21 agosto, 2017

ANTÓNIO, ANTÓNIO

[Grupo de turistas portugueses, aproximando-se perigosamente da Fontana di Trevi, vindos da Piazza Navona, depois de terem estado a comer gelados na Giolitti]


Comprei há dias o livro "Itália- Práticas de Viagem", de António Mega Ferreira. Não, apesar do título, como manual prático para uma putativa viagem ao país de Silvio Berlusconi mas pelas várias e interessantes referências à cultura italiana, a qual prezo bastante. Num dos capítulos dedicados a Roma, o autor parte de uma fotografia onde se vê Pasolini, nos anos 60, sentado na esplanada do Caffè Rosati. Percebe-se o fascínio de Mega Ferreira por esta fotografia, que decorre do seu também indisfarçável fascínio pelo realizador e escritor comunista. Explica depois ser o café, já naquele tempo, um ponto de encontro de intelectuais de esquerda, ao invés do Canova, mesmo ali ao lado, frequentado pelos de direita. Daí nunca ter entrado no Canova, sendo sempre o Rosati o seu eleito para "tomar um café e um delicioso panino de prosciutto cuoto", desde que lá entrou pela primeira vez em 1979.

Há muitos anos que sigo o percurso de Mega Ferreira, homem que respeito intelectualmente, não precisando desta sua referência ao Rosati para saber que é um homem de esquerda. Não deixa por isso de surpreender o que escreve logo na página 12, quando lamenta o incómodo de ter que se misturar com os turistas que vêem em Itália um parque de diversões e sem olhos para a Itália secreta que só pessoas como o autor do livro conseguem ver: "(...) aconselha-se o semicerrar dos olhos até que a poluição visual se dilua, uma espécie de exercício mental de «limpeza» das vistas, ignorando-se as mulheres gordas, os homens barrigudos e as crianças malcriadas, concentrando o olhar apenas naquilo que vale a pena ser visto". O cenário, assim descrito de modo tão escatológico, é de profundo horror, fazendo-me até lembrar, não, e ao contrário do que se possa pensar, o Coronel Kurtz do Apocalypse Now, mas o meu estado de espírito, já lá vão 30 e tal anos, ao sair da sessão da meia-noite do Quarteto depois de ter visto, e vai em italiano para tinir mais suavemente na minha hegeliana bela alma, "Brutti, Sporchi e Cattivi". Mas fará sentido tamanho horror perante o moderno Petit Tour dos pobrezinhos e remediados em viagem de ida e volta da Ryanair?

Juro, mas juro mesmo, que percebo a chatice de não poder chegar a Itália em operático registo viscontiano para depois, como Aschenbach ou Brodsky, flanar melancolicamente pelos canais de Veneza, com o rosto febrilmente afagado pelo siroco; vaguear literariamente pelos cafés de Turim, com o fantasma de Nietzsche por perto e apenas o sussurro das folhas de um jornal ou de quem conversa baixinho perante dois macchiati; andar pelas ruas de Milão apenas rodeado de elegantes descendentes das condessas Serpieri ou dos Falconeri de outrora, com os seus actuais e impecáveis vestidos e fatos italianos comprados no Quadrilátero; já em Florença, abrir a janela do quarto sobre a cidade para depois entrar em Santa Croce e, como Stendhal, ouvir as extáticas palpitações do seu coração; ouvir o silêncio da Piazza del Campo, em Siena, ou os sagrados murmúrios dos mosaicos de Ravena, como teria ouvido Montaigne; entretanto, ter nos braços o mesmo Coliseu que outrora se despiu perante Goethe como uma bela e casta mulher que só se despe para os íntimos e apaixonados olhos do seu amante ou ter a Fontana di Trevi só para si e uma valquíria loira, embora com estridência mais meridional do que wagneriana, mais próxima até das gordas turistas que Mega Ferreira não suporta, do que da profunda e complexa mitologia escandinava; enfim, vaguear sossegadinho  pelas esculturas do museu em Nápoles ou em Pompeia, como a Bergman, sem ter que esperar de 5 em 5 minutos que acabem de fazer as selfies para o Instagram ou Facebook.

E não pode, por causa da poluição visual originada por tanta mulher gorda, homem barrigudo e criança malcriada. Mas isto coloca um problema. Se o povo não sai de casa para ficar a ver telenovelas, reality shows, debates desportivos ou passar horas no Facebook, é estúpido e ignorante. Se já sai mas para viajar até ao café para beber umas minis e comer tremoços enquanto discute A Bola, ignorante e estúpido é. Apesar de a estupidez e a ignorância serem qualidades que não dignificam a população de um país que teve poetas como Sá de Miranda e Camões, tomo a liberdade de presumir que, para Mega Ferreira, será bendita e piedosa estupidez e ignorância, por ser daquela que não perturba os seus arrebatamentos estéticos e intelectuais sempre que pousa os pés em Itália. A chatice é quando o povo evolui social e economicamente e, com dinheiro no bolso para andar de avião, resolve ir todo contente para o Coliseu fazer selfies ou fotografias em frente à torre de Pisa a fingir que sustém a sua queda com um dedo, incomodando a aristocrática sensibilidade do intelectual português perante tão bela jóia do Renascimento que bem gostaria de ter apenas ninfas botticellianas a embalar-lhe a alma num bucólico fim de tarde toscano.

Não digo "aristocrática" inocentemente. Tudo aquilo que atrai Mega Ferreira em Itália tem um selo aristocrático ou burguês. Tudo o que é palácio, pintura, escultura, igreja, torre ou até os poemas de Rilke no castelo de Duíno sobre o golfo de Trieste, deve-se à riqueza dos Sforza, dos Gonzaga, dos Este, dos Medici, dos Borgia, dos Orsini, dos Strozzi, dos Pazzi, dos Montefeltro, dos Borghese ou, por último, mas mesmo nada menos importante, do papado. São eles, com o seu poder, a sua ambição, a sua vaidade e, nalguns casos, como diria o Harry Lime de O Terceiro Homem, com bastante mau feitio. Mas também com o seu gosto artístico, que fazem com que, desde há muito, Mega Ferreira vá todos os anos a Itália. Não tenho a menor dúvida de que ao passar pelas praças, pelos estátuas, pelos cafés, pelas livrarias, pelos museus, pelos palácios, pelas igrejas e seus interiores ou até pela própria paisagem italiana, Mega Ferreira consiga ver e sentir coisas que os antigos aristocratas e burgueses cultivaram e que passam completamente ao lado das gordas e dos barrigudos. Porém, não vendo e sentindo essas, verão e sentirão outras. Os filhos e netos dos pobres de outrora (incluindo chineses) que poluem a Itália de Mega Ferreira, obrigando-o a semicerrar os olhos e a impedi-lo de usufruir quase privadamente dos tesouros que esperam por si, podem não ter a mesma experiência estética e intelectual do ex-administrador do CCB, mas isso não os impede de apreciar à sua maneira a catedral de Florença ou a Piazza della Signoria. Seja como for, o que depois se faz ou deixa de fazer com esses bens fica ao critério e liberdade de cada um. Também nas bancadas de um estádio não há só lugar para quem perceba muito de futebol mas igualmente para quem só veja a cor das camisolas. Num concerto de música clássica há melómanos que podem estar horas a falar sobre o que acabaram de ouvir e quem apenas goste de ouvir sem nada saber do compositor e da sua música. Dois garotos do 9ºano que namoram nos jardins da Gulbenkian jamais verão o que lá vê um arquitecto paisagista mas nem por isso deixam de apreciar o lugar e serem lá felizes. Com a a paisagem urbana e cultural italiana sucede o mesmo, e quem é de esquerda só pode ficar feliz com o acesso do povo a bens culturais em vez de ficarem em casa a ver telenovelas, debates desportivos e no Facebook a despejar likes nas fotos de quem saiu de casa para ir a Itália fazer fotos para serem vistas por aqueles que ficam em casa a ver telenovelas, debates desportivos e no Facebook a despejar likes.

E porquê de esquerda? Não é agora o momento certo para discutir o que é ser de esquerda ou de direita. Mas uma maior equidade, conseguida à custa de uma maior redistribuição da riqueza, é uma das bandeiras que melhor definem a esquerda. O que, em termos práticos, significa melhores condições de vida para todos, permitindo que, hoje, os filhos e netos de quem viveu na pobreza e num gueto social, tenha acesso aos mesmos bens que antes eram apenas acessíveis às elites ou classes médias mais abonadas. Ora, não se pode ser de esquerda e ao mesmo tempo abominar a evolução social dos filhos e netos dos pobres de outrora, graças à qual podem usufruir dos bens exclusivos que a história acabou por democratizar, tornando-os acessíveis a todos. Por isso, sendo um homem de esquerda, e tão de esquerda que até nem entra num café frequentado por gente de direita, em vez de semicerrar os olhos para intimamente abominar a companhia de quem, décadas atrás, estava condenado a ficar em casa a ver telenovelas e programas desportivos ou fazer turismo até ao café da esquina para beber minis, Mega Ferreira deveria sentir júbilo e orgulho pelo progresso social conseguido desde o fim da II Guerra Mundial na Europa e nas últimas décadas em Portugal.

Já agora, e só para terminar, o que pensará fazer Mega Ferreira quando chega a Itália, dos milhões de gordas e barrigudos italianos, estúpidos e ignorantes, que votam em Berlusconi e, à noite, assistem a uma das mais absurdas programações televisões da Europa? Impedi-los de sair de casa para irem trabalhar, às compras, ao café, ao futebol ou dar umas voltas pelas ruas, porque poluem a bela e erudita Itália, perturbando a experiência estética e intelectual do português que gostaria de poder sempre lá aterrar em viscontiano registo operático? Talvez mandá-los para Portugal em voos charter da Ryanair, desde que não ultrapassassem o perímetro da Baixa/Chiado e outras glamorosas zonas habitacionais da capital como a Lapa ou Campo de Ourique, ou cafés frequentados por intelectuais de esquerda, para poderem elucubrar sobre as suas ideias de esquerda sem serem perturbados pelo povo. Assim juntavam-se todos e só se estragava uma casa.

20 agosto, 2017

O TEMPO SUSPENSO



Dizia eu que, graças à fotografia, pintura ou desenho, a visão é, de todos os sentidos, o que mais facilmente conserva coisas desaparecidas e às quais podemos depois aceder. Mas calhou ver há dias Cristiano Ronaldo a festejar mais um golo, o que me levou a pensar no modo como os jogadores festejam golos ao longo de décadas, e que hoje podemos ver graças, não à fotografia ou pintura, mas à posse da imagem em movimento. Há diferença entre o que se pode conhecer numa imagem estática e o que já exige uma imagem em movimento. Eu vejo o fabuloso retrato de Leonardo Loredan pintado por Bellini e posso dizer que vejo o verdadeiro rosto do doge de Veneza. Olho os rostos de Rossini, Baudelaire ou George Sand imortalizados por Nadar e possuo-os como se estivessem à minha frente na sala de espera de um consultório. Vejo uma natureza morta de Caravaggio ou um arranjo floral de Heinrich Kühn e sei que é possível repeti-los agora com frutos e flores ainda vivos. E vendo a fotografia de uma rua de Paris durante a Comuna, fico a saber como era uma rua de Paris durante a Comuna.

