15 dezembro, 2017

O LIVRO NA ERA DA SUA REPRODUTIBILIDADE COMERCIAL


Ofereceram-me um livro, já agora, excelente, chamado "Livrarias" cujo autor é Jorge Carrión, um jovem professor catalão. Como o título indica, o livro é sobre o seu próprio elemento natural, o seu ecossistema: as livrarias, neste caso, as mais bonitas ou com mais histórias para contar, de todo o mundo. Portugal não passou ao lado, aparecendo por lá a Bertrand do Chiado, a Ler Devagar e, claro, a Lello. Se um marciano chegado à Terra pegasse neste livro iria perceber que, sendo a livraria uma loja, um espaço comercial onde se vende uma mercadoria, a sua natureza é bem diferente daquela de uma loja de roupa ou de electrodomésticos. Uma natureza que a faz aproximar de muitos restaurantes e cafés que ainda existem por esse mundo fora, aos quais também se vai para usufruir do seu espaço e da sua atmosfera, vistos e sentidos como profanos santuários.

Precisei de passar pelo Modelo para comprar umas cebolas e cenouras mas resolvi dar primeiro um giro pelos livros para uma vista de olhos. Foi com grande surpresa mas também desconsolo que encontrei a capa do "Ensaios sobre Literatura", de Walter Benjamin, tendo lá chapado um auto-colante a dizer "10% de desconto em cartão Continente".  Vi isto e pensei logo no livro sobre livrarias, ficando algo desolado ao ver Benjamin com um auto-colante do "cartão Continente", ainda para mais, não sem alguma ironia, num livro sobre literatura. Mas como tento sempre ver o lado mais simpático das coisas, acabei por depois considerar, já com as cebolas e cenouras a caminho de casa, que a lógica certa não é vermos Walter Benjamin rebaixado ao nível de um espaço comercial onde também se vendem cebolas e cenouras mas ver um espaço comercial onde se vendem cebolas e cenouras também se ter elevado até Walter Benjamin. Há-de também ser isto a dialéctica.

13 dezembro, 2017

A ALEGORIA DA CASERNA


O conceito de "senso comum" é ambíguo. Pode traduzir a ideia de um conhecimento prático, baseado numa clareza e bom senso partilhados por todas as pessoas, independentemente do seu grau académico e cultural. Mas também pode estar associado à ideia, neste caso negativa, de superficialidade, de preconceito, de juízos sem grande critério. Ora, o facto de hoje qualquer criatura ter em seu poder, repito, em seu poder, um teclado, faz com que este sentido negativo se tornasse vulgar nas redes sociais ou nas caixas de comentários dos jornais on line, espaços onde os mais exacerbados estados de alma são vomitados de um modo indigente e boçal,  baixando a inteligência humana para um nível reptiliano.

Eu começo sempre as minhas aulas de Filosofia por uma pequena passagem da "República" de Platão, que ficou conhecida como "Alegoria da Caverna". A ideia é mostrar como é possível pensar nas coisas para além do que o hábito nos fez parecerem ser e que aceitamos sem ponta de espírito crítico. Agarramo-nos a uma ideia e dali já não saímos mais. Acontece que tendo revisto o filme "12 Angry Men", de Sidney Lumet, que tinha visto há uns anos, sou obrigado a reconhecer que o seu valor pedagógico não é inferior ao da sugestiva mensagem da alegoria platónica.

Após toda a apresentação dos factos, os doze elementos do júri reúnem-se numa pequena sala do tribunal para decidirem o veredicto sobre o processo de um jovem acusado de matar o pai. Os factos são de tal modo contra o garoto que nem cinco minutos serão precisos para resolver o assunto. Mas um dos homens pede para pensar melhor, começando a questionar coisas não tão óbvias quanto pareciam. Mas tem um problema: alguns dos homens estão ali com o espírito de quem está descontraidamente numa caserna a dizer umas larachas, encarando de um modo leviano o caso (até porque nesse dia há um importante jogo de baseball), ainda que esteja em causa a vida de um jovem. Daí aparecer logo quem se enfureça pela perda de tempo resultante de uma análise e reflexão mais séria. Acontece que essa reflexão leva alguns a mudar o sentido de voto, enfurecendo ainda mais aqueles cujas opiniões são inabaláveis e nas quais não há espaço nem para um miligrama de dúvida. Um dos que vacilam diz que precisa de pensar melhor mas há logo quem lhe responde que isso só serve para baralhar as cabeças. Um outro, perante alguém que diz "Não sei", reage com violência, respondendo que  "tem de saber", como se um estado de dúvida fosse uma aberração mental. Especialmente um deles, assume todo o fel e raiva que tem dentro de si, descarregando não só nos seus colegas de júri mas sobretudo no garoto que está a ser julgado. Excelente, no filme, o contraste entre a fineza, perspicácia e bom senso do homem que começa sozinho, e a estupidez e boçalidade de outros.

O filme é de 1958, sendo triste pensar como nunca houve tanta gente em cujos olhos e reptilianos intelectos o filme deveria ser espetado como os bolos cheios de creme dos filmes cómicos. Mas também é verdade que quem mais precisaria de o ver é quem menos iria compreendê-lo.

12 dezembro, 2017

DISPENSA DE EXAME

Dizia Platão que uma vida não examinada não merece ser vivida. Compreendo que examinar a vida possa ser um exercício estimulante, seja num ginásio, num banquete, ou no cárcere onde Sócrates viria a morrer, para ficarmos por cenários gregos. Mas apetece-me dizer a este respeito o que disse Unamuno da dúvida cartesiana quando lhe chama "dúvida de estufa", tranquilamente formulada à lareira numa noite de Inverno. Para levar a questão mesmo a sério, deverá ser formulada de outra maneira: só quando não se percebe por que merece a vida ser vivida é que se exige examiná-la. Longe da luz quente e do sereno crepitar da lareira, antes ao frio e à chuva. À lareira, nada há verdadeiramente para examinar, apenas usufruir dela.

11 dezembro, 2017

CINCO MINUTOS SÃO TREZENTOS SEGUNDOS

O filósofo Martin Heidegger e mulher na sua cabana na Floresta Negra

Apresento aos alunos o seguinte caso como ponto de partida para um debate de natureza moral, no âmbito de uma sociedade multicultural: uma funcionária, de origem síria mas ocidentalizada, de uma elegante perfumaria, onde todas se vestem segundo o padrão ocidental, casa com um muçulmano conservador. No dia seguinte, chega ao trabalho com um véu na cabeça e uma túnica que lhe tapa todo o corpo. A dona da perfumaria, não aceitando aquele tipo de indumentária, diz que tem de se vestir como antes, sob pena de ser despedida. A empregada é despedida, fazendo uma queixa-crime da patroa, acusando-a de ter uma atitude racista, xenófoba, discriminatória e intolerante face a outra cultura.

Peço-lhes cinco minutos de silêncio para poderem reflectir um pouco sobre este conflito, ainda antes de tomarem posição e começarem a debater. Faz-se então silêncio. Nem vinte segundos depois, pergunta-me um aluno se é permitido trocar ideias com o colega do lado ainda antes de debater com a turma. Eu, ingénuo, e apesar de não ser o previsto, digo que sim, pensando tratar-se de um caso isolado. Acto contínuo, deparo-me com uma turma de 32 alunos em frenético movimento, uns para o lado, outros para trás, outros ainda esticando-se para a frente, dando origem a uma estridente cacofonia que, não obstante eu perceber tratar-se de um efeito sonoro resultante de estarem mesmo a discutir o assunto, me obrigou a fazer uma coisa que detesto: gritar. Só que o barulho era tanto que nem gritar me ouviam. Só com o estrondoso impacto de um livro que eu, selvaticamente, quase esmaguei na carteira, foi possível aperceberem-se de eu estar a querer comunicar alguma coisa à turma. Finalmente, fez-se silêncio. Silêncio que apenas serviu para eu dizer que podíamos então iniciar o debate. Debate que durou toda a aula, mostrando-se assim como foram bem aproveitados aqueles 5 minutos roubados ao silêncio. Para eles, claro. Já eu limitei-me a lembrar da seguinte passagem de um texto de Simone Weil, escrito no já longínquo ano de 1950:

«Chegámos a uma situação em que quase não pensamos, seja em que domínio for, excepto para tomar posição "pró" ou "contra" uma opinião. Procuram-se depois os argumentos, consoante o caso, seja pró ou seja contra. [...] Um pouco por todo o lado, a posição de tomar partido, de tomar posição pró ou contra, substitui a operação do pensamento». Nota Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos

10 dezembro, 2017

A VOCAÇÃO

Sou contra os quadros de honra nas escolas mas fui à cerimónia da minha para entregar os diplomas a três alunas de quem fui director de turma, que respeito como alunas e pessoas, e por quem tenho bastante simpatia. À medida que os eleitos iam sendo chamados ao palco, aparecia a sua identificação num ecrã gigante, assim como a profissão que irão um dia abraçar: médicos, veterinários, engenheiros, economistas, empresários, enfim, o costume. Encerrada a cerimónia, encontro a C., minha aluna há muitos anos, estando agora ali na condição de já quarentona mãe. Lá pusemos a conversa em dia, a vida, o trabalho, os filhos. Ah, e a irmã? Irmã que era da mesma turma. Muito calada, com ar introspectivo, quase sempre sozinha mas também com o ar mais tranquilo deste mundo, o mesmo ar com que me disse, ainda tão fedelha, que queria ser freira. Ah, e a irmã?, perguntava eu. E a irmã lá continua freira, em Famalicão. É sem dificuldade que a imagino já quarentona mas com o seu ar tranquilo e introspectivo de sempre, longe dos prosaicos e turbulentos meandros deste mundo. Ter uma vocação desde pequena há-de ser uma Graça: poder ser o que se é, com a mesma aristotélica naturalidade com que uma pedra repousa no chão, os peixes se deslocam na água e as aves voam no céu. 

09 dezembro, 2017

06 dezembro, 2017

A CONSTELAÇÃO

[Forografia de Alberto Carlos Lima]

Recebi há dias um mail de um moço que, por mero acaso, passou por este meu texto onde falo de quem ficou para a história como "Buíça, o regicida" e ao qual já voltei diversas vezes assim como ao regicídio propriamente dito, que ainda hoje me custa aceitar. E onde falo também dos seus filhos Elvira e Manuel, a respeito dos quais deixou estes "Apontamentos", dias antes daquele em que sabia que iria morrer. O mail era de um trineto de Buíça, e no qual me dizia nada saber do bisavô mas que a bisavó viveu bastantes anos, tendo falecido com mais de 80 anos.

