tapete»

«-Estás a ouvir-me?-Trovejou Lydgate.
- Sim, estou a ouvi-te, com certeza - disse Rosamond, virando a cabeça de lado com um movimento gracioso do seu pescoço alongado como o de uma ave»

Em cada uma destas passagens existe um elemento descritivo, digamos que objectivo, e um elemento subjectivo. Mover o pescoço e passar a mão pelo cabelo é uma coisa, atribuir a esses dois gestos uma «indiferença plácida» já será outra. Friccionar as mãos e juntá-las no peito não é o mesmo que qualificar um olhar como vago. E o simples movimento lateral de uma cabeça é bem diferente da sua graciosidade em virtude um um pescoço «alongado como o de uma ave».

Entretanto, estive a ver no Youtube excertos de um Middlemarch produzido pela BBC, sendo o resultado deveras frustrante, apesar de caprichosa curiosidade em «descobrir» pessoas que se acompanharam apenas mentalmente durante meses. Frustração que nada tem que ver com falta de qualidade da série mas resultado natural de uma transposição do texto para a imagem. Quando eu leio

                                       «Rosamond moveu o pescoço e passou a mão pelo cabelo»

dou com a descrição de dois movimentos físicos feita por uma escritora que viveu entre 1819 e 1880, movimentos protagonizados por uma mulher que na mente da escritora terá de ser do século XIX, através de palavras das quais não decorre qualquer impressão sensível. Se eu disser «O João brinca com os carrinhos debaixo da árvore do seu jardim», não existe aqui qualquer impressão sensível. É apenas um rapaz, uma árvore, um jardim e carrinhos, não passando de conceitos. Ora, Rosamond, que move o seu pescoço e passa a mão pelo cabelo, apresenta-se aqui igualmente nessa condição, isto é, sem qualquer contaminação sensível. Uma mulher do século XIX escreve «pescoço», «mão», «cabelo», dando vida a esses três elementos físicos, traduzindo o que só pode ser uma mulher do século XIX. Não se vê a mulher mas possuímos as palavras que «vêem» a mulher, escritas por uma mulher do século XIX que vê mulheres do século XIX e nunca tendo visto outras.

Já quando vejo as imagens na série da BBC, o que acontece é um certo nível de degradação no sentido plotiniano. Para Plotino, todas as coisas são emanações de um princípio uno e originário, apresentando vários graus: quanto mais emanações, mais as coisas se degradam face àquele princípio. Eu vejo as imagens da série da BBC e o que vejo são actores e actrizes, dirigidos por um realizador,  que pretendem reproduzir fisicamente o que surge em estado puro nas palavras da escritora. Eu leio as palavras da escritora e a minha mente está toda ela concentrada no movimento físico de uma mulher do século XIX, graças à ligação directa, imediata, intuitiva, entre a minha mente e a mente de uma escritora do século XIX. Com as imagens, tudo isso se perde irremediavelmente, não passando de uma caprichosa, ociosa e degradante pantomima.

30 abril, 2018

VERSOS E VERSÕES

Ineke Kamps | Série Lost Souls

Um dos Spleen de Baudelaire começa, com chave de ouro, com o seguinte verso: «J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans». É impressão minha ou começar um poema assim, independentemente do que se lhe segue, sugere tristeza e não alegria? Mais do que um estado de serena nostalgia, uma melancolia suspensa numa subtil fronteira com um estado de perturbação e amargura? Pode parece abusivo uma vez que recordações são recordações, não tendo, à partida, que ser boas ou más. E, na verdade, o que não falta são poemas nos quais se invoquem boas recordações. A explicação parece estar «numa vida que parece ter mil anos». No peso dos mil anos, bem diferente da alegre leveza de quem diz, como Neruda, "Confesso que vivi", ainda que tenha vivido bastante. Uma vida de recordações felizes é uma vida que parece durar pouco, pois a felicidade faz a vida passar depressa. A tristeza, pelo contrário, torna-a num longo calvário, num deserto sem princípio nem fim que se atravessa tão pesadamente que mais parece nunca se ter feito outra coisa na vida, ou que já se tivesse nascido com um passado agrilhoado na alma e que nunca a irá abandonar. Se em vez daquele verso tivesse o poeta falado de mil recordações como se tivesse vivido um só ano, o resultado seria bem diferente.

27 abril, 2018

ANGÚSTIA NO SUPERMERCADO

Soares dos Reis | O Desterrado

(também aqui)

Resolvi fazer há dias um risoto. Precisava por isso de queijo parmesão ralado. Tudo na vida há-de ter um sentido e se na ordem universal das coisas coube ao parmesão a grata missão de dar alma ao risoto, a ordem lá terá as suas razões. Fui em busca dele mas nada de parmesão ralado em Torres Novas. Recorri então ao plano B, arriscando outro queijo, e o resultado foi frustrante. Furioso, convoquei os deuses ctónicos e olímpicos, mais o de Abraão, Isaac e Jacob e ainda o outro dos muçulmanos, para que todos, em uníssono, amaldiçoassem esta terra desprezada pelo destino e a viver ainda numa pré-história gastronómica. 