Mas uma coisa é vermos edifícios, cidades, paisagens naturais, pessoas, peças de vestuário, interiores de casas, hábitos quotidianos como os que nos são deixados numa tela de Bruegel, Vermeer ou Hogarth, outra será ver jogadores de futebol a festejarem a marcação de golos. Sei que não é fácil mas tentemos imaginar que o cinema ainda não foi inventado. Como iríamos perceber o modo como Eusébio, José Torres, Coluna, José Augusto, Puskas, Pelé, Bobby Charlton, Beckenbauer, Cruijff ou até Maradona o faziam? Pensemos no actual movimento típico de Ronaldo: corrida veloz de braços abertos, ganhando depois balanço para um salto seguido de uma pirueta, até finalmente posicionar o corpo tenso para o libertador grito final, transformando cada relvado numa margem do Ipiranga. Trata-se de um festejo que só uma imagem em movimento poderá revelar, nunca através da congelação de um ou vários dos muitos instantes que compõem toda uma encenação estudada ao pormenor, ao contrário do que acontecia com os velhos festejos de outrora os quais eram resultado de uma idiossincrasia gestual e corporal espontânea. Nenhum daqueles jogadores o comemorou daquela maneira, não por uma questão de moda, que as há (por exemplo, jogadores brasileiros irem para a bandeirola de canto dançar samba), mas pela impossibilidade histórica de o fazer. E não me refiro apenas ao contraste espontâneo/estudado. Ainda hoje há formas de festejar espontâneas, sendo porém impensáveis alguns dos movimentos corporais daqueles velhos jogadores. Alguém dá hoje os saltos de Gerd Müller ou de Eusébio enquanto correm, esticando o braço direito para cima como se estivessem a dar murros no ar ou a libertarem-se de um pedaço de fita cola na mão? E os saltos de José Torres ou José Augusto como se estivessem numa cama elástica? Não menos interessante, é a diferença temporal entre a marcação do golo e o momento da comemoração colectiva em que os jogadores parecem abelhas numa colmeia, notando-se a tendência moderna para fazer render o mais possível a demarcação individual do jogador que marca o golo. Não podermos ver esse movimento mas apenas o instante congelado, surge assim como uma espécie de amputação de uma parte da realidade, à qual chegamos apenas por um exercício de imaginação reconstitutiva.

Ora, o que é válido para o simples festejo de um golo, é válido para todo e qualquer tipo de movimento do corpo. Por exemplo, nós lemos um romance do século XIX onde o escritor descreve o aplauso das pessoas que assistem a uma ópera, pessoas que se cumprimentam ou que se encontram num velório. Bater palmas, cumprimentar ou estar num velório são actos mais complexos do que parecem e para o entender basta pensar no modo como ainda hoje as pessoas o fazem consoante o seu contexto social. Não se batem palmas em S. Carlos como numa festa de aldeia. O movimento fúnebre dos corpos num funeral de classe média alta não é o mesmo que vemos num funeral de gente humilde. E para além do cumprimentar, poderíamos ainda falar dos actos de comer, andar, sentar, ler, falar, rir e mil e uma situações que impliquem um movimento do corpo. O cinema nasce em 1895 e, a partir daí, ainda que muito toscamente durante décadas, começamos então a poder ver a vida em movimento. Antes disso, e por muito realistas que sejam a fotografia ou a pintura, resta-nos apenas uma irrecuperável e fantasmática versão daquela. Ver pinturas ou fotografias sobre partes da vida onde há movimento, lembra-me os corpos calcinados de Pompeia ou um filme de ficção científica que vi há muitos anos, em cuja acção ocorre uma suspensão do tempo, tendo as pessoas ficado estaticamente na posição de acordo com o que estavam a fazer no momento. Como é o caso de Pelé nesta fotografia.

17 agosto, 2017

PATRIMÓNIO OLFACTIVO DA HUMANIDADE

A Festa de Babette [Fotograma]

Dos cinco sentidos, a visão é o que mais se assemelha ao acto de agarrar com a mão, de prender, sendo por isso o que melhor pode conservar sensações que vão desaparecendo ao longo do tempo. Graças à pintura ou simples gravuras, continuamos a ver coisas há muito desaparecidas, coisas tão diferentes como uma cidade medieval, peças de vestuário, um instrumento agrícola, uma burguesa sala holandesa do século XVII ou mesmo simples práticas do quotidiano como jogar às cartas ou um baile camponês no século XVI. Com os outros sentidos, bem mais evanescentes, tudo se torna mais complicado. Por exemplo, o olfacto. Nós podemos ver milhares de pinturas ou fotografias antigas reproduzindo os mais variados ambientes mas perdemos os cheiros que faziam parte da vida quotidiana de milhares de pessoas que vemos nessas pinturas e fotografias.

Mas também já estive, num museu, perante um artefacto composto por bombas de borracha iguais às das antigas buzinas, cada uma associada a um cheiro. Apertando cada uma delas saíam por uns um tubos cheiros como o da canela, da madeira, de livros antigos, da relva acabada de cortar e outros. Seria interessante, no caso de ser cientificamente possível graças a um qualquer processo químico, construir um património olfactivo da humanidade, reunindo o maior número possível de cheiros existentes numa dada realidade social e histórica. Por exemplo, quando se deixar de publicar livros e estes forem todos velhos, será possível dar a conhecer um cheiro que entretanto desapareceu como é o de um livro novo. São imensos os cheiros que já se perderam, como são imensos os que se irão perder um dia. Lembro-me de entrar num Lidl de um país estrangeiro e de sentir exactamente o mesmo cheiro que sinto quando entro no Lidl de Torres Novas. O Lidl tem, portanto, um cheiro próprio, sentido por milhares de pessoas ao longo de vários anos e que um dia irá desaparecer. Não é que o cheiro do Lidl seja assim tão importante para memória futura. Mas é um cheiro que existiu em dada altura da história e cuja identidade é tão individual e única como o do Chanel nº5 ou da lenha a arder, e que foi conhecido por muitas pessoas que irão ser vistas através de fotografias num registo puramente histórico. Um dia, haverá pessoas a ver fotografias de um Lidl ou de um folheto do Lidl mas que nunca chegarão a conhecer o cheiro do Lidl. Hoje, ainda existirá o cheiro de uma vacaria, de um chão de madeira acabado de encerar ou do sabão azul, mas quantas pessoas já nascem, vivem e morrem sem nunca terem chegado a conhecer qualquer um deles? Todas as casas têm um cheiro próprio. A casa onde vivo tem um cheiro próprio. Não é mau mas também não é bom. Não faço ideia por que o tem, de onde vem. Será com certeza uma conjugação de vários factores. Mas é um cheiro único que não conheço em qualquer outra casa, o cheiro de uma casa portuguesa da primeira metade do século XXI. Cada carro tem igualmente um cheiro tão próprio como a voz ou o rosto do seu dono. Se, numa prova cega, nos dessem frascos com os cheiros de casas ou carros que conhecemos bem, seríamos capazes logo de os identificar.

Seria pois interessante organizar museologicamente o património olfactivo através de diferentes arquivos temáticos: casas e carros de pessoas comuns, supermercados, transportes públicos, mercados, comidas, ruas, jardins ou mil e um objectos que podem ir de uma toalha de banho com vestígios de protector solar a um a candeeiro a petróleo. Pode parecer uma tarefa algo espúria ou caprichosa, mas só a quem alimenta aristotélicos preconceitos face a sentidos considerados menos nobres. Graças às gravuras da época, conhecemos hoje, visualmente, um animal há muito extinto como o dodô. Mas como seriam os sons do dodô, o sabor do dodô, a sua textura, o seu cheiro? Seriam porventura menos reais do que a sua figura dada à nossa visão? Só porque não se vê, um cheiro não é menos real do que uma cor ou uma forma. E por que não haveria de ser excitante podermos aceder ao cheiro de uma sala holandesa do século XVII ou de uma cozinha francesa do século XIX, tal como lá chegamos através da pintura? Claro que há uma nobreza teórica na visão que faz com que não seja por acaso eleito o sentido mais importante e, de todos, o último a sacrificar. Mas para percebermos como é empobrecedor conhecer a história sem nariz basta pensar no que seria viver, hoje, sem ele, e no que iríamos perder do mundo e da vida sem ele. Se, um dia, pudermos corrigir essa lacuna, será um grande feito para a humanidade, metendo o nariz onde também somos chamados, retirando à visão a exclusividade do conhecimento.

16 agosto, 2017

ADMIRÁVEL MUNDO VELHO


Peguei, há dias, num dos muitos livros de Stefen Zweig que faziam parte da biblioteca do meu pai, neste caso, a biografia de Américo Vespúcio. Não venho falar do livro mas apenas do tempo em que foi escrito e, pouco depois, traduzido e editado em Portugal.

A página com a ficha técnica do livro revela o seguinte:


STEFAN ZWEIG

AMÉRICO VESPÚCIO

TRADUÇÃO DO

DR. JOSÉ FRANCISCO DOS SANTOS

PROFESSOR DO LICEU MARTINS SARMENTO


Entretanto, o livro começa da seguinte maneira:

«De quem tirou a América o nome de América? A esta pergunta responde hoje, prontamente e sem hesitação, qualquer miúdo da escola: de Américo Vespúcio.»


Como é assombroso pensar hoje no que terá não pensado o dr. José Francisco dos Santos, professor do Liceu Martins Sarmento, ao traduzir esta frase, que eu, José Ricardo Costa, professor do Agrupamento de Escolas Artur Gonçalves, não pude deixar de pensar!

O livro foi escrito em 1941. Traduzido e editado cá em 1942. Uma pessoa que tenha nascido num desses anos tem hoje 75 ou 76 anos. A história é voraz e não falta muito para já não existir uma única pessoa viva no ano em que o livro foi escrito ou traduzido em Portugal e, mais tarde, uma única pessoa que tenha conhecido alguma pessoa viva num desses anos.

15 agosto, 2017

ORBICULARIS OCULI


E por falar em riso fotográfico, há dias, fiz uma pequena incursão pelo Admirável Mundo Novo: um telemóvel que permite escolher a função de só disparar fotograficamente se a pessoa sorrir. Eu, que nestas coisas do progresso sou sempre o último a chegar, fazendo habitualmente figura de parvo, fiquei mais uma vez incrédulo. Resolvi fazer a experiência. A dona do aparelho seleccionou a tal função, passando-o para a minha mão, em posição de selfie. Vejo-me com o meu ar natural e nada acontece. Até que esboço um sorriso e zás, a câmara dispara. Segunda tentativa e volta a disparar. A minha atávica desconfiança levou-me a presumir que uma câmara não pode ser assim assim tão esperta de modo a reconhecer especificamente um sorriso. Raios, a descodificação de uma emoção implica um estado cognitivo complexo, sendo demasiada areia para a estúpida da máquina. Pensei então que o móbil do disparo não seria o sorriso propriamente dito mas qualquer movimento do rosto. Resolvi então fazer de Mr Bean, pondo-me a fazer caretas para o telemóvel, com a esperança de conseguir enganá-lo com os meus espasmódicos movimentos, pondo-me até lamentavelmente a jeito para que noutras mesas pudessem questionar a minha sanidade mental no caso de estar a ser observado. Mas nada aconteceu. Até que volto a sorrir, ainda que muito subtilmente, e zás, dispara, ficando o meu giocôndico sorriso gravado no focinho do telemóvel. Desconcertado e derrotado face ao hipsteríssimo orgulho da dona do telemóvel, lá tive que dar a mão à palmatória: aquela coisa sem cérebro, sem nervos, sem sentimentos, sem emoções e mesmo sem olhos, é capaz de olhar para uma criatura com cérebro, nervos, sentimentos, emoções e perceber que está a sorrir.