Foi com uma surpresa de flâneur em cuja presença deflagra uma rua, uma praceta ou um beco da cidade por onde caminha que veio ter comigo a imagem da constelação na versão de Walter Benjamin, a ligação de pontos de luz afastados uns dos outros mas onde é possível desenhar uma imagem com sentido. Parecido, mas ainda assim diferente do que me aconteceu quando tinha 14 anos e calhou apertar a mão a Mário Soares. Era ele na altura ministro dos Negócios Estrangeiros e, dias antes, tinha-o visto na televisão a apertar a mão de Henry Kissinger, na Casa Branca. Logo depois de ter apertado a mão de Mário Soares construí mentalmente a ligação entre a minha mão e a de Kissinger. Mas Kissinger era alguém que estava vivo, sendo a minha aproximação a de alguém que, estando longe no espaço, fazia parte do meu mundo. Era, por isso, de certo modo, ainda uma ligação física, como ainda física é a experiência de Roland Barthes quando diz, diante de uma fotografia, estar a ver os olhos que viram o imperador.

Nesta caso agora é diferente. Eu recebo o mail do filho, do filho, da filha de "Buíça, o regicida", que no dia 1 de Fevereiro de 1908 assassina o rei e o príncipe herdeiro, na praça do Comércio. A praça continua lá mas desapareceram o mundo e as pessoas que lá existiam, assim como o que existiu depois e existiu depois e existiu depois, sendo já absolutamente ténue qualquer ligação física entre o meu mundos e o deles. É antes uma ligação no tempo, uma daquelas ligações quando caminhamos, melancólica e silenciosamente, por ruínas, como Isabel Archer no Coliseu de Roma, ligações que tanto nos fazem deixar por instantes o mundo dos vivos como fazer com que os mortos passem, por instantes, a fazer parte do mundo dos vivos. O trineto de Buíça é, acima de tudo, um jovem. Mas também não deixa de ser uma nova pedra, entretanto descoberta, de uma ruína. E no fundo, e literalmente no fundo, todos nós somos partes de ruínas que, na maior parte dos casos, nunca chegarão a ser desenterradas. Mas, quando isso acontece, são pontos de luz que se ligam, num desenho que brilha na mais negra escuridão do tempo.

05 dezembro, 2017

PERTURBAÇÃO


Não, não venho falar do romance de Thomas Bernhard que dá o título a este post mas do quadro de Balthus, O Sonho de Teresa, o que acaba por também por envolver parte do universo do pintor francês. Não porque tivesse hoje acordado com especial apetência para falar do quadro ou do pintor mas apenas por causa de mais esta magnífica notícia. 

Os testes projectivos são um modelo bastante comum dentro dos testes de personalidade. Trata-se de um teste no qual uma pessoa ao realizar uma tarefa acaba por por projectar aspectos da sua personalidade ou certos estados mentais e emocionais. Por exemplo, põe-se à sua frente um desenho ou uma pintura passível de várias interpretações (quanto mais ambígua melhor), pedindo-se para a interpretar. Ora, ao fazê-lo, e ao fazê-lo de uma certa maneira em vez de outra, permite perceber certos estados internos não directamente observáveis. Lembrei-me destes testes por causa da petição em que se pede para retirar o quadro do Metropolitan, considerando "perturbador" que o grande e prestigiado museu apresente um quadro daquela natureza, lembrando ainda que numa exposição em 2013 dedicada ao pintor se encontrava um aviso que alertava para o facto de algumas pinturas poderem "perturbar" os visitantes. Ora, de que terão medo estes bíblicos zeladores da moral e bons costumes e das consciências? Qual a causa do medo que leva certas pessoas a não quererem ver o quadro, a sentirem-se chocadas com o quadro, a verem no quadro qualquer coisa de ignóbil e perverso? Sim, falam  dos pedófilos. Mas os pedófilos serão as últimas pessoas a sentirem-se perturbadas, chocadas, horrorizadas, com este quadro! 

Olhemos bem para o quadro. Sim, o seu motivo central é uma rapariga numa pose lânguida e numa posição que permite ver as suas cuecas. E apenas isso: uma rapariga numa pose lânguida e numa posição que permite ver as suas cuecas. Um momento que toda a gente que teve filhas, sobrinhas, netas, filhas de amigos ou de vizinhos, observou com raparigas desta idade, onde uma mente infantil ainda torna displicente a relação com o seu corpo e a roupa que o cobre, numa idade em que esse corpo começa a deixar de ser sexualmente neutro. Acontece num sofá, num jardim, no chão de uma sala a ler um livro, a brincar. É normal. Claro que ao passar este tipo de situação para a pintura, terá um impacto que não tem na vida real. Sim, é verdade. Mas o que levará uma pessoa a sentir-se perturbada com a rapariga? Eu olho para ela, volto a olhar, olho para o quadro com atenção, para todo o quadro que existe para além das cuecas da rapariga, e,vá-se lá saber porquê, não sinto qualquer perturbação. E não é por ser pedófilo pois se o fosse poderia sentir uma atracção ou excitação que, de todo, não sinto. Percebo a erotização estética do corpo de uma rapariga que já não sendo criança, não é ainda adulta, consigo mesmo perceber a possível excitação de um pedófilo perante a imagem mas isso não implica sentir a excitação do pedófilo nem a perturbação de quem fica chocado. Mas qual é o problema? Qual é o problema de perceber que uma rapariga está a mudar e a ganhar um corpo sexuado? É preciso ficar chocado, por um lado, ou excitado, por outro? Temos que ficar chocados ou excitados sempre que vemos uma mulher nua num quadro? Não podemos apreciar esteticamente um corpo nu numa pintura sem ter que, digamos assim, sentir os mais primários impulsos a darem sinal? Sim, repito, eu vejo esta rapariga e percebo perfeitamente que é uma rapariga que se está a tornar mulher. E vejo o gato, vejo o quarto ou sala, vejo a cor, vejo a luz, vejo toda a atmosfera que envolve o quadro e cujo impacto estético é inegável.

Uma das coisas que me dão verdadeiramente prazer é entrar na sala de um museu, ver lá muito ao longe um quadro que nunca vi e adivinhar o seu autor. Dizer "Olha ali um El Greco, olha ali um Modigliani, olha ali um Rubens, olha ali um Schiele". Porque uma das coisas que mais gosto na pintura é o facto de cada pintor criar um mundo novo, que é só dele, ou que não sendo apenas dele, tem a sua própria impressão digital. Não quer isto dizer que o simples facto de ter um mundo faça com que goste dele. Há pintores que o têm e considero-os insuportáveis. Balthus, não sendo um dos meus pintores preferidos, criou um mundo de grande valor artístico e passível de proporcionar uma experiência estética que posso estar longe de desprezar sem que esteja aqui obcecado a pensar nas cuecas brancas da menina ou seja lá o que raio mais for. As cuecas da menina não mordem. Morder, isso sim, mordem as consciências de muitas pessoas.

04 dezembro, 2017

FRITZ VON UHDE - A IRMÃ MAIS VELHA, 1885



Poder ter estado alguma vez numa velha casa abandonada, cheia de caliça pelo chão e por objectos destroçados, permite saber o que é uma casa abandonada cheia de caliça pelo chão e por objectos destroçados. Saber o que é uma casa suspensa na sua tranquila ruína da qual o tempo fugiu, deixando-a ensimesmada e entregue a um vazio que se eternizou. Claro que será sempre possível propor o exercício a quem nunca esteve numa casa assim, pondo a sua imaginação a trabalhar, associando imagens conhecidas para dar origem a novas imagens. É o que fazemos, por exemplo, com seres imaginários como o centauro ou a sereia. Nunca ninguém os viu mas, graças à imaginação que associa coisas conhecidas, como homens e cavalos ou mulheres e peixes, podemos então ver coisas nunca vistas. Portanto, é possível imaginar o interior de uma velha casa abandonada, cheia de caliça que vai obstruindo os seus poros e impedindo-a de respirar. Mas não é a mesma coisa. A imaginação pode ser poderosa mas faltam-lhe as verdadeiras sensações, ouvir o verdadeiro silêncio, sentir o cheiro, as verdadeiras cores e, sobretudo, captar numa só impressão um todo que é anterior à soma das suas partes. 

Eu já estive e diversas vezes. Daí ser essa a minha primeira impressão perante esta tela do pintor alemão cujo pincel é levado por uma sensibilidade impressionista. Com a diferença, porém, de, neste caso, a casa não estar abandonada, estando duas figuras humanas, duas irmãs, que certamente habitam a casa desabitada. Não se trata de uma contradição, isto de habitar uma casa desabitada, bastando olhar para o entender. O modo como as duas figuras sobressaem do fundo da tela graças a contornos bem definidos, aproxima-se de uma abordagem realista, longe, portanto, da impressão mais pura e radical, tão comum na época, em que a figura humana se desvanece na própria paisagem ou se transforma em mancha, em traço ou em simples ponto inscrito na tela. Mas as duas figuras também estão de tal modo presas ao fundo que acabam por fazer parte dele. E não estou sobretudo a pensar na continuidade cromática entre a saia da irmã mais velha e as pernas da irmã mais nova com o resto da casa. Penso, sim, ou melhor, vejo, caliça por todo o lado e não apenas a desfazer-se na parede, no chão ou sobre a cadeira como numa típica casa abandonada e em ruínas. Uma caliça omnipresente, uma insidiosa caliça que uniformiza toda a casa e à qual não escapam as duas figuras que lá vivem. Por isso a casa não está verdadeiramente habitada, isto é, ocupada por pessoas que se posicionam sobre um espaço que lhes é exterior. Estas duas raparigas, estando lá, são duas ruínas dentro da própria ruína, dois fantasmas oprimidos pela atmosfera fantasmagórica da casa e cuja respiração e cheiro é a respiração e cheiro da própria casa.