Entretanto, a minha revolta não fica por aqui no que a caprichos italianos diz respeito. Sou grande adepto dos ravioli e tortellini da Rana para comer com uns cogumelos salteados e uma saladinha. Sim, há por aí de outras marcas mas ao pé dos da Rana é como comparar Emanuel dos Santos com Soares dos Reis. Não por acaso, é a marca que mais se vê nas prateleiras dos supermercados em Itália. Acontece que em Torres Novas, desgraçadamente, aparecem só alguns, e quase sempre os mesmos, pacotes, ficando o pobre torrejano desfavorecido face ao lisboeta que facilmente vai ao Corte Inglês para se alegrar com um festim de Rana ou a lojas temáticas cujos produtos têm nomes esquisitos que nas margens do Almonda não passam de miragens.

Mas foi precisamente no meio de toda esta minha revolta que, de repente, caí em mim. Afinal, houve um tempo em que para ficarmos felizes e contentes bastavam uns ovos escalfados com ervilhas e chouriço, um bom guisado, qualquer uma das cem maneiras de fazer bacalhau (incluindo pataniscas ou pastéis), uma jardineira, um peixinho no forno, uma caldeirada, uma morcela de arroz com grelos, uma feijoada, um ensopado de borrego, um coelhinho estufado, um cozidinho, um entrecosto no forno com batatinhas a murro, um polvinho à lagareiro, um franguinho corado com aquele arroz com ovo e rodelas de chouriço, uns jaquizinhos fritos com um arrozinho de tomate ou um arrozinho de pato. E como sobremesa um arroz doce (com ovos ou, à maneira torrejana, mais branquinho), um leite creme, a sempre clássica e elegante mousse de chocolate ou uma salada de fruta fresquinha. Caramba, não chega? O que mais é preciso para brilhar à mesa e trazer felicidade aos comensais? 
Hoje, porém, sentimo-nos miseráveis provincianos e numa espécie de submundo gastronómico se vivermos num sítio em cujos supermercado não há frutos tropicais, sementes com nomes exóticos, queijo mascarpone ou ricota, limoncello para uma sobremesa, queijo mozarela para uma bruschetta, queijo feta para a salada, cogumelos frescos para saltear ou rechear ou um pacotinho de risoto do tipo arbório (já nem penso no carnaroli ou no vialone nano). Ah, e o parmesão ralado que me fez passar dos carretos! 

Caí em mim para perceber que isso não passa de uma tremenda parvoíce, por não ser capaz de perceber a diferença entre aquilo de que se necessita e o que se deseja. Ai, a falta que me faz de vez em quando o meu Séneca! O ser humano, ao contrário do animal tem o dom de transformar o artificial em natural. É mesmo assim e não tem de ser mau. Mas já o será se desejarmos de forma obsessiva ou até doentia coisas das quais não necessitamos (à excepção do chocolate, claro, por se tratar de um mundo à parte). Podemos gostar de risoto, de cheesecake ou de tiramisu e temos todo o direito de gostar. Mas isso não tem de fazer de nós escravos deles. Se pudermos, comemos, se não pudermos, não comemos, evitando-se assim as frustrações que aumentam à medida que também aumentam os desejos.

E por falar em parvoíce, que fique como exemplo moral a frase que Lope da Vega mandou escrever sobre a porta da sua casa, hoje museu, na rua Cervantes: PARVA PROPRIA MAGNA, MAGNA ALIENA PARVA. Mais coisa, menos coisa: o pequeno, sendo nosso, é grande, o grande, sendo dos outros, é pequeno. Toma e embrulha!

26 abril, 2018

O ROUPÃO

(Chinatown)


«Chegada àquele templo de amor, escolhi o roupão mais galante. É um vestuário delicioso, de minha invenção: não deixa ver nada, e faz adivinhar tudo»  
                                                                                     (carta da Marquesa de Merteuil ao Visconde de Valmont)

Toca a marquesa, com a pena, na mais sensível ferida do erotismo, graças ao seu roupão. Mas também se poderia referir à corrupção em Portugal, neste caso, através de um movimento inverso àquele que refere: faz adivinhar tudo mas não deixa ver nada. Seja no mundo da política ao mais alto nível, de autarquias, de empresas, consegue-se adivinhar, pois aí estão os sinais exteriores para quem os quiser ver, ou até aproveitar e bajular. Mas sem nada se ver, como se não passasse tudo de um sonho que logo se evapora. E tal como acontece com o vestuário sensual, há também na corrupção um jogo do olhar, um jogo entre quem vê e quem é visto. A grande diferença é que, no caso da corrupção, contentamo-nos apenas em imaginar sem nunca chegar a pôr os olhos em cima do obscuro objecto de desejo. Tão perto, tão tangível, mas tão longe e tão inatingível, também.