Desconcertado, sim, mas já com os ânimos da perplexidade refreados, voltei a concertar-me e a regressar ao caminho da sensatez. Está bem, um telemóvel pode estar programado para disparar perante um certo e determinado movimento da boca que qualquer ser humano identifica como sendo um sorriso. Não sei explicar como, nem tenho que saber pois não sou engenheiro, mas pronto, pode. O que não significa, porém, que o telemóvel reconheça esse movimento da boca como sendo um sorriso. Quando o computador ou o telemóvel me dizem que a capital da Alemanha é Berlim, que o tratado de Zamora foi em 1143 ou que Paul Auster é escritor e Julio Iglesias, cantor, não sabem o que estão a dizer. Se eu disser a uma pessoa que não sabe alemão para responder "Gut, danke" se lhe perguntarem "Wie geht's?" sem lhe explicar o que tal significa, quem faz a pergunta vai pensar que a pessoa a entendeu, assim como a resposta. Com o telemóvel passa-se o mesmo. Ele "sabe" que deve disparar perante um movimento da boca mas não consegue saber o que é um sorriso. Ele olha mecanicamente para mim, reage por reflexo mas não sabe o que está a ver.

Mas mesmo supondo que, num futuro longínquo, num ainda mais Admirável Mundo cada vez mais Novo, haverá uma geração de telemóveis com capacidade para, num processo consciente, reconhecer conceitos e estados semanticamente significativos, o meu casmurro cepticismo mantém-se face aos poderes da máquina. Em 1872, ainda muito longe de se pensar sequer em telefones que tiram fotografias, quanto mais telefones que só tiram fotografias a quem sorri, Charles Darwin publicou  o seu importante A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, no qual discrimina as expressões faciais das emoções autênticas e das emoções simuladas. Por essa altura, já Guillaume Duchenne sabia que o que acontece muscularmente no rosto quando sorrimos espontaneamente não é o mesmo que acontece quando sorrimos forçadamente. Enquanto o grande zigomato pode ser activado voluntariamente, permitindo assim o sorriso de cortesia, o orbicularis oculi é um músculo que só é activado quando sorrimos espontaneamente, permitindo assim, pela sua não activação, a descodificação de um sorriso forçado. Ora, por muito que uma máquina evolua, nunca terá a capacidade de um ser humano para observar tão subtilmente o rosto de uma pessoa de modo a conseguir descodificar correctamente o seu sorriso.

Enquanto estivermos no domínio da mecânica, dos reflexos, de uma básica relação de causalidade, sim, as máquinas poderão fazer a sua gloriosa ascensão rumo ao pico das mais ousadas capacidades. Mas não nos deixemos enganar. No século XIX ficou a célebre a divisão feita por um filósofo alemão entre as Ciências da Natureza e as Ciências do Espírito, que abrangerão áreas como a História, a Antropologia, a Psicologia ou mesmo a Literatura ou a Arquitectura. Às primeiras chega-se por um processo objectivo, matemático, construindo-se leis e fórmulas de um modo puramente racional. Já para entrar no espírito humano, cuja complexidade o torna impermeável a uma simples abordagem objectiva e racional, é exigido um esprit de finesse e um subtil processo hermenêutico entre seres dotados de vida mental complexa. Se isso é válido para perceber um processo histórico (uma revolução), o sentimento moral ou religioso de um povo, ou o que significa um determinado gosto estético, por exemplo, num plano arquitectónico, não o será menos tratando-se de compreender o que pode estar por detrás de um movimento da boca que interpretamos como sendo um sorriso. O Admirável Mundo Novo irá sempre renovar-se. Mas há coisas que irão ser sempre velhas.

26 julho, 2017

VÁ LÁ, NÃO CUSTA NADA: CHEEEEESE!!!!!!


Gosto de ver fotografias antigas e tenho visto muitas. Pronto, deu-me para isto, ainda assim menos dramático do que ser heroinómano, adepto do Sporting ou vítima da Maria Vieira. Uma das coisas que salta logo à vista nessas fotografias é o facto de as pessoas não rirem, terem sempre um ar bastante sério. Eis, pois, um mistério para desvendar mas que disfarça um outro ainda maior: por que raio as pessoas, hoje, aparecem sempre a rir nas fotografias, como se a presença de uma câmara fizesse cócegas?

Não ver risos em velhas fotografias pode até levar a supor que dantes as pessoas não riam. Mas basta ler Aristófanes ou Plauto para logo imaginarmos um grego ou um romano a rir. Ainda muito antes disso, Sara desatou a rir quando soube que iria ser mãe aos 90 anos. E só quem nunca leu poesia medieval ou não conhece os goliardos irá acreditar numa Idade das Trevas em que as pessoas se limitavam a trabalhar, andar à tareia, a rezar e a escrever calhamaços sobre o problema da Trindade e outros assuntos tão pouco engraçados como aquele. E Boccaccio? E Gil Vicente? E Rabelais? E Molière? E Cervantes? E Sterne? E Swift? E Bocage? E Anna Pávlovna em cujo rosto, diz Tolstói, paira um sorriso permanente? E Natacha a encher o salão de baile com a sua alegria? E Eça, sim, homem do tempo das tais fotografias em que as pessoas não riem? Não, o riso não pode ser uma invenção do século XX. Pois, mas ler é uma coisa, ver é outra, e nós não estávamos lá para ver rir. Vendo bem, Anna Pávlovna e Natacha nem sequer existiram a não ser na cabeça de Tolstói. Posso até cartesianamente presumir que as pessoas não riam mesmo, havendo, sim, escritores que criavam ficções para compensar um desumorado deserto. Mas não, não pode ser. Basta conhecer um pouco de pintura enquanto registo mais vívido e realista do mundo, para vermos pessoas a rir nas mais diversas situações do quotidiano. Mas então por que razão riem na pintura mas na fotografia ficam com aquele ar fúnebre, ao contrário do que sucede hoje, em que rir é praticamente condição do acto de ser fotografado?

São três perguntas e começo por responder à segunda. As pessoas eram tão alegres e felizes como hoje, nomeadamente as que aparecem sem rir nas fotografias, não sendo estas, portanto, um reflexo de vidas tristes, infelizes ou miseráveis. E riam, claro. Simplesmente não apareciam a rir nas fotografias pela razão mais lógica, chã e óbvia que podemos supor, um verdadeiro ovo de Colombo: não terem motivo para isso. Antes das fotografias serem tiradas, as pessoas estão a conversar, comer, beber, a andar de um lado para o outro, a fazer isto e aquilo, as crianças e jovens jogam, brincam ou bulham. E riem, se for caso disso, pois os seus sistemas nervoso e endócrino são iguais aos nossos, aos de Sara e aos dos gregos e romanos que riam com Aristófanes e Plauto. Passa pela cabeça de alguém imaginar as belas jantaradas dos Vencidos da Vida naquele registo grave e sério com que foram fotografados? Acontece que no momento em que se alinham para a fotografia estão apenas ali à espera da fotografia e estar à espera de uma fotografia não é o mesmo que ver um qualquer Dâmaso Salcede deste mundo a escorregar numa casca de banana enquanto desce o Chiado ou ouvir uma piada sobre um qualquer político ridículo. O fotógrafo diz "-Meus senhores, vamos lá então a uma ou duas fotografiazinhas", e pronto, espera-se pelos disparos. Para nós, habituados a ver toda a gente rir nas fotografias, parecem ter o ar de quem está num velório. Mas é apenas o ar normal de quem não tem motivo para rir, o mesmo ar de uma pessoa de hoje, não quando é fotografada a rir em frente à Torre Eiffel, mas a andar na rua, a olhar pela janela de um comboio, sentada à espera de uma consulta, a ler o jornal ou perante uma prateleira do supermercado a pensar se há-de levar o Fairy ou o Super Pop, ou seja, o seu estado normal quando não tem motivo para rir. Mas então por que razão na pintura já aparecem a rir, ao contrário da fotografia? Porque na pintura acontece uma coisa diferente: o pintor não está a retratar as pessoas em tempo real mas diferido. O pintor observa as pessoas nas diferentes situações do quotidiano, incluindo aquelas onde surgem a rir, usando depois a memória para as reproduzir, o que não acontece na fotografia, em que toda a gente pára de andar, de falar, de comer, de brincar, ou seja, uma suspensão de tudo o que na vida decorre espontaneamente. Não há pois qualquer mistério em não haver risos durante décadas após a invenção da fotografia. O mistério, como disse, está no facto de a dada altura as pessoas aparecerem sempre a rir só porque estão a ser fotografadas.

Podemos abordá-lo de duas maneiras, uma sociológica, outra, fenomenológica, chamemos-lhe assim. Comecemos pela primeira. Lembro-me bem da chatice que era, em miúdo, estar num estúdio com um tipo à minha frente a mandar-me rir para a fotografia que iria para o BI ou para o cartão das piscinas. Porquê essa imposição, essa obrigação de ficar a rir num documento, irradiando felicidade, exactamente o oposto do retrato antigo, incluindo, neste caso, também a pintura? A alegria, a felicidade, o humor, não são uma invenção do século XX. O que já pode sê-lo é a cada vez maior ausência de gravitas nos comportamentos humanos, uma desformalização dos gestos e atitudes, dos papéis e estatutos sociais, estando na origem daquilo a que o nosso vizinho Ortega Y Gasset chamou "época do menino satisfeito". Somos meninos satisfeitos e é como meninos satisfeitos que devemos configurar a nossa identidade, sermos vistos e aceites, traduzindo-se isso em processos de infantilização e regressão dos comportamentos. Basta pegar em livros anteriores à II Guerra Mundial e ir recuando cada vez mais no tempo, para entendermos o que significava ter já 30 ou 40 anos de idade, casar, ser pai ou mãe, estar numa escola, ter certas profissões ou níveis sociais, tudo isso traduzido numa formal e austera teatralidade de banais situações da vida quotidiana. Daí a gravitas de quem era retratado, em pose, para a eternidade, por um pintor ou, por exemplo, pelas fantásticas fotografias de August Sander, numa fase ainda prematura do século XX. Precisamente o que se vai diluindo cada vez mais na era do "menino satisfeito", impondo-se a felicidade, a alegria ou o sentido de humor (daí as milhares de selfies com caretas, línguas de fora ou a fazer boquinhas) com a mesma naturalidade socializadora com que se ensina a comer, a estar à mesa ou a cumprimentar as pessoas, condição que atinge cada vez mais o seu esplendor com a overdose fotográfica em quase tudo o que se faz para poder publicitar nas redes sociais.

