24 março, 2019


Uma interessante discussão no PÚBLICO entre dois políticos, Francisco Assis e Paulo Rangel (abençoado jornal que ainda permite destas discussões neste tempo de indigência) a respeito do significado do conceito de Vontade Geral apresentado por Rousseau, levou-me a pegar de novo no Contrato Social. Entretanto, numa parte em que o filósofo aborda o problema da escravidão, afirma o seguinte:

«Os escravos tudo perdem nas suas grilhetas, até o desejo de se livrarem delas; amam a servidão como os companheiros de Ulisses amavam o seu embrutecimento.»


Como já li há bastante tempo a Odisseia, não posso precisar a que situação específica se refere Rousseau ao invocar o embrutecimento dos companheiros de Ulisses. O que me veio de imediato à cabeça foi aquela em que Circe os transforma em porcos. Mas como já não me lembrava da sua reacção, se tinham ou não consciência dela e se amaram ou não o seu embrutecimento, senti-me também impelido a pegar no texto de Homero, no qual está então descrito o seguinte:


«Circe sentou-os em assentos e cadeiras
e serviu-lhes queijo, cevada e pálido mel
com vinho de Pramno; mas ministrou na comida
drogas terríveis, para que se esquecessem da pátria.
Depois que lhes deu a poção e  eles a beberam,
bateu-lhes com a vara, para logo os encurralar nas pocilgas.
Eles tinham cabeças, voz, cerdas e aspectos de porcos,
mas o seu espírito não mudou: permaneceu como era.
E choravam, encurralados, enquanto Circe  lhes lançava,
bolotas, sementes e o fruto da cerejeira para comerem,
coisas de que se alimentam os porcos que dormem no chão.»


Pronto, está visto que não é a este episódio que se refere Rousseau, uma vez que choram em vez de mostrarem entusiasmo pela sua nova condição. Ainda assim, não deixa de ser interessante pensar nele. O que faz sofrer os companheiros de Ulisses é serem porcos com espírito humano. Fossem eles porcos com inteligência de porcos e poderíamos ter os «porcos felizes» de que fala Stuart Mill num famoso texto do século XIX e que é parte importante da agenda filosófica contemporânea. Mas não, a sua infelicidade resulta precisamente do facto de permanecerem mentalmente humanos, o que me levou a um pensamento que não me tem largado nos últimos dias. Olhando à minha volta, sou levado a acreditar que se tal situação ocorresse no presente em vez de lágrimas teríamos então muitos a amar o seu embrutecimento, refestelando-se na lama com as únicas pérolas capazes de lhes dar prazer e alegria. 

20 março, 2019


Em Prodomos, Altenberg dá largas, sob o título «Álcool» à conjectura segundo a qual a borracheira enche «o temível abismo entre aquilo que somos e o que gostaríamos de ser deveríamos ser, temos o dever de ser». Na mesma passagem lê-se, em exacta analogia com o texto de Kafka: «Quando o macaco percebeu que podia vir a ser humano, começou a beber para afogar a dor de continuar macaco.» W. G. Sebald, Pátria Apátrida


Estranha associação, esta, entre Economia e Epidemiologia, mas valha o que valer, não deixa de ser uma associação estimulante. Questionemos então o peso negativo que pode ter hoje a desigualdade social no modo como cada pessoa constrói a sua imagem, tanto para si própria como para os outros.

Quando preciso de explicar aos garotos o imperativo categórico kantiano, costumo perguntar quanto acham que pode valer um micro-ondas, um carro ou uma esferográfica. Ninguém dá 20.000 euros por um micro-ondas mas por um carro já faz sentido, e se 1 euro é absurdamente barato para um micro-ondas, já não o será para uma esferográfica. Isto porque o preço traduz os diferentes níveis de importância e complexidade que as coisas têm para nós. Depois, pergunto quanto acham que pode valer uma vida humana: 500, 10.000, 1.000.000 de euros? Já sei que todos irão dizer que uma vida humana não tem preço mas também sei que aparece sempre alguém a dizer que não é bem assim. Não sei se é sempre Cristiano Ronaldo a vir à baila, mas se não é anda lá perto, comparando-se o seu vencimento com o de uma pessoa normal, como acontece entre um carro e uma esferográfica. Sabendo de antemão essa objecção, também já tenho a resposta na ponta da língua, explicando então que o brutal contraste do seu vencimento com o de um jogador do Belenenses se deve ao seu valor apenas enquanto jogador. Enquanto pessoas, as suas vidas valem exactamente o mesmo, sendo iguais perante a lei, seja esta jurídico-política ou moral. 

