22 dezembro, 2019

O TEAR

Qual o grau de grandeza de uma coisa? Como diria Heraclito de Éfeso, responder com os olhos não passa de uma distracção que nos afasta do essencial. A mesa é grande se comparada com a caneta mas pequena em relação à casa que por sua vez é pequena em relação à rua. Uma formiga é enorme face a uma bactéria, e um castelo, visto do céu, não passa de um ponto na paisagem. É verdade que precisamos de saber medir para sobrevivermos na vida quotidiana. Se os sapatos forem demasiado grandes ou pequenos não servem para calçar; um pavilhão é pequeno para os Rolling Stones mas enorme para uma banda de garagem; três mil quilómetros é uma distância impensável para ir de carro almoçar de carro a qualquer lado mas de avião até dá para dormitar um pouco. Precisamos, pois, pragmática e racionalmente, de medir, quantificar, gerir a ordem de grandeza das coisas.

Mas há uma outra ordem de realidade que não a esparramada à frente dos olhos, que esbate a distância entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno. Por exemplo, no Azul: o marido ri ao acabar de contar uma anedota e, nesse momento, morre ele e a filha que segue no banco de trás. E a morte é o segundo momento mais importante da vida de uma pessoa. Ele não sabe, ela não sabe, a filha muito menos - embora soe absurdo haver menos saber do que o não saber - mas nós vemos o óleo a pingar, gota a gota, minúsculas e invisíveis gotas, preparando atomicamente, lentamente, cinicamente, eficazmente, o segundo momento mais importante da vida do pai e da filha contra uma árvore que até poderia estar dois miseráveis metros ao lado do sítio onde tudo terminou num igualmente miserável segundo.

Nós temos a tendência para pensar em grande, uma fixação nos grandes acontecimentos que irrompem no mundo para o mudar, umas vezes para pior, outras tantas para melhor, certamente resultado de um cérebro viciado na grandeza ontológica. Mas é um tear de finíssimos e pequenos fios cuja insustentável leveza tudo decide. Diz-nos Homero que Penélope «[...] trabalhava de dia ao grande tear/mas desfazia a trama de noite à luz das tochas». Também na vida é assim, com o grande tear que faz e desfaz sem que vejamos um palmo à frente do nariz, tecendo coincidências e descoincidências, as primeiras sobressaltando-nos com o que aconteceu por causa de um simples segundo ou vinte metros de distância, as segundas, sem que delas nos apercebamos uma vez que não podemos ter consciência do que por causa de um segundo ou de vinte metros de distância não chegou a acontecer. Não conhecemos a textura da realidade, a sua ínfima vitalidade, limitando-nos a viver nela como se sobrevoando uma floresta víssemos apenas umas vagas cores e formas, fazendo parecer tudo linear, planeado, controlado, previsível. É mesmo preciso penetrar na floresta para entender como somos esmagados por ela. Umas vezes para nosso prejuízo, outras, benefício. Mas quase sempre para nem uma coisa nem outra.

27 outubro, 2019



Pode chover ou abater-se uma tempestade, mas não é isso que conta; uma pequena alegria pode surgir frequentemente num dia chuvoso e fazer um homem parar algures, para ficar sozinho com a sua felicidade, ou então levá-lo a levantar-se e olhar para diante, independentemente do sítio onde se encontre, para depois se rir tranquilamente uma e outra vez, enquanto observa tudo em seu redor. O que é que existe à nossa volta que nos faça pensar? Uma vidraça límpida de uma janela, um raio de sol na vidraça, o avistamento de um regato ou talvez uma faixa de azul entre as nuvens. Não é preciso mais do que isso. Knut Hamsun, Pan

O desejo de eternidade poderá ser sublime mas, como uma tempestade no mar ou um vulcão em erupção, demasiado esmagador para o desejo humano. Eternidade, absoluto, infinito: apesar da sua anelante aura romântica, não passam de arquétipos vazios. Ou antes, é por causa da sua anelente aura romântica que não passam de conceitos vazios. O A=A, como diz Hegel na Fenomenologia do Espírito, é uma pura identidade sem vida, sem o drama da história ou da biografia, sem as dores e as alegrias do mundo. Até Deus, que no Livro do Êxodo se apresenta a Moisés como "Eu sou Aquele que sou", se cansou dela enquanto nos olhava melancolicamente lá de cima, como os anjos de Wenders. A encarnação faz por isso todo o sentido num Deus cansado de pensar sem nos ver nos olhos e de ser pensado sem os seus olhos serem vistos. O que é a encarnação senão um Deus que se desensimesma, atirando-se para a fugacidade do instante? Um Deus mergulhado no espaço e no tempo, com pernas para andar, mãos para criar e boca para falar, que tanto ensina na montanha, como entra em casa de Marta e Maria, cura Lázaro da morte, se ira no templo ou entra festivo em Jerusalém.

Daí a nossa sorte em sermos cristãos ao invés de outra coisa qualquer. O cristianismo é a religião de um Deus que se faz carne, sente, emociona, ama e se irrita mas não como o Pai na sua infinita omnisciência e omnipotência. Ama e irrita-se como Deus que deixou a sua transcendente intemporalidade para se assumir num tempo estilhaçado em instantes, cada um com a sua identidade e diferente de todos os outros. O que o cristianismo tem de melhor para nos oferecer pode ser o amor mas também o tempo, em vez da rígida e transcendente lei e de uma perfunctória adoração própria de uma consciência infeliz e dilacerada pela separação entre si e o divino. Nós vivemos no tempo, em minúsculos instantes como se fossem sonatas que se desejam repetidas num processo de eterno retorno, até mais não podermos. Deus quis ser homem. O homem jamais será Deus e ainda bem. Do que precisa mesmo é de aprender a viver com a grandiosa sabedoria das pequenas coisas.

07 outubro, 2019


Vê-se muita gente a usar expressões estrangeiras, sobretudo inglesas.  Não vem grande mal ao mundo, desde que em dose razoável. Passamos a vida a ver filmes americanos, a ouvir músicas cantadas em inglês, a ler a falar cada vez mais Inglês, motivo suficiente para um português acabe arrastado por ele. Mas, sim, se for em dose exagerada, fica ridículo. Mas há uma palavra inglesa da qual não consigo escapar para exprimir a maneira como cada vez mais gosto de me ver e definir: self-effacing. Procuro a palavra portuguesa certa para a traduzir e ainda não consegui encontrá-la. Mas o meu desejo de ser self-effacing é tal que, mais dia, menos dia, nem sequer irei dela precisar, graças a estar já suficientemente self-effaced. Lá chegado, repousarei em paz, deixando todo o burburinho da linguagem para os outros. O que dizia Burroughs, cantado também por Laurie Anderson? Language is a virus. Felizmente, também a linguagem tem os seus antídotos.

03 outubro, 2019

DESEJOS DE







Hegel, nas suas Lições Sobre Estética:

" (...) a ambivalência exterior do homem, montanhas, vales, prados, torrentes, árvores, são frequentemente escolhidos pelos pintores mais célebres, como objectos dos seus quadros, mas o que, nas suas obras de arte, constitui o núcleo da representação, não são esses objectos em si, mas a vitalidade e a alma que presidiram à sua concepção e execução subjectivas, é a alma do pintor que se reflecte nas suas obras e nos comunica, não uma reprodução pura e simples dos objectos, mas a sua própria alma e o seu lado mais íntimo. (...) Por esta tendência para a alma que, nos objectos exteriores, se manifesta somente por uma difusa tonalidade que cria em torno deles uma atmosfera especial, a pintura distingue-se essencialmente da arquitectura e da escultura e aproxima-se mais da música, formando assim uma fase intermediária entre as artes plásticas e as artes sonoras".


Não é nada intuitiva esta aproximação da pintura à música em detrimento de uma mais natural e previsível associação à arquitectura e escultura. De facto, sendo a pintura uma arte para o olho e uma projecção no espaço, estará intuitivamente muito mais próxima da arquitectura e da escultura do que da música, que não é espacial, e é feita para o ouvido. Mas Hegel tem razão. Porque, contrariamente ao que acontece com a arquitectura e a escultura, há, na pintura, um claro processo de desmaterialização do mundo físico, no qual se perde a matéria propriamente dita (pedra, bronze, mármore, marfim, madeira, plástico), a tridimensionalidade, ou até a funcionalidade inerente a qualquer objecto. Enquanto uma obra arquitectónica ou escultórica são objectos, no sentido em que também são objectos uma cadeira, um copo, uma enxada ou uma árvore, a pintura, por sua vez, deixa de ser um objecto para se tornar uma representação formal dos objectos através das cores, das linhas, da luz, da perspectiva. Ora, o que se perde em objectividade, ganha-se em subjectividade.

É por isso que a pintura, enquanto cosa mentale, se aproxima mais da música, apesar da sua essência visual. O que nós vemos na pintura, cores, luz, espacialidade abstracta, não são objectos físicos, carnais. Nós olhamos para a pintura e pensamos ver a realidade. Mas o que vemos na pintura é uma gradual conquista de uma realidade subjectiva, ainda que não com a força da música. De qualquer modo, uma clara vitória do espírito sobre a matéria. Sendo a matéria transformada em espírito, ambas passam a fazer parte de uma mesma e única substância.
Não há muitas coisas que me irritem. Mas há algumas. Uma delas é a ideia de "modernidade", ideia tão usada e abusada. Não é o facto de existirem coisas modernas. Vendo bem, são as coisas modernas que fazem a história e a história é uma coisa boa pois se não fosse ela ainda andávamos a esconder o fogo uns dos outros e a tocar tambores à sua volta, assim tipo jovens alternativos nos festivais de Verão. Tales de Mileto, Aristóteles, Guilherme de Ockham, Roger Bacon, John Locke, Voltaire, Montesquieu, Marx ou Wittgenstein foram modernos. Hipátia de Alexandria, Hildegard von Bingen, Heloísa, Sofonisba Anguissola, Ana de Castro Osório, Rosa Parks ou Coco Chanel foram modernas. Giotto, Caravaggio, Monet e Picasso foram modernos. Dante, Cervantes ou Virginia Woolf foram modernos. Monteverdi e Stravinski foram modernos. Tanto as catedrais góticas como a torre Eiffel foram modernas.  Passar a ver a lua com um telescópio ou andar a cortar cabeças em França em 1792 foram coisas modernas. Se as coisas modernas fizessem barriga como a cerveja já a história teria uma pança como a de Pantagruel.

Ser moderno não é mais do que o modo como as coisas passam a ser em oposição àquilo que eram. Portanto, por razões óbvias, nada tem de irritante. Bem até pelo contrário quando se dá o caso, aliás frequente, de as coisas anteriores serem piores do que as novas. O que é irritante é termos cristalizado o conceito de moderno, dando-lhe um sentido contemporâneo, ou seja, fazendo com que a ideia de "modernidade" associada ao século XX acabasse por anular a naturalidade e espontaneidade de tudo o que foi, é e será moderno ao longo dos tempos. Ora, isto é de um tremendo narcisismo histórico. Como se o umbigo da história estivesse bem centrado no nosso tempo. O século XX esteve cheio de coisas modernas, todas elas, entretanto, envelhecidas ou já mortas.