Sendo a fotografia um processo que fixa uma imagem perene da pessoa, tal imagem deve surgir como condensação ou unidade sintética que traduz idealmente a nossa verdadeira identidade, tornando-nos magicamente naquilo que somos na fotografia. Quem sou eu? Eu sou aquele que ri  na fotografia. Daí rirmos, seja para o cartão das piscinas, seja em frente a um monumento de Roma, Paris ou Londres, seja numa praia cheia de coqueiros, seja no restaurante, seja rodeado de muitos amigos, pois é esse imago que vai dar origem à nossa verdadeira identidade de pessoa alegre e feliz. O "riso fotográfico" torna-se assim tão socialmente automático como dizer "Bom dia". E isso de tal modo que, se se der a raríssima e anormal situação de alguém não rir numa fotografia em frente à Torre Eiffel ou no meio de um grupo durante um jantar, logo pensamos que estava triste, aborrecido, contrariado, ou que se trata de uma pessoa estranha e diferente das outras por não poder ou querer assumir a sua alegria e felicidade perante uma câmara.

Mas o que se passa exactamente na consciência da pessoa que ri perante uma câmara? Antes disso, rapidamente, perguntemos a três pessoas, em situações normais do quotidiano, por que riem. Uma diz que ri porque lhe veio à cabeça uma cena de um filme cómico que viu há pouco. Outra ri porque lhe telefonaram a dar uma boa notícia. A terceira ri porque viu passar alguém com um corte de cabelo ridículo. Em suma, todas elas têm um bom motivo para rir. Rir é um acto intencional, quer dizer, rir é rir de alguma coisa e estas pessoas sabem por que estão a rir, conhecem o conteúdo sem o qual não estariam a rir. Perguntemos agora o mesmo, isto é, por que ri, a uma pessoa que está a ser fotografada ou a auto-fotografar-se em frente à Fontana di Trevi ou na Brasileira ao lado de Fernando Pessoa; a um grupo de 10 turistas que se juntaram nas escadas da National Gallery ou a um grupo de 8 amigos à volta de uma mesa durante um jantar, para uma fotografia. Dirão que riem por estarem ali, alegres e felizes. Sim, as pessoas podem estar alegres e felizes por estarem num jantar, alegres e felizes por estarem na Fontana di Trevi. Mas no preciso momento da fotografia, tal como na fotografia do século XIX, não há qualquer razão para rir. No entanto, riem-se. Que "alegria fotográfica" é essa, afinal? Será mesmo alegria ou simulação de alegria? Será uma alegria falsa e meramente teatral?

Não. A "alegria fotográfica" é tão genuína e natural como a "austeridade fotográfica" de antigamente. Uma pessoa que ri para a fotografia está mesmo alegre. Alegre por estar com os amigos a jantar em vez de estar sozinha com neura a ver a RTP Memória, alegre por desta vez estar na Fontana di Trevi à hora em que costuma ir despejar o lixo depois de jantar. Porém, minutos antes da câmara, não passou o tempo todo a rir só por estar na Fontana di Trevi ou a rir enquanto discutia o novo Audi ou as aquisições do Benfica com os amigos. Pode-se gostar muito de estar com os amigos a falar do novo Audi ou sobre as aquisições do Benfica mas isso só por si não dá vontade de rir, até bem pelo contrário no caso das aquisições do Benfica, devido à sua importância. Então, afinal, o que é mesmo a "alegria fotográfica? É aquilo a que podemos chamar de alegria vicariante ou alegria induzida. Nas situações normais do dia-a-dia, o riso é a reacção física mais natural e espontânea de um estado de alegria. Rio porque fiquei alegre, porque qualquer coisa me alegrou. Vejo uma pessoa com um penteado ridículo, e isso gera um processo mental que me leva ao riso se por acaso estiver com alguém para partilhar a minha alegria, uma vez que se estiver sozinho terei que ser contido e divertir-me apenas mentalmente, o que significa ser possível estar alegre sem rir. Mas se rio é porque estou alegre. O que acontece com a "alegria fotográfica" é o contrário: fico alegre porque rio. Sabendo-se previamente que devemos rir numa fotografia, a necessidade de rir induz naturalmente um estado de alegria, uma alegria, portanto, induzida ou sintetizada, não quimicamente, como noutros estados, mas cognitivamente e até culturalmente, uma vez que requer um processo de aprendizagem por observação e posterior imitação. E se é possível estar alegre sem rir, neste caso, também é possível rir sem estar alegre, a alegria que sai espontaneamente quando motivada por um conteúdo cómico ou risível, o que pode explicar os risos amarelos e forçados que surgem inúmeras vezes nas fotografias e que fazem tantas vítimas, uma das quais este pobre blogger.

Se eu agora viajasse no tempo e me transformasse no fotógrafo que retratou o grupo que aparece em cima, pedindo-lhes para se rirem, eles não iriam perceber nada. Perguntariam porquê, e não seria nada fácil explicar-lhes. Mas mesmo que viessem a perceber, iriam ter dificuldade em rir, uma vez que interiorizar o processo requer um lento processo de socialização. Tal como nós, aprenderam a conseguir estar alegres sem rir mas, ao contrário de nós, não aprenderam a rir sem estar alegres, por não interiorizarem o verdadeiro e importante sentido que uma fotografia tem cada vez mais para nós. Daí termos uma dificuldade contrária à sua, se fôssemos agora até lá para nos juntarmos àquele grupo no momento da fotografia: não rir. É triste mas é verdade: já não somos capazes de não rir. Facto que só pode mesmo dar vontade de chorar.

25 julho, 2017

MACRON


Para explicar o conceito de "Razão de Estado" deve-se começar pelo óbvio: a amorosa aproximação do católico Richelieu a países protestantes, só para poder tramar os também católicos espanhóis e austríacos mas rivais directos no domínio político da Europa. Estamos numa época em que o nome da religião tem um peso tremendo, mas época também de absolutismos e, por isso, o futuro Luís XIV precisa de um mentor à altura (política, já que no campeonato dos centímetros nem com os seus saltos altos subiria de divisão). Precisava e teve-o: o cardeal Mazarin, desempenhando na perfeição as suas funções para tornar a França cada vez maior e central numa Europa pulverizada.

Os meus limitados conhecimentos de História não me permitem dizer se foi com Luís XIV e Mazarin que se iniciou verdadeiramente uma esteticização do poder. Se calhar até nem foi. Mas foi com eles que atingiu um ponto culminante. Luís XIV, no palco, a representar, Mazarin, como argumentista nos bastidores, formam uma dupla imparável para dar ao mundo a imagem de uma França poderosa. Os países podem ter os seus números, as suas taxas, os seus gráficos, os seus exércitos. Mas sem uma encenação do seu valor, o seu poder e força na feroz luta dos equilíbrios internacionais ou na sua venda para consumo interno, ficarão diminuídos. Nisto, os países são como os animais: quanto mais alto o leão rugir, quanto mais fortemente o gorila bater com as mãos no peito, ou quanto mais se esticar o gato a assanhar-se, maior será o benefício no campeonato da estratégia.

Daí o poder esmagador desta fotografia. Posso estar a ser exagerado e não ter a noção das diferenças. Mas eu olho para esta fotografia e só me vem à cabeça a coroação de Napoleão tal como foi grandiosamente "fotografada" pelos pincéis de Jacques-Louis David. Não pelo ar sério de toda aquela gente em ambas as situações, até porque não há motivos para rir. Penso no absoluto silêncio que em ambas se ouve, na concentração de toda a atenção num único ponto do universo, na total suspensão do mundo exterior, completamente anulado pela ascensão do novo líder que se torna no seu centro. No caso de Macron, acentuado ainda pelo subtil contrapicado da fotografia que nos faz olhar para ele com a mesma perspectiva angular com que Josefina olhava o imperador, no nosso caso para sermos coroados com o privilégio da sua presidência. Ambas as imagens me fazem lembrar aqueles filmes em que há uma grande confusão de sensações, movimentos, barulhos, aquelas músicas nervosas que acompanham agitadas cenas de acção, até que, de repente, plof!, há uma pessoa que mergulha, havendo nesse momento um absoluto silêncio aquático que tudo apagou e que nós partilhamos com o actor submerso. É esse o silêncio que ouvimos em ambos perante a hierofania política que o exige. Macron terá sempre aquele ar de vizinho do lado, de jovem liceal que a idade não tem tirado e de quem vai até um restaurante comemorar uma vitória eleitoral no meio de parisienses anónimos. Mas como também ninguém é herói para o seu criado de quarto, Macron terá também que despir a roupa de andar por casa para vestir a sua pose de Estado.

Nós vemos o quadro de David e percebemos a imperial França de Napoleão. Nós vemos a fotografia de Macron e talvez percebamos aonde quer Macron levar a sua França. Não certamente até às Pirâmides do Egipto, nem enterrar-se nas neves russas, mas pelo menos às conferências de líderes com estatuto de grande potência. Não é que a teatrocracia ou a encenação do poder faça ou desfaça países. Não é por os Estados Unidos terem um presidente parvo que deixam de ser uma grande potência ou por o Zimbabwe ter um presidente com tiques de grandeza que o país se torna numa grande potência. Mas sem dúvida que o tamanho da encenação do poder importa, contribuindo, tal como o rugido do leão, para marcar território. Engraçado como o apelido do presidente francês acaba por ser realçado nesta fotografia, não sendo ele grande em altura, como grandes não eram, sendo até "micros", Luís XIV e Napoleão. Mas se ambos ajudaram a parecer grandes as duas Franças que representaram nos respectivos palcos, com certeza que também é fazer parecer grande o que deseja Macron para a sua França, tendo a Alemanha mesmo ao lado e a Inglaterra em processo de fuga. E só penso mesmo no apelido engraçado com que nos brindou, nada de fazer piadas parvas com o seu nome próprio. Já basta o nome do seu partido.

24 julho, 2017

AVENIDA 24 DE JULHO



Não deixa de ser uma ironia toponímica o facto de haver em Lisboa uma avenida 24 de Julho, em vez de uma rua 24 de Julho ou uma praça 24 de Julho. Se no dia 24 de Julho as tropas liberais fossem derrotadas ou se a própria guerra civil tivesse o desfecho oposto, Portugal seria, hoje, um país diferente? Um país absolutista, ultramontano, com trejeitos Austro-Húngaros tendo D. Miguel como patrono da pátria, qual Atatürk lusitano? Não. Portugal seria exactamente como é. Vamos mesmo mais longe e espreitar o século XIX para vermos, naquele tempo, os actuais países europeus, alguns deles nem sequer existindo: realidades políticas e constitucionais completamente diferentes. Hoje, porém, estão quase todos no mesmo barco e, à excepção da Economia, que é outra conversa, e apesar de alguns devaneios autoritários como na Hungria ou na Polónia, e mesmo com todos os distintos sortilégios por que passaram ao longo de cento e cinquenta anos, temos uma democracia liberal como casa comum onde todos vivem, se bem que uns melhor do que outros. Sem dúvida que a história está cheia de ruas, travessas, praças ou até becos obscuros onde muita coisa importante acontece, sendo alguns de tal modo obscuros que não poderá vir nos manuais o que por lá aconteceu. Mas, depois, há alturas em que tudo isso vai dar a uma mesma e larga avenida por onde todos os carros circulam, sabendo-se de onde vêm e para aonde vão. Embora, claro, como toda e qualquer verdadeira avenida, tenha também o seu fim.