Eu digo-lhes isto para os levar a perceber a ética kantiana, puxando pelo seu senso comum, por um exercício natural da sua racionalidade, sabendo também que estou a usar um truque retórico ao confrontar directamente um micro-ondas com um ser humano. De facto, e apesar  de sabermos que, formalmente, perante a lei, somos todos pessoas cujo valor é igual, na prática não é o que acontece no modo como nos vemos uns aos outros e mesmo como cada pessoa se vê a si mesma, a começar por eles, alunos, não agora mas quando forem mais crescidos, sendo mesmo esse sentimento mais forte hoje, em que os níveis de igualdade são maiores, do que num mundo pré-moderno, com brutais níveis de desigualdade. Como explicar?

O moderno Estado Social emancipou o povo: deu-lhe educação, auto-estima e a ideia de mobilidade graças à qual é possível subir na pirâmide social. O que não acontecia antigamente. Uma pessoa nascia pobre e vivia pobre, aceitando tão naturalmente o seu lugar na sociedade como o ano ter quatro estações ou doze meses. Claro que as pessoas lutavam por melhores condições de vida mas não com a ideia de virem a ser iguais aos "senhores", à nobreza, alta ou baixa, à aristocracia ou à burguesia. Poderíamos ter um aristocrata falido e com as calças remendadas, mas continuava a ser alguém com sangue, berço e, não menos importante, com nome, o que para a esmagadora maioria das pessoas seria impossível, nascidas sem sangue, berço ou nome.

 O século XX mudou tudo isso. O avô pode ter sido pobre e analfabeto, o pai não ter andado muito longe disso, mas o jovem de hoje fez a escola, que entretanto se tornou mesmo obrigatória, para vir depois a frequentar os cursos de Engenharia, Medicina, Direito, Economia, Gestão, Arquitectura, ou quaisquer outros que, antigamente, só eram acessíveis a quem estava na metade superior da pirâmide. Por outro lado, a evolução económica, o aumento dos rendimentos, uma maior informalidade social ou, não menos importante, o facto de haver mais contacto ou trocas sociais entre pessoas de classes diferentes, vieram propiciar a ambição de chegar a níveis cada vez mais elevados. Sabemos bem quais os bens de consumo que conferem estatuto social a quem os possui. Sempre se soube, só que, o que outrora era visto como impossível passou a ser entendido como perfeitamente atingível. Claro que existem os grandes tubarões que poucos conseguem imitar. Mas logo a seguir temos aquele nível de riqueza e bem-estar vistos como alcançáveis pela esmagadora maioria das pessoas. Se perguntarmos a jovens que estão a iniciar o seu percurso universitário, se consideram impossível vir um dia a possuir o tal carro que tantos ambicionam, uma casa com cozinha Miele igual à dos filmes americansos, fazer de vez em quando a sua viagenzinha a Nova Iorque ou às Caraíbas, ter uma boa garrafeira, poder entrar naqueles restaurantes da moda onde as pessoas têm de saber sentar-se à mesa ou pegar nos talheres, ou ser aprovado à entrada de certas discotecas por porteiros exigentes, poucos darão uma resposta negativa.

É por isso que os níveis de ansiedade social são hoje mais elevados. Não é apenas por se ter menos dinheiro do que aquele que se gostaria de ter. É também porque isso condiciona o modo como nos sentimos mais, ou menos, valorizados, enquanto pessoas, não no sentido formal ou profissional, mas humano. Esse valor é sempre relativo e a comparação nunca é feita entre o neto de hoje e o pai de ontem ou o avô de anteontem. Fosse isso e andaríamos todos satisfeitos, pois temos mais dinheiros, possuímos mais bens, temos mais saúde, educação, divertimo-nos mais e trabalhamos menos e com melhores condições. Mas não é isso que acontece. O que acontece é, na empresa, as pessoas do 1ºandar olharem para as do 2ª, estas para as do 3º e assim sucessivamente. O objectivo não tem de ser o último andar, demasiado difícil, mas pelo menos subir dois ou três. A ideia é sempre subir e, se tal não acontecer, continuaremos  presos aos dos andares de baixo. Vale-nos ter as revistas cor-de-rosa para sabermos como os dos andares de cima decoram as suas casas, as marcas de roupa que vestem, os restaurantes onde vão comer, as praias onde apanham Sol, os nomes que dão aos filhos, etc., para depois os imitarmos, dando assim a ilusão de se partilhar essa realidade social. Mas não chega, uma vez que mesmo tendo filhos com nomes que estão na moda e usam roupa e calçado das marcas exigidas, com a toalha de banho estendida a poucos metros ou tendo o seu momento de glória por ter jantado a algumas mesas de distância de alguém importante, volta-se depois à frustrante realidade de estar mais abaixo.