Mas o quadro tem tanto de dramático como de esperança. Há duas manchas cromáticas dissonantes na imagem. O branco na irmã mais nova, um branco que exprime uma pureza e inocência que nada tem que ver com o infectado branco da caliça que contamina todo o quadro. Mas vale sobretudo o vermelho da irmã mais velha. Um vermelho que tanto pode ser de sangue como de fogo, sangue ou fogo que imprimem  um sopro vital, movimento, energia a duas figuras em risco de desvanecimento. Faz por isso todo o sentido que este quadro onde surgem duas irmãs, se intitule A Irmã Mais Velha. Não se trata de dar mais valor a uma do que a outra enquanto pessoas mas apenas de traduzir sinteticamente o que se está aqui a passar. A mais pequena, olhando sem nada perceber do que acontece, do que vive ou até da própria casa enquanto a mais velha, qual poderosa locomotiva de ferro, caminha para o exterior, para um mundo real que existe lá fora. A direcção do olhar para baixo não exprime submissão, desistência ou vacilação. É o olhar de quem tem o peso do destino às suas costas  e que contra o qual tem de lutar em vez de se sentar numa cadeira com pedaços de caliça e a desfazer-se. A história conhecida destas duas raparigas começa e acaba aqui nesta imagem. Não há aqui nem antes nem depois, apenas um movimento suspenso. Mas a cor da sua camisa, a firme robustez do seu corpo e aquele olhar não ausente mas antes concentrado no que mais importa, faz-me acreditar que passado pouco tempo a casa ficou finalmente entregue ao silêncio e aos restos de caliça que continuaram a cair como flocos de neve numa despida paisagem invernal.

03 dezembro, 2017

EDUCAÇÃO COGNITIVA


Há muitos anos, o crítico de televisão Mário Castrim veio a Torres Novas dar uma palestra e fui ouvi-lo. Foi mesmo há muitos anos e já não me recordo de nada do que disse, excepto a sua defesa de uma certa ideia de censura, ainda que pedagógica. Claro que ouvir um comunista dizer "censura", ainda que por elevadas razões pedagógicas, faz sempre ficar de pé atrás, se pensarmos nos opressores regimes que ainda são uma referência para a nossa esquerda paleolítica que celebra a Revolução de Outubro. Mas sendo eu todo ouvidos e nada preconceituoso, levei a sério uma analogia que serviu de base ao seu argumento: se existem medicamentos que não são de venda livre pelos seus possíveis efeitos secundários, por que não há-de acontecer o mesmo com produtos culturais que podem influenciar negativamente os comportamentos? A analogia é poderosa e o tema delicado, sendo isso razão para que goste sempre de o discutir, tendo-o já proposto várias vezes para debater em 90 minutos de aula de Filosofia.

Excluindo, por razões óbvias, os nichos infantil e juvenil, ou conteúdos que, fora de um contexto artístico, incentivem ostensivamente qualquer tipo de violência (por exemplo, o terrorismo ou violência sexual) sou contra qualquer tipo de censura ou condicionamento das artes no que toca à transmissão de valores ou diferentes registos de vida. Ao contrário dos medicamentos, onde a relação causal entre a sua ingestão e um dado malefício é clara e directa, nada me diz que a mesma se estabeleça entre um filme ou um livro e um comportamento desviante. Não só a esmagadora maioria das pessoas, apesar dos zeladores das consciência pensarem que não, tem dois dedos de testa para saber distinguir um filme da realidade, como são múltiplas e complexas as causas que levam as pessoas a serem o que são. Não vejo por isso qualquer razão para impedir o que para mim é sagrado e inalienável: a liberdade criativa, mesmo que não gostemos do seu resultado, e a sua imunidade face a quaisquer amarras ideológicas que a limitem.

Não é por acaso que venho com esta conversa, que tanto serve para as artes como para a vida quotidiana. Em Portugal passa um bocadinho ao lado (havendo algumas felizes excepções) mas há países onde se está a dar grande destaque ao assunto, nomeadamente por causa dos ventos moralistas (sobretudo no mundo anglo-saxónico) que pretendem varrer tudo o que possa contaminar ideias bacteriologicamente puras no campo dos valores e comportamentos, fazendo com que a clássica ligação entre censura e regimes ditatoriais passe para dentro de sociedades livres e abertas. A França é um dos países onde o tema está na ordem do dia e vou pegar em três situações distintas.

Uma pessoa lê isto e não pode deixar de pensar que virá um dia, caso seja um filme português, em que os actores não vão poder aparecer a comer feijoada, cozido à portuguesa, francesinhas ou tripas, uma vez que pode contribuir para o aumento de doenças cardiovasculares. E nem pensar em cenas em restaurantes de fast food. E que para além do facto de já não haver heróis ou heroínas de cigarro na boca (uma boa ideia é meter só os maus a fumar para pavlovianamente  se sentir aversão pelo acto de fumar), também irá desaparecer de todos os filmes qualquer tipo de bebida alcoólicas, apenas, vá, uma cervejita ou outra mas na condição de ser um filme para maiores de 18 anos e com bolinha vermelha. E por falar em bolinha vermelha, em cenas de cama, os actores deverão deixar bem claro aos espectadores, que usam preservativo: sempre que vai haver sexo, o actor pisca o olho para a câmara enquanto abre o preservativo, para criar um clima de pedagógica cumplicidade com o espectador. E os heróis devem passar a ser também representantes de minorias. Nada de heróis brancos, heterossexuais e saudáveis, o herói deve passar a ser preto, homossexual, ou transsexual, ou bissexual, ou panssexual e, já agora, se tiver algum tipo de deficiência, tanto melhor.

Por outro lado como aqui, se pode ver, passou-se a questionar a possível avaliação de uma obra cinematográfica com base nos defeitos morais dos seus realizadores ou actores (o caso recente da troca de Kevin Spacey por Christopher Plummer no trabalho de pós-produção do último filme de Ridley Scott, é eloquente). Eu nem quero pensar na quantidade de escritores, compositores, músicos, pintores, cujas obras irão um dia para o Index, pela sua associação a valores considerados repugnantes. O que mostra que, segundo os guardiões do politicamente correcto, os espectadores são duplamente estúpidos. Estúpidos porque levam os maus exemplos do cinema para a realidade (Será que no tempo de O Último Tango em Paris, terá havido um aumento brutal na compra de manteiga?) mas também por levarem os maus exemplos da realidade para o cinema, ainda que o actor ou a actriz façam papéis de anjinhos da guarda.

Muito interessante esta entrevista com uma professora de cinema em Chicago que, num acto de grande coragem e resistência cívica, deita uma aliviadora água na fervura, só por dizer que há situações e situações no que diz respeito ao que se pode considerar ofensa ou crime sexual. E há coisas que são efectivamente de mau gosto e merecem reprovação. Por exemplo, transformar uma apresentadora de televisão num objecto sexuado é reprovável e merecedor de crítica, uma vez que desvirtua o seu papel que, naquele contexto, não passa pela sua "boca de felatio", as mamas ou as pernas. Outra coisa, porém, é sexualizar o corpo masculino ou feminino no cinema, na pintura ou na fotografia. Reprovar ou limitar esse processo nada tem que ver com a arte em si mas com representações ideológicas  e morais que, podendo até ser justas e sensatas, não têm legitimidade para condicionar o processo artístico. Infelizmente, parece termos conversa para muito tempo.

02 dezembro, 2017

JOSÉ SÓCRATES




«Quando temos de mudar de opinião acerca de alguém, atribuímos-lhe com rudeza o desagrado que ele nos provoca com isso». F. Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, § 124

Um polícia mata, acidentalmente e em legítima defesa, um homem que acabara de cometer um crime. Sendo o polícia conhecido pelo seu método pouco ortodoxo para lidar com criminosos, e recentemente punido por isso pelo seu superior, fica assustado com a ideia de não acreditarem no que aconteceu e resolve esconder o morto, que virá entretanto a ser descoberto. O principal suspeito, por razões que não vale a pena explicar, é um taxista já velhote, bonacheirão, excelente homem, algo ingénuo até, e pai da rapariga com quem o polícia recentemente se envolveu (uma Gene Tierney sempre em estado de graça), também uma doce e gentil pessoa que adora o pai. Temendo dizer a verdade, mas também angustiado com a ideia de ver o inocente velhote acusado, o polícia diz que se deve seguir a pista de um patife ligado ao bas fond mas, de facto, sem qualquer relação com o crime. Isto passa-se num film noir de Otto Preminger chamado Where the Sidewalk Ends [O Castigo da Justiça]. Eu estou a ver o filme com a consciência de estar a sentir o que o realizador quer que eu sinta: que o patife, apesar de inocente, venha a ser considerado o autor do crime. É perverso da minha parte? É. Apesar de o homem ser o que é, não cometeu o crime, sendo por isso moralmente errado desejar a sua acusação. Mas também sou humano, significando isso que, para além de pretender orientar-me por crenças, desejos e decisões racionais, sou também feito de insidiosas emoções e sentimentos.

Vem isto a propósito de José Sócrates. Mesmo reconhecendo que não fica bem fazer exercícios de auto-enaltecimento, vou perder o pudor e assumir que sou uma boa pessoa e com bom feitio, muito pouco dada a ódios e aversões radicais. Há, porém, algumas excepções, e José Sócrates é uma delas. O homem consegue fazer soltar o vago e remoto selvagem que há em mim, exaltando emoções que deviam estar desactivadas algures numa caverna pré-histórica. Só que perante tão execrável criatura, não consigo sentir menos do que nojo e repugnância. Esta asquerosa personagem da nossa democracia está acusada de diversos crimes, beneficiando, porém, formalmente, da presunção da inocência. Quando, entretanto, o julgamento se iniciar, há duas possibilidades: é ilibado e vai para casa gozar a sua vida, ou é acusado de todos ou alguns dos crimes e passa a ver o Sol através das grades. É aqui que, pecador me confesso, torço ardentemente para que seja considerado culpado. Eu sinto e acredito que o homem não presta, que não passa de uma reles pessoa. Se for culpado, isso vai confirmar o que penso dele, apaziguando assim a minha consciência, pois apenas desejo que ele seja mesmo o que desejo que ele seja, evitando assim uma desconfortável dissonância entre o que eu desejo pensar (que cometeu os crimes) mas que a realidade não consegue provar. Já vê-lo ilibado dos seus crimes os quais, se for esse o caso, não foram cometidos, não irá de qualquer modo alterar a minha ideia a seu respeito, deixando-me, por isso, desiludido. Deus é grande e há-de saber perdoar-me. 