Umas das vantagens de nos vermos em fotografias antigas é aprendermos a ver a efemeridade de tudo. Por exemplo, vermos agora as calças que vestíamos e os cortes de cabelo que usávamos em 1974, ou os enchumaços nos ombros que faziam as mulheres dos anos 80 parecerem gladiadores romanos, faz-nos muitas vezes sentir  ridículos e envergonhados com as tristes figuras que fazíamos. Mas na altura era tudo moderno, criando-se a ilusão de que o que éramos era como deveria ser e só poderia ser, anulando tudo o que tinha sido. Como se tudo começasse de novo e nada tivesse existido antes disso.

E o mesmo se passa com tudo. Psicanálise, marxismo, fenomenologia, existencialismo, estruturalismo, pós-modernismo, fenómenos sociais, tecnológicos económicos, políticos, revoluções, movimentos culturais, ícones, personalidades, eu sei lá, tudo e mais alguma coisa que fez a tão afamada modernidade contemporânea e deixou tanta gente excitada durante uns breves minutos históricos.

A história tem coisas imprevisíveis mas outras há que não falham. Uma delas é que tudo o que é novo irá um dia submergir. Excepto, talvez, a própria ideia de modernidade, que parece ter vindo para ficar, tornando-se uma obsessão futura. Nesse caso, paradoxalmente, a modernidade passará mesmo a existir. Como? Sendo moderno, estar obcecado pelo moderno. Ser moderno é ser moderno. Assusta-me dizer isto, mas talvez  Marinetti possa ter tido alguma razão.    

01 outubro, 2019


Li há muito uma pequena biografia de Rita Hayworth mas não me saiu da memória a explicação da actriz para o facto do striptease que fazia para os seus amantes e maridos nunca ser levado até ao fim: “Todas as mulheres têm uma certa elegância que é destruída quando tiram a roupa”. Pronto, temos assim a roupa como uma segunda natureza da pessoa que se sobrepõe à verdadeira. A roupa permite aproximar cada pessoa do ser humano que idealizou para si, construindo um imago narcísico com base num critério estético, de estatuto social ou "tribal", ou ainda simbólico. É por essas e por outras que num texto chamado Górgias, Platão diz preferir a ginástica à cosmética. Porque enquanto a ginástica torna o corpo verdadeiramente bonito e saudável, a cosmética fá-lo de uma forma falsa e ilusória. A própria Rita Hayworth, referindo-se à mais emblemática das suas personagens, Gilda, diz numa simples frase algo que o próprio Platão não deixaria de aplaudir, pela sua realista crueza: “Os homens vão para a cama com Gilda, mas acordam comigo”.

Num livro chamado Introdução à Mediologia, Régis Debray ajuda a perceber o populismo vazio que hoje inunda cada vez mais a política ou, direi eu, o mundo virtual no qual se vive cada vez mais. Tal como Gilda, são produtos criados para serem apenas vistos e, a partir dessa visão, criam uma mitologia que alimenta devoções à volta de heróis virtuais. Uma das coisas que Debray faz no livro para se compreender a construção de certos mitos modernos é transferir elementos das antigas sociedades tradicionais para a sociedade contemporânea, através de uma lista de substituições: a escrita substituída pelo audiovisual; o estatuto social do ancião substituído pelo de uma eterna juventude; a verdade conferida por Deus substituída por uma verdade que aparece na televisão (actualmente, na Internet ou revistas sociais); os antigos dogmas substituídos pela informação; a fé como motor de obediência, substituída pela opinião; o santo como figura de identificação, substituído pela vedeta; o rei como princípio de unidade social, substituído pelo líder, pela audiência; a alma substituída pelo corpo; o desejo de eternidade substituído pelo acontecimento e culto do presente; os sujeitos substituídos por consumidores.

Daí vivermos cada vez mais num mundo de stripteasers que, com as suas maquilhagens, roupas e poses fatais (conferir o modo como as pessoas se auto-fotografam), mostram apenas o suficiente para pôr o eleitorado ou qualquer consumidor de produtos virtuais a arder de desejo, evitando sempre, tal como Rita Hayworth, levar o espectáculo até ao fim, pois caso contrário seria a derrocada de uma imagem até ali intocável. Dizia Kierkegaard que sorrimos perante a vida monástica e no entanto nenhum eremita viveu tanto na irrealidade como os homens do seu tempo. Isto, convém lembrar, foi escrito no século XIX. Fico deprimido se pensar no que teria ele escrito hoje. Pode ser duro de dizer mas é inegável que a verdadeira nudez é só mesmo para alguns.

Padecemos muitas vezes da ideia de que só tem legitimidade o que pode ser suportado por uma justificação. A ciência torna as coisas claras e, mais importante ainda, naturais e desejáveis. Se está provado que as vitaminas são importantes para a saúde, logo devemos comer várias peças de fruta por dia. Pronto. Mas será necessário seguir este padrão em todas as áreas da vida humana, nomeadamente, no campo moral?

Os grandes filósofos sistemáticos são grandes justificadores. Engenheiros conceptuais que constroem projectos a respeito do Bem. Não há como evitá-lo, trata-se de uma natural propensão humana. Somos tão naturalmente filósofos como agricultores. Ora, o Bem, só por si, não faz mal a ninguém. Mas é uma ideia, uma abstracção que explorada em certas circunstâncias políticas, religiosas ou técnicas e com o pretexto de levar a felicidade aos seres humanos, está muitas vezes na origem de monstruosos programas marcados por perseguições, tortura, morte, infelicidade.

Há uma pequenina frase de Ikónnikov, o latrineiro, personagem de Vida e Destino, do escritor russo Vassili Grossman, que é todo um programa: «Não acredito  no bem, acredito na bondade». Acredita que a bondade, sendo um mero sentimento, e, por isso, mais humilde do que qualquer formulação racional do Bem, é moralmente mais eficaz, saindo-lhe espontaneamente dos corações, sem precisar de sofisticadas justificações racionais ou da complexidade arquitectónica de um sistema moral que nos ensina o que devemos fazer. Para quê subir mais para montante no rio das justificações, uma vez que ela é já é a nascente cuja água nos mata a sede? Quem precisa de ideias quando o objectivo é simplesmente matar a sede?

25 setembro, 2019


Saio de Lisboa de manhã muito cedo rumo a Torres Novas e na zona do Carregado entro num túnel de nevoeiro. Na paisagem, para além da película branca, apenas vagas formas esverdeadas das árvores que acompanham a estrada. E sinto-me como se estivesse num filme de Antonioni, uma percepcão cinematográfica de mim próprio acentuada pelo facto de coincidir com um adágio da ópera que vinha ouvir, tornada música de fundo. Como se eu fosse um espectador numa sala de cinema, vendo-me a mim próprio conduzir um carro no meio do nevoeiro. Passa o nevoeiro mas volto a encontrá-lo na zona de Santarém. Senti-me tentado a repetir a experiência mas desta vez, sendo a música alegre, já não fui capaz. O que me motivou duas questões: por que razão circular devagarinho no meio do nevoeiro (estar numa estrada larga, só com um sentido e sem curvas acentuadas ajuda bastante) induz uma pulsão introspectiva mas também o facto de essa introspecção ser movida por um sentimento, não de tristeza mas de melancolia?

É verdade que conduzir de noite pode predispor mais para esse tipo de sentimento. Mas nada que se compare com a branca espessura do nevoeiro. Há uma enorme diferença entre a noite e o nevoeiro no que a uma poética do espaço diz respeito, sendo ainda possível juntar as duas, isto é, conduzir de noite, com nevoeiro. Esta terrível situação torna-nos meros animais num agónico movimento pela sobrevivência. Não queremos pensar, apenas ter olhos para perceber onde estamos: se na nossa faixa, se diante de uma recta, se numa curva, ainda sobre o asfalto ou já próximos de um abismo que nos atire para a morte. Conduzir numa noite de nevoeiro aproxima-se de um pesadelo, como se essa noite, sem rosto, tivesse braços nos quais, em pânico, estamos presos, sem sabermos se nos salvamos ou se já estamos condenados mas ainda sem o sabermos.

Já uma noite normal, sem nevoeiro, tem o efeito de apagar a paisagem à volta mas sem abdicarmos do nosso estado mental normal. Isso, graças à electricidade, a qual faz toda a diferença. Como no Génesis, a terra era sem forma e vazia e havia trevas sobre o abismo. E o espírito da electricidade moveu-se sobre o mundo. Não por acaso, dizia Lenine que o socialismo é os sovietes mais a electricidade. Sabia bem o que dizia. A electricidade teve um poder avassalador, não ficando a nossa relação com o mundo imune a esse poder. Há uma noite antes da electricidade e outra depois, tornada mera extensão do dia. O que não se pode fazer hoje de noite que não se faça de dia? Claro que conduzir um carro de noite pode alterar o nosso estado mental, encerrando-nos um pouco mais na intimidade da nossa auto-consciência e não apenas na nossa consciência do mundo. Mas nada que se pareça com o nevoeiro.

Com o nevoeiro diurno tudo se altera. O nevoeiro não apaga a luz do dia como o faz a noite, que se torna a acender com a electricidade. Há luz no nevoeiro, podendo-se mesmo vislumbrar o poder do Sol espalhado na paisagem. O nevoeiro, com a sua brancura, com a sua luz, não apaga o mundo. É a nós que apaga, quer dizer, o nosso eu empírico ou social, escondendo-nos do mundo como quando entramos numa daquelas cápsulas da ressonância magnética, impedindo qualquer tipo de distracção ou atenção para tudo o que não sejamos nós mesmos. Mas não se trata apenas do nevoeiro. É o nevoeiro ao mesmo tempo que avançamos na estrada. Ao contrário do nevoeiro nocturno, avançamos com alguma segurança, como um avião nas nuvens. Trata-se, porém, de um movimento que nos leva a atravessar um espaço desconhecido, impedindo-nos de ter a consciência do lugar onde nos encontramos. Ora, dificilmente haverá melhor ideia do que esta para representar o nosso futuro, ou a ligação entre o nosso passado e futuro, impedindo um estado mental intencional face ao mundo e ao nosso dia seguinte (trabalho ou qualquer outro tipo de planos ou rotinas). Circulamos, avançamos sobre o asfalto, mas num movimento etéreo e abstracto que nos faz sentir frágeis, finitos, mortais, olhando para a nossa vida como algo de imponderável. Estarmos diante da nossa existência tornada realidade evanescente e distante de nós próprios, como se o eu estivesse num lado e a a sua existência noutro, induz assim um estado de melancolia, uma tristeza sem tristeza. E cá está: se a música for um adágio, temos o som em perfeita harmonia com a imagem. Sendo alegre, sobrepõe-se à imagem, anulando, total ou parcialmente, toda a nebulosa poética de um mundo envolvido em nevoeiro.