Não temos suficiente capacidade de abstracção ou de fazermos um exercício racional que permite, filosoficamente, juridicamente, constitucionalmente, separar, como fazem os meus alunos, quando confrontados com uma relação directa, coisas e pessoas, independentemente do estatuto que cada uma apresenta perante a sociedade. No altamente competitivo mundo moderno, onde quase todos podem competir, a nossa cotação no mercado não é apenas profissional para distinguir o preço de CR do preço do jogador do Belenenses, atingindo também o modo como representamos socialmente as pessoas que existem para além do seu trabalho e posição social. 

18 março, 2019


Uma coisa que acontece muito com os clássicos é lá encontrarmos ensinamentos e conselhos de ordem prática. Textos onde a complexidade especulativa é substituída por uma económica simplicidade, como se se tratassem de vozes amigas sussurrando aos nossos ouvidos para nos ajudarem com os seus sábios conselhos. Pensando nalguns filósofos antigos, encara-se a filosofia como uma medicina da alma a qual explica os perigos que espreitam em cada excesso ou na displicência que desviam os seres humanos de uma vida feliz ou de uma vida boa. Ora, para isso, um filósofo tem que se fazer entender, tem que ser pedagógico, evitando veleidades esotéricas e especulativas. Linguagem clara e sugestiva, frases curtas, escrever como quem conversa à lareira.

Actualmente as livrarias estão inundadas de livros que tentam seguir essa antiga tradição que mistura filosofia e religião mas confesso que sempre que vejo a etiqueta "espiritualidade" apetece-me logo puxar a pistola. Existe hoje uma pulsão espiritualista e moralista que parece herdeira dos antigos gregos e romanos, misturada com uns pós evangélicos. Porém, a experiência de ler esses pseudo-filósofos ou pseudo-escritores é bastante diferente daquela de lermos um filósofo estóico ou o até mesmo os Evangelhos, por se tratarem de pastiches manchados pela aparência e superficialidade do kitsch e do mau gosto, perdendo-se a originalidade, a frescura, a espontaneidade primitiva de quem o disse pela primeira vez e, por isso, no momento certo para o dizer e de um modo bem mais simples e honesto. Os clássicos eram sóbrios, parcos em fogo-de-artifício retórico, conseguindo ser elegantes dentro da sua própria humildade. A espiritualidade contemporânea, pelo contrário, aspira a uma certa aura literária que supostamente destapa verdades profundas para quem estiver disponível para as ler, ou, dito de outra maneira, para as comprar, mas que não passam de um conjunto de ocas banalidades para serem lidas à pressa no Facebook, esse imenso contentor do lixo mas tão vasculhado todas as noites pelos milhões de sem-abrigo e famintos órfãos da verdadeira espiritualidade.

15 março, 2019


A mãe de um dos assassinos da escola em São Paulo diz não compreender o que se passou com o seu filho, tendo ele Internet e televisão por cabo e quando a relação entre eles até nem ser má, apesar de quase não falarem. Maior honestidade e autenticidade do que a desta mãe é impossível, não tendo mesmo compreendido absolutamente nada do que se passou. Como diria um clássico: QED.


14 março, 2019

É naturalmente possível resumir um volumoso romance em poucas palavras sem se perder  o essencial. Claro que não é a mesma coisa pois faz parte da natureza do romance desdobrar-se numa multiplicidade de elementos cuja ligação constrói a sua totalidade. De facto, se pegarmos em Os Maias e truncarmos o Dâmaso ou a Gouvarinho, o romance deixa de ser o romance escrito por Eça e que Eça assim escreveu para assim ser lido. Mas também não são eles que constituem o núcleo duro da sua unidade, sendo assim possível ir à essência do romance sem termos de os nomear. O mesmo se passa com um filme. Se quisermos resumir o North by Northwest, de Hitchcock, não iremos descrever as cenas iniciais em que vemos pessoas a sair de um prédio (muito menos a mulher que está encostada no lado direito da imagem), a atravessar a rua, ou a descer as escadas para o metro e tantos outros momentos que, somados, dão uns bons minutos de filme. Deixamo-los de fora pois estamos concentrados na sua unidade e não nos seus múltiplos desdobramentos que, como no romance, distendem a sua duração.