30 novembro, 2017

DEUS 2.0

[2001 Odisseia no Espaço]

[também aqui]

O problema da existência de Deus foi, até ao século XIX, tema incontornável da Filosofia, não havendo filósofo que não metesse a sua colherada nem que fosse para deitar veneno. Depois, quase recebeu a extrema-unção. Resistiram as diversas artes com grandes obras sobre a felicidade ou angústia de um mundo com ou sem Deus, mas foi sobretudo na agenda ideológica que se manteve mais animado, sendo Deus amigo ou inimigo conforme a cartilha política republicana, monárquica, integralista, fascista, anarco-sindicalista, comunista, socialista, democrata-cristã, católica progressista, sem esquecer a Carbonária que, antes de Al Gore, era o CO2 da igreja. E não faltavam jovens católicos com avassaladoras crises de fé, sobretudo após leituras de obras como O Drama de Jean Barois, ou pelo triste e cruel espectáculo de um mundo incompatível com a ideia de um Deus misericordioso mas que mais parecia um surdo-mudo incapaz de comunicar por linguagem gestual. No final do século ainda houve alguma animação com manifestações à porta de cinemas por motivos religiosos, embora como reacção popular a uma imagem heterodoxa de Cristo ou Maria e não pela existência de Deus no seu mais sofisticado e perfumado sentido filosófico ou teológico.

Ao pensar agora nas minhas inflamadas discussões liceais sobre a existência de Deus, entre imperiais e tremoços no café Portugal ou entre imperiais e queijinhos amanteigados no Zé da Ana, combustadas pelas fervorosas jacobinices de um niilista russo do século XIX, vejo todo um mundo que se finou. O problema é hoje tão estimulante para um jovem como uma máquina de fazer gelo para um esquimó. Ao introduzi-lo nas aulas, na esperança de estimular alguma adrenalina mental, via alunos anestesiados com a mesma dose de abulia que os levaria a sacar do telemóvel perante um discurso parlamentar de Jorge Lacão sobre a reforma do Estado num programa a preto e branco ainda do tempo do Eládio Clímaco, na RTP Memória. Contrariamente a fait-divers cómicos sobre a Coreia do Norte, a existência de Deus não chega sequer a ser um problema desinteressante mas apenas um não-problema.

Mas consegui um bom truque culinário para inverter a situação: um modernaço e gourmet molho conceptual. Jogando com os conceitos de causalidade e acaso, exorto os garotos a imaginarem Deus como um super-hiper-mega-giga computador cósmico cuja base de dados contém tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá no universo. Enfim, uma espertalhona versão high-tech da clássica e mais humilde noção de “omnisciência”. Nada que faça lembrar pais, filhos ou espíritos santos, conversa de catequese ou missa dominical, apenas e só um super-hiper-mega-giga computador cósmico, toma e embrulha! Vejo então caras limpas das vacuidades do Facebook e de vídeos estúpidos do Youtube e, agora sim, sinto pensamentos fervilhando dentro das cabeças com tão cool sugestão. Entretanto, eles discutem e eu já não me sinto o melancólico espectro de um niilista russo do século XIX que arrumava a existência de Deus na classe dos opiáceos e outras drogas duras. Sinto-me vivo e filosoficamente titilante e, graças a Deus, já desintoxicado dos não menos duros opiáceos contrários.

29 novembro, 2017

WUTHERING DAYS

É um privilégio da língua portuguesa a palavra tempo poder ser usada tanto num sentido cronológico como meteorológico, coisa impensável em línguas que distinguem time e weather ou zeit e wetter. Permite, por exemplo, olhar para o calendário e ver os agrestes temporais do Yorkshire. 

28 novembro, 2017

O OFÍCIO DE ESQUECER



Há tempos, estava a descascar uma tangerina quando de repente faço uma viagem no tempo até ao cheiro da casa de uma tia. Nada de especial, não fosse ter lá ido pela última vez há mais de 40 anos. E de a casa não cheirar a tangerina, pormenor que não iria esquecer se fosse o caso. Mas a verdade é que no dia seguinte voltei a comer uma daquelas tangerinas e logo a minha memória foi de novo assaltada pelo cheiro da casa. O que só  aconteceu com aquelas tangerinas, quando passo a vida a comê-las. Ora, se a casa não cheirava a tangerina, concluo que o seu cheiro principal incluiria partículas olfactivas cujo cheiro seria idêntico ao de partículas olfactivas no cheiro principal daquelas, e só daquelas, tangerinas. Se pensar no quadro de Matisse La Desserte Rouge, a cor principal é o vermelho. Mas se vir os seus azuis ou amarelos, sei lá, num prato de majólica, sou também capaz de associar o prato ao quadro apesar de se tratarem de coisas bem distintas. Deve ter sido também mais ou menos isto que se passou, só que com cheiros.

Entretanto, há poucos dias, aconteceu-me uma coisa ainda mais estranha, diria mesmo, parva. Ia a andar na rua e passa por mim um Fiat Punto em cuja parte lateral traseira vejo escrita a palavra "Star". Então, de repente, vejo uma avenida de Braga onde me vejo há 15 ou 16 anos a ver passar um Fiat Punto no qual vejo, pela primeira vez, a palavra "Star". Há nisto qualquer coisa que tem tanto de bizarro como de confrangedor por me fazer descobrir a quantidade de lixo que um ser humano pode guardar na sua cabeça, quando há tanta coisa importante a ser esquecida.

Sim, por exemplo, já depois destas duas situações, estava na biblioteca a corrigir testes quando me apeteceu requisitar As Aventuras de Tom Sawyer para levar para casa. Quem tratou da requisição foi uma colega que, ao ver o livro, aproveitou para falar de alguns livros que a nossa geração leu na infância ou adolescência. Eu então lá referi Os Miseráveis, que li pelos 13 ou 14 anos, uma das obras que, tenho a certeza, mais me marcaram. Acontece que do livro nada me lembro a não ser que havia um velhote chamado Jean Valjean, uma garota chamada Cosette, que era pobre e infeliz assim como, muito vagamente, de algumas acções nos esgotos de Paris. Entretanto, a minha colega faz um resumo absolutamente detalhado de toda a obra, que me deixou completamente embasbacado. Eu ia ouvindo tudo aquilo sem querer acreditar que "não li"uma das obras que mais me marcaram. De facto, estar a ouvir o resumo daquela obra ou de qualquer outra obra da qual nunca tinha ouvido falar, seria praticamente igual, exceptuando um ou outro pormenor.

Porém, esta situação algo confrangedora, fez-me lembrar uma frase, da qual me tinha também esquecido, mas de cujo sentido me lembrava, no diário de Cesare Pavese, O Ofício de Viver. Abri o livro, procurei, li a frase e finalmente fiquei com a alma apaziguada:

(13 de Fevereiro de 1944) - "A riqueza da vida é feita de recordações esquecidas.". Uf!

23 novembro, 2017

DA VIDA DAS MARIONETAS



«Todos pensamos que temos livre-arbítrio. Como poderíamos não o pensar?[...]Sem liberdade, percorremos caminhos predeterminados, incapazes de controlar os nossos destinos. Uma vida assim não vale a pena.» E. Conee e T. Sider, Enigmas da Existência. Uma visita guiada à metafísica


Se eu levasse a sério o que é dito neste texto já me teria suicidado. Não percebo por que razão a ausência de livre-arbítrio vai tirar piada à vida. O chocolate que estou a comer neste momento dá-me o mesmo prazer, esteja eu a comê-lo em resultado do meu livre-arbítrio, esteja eu a comê-lo em resultado de uma causa que não controlei e que determinou estar agora a comê-lo. E tenho para mim ser a segunda hipótese a correcta e quero lá saber que assim seja desde que continue a ter chocolates na despensa e muito prazer em comê-los.

Há, na Filosofia, quem marque a diferença entre o que fazemos (acções) e o que nos acontece. Por exemplo, andar pela borda de uma piscina e entretanto mergulhar por sentir o desejo de refrescar ou nadar é uma acção. Já andar pela borda de uma piscina, escorregar e cair à água foi uma coisa que aconteceu. Comprar uma camisola é uma acção, oferecerem-nos uma camisola é uma coisa que nos acontece. Tudo o que fazemos conscientemente, voluntariamente, intencionalmente e deliberadamente é uma acção, o que deixa de fora situações como espirrar, fazer a digestão, virarmos-nos na cama enquanto dormimos, ou despistarmo-nos a conduzir por ter rebentado um pneu.

Porém, até que ponto tudo o que fazemos, sendo considerado acções, não são simplesmente coisas que nos acontecem? Sim, uma pessoa que preferiu comer um pastel de nata em vez de um rissol, foi uma coisa que lhe aconteceu, comprar uma camisola azul em vez de uma castanha ou cinzenta foi uma coisa que lhe aconteceu, escolher subir o Tibete em vez de dormir sob um coqueiro em S. Tomé e Príncipe foi uma coisa que lhe aconteceu. Tal como tirar um curso, casar, divorciar, ter filhos, mentir, matar, roubar, gostar de Proust, não gostar de música clássica, cooperar ou ocupar cargos de chefia. Tudo coisas que acontecem. Sim, temos a ilusão de serem acções, coisas que escolhemos livremente. Mas tal só acontece porque não vemos os invisíveis fios que, enquanto causas, nos comandam. E mesmo que por vezes possamos dar pela existência de um deles, acreditando que vamos manobrá-lo, já não vamos dar pela existência do outro fio que fez mexer o fio que nos fez mexer.

22 novembro, 2017

DANÇAR

Bem sei por que nunca gostei de dançar. Dançar é sobretudo um acto mental e eu sou um pobre de espírito.

21 novembro, 2017

MADALENA 2.0

Ernest Van Zuylen | Lendo um livro à luz da vela, 1917 [autocromo]

Hoje, no meu tempo de substituição, fui para uma sala onde iria haver uma aula de Português por videoconferência, através de Facebook, a partir da casa da professora. Uma aula que decorreu como outra aula qualquer, dinâmica e interactiva uma vez que a professora também via e ouvia os alunos. Uma excelente aula, diga-se, com professora e alunos em grande nível, completamente embrenhados no Frei Luís de Sousa. Daí eu ter passado 90 minutos a ouvir falar das complexas redes mentais e emocionais de Madalena, de Telmo, D. João de Portugal ou D. Manuel Coutinho, ainda com uma referência aos Lusíadas. Entretanto, estando eu ali apenas de corpo presente na última carteira de uma aula que não era minha, e até mesmo sentindo algum pudor em estar a observar a aula de uma colega, aproveitei para pegar no telemóvel para dar uma vista de olhos nos jornais. Ao ler um artigo de João Gobern no DN de hoje sobre uma colectânea de poesia organizada por José Mário Silva, vi uma referência ao Orfeu Rebelde, de Miguel Torga. Como não me lembrava do poema, googlei e logo fiquei com ele à minha frente. 