24 setembro, 2019

O JASMIM DA NOITE


Não sendo baptizado e educado numa família na qual a religião esteve sempre ausente, cheguei a adulto sem nada saber acerca do cristianismo ou do catolicismo para além do básico e de uma vaga memória de algumas edificantes histórias bíblicas contadas pela minha professora da escola primária. A Teologia, então, seria uma espécie de ciência oculta ou esotérica. Porém, chegado à faculdade, e vindo a ter uma cadeira de Filosofia Medieval, fui levado até àquele território com o espírito de quem se prepara para aprender polaco ou ler o Finnegans Wake. Um dos conceitos mais difíceis de enfrentar foi o de Trindade e respectivas hipóstases. Mas se o Pai e o Filho ainda faziam algum sentido para mim (enfim, um pai é um pai e um filho é um filho), o meu problema era mesmo com o Espírito Santo. Hoje, percebo, tratava-se de uma regressão cognitiva da minha parte que, de acordo com a Psicologia do Desenvolvimento, me atirava para os regressivos meandros das operações concretas de uma criança da escola primária.

Hoje, pelo contrário, o que tenho mesmo dificuldade em compreender é o Pai e o Filho, pouco consentâneos com o que será uma entidade divina. O Espírito Santo, esse, é a mais evidente hipóstase da Trindade. O Espírito Santo é como o aroma do jasmim da noite. Não se vê, não se toca mas na sua invisibilidade e imaterialidade, inspira-nos e alimenta o espírito em plena escuridão nocturna. O seu poder olfactivo é tal que inebria ao mesmo tempo que ilumina ou ilumina ao mesmo tempo que inebria. O seu poder é o da paz, da serenidade, do amor, um poder que não desejamos que alguma vez se acabe.  Daí que, para mim, teologicamente, faz todo o sentido deixar para sempre o Filho na cruz,  símbolo principal de milhões de cristãos, enquanto o Pai continua ensimesmado na sua eterna omnipotência e omnisciência. Fosse eu religioso, não eram cruzes, nossas senhoras ou últimas ceias que eu queria em minha casa. Queria, sim, o jasmim da noite para todo o sempre para encher os meus dias com o seu invisível mas glorioso poder olfactivo. 


23 setembro, 2019

22 setembro, 2019


Em garoto, sempre que ia ao futebol ver jogar o Torres Novas, era normal ouvir adeptos do meu clube a insultar ou ridicularizar jogadores pretos das equipas adversárias. Já na altura achava isso estranho, uma vez que na nossa própria equipa havia jogadores pretos, pensando então no que pensariam esses  "nossos" jogadores ao ouvirem tais impropérios. Décadas volvidas, a realidade continua a alimentar essa minha perplexidade. E, neste caso, quando o FC Porto tem jogadores como Danilo, Mbemba, Manafá ou Marega.

Eu só tenho uma explicação para este fenómeno psicologicamente complexo. Socorrendo-me de Orwell, sou obrigado a pensar que para muitas pessoas os pretos são macacos mas há uns que são mais macacos que outros: os que são adversários, que não fazem parte da sua tribo, que não lhes podem dar alegrias mas apenas tristezas, como é o jogador da equipa suíça que ia marcar a grande penalidade, ao contrário de Danilo que lhes pode dar alegrias. Trata-se assim de um fenómeno mentalmente interessante: uma manipulação da realidade que, a partir dos nossos interesses egoístas, é vista ou deixa de ser vista, tal como uma pessoa hipnotizada consegue ver à frente dos olhos o que lá não está ou não consegue ver o que está mesmo chapado à sua frente. Danilo pode ser tão preto (ou ainda mais) do que o outro jogador, mas para o adepto do FC Porto, ainda que os olhos o vejam preto, não é assim que a sua cabeça o vê, a qual, por ser pobre e apequenada, faz com que ao olhar para o outro jogador não consiga ver mais do que essa tão anatematizada cor.

Se porventura na próxima época Danilo fosse jogar para a equipa suíça e o outro jogador para o FCP, e as duas equipas voltassem a defrontar-se no Porto, Danilo, que agora não é macaco, iria passar por um processo de macaquização, enquanto o jogador suíço iria alegremente usufruir de um processo de desmacaquização, tornando-se um jogador como Corona ou Alex Telles. Falamos de futebol mas o mesmo estranho, para não dizer bizarro, processo, ocorre em muitas outras circunstâncias bem mais sérias, algumas delas com milhões de mortos e tantas outras inocentes vítimas. Daí devermos confiar mais nos olhos da razão do que nos olhos propriamente ditos ou ouvidos pelos quais tão facilmente emprenhamos. E lá nisso continua Platão a ter razão com a sua alegoria da caverna. Os prisioneiros e o homem livre dessa história, 2500 anos depois, continuam e continuarão a ser sempre os mesmos. As cavernas é que vão sendo diferentes e, infelizmente, não faltam por aí.


21 setembro, 2019


A diferença entre o infinitivo de um verbo e o substantivo que lhe está associado é a diferença entre a acção e ideia. Isso explica o facto de o escritor Robert Louis Stevenson ter um dia afirmado que "não é a vida que amamos, mas o viver". Quem mo disse foi Enrique Vila-Matas num muito engraçado livrinho chamado "Perder Teorias" no qual foca a tensão entre teoria e prática literária, entre escrever ficção e escrever sobre escrever ficção, chegando mesmo ao ponto de, com imensa graça, satirizar a cultura francesa dos anos 70, tão centrada na teoria e crítica literária, afirmando que aquela consideraria uma grosseria passar da teoria à prática, por exemplo, imagine-se, escrever um romance propriamente dito.

Ora, o que se passa entre teoria literária e literatura, trate-se de romance, conto, poesia ou teatro, passa-se igualmente na própria vida. Não por acaso o jovem Nietzsche na sua seminal obra "A Origem da Tragédia" se refere criticamente a uma cultura alexandrina, herdeira de uma letal associação entre Platão e o cristianismo, que torna o homem ocidental uma espécie de toupeira que sabe muito mas sem ver um palmo de vida à frente.  Poderíamos, algo cinicamente, afirmar que as invectivas do filósofo contra aquela dupla não foram escritas com um frasco de tinta mas com um garrafão de testosterona tão ao jeito da sua viril juventude. Sabemos hoje que a bioquímica não é área que deva ser desprezada para explicar tanto comportamentos e processos mentais, mas também é verdade que, isoladamente, se trataria de uma explicação demasiado redutora. Não sejamos também injustos com o velho filósofo grego quando diz que uma vida não examinada não merece a pena ser vivida. Claro que merece. Outra coisa não fazem a ética ou a política e muito mal iria a humanidade (ou a pós-humanidade) se a ética e a política passassem à condição de vaga memória. Mas cá está: quando o centro passa a ser a própria vida que, no fundo, não passa de uma abstracção, do mesmo modo que a ideia de cão não se confunde com o labrador preto de uma moradia em Coimbra ou com o chow chow castanho de um apartamento em Lisboa, o frasco com cuja tinta essa vida se escreve pode ir a pouco e pouco secando. Podemos saber tudo o que há para saber sobre cães mas, como no quarto de Mary, nada saber sobre cães. Com a vida pode acontecer o mesmo. Daí que nela o que é importante é fazer, ainda que não saiba, ou nem sequer se desconfie, porquê e para quê.



22 agosto, 2019

25 julho, 2019


Os ponteiros deste relógio podem ser parados mas este não dispensa a sua anual manutenção. Voltará a ter corda em Setembro. Boas férias.


24 julho, 2019

Grace Robertson

Oito mulheres num mesmo carrossel mas tão diferentes dentro dele. Estão sentadas, paradas. No entanto, movem-se. Movem-se através de um movimento rápido e circular pelo qual não são responsáveis. É a máquina, com a sua energia, com a sua força, que as faz andar à roda sem fazerem alguma coisa por isso. Não são, pois, responsáveis por esse movimento como é a pessoa que na rua decide andar depressa ou devagar, ir para a direita ou esquerda. Mas apesar de já não serem ali senhoras do seu destino, vivem de maneira diferente a experiência do carrossel.

As duas da frente divertem-se à brava com o ridículo da sua situação. Riem-se de si próprias. É por isso que estão felizes. As pessoas que se sabem rir de si próprias são as mais felizes do mundo. A seguir, temos outras duas que se divertem mas com o divertimento das outras. Não é um divertimento tão espontâneo e eloquente mas, ainda assim, justificam bem o dinheiro que gastaram para estar ali. Com as duas seguintes já tudo muda de figura. Estão ali e com a consciência de estarem ali mas parece não saberem muito bem porquê e para quê. Talvez por obrigação ou porque as outras também estão. Por isso não sabem muito bem o que fazer com a alegria de estar dentro de um carrossel. Talvez levem a vida demasiado a sério e, por isso, terão medo de que as suas saias se possam levantar com o vento e mostrar as pernas. Por fim, as duas últimas, que parece não terem sequer a consciência de estarem ali. Não se divertem mas também não parecem estar tensas. Nem estão tão felizes como as primeiras nem enfadadas como as que estão mesmo à sua frente.

Há ali uma unidade. Uma estrutura partilhada por todas. Todas andam à roda, o movimento circular é-lhes comum. Todavia, o modo como viverão essa circularidade e as leis mecânicas do movimento, já dependerá do que cada uma espera desse movimento. Dos seus desejos, ambições, expectativas mas também dos seus medos, angústias, traumas, complexos. Para as mulheres das carruagens da frente o carrossel será sempre motivo para mais uma viagem. Para as mulheres das filas de trás, cada viagem será sempre, e mais uma vez, uma corrida contra si próprias.

23 julho, 2019

Existe um abismo entre o que sabemos e não sabemos. Eu sei o que sei, por exemplo, que D. Afonso Henriques foi o primeiro rei de Portugal, que existem duas Coreias, que Pacheco Pereira tem barba e o Liverpool é campeão europeu. Mas não sei o que não sei e nem posso saber pois assim deixaria de não saber. Mas o nosso conhecimento não se divide apenas entre o que sabemos e não sabemos. Há coisas que sabemos melhor em virtude de um traço mnésico mais espesso, estando guardadas na ponta da língua: o nome do primeiro-ministro ou a capital de Portugal. Há coisas que sabemos pior porque o traço mnésico está menos espesso: posso sabê-lo, mas se me perguntarem quem foi campeão europeu o ano passado, preciso de mais tempo do que se me perguntarem o deste ano. 

Existem ainda aquelas informações que com algum desespero sentimos debaixo da nossa língua sem se conseguirem soltar. Anteontem queria lembrar-me em que filme aparece Duke Ellington a fazer dele próprio mas não conseguia e isso estava a irritar-me. Não me irrito com o que não sei pois não me posso irritar com o que não sei que existe. Outra coisa é sabermos que sabemos mas sem conseguirmos recuperá-lo. Depois de grande luta, lá consegui. Dá a sensação de ser como a informação que tenho num disco externo guardado na minha consciência. Sei que tenho a informação, só que não está momentaneamente disponível, demorando mais tempo a recuperá-la como quando abrimos a gaveta para consultar uma coisa guardada no disco externo.