Já com a pintura isso não é possível. Como resumir Las Meninas, um Schiele, um Mondrian, um Rothko ou um Pollock? Um quadro surge como um pedaço de mundo concentrado sobre si próprio, uma substância auto-suficiente e sem qualquer possibilidade de se desdobrar em múltiplos modos acidentais, anulando-se assim a dinâmica entre unidade e multiplicidade que existe no romance ou filme, para ficar reduzido a uma unidade pura. Podemos saltar várias páginas aborrecidas de um romance ou perder uma ou outra cena de um filme para ir à cozinha sem que isso ponha em causa a nossa ligação ao livro ou ao filme como um todo. Mas como perder uma parte ou duas partes de um quadro? Não se pode e isso acontece porque o tempo está excluído da pintura. É verdade que há quadros que revelam uma sequência temporal como é o caso de Cenas da Paixão de Cristo, de Hans Memling ou neste Jardim do Éden de Jacob de Backer. Porém, a própria sequência temporal sugeridas nos quadros está absolutamente concentrada num mesmo plano temporal, um único presente que dispensa mesmo a necessidade de mexermos os olhos, se suficientemente afastados dele.

Há outras três expressões artísticas que, ao contrário da narrativa literária ou do cinema, não podem ser resumidas: a música a dança e a escultura. Como resumir uma sinfonia ou sonata de Beethoven, o Lago dos Cisnes ou O Pensador de Rodin? Impossível. Todavia, a dimensão temporal feita de, respectivamente, sons, movimentos e perspectiva, numa evanescente sequência na qual vão aparecendo e desaparecendo, faz com que se distendam entre um início e o fim, sem a possibilidade de os possuirmos num único presente. Ora, mais uma vez, isso não acontece com a pintura.  Quer isto dizer que de todas as expressões artísticas será a pintura aquela que permite uma absoluta (e literal) concentração, anulando qualquer separação entre centro e periferia, essencial e acessório, unidade e multiplicidade, antes e depois, seja qualquer for o tipo de pintura, desde a mais figurativa à mais abstracta. Na pintura, tudo está em tudo, e ao mesmo tempo. Enfrentar um quadro, seja este qual for, é começar sempre por aqui.

13 março, 2019

Dizia um americano comum, a respeito da Guerra Civil Americana, que nenhum dos lados estava certo ou errado, uma vez que ambos lutavam por aquilo em que acreditavam. Tem muito que se lhe diga esta coisa de enaltecer pessoas que lutam por aquilo em que acreditam, pela sua coerência ou pela força das suas convicções. Como se isso lhes desse uma espécie de superioridade moral, mesmo para quem está no campo oposto. Quantas vezes já ouvi «Não concordava nada com as suas ideias mas admirava-o e respeitava-o pelo modo como lutava por aquilo em que acreditava e pela coerência revelada ao longo de toda a sua vida»? 

Muito bem. Dois tipos lutam ferozmente entre si. Um, porque acredita que a Terra é redonda, o outro porque acredita que é quadrada. Como ambos lutam por aquilo em que acreditam, não se pode dizer que um esteja certo e o outro errado, sendo irrelevante o facto de a Terra ser redonda ou quadrada. E mais: ambos são elogiados pela força das suas convicções e por lutarem por elas. Isto faz algum sentido? Não, trata-se de um enorme disparate. Não se pode dizer que uma pessoa tem a sua verdade, sendo elogiada pela convicção a respeito dessa verdade e por lutar por essa verdade, quando essa verdade não existe. Mesmo dando o desconto por estarmos perante seres humanos comuns e não um congresso de lógicos e de matemáticos, e sabendo que lhes importa mais a força da crença do que a verdade daquilo em que se acredita, devemos ser mais prudentes. Se há ideias que são apenas inofensivas ou parvas, outras há que, sendo perigosas, merecem ser postas no seu lugar através de uma incineradora de ideias e crenças na cabeça de qualquer ser humano que se preze. Admirar e elogiar pessoas que acreditam e lutam convictamente por ideias que merecem a incineradora é tão perigoso quanto essas ideias pois passam a ter um público que convive bovinamente com elas. E qual o valor da coerência quando se trata de ideias perigosas e que ameaçam as vidas das pessoas? O que a humanidade teria ganho se homens como Hitler ou Estaline deixassem de ser coerentes.

Dir-se-á que discutir crenças subjectivas não é a mesma coisa que discutir se a Terra é redonda ou quadrada. A forma da Terra não se discute, sendo fácil separar a verdade do erro, ao contrário das crenças subjectivas que, por serem discutíveis, merecem ser respeitadas. Certo? Não, errado. Nem certas ideias nem quem as defende e luta por elas merece ser respeitado. Não mandamos (felizmente) nas crenças dos outros. Mas devemos mandar nas nossas. Uma pessoa tem todo o direito de ter uma crença estúpida. Mas os outros também têm todo o direito de acreditar na estupidez dessa crença, na estupidez da sua convicção em relação a uma crença estúpida e na estupidez de lutar por essa convicção. Chama-se a isto espírito crítico, o qual começa no momento em que se sabe que subjectividade não significa arbitrariedade.