Foi a primeira vez que estive numa aula nestas condições, sentindo-me a presenciar um momento de grande sofisticação tecnológica. Mas o mais tocante foi este contacto com um clássico romântico, escrito para ser representado num novecentista palco com tábuas de madeira ou lido por uma menina ou dama num salão burguês, mas num contexto high-tech em pleno século XXI, ao mesmo tempo que lia o velho Orfeu Rebelde, de Torga, através de um gadget que tirei do bolso para me ligar ao mundo, o qual também permite fazer chamadas, escrever mensagens, tirar fotografias, filmar, fazer de despertador, calculadora ou aparelhagem musical, que tem caixa de correio, vários tipos de arquivo, gravador, bloco de notas e mais não sei quantas funções. Uma grande lição, esta aula. Um cenário pós-Alcácer Quibir criado por um escritor do século XIX, junto com um escritor que, no seu Diário, se refere assim a si próprio de maneira tão arcaica:

"Sou, na verdade, um geófago insaciável, necessitado diariamente de alguns quilómetros de nutrição. Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, e atiro-me às serranias como à broa de infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele. O mal, no meu caso particular, é que exagero. Empanturro-me de horizontes, e quase que me sinto depois uma província suplementar de Portugal"

Séculos XVI, XIX, XX e XXI ali naquela aula. Se fosse com uma peça de Sófocles ou de Plauto, seria igual. O mundo muda, a sociedade muda, as mentalidades mudam, a ciência muda, a técnica muda.  Já a natureza humana, com as Madalenas, Telmos, D. João ou D. Manuel Coutinho deste mundo, continua sempre igual a si própria.

20 novembro, 2017

EU+EU+PASTEL DE NATA

Cecil Beaton

Agimos em função de desejos e crenças. Comemos um pastel de nata porque desejamos comê-lo e acreditamos que vai ser bom comê-lo, vemos o Preço Certo ou vamos às Caraíbas porque o desejamos e acreditando que é bom por esta ou aquela razão. Crenças e desejos formam, pois, uma cooperativa de decisões. Também é verdade que podemos fazer coisas que não desejamos  mas nas quais acreditamos ou coisas que desejamos mas sem acreditar. Por exemplo, ao invés do pastel de nata, ninguém deseja fazer uma endoscopia. Mas faz-se pela crença de ser vantajoso fazê-la. Bem, em rigor, deseja-se fazê-la pois ninguém se dirige para uma clínica ou hospital com uma arma apontada à cabeça como acontece a um comerciante que passa o dinheiro para um assaltante, o qual, já agora, e também em rigor, se o dá é porque também deseja fazê-lo. Sim, está bem, mas não é uma coisa que se deseje como se deseja o pastel de nata ou as férias nas Caraíbas, sendo antes um desejo constrangido, e um desejo constrangido não é bem um desejo. Entretanto, também podemos desejar tomar um medicamento sem acreditar que vá ter um efeito benéfico mas apenas por descarga de consciência, e até mesmo acreditando que faria mais sentido não o tomar, evitando assim custos ou efeitos secundários desnecessários.

Mas o normal é mesmo agir em função de crenças e desejos. Daí o hábito de compreender e julgar o que as pessoas fazem ou não fazem (não fazer também é um modo de fazer), tomando-os como critério. Porém, mais do que desejos e crenças, seria bem mais justo compreender e avaliar o que as pessoas fazem, considerando o que um filósofo chamado Harry Frankfurt chama "desejos de segunda ordem": não o que se deseja mas desejar o que se deseja. Desejar é uma coisa primária, e tanto assim é que até um cão ou um gato fazem o que desejam, como ir para um terraço apanhar Sol ou ficar dentro de casa deitado numa manta. Porém, e ao contrário do que se passa com um cão ou um gato, nós podemos desejar ou não desejar o que desejamos. Podemos desejar fumar ou desejar fazer mal a alguém. Mas uma coisa é, para além de desejá-lo, desejar esse desejo, outra é, apesar de desejar, desejar não o desejar. O que faz toda a diferença. Por isso, quando avaliamos acções, não devemos, por ser redundante, questionar o que se desejou ou não desejou fazer. Se fizemos uma coisa foi porque o desejámos, se não a fizemos (podendo tê-la feito) foi porque não o desejámos. O ponto central está no que desejamos desejar ou não desejamos desejar. Claro que podemos sempre dizer que assim entramos numa escalada causal de desejos sem fim: desejar o que desejamos, desejar desejar o que desejamos, desejar desejar desejar o que desejamos, e por aí fora. Mas desejar uma coisa ou uma acção não é o mesmo do que desejar esse desejo. Entramos noutra dimensão que nos torna mais reflexivos e menos centrados nas coisas, passando o nível de compreensão das nossas acções para um plano, apesar de mais desconfortável, bem mais interessante. 

19 novembro, 2017

VIDA EM MARTE


Claro que a meteorologia é importante para o nosso estado de espírito. Estar calor ou frio, um dia de Sol ou a chover torrencialmente, faz toda a diferença. Mas apenas quando nem estamos felizes nem infelizes, sendo o tempo, neste caso, um importante factor de desempate, pondo-nos mais alegres ou melancólicos. Mas quando estamos felizes ou infelizes o que verdadeiramente conta é a meteorologia interior, sendo esta a determinar o peso da meteorologia exterior. Tanto um dia de Sol como um dia frio, cinzento e chuvoso podem-se tornar maravilhosos e saudosos quando se está feliz, ou detestáveis quando se está infeliz.

Mas uma coisa é a nossa meteorologia íntima ou privada a condicionar a meteorologia exterior, outra é o peso absoluto desta nos nossos mecanismos biológicos quando se revela anormal. Isto explica o facto desta luz e calor de Novembro estarem a dar-me cabo do meu equilíbrio vital. Os meus sentidos, o meu corpo, o meu espírito não querem esta luz e calor em Novembro. Em Abril ou Maio, sim, porque se trata de uma luz e de um calor de Abril ou Maio. Eu detesto o calor de Junho e Julho mas aprendi a resignar-me pois é o que é suposto haver nessa altura do ano. Eu gosto de frio mas também me iria sentir mal se os meses de Junho e de Julho fossem frios. Mas este tempo em Novembro leva o meu corpo e o meu espírito a revoltarem-se. O próprio prazer do Verão de S. Martinho ficou este ano estragado pois só faz sentido como agradável ilha soalheira num oceano de Outono. Só que ainda não deixou de estar este tempo desde que os dias quentes de Verão se foram, sendo uma violência para os animais que também somos e que devem, como todos os outros, viver em sintonia com os mandamentos da natureza.

Estes dias estupidamente quentes e luminosos de Novembro fazem-me sentir um bocadinho o mesmo que sinto quando vejo fotografias de Marte tiradas pela NASA ou, pior ainda, ficcionadas com seres humanos: uma sensação de desconforto, de opressão perante uma luz e atmosfera absolutamente doentias e desoladoras. Estivesse eu agora num país da América do Sul iria sentir-me na Terra, pois neste momento é lá Primavera, estando o Verão quase a chegar. Aqui, em Torres Novas, a caminhar para os finais de Novembro, já com os chocolates de Natal à venda ali no Modelo, sinto-me como se tivesse pousado em Marte, sonhando com o regresso à Terra e às belas manhãs de frio e nevoeiro a caminho da escola.  

18 novembro, 2017

O UNO E O MÚLTIPLO

Chamem-me Ismael. Há alguns anos, quantos ao certo, não importa, com pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e sem nada de especial que me interessasse em terra, veio-me à ideia meter-me num navio e ver a parte aquática do mundo. É uma maneira que eu tenho de afugentar a melancolia e regularizar a circulação. Sempre que na minha boca se desenha um esgar carrancudo; sempre que me vai na alma um Novembro húmido e cinzento, sempre que dou comigo a deter-me involuntariamente em frente das agências funerárias ou a engrossar o séquito de todos os funerais com que me deparo; e, especialmente, sempre que me sinto invadido por um estado de espírito de tal maneira mórbido, que só os sólidos princípios morais me impedem de descer à rua com a ideia deliberada de arrancar metodicamente os chapéus a todos os transeuntes, nessa altura, dou-me conta que está na hora de me fazer ao mar, quanto antes. É o meu estratagema para evitar o suicídio. Catão lança-se sobre a espada com um floreado filosófico; eu, calmamente embarco. Nada há de surpreendente nisto. Embora não se dêem conta, tal como eu, quase todos os homens acalentam, mais tarde ou mais cedo, este desejo de mar.

Começa assim, deste modo esplendoroso, o Moby Dick. Ismael apresenta-se e logo de seguida começar a falar sobre a ilha de Manhattan, sim, essa, hoje tão famosa. Há, neste início, neste desejo de mar, uma sabedoria antiga que tem tanto de grego como de oriental: um desejo de absoluto que é ao mesmo tempo um desejo de unidade, neste caso, traduzida numa atracção por um vazio despojado de toda a multiplicidade. Um absoluto que, ao prescindir do negativo, do conflito, da luta, da contradição, fica reduzido à sua máxima vacuidade.

Como afugenta o narrador a melancolia? Vagueando pelas agitadas ruas da cidade como seria previsível? Na verdade, a multiplicidade distrai, fazendo-nos olhar para todos os lados, ter diferentes perspectivas que são diferentes pedaços de realidade, um mundo sempre renovado em cada esquina, um feixe incontável de estímulos nos quais mergulham, extáticos, os sentidos. A cidade é a expressão mais eloquente do múltiplo, de uma unidade despedaçada, desfeita em pedaços dispersos no espaço e no tempo. Porém, não é na cidade que ele afoga a melancolia. Não é a cidade que faz secar a humidade e o cinzento outonal que lhe vai na alma. Não é a estridente exuberância urbana que lhe faz virar a cara ao abismo do suicídio.

É a homogeneidade abstracta do mar até terminar num horizonte cujo fio parece uma fina seda prestes a volitizar-se. O que significa este desejo de mar? A redução da vida à sua máxima simplicidade, a depuração de tudo o que é supérfluo e insignificante, correspondendo ao desejo de deserto dos velhos monges que atingiam a plenitude tendo apenas areia por baixo dos olhos e um céu azul sobre as almas. Este desejo de mar é uma espécie de higiene poética que transforma o resto do mundo num amontoado de detritos, ficando apenas uma síntese da síntese da síntese, onde os mais sólidos princípios se desfazem como um pedaço de terra seca na água do mar. E deve ser bom.