25 abril, 2018

25 DE ABRIL SEMPRE?



Não fiz de propósito mas calhou ter revisto, um a seguir ao outro, o primeiro e o último filme de Luchino Visconti: Ossessione (1943) e L'Innocente (1976). Por sinal, pela ordem contrária. Que me perdoem os nostálgicos da pureza neo-realista, mas a diferença entre os dois é abissal. Ossessione é apenas um bom filme, L'Innocente é absolutamente esmagador, sendo quase milagroso o dom de Visconti para dar uma grandeza operática a três actores associados a filmes menores. E diferença que não resulta necessariamente de serem o primeiro e o último filme. Há realizadores cujo primeiro filme é melhor do que o último e é bom lembrar ser Citizen Kane o primeiro filme de Orson Welles.

A distância entre os dois não está nos filmes em si mesmos, cujas datas até poderiam ser trocadas. Tendo o romance de Gabriele d'Annunzio, no qual se baseou L'Innocente, sido escrito em 1892, Visconti poderia tê-lo logo feito em 1943. Como teria sido possível que só em 1976 lhe tivesse ocorrido passar para a tela o romance O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes que dá origem a Ossessione. A distância entre os dois está no tempo, que prende cada um deles com as suas poderosas garras. Poderia Visconti ter feito Ossessione em 1976 tal como o fez em 1943? E poderia ter feito L'Innocente em 1943 tal como o viria a fazer em 1976? Impossível, pois fazer filmes em 1943 não é o mesmo que fazê-los em 1976, independentemente dos filmes que se fazem e de quem os faz. Tivesse Orson Welles feito Citizen Kane em 1976 e não seria o mesmo. Não só porque Orson Welles já não era o mesmo mas também porque a realidade (incluindo técnica) não era a mesma. Pensemos, avulsamente, sem critério cronológico, nalguns filmes do realizador italiano: Morte Em Veneza, Rocco e Seus Irmãos, Sentimento, Violência e Paixão, Os Malditos, Ludwig, Noites Brancas, Belissima, O Leopardo, A Terra Treme. Se os arrumarmos cronologicamente, percebe-se facilmente a evolução lógica e natural de todo o processo, a qual explica que, por exemplo, L'Innocente venha na sequência de Morte em Veneza ou Ludwig e não de Rocco e Seus Irmãos ou a Terra Treme que, por sua vez, vêm na sequência de Ossessione, sendo o contrário impossível.

Tal como perante os dois filmes de Visconti, eu comparo o Portugal de 25 de Abril de 1974 com o que vejo agora e percebo a impossibilidade da troca. Claro que a analogia com os filmes não está isenta de espinhas. Não faria qualquer sentido dizer que, em 1974, Portugal fosse apenas um bom país, em contraste com o soberbo Portugal de 2018. Refiro-me à evolução natural e previsível da sociedade portuguesa. Uma evolução que é não linear, com os seus altos e baixos, mas claramente gradual e irreversível. E, tal como Ossessione, o Portugal de 1974 poderia ser melhor ou pior, sendo discutível o quê, mas, como no filme, há coisas que eram como teriam de ser em 1974, em virtude de um conjunto de ligações causais (embora contingentes) que levaram a que assim fossem do mesmo que outras ligações causais levaram a que a França, o Brasil, a Índia, o Quénia ou a Bulgária de 1974 fossem o que fossem. E o mesmo se passa com o Portugal de 2018.

É neste sentido que se torna ocioso desejar que o 25 de Abril seja para sempre, ou perguntar se irá ser para sempre. É como perguntar se a Terra irá sempre girar em torno do Sol. Claro que a resposta pode ser negativa. Quando o Sol explodir, a Terra irá deixar de girar à sua volta. Mas se considerarmos apenas circunstâncias normais e previsíveis, sim, claro que irá sempre girar. Com o 25 de Abril passa-se o mesmo. Anormais situações catastróficas, naturais ou humanas, poderão levar a que a sociedade construída na sequência do 25 de Abril deixe de existir tal como a conhecemos. Porém, num quadro de normalidade social, política e económica, o 25 de Abril, enquanto conceito, tornou-se irreversível, sendo impossível, como nos últimos filmes de Visconti que já não poderiam ser feitos como foram os primeiros, voltar atrás.