Mas há muito que tenho outro e potente dispositivo mnésico: o Google. Eu obtenho diariamente muitas informações que não conservo na minha consciência, remetendo-as para o Google enquanto disco externo. E um disco externo que, como o que guarda as informações "debaixo da língua", sinto quase organicamente. O facto de ter sempre um smartphone junto ao meu corpo, torna-o igualmente extensão natural da minha vida mental, disponibilizando de imediato toda a informação de que preciso. Há trinta anos, se conhecesse nomes como "Irma Blank" ou "Joseph Antoine d'Ornano", das duas uma: conservava-os na minha memória imediata ou no disco rígido "debaixo da minha língua", ou perdia-os. Graças ao Google, posso dar-me ao luxo de os esquecer sem os perder. Acabo até por senti-los mais como meus do que estando debaixo da língua, pois a sua invocação já não depende de mecanismos involuntários da minha mente (podia estar ainda à espera de saber em que filme Duke Ellington faz de si próprio) mas de uma simples consulta que demora segundos como acontece com o campeão europeu de 2018. Poderia dizer que o mesmo se passaria com os livros, nomeadamente enciclopédias. Trata-se, porém, já de um processo anacrónico e inorgânico no que à recuperação de informação diz respeito. O Google, através do movimento rápido dos meus dedos, surge cada vez mais como um dispositivo omnisciente onde se encontra cada vez mais alojado o que sabemos mas sem disso termos consciência. Torna-se, assim, cada vez mais próximo do que não sabemos: não sabemos o que não sabemos e também não sabemos o que sabemos e quanto mais próximo estivermos do saber também mais longe dele iremos ficar.


22 julho, 2019

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Cansaram-se de estar fechados no palácio. Gostam dele, claro. É o palácio que lhes dá a identidade social e alimenta a vaidade. Mas o palácio é feito de expressões e poses cientificamente estudadas como um espartilho mental que os submete a um cosmos em que cada um sabe o lugar que ocupa. Um duque é um duque, um conde é um conde, uma açafata é uma açafata. Decidiram então ir divertir-se para o jardim em frente do palácio. Mas a geometria do jardim torna tudo igualmente previsível e mecânico. O velho labirinto já é percorrido de olhos fechados, já deram furtivos beijos e lançaram maliciosos olhares pelos seus cantos e recantos, já todas as palavras foram ditas sobre os bancos de pedra. E o jardim, embora bonito, é natureza domesticada, projectada à imagem e semelhança dos caprichos estéticos dos seus mentores.

Saíram do jardim e olhem para eles agora! Descobriram a desordem do imprevisto e da aventura. Já não é um jardim. Repare-se na imensa verticalidade vegetal que esmaga a sua ínfima humanidade. Há, neste local, uma escala natural que os transcende e remete para uma finitude da qual não têm consciência. Verticalidade que não a da catedral. Esta pode estar erguida para o céu e toda a sua marmórea linguagem apontar para o divino mas será sempre a expressão da criatividade artística. Pode esmagar-nos mas é o trabalho de arquitectos, engenheiros e pedreiros que nos esmaga, ao invés de todo este verde feito de luz e de sombras, mais labiríntico do que o geométrico labirinto do jardim. Eles, que brincam, não têm consciência disso. Mas se brincam assim, longe das poses estudadas do palácio, é porque já perceberam que estão fora do elemento humano, entrando num reino vegetal cuja umbrosidade está para além das convenções morais, religiosas, políticas e estéticas.

Nietzsche, na "Origem da Tragédia", cita uma passagem de "O Mundo como Vontade e Representação", na qual penso sempre que olho para esta festa (e ontem voltei a vê-la): "Assim como no mar convulso que, isento de todos os limites, ergue e baixa montanhas de ondas uivando, um navegante se encontra sentado num bote, confiando no frágil transporte, assim se encontra, no meio de um mundo de tormentos, o indivíduo calmamente sentado, apoiado e confiando no principium individuationis".

E não é por causa do pequeno tumulto das ondas que me lembro disto. A analogia não é com a água mas com o verde, a imensidão da floresta que, embora os esmague (veja-se ainda aquelas árvores sobre eles que mais parecem uma onda gigante que os vai engolir) sem disso terem consciência, lhes dá uma sensação de abrigo. Ali, finalmente, exibem a sua espontaneidade e infantilidade sem medo de censura e punição. Não só passam despercebidos nesta maré verde, também eles sentem que passam despercebidos. Como Adão e Eva viveram sem a vergonha da sua nudez, também estes aristocratas deixam cair as máscaras, ficando a sua liberdade protegida pelo inumano rumor das árvores imensas, pela lógica das sombras, pelo suave murmulhar das águas, sobrepostos ao metálico som do cravo e ao adocicado das cordas que ficaram esquecidos na sala de música. A música agora é outra. Música que, ao regressarem ao palácio, irão de deixar de ouvir mas graças à qual ficarão reconciliados consigo mesmos, como o profeta persa que nasceu a rir.

*Fragonard - A Ilha do Amor ou A Festa em Rambouillet

20 julho, 2019


No parque de estacionamento, passo por uma zona de carregamento de baterias de carros eléctricos e vejo um cartaz na parede. Há muito que sei existirem encontros nacionais ou jantares/convívio, sei lá, de motards, pessoas com 2CV ou 4L, calhambeques, caçadores, pescadores, radioamadores, bloggers, coleccionadores disto e daquilo, homens que usam bigode, mulheres, escuteiros, pessoas que estiveram no concerto dos Genesis em 1975 ou pessoas cujo apelido é Ferreira. Mas ter hoje sabido haver também um encontro nacional de carros eléctricos (o cartaz continua lá mas já decorreu em Maio), leva-me a pensar que, por muitos anos que venha a viver, nunca deixarei de me surpreender com a capacidade gregária do ser humano.


19 julho, 2019

Fui ao Modelo comprar peixe mas acabei também por trazer um livro que me interessava com 40% de desconto. Sem problema. Gosto de livrarias, sobretudo das antigas e bonitas, mas não é por ver um livro em frente à secção de tachos e panelas que vou deixar de o comprar. O que eu não esperava era chegar a casa para me sentar um bocadinho no sofá a ler antes de fazer o almoço e dar com ele com manchas de água e de sangue e a cheirar a peixe. Desconsolou-me ver assim o meu livro que deveria cheirar a novo mas isso também me permitiu saber duas coisas: uma, é haver poucas coisas tão desconsoladoras no mundo como um livro novo a cheirar a peixe (como também presumo ser desconsolador um peixe a cheirar a livros), a outra, é haver coisas no mundo que seria preferível nunca sabermos.

Quem não reagiu da mesma maneira ao desconsolador acontecimento foram os meus gatos, que ficaram tão empolgados com o cheiro como quando eu abro as latinhas de comida húmida. Enquanto folheava o livro, a custo, com os olhos a pedirem-me para o ler e o nariz para o deixar uma semana na varanda a arejar (o que acabei por fazer), os gatos pareciam só ter mesmo nariz mas como se fossem os meus olhos. A diferença é que em vez de o ir folheando e lendo, giravam em torno dele, roçavam-se, davam-lhe cabeçadinhas e miavam histericamente. Assistir a esta bibliófila devoção fez-me lembrar um antigo cartaz para a promoção da leitura, que mostrava a fotografia ampliada de uma traça, tendo por baixo a seguinte frase: «Não sabe ler mas já devorou mais livros que você.» Mas ver também tanto entusiasmo perante um objecto feito para ser lido mas não porque vai ser lido,  levou-me igualmente a pensar numa tendência cada vez mais comum, a de pessoas que compram livros ou falam mesmo de livros e autores com o mesmo entusiasmo olfactivo dos meus gatos mas, ainda também como os meus gatos, sem nunca os lerem. Razão teriam Esopo ou La Fontaine: nada como os animais para melhor compreendermos os seres humanos.

18 julho, 2019

O Menino Selvagem, de François Truffaut termina com uma experiência cruel. O seu tutor quer saber se Victor já desenvolveu o sentimento de justiça. Este, habituado a uma recompensa quando age bem e a ser castigado quando age mal, recebe uma tarefa que irá cumprir correctamente, só que em vez de recompensado é castigado, reagindo com violência e mordendo o tutor. E como reage o tutor? Abraça-o, faz-lhe festas e dizendo como aquela mordedura o encheu de alegria. Percebendo que o sentimento de justiça e de injustiça já não eram estranhos à cada vez menos selvagem criança, conclui: «Ao provocar esse sentimento elevei o selvagem à estatura de um ser moral através do seu mais nobre atributo».

Embora esta situação não remeta para a noção de justiça distributiva, não pude deixar de pensar nela ao dar conta desta experiência com macacos. Temos de ser prudentes face a tudo o que são experiências científicas pois vão quase no mesmo caminho da época de transferências no futebol em que o que agora é verdade rapidamente deixa de o ser. Mas a sê-lo, isso leva-me então pensar que há muitas pessoas, sobretudo empresários, políticos e financeiros que circulam pelo mundo por baixo do seu fato ou vestido de fino recorte e de muita regra de etiqueta que inclui o saber estar à mesa ou saber cumprimentar as pessoas de acordo com as circunstâncias, que apesar de já terem superado o estado selvagem dos símios, ainda não tiveram tempo suficiente para alcançar a verdadeira humanidade.  

17 julho, 2019



Há dias, foi grande a minha surpresa ao ir na rua e dar com um cartaz das Testemunhas de Jeová. A primeira vez que vi um. Achei estranho mas ter crescido a ler os clássicos folhetos que afáveis senhoras deixavam na caixa do correio fez-me logo perceber, pelo grafismo e estética, algures entre uma banda desenhada trash e a publicidade institucional aos ecopontos, que só poderia ser da missionária congregação. Escatológicos folhetos feitos de cósmicos duelos entre o Céu e o Inferno, Deus e o Diabo, salvação e condenação, o bem e o mal, e tudo isso num registo que deixaria o velho Mani roído de inveja. Crescer com aquelas revistas teria mesmo de marcar o meu imaginário, na mesma linha dos reclames da margarina Vaqueiro, do Presto ou da voz do engenheiro Sousa Veloso. 

Só que, entretanto, vi melhor e pensei:«Ups» O cartaz não era das Testemunhas de Jeová mas do Bloco de Esquerda. «Ups», exigiu imperativamente o meu cérebro que pensasse outra vez. Eu sei que este meu cérebro habituado a associar botas que não batem com perdigotas, não é de confiança. Mas parece-me bem mais razoável imaginar Donald Trump leitor compulsivo de Henry David Thoreau do que associar Testemunhas de Jeová ao Bloco de Esquerda. Só que o meu cérebro, desta vez baixinho, lentamente, levantando o dedo timidamente como aquele aluno que deseja responder a uma questão do professor mas sem grande confiança no que vai dizer, me pede para de novo pensar:«Ups». E logo de imediato não penso «Ups» mas «UPS!» Pois claro. Se há partido religioso em Portugal, esse partido é o B.E.!