16 novembro, 2017

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA


Dedico este post a alguém que não o irá ler. Um aluno meu de 10ºano que me dizia não ter ainda percebido para que serve a Filosofia. Normal, não há-de ser o único, longe disso. Acontece que é de todos os meus alunos, de todas as turmas, o que mais participa, mais questiona as diferentes posições e argumentos sobre os vários temas já apresentados. Chega a ser maçador, fazendo quase lembrar um Sócrates que não consegue resistir à tentação de dar caneladas aos seus adversários. Ora, a sua objecção à existência de uma disciplina como Filosofia fá-lo cair numa coisa que dá pelo nome de "contradição performativa". Ao colocar em dúvida a necessidade da Filosofa, com o mesmo entusiasmado espírito filosófico com que questiona todos os outros temas, acaba preso no mesmo tipo de teia do "paradoxo do mentiroso" formulado por Epiménides. Epiménides era cretense, tendo afirmado que todos os cretenses mentem. Estaria a falar verdade ou a mentir? Então: ele não pode falar verdade uma vez que os todos cretenses são mentirosos e ele é cretense. Mas como pode estar a mentir se diz precisamente a verdade sobre os cretenses serem mentirosos? Também o meu aluno, desejando rejeitar a Filosofia, não faz mais do que filosofar, prestando assim uma bela homenagem à Filosofia, da qual não se pode fugir. Aristóteles, que defendia que quanto mais inútil for o conhecimento, o caso da Filosofia, mais superior e nobre se pode considerar, iria ter orgulho na intuição e perspicácia deste aluno.

15 novembro, 2017

GRANDES CANÇÕES (9) SHARIF DEAN - DO YOU LOVE ME?

A VIDA É UM ROMANCE


Uma coisa boa de ter que estar à espera num consultório de dentista é poder pôr em dia a leitura de revistas cor de rosa. Desta vez, já não sei quem que ia casar, dizia querer um casamento para toda a vida. Nem é preciso andar muito para trás: alguém imagina nos anos 60 ou 70 do século passado, uma Crónica Feminina onde uma mulher expressasse o desejo de ter um casamento para toda a vida? Basta comparar as duas revistas para compreender diferenças, num curto espaço de tempo, numa prática social como o casamento. Acredito que a melhor maneira de perceber uma parte da história do século XIX é através de  um romance como Guerra e Paz ou o início da I Guerra Mundial através de um romance como os Thibault. Se em 2070 um historiador quiser compreender as mudanças sociais entre 1960 e 2017, fá-lo melhor tendo à sua frente arquivos do Correio da Manhã ou da Caras do que gráficos ou análises históricas e sociológicas, por muito empiricamente recheadas e conceptualmente competentes que sejam. A vida é um romance e é nesse registo, mais jornalístico ou ficcionado, que será melhor entendida.

13 novembro, 2017

MICHELANGELO PISTOLETTO - VENUS OF THE RAGS


Se estiver para ir a um museu ver arte, faço como quando vou às compras: levar uma lista no bolso só que em vez de batatas, lata de grão e queijo flamengo, vai escrito Van Eyck, Modigliani ou Rothko. Entro, sabendo de antemão o que desejo ver. Por falta de tempo para mais já cheguei mesmo a ir a correr a um museu só para ver três quadros de um mesmo pintor, uma coisa assim de minutos e ir embora. E abençoados minutos que me lavaram os olhos que nem soro fisiológico! Mas também é verdade que já me aconteceram felizes descobertas caídas do céu, obras de cuja existência não fazia ideia e que foram amores à primeira vista.

Foi o que me aconteceu com a escultura Venus of the Rags, ainda por cima num museu de arte contemporânea, a Tate de Liverpool. Vou ser sincero: embora com uma ou outra excepção, as quais me levam ainda hoje a ousar entrar - para além de descarregar a consciência - é sempre com um pé atrás que entro num museu de arte contemporânea, pé que logo se torna o pé que vai à frente pois não demoro muito a procurar o bonequinho que indica a saída. É assim mais ou menos como a vista do Bom Jesus de Braga. Olha-se para a direita, olha-se para a esquerda, foca-se a atenção 3 segundos ali mais 4 segundos acolá, e pronto, ala que se faz tarde. Apenas com a diferença de a vista do Bom Jesus ser bem mais interessante do que a esmagadora maioria dos objectos que povoam esses museus. Nos dias em que acordo mais com a telha e vontade de pegar na pistola, chego mesmo a defender que o conceito de "arte contemporânea" não passa de um caprichoso e esforçado paroxismo.

Quando entrei sabia apenas que iria ter o desprivilégio de poder contemplar ao vivo a famosa cama de Tracey Emin. Já consegui ver coisas bem mais sórdidas e parvas do que a cama onde a menina Tracey curtiu a sua épica neura, mas logo que soube da sua existência passou a ser para mim o símbolo supremo da estultícia artística contemporânea, ou se preferirmos, da artística estultícia contemporânea. E pronto, lá vi o que havia para ver como cão por vinha vindimada, embora com um ou outro pormenor aceitável. Mas com a grande diferença de ter regressado com a Venus of the Rags, que desconhecia.

Desde logo, o seu impacto visual é tremendo. Pode soar estranho falar de impacto visual num museu onde tudo parece ter sido feito para ser entendido por pessoas com um Q.I. acima de 150, relegando os comuns dos mortais para a cafetaria do museu onde sempre poderão ver coisas que pareçam fazer sentido. Mas casmurro que sou, e fiel à etimologia da palavra no helénico mundo a que pertence a nossa Vénus, estética, para mim, começa sempre por ser uma experiência sensível. E é de facto impossível ficar indiferente ao seu poder visual, a todo aquele dinâmico contraste entre o uno e o múltiplo, o mesmo e o outro, a imutabilidade e a mudança, o absoluto e o relativo, de todas aquelas formas e cores, no que quase poderia ser uma alegoria platónica sobre o mundo das ideias e o mundo das coisas, dois mundos que se pressentem sem se tocarem.

Entretanto, apesar de formalmente se tratar de uma obra contemporânea, é profundamente conservadora. Num fantástico livro que comprei há quase 40 anos no Cine-Clube de Torres Novas, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens e que há meses teima em não sair da minha mesinha de cabeceira, o nosso Matias Aires lembra que

«Em nada podemos estar firmes, pois vivemos no meio de mil revoluções diversas: as idades, e a fortuna continuamente combatem a nossa constância; tudo consiste em representação que começa não para existir, mas para acabar, menos para ser, do que para ter sido. Vimos ao mundo a mostrar-nos, e a fazer parte da diversidade dele; as cousas parece que nos vão fugindo, até que nós vimos a resistir também. Somos formados de inclinações opostas entre si, e temos em nós uma propensão oculta  que sobre a aparência de procurar os objectos, só procura neles a mudança. A inconstância nos serve de alívio e desoprime, porque a firmeza é como um peso, que não podemos suportar sempre, por mais que seja leve: e com efeito como podem as nossas ideias serem fixas, e sempre as mesmas, se nós sempre vamos sendo outros?»

O que vemos nesta escultura é a resistência a este princípio voraz que domina o mundo, referido por Matias Aires. O que vemos nesta Vénus, que, ao contrário de uma convencional escultura, não pode ser vista em 360 graus, levando-nos a posicionar diante as suas costas, é uma figura branca que mantém toda uma serena e clássica quietude face ao caótico assédio de uma bizarra multiplicidade de trapos coloridos que se acumulam para a tentar mas que dela apenas recebem uma doce indiferença. O artista poderia ter brincado aos contemporâneos, vestindo esta Vénus com alguns daqueles trapos, com a mesma desfaçatez com que Duchamp pintou o bigodinho no rosto de Mona Lisa ou com que se enfia um charuto entre dois dedos do Francisco I de Jean Clouet. Mas não, o artista preferiu fortalecer esta Vénus, no mesmo registo em que o Evangelho fortalece Cristo quando este vai para o deserto ou em que Homero fortalece Penélope no seu tear, enquanto rodeada de todos aqueles pretendentes que não desarmam. A sua serenidade perante o monte de trapos está nos antípodas do suplício de Tântalo, que morre de fome e de sede com tanta água e comida à sua frente mas que não consegue comer e beber. Esta Vénus, milenarmente concentrada no seu ensimesmamento clássico, está rodeada de trapos e quanto mais trapos houver mais esse ensimesmamento sai reforçado. Antropomorfizando a cena, quem parece desesperado são os trapos, acumulado uns sobre os outros, sem uso, absolutamente inúteis, perante a estóica quietude da deusa.

Fortalecer esta Vénus rodeada de tantos trapos confirma a imutabilidade da sua branca e nua identidade ou a ligeira inclinação do seu corpo. Nasceu assim e assim deverá ficar para o sempre, indiferente ao efémero das modas, dos apetites, dos interesses de circunstância. Esta peça não nega a mudança, a evolução ou a contingência do que foi feito para mudar, evoluir e ser contingente. Já Camões sabia e muito antes dele também os gregos o sabiam, que todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Neste sentido, até se pode dar o caso de o tempo fazer partir a mão esquerda de Vénus, caindo com ela o seu manto. A sua homónima de Milo nasceu com dois braços e para a eternidade sem eles haveria de ficar, e com um tal impacto que hoje já não a imaginamos com eles. Mas lá continua branca e nua, igual a si própria, pois apesar de os braços terem feito parte de si, ela não era os seus braços, tal como um carro não é a sua cor embora a cor esteja no carro. Esta escultura é sobre o que existe e que foi feito para continuar a existir como sempre existiu e não para mudar ou acabar. Por causa disso,  pelo que representa e que cada vez mais é preciso não esquecer, trata-se ela própria de uma escultura que deverá sobreviver aos caprichos do gosto, mantendo-se para sempre actual na sua imutável perfeição.

12 novembro, 2017

DOMINGO À TARDE



Já não seria possível lembrar-me do último dia em que não comi romãs, tanto já vai sendo o tempo em que as como diariamente. Mas sementes tão vermelhas como as da romã de hoje ainda estavam para aparecer. Um vermelho sangue-escuro, tão belo como o sereno e aveludado de alguns quadros flamengos e italianos. Estava a retirar as sementes, vendo uma ou outra jorrar aquele sumo vermelho para o fundo da tijela, quando senti um desejo grande de ouvir Bach. Um dia pode ser salvo quando menos se espera.