23 abril, 2018

JOSÉ DE RIBERA- MAGDALENA VENTURA COM O SEU MARIDO E FILHO



A decisão, há tempos, do metro de Londres em não tratar mais os seus utentes por «senhoras e senhores»  para não excluir outras identidades é apenas um pormenor de um tempo em que dividir o mundo entre homens/mulheres ou masculino/feminino, se tornou simplista, exclusivo, discriminatório e reaccionário. Houve um tempo (no fundo, todo o tempo) em que de um lado havia homens, os quais faziam coisas que só os homens faziam, e do outro mulheres, as quais faziam coisas que só as mulheres faziam. Entretanto, e muito felizmente, passámos a ter homens que fazem coisas que as mulheres passaram também a poder fazer e mulheres que fazem coisas que também os homens passaram a poder fazer. Passámos assim a ter um mundo (refiro-me, claro, aos países cristãos desenvolvidos) em que cada vez mais, de um ponto de vista social, cultural e familiar, é cada vez menos importante ser homem ou mulher. Chama-se a isto evolução pessoal, social, moral e até civilizacional.

Ainda assim, continua a ser um tremendo incómodo, tanto de um ponto de vista prático (por exemplo, casas de banho) como legal, como psicológico, haver apenas homens e mulheres ou apenas género masculino e feminino, mantendo-se assim uma visão simplista, exclusiva, discriminatória e reaccionária. Isto, porque existem mais orientações sexuais do que o número de vezes que o Sporting foi campeão nos últimos 40 anos. Algo ignorante nestas matérias, fui pesquisar, sendo então informado de que a heterossexualidade é apenas mais uma orientação entre outras, como a homossexualidade, a bissexualidade, a transsexualidade, a panssexualidade (também conhecida por omnissexualidade, polissexualidade ou trissexualidade), a assexualidade e o intergénero. Embora nalguns casos me pareça mais tratar-se de desorientação do que de orientação sexual, todas elas me merecem tanto respeito como alguém que tem a casa cheia de posters do Tony Carreira, ser Testemunha de Jeová ou preferir o Macdonald's a um cabrito assado com batatas e grelos. Gostos que não partilho mas que considero absolutamente indiferentes no que ao carácter da pessoa diz respeito assim como aos seus direitos enquanto cidadão, ou vá, cidadã. Daí cada vez mais o incómodo em continuarmos a pensar e a agir como o clássico e redutor sistema binário homem/mulher, masculino/feminino. O ideal seria mesmo que, tanto em termos práticos como legais ou psicológicos, deixasse de haver homens e mulheres ou género masculino e feminino que nos aperta e limita como desconfortável camisa de força.

Estava eu nestas elucubrações quando, de repente, me lembro do quadro de Ribera. Céus, há quanto tempo não o via ou sequer pensava nele. Resultado desse tempo distante e do facto de alguns dos mais importantes pintores espanhóis do século XVII, como é o caso de Ribera assim como de Murillo ou Zurbarán, pintarem santas, algumas delas mártires, como Santa Cassilda, Santa Lúcia, Santa Apolónia ou Santa Úrsula, fui levado a pensar, arbitrária e erradamente, que a figura feminina representada no quadro fosse a de uma santa. Não é. Não é, mas há qualquer coisa de nobre e hierático na sua figura que surge assim, com toda a dignidade, frontalidade e de cabeça erguida, diante dos nossos olhos, na companhia do marido que, em vez de fugir, esconder, aparecer de costas, de cara tapada, a assobiar para o ar, assume sem complexos a transformação física da esposa. Impressionante, pois, como um quadro do século XVII e de um pintor tão dado a temas religiosos, se revela de uma modernidade avassaladora. Para além disso, convém não esquecer que, para além da bela ressonância do seu nome próprio há que contar com o fortíssimo simbolismo do seu apelido: Ventura.

Em suma, a modernidade desta mulher (chamemos-lhe assim), não se deve apenas a razões conceptuais e ideológicas, juntando no mesmo corpo uma ubérrima dimensão mamária e uma viril capilaridade. Permite também perceber que o seu destino, com o qual não contava, não lhe retira qualquer espaço, mantendo uma dignidade que é ao mesmo tempo feminina (a criança ao colo que o diga e provavelmente o marido que tem bem com que se entreter) e masculina, não ficando atrás de homens de barba rija como o Barbas da Costa da Caparica ou os actuais barbeiros hipsters. No fundo, há qualquer coisa de utópico nesta figura ambígua, abrindo as portas para qualquer conjectura de natureza sexual. Quem sabe se, ainda que num futuro ainda  longínquo, resultante de um processo filogenético amigo da liberdade e da criatividade sexual, não iremos ter este modelo de humanidade no que seria uma verdadeira revolução antropológica que elimina sexos, géneros, identidades sexuais rígidas, passando apenas  a haver pessoas sexuadas, seja lá o que isso for.