É verdade que o B.E. se tornou um partido crescido, institucional e até com responsabilidades a nível de poder, parte do mainstream político, afastando-se daquela sua associação à legalização da erva ou defesa de um generoso espectro cromático-sexual. Mas uma coisa é o B.E. quando está acordado, outra é o B.E. quando está a dormir e a sonhar. Neste sentido, apesar da esquerda à esquerda do PS ter arejado os quartos, na verdade, o seu inconsciente (por definição atemporal) continua assombrado pelas almas penadas da UDP e PSR. O típico militante do B.E. pode adorar ter dinheiro como os ricos, os carros dos ricos, as casas de ricos, os restaurantes dos ricos ou caprichosos tiques de rico. Mas nos mais recônditos segredos do seu vermelho inconsciente, odeia os ricos, os empresários, o capital, a «América», a liberdade económica (a que chama, com esgar de repugnância, «neoliberalismo») ou a liberdade tout court, como qualquer clássico marxista-leninista. Por isso, sim, o B.E. continua a ser um partido dramaticamente religioso, com uma visão agónica das classes sociais, que divide a realidade em sagrado e profano, amigos e inimigos e, como na Cidade de Deus de Santo Agostinho ou no delirante fim da história marxista, a ter esperança num Grand Final que separa os bons dos maus. No cartaz do B.E. o que apenas surpreende é a desinspirada estética Jeová num partido que preza a sua modernidade. Quanto ao resto, fugiram-lhe os olhos para a verdade. 


16 julho, 2019



Faz hoje 50 anos que foi por aí acima a Apollo 11, rumo à Lua do Tintim e de Júlio Verne. Se há coisa que tem resistido ao lento processo de desencantamento do mundo, sobretudo a partir da revolução científica, da industrialização e do pragmatismo contemporâneo cego pela electricidade em ruas e avenidas das cidades, é a Lua. A Lua dos poetas, dos amantes, dos noctívagos, dos mitos, a lua lupina, seja cheia ou parcial, seja brilhante ou velada e desvelada por entre nuvens cinzentas, seja apenas adivinhada no meio do nevoeiro, seja o seu lado escuro, o seu dark side, para sermos claros, seja de prata, de papel, de queijo, de mel, de sangue, seja para entrar por ela dentro com uma bicicleta, a lua continuará a ser o que nós queremos que ela seja, enquanto formos humanos e não já pós-humanos, enquanto estivermos acordados e não já só meio sonâmbulos como os nova-iorquinos de Garcia Lorca. O Sol pode aquecer-nos mas é a Lua que nos faz sonhar.

15 julho, 2019



Tendo nascido, estudado e vivido em Pisa, seria natural que a grande torre em frente à catedral fizesse parte da paisagem quotidiana de Galileu Galilei. Não pela inclinação que desvirtuou a geométrica perfeição desejada pelo seu arquitecto e que hoje faz as delícias dos milhares de turistas que lá vão para, com a selfie da praxe ou a ilusão óptica da mão a sustentar a torre, poderem brilhar no Facebook ou no Instagram. Antes pelo facto de ajudar o cientista a construir uma outra perfeição, num solo menos propício a inesperadas inclinações: a matematização dos fenómenos físicos, nomeadamente a relação entre a força e a velocidade, observada a partir da aceleração de um objecto em queda. Uma grande torre seria pois um bom lugar para as suas experiências, longe, portanto, da sua cómica identidade posterior. Os turistas vão à torre de Pisa por ser um sítio onde os turistas vão por ser famosa. E o que a fez famosa? Obviamente o efeito cómico da sua inclinação. Mas não só. Estivesse a torre em ruínas e perderia toda a sua piada. A sua comicidade é uma consequência de estar inclinada mas sem perder a majestas projectada pelo seu arquitecto. A mesma razão pela qual se torna ainda mais cómico se virmos um executivo de ar grave e impecavelmente vestido em vez de uma pessoa vulgar, tornando-o mais normal, desenvenizado, imperfeito.


Não acredito que tenha sido por acaso que Goya inclinou subtilmente Pedro Téllez Girón no célebre retrato onde surge junto da sua mulher e filhos. Convém lembrar que se trata um «Grande de Espanha», 9º duque de Osuna. Seria normal que uma figura desta importância surgisse de acordo com a clássica convenção retratista. Uma convenção, sim, mas que pode ter a sua origem na natureza. Em 1872, Charles Darwin publicou The Expression of the Emotions in Man and Animals, estudo que ainda hoje serve de base a muitas investigações no âmbito da Etologia e Psicologia. Nesse livro, o eminente cientista britânico contraria a teoria do anatomista escocês Charles Bell, inspirada na Teologia Natural, segundo a qual Deus dotou o ser humano de certos músculos faciais para poder manifestar as suas emoções. Darwin, por sua vez, pretende provar que animais e seres humanos transmitem de igual modo emoções, sendo bastantes os estudos comparativos. Mas não é apenas através do rosto que se torna possível tal comparação. Também a postura do corpo funciona naturalmente como meio de afirmação e engrandecimento, gerando uma aura de superioridade que permite impor respeito a quem o rodeia: erguer os ombros, esticar a coluna, levantar a cabeça, empinar o nariz. Eis por que reis e rainhas, nobres ou outras figura cuja grandeza deve ficar imortalizada num retrato, surgem nessa posição.


Acontece ter sido Goya um grande amigo de Pedro Téllez Girón, não querendo o pintor escondê-lo sob a capa formal do duque de Osuna. Claro que tanto as cores do quadro como a graciosidade dos rostos lhe retiram o habitual tom austero com que pessoas desta condição social surgem nos retratos. Mas o punctum desta imagem, como diria Barthes, está todo ele na inclinação do duque. Porém, ao contrário do que se passa com a torre de Pisa, não se trata de criar um efeito cómico, ainda que a torre fosse construída com o objectivo de revelar uma nobreza de pedra do mesmo que um nobre surge socialmente como altiva torre de carne e osso, podendo gerar-se assim uma reacção semelhante face às respectivas inclinações. Há, todavia, uma grande diferença que o impede, e quem nos pode ajudar a explicá-la é um filósofo francês chamado Henri Bergson, num livro publicado em 1900, chamado O Riso Ensaio sobre o Significado do Cómico. A chave está na diferença entre o voluntário e o involuntário. Diz ele que uma personagem é cómica na exacta medida em que se ignora a si própria. E quanto mais natural e espontânea for, mais cómica se torna. Há programas de televisão que mostram pessoas a serem apanhadas em situações caricatas que fazem rir os espectadores. Se os seus desastrados movimentos fossem voluntários, perderiam toda a graça. Sendo involuntários, apesar de, neste caso, e ao contrário da torre, estando as pessoas conscientes da sua condição, instalam um elemento de desordem, surpresa e imprevisibilidade no mundo que lhes confere a tão apreciada comicidade. É também isso que se passa com a torre de Pisa, distinguindo-a de alguns edifícios inclinados contemporâneos de criativos arquitectos, uma vez que para além da ausência de uma majestas original, foram intencionalmente projectados com essa inclinação para fins puramente estéticos.


O duque de Osuna surge ali inclinado, não por causa de problema nas costas, não por estar a ser puxado pela mão da filha ou ter sido pisado por alguém. Fosse isso e tornar-se-ia cómico e risível. O que Goya nos quer revelar com a graciosa e doce inclinação do duque é a sua humanidade, a sua imperfeição, a sua humildade doméstica, o extremoso pai que vive no mundo normal de homens, mulheres e crianças, e não numa espécie de Olimpo aristocrático onde as figuras importantes gostam de se exilar para se demarcarem do comum dos mortais, graças à sua rígida e altiva pureza. 


Foi também uma rígida pureza que perseguiu Kant ao formular a sua teoria moral. A sua perspectiva é claramente dualista. De um lado, a razão pura, fonte das acções genuinamente morais. Do outro, as inclinações, que podem ser emoções, sentimentos, interesses vários ligados a uma dimensão sensível da acção humana, isto é, mais próxima da animalidade. Para Kant, não há nada  de errado num pai tratar bem um filho porque gosta dele. Mas não se trata de uma acção com valor moral. Vendo bem, o que distingue um pai que cuida bem de um filho, de um animal que faz o mesmo em relação às suas crias? Não há nada de errado no amor, no prazer de amar, de cuidar, de tratar bem os outros. Mas não passam de humanas, demasiado humanas inclinações. O que Kant verdadeiramente procurava era uma moral com a mesma marmórea e vertical rigidez de uma torre medieval e imune a qualquer inclinação. O que importa aqui realçar é o facto de a inclinação mostrar o lado mais normal, espontâneo, afectivo, sentimental, emocional do ser humano, em contraste com uma vontade racional, mais idealizada do que concreta, tal como as pessoas importantes dos grandes retratos históricos imortalizados por pintores. Goya foi também um deles. Mas, no caso desta família, o seu desígnio é bem diferente, desidealizando o duque enquanto figura central, fazendo-o descair na direcção do grupo do qual deseja fazer parte. Este quadro bem se podia chamar A Inclinação. É assim que lhe chamo no meu íntimo desde que o conheço, e que faz com que seja tão especial. Estivesse o duque direito, em pose aristocrática, e seria aqui tão banal como qualquer uma das milhares de torres existentes no mundo que tiveram  o azar de não serem como a torre de Pisa.


Torna-se quase incontornável deparar com esta fotografia entre membros do governo português durante o debate do Estado da Nação, sem vir à cabeça uma qualquer tradicional pintura de grupo holandesa. Assim de repente, e sem termos de ir mais longe, Rembrandt (Síndico dos Fabricantes de Tecidos ou a Lição de Anatomia do dr. Tulp) ou Frans Hals (Os Regentes do Hospital de Santa Isabel). Como é evidente, nada tem que ver com o conteúdo. Governantes portugueses do século XXI são governantes portugueses do século XXI, médicos holandeses do século XVII são médicos holandeses do século XVII. É o desenho, a construção, a elegante dinâmica resultante de um movimento espontâneo que se imobilizou, o periclitante equilíbrio entre a linha horizontal e o modo como o ministro Vieira da Silva emerge verticalmente (aliás, a sua própria inclinação a fazer lembrar a de Isabel de Velasco nas Meninas na direcção da personagem central) a harmonia do grupo a despeito da irredutibilidade de cada um dos seus elementos. A semana passada uma colega começa a falar de uma pessoa que ambos conhecemos. Bastaram uns segundos para que a mesa de pé de galo no interior da minha cabeça trouxesse à presença Thomas Gradgrind, personagem de Tempos Difíceis. Isto, claro, de novo, sem existir qualquer ligação entre ambas. Percebo, a partir destes dois movimentos do meu espírito, o modo como a arte, neste caso pintura e literatura mas podendo ser outra qualquer, se pode tornar modelo, paradigma, arquétipo da própria realidade, que se submete e passa a ser compreendida em função daquela. Considero a ideia deveras estimulante mas não posso deixar de ficar preocupado. Porque no fundo é a ideia que atravessa todo o Quixote e embora fosse a partir da conversão interior do Engenhoso Fidalgo que este começou a viver a sua vida de modo empolgante, isso é motivo suficiente, por razões que me parecem mais que óbvias, para não deixar uma pessoa descansada. Mais ainda quando já se chega à fase de perceber o modo como se submete a realidade à arte, recorrendo-se à personagem cervantina, num algo barroco jogo de espelhos que, por razões que não me parecem menos óbvias, tem tanto de cómico como de sinistro.