11 novembro, 2017

FALAR COMO JESUS FALOU


Teste de Filosofia, a mesma questão, resposta completa:

"A atitude filosófica é quando tu pensas fora das regras, questionas coisas sem respostas, questionas o mundo à tua volta e finalmente é quando crias teorias que apesar de não ter provas são teorias da realidade ainda por descobrir".

10 novembro, 2017

TABACARIA

Teste de Filosofia. Numa questão de desenvolvimento, introduzida por um longo texto de Bertrand Russel, pedia-se aos alunos para caracterizar a atitude filosófica. A ideia era explicarem tratar-se de uma atitude crítica e reflexiva, anti-dogmática relevando-se a importância da dúvida a qual permite pôr em causa os preconceitos do senso comum e tudo aquilo que é visto como óbvio e inquestionável mas que não passa de aparência, fazendo da argumentação, enquanto exercício racional, o laboratório do filósofo, demarcando-se assim do carácter empírico e experimental das ciências. Se o aluno quisesse, e houve quem quisesse, ficaria bem invocar a Alegoria de Caverna, de Platão, a qual foi apresentada na aula para exprimir simbolicamente parte do que foi anteriormente referido. Poderia ainda invocar A Escola de Atenas, de Rafael, que projectei na aula, para lembrar Platão e o seu discípulo Aristóteles, lado a lado, um com um braço apontando para cima, o outro com um braço apontando em frente, mostrando com isto o facto de as respostas em Filosofia terem um carácter subjectivo e discutível, havendo para cada argumento um ou vários contra-argumentos, o que faz com que as respostas nunca sejam definitivas, conduzindo antes a novas perguntas e problemas.

A aluna, porém, limitou-se a responder o seguinte: «A atitude filosófica surgue-nos nas mais simples coisas como abrir uma garrafa ou simplesmente no andar. Liberta-nos ao domínio do hábito, ou seja, faz-nos descobrir coisas novas, pensamentos novos».

Chega a ser comovente. Não faltasse o chocolate e a resposta seria perfeita.

09 novembro, 2017

NOITE DE CRISTAL


Foi a 9 de Novembro (1938) a tristemente célebre Noite de Cristal, dia que simboliza o início do horror nazi. Pensando nesse horror, há quem defenda serem os nazis desumanos ou psicopatas. Não eram. Eram pessoas normais, muitos deles excelentes pessoas até, que apenas se enganaram nas suas crenças e convicções. O ser humano, exceptuando alguns casos patológicos, não é intrinsecamente mau ou perverso, ainda que haja muita gente má e perversa. O facto de haver muita gente que rouba o que mente, também não faz do ser humano uma espécie em que roubar ou mentir seja considerada normal. O mal não é uma disposição natural do ser humano. Se o fosse, seria impensável a sociedade tal como a conhecemos. Seja por disposição genética, hormonal ou neurológica, seja por interesse egoísta, há no ser humano uma predisposição natural para a cooperação, para saber viver com os outros.

O que há no ser humano é uma disposição para ilusões ou falsas crenças, uma justificação dos nossos desejos e apetites que surgem assim sob uma capa de legitimação. Por exemplo, para comermos um suculento bife de vaca ou um saboroso entrecosto no forno, tivemos que matar uma vaca ou um porco, seres vivos que têm a sensação de dor e de prazer e emoções. Nós somos boas pessoas, sensíveis, e não temos instintos diabólicos e perversos face a animais. Mas, acreditando que a vaca ou o porco têm uma natureza que os torna passíveis de serem mortos para nós os comermos, matamo-los com a mesma naturalidade com que os homens cortam o cabelo ou as senhoras pintam as unhas. Do mesmo modo, os alemães que destruíram as montras e as sinagogas na noite do dia 9 de Novembro de 1938, acreditavam estar a destruir lojas e igrejas de gente inferior, desprezível, miserável, não significando o seu sofrimento a mesma gravidade e dramatismo do sofrimento de pessoas que consideravam normais. O problema é nós errarmos demasiado, iludirmo-nos demasiado, acreditarmos demasiado. E há situações, infelizmente demasiadas, em que, por causa disso, resultam grandes dramas, seja nas nossas vidas pessoais, seja colectivamente. Podemos evitar isto? Não. Se pudéssemos, não seríamos humanos mas como Mr Spock que, embora parecesse, não o era. Ainda assim, seria vantajoso sermos um bocadinho mais desconfiados.

08 novembro, 2017

A PALHINHA

Há muito que andava a aparecer água por baixo das gavetas do meu frigorífico, tendo finalmente chegado o dia em que resolvi fazer alguma coisa. Googlei "água no frigorífico" ou algo assim e abro um video da DECO no qual um homem explica o fenómeno e respectiva cura, a qual passa por desentupir um buraquinho no frigorífico com um arame fininho ou uma palhinha. Não tendo arames em casa, resolvi que no dia seguinte passaria pelo Modelo para comprar um pacote de palhinhas. Nesse mesmo dia seguinte, ao ir para a escola, no passeio daquele jardinzinho que fica ali ao pé da capela de S. António, ainda embrulhada, estava uma palhinha no chão. Esta foi apenas mais uma entre várias situações deste género que me ocorreram nos últimos tempos. Tivesse eu vivido há cerca de dois mil anos, lá para os lados da Galileia, revelando sintomas psicóticos, megalómanos e narcisistas, a esta hora estaria a preparar-me para acabar crucificado. 

07 novembro, 2017

WEB SIDE STORY

Falando sobre uma próxima directiva europeia que vai regular as novas tecnologias na banca, o comissário Carlos Moedas sugeriu a ideia de que "Alguns Davides podem vencer alguns Golias". Tudo bem. Quer dizer, não me refiro à directiva, da qual ainda nada sei, mas à pertinência da metáfora, sugerida numa sessão da Web Summit, perante milhares de geeks com impulsos neófilos, que se excitam tanto com uma nova App como outros com a posse de uma primeira edição dos Lusíadas. David e Golias? Pode ser que exista um jogo com esse nome.

05 novembro, 2017

O VESTIDO VAZIO

JRC

No romance que ando a ler, um viúvo, em grande ressaca com a morte da mulher, fala a outro viúvo da angústia de ver no roupeiro vestidos que a mulher tinha comprado e que nunca chegara a usar. O outro não entende a angústia, julgando ser muito pior associar um vestido a felizes memórias de coisas que se viveram, pensar no corpo vivo que esteve dentro dele, sentir ainda o rasto de um perfume. Mas faz todo o sentido o que diz o primeiro viúvo.

Por que razão é a morte um mal? A morte só é um mal por impedir a obtenção de futuros bens. A morte não pode anular o que se viveu, não pode fazer com que deixemos de fazer o que fizemos. O que faz a morte é interromper o que estava para ser vivido, impedindo a possibilidade de qualquer memória, uma vez que não se pode recordar o que nunca existiu. Imaginar, sim, mas não recordar. A mulher comprou os vestidos para ir passear, às compras, ao café, ao cinema, a um concerto ou jantar fora. Nada disso viria a acontecer, fazendo com que se instale um vazio, uma ausência, um nada, que é muito mais doloroso do que indeléveis memórias. E é essa imaginação a respeito do nada que é bem mais dolorosa do que a recordação de tudo o que se viveu. De certo modo, corresponde à mesma dor de quem não consegue fazer o luto quando o corpo não aparece. Sabe-se que a pessoa morreu mas a imaginação sobrepõe-se à realidade física da morte. Perante um vestido que não se chegou a usar acontece o mesmo. O vestido que foi usado fica arrumado, e definitivamente arrumado, na memória. O outro, eternamente à espera de um feliz e vívido momento que nunca irá aparecer.

04 novembro, 2017

LER O VINHO


Ainda nos velhos tempos do LP, gostava de comprar discos mesmo quando os podia gravar. Gostava de ter o disco nas mãos, de ver a capa e contracapa, os interiores, que os havia fantásticos. Sofri algum choque com a passagem do LP para o CD mas logo me habituei. Vendo bem, o CD continuava a ser um LP só que em miniatura, e eu até gosto de miniaturas. E em editoras de qualidade, a cereja dentro do bolo: dentro da caixa, um pequeno livro com informação sobre compositores, intérpretes, a música propriamente dita, e fotografias. Estou a pensar em editoras de música clássica ou como a ECM, sobretudo as New Series com as suas belíssimas capas.

Sinceramente, não percebo como é que ainda não acontece tal coisa com os vinhos. Em vez de termos apenas garrafas nas prateleiras dos supermercados ou lojas, termos caixas em cujo interior, para além da garrafa, viesse também um pequeno livro com textos e fotografias sobre aquele vinho e tudo o que está por detrás dele, em vez apenas das habituais, e bastante básicas, referências no rótulo. Vinho não é cerveja ou qualquer outra bebida cuja origem e processo de produção é mais industrial. Se a água foi uma coisa que nos aconteceu, tal como aos animais, já o vinho foi uma coisa que fizemos acontecer, aproveitando a química da própria natureza. Desde a vindima ao acto de o beber, o vinho está retratado desde o fundo do tempo em azulejos, frescos, tapeçarias, iluminuras, artes decorativas ou pintura. É verdade ser hoje o vinho cada vez mais um resultado de experiências laboratoriais. Sim, e ainda bem, se graças a isso ficarem melhores. Mas será sempre uma bebida ancestral, uma bebida da terra, de castas e, mais até do que uma simples bebida, uma história para beber. Portugal é Portugal, Espanha é Espanha, França é França, Chile é Chile, Nova Zelândia é Nova Zelândia. Em Portugal, Douro é Douro, Dão é Dão e Alentejo é Alentejo. No Douro, uma coisa é a Adega Cooperativa A, outra será a Quinta B. Muito mais interessante se tornaria o vinho se, para além da Graça de enchermos a alma com essa bebida sagrada, pudéssemos conhecer a sua história com textos e fotografias, desde a terra de onde emerge o divino fruto, até ao seu momento final, pronto para ser bebido.