22 abril, 2018

CRIME E CASTIGO DA DEMOCRACIA

Francis Bacon | Estudo para um Retrato

Um dos aspectos mais chocantes e nefastos da nossa democracia é a sensação de impunidade perante crimes graves ou outras ilegalidades praticadas por políticos ou pessoas com importantes cargos públicos ou privados. Na verdade, tanto uns como outros deveriam ser seriamente punidos. Mas um sistema judicial pesado e tortuoso, certas leis e procedimentos legais, bons advogados ou bons amigos num país em que toda a gente come nos mesmos restaurantes, permite a muitos, demasiados, passar entre os pingos de chuva sem se molhar.

Quem acaba de ler esta dramática introdução vai pensar que ou acordei maldisposto ou vim há pouco de um café de bairro onde estive a ler e comentar o Correio da Manhã com outros "populares", motivando-me agora um ímpeto justiceiro face aos políticos e toda a gente importante que se anda a amanhar nas costas do povo. Não, nem uma coisa nem outra, nem sou sequer o tipo de pessoa que considera os políticos uma "cambada de gatunos".

O meu problema é outro. Nós podemos apreciar a democracia e, racionalmente, não desejarmos trocá-la por outro regime. Mas a democracia, ou sociedade aberta, é frágil. Trata-se de um regime frio e bem diferente de projectos românticos de unidade que criam laços entre as pessoas graças a uma transcendente ou "religiosa" legitimação, seja por Deus, um partido político ou um líder em quem nos revemos e que sentimos como nosso, tornando a sociedade numa espécie "terceiro anel" do estádio da Luz, no qual não há espaço para divergências, conflitos de interesses, estando todos a remar para o mesmo lado. Não por acaso, projectos e ímpetos autoritários viram-se com verdadeiras auto-estradas à sua frente para poderem avançar, devido a falhadas experiências democráticas com as suas naturais dificuldades em dar origem a uma  "religião civil".

Sentirmo-nos desfavorecidos e injustiçados numa sociedade com tiques oligárquicosd e com um assalto aos aparelhos de estado e económico por pessoas sem escrúpulos que os degradam, será sempre um risco para a democracia. Já haverá poucos taxistas a reclamar a necessidade de três salazares. Mas o taxista que há em muitos milhões de doutores Jekyll está sempre a espreitar. Basta ler jornais para o perceber. Ao contrário do que podemos pensar, em 2018, a democracia não é um dado adquirido. Daí nunca deixar de haver crimes sem castigo pois será sempre a democracia que acaba por ser castigada.

21 abril, 2018

VÍCIOS PRIVADOS, PÚBLICOS VÍCIOS

Francis Bacon | Estudo para um Retrato

Sinceramente, gostaria que alguém me explicasse como é possível, na vida pública, existirem práticas que o bom senso considera imorais mas que por serem legais não podem ser punidas. Todos os anos explico aos alunos que é o direito a depender da moral e não a moral a depender do direito. Se uma coisa é considerada moralmente incorrecta não é porque o direito a condena mas, pelo contrário, se o direito a condena é por ser moralmente incorrecta. O que haverei eu responder se um destes dias vier um aluno perguntar como é possível uma lei que legitima a acção de um ministro, deputado ou pessoa com um cargo público, considerada imoral?

É verdade que há coisas moralmente incorrectas embora não puníveis por lei. Mentir a um amigo pode não ser a coisa mais edificante mas não se pode punir juridicamente alguém por isso. Se alguém for fazer queixa à polícia ou meter advogado porque um amigo lhe disse ao telefone estar doente em casa quando, afinal, andava na farra com outros, mentira que o entristeceu e deixou revoltado, arrisca-se a ser motivo de escárnio. Claro que o amigo pode ser julgado e até condenado... mas moralmente. Tal acontece porque há coisas na vida privada das pessoas que terão de ser elas a resolver entre si, e ainda bem que assim é. Fosse punido por lei tudo o que fazemos de menos correcto moralmente e as nossas vidas seriam um enorme pesadelo.

Mas no que à vida pública diz respeito as coisas terão de ser completamente diferentes e não se usar uma má lei como pretexto para legitimar uma acção moralmente incorrecta. Ouvir um deputado reconhecer, algo envergonhado, o lado moralmente duvidoso da sua acção mas que dorme tranquilo só porque a lei não o impede de fazer, a única coisa que consigo sentir é um profundo asco e desprezo pela pessoa que a praticou, pela lei que lhe permite praticar, assim como pela pessoa que fez a lei.