13 julho, 2019

Eu não acho o mundo particularmente interessante. Mas pronto, é nele que vivo, tenho por isso que lhe dedicar alguma atenção, motivada pelo meu egoísta instinto de sobrevivência. Ora, isso faz com que tenha de estar a par das notícias como quem toma diariamente comprimidos para a tensão, o reumatismo e a diabetes. Grande parte das notícias faz-me lembrar uma das cartas escritas por Descartes, neste caso, em Egmont, à sua excelsa amiga Elisabete, princesa da Boémia, que se encontra numa estância termal, no dia 21 de Julho de 1645. A meio da carta, escreve o filósofo:

«Imagino que a maior parte das cartas, que recebeis de outros locais, vos dão emoção e, mesmo antes de as lerdes, receais encontrar nelas notícias que vos desagradem, devido a que a maldade da fortuna vos acostumou, há muito, a receber tais notícias com frequência; mas quanto às que vêm daqui, podeis estar segura pelo menos de que, se não vos derem motivo de alegria, também não vos darão nenhum  motivo de tristeza, e de que podereis abri-las a qualquer hora sem temer que elas perturbem a digestão das águas que estais a tomar. Pois, não sabendo nada, neste deserto, do que se passa no resto do mundo e não tendo pensamentos mais frequentes do que aqueles que, representando-me as virtudes de Vossa Alteza, me fazem desejar vê-la tão feliz e contente quanto merece, não tenho mais nada para vos propor a não ser os meios que a filosofia nos ensina, a fim de alcançar esta felicidade suprema, que as almas vulgares esperam em vão da fortuna e que só poderíamos receber de nós mesmos.»

Muito poderia ser dito a respeito da correspondência entre o filósofo e a muito inteligente e culta princesa. Mas o que agora me interessa é a passagem em que ele se refere a um local onde nada se sabe do que se passa no resto do mundo. O meu impulso foi logo tentar enfiar-me na cabeça de um homem culto do século XVI que refere um local onde do mundo nada se sabe. O que quer exactamente isso dizer? Vejamos. Estamos num século sem carros, motas, comboios, aviões, televisão, rádio, telégrafo, telefone, Internet ou jornais tal como os conhecemos hoje. Ora, o que será na cabeça de um homem culto e informado do século XVII, saber o que se passa no mundo? Que coisas se saberão em Paris a respeito do que se passa em Londres? E em Londres a respeito do que se passa em Berlim? Saber-se-á de uma árvore arrancada pelo vento e que matou 5 pessoas? E até que parte do mundo se sabia o que se sabia? E quanto tempo se demorava a saber? O que foi saber em S. Petersburgo do terramoto de Lisboa? Sim, eu sei, estou a exagerar, é muito longe. Mas em Paris? Voltaire em Paris a saber do terramoto? Mas mais perto ainda, em Bragança? O que se soube em Bragança a respeito do terramoto de Lisboa e no Algarve? E sobre o que se passou em Vestfália, em Austerlitz ou nas Barricadas de Paris?  O que se sabia naqueles momentos em que a história é lavada e centrifugada? E quanto tempo depois se sabia? Seja qual for a resposta, sabia-se do mundo o que provavelmente seria preciso saber. Transposto para os tempos modernos, e mantendo as proporções, talvez equivalesse  ao velho e único telejornal de meia hora de outros tempos, em que o mundo estava reduzido ao que precisávamos de saber sobre ele. Infelizmente, o resto do mundo de que fala o filósofo transformou-se cada vez mais nos restos do mundo.

A frase de Pavese continua a ser bonita, se bem que já um pouco enjoativa pelo uso excessivo. Mas será sempre útil nem que seja para nos lembrarmos que o mundo é suficientemente grande para haver sempre lugares aonde não calha irmos para sermos felizes e, sendo assim, aos quais também não poderemos voltar.

12 julho, 2019


Os dias são feitos de espuma, a mesma que vemos aparecer e desaparecer quando molhamos os pés na praia. Um dia pode parecer uma eternidade no Ulisses de Joyce mas não passa de um fugaz clarão. Um ano, sim, já tem alguma substância e numa década o tempo ganha ainda mais solidez. Daí falarmos em «anos 20», «anos 40» ou «anos 60» com uma identidade ou personalidade como se fosse um João ou um Manuel. Mas por vezes temos de esticar a década em décadas para entendermos certos paradigmas sociais ou culturais. Por exemplo, a importância cultural da França na segunda metade do século XX. Claro que há a swinging Londres dos anos 60, as loiras liberalidades nórdicas, a belisssima e alegre Itália (ou a parte de Itália que pode ser belissima e alegre), o duelo spaghetti entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental. Sim, tudo isso, marcou a Europa do pós-guerra mas seria a França a marcá-la como mais ninguém, tornando-se na sua Meca cultural e simbólica como já havia sido nos séculos XIII ou XVIII. Claro que não acabo de descobrir a pólvora mas voltei a lembrar-me disso por causa do primeiro parágrafo do editorial do Le Figaro [aumentar] de hoje. Há uma maneira de pensar, de escrever, de debater, de continuar obsessivamente a viver dentro de uma linguagem que, cada vez mais, é em França que se pode observar. Não por acaso, é lá que filósofos e outros intelectuais continuam a ser figuras públicas, entrevistados em jornais, revistas, televisão, rádio, ou a aparecerem em livrarias títulos e temas que já não se vêem em mais lado nenhum.

A maneira como o editorialista se refere à morte não é um acaso resultante da sua pessoal idiossincrasia. Não, é francesa. Em França a morte ainda não se encontra em registo pragmático, aquela coisa chata que nos vai impedir de frequentar as melhores praias, restaurantes e esplanadas anunciadas em capas de revistas e dar cabo de todos aqueles felizes momentos que eternizamos em selfies que irão durar três segundos no Facebook ou no Instagram. Não, como para um grego, um medieval, vá, como para toda a gente até recentemente, a morte, tal como os seus pressupostos filosóficos e antropológicos, continua a ser em França um mistério e um mistério passível de ser pensado e escrito, obrigando desse modo a tornar a vida ela própria um mistério passível de ser pensado e escrito. Temos de admitir que a França está culturalmente moribunda para o resto do mundo. Mas se houve um tempo em que Paris e a França se tornaram sensuais pelas luzes que atraíam o resto do mundo como mosquitos, Paris e a França continuam a ser hoje sensuais mas pelo glamour da diferença e de uma patine que aumenta quanto mais o tempo caminha veloz para o futuro.

11 julho, 2019

Palavras e expressões detestáveis ou simplesmente irritantes (9):

Cenário dantesco

Triste destino o das pessoas que chegam ao fim da vida com uma sensação de derrota. Mas também não invejo o de algumas cujas vitórias as levam um dia a ter vontade de dizer o que disse Pirro, o célebre comandante grego: «Mais uma vitória destas e estamos perdidos».

10 julho, 2019

Um dos meus contos preferidos de Nabokov chama-se 'Acasos'. Rapidamente: um casal russo, marido e mulher, estão há anos sem saberem do destino um do outro após uma separação forçada na sequência da revolução. Um dia, sem o saberem, fazem uma viagem no mesmo comboio e é por um triz, um insignificante acaso, que não se encontram na carruagem-restaurante desse comboio. Se tivesse acontecido teria sido uma enorme coincidência resultante de vários acasos. Mas foi também devido a vários acasos que, por um milimétrico triz, não aconteceu. E pronto, pouco depois desse dia ele morre enquanto ela continua o seu caminho à procura dele, sem chegarem a saber terem estado um dia a poucos metros um do outro, no mesmo comboio.

Eis, pois, a melancólica ideia do que num chega a acontecer devido a um pequeno acaso e sem saber que aconteceu não ter acontecido. Os fios que o acaso tece são surpreendentes quando ocorrem as mais improváveis coincidências. Basta um segundo a mais ou a menos, um metro a mais ou a menos ou virar à direita em vez de à esquerda, para acontecer o que nos leva depois a dizer, perplexos «Caramba, mas que grande coincidência!». O que não nos passa pela cabeça é o que nunca chegou a acontecer também por mera coincidência, aquilo que por um segundo a mais ou a menos, um metro a mais ou a menos ou virar à direita em vez de à esquerda, teria acontecido mas não aconteceu. Como naquele casal, isso nunca nos passa pela cabeça, nem poderia passar. Como diria Parménides de Eleia, não se pode pensar o que não é, não há pensamento ou discurso para o que não existe.

Cada pessoa tem o seu currículo de coincidências para contar, algumas delas impressionantes. Mas tão impressionantes como essas são as muitas coincidências que fazem com que não aconteça uma coincidência que teria mudado o rumo das vidas, sem termos sequer consciência de que as vidas são o que são também pelo que nunca chegou a acontecer. Nós somos o que somos mas o que somos é muitas vezes também uma negação do que estivemos para ser e que só não fomos por certos acasos. Para além de sabermos o como e porquê de muita coisa que muda, há também muita coisa que não muda sem sabermos como e porquê, porque nunca chegamos a ter consciência do que não chegou a acontecer. Para nós, que só temos olhos para o que é, nada mudou. Mas para quem tem olhos para o que é e o que não, como é o caso de Deus ou de um romancista, a perspectiva será sempre diferente. Mas ainda bem que temos a perspectiva humana. É bom saber mas melhor ainda ignorar.

08 julho, 2019

Não. O grande acontecimento da semana passada não foi o jogo das cadeiras entre a França e a Alemanha ou entre as principais famílias políticas europeias mas a misteriosa capa da Paris Match onde Sarkozy surge mais alto que Bruni. Entretanto, na sequência deste alturagate o PÚBLICO coloca esta magna quaestio. A pergunta surpreende num jornal em que o seu director, por causa de um polémico artigo de Maria de Fátima Bonifácio acaba de escrever um editorial em que lembra o facto do seu jornal ser contra qualquer discriminação. Esqueceu-se, todavia, de que a sua pergunta já é em si discriminatória. É como perguntar: pode um cigano tirar o curso de Engenharia Aeroespacial? Pode um afrodescendente entrar num anúncio publicitário da Mercedes? Pode uma lésbica ser ministra da Defesa? Pode um telejornal ser apresentado por um maneta? 

Ora bem, uma coisa é as mulheres gostarem de homens altos, pronto, é assim mesmo e as coisas são o que são. Outra será admitir em abstracto a possibilidade de terem de andar com um homem mais alto. Uma mulher pode gostar de homens loiros e não ter de andar com um, de homens que falem cinco línguas e não ter de andar com um, gostar de homens que não ressonem e não ter de andar com um. Eu também gostaria de não ter alunos parvos e tenho de os ter. Porquê então admitir a possibilidade de ter de andar com um homem mais alto só porque o aprecia? Enquanto membro do clube dos baixotes, tendo a mesma altura que Sarkozy, alerto assim para esta infame discriminação entre discriminações de primeira, mediáticas e ideologizadas, e discriminações de segunda, silenciosas mas não menos perniciosas. Toda a gente alerta para a discriminação racial ou sexual mas alguém se preocupa connosco, os que já foram discriminados à nascença pela lotaria genética? Quando o próprio PÚBLICO vem com aquela conversa, estamos esclarecidos.