21 julho, 2017

A ESTÁTUA


Já lá vão uns bons anos mas ninguém esquece a destruição assassina das estátuas de Buda no Afeganistão. Apesar do choque, não surpreendeu, vindo daqueles andrajosos talibãs que, apesar do requintado estatuto de "Estudantes de Teologia" ainda hoje vemos como gente ignorante, primitiva, fanática, insensível, com lata para se divertirem a destruir património riquíssimo. Mas não deixa de ser desafiante comparar esse infantil e irracional desprezo perante as estátuas, com a pose solene, séria, adulta, destes homens perante igualmente uma estátua, neste caso de Napoleão, acabada de derrubar na Place Vêndome, no conturbado ano de 1871. Temos assim destruição de estátuas nos dois lados: uns porque as desprezam, outros porque as respeitam apesar de as deitarem abaixo, ou antes, deitam-nas abaixo precisamente porque as respeitam.

Mas não tinha de ser assim. Lembremos a dramática "Querela das Imagens", ainda nos primeiros tempos do cristianismo, por causa da veneração de imagens. Imagens beijadas, tocadas, que configuravam espaços sagrados e às quais se atribuíam poderes, tanto no espaço privado como público. Uma tradição vinda das camadas populares, mais dadas a comportamentos primários e supersticiosos do que a complexos pensamentos teológicos e filosóficos mas que também neste campo iria ter defensores e opositores. Os defensores, dizendo que uma imagem participava do seu original, sendo por isso digna de veneração. Dizendo que se Deus encarnou, o que é visível tem dignidade, valorizando-se assim a visão de imagens, até por ser mais acessível do que a palavra para alimentar o sentimento religioso. Em contrapartida, o papa Leão III propôs a destruição de tudo o que fosse imagem, mandando mesmo destruir a de Cristo na porta de bronze do seu palácio, venerada pelo povo. Antes disso, ainda no tempo do Império Romano, já se via no culto das imagens um primário e perigoso vestígio pagão. Aliás, não por acaso, na arte bizantina, onde o culto da imagem atinge o seu esplendor, é abolida a estatuária, pela sua associação a uma idolatria pagã. Repito: idolatria, veneração de falsas imagens em detrimento de uma relação mais espiritual ou interior com o sagrado. Ganharam os defensores como ainda hoje se pode ver ao entrarmos em qualquer igreja ou nos melhores museu do mundo. Mas tivessem perdido e a história das imagens na cultura ocidental teria um rumo completamente diferente.

Disse no início que a comparação entre os talibãs e os revolucionários é desafiante. Agora que já lembrei esta querela, posso explicar melhor porquê. Repare-se na pose daqueles homens: a pose solene dos caçadores quando exibem um poderoso leão a seus pés como precioso troféu, já inofensivo como um gatinho de peluche. Também estes homens têm um imperador a seus pés e dá bem para imaginar a sua exuberância horas antes enquanto derrubavam a coluna. Acontece que o leão, pouco antes de ser caçado, era um ser vivo, terrível e ameaçador, um verdadeiro rei da selva, assustando tudo e todos. Mas Napoleão? O verdadeiro Napoleão está morto há 50 anos. Como explicar esta solene pose face a um bloco de pedra que representa um imperador morto há 50 anos? Isto, numa praça bem perto dos salons philosophiques, por onde homens como Voltaire, Diderot ou d'Alembert espalhavam as luzes da razão, ou bem perto dos modernos boulevards há pouco rasgados em nome de um racionalismo urbano? Como diria um psicólogo que estuda o desenvolvimento da criança, há ali uma infantilidade mítico-mágica, sincrética, pré-operatória ou pré-racional. Estes homens levam tão a sério aquele pedaço de pedra derrubado como uma criança a sua boneca a quem dá de comer, muda a fralda, veste e com quem conversa.

Li uma vez o saudoso deputado João Amaral contar que, no meio de uma delegação parlamentar de visita à Coreia do Norte, estava numa praça de capital, vendo um polícia aproximar-se depressa e com ar ameaçador. Depois de alguma confusão lá acabou por perceber que estava a pisar a sombra da estátua do ditador, o que era absolutamente proibido. Nós rimo-nos disto mas, vendo bem, não há grande diferença entre um bloco de pedra e a sombra do bloco de pedra. O que é válido para a estátua de Napoleão ou para a sombra da estátua de um ditador, é também válido para um boneco de loiça representando a Nossa Senhora de Fátima, um ícone ortodoxo representando um santo ou um Cristo de madeira no altar de uma igreja perante o qual as pessoas se ajoelham quando passam, ou até para a bandeira de um país que não pode ser rasgada apesar de não passar de um pedaço de pano colorido. Atenção, eu fico muito feliz por o cristianismo ter seguido o caminho da valorização da imagem. Graças a isso, temos algumas das mais belas pinturas ou esculturas da história da arte, um património artístico de incalculável valor. Eu mesmo, durante décadas, absolutamente insensível à arte medieval, tenho-me convertido cada vez mais à sua beleza ao ponto de me comover com muitas delas. Todavia, seguindo a linha islâmica face às imagens, ou até em harmonia com o que é dito no Antigo Testamento relativamente à impossibilidade de representar Deus, os talibãs têm razão no que se refere à nossa relação com as imagens enquanto fenómeno idolátrico ou até com laivos fetichistas. Pedaços de pedra que ganham poder quando erguidos, pedaços de pedra que depois o perdem quando deitados abaixo. Nós olhamos para os talibãs com desprezo e a sobranceria de quem vê o mundo com quadros mentais desenvolvidos mas não vislumbramos nada de especial na fúria com que, no nosso mundo desenvolvido, uns deitam furiosamente estátuas abaixo e outros as erguem com devoção, considerando tudo isso normal. O mundo não é assim tanto só feito de preto e de branco como esta velha fotografia de Paris.

20 julho, 2017

O CARTEIRO DE IMMANUEL KANT


É impossível apresentar Kant a alguém sem referir os seus imprescindíveis passeios depois de almoço, fossem quais fossem as condições meteorológicas, sempre o mesmo percurso, passando sempre às mesmas horas pelos mesmo sítios. Diz-se que os habitantes de Königsberg poderiam saber as horas pelo momento em que ele estaria a passar. Diz-se também que só uma vez tal não aconteceu. Foi quando, ansioso por saber notícias que vinham de França, onde houvera uma revolução, modificou o seu percurso para ir ao encontro do carteiro que lhe trazia as novidades.

Vou agora imaginar Kant em Königsberg (actual Kaliningrado), lá no Báltico, à espera, ansioso, de novidades de França. Novidades? Ansioso? Como novidades, num tempo em que não havia televisão, rádio, internet, telégrafo, fax, telefone, carro, comboio ou avião? Vejo-o a aproximar-se do carteiro, conversam um pouco (ele era um excelente conversador), afasta-se para ler, ficando então a par do que vinha desse longínquo país. Imaginar isto obriga-me a pensar na distância entre o que ele fica a saber e no que, entretanto, já aconteceu depois disso sem que ele possa disso dar conta, porque a França é a França e o Báltico é o Báltico.

Dessa vazia e escura distância temporal entre o que se sabe que está a acontecer e o que está a acontecer mas não se sabe, não nos podemos nós hoje queixar. Seja em que parte do mundo for, sabemos em directo tudo ou quase tudo o que está a acontecer. E com actualizações hora a hora. E com reportagens de correspondentes ou enviados especiais de vários canais, falando de noite quando para nós é de dia ou vice-versa. E com dezenas de fotografias, entretanto espalhadas pelos jornais e pela rede, dos mais ínfimos e supérfluos pormenores, como se nós próprios andássemos por lá a vasculhar tudo o que há, tanto para ser visto como para não ser visto mas que acabamos por não conseguir deixar de ver. E com entrevistas a quem lá vive. E com comentários especializados nas televisões, explicando os mínimos detalhes até aos limites da exaustão e do mais absoluto tédio. Podemos, pois, considerar que dominamos bem os acontecimentos históricos, graças ao poder da informação, da comunicação, da tecnologia.

Sim, até certo ponto é verdade. Mas é verdade quando se trata da onda que bate na areia e que molha os nossos pés. Vemos a onda, começando a formar-se, lá longe, à superfície, a crescer, a aproximar-se e, finalmente, a estatelar-se na areia até chegar aos nossos pés. Porém, o que vemos é apenas a parte final, a consequência, não as várias conjugações, imperceptíveis a olho nu, tanto no fundo do mar como ao nível dos campos gravitacionais, que estão na origem da onda que se desfaz, já exangue, nos nossos pés. Diz-se, e não longe da verdade, que a Filosofia política do século XIX é uma reflexão e uma discussão à volta do que foi gerado pela Revolução Francesa. Diz-se, e também não longe da verdade, que a Filosofia Política do século XX é uma reflexão e discussão à volta do que foi gerado pelo Comunismo. Kant, um homem que também escreveu importantes textos políticos nos finais do século XVIII, não podia adivinhar, ao receber as notícias pelo carteiro, o que iria ser a Filosofia Política do século seguinte. Nós, aqui e agora, com tanta informação e comunicação, hora a hora actualizada, ainda só estamos em 2017, com a onda do século ainda a formar-se à superfície da água, estamos muito longe de saber o que virá a ser a Filosofia Política do século XXI ou do século XXII. Vemos, aqui e agora, as ondas a bater nos nossos pés, mas estas ainda são as ondas do passado que, exaustas, já só nos lambem os pés antes de desaparecerem de vez na areia. Mas não sabemos que tipos de onda virão a molhar os pés de quem ainda tem tanto para viver neste século, pois, e apesar de neste preciso momento, hora a hora, dia a dia, mês a mês, ano a ano, já estar a acontecer, sabe-se lá onde e como, o que acontece agora nas profundezas do mar e dos campos gravitacionais da história, é imperceptível a olho nu. No que a isso diz respeito, o pobre e esforçado carteiro de Kant continua a ser ainda o nosso carteiro.

19 julho, 2017

CORTES

JRC | DUPLO CORTE [ Livraria Lello*]

Tivesse Maria Antonieta ficado sossegadinha no palácio de Hofburg, em Viena, e tudo seria diferente. Mal sabia ela onde se iria meter. Não bastando chamarem-lhe a "autre-chienne" lá pela corte de línguas bem afiadas, acabaria por sofrer um corte ainda mais acutilante. Com tão trágico destino, e mesmo considerando ter sido em criança aluna de Gluck, é uma tremenda ironia daquele (do destino, claro, não de Gluck que, entretanto, já tinha morrido) ficar para a história como rainha consorte. É verdade que não há machado que corte a raiz ao pensamento mas quando o pensamento não tem raízes, torna-se tudo bem mais complicado. Como diria um qualquer revolucionário espanhol dos anos 30 do século passado, mais vale comer brioches em pé do que partir confortavelmente de joelhos.

*No tempo em que se podia andar por lá horas quase sozinho.