19 abril, 2018

HERACLITO & COMPANHIA


Bem poderíamos ver neste homem pintado por Fragonard, a hierática figura de um santo cristão. Por exemplo, ou sobretudo, S. Jerónimo, uma das figuras mais retratadas na história da pintura e sempre no mesmo registo: solitário, austero, despojado de bens materiais, lendo ou escrevendo, bem longe da vida mundana e das vaidades deste mundo. Claro que soaria estranho Fragonard a pintar S. Jerónimos e afins. O seu mundo é o do prazer, da alegria, da festa, da galantaria, do erotismo, da transgressão, de luxuriantes jardins rococós, um mundo protagonizado por uma classe social cujas motivações hedonistas não poderiam divergir mais das de um santo mergulhado na sua meditação e em exercícios espirituais no deserto. Mesmo que pinte uma menina a ler, será uma menina coquette a ler.

Este homem pintado por Fragonard é um filósofo. Não de um filósofo em particular. Fosse esse o caso e a pintura seria outra. Estamos longe do século XX e um retrato não pode fugir da sua essência «fotográfica» que revela ao mundo o modelo retratado. Ora, não sendo «um» filósofo em particular isso dá ao pintor toda a liberdade para pintar «o» filósofo, quer dizer, a figura que para o pintor melhor exprima a ideia de filósofo. E que figura é essa? Uma figura algo impressionista, cujas formas parecem desvanecer-se, em que a matéria do seu corpo é feita da mesma matéria dos seus livros, uma figura completamente mergulhada na leitura. Não pode ser um livro qualquer, o que lê. Veja-se a expressão do rosto e o movimento do corpo lançado na direcção do livro como quem acede, tal como um profeta bíblico, a um conhecimento raro e inacessível para a maioria das pessoas que, como diria Heidegger andam distraídas nas suas vidas ou, como diria Pascal, nos seus pequenos divertissements.

É difícil olhar para «o» filósofo de Fragonard sem pensar no filósofo de Rembrandt em processo de meditação no seu fáustico gabinete



ou ainda neste filósofo, também de Rembrandt e, neste caso, como  o de Fragonard, lendo um livro


Sim, há diferenças. Enquanto o filósofo de Fragonard parece, com a sua leitura, estar a passar por uma experiência intelectualmente torrencial, os filósofos de Rembrandt estão tão tranquilos e suspensos na sua meditação ou na sua leitura como alguém que está dormindo. De qualquer modo, não deixam de ser representados na margem da realidade mundana. Posso até mesmo dizer: da realidade profana. Basta compará-los com o seu Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém, com o seu S. Paulo de olhar completamente alheado do mundo que o rodeia, com o modo como apresenta a figura de Cristo em Emaús ou até com o modo crespuscularmente sereno revelado na cena nocturna da sagrada família. Estes filósofos de Rembrandt, como o de Fragonard, não são santos mas também poderiam sê-lo.

Porém, nenhum destes três filósofos, ou antes, nada nesta ideia de filósofo, bate certo com a psicologia emanada dos verdadeiros retratos de filósofos. Vejam-se os retratos, digamos «oficiais», de David Hume



de Leibniz


de Voltaire, ao lado de Frederico II, em Sanssouci


de Kant


ou até mesmo este Descartes do meu muito querido Frans Hals, bem longe das caricaturadas personagens do pintor holandês


O que vemos aqui são homens com uma posição social elevada, cientes do seu prestígio, com uma gravitas burguesa ou aristocrática, homens que são aqui apresentados como filósofos mas que bem poderiam ser comerciantes, banqueiros ou apenas pessoas ricas vivendo dos seus rendimentos.

Podemos então dizer que a versão de Rembrandt e Fragonard sobre o que é «um» filósofo não bate certo com a verdadeira identidade «dos» filósofos? Sim, podemos. Os filósofos, grandes ou pequenos, são, na verdade, pessoas como outras quaisquer, e isso tanto pode ser entendido nas suas vidas institucionais como nas suas vidas pessoais. Nietzsche era um louco cujo passatempo preferido era andar pelas ruas de Turim a agarrar-se a cavalos maltratados pelos donos? Não, Nietzsche não enlouqueceu por ser filósofo mas porque o seu sistema nervoso central foi afectado pela sífilis, doença normal à época. Se Nietzsche surge aqui


tão «munchiano» não é por ser filósofo mas por ser um ser tão mentalmente perturbado como outras figuras munchianas. Quisesse o pintor norueguês pintar Kant, Hegel, Fichte ou Schopenhauer e o filósofo seria outro.

Há filósofos distraídos? Sim, há, como há engenheiros, músicos ou contabilistas distraídos. Se um engenheiro não é distraído por ser engenheiro, o mesmo se passa com um filósofo. Há filósofos com ar grave e sério? Sim, como há bancários, empresários ou agricultores com ar grave e sério. E convém lembrar que o mesmo Tales que caiu num buraco por andar a olhar para as estrelas, motivando o escárnio de uma escrava trácia, foi o mesmo Tales que se fartou de ganhar dinheiro graças aos seus conhecimentos.