Assim, para impedir esta dupla discriminação, exijo, como se pretende noutras discriminações, uma discriminação positiva para mulheres com homens mais baixos ou para homens com mulheres mais altas. Dentro das próprias cotas para mulheres nas listas partidárias, haver cotas para mulheres que sejam mais altas do que os homens. Para aceder a cursos superiores, reservar vagas para raparigas que sejam maiores do que os namorados ou rapazes mais baixos que as namoradas. E em candidaturas para emprego, reservar sempre uma ou duas vagas para pessoas nessa situação. Já não se pode ouvir falar no défice de mulheres, de afrodescendentes, de ciganos ou de LGBT+ em funções socialmente valorizadas. Tenho todo o respeito por todos eles (e elas, como agora se diz) mas de nós ninguém se lembra. Se, porventura, calhar existir um ser humano que é mulher, afrodescendente e tiver um namorado ou marido mais  baixo do que ela, nesse caso, deverá passar à frente de todos (e de todas, como agora se diz). Não faz sentido, em pleno século XXI, discriminações de qualquer ordem. Devemos caminhar para a igualdade, sim, mas não aquela soviética igualdade de uns serem mais iguais que outros, a qual subsiste numa espécie de ranking das discriminações. Sim, as discriminações são todas iguais  mas umas são mais iguais que outras. Não pode ser.

07 julho, 2019

Pouco antes do ano lectivo acabar, tinha uma turma a fazer trabalhos de grupo. Uma aluna chama-me para ler uma parte que haviam escrito. Eu leio, digo que está muito bem mas para fazer o favor de corrigir a palavra «mudificar». Ela mostrou-se surpreendida mas admitiu ter hesitado ao escrevê-la, explicando a sua opção pelo facto de se escrever «mudar» e não «modar», e sendo palavras com a mesma origem e significado, fazia mais sentido optar pelo «u» em vez do «o». Eu não gostei de ver o erro nem a sua pertinente justificação a redime do erro. Mas achei a justificação interessante, levando-me depois a considerar que é possível haver alguém que erra com base numa justificação sensata, tal como fazer o que é aceite como correcto mas sem pensar ou saber justificá-lo.

Continuemos na escrita. Não aprendemos a escrever através de um processo racional, ao longo do qual vamos, como um cientista, aprendendo e dominando regras para depois as aplicar. Direi mesmo que aprender a ler e escrever, mais do que um processo lógico e linguístico é um processo icónico. Qual a explicação lógica ou linguística que damos para escrever «colher de sopa» em vez de «culher de sopa» e «custo justo» em vez de «costo justo»? Eis a verdade: Nenhuma. Haverá, mas não a temos nem precisamos dela para aprender a escrever e ler. Aprendemos, porque olhamos para as palavras não como signos linguísticos mas como imagens que memorizamos tal como objectos, paisagens ou rostos de pessoas. Nós lemos (vemos) várias vezes «colher de sopa» e passamos a escrever «colher de sopa». Quer isto dizer que ao elogiarmos alguém por escrever sem erros ou ao ficarmos indignados com alguém por dar erros, se trata de uma reacção centrada em aspectos mecânicos e passivos que resultam de uma maior ou menor força do hábito nesse processo de aprendizagem.

Ora, acontece com aspectos de natureza moral e social o mesmo que acontece com a língua. Fazemos e não fazemos muitas coisas por acreditarmos que é isso que deve ou não deve ser feito. Mas se nos perguntarem porque é ou não bem feito, não sabemos explicar. Fazemos o que fazemos por imitação, por força do hábito, não fazendo outras apenas porque não tivemos modelos para imitar. Mas também acontece haver pessoas que fazem coisas que consideramos erradas mas se quisermos mesmo explicar por que agem de maneira errada a nossa única explicação reside no facto de não ter sido essa a maneira como aprendemos, do mesmo modo que dizemos que «culher de sopa» está errado porque não foi a palavra que nos habituámos a ver ou que há qualquer coisa de errado no rosto de uma pessoa branca que pintou a cara de preto. Daí poder haver pessoas que agem de maneira que consideramos errada, mas que o fazem de um modo racional, ponderado, consistente, ao contrário da maioria, que age de maneira consensualmente entendida como sendo a correcta mas que apenas se limita a imitar o que os olhos viram. 

05 julho, 2019


O que é assustador nesta fotografia disparada por Alfred Eisenstaedt em 1933? A sua terrível normalidade. Este Goebbels não é aquele vendido pela propaganda, em Berlim ou na varanda de Berghof a apanhar os ares da montanha, aquele ao lado dos seus loiros rebentos ou da sua germaníssima mulher. Goebbels está simplesmente no Carlton Hotel de Genebra durante uma vulgar Liga das Nações, antes de fazer uma vulgar conferência de imprensa, radiofónica pois ainda não há televisão. Em suma: um político, como os seus homólogos franceses, ingleses ou holandeses, talvez um pouco diferente por ter estudado Literatura e Filosofia. Mas foi este mesmo político que, neste ano de 1933, faria na bonita cidade de Nuremberga o discurso no qual avisa que a paciência em relação aos judeus está a chegar ao fim, o mesmo político que viria a proferir o célebre discurso no Palácio de Desportos de Berlim no qual, quase vomitando os pulmões, pede a Totale Krieg.

A minha questão agora é a seguinte. Será que ao vermos em Julho de 2019 políticos que já obtiveram democraticamente o poder ou em vias disso, fortemente nacionalistas, racistas, xenófobos, com uma visão agónica das relações internacionais e tendo na sua agenda conteúdos que divergem do projecto racionalista/iluminista europeu, poderemos olhar para a sua normalidade em conferências de imprensa, em reuniões internacionais, na sua diária actividade política como olhamos agora, e só agora, para esta fotografia de Goebbels? Ou seja, vermos o ovo ainda antes da serpente?

Devemos ter cuidado com as comparações, poupando os excessos para quando chegar mesmo a sua vez. Estes políticos não são fascistas como Primo de Rivera, Goebbels, Mussolini ou Mosley. Nem projectam qualquer tipo de revolucionário fascismo. Ao contrário do que se diz, e do que parece, a história não se repete. Pode haver fenómenos parecidos mas não iguais pois o mundo nunca é o mesmo. Mas é importante saber que a serpente é traiçoeira e que o veneno pode vir sempre de onde menos se espera. Estes políticos são pessoas normais mas também é verdade que é quase sempre de pessoas normais, ou que julgávamos normais, que vêm os actos mais hediondos. Actos que mudam a ordem estabelecida e que para os entender devemos ir a montante, ao antes de as coisas acontecerem, ao momento em que tudo é ainda tão normal que se torna inconcebível. Depois de tudo acontecer, então sim, há sempre uma explicação para o que aconteceu. É o ovo de Colombo a explicar o ovo da serpente. Desafiante é o contrário: compreender o excesso, o desvio, o desvario da razão no seio da invisível normalidade. E assim compreender melhor a radicalidade do mal, ab ovo, antes de vir à superfície.
Pode a ficção literária ser mais real do que a realidade? Sim, pelo modo como essa ficção, através de personagens como Macbeth, Jean Valjean, Julien Sorel ou Emma Bovary se torna arquétipo de múltiplos, efémeros e contingentes seres humanos que existem na vida real, dando-lhe uma unidade universal e imutável e que passamos a compreender melhor. Enquanto criações ficcionais não têm corpo, voz ou rosto. São ideias puras com uma aparência física imaginada por um escritor. E a imagem da imaginação não é a imagem da visão. Não construímos a imagem de Quixote e de Pierre Bezukhov como a de Napoleão ou de Carlos, que existiram e cujos retratos observamos, ao contrário dos primeiros. A literatura cria, pois, personagens puras enquanto ideias empiricamente vazias mas que surgem como substâncias sensíveis, graças ao material empírico que possuímos antes de os conhecer. Dai imaginarmos Macbeth através de pessoas que conhecemos. Macbeth é uma ideia pura, vazia mas que ganha substância física graças a uma prévia experiência empírica que temos do mundo.

O mesmo se passa com a fotografia e de um modo não menos interessante. A fotografia, na sua forma mais directa, é uma arte mimética. A máquina dá-nos a realidade tal como ela é, como acontece com este médico fotografado por W. Eugene Smith em 1948, após a morte de uma mulher e do seu bebé durante o trabalho de parto. Ao contrário das personagens literárias, este médico tem uma realidade empírica. A sua tristeza, o motivo, o país onde acontece e o tempo em que aconteceu. Dito isto, parece assim não fazer sentido defender o que disse inicialmente sobre a fotografia surgir como arte arquetípica e ideal, tal como a literatura. Acontece porém que tal se torna possível ao congelar ínfimos instantes dessa realidade. A realidade humana é essencialmente movimento. Ora, ao congelar esse movimento, a fotografia acaba por conseguir transformar o movimento natural numa essência ideal. Um processo parecido com o da pintura mais naturalista ou realista, só que ainda mais radical, pois enquanto na pintura existirá sempre uma distância ontológica entre o quadro e a realidade (haverá sempre distância entre o Carlos V de carne e osso e o Carlos V pintado por Ticiano), a fotografia reproduz mimeticamente a tristeza do médico. 

Com esta fotografia, este médico deixou de ser um simples médico num momento pós-operatório de um hospital americano em 1948, para se tornar um ícone e um ícone no sentido quase religioso. Vendo bem, grande parte do melhor fotojornalismo consegue esta elevação a um plano eidético. Os factos históricos e contingentes adquirem assim um plano transcendente, tornando a arte fotográfica num território onde, como na literatura, só que de um modo ainda mais paradoxal, pensamento e sensação, ideias e imagens, inteligência e sensibilidade, conseguem uma bela e eloquente combinação. A fotografia não é uma disciplina filosófica. Mas, graças a esse plano ideal, pode surgir como propedêutica filosófica, criando uma ponte entre o entendimento e a sensibilidade. Conceitos sem intuições serão vazios, como dizia Kant. Graças à fotografia esse perigo será certamente  menor

04 julho, 2019


Há tempos, precisando de explicar algumas coisas sobre a teoria da justiça do filósofo norte-americano John Rawls, achei por bem começar pela ideia de «estado social». Assim, para comparar o nosso mundo antes e depois dele, pedi meia dúzia de características da vida social no século XIX.        Silêncio.      Vá lá, qualquer coisa que lhes venha à cabeça.       Silêncio.       Ah, finalmente, uma resposta: no século XIX ainda não havia Internet. Sim, é verdade, mais verdadeiro não poderia ser. E penso no desperdício que é ter agora para ali um tijolo com setecentas e tal páginas sobre a sociedade vitoriana. Um trambolho que apenas serve para ocupar espaço e ganhar pó. Na era da Internet a realidade tornou-se bem mais simples, e, sendo mais simples, tornou-se também mais simples de compreender. Havemos de chegar a um ponto em que a realidade deixará de existir e então, para grande alívio de todos nós, já nada haverá para compreender.