18 julho, 2017

A PASSADEIRA


Como ando quase sempre a pé, a minha relação com as passadeiras é mais como peão do que como automobilista. Quando um carro pára para eu atravessar, embora saiba que é obrigado a fazê-lo, tenho o hábito de agradecer, levantando ligeiramente o braço. Claro que isto só faz sentido numa terra pequena como a minha, onde em ruas estreitas e com pouco movimento, acontece com frequência um frente-a-frente entre um só carro e uma pessoa a atravessar. Também, enquanto automobilista, gosto que a pessoa que atravessa a passadeira me agradeça e fico algo incomodado quando atravessam tão indiferentes como se eu lá não estivesse. Não é que leve a mal, as pessoas não têm a obrigação de se sentirem gratas por uma coisa que a lei me obriga a fazer. Levo a mal, sim, quando prendo uma porta para deixar passar alguém que depois não me agradece, tratando-se, neste caso, da mais pura grosseria e má educação. Não, é apenas de um certo desconforto pela minha invisibilidade quando o peão bem sabe que a minha paragem forçada foi condição necessária para poder atravessar. Pronto, também não precisa de agradecer como um senhor há dias se preparava para atravessar. Ao ver que vinham dois carros, o meu e outro em sentido contrário, mandou, com gestos bastante expressivos, os carros continuarem. Só que tanto eu como o outro condutor parámos mesmo e o senhor lá atravessou a passadeira mas parecendo um daqueles maestros exuberantes que, ao agradecerem, baixam freneticamente a cabeça quase até à cintura, virando-se para a direita e para a esquerda com enorme entusiasmo. Confesso que me senti desconfortável com tamanha gratidão.

A minha questão agora é a seguinte: porquê esta minha apologia do agradecimento face a um comportamento obrigatório por lei? Para melhor compreender o que está em jogo, vou associar esta situação a duas outras. Numa estrada, é obrigatório por lei prestarmos assistência a pessoas vítimas de acidentes. Mas se eu tiver um acidente e for socorrido por uma pessoa que parou o carro, claro que lhe irei agradecer e se não o fizer, darei uma terrível imagem de ingratidão. Quando, numa loja, pago uma coisa que custou 10 euros com uma nota de 20 o empregado é obrigado a dar-me o troco. Ainda assim, agradeço, e creio que é isso que faz qualquer pessoa educada. Mas porquê? Para explicar, vou dar uma volta ao bilhar grande só para referir um livro chamado "The Roads to Modernity - The British, French and American Enlightements", de uma senhora chamada Gertrude Himmelfarb. Entre outras coisas, explica ela que a essência do Iluminismo francês é a "razão", já no Iluminismo inglês vamos encontrar tanto o "sentimento moral" como as "virtudes sociais" ou "afecções sociais", nas quais podemos encontrar, entre outras, um "fellow-feeling" que não sei bem como traduzir, pois qualquer tradução me soa mal, incluindo "companheirismo" ou "solidariedade", considerando esta última, aliás, horrível e até já roçar o pindérico ou pior ainda, o mais insuportável kitsch. Quer dizer, mais do que ser racionais que funcionam com base em imperativos racionais que podem ser postulados cientificamente, tornando o ser humano uma máquina perfeita cujas leis são apenas uma parte das mais gerais leis da natureza estudadas pelos cientistas (explica a autora que um cientista como Newton, uma referência suprema para o povo inglês, tendo mesmo direito a funeral de Estado, teve, de um ponto de vista moral, grande impacto na França "philosophique" do século XVIII, o que não aconteceu no seu país, onde separam o que é propriamente científico e racional do que é especificamente humano), devemos entender as disposições morais e sociais dos seres humanos a partir do sentimento, do afecto, de uma natural e espontânea simpatia, que explicam o impulso filantrópico da maioria das pessoas como se viu recentemente em Portugal com o incêndio de Pedrógão Grande.

Agradecer um troco ao balcão ou a paragem de um carro na passadeira, não é propriamente um sentimento moral como a compaixão ou a benevolência. Será antes uma virtude cívica como a "fellow-feeling" que torna a outra pessoa não um simples objecto reduzido à condição de cumprir uma obrigação mas alguém que cumpre uma obrigação numa relação comigo que as circunstâncias tornaram pessoal. Eu não agradeço à minha varinha mágica ou à minha liquidificadora desempenharem com competência as suas funções. Ora, se eu não sinto a obrigação de agradecer o troco ou a paragem do carro na passadeira, estou a reduzir aquelas pessoas à simples condição de máquinas que se limitam a cumprir uma função a que são obrigadas por um conjunto de regras morais ou jurídicas. Agradeço, sim, como acto de "re-conhecimento", revelando ter a consciência de que, "ali e agora" é aquela pessoa especificamente, aquela pessoa na sua individualidade, que está a fazer aquilo que é suposto fazer. Não seria necessário mas também uma das coisas que mais distinguem os seres humanos é a "elevação do supérfluo". A polidez é um bom exemplo desta virtude social ou cívica e, tal como na passadeira ou na loja, é ela que me faz gostar de ouvir um aluno dizer "obrigado" quando lhe entrego o enunciado do teste que sou obrigado a entregar-lhe, ou presumo que o aluno gosta de ouvir quando sou eu a dizê-lo, quando me entrega o teste que ele é obrigado a entregar-me para eu poder corrigi-lo. Nesse momento, somos muito mais do que professor e aluno como entidades abstractas que cumprem funções técnicas e objectivas. Somos duas pessoas, dois indivíduos, duas consciências, que se reconhecem como tal e que gostam de se reconhecer como tal. Tal como na passadeira, também sermos muito mais do que um automobilista e um peão.

17 julho, 2017

UM SUAVE VENENO


Fiquei contente com o golo do Éder, como fiquei contente, minutos depois, quando o árbitro apitou para o fim do jogo. Poderia não ter ficado. Fosse francês e teria ficado furioso. Fosse austríaco ou lituano e talvez ficasse indiferente. Mesmo sendo português, poderia ter ficado indiferente. Uma pessoa pode ser portuguesa e não sentir nada de especial pelo seu país. Vendo bem, racionalmente, até me sinto mais europeu do que português e, mais racionalmente ainda, mais ser humano do que europeu. Mas como nem tudo na vida é racional, não consigo resistir ao destino de ter nascido aqui, de falar, ler, escrever e pensar com a língua que se fala aqui, de comer o que se come aqui, de ter crescido no meio de quem aqui vive, no meio de hábitos, tradições, paisagens que só quem aqui nasce e vive pode compreender. Se tivesse nascido na Finlândia ou na Hungria, passar-se-ia comigo o que se passa com quem nasceu lá. Mas como foi aqui e não lá que nasci e cresci, e apesar de não considerar Portugal melhor ou pior do que os outros países, ou não sendo dado a erupções patrióticas, gosto de ser português e do país que faz com que goste de ser o que sou.

Fiquei pois contente com o golo do Éder, como fiquei contente, minutos depois, quando o árbitro apitou para o fim do jogo. E de me sentir algo orgulhoso por o meu país ser campeão europeu apesar de jogar um futebol medíocre. Confesso, porém, que não sinto o mesmo orgulho perante os feitos históricos dos portugueses, como não sinto qualquer vergonha ou culpa pelo que de desprezível outros portugueses fizeram em tempos. Foram eles, não fui eu. É verdade que também não fui eu quem marcou o golo, foi o Éder. Nem joguei aquele jogo, nem sequer estive lá no banco como massagista. Mas aquele jogo ocorreu no meu tempo, com pessoas que vivem no meu tempo e fazem partem da minha vida em tempo real. Claro que eles se sentirão mais orgulhosos do que eu, merecem muito mais esse orgulho do que eu. Mas eu, sendo português como eles, aqui e agora, partilhando o mesmo país, posso ir à boleia do seu orgulho. Ora, o mesmo não acontece com o que os meus antepassados fizeram, fosse de bom, fosse de mau.

Daí não conseguir dar para este peditório. Reconhecer as atrocidades do passado? Sem dúvida. Um massacre é um massacre, seja onde for e quando for. Agora, pedir desculpa, implica uma culpa e este país Portugal não tem culpa do que de errado se fez em tempos. Entre o reino de Portugal de 1500 e a república portuguesa de 2017 existe um hiato brutal. Há mais semelhança, hoje, entre um português e um africano, do que entre um português de 1500 e um português de 2017. Aqueles governantes já não existem, aqueles portugueses já não existem, como não existe aquele regime, aquela ordem de valores, aquela mentalidade, aqueles hábitos, enfim, aquele mundo. Pedir desculpa parece-me, pois, absolutamente despropositado.

O que se torna interessante compreender é a agenda política e o subconsciente político de quem permanentemente se mobiliza contra os países do mundo ocidental. Por que razão vivem permanentemente em busca de causas, de lutas, de conflitos, sempre em busca de mais uma polémica que denuncie os nossos regimes abertos, liberais e verdadeiramente democráticos, tão diferentes dos regimes com que eles sonham nos seus delírios ideológicos? Nuns casos serão ressentimentos mal resolvidos, noutros casos será sede de protagonismo, noutros casos ainda um excesso de testosterona mental que leva algumas pessoas a sentir necessidades revolucionárias. Seja. O mais irritante acaba por ser mesmo a sua obsessão em mexerem no lixo da história em vez de se concentrarem no que estes países, que tanto os revoltam, conseguiram de bom. Tão bom, que milhares de africanos, descendentes de antigos escravos trazidos para a Europa, morrem nas águas do Mediterrâneo ao tentarem viver para esses países em busca de um futuro melhor. Exigir um pedido de desculpa é muito mais do que isso: é uma necessidade de humilhar, de apontar a faca, de continuar a mantê-los reféns de um passado que já não existe a fim de poder fragilizá-los. Claro que a memória é um bem que não deve ser apagado. Mas aqui é muito mais do que isso. Trata-se de a transformar num veneno suave para poder mantê-los como alvo do seu subversivo ódio, raiva e ressentimento revolucionário. Felizmente, há homens como Barack Obama, Nelson Mandela ou Martin Luther King, cujas lutas e acções visam melhorar o seu próprio mundo, em vez de falarem, pregarem ou esbracejarem em nome de coisa nenhuma.

16 julho, 2017

O INQUÉRITO


É normal estar engripado? Depende. Ao contrário de conceitos como os de átomo, massa muscular, pressão atmosférica ou raiz quadrada, o conceito de normalidade é equívoco. Por isso respondo: sim e não. Não, porque estar engripado não é o nosso estado natural mas um estado de excepção. Não é suposto viver com gripe, apenas ocasionalmente. Mas também é normal pois acontece com frequência. Toda a gente já teve gripe e quando estamos engripados ou vemos alguém engripado, não vemos nisso qualquer anormalidade. Posto isto, o que pensar sobre um médico considerar a homossexualidade uma anomalia? Será a homossexualidade uma anomalia? E poderá um médico, enquanto técnico de saúde, considerar a homossexualidade uma anomalia? Primeira pergunta: sim e não. Segunda pergunta: sim.

Sim, a homossexualidade é uma anomalia na medida em que há uma lógica no facto de haver em toda a natureza sexuada (seres humanos, animais e plantas) dois elementos, o masculino e o feminino, que se atraem mutuamente. A natureza sabe bem o que faz e não é por acaso que existem dois sexos. Fosse a homossexualidade um estado preponderante da natureza e seria catastrófico em termos evolutivos. Neste sentido, sim, a homossexualidade é, e será sempre, uma anomalia, e ainda bem para a natureza em geral, e humanidade em particular, constituir um estado de excepção. Até podemos considerar a bissexualidade menos anómala e mais biologicamente racional do que a própria homossexualidade, uma vez que a atracção por pessoas do mesmo sexo não inibe trocas sexuais com pessoas do sexo oposto, assegurando assim a sobrevivência da espécie, o que não acontece quando homens apenas têm relações sexuais com homens e mulheres com mulheres. Mas também podemos considerar a homossexualidade normal. Sempre existiram, existem e irão continuar a existir homossexuais. E num quadro estatístico que não põe em risco a sobrevivência da espécie, podendo pois a humanidade dormir descansada em relação a isso. Para além disso, um homossexual é uma pessoa normal em tudo o resto, devendo, por isso, ser visto pelo que é como pessoa e não sobre o que faz ou deixa de fazer sexualmente.