Porém, a versão popular que se desenvolveu do filósofo, tendo chegado até ao século XX, foi aquela que vemos representada nos quadros de Rembrandt e de Fragonard. Pronto, está bem, um homem de carne e osso e no que às aparências diz respeito, igual a qualquer outro. Porém, lá no fundo, não é uma pessoa qualquer. Há muita gente que não é uma pessoa qualquer. Mas o que faz com que um rei, um presidente da república, um ministro, um músico, um grande empresário não sejam umas pessoas quaisquer, não é o mesmo que faz com que um filósofo também não o seja. A marca distintiva de um filósofo será sempre uma alma oracular, a capacidade de pensar coisas que mais ninguém pensa, de complicar coisas que são simples por ver  nelas o que mais ninguém vê, enfim, o dom quase místico de ocupar uma vida inteira com questões como «Por que há o ser em vez do nada?», «O que é uma coisa?», «Será a realidade real?», «Será que um carro cujas partes foram mudadas continua a ser o mesmo carro?». Claro que quem se ocupa com questões desta natureza ou de outras mais «populares» relacionadas com a existência de Deus, a imortalidade da alma ou o sentido da vida, e levando-se a sério por isso, não pode ser uma pessoa como outra qualquer, movimentando-se num universo espiritual onde poucos conseguem entrar e onde só se consegue subsistir graças a uma certa excentricidade. É verdade que formalmente como obscuro só tivemos um filósofo: Heraclito; Heraclito, o Obscuro. Porém, se virmos bem, a obscuridade é um traço de personalidade e de pensamento que, de uma maneira ou de outra, seja com base numa versão mais romântica, seja com base numa versão mais cómica ou até de desprezo, marca o imaginário popular a respeito do filósofo.

Hoje, porém, as coisas mudaram bastante no que diz respeito à imagem pública e popular do filósofo, sendo talvez a França ainda uma excepção. Claro que haverá pessoas mais velhas que ainda continuam a encarar o filósofo com um misto de veneração intelectual e desconfiança. Há uns anos, tendo ficado alojado em casa de uma professora reformada, em Londres, quando ela soube que eu era professor de Filosofia, fez um ar de espanto e logo disse: "Oh, you must be very clever!". Fiquei naturalmente envergonhado, até pela consciência de ter uma inteligência medianíssima que apenas me permite compreender o mesmo que à esmagadora maioria da população com alguma formação. Se eu tivesse dito que era professor de Matemática, de Inglês, de Física, de História ou de Educação Visual, estou certo de que não teria dito o mesmo a meu respeito, ainda que para o ser seja necessária inteligência ou até mesmo muita inteligência. Porque a inteligência a que ela se quis referir é de outra ordem, revestida de alguma obscuridade e mistério, a tal ordem que escapa aos mecanismos normais da inteligência comum e que associamos a áreas como a Biologia Molecular ou a problemas trigonométricos. Mesmo um especialista em Física Quântica, ao qual se reconhece grande inteligência, mesmo um cientista como Stephen Hawking, digno herdeiro de Einstein no que à visão popular da inteligência científica diz respeito, seriam vistos como tendo uma inteligência de uma natureza diferente da inteligência do filósofo, mais especulativa e livre, sem as amarras da dedução científica.

Hoje, porém, as coisas vão-se tornando, a pouco e pouco, bastante diferentes. A principal razão, de natureza histórico-cultural, tem que ver com o facto de ter acontecido à Filosofia o que já antes havia acontecido à religião: uma crise de grandes narrativas e sistemas que alimentavam todas as nossas leituras do mundo, tendo como consequência uma perda do seu impacto no mundo intelectual e social. Se entrasse agora num café e pedisse às primeiras pessoas que encontrasse para me darem o nome de três filósofos vivos, posso prever o fracasso da missão. Isto, apesar de se continuar a fazer filosofia de um modo bem vivo e estimulante, de continuar a haver grandes debates filosóficos no mundo académico, de continuar a haver filósofos de ponta que escrevem excelentes ensaios filosóficos. Porém, já não são grandes maitres à penser, gurus de reis e princesas, intelectuais que se metem por questões enigmáticas a que poucos têm acesso. Quantos filósofos do século XX fazem de Deus, da alma e do mundo, em sentido kantiano, os seus grandes temas? Com algumas excepções, a Filosofia tornou-se analítica, resolvendo problemas através de uma linha argumentativa que expulsou o escritor, o divagador, o literato que havia dentro de tantos filósofos. O filósofo, hoje, por muito importante que seja, não passa de um intelectual anónimo como qualquer matemático ou cientista de quem ninguém ouviu falar. A consequência boa foi o filósofo ter deixado de ser visto popularmente na linha de Heraclito, o obscuro, que ainda vemos representada nos quadros de Rembrandt e Fragonard. A consequência má é o facto de não ter deixado de ser obscuro para passar a ser apenas um intelectual normal. Foi, pura e simplesmente, por ter publicamente morrido, quando por vezes até faz bastante falta.