Quis o destino que nos últimos tempos eu viesse a beber vinhos chilenos, todos eles excelentes, sobretudo um Casillero del Diablo, Reserva Privada de 2015 e um Tarapacá, Grand Reserva, também de 2015, cujos rótulos até retirei para colar num caderno para não os esquecer no caso de não voltar a bebê-los. Estar a beber aqueles vinhos não é estar apenas a beber aqueles vinhos com sabores nunca antes experimentados, é estar a beber a América do Sul, a beber aquela terra, a beber uma história escrita a milhares de quilómetros do copo onde os vou verter. Seria uma enorme riqueza, para além da riqueza de os beber, poder conhecê-los, para aumentar ainda mais a riqueza de os beber. Santo Agostinho, no De Libero Arbitrio, lembra que a consciência da vida é bem melhor do que a própria vida. Já no De Trinitate, coloca o amor e o conhecimento em correlação. Eis duas óptimas ideias para aplicar ao vinho: ter a consciência do que se está a beber é bem superior ao simples acto de beber, por muito bom que este seja; por outro lado, amar e conhecer um vinho são duas diferentes faces de uma mesma moeda, isto é, amar um vinho é desejar conhecê-lo e quanto mais se o conhece mais se deseja amá-lo. Seja ali de Portalegre, de Setúbal, de Vila Real, seja de Castilla la Mancha, de Bordéus, do Chile ou da Califórnia. É um todo. E um todo que virá a enriquecer ainda mais a mística do vinho, o prazer de o descobrir para, consequentemente, ajudá-lo a assumir sua verdadeira essência: ser bebido.

03 novembro, 2017

A VERDADE E NADA MAIS QUE A VERDADE


Terminei a primeira ronda de testes deste ano. Um dos exercícios consiste em considerar várias afirmações verdadeiras ou falsas, sendo obrigatório justificar a opção. Os alunos ficam sempre bastante admirados, alguns deles perplexos, ao descobrirem que devem justificar não só as falsas mas também as verdadeiras. Eu, calma e pedagogicamente, lá lhes explico como é tão legítimo e pertinente justificar uma coisa verdadeira como uma falsa. A surpresa resulta, antes de mais, de não perceberem a diferença entre justificar e corrigir. Mas não é só isso. É também sintoma de um estado mental muito mais vasto: passividade face ao que acreditamos ser verdadeiro. A partir do momento em que aceitamos uma coisa como verdadeira, logo ficamos apaziguados em relação a ela. É verdade? Sim, é verdade. A partir daqui não se pensa nisso. Trata-se, muitas vezes, de um processo inócuo que não aquece nem arrefece. Mas muitas vezes também do preguiçoso ponto de partida para trágicos finais. 

02 novembro, 2017

GRANDES CANÇÕES (8) - SECOS E MOLHADOS- A ROSA DE HIROSHIMA







MEMENTO MORI

Somos a cara chapada daqueles a quem o dia de hoje é dedicado. Como filhos que vão ficando cada vez mais parecidos com os pais, vamos também ficando cada vez mais parecidos com eles. Podemos não achar grande piada à ideia, mas eles são os modelos que, mais cedo ou mais tarde, iremos copiar. Sem esforço e com um sorriso desenhado no rosto que nunca mais iremos apagar. 

01 novembro, 2017

QUARTO DE PASCAL COM TV

«Vieste ao mundo com um segredo lacrado na alma, que desconheces, e que só conhecerias se houvesse ocasião de se revelar. Não tiveste essa ocasião. E irás lacrado para o cemitério. E morrerás sem saber o que verdadeiramente tu és». Vergílio Ferreira, Pensar §226

Ainda bem que existe a televisão. Morremos sem saber o que somos mas pelo menos morremos sem saber que não sabemos o que somos.

31 outubro, 2017

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Diz Pedro Domingos, especialista em Inteligência Artificial, que "o problema dos algoritmos não é tornarem-se demasiado inteligentes e tomarem conta do mundo, é que já tomaram conta do mundo e são demasiado estúpidos". De certo modo, é isto que também acontece com políticos demasiado fixados nas suas ideologias e convicções, sobretudo em ditaduras mas também possível em democracia. Um político refém da sua ideologia torna a sua acção tão cega e mecânica como a acção de um computador ou de um robot programado para agir de um certo modo, isto é, marcada por uma inteligência meramente funcional, o mesmo é dizer, pela estupidez. Estupidez que, na história, já apresenta um enorme rasto de devastação social e humana, havendo todas as razões para acreditarmos que irá continuar a apresentar. A estupidez não é um acidente na natureza humana. Parafraseando o grande La Rochefoucauld, será mesmo o processo mais natural da inteligência prestar homenagem ao vício.

27 outubro, 2017

ANTES E DEPOIS


Fico mais impressionado ao saber de um atentado terrorista ocorrido num local onde tenha estado do que num local onde nunca estive. Não porque haja mortos de primeira e mortos de segunda mas por causa da inevitável relação com a minha experiência interna do local. E a percepção é diferente consoante tenha ocorrido antes ou depois de lá estar. Chegar a um lugar onde ocorreu um atentado é chegar já com a consciência do mal e com a impossibilidade de o dissociar do atentado, perdendo-se assim a pureza e inocência de estar numa rua que é simplesmente uma rua, a qual passa a ser também um lugar histórico onde o passado ficou congelado. Lembra o professor Hermano Saraiva quando, com os braços estendidos, dizia, empolgado, "Foi aqui que...". O mesmo acontece com o atentado, transformando uma simples rua naquela "Onde foi que...". O que explica já ter visto, muito pouco depois de um atentado, ainda com flores e velas no local, pessoas a serem fotografadas, em pose, como se tivessem como fundo a Tower Bridge, para depois postar com uma legenda a dizer "Je suis qualquer coisa". Claro que é chocante estar lá a pensar na carnificina, só que o "luto" do acontecimento já foi feito muito antes, nos dias seguintes ao atentado, o que faz com que ao lá chegar tenha apenas um encontro com a história.

Já ocorrer o atentado depois de lá ter estado acaba por ser mais impressionante. Já não penso nele como local histórico, mas onde estive num estado de ingenuidade, entretanto destruída pelo atentado. Onde estive, sabendo agora, a posteriori, que poderia ter sido vítima, pois ainda não acontecera o que estava para acontecer (ao contrário da situação anterior, em que se chega a um local sabendo já ter acontecido), gerando assim uma maior identificação com as vítimas, pessoas que estavam naquela rua tal como eu lá estive, apenas numa rua. Eu sei do atentado e penso naquela rua onde estive sem saber do atentado, sendo a associação imediata, não com o mal mas com o bem que conservo e do qual também não tinha consciência, por simplesmente estar, tal como elas. O que não acontece com as vítimas  de um atentado ocorrido antes de lá estar: apesar de também estarem apenas numa rua, eu, pelo contrário, chego lá a mastigar o fruto da árvore do bem e do mal, já com um pé fora do paraíso, sendo a minha experiência do local completamente diferente da experiência delas.

26 outubro, 2017

THIS MORTAL COIL


Estou na biblioteca a corrigir testes, olho para a estante e dou com a obra completa em quinze volumes, encadernada, de Ferreira de Castro. Não um, nem dois, nem três exemplares de cada volume mas quatro, o que dá um total de sessenta volumes. Interrogo-me sobre o que está aquilo ali a fazer num local de gente viva, tantas vezes até demasiada viva, livros moribundos de um autor morto, mas também sobre mim, que pergunto o que está aquilo ali a fazer. Adolescente, li três livros de Ferreira de Castro, A Lã e a Neve, Emigrantes e A Selva. Eu, que estou vivo e ando no meio de gente viva, ainda sou alguém que leu livros de Ferreira de Castro. 

Quando fui para a universidade e entrava em alfarrabistas, não como coleccionador mas em busca de livros baratos, via dezenas de livros mortos, outrora lidos por pessoas também já mortas, enfim, livros que já ninguém lia, restando apenas os seus cadáveres de papel pelas prateleiras. Livros e leitores que faziam parte de um mesmo todo, de uma mesma substância mortal. Enquanto pessoa que leu livros de Ferreira de Castro e que anda no meio de gente viva, acabo por me tornar num fantasma, alguém que ainda aqui está mas já com um pé noutro mundo. Quando, em breve, eu também partir, irei regressar aos alfarrabistas que frequentava aos vinte anos, só que do lado de lá, isto é, não como alguém que entra para voltar a sair, mas fazendo já parte do clube de leitores mortos que leram livros igualmente mortos. E quando, daqui a uns anos, também deixar de haver alfarrabistas, então, aí sim, vai ser a morte definitiva de escritores mortos, de livros mortos, de leitores de livros mortos e de vendedores de livros mortos enquanto, cá fora, a vida continua na sua infinita espiral.

25 outubro, 2017

O DIABO DAS PEQUENAS COISAS


O engenheiro Sócrates e a socióloga Lurdes Rodrigues (o repugnante Valter Lemos, sendo um simples peão de brega com ar de barman de casa de alterne, não entra neste campeonato) são, em versão masculina e feminina, as criaturas por quem ainda hoje mais sinto o mais absoluto desprezo no espaço público. Olho para a sinistra ministra e continuo a ver, sem disso me conseguir libertar, nem sei bem o que escolher, uma gárgula, uma górgona, Cila ou Caríbdis, uma pestífera megera cujo riso enlouquece os sensatos que dele não conseguem escapar. Ainda que humano, mesmo tão demasiado humano, frágil e irracional criatura me confesso, não deixa de ser aviltante descobrir que uma opinião nossa pode coincidir com a de uma dessas pustulentas figuras. De facto, seria bem mais apaziguador para o espírito saber que somos em tudo contrários, conforto maniqueísta que muito contribuiria para no mundo separar a luz das trevas, tornando-nos imunes a todo o tipo de conspurcação. Lembra-me a repugnância que senti pelo modo como Hitler e Goëring disputaram um Vermeer, mais concretamente, A Arte da Pintura. Pensar naquelas cabeças imundas a olhar para um Vermeer não anda longe da ideia de pensar num pedófilo a babar-se perante uma criança. Eu gosto da complexidade das coisas, do livre jogo de jogarmos com várias cores e suas misturas em vez de reduzirmos o mundo ao pobre esquematismo do preto e do branco, até porque tenho bem a consciência de ser esse esquematismo que está na origem de muitas tragédias e dramas na história da humanidade. É reconfortante saber que não partilhamos o mal com tão vis criaturas e quanto a isso pode-se dormir descansado. Mas o sono já não é o mesmo só de saber da existência de cores comuns.