Agora, por que é admissível um médico considerar a homossexualidade uma anomalia? É admissível se se basear numa leitura naturalista, tal como referi inicialmente. Claro que o facto de se tratar de um médico católico praticante, faz com que a sua leitura técnica fique contaminada por elementos ideológicos mas o mesmo se passará com os médicos que ficarão indignados com tal leitura, considerando a homossexualidade tão natural como a heterossexualidade. A homossexualidade enquanto matéria científica ou clínica distancia-se bastante de assuntos como a diabetes, a tuberculose ou a osteoporose, limitando bastante a possibilidade de uma abordagem puramente técnica e objectiva, impermeável a infiltrações ideológicas, políticas ou religiosas. Trata-se, por isso, de uma discussão que, em virtude dos seus pressupostos filosóficos, jamais terá fim.

Eu, que não sou médico, pretendo opinar. Considero que a homossexualidade tanto pode ser considerada uma doença como não ser considerada uma doença. Depende. Para entender esta ambivalência é preciso dizer o que se entende por saúde e doença. Ainda hoje, em muitas situações, e os médicos que o digam, é difícil distingui-las. Mas vou arriscar: pode-se considerar uma pessoa doente quando uma dada alteração no organismo (ou na mente) pode levar à morte ou a constrangimentos físicos (ou mentais), que criam situações aversivas que limitam a possibilidade de fazer uma vida normal. Ora, se um homossexual aceita a sua homossexualidade, vive bem com ela e se escolhesse ser de novo homossexual se voltasse a nascer, não faz sentido considerar esta pessoa doente. Se, pelo contrário, um homossexual vive mal com a sua homossexualidade, vivendo permanentemente frustrado e em conflito consigo mesmo por sê-lo, então este homossexual apresenta sintomas de doença, que o impedem de viver normalmente a sua vida, podendo assim precisar de apoio clínico. Quer isto dizer que o mesmo médico pode, numa consulta, considerar um homossexual, saudável, e, numa consulta seguinte, considerar um outro homossexual, doente. Doença, no seu sentido mais comum, como é o caso de uma gripe, que também provoca um mal-estar, não, vamos lá não meter tudo no mesmo saco, uma aberração, uma desordem grave, como sentir atracção por crianças, animais ou sentir prazer em andar a abrir gabardinas em lugares públicos.

Não concordo, portanto, com a posição  redutora de Gentil Martins sobre a homossexualidade. Estou, por isso, também à vontade para também considerar lamentável, mais uma vez, as reacções de histeria e fanatismo, igualmente impregnadas de ideologia, de quem se julga único detentor da verdade e a poder marcar a sua posição, silenciando todos aqueles que se opõem. O médico Gentil Martins tem direito à sua posição filosófica e outros o direito de discordar por motivos igualmente filosóficos. Inquérito? Passarem os perseguidos a perseguidores é um clássico da história e aí está mais uma vez a realidade para o confirmar.

15 julho, 2017

O ÚLTIMO METRO

Nelson Garrido

Qualquer pessoa da minha geração cresceu a ouvir as palavras "paneleiro" e "paneleirice" por tudo e por nada, as quais, felizmente, foram deixando de se usar. Ser hoje paneleiro está definitivamente em vias de extinção. Há apenas pessoas que são homossexuais ou gays, vistas e tratadas com naturalidade, sem qualquer estigmatização, sendo também cada vez mais habitual ver casais homossexuais assumir a sua relação no espaço público sem que haja qualquer tipo de reacção. Ainda bem para eles mas também para a própria sociedade por se tornar assim mais saudável, aberta à diversidade, livre, madura.

Como aconteceu tal mudança? Não sei, aconteceu. Pronto, não foi por acaso nem por obra e graça do Espírito Santo, o qual, pelo que dizem os seus porta-vozes, até se tem revelado conservador nestas matérias. Tudo o que acontece tem uma causa e este caso não é excepção. Mas ocorreu naturalmente, sem imposições, decretos-lei, campanhas formais de mentalização, propaganda institucional. Nada disso. Foi a própria sociedade, espontaneamente e levada pela sua própria dinâmica em busca do seu crescimento e maturidade, que aqui chegou.

Mas o que pensar desta decisão do metro de Londres, agora, sim, já com uma "linguagem contemporânea", segundo a fascista comunidade LGTB? Se a absoluta normalização de um/a homossexual é um feliz sintoma de uma sociedade naturalmente saudável, tal decisão já será sintoma de uma sociedade frágil e refém de gente tarada, obcecada, fanática, mentalmente desequilibrada. Que eu saiba, existem apenas dois sexos, sendo, por isso, perfeitamente apropriado o tratamento "Ladies and Gentlemen". Dois homossexuais continuam a ser dois homens, dois "gentlemen", duas lésbicas, continuam a ser duas "ladies". Se eu falar com um  homossexual trato-o por "senhor", se eu falar com uma lésbica, trato-a por "senhora". Não é por um homem sentir-se sexualmente atraído por homens que deixa de ser homem e uma mulher também não deixa de o ser por se sentir atraída por mulheres. Também uma pessoa bissexual não perde a sua identidade sexual, continua a ser um homem ou mulher. Mais, até acaba por ficar em vantagem por tanto poder aceitar a versão "gentlemen" como a versão "ladies", consoante os seus indicadores hormonais ou psicológicos desse dia. Também não vislumbro qualquer discriminação no caso de se tratar de alguém transsexual. Se era homem e passou a ser mulher, deixou de se lhe aplicar a versão "gentlemen" para passar a ser a versão "ladies". Se era mulher e passou a ser homem, aplica-se o contrário. Nenhum deles fica órfão no que toca a uma identidade sexual.

Não faz pois qualquer sentido esta absurda decisão. O seu sentido é ser um sintoma de uma modernidade bacoca, da submissão de uma sociedade que revela níveis de abertura bastante evidentes à agenda fanática e radical de gente que quer compensar séculos de discriminação com uma obsessão doentia pela normalidade, de gente que quer uma sociedade tão saudável e tão perfeitamente igualitária que acaba por poder morrer da própria cura. Eu disse atrás que a relação aberta com a homossexualidade, aliás, tal como em relação a outras minorias, é sintoma de uma sociedade saudável. Mas uma sociedade que arrisca perder referências, valores, tradições seculares, para ficar bem na fotografia de quem quer levar o fascismo do politicamente correcto ao seu ponto mais insano (o mesmo aconteceu de resto, durante anos com a agenda islâmica radical), arrisca-se a ser uma sociedade que, mais cedo ou mais tarde, se enterra num niilismo absurdo, desagregada, perdida, sem saber o que pensar. E onde todos perdem.

14 julho, 2017

DIÁLOGOS DE SURDOS


A capa de hoje do DN traz um título de notícia engraçado apesar de falso. Ou melhor, engraçado por ser falso pois se fosse verdadeiro não teria graça nenhuma, até porque se trata de uma notícia triste. Diz então o DN que "Notas de Química e Física põem em risco candidaturas a Engenharia". Para quem não está bem dentro do assunto, lê a notícia e pensa que se trata das notas de duas disciplinas: Química e Física. Ora bem, essas duas disciplinas existem, mas no 12º ano e não têm exame nacional. Onde há exame nacional é em "Física e Química", uma única disciplina, no 11ºano. Ora, isto faz uma certa confusão, a qual fez estragos também aqui.

Quando dantes se dizia "Ter uma aula de Físico-Química" ou "Fazer teste a "Físico-Química", sabia-se que se tratava de uma só disciplina. Porém, ao substituir-se o hífen pela conjunção copulativa "e", dando lugar à actual disciplina de "Física e Química", começam os problemas. Imaginemos um aluno que tem as duas disciplinas no 12º ano e diz "Hoje é 2ª feira e vou ter Física e Química" e imaginemos outro aluno que está no 11º ano e diz "Hoje é 2ª feira e vou ter Física e Química". Ora, dizer  "Hoje é  2ª feira e vou ter Física e Química" é simplesmente dizer  "Hoje é  2ª feira e vou ter Física e Química". Acontece que  o primeiro irá ter nesse dia duas disciplinas, "Química" e "Física", enquanto o segundo vai ter uma só disciplina "Física e Química". Depois não é só isso. Dizer "Jorge Jesus e Rui Vitória são dois treinadores" não é diferente de "Rui Vitória e Jorge Jesus são dois treinadores", havendo liberdade para invocar os nomes pela ordem que quisermos, tal como na sequência "Estocolmo, Londres, Atenas e Madrid são capitais europeias", uma vez que se trata de uma sequência de nomes puramente descritiva cuja ordem é aleatória. Acontece que dizer "Química e Física" não tem o mesmo sentido de "Física e Química" pois já não se trata de uma sequência descritiva de dois nomes mas a expressão verbal de um conceito, o conceito de "Física e Química", que é diferente do conceito de "Física" e do conceito de "Química", apesar de ser construído a partir destes dois. No 12º ano, sim, o aluno, olhando para o horário no domingo à noite, tanto pode dizer "Amanhã vou ter Física e Química", como dizer "Amanhã vou ter Química e Física". Mas quem não sabe que a disciplina de 11º ano se chama "Física e Química" ao ler o título que refere as disciplinas de Química e Física irá reforçar a ideia de que se trata de duas disciplinas em vez de uma.

Nesta altura do ano e com cerca de 40ºC a ameaçarem derreter o que resta da minha já escassa vida mental, a última coisa que me apetece é pensar em escola e afins, excepto os cafés que ficam em frente dela e onde se podem beber umas imperais com uns tremoços para precisamente hidratar um pouco o cérebro e dar-lhe algumas esperanças. Quem conseguiu chegar até aqui vai considerar que, dito isto, a minha vida mental já nem no domínio da escassez se encontra uma vez que outra coisa não fiz senão falar de escola. Pois, mas isso foi só para agora aqui chegar. Isto que acontece com o simples nome de uma disciplina de 11ºano é parecido com o que pode acontecer na nossa vida mental quando nos pomos a usar, juntar, separar, relacionar, hierarquizar conceitos, sobretudo aqueles cujo grau de abstracção é mais complexo. Falar por exemplo de liberdade, justiça, igualdade, amor, felicidade e tantos outros, permite estabelecer relações entre eles de maneira a sermos conduzidos a um caos sintáctico e semântico do qual dificilmente saímos, sem que as pessoas disso se apercebam. Pensemos num diálogo entre duas pessoas onde surgirão equívocos por causa do que expus anteriormente. E estamos a falar de uma simples disciplina de 11ºano e de duas de 12ºano. Se levarmos a mesma situação para o campo político, ideológico, religioso ou até pessoal, os equívocos serão ainda maiores pois nem sequer existe um referente empírico (por exemplo, consultar a ficha do aluno ou o plano de estudos do Ensino Secundário) para poder ultrapassar objectivamente o equívoco. Por isso muitos dos nossos diálogos são, e serão sempre, diálogos de surdos para os quais não há, nem creio que venha a haver, aparelhos auditivos para os poder resolver.