18 abril, 2018

O CAPITAL

Quentin Massys | O Banqueiro e sua Mulher

Acabámos com o comunismo mas continuamos a ter comunistas. Isso é possível devido a um conjunto de crenças e desejos cuja autonomia os liberta do princípio da realidade. Cada um acredita e deseja no que bem entender, e tanto podemos livremente acreditar no que desejamos como livremente desejar aquilo em que acreditamos. Contrariamente ao que aconteceu com o comunismo, não acabámos com o capitalismo e continuamos a ter capitalistas. Para tentar acabar com o capitalismo poder-se-ia acabar com os capitalistas. Acontece, porém, que depois de acabarmos com os capitalistas voltaríamos a ter de novo capitalistas e, consequentemente, capitalismo. Este, ao contrário do comunismo, não resulta de um conjunto de crenças e desejos libertos do princípio da realidade para serem impostos à natureza humana, mas da própria realidade que nos impõe certas crenças e desejos em função da natureza humana. Crenças e desejos que não são perfeitos uma vez que a realidade também não o é, porque também não o é a nossa natureza. Claro que há capitalismo melhor e pior. Não no sentido do primeiro ser mais perfeito do que o segundo mas apenas por conseguir ser menos imperfeito. O que já é muito bom, diria mesmo, uma grande conquista civilizacional.

17 abril, 2018

A CAMA DE PROCUSTO


Estou a dar aula e a meio de uma frase uso a expressão a priori no seu sentido mais vulgar. Uma aluna levanta o braço para perguntar o que significa. Pergunto-lhe se nunca ouviu mesmo a expressão mas já ouviu embora sem saber o que significa. Nunca tinha ouvido. Outros alunos, porém, sabiam o seu significado. Acontece frequentemente haver coisas que alguns alunos sabem e outros não, portas que estão abertas ou fechadas, até nos modos e comportamentos, não por estudarem mais ou estudarem menos mas por causa da sua origem social, das conversas que ouvem à mesa e de muitas outras experiências relacionadas com essa origem.

Isto faz com o que o princípio da igualdade de oportunidades que imprime justiça nas acções humanas acabe por não se aplicar com rigor à escola. Dois alunos estão na mesma escola, na mesma turma, estudam pelos mesmos manuais e em nada divergem no que toca à sua experiência escolar. Mas conta, e muito, o que acontece antes de chegarem à escola. Isso pode fazer com que um aluno mais inteligente, motivado, responsável e trabalhador fique em desvantagem a um outro que o seja menos mas que ganhou, sem qualquer mérito, o prémio da lotaria familiar e social no que diz respeito a certas aprendizagens, muitas vezes essenciais, para poderem singrar em certos meios.

Então imaginemos agora um governo completamente obcecado com os princípios da justiça, um governo que fizesse da justiça social uma das suas principais lutas. Para evitar qualquer tipo de desrespeito pelo princípio da igualdade de oportunidades em crianças e jovens, tomaria a seguinte decisão, digamos, espartana: desde cedo, as crianças sairiam das suas casas para irem estudar, como internas, em instituições escolares que, de norte a sul, de oeste a este, cumpririam escrupulosamente um conjunto de padrões universais sem o mínimo desvio. As escolas seriam todas iguais, os professores seriam todos iguais (e vigiados de forma rigorosa para evitar desvios), as refeições todas iguais, leriam todas os mesmos livros, veriam todas os mesmos filmes, todos, em excursões organizadas, viajariam pelos mesmos lugares. Tudo isto até ao 12ºano. Até lá, estariam com as suas famílias apenas durante as férias escolares a fim de não contaminar a pureza e absoluta bondade do princípio da igualdade de oportunidades.

Seria possível um modelo assim? Havendo dinheiro para isso, sim, por que não? Seria apenas uma questão de o Estado assumir nas suas escolas o mesmo regime de internato de alguns colégios. Seria justo? Sim, completamente justo. As diferenças que viriam a ocorrer entre crianças e jovens dever-se-iam, assim, apenas a critérios puramente individuais e não familiares e sociais. Mas também é fácil perceber o filme de terror associado a um regime desta natureza. Tudo isto para mostrar que bons valores ou princípios, como é o caso da justiça, do bem, da igualdade, quando levados demasiado a sério, motivados por um instinto de perfeição humana, trazem mais prejuízos do que benefícios. Uma má ou razoável imperfeição será sempre melhor do que uma  tenebrosa embora inestimável, quanto ao princípio, perfeição.