03 julho, 2019


Na capa do jornal I de ontem vinha o seguinte: «Prédio Coutinho - Tribunal para despejos num dia em que uma morte trava uma vitória». Graças a Deus, não entendo grande coisa de tribunais mas ainda assim, e apesar de existirem de vários tipos (Judiciais, de primeira instância, etc.) achei estranho existirem tribunais especificamente para parar despejos. Ocorrendo-me então que poderia ter alguma coisa que ver com o AO, recorri ao Ciberdúvidas para esclarecer o assunto, dando com esta dúvida. Aceito que o esclarecimento está muito bem conseguido mas o seu clímax argumentativo é quando se afirma que o cérebro tende a encontrar o sentido mais coerente da palavra. Fiquei estarrecido. E fiquei estarrecido porque o que eu li foi «Tribunal para despejos num dia em que uma morte trava uma vitória» tendo o meu cérebro logo pensado num «Tribunal para despejos num dia em que uma morte trava uma vitória». Quer isto dizer que o meu cérebro não funcionou e se o meu cérebro não funcionou tenho fortes razões para ficar preocupado pois gostaria de ter o cérebro a funcionar durante os anos que me restam. Eu sei que para os cérebros das crianças e jovens de hoje é um exercício giro e sobretudo estimulante. E se muitos não sabiam ler e escrever, é verdade que, de um dia para o outro, através de um milagre legislativo, passaram a saber. Mas isso são eles, que têm cérebros fresquinhos e bem afinados, na flor da vida cerebral. Agora, para pessoas como eu, com uma vida cerebral já algo gasta pelo peso dos anos, o que aí vem, no que à leitura diz respeito, não vai ser bonito de se ver. Sem assentos, só me resta mesmo andar aos trambolhões.


Um grande consolo que nos é dado pelos clássicos a respeito da morte é sabermos que por lá seremos todos iguais e que não haverá uns mais iguais que outros como no socialismo real. Ricos e pobres, galantes e andrajosos, bonitos e feios, inteligentes e indigentes, WASP's e imigrantes, tudo isso deixa de fazer sentido. No começo do reino de Zeus os vivos eram julgados pelos vivos para decidir quem iria para as Ilhas dos Bem-Aventurados ou para o Tártaro. Considerou Zeus que ninguém deveria ser julgado com as roupas e ornamentos de modo a não se tornarem mais, ou menos, sedutores perante o juiz, indo mesmo mais longe, defendendo que a alma de alguém deve ser julgada, não estando alojada num corpo cuja beleza ou fealdade pode condicionar o processo. Daí serem julgadas apenas depois da morte. A morte nem é socialismo real nem socialismo irreal. É o mais puro e genuíno socialismo. O seu único mas não pouco importante inconveniente é nenhum morto o saber.

02 julho, 2019

Para pensar na felicidade é útil regressar à classificação dos desejos feita por Epicuro. Ele fala em três tipos de desejos: os que são naturais e necessários (comer, beber, dormir), os que são naturais mas não necessários e os que nem são naturais nem necessários (fazer uma tatuagem ou ser seguidor da mãe do Cristiano Ronaldo no Facebook).  Não me esqueci de dar um exemplo dos segundos. Só que merecem uma atenção especial. 

Se retirarmos o que há de mais básico no ser humano, nada é natural nem necessário. Por exemplo, ler um romance de Tolstoi ou ver um filme dos Monty Phyton não é natural e necessário como comer ou dormir. Mas há pessoas para quem, em virtude da sua identidade, ler um livro ou ver um filme se torna tão natural como um cão enterrar um osso. Pode parecer um desejo artificial, mas ser humano, ao contrário do animal, é também transformar o artificial em natural. Acontece haver pessoas que não gostam de ler livros, preferindo treinar karaté, pescar ou ver futebol. Não tem nada de mal pois nem toda a gente tem de gostar de ler livros. E se para quem gosta de ler livros será doloroso não satisfazer o seu desejo, também para outras pessoas o será não ir à pesca, praticar karaté ou ver futebol. Porque embora nada disto seja natural, elas tornaram-no natural, ainda que não necessário.

Significa isto que tudo se torna natural só por o desejarmos? Não. Por isso cada um tem de procurar dentro de si a resposta para as seguintes questões: o que é mesmo importante para mim? Que desejos vou querer como sendo naturais para mim? De acordo com a minha identidade, de quais desejos não posso prescindir, sob pena de me tornar infeliz? Façamos o seguinte exercício: Deus aparece à nossa frente, dizendo que vamos morrer no dia seguinte. Ficamos em pânico e imploramos que não nos deixe morrer já. Deus diz então que nos poupa a vida na condição de ficarmos reduzidos a satisfazer apenas seis desejos para além das necessidades básicas. Nada mais podemos desejar sob pena de, logo a seguir, morrermos fulminados com um ataque cardíaco. Ou seja, temos a liberdade de desejar o que acreditamos ser o que nos faz verdadeiramente felizes, deitando fora o que não representa qualquer dano para a nossa felicidade. Agora, é só pegar num lápis e numa folha de papel, fazer o exercício e ver então o que devemos mesmo desejar para sermos felizes. Na volta, é mais fácil do que parece.

Pronto, algum dia iria chegar aquela fase da vida em que os filhos, algo embaraçados, nos dizem «Sim, pai...já sabemos...», «Sim, pai...já contaste...», «Sim, pai...já tinhas dito...». Dizem os entendidos no assunto que, logo a seguir à saúde, a mais importante condição para se ser feliz é saber esquecer, ter uma péssima memória. A ser verdade, tenho então um futuro radiante à minha frente.

01 julho, 2019

ÓRGÃOS VITAIS (7)

O peso da ária Tu che di gel sei cinta, da Turandot, derradeira ópera de Puccini, cantada por Liu antes de se suicidar, não está apenas em ser esmagadoramente bela. Pelo menos para mim, limita bastante a alegria do final, quando vemos derreter-se um inquebrantável bloco de gelo chamado Turandot para se converter ao amor. Mas há ainda duas outras razões, extra-musicais  (haverá uma terceira, musical, mas que não vem agora ao caso), que a tornam especial. Quando compõe a Turandot o compositor já estava muito doente, falecendo precisamente no momento em que escrevia a ária, sendo a obra depois concluída por Franco Alfano, um compositor menor, a partir de alguns esboços deixados por Puccini. Quem não gostou mesmo nada dos acabamentos foi Toscanini, que dirigiu a obra na sua estreia em 1926. E mais enfático não poderia ser: no momento em que Maria Zamboni acaba de cantar a sua pungente ária, caindo no chão, moribunda, o maestro interrompe a actuação, vira-se para o público e informa que a obra termina ali. Sinceramente, o que estão a sentir muitos professores, sobretudo os mais velhos, que foram para o ensino por genuína vocação, é o que sentiu Toscanini naquela noite de estreia no Scala de Milão. Apetece-lhes parar, enfiar a batuta no bolso, anunciar que o espectáculo terminou e que venham outros se quiserem para continuarem esta triste obra agora escrita por compositores menores. 

27 junho, 2019



«Tinha o nariz um pouco grande mas bonito, aquilino; um buçozinho ligeiro matizava-lhe o lábio superior; a tez, porém, era de uma cor regular, mate, como o marfim ou o âmbar leitoso. O lustro do cabelo ondulado lembrava a Judite de Allessandro Allori no Palácio Pitti». Ivan Turguénev, Águas  da Primavera


Uma das coisas que sabem as pessoas que de Platão pouco sabem é a sua veemente rejeição da arte e dos artistas. Homero seria um bom exemplo para ilustrar a sua raivinha de estimação mas vou antes lembrar a célebre história em que Zêuxis e Parrásio disputam o título de melhor pintor. O primeiro pinta umas uvas tão reais que os pássaros se atiraram a elas para as comer. Grande artista, portanto. Quando depois se dirige ao estúdio de Parrásio este pede-lhe para afastar a cortina que permitia ver a sua pintura. Ao fazê-lo, Zêuxis descobre ser a cortina pintada. Grande pintor, portanto, rindo melhor por ser o último. Eis uma história engraçada mas à qual Platão não acharia piada. Porque mostra o pior da arte, a sua verdadeira essência: mentira, aparência, ilusão. Ao contrário do cientista (o conceito é anacrónico, não existe em grego antigo mas serve para facilitar) cujo trabalho consiste em usar a razão para produzir conhecimento, o artista usa os sentidos para criar simulacros. Platão nunca foi ao cinema nem ao Japão mas foi certamente das primeiras pessoas a ficar chocada com o império dos sentidos. Porquê esta raivinha face aos sentidos e que viria a marcar a história intelectual do Ocidente?

É contra-intuitivo e vai contra o senso comum mas para o filósofo uma ideia é mais real do que uma coisa. Pensemos numa árvore. Uma árvore é mutável, corruptível, contingente (pode ou não existir) dispersando-se na multiplicidade (oliveiras, macieiras, sobreiros, carvalhos, grandes, pequenas, folha caduca, folha persistente, etc). Se a árvore que vemos diante dos nossos olhos pode estar reduzida a cinzas minutos depois, isso já não pode acontecer com a ideia de árvore. Podem todas as árvores acabar, o próprio mundo acabar mas a ideia de árvore subsiste na sua inteligível pureza: imutável, incorruptível, necessária, una, absoluta. Conhecer é conhecer o que "é" através da razão, não o que tanto pode ser como deixar de ser através dos sentidos. Conhecer é conhecer o universal através da razão não o particular através dos sentidos. Se eu disser que uma árvore é uma planta que dá laranjas estarei a cometer um erro pois se é verdade que algumas árvores dão laranjas, não é menos verdade que outras não as dão. Neste sentido, as árvores físicas não passam de cópias imperfeitas e aparentes da ideia de árvore, a única que verdadeiramente "é". Sem espinhas, diríamos hoje. Ora, o que faz o artista? Ao pintar uma árvore a partir da árvore que vê à sua frente, está a produzir uma cópia de uma cópia. Se a árvore física já é uma aparência da verdadeira árvore, a árvore do pintor ainda é mais aparente por se afastar ainda mais da primeira. Eis a razão porque Platão vê os artistas (inclui os poetas) como inimigos do conhecimento, sendo, sobretudo, criadores de ilusões, falsidades, aparências.

Turguénev descreve uma mulher, Gemma Roselli: nariz, cabelo, lábio superior, a sua pele. Acontece que esta mulher não existe, resulta apenas da sua literária imaginação. No entanto, num gesto de boa vontade, e porque uma imagem vale mais do que mil palavras, ajuda o leitor a aproximar-se da verdadeira identidade física de Gemma, através de um retrato de Judite pintado por Cristofano Alfari [o escritor enganou-se, tendo confundido o filho com o pai, também pintor]. Organizemo-nos: Judite, figura lendária, tem a sua história contada por um judeu palestino, anónimo, algures entre começos do século I e segunda metade do século II, integrando o cânone da Sagrada Escritura a partir do século IV, tendo o original, escrito em aramaico, desaparecido. Entretanto, o retrato dessa mulher vai surgir pela imaginação de um pintor italiano do século XVII, o qual, por sua vez, serve de modelo para uma mulher criada pela imaginação de um escritor russo do século XIX, ajudando assim um português do século XXI a aproximar-se da verdadeira identidade física de Gemma Roselli, que não existe. Estamos, em suma, perante um complexo jogo de espelhos, algo barroco, que iria deixar Platão absolutamente horrorizado. Consigo mesmo imaginar o seu esgar de repulsa. Mas também podemos ver a coisa por outro prisma: onde Platão, com repulsa, vê falsidade, ilusão, aparência, podemos ver nós a verdadeira riqueza da arte. "Humanity cannot bear very much reality"? Graças aos artistas, sejam eles escritores, pintores, escultores, cineastas ou compositores, ficamos bem mais aliviados desse peso.