13 julho, 2017

O TEMPO EMBRULHADO


Há dias, deu-me para ir ver uma caixas que para ali tinha e fui dar com uns copos embrulhados em folhas de jornal, não tendo resistido a esticar algumas delas para ler notícias de há vários anos. Bem sei que a coisa mais velha do mundo é o jornal do dia anterior. Não me surpreende, pois, a inquietante estranheza  que é estar a ler notícias de há vários anos como se acabasse de comprar o jornal num quiosque. O que verdadeiramente me surpreendeu não foi tanto aquele cemitério de notícias frescas e de "última hora" mas as próprias folhas amarfanhadas, amachucadas, amarrotadas, esta estranha e disforme expressão física do tempo factual. Como se aquelas folhas se tornassem numa extensão física dos próprios conteúdos noticiosos, outrora lisos e transparentemente lúcidos.

A nossa consciência do tempo, ou melhor, a nossa consciência dos factos no tempo, também pode ser uma consciência lisa como as folhas de um jornal acabado de comprar, ou, pelo contrário, uma consciência amarfanhada, como a folha de um jornal que embrulha há anos o copo. Ir em busca do tempo perdido é como voltar a alisar uma folha de jornal cujas notícias se perdem num caos informe e ilegível com o objectivo de proteger copos. Acontece simplesmente o seguinte: enquanto o copo está protegido pelas amarfanhadas notícias de um velho jornal, não se pode beber por ele. E um copo protegido é um copo inútil. Quando, finalmente, o copo é desembrulhado para poder ser usado e as folhas de jornal podem ser de novo alisadas, regressa então à sua fragilidade de sempre.

11 julho, 2017

HO FATTO PENSIERI CON CONTROL

Eileen Cowin

«Existe uma espécie de cepticismo, antecedente a todo o estudo e filosofia, que é muito inculcada por Descartes e outros, como preservativo soberano contra o erro e o juízo precipitado». David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Secção XII


Gosto bastante desta tese empirista e céptica que associa o uso do preservativo ao pensamento. Um preservativo mental não impede o pensamento nem o prazer de pensar enquanto exercício, mais leve ou intenso conforme os níveis de testosterona mental. Sabendo nós quão perigosas podem ser as ideias, todo o cuidado é pouco. O poeta Heinrich Heine, o tal que disse que quem começa por queimar livros acaba por vir mais tarde a queimar pessoas, também dizia que as páginas escritas no gabinete de um solitário escritor, podem, a jusante, vir a provocar muitos estragos. Daí o inestimável benefício de pensar com preservativo. Não havendo total certeza sobre as possíveis consequências dos pensamentos, evita-se assim a acéfala gravidez de milhares ou milhões de cabeças com infectas ideias que, um dia, já mais crescidas, só virão a trazer mais problemas.

O que pode então significar pensar com preservativo? Significa: "Ok, leiam-me mas não me levem demasiado a sério tal como eu também não me levo, riam-se do que é risível no que escrevo ou no que irá estar datado daqui a meia dúzia de anos". Pode parecer estranho haver pessoas que escrevam com preservativo de tamanha resistência e qualidade, mas há. Montaigne é um bom exemplo disso. Montaigne que juntou tudo aquilo que escreveu numa obra chamada "Ensaios". Hoje, o conceito está excessivamente vulgarizado mas a sua essência é bem interessante."Essayer", em francês, significa tentar, experimentar, testar. Quem escreve um ensaio está a experimentar ideias mas sem lhes dar qualquer importância dogmática ou valor definitivo. Aliás, tal como a ideia de ensaiar no teatro, que serve para testar, pôr à prova, perceber o que está mal mas sem comprometer e sem levar ainda demasiado a sério, ao contrário do que acontece na noite de estreia, quando já não se pode errar.

Ao contrário das crianças do Another Brick in the Wall que cantam "We dont't need no thought control", o que venho aqui propor é precisamente um "thought" control graças ao poder de um bom e resistente preservativo mental. Eu sei que a ideia de  "thought control" é horripilante, fazendo lembrar fascismo, comunismo ou democracia venezuelana. Não, obrigado, não precisamos disso. Mas não é disso que se trata aqui, tipo um Estado a prender as ideias das pessoas com camisas de força, impedindo-as de pensar livremente. Trata-se antes de ser a própria pessoa que pensa, numa atitude profiláctica, a limitar as possibilidades de contágio ou gravidez, impondo limites ao valor dos seus pensamentos. E hoje cada vez mais pois a esmagadora maioria das pessoas, apressada e com instintos caprinos no que ao pensamento toca, não se dá ao trabalho de ler ou ouvir com preservativo. Lê ou ouve e passado pouco tempo pode estar infectada por ideias perigosas e absurdas que depois contagiam outras num processo sem fim, ainda para mais agora que, graças às redes sociais, vivemos um tempo de desenfreadas orgias de pensamentos que conduzem a um triste processo de "gravidez de massas". E se há território onde merece mesmo um controlo da natalidade é nas ideias. Controlo com control, jamais com controle, que fique bem claro.

10 julho, 2017

TAKE A WALK ON THE WHITE SIDE



Ninguém gosta de se sentir ridículo mas há pessoas que têm mais dificuldade do que outras em escapar a essa triste condição. Eu sou uma delas. Durante a minha última caminhada, transformei a estrada que vai desde a rotunda da Atouguia ao Colégio Andrade Corvo na estrada de Damasco. Claro que estrada de Damasco há só uma mas na minha pessoal enciclopédia passou a ser todo o lugar onde se dá uma revelação, que tanto pode ser de fora para dentro como de dentro para fora. No meu caso, desta vez, foi de dentro para fora, consistindo a revelação em perceber a minha ridícula figura pelo facto de ir vestido com uma T-shirt, uns calções e com os pés enfiados num par de sapatilhas. Pela reacção de absoluta indiferença das pessoas por quem passo durante a minha caminhada, percebo que não estou a ser ridículo para elas. Não vejo ninguém a rir ou a fazer um esforço para não se rir. Pessoas que passam por mim aos pares ou em trio, não fazem comentários, ainda que discretos, à minha passagem. Mas cá está, não foram elas mas eu quem se apercebeu do meu próprio ridículo.

Vá para onde for, ando quase sempre a pé, com o tipo de roupa que vestem as pessoas normais para fazerem as suas vidas normais. É assim que vou para a escola, às compras, ao café, ao banco tratar de algum assunto. Qual então o sentido de vestir uma T-shirt e uns calções e calçar umas sapatilhas para fazer precisamente o que faço quando vou para a escola ou ao café? Poder-se-ia dar o caso de andar muito mais depressa ou de correr durante a caminhada, o que justificaria uma roupa mais apropriada. Mas não. Eu tenho uma passada mais ou menos rápida, sendo sempre igual, quer vá para a escola, quer faça uma caminhada. E detesto correr. Há tempos, voltei a experimentar correr só um bocadinho para ver no que dava, e veio-me logo à cabeça a diatribe de Dom Rigoberto contra os desportistas, escrita pela mão de Mario Vargas Llosa, no escatologicamente elegante Os Cadernos de Dom Rigoberto. Pior: senti uma mistura entre o ir a fugir da polícia e ser cavalo na versão They shoot horses, don't they?

Ora, se Kant fazia as suas diárias caminhadas por Königsberg vestido com a sua roupa normal, se Rousseau devaneava, solitário, pelos campos franceses, com a sua roupa normal, se era com a sua roupa normal que Pessoa sonhava com o rio da sua aldeia enquanto caminhava junto ao Tejo, se era com a sua habitual roupa bávara que Heidegger pastoreava o ser pela Floresta Negra, se Baudelaire, Rilke, Walter Benjamin ou Cortázar caminhavam com a sua roupa normal pela cidade, se Woodsworth ou Beatrix Potter sozinhos, ou se John Ruskin na companhia de John Everett Millais caminhavam com roupa normal pelo norte de Inglaterra, se foi com a sua roupa normal que Göethe calcorreou quilómetros por Itália, se era também com a sua roupa normal que Nietzsche subia a montanha e nem consta que Charles Darwin tenha explorado as Galápagos de fato de treino, por que raio hei-de eu vestir uma T-Shirt, uns calções e calçar umas sapatilhas para igualmente caminhar durante uma miserável hora? E não aceito que se diga que Kant só não ia fazer a sua caminhada de calções porque na altura não se usava. E que Göethe não foi para Itália de sapatilhas ou Ruskin não passeou pelo norte de T-Shirt pelas mesmas razões. Já agora, não era também com roupas normais que os lisboetas do século XIX iam passear para o Passeio Público (onde ficam hoje os Restauradores) ou os portuenses para o jardim de S. Lázaro (onde fica hoje o jardim de S. Lázaro)? Alguém iria vestir uns trapos fatelas só para se sentir mais confortável a caminhar?

Por que razão terei eu então que ser ridículo, vestindo roupa ridícula, para fazer a coisa mais natural do mundo desde que deixamos de gatinhar? Porque eu próprio estou já contaminado pelo espírito técnico-instrumental que infecta o nosso tempo. Comer e fazer sexo deixaram de ser simples actos que dão prazer para se tornarem actos clínicos com peso e medida, ser pai implica aconselhamento através de livros e psicólogos, para se ser feliz é suposto ler centenas de livros dos quais pelo menos 50% tem "Mindfullness" no título. Entretanto, caminhar, entrou na mesma onda. Caminhar deixou de ser uma simples vadiagem física e mental da qual resulta um corpo mais apaziguado e uma mente simplesmente mais desopilada, para passar a ser um acto praticado de manhã cedo, ao fim da tarde ou já de noite em ruas transformadas em campos de treino ao ar livre, sendo depois as casas os balneários. Veste-se o fato de treino ou os calções e lá vai a pessoa para o seu exercício, controlando os quilómetros que faz, o tempo que demora em cada caminhada, havendo mesmo pessoas com umas coleiras nos braços para fazer medições sabe Deus de quê.

Tal mentalidade técnico-instrumental chegou também às praias como se pode aqui constatar. Por que razão tem uma pessoa que simplesmente vai à praia ser transformada num banhista em vez de uma pessoa que simplesmente vai à praia? Alguém tem a veleidade de transformar o sr. Palomar num banhista só porque está numa praia? Eu já estive muitas vezes em praias sem tomar banho e nem sequer poderia ter a clássica desculpa de estar com o período, a qual, de resto, já deixou de se dar. Uma das melhores recordações que tenho da praia é andar, já vestido, na praia do Vau sem ninguém, no lusco-fusco, ouvindo apenas o som das ondas na areia e as gaivotas. Mas cá está.Para esta gente uma pessoa vai à praia, não para ler o jornal ou um livro, para estar a brincar com os filhos, para passar pelas brasas ou simplesmente para estar a ver o mar ou pôr os cinco sentidos a absorver o que só a beira-mar proporciona. Ser banhista torna-se assim numa categoria biopolítica do mesmo nível do caminhante, estatutos impostos sobre o nosso corpo e espírito, que nos fazem perder a doce espontaneidade de existir para passar a ser regulada por códigos artificiais. Nutricionistas dizem-nos como comer, sexólogos como fazer sexo "gratificante", institutos, o que fazer na praia, ideólogos do politicamente correcto como falar. Só faltava cá o simples acto de andar a pé, transformado num exercício cardiovascular ou para emagrecer, sobretudo nos períodos que antecedem aqueles em que somos transformados em banhistas.