11 março, 2019

Um alentejano é um alentejano, um minhoto é um minhoto. Para nós faz todo o sentido pois conhecemos aspectos da cultura ou maneira de ser alentejana e minhota. Mas quando um alentejano ou um minhoto está em Berlim, Casablanca, Nova Iorque ou Santiago do Chile deixa de ser alentejano ou minhoto para passar a ser simplesmente português. Em Portugal sente-se alentejano quando está no Minho ou minhoto quando está no Alentejo mas no estrangeiro o que verdadeiramente sente é ser português. 

Sigamos a mesma lógica mas num contexto mais alargado. Há dias estava em Riga e entrei numa igreja ortodoxa só para a ver por dentro mas, por sorte, fui dar com uma missa, tendo ficado ali a assistir. Foi a primeira vez e fiquei impressionado com certas diferenças que podemos considerar algo exóticas à luz das nossas referências católicas. Então, de repente, dentro daquela igreja, observando a missa no meio de todos aqueles russos (25% da população), senti-me, mais do que português, um europeu do sul, sentindo o mesmo que iria ali sentir um espanhol ou um italiano, não me esquecendo dos tempos em que chegar ali a Badajoz era chegar a um mundo diferente do nosso.

Nessa noite fui à ópera para assistir à Turandot, rodeado de letões por todos os lados mas, por mero acaso, ficando ao lado e atrás de russos como os que da missa, horas antes. Ora, todo o Turandot é marcado por referências orientais, as personagens são chinesas, os cenários são chineses. Terminado o primeiro acto, luzes acesas, olhando para todas aquelas pessoas que viam o mesmo Turandot que eu estava a ver, de repente, mais do que letões, russos e um português, o que eu vi foram europeus. Todas aquelas pessoas que falam duas línguas estranhas, que vivem com padrões diferentes dos meus, partilham comigo referências comuns que nos fazem distinguir de um chinês ou até de um americano, se bem que um europeu e um americano na China se sintam próximos enquanto ocidentais, o que não acontece com um Europeu nos Estados Unidos ou um americano na Europa. Agora, o exercício que podemos fazer é o seguinte: qual a identidade que um americano, um europeu ou um chinês iriam sentir se, numa longínqua galáxia, chegassem a um planeta cujos habitantes fossem completamente diferentes? Americano, europeu, chinês? E, no caso do primeiro, nova-iorquino? O europeu iria sentir-se português e o chinês de Xangai? E onde estaria finalmente a costela alentejana ou minhota do português? A série Star Trek tinha um valor moral do qual provavelmente não demos conta.

10 março, 2019


Sendo um dos meus livros de eleição, considero Viagens na Minha Terra um dos melhores da literatura portuguesa. Entre inúmeros elementos que enriquecem o texto, a permeabilidade narrativa que constitui a metalepse final não será um dos menores. Recordando: o livro começa com uma viagem, supostamente real, do narrador, desde Lisboa pelo Tejo acima até chegar ao Vale de Santarém, sendo aqui que depois se constrói uma história, imaginária, com personagens ficcionais. O que acontece no final é o encontro do narrador com duas das personagens dessa história, avó de Joaninha e Frei Dinis, o qual lhe dá a ler uma carta escrita por Carlos, também uma das personagens da história do Vale de Santarém. Sim, Viagens na Minha Terra é uma obra de ficção bem dentro do século XIX, ao qual pertence de alma e coração. Mas uma obra que, sem ter sido tido nem achada, ajuda a explicar o modo como se processa cada vez mais as relações entres seres humanos, habitando diferentes níveis narrativos, separados por uma fronteira entre realidade e ficção, fazendo assim como que os seus encontros e desencontros representem uma metalepse. O Vale de Santarém é muito mais do que o Vale de Santarém. O Vale de Santarém tornou-se hoje no mundo inteiro.

08 março, 2019


Eu cresci a saber que à acção que consiste em estarem várias pessoas ordenadamente a seguir umas às outras com o objectivo de entrarem num sítio ou acederem a um produto, se chama «estar na bicha». Entretanto, a pouco e pouco, muito sorrateiramente, as pessoas começaram a dizer "fila" em vez de "bicha". Eu, fiel ao vernáculo e sem me deixar contaminar por uma nova tendência que foi sendo reforçada com as telenovelas brasileiras, continuei a usar sempre a palavra "bicha". Tendo já percebido nas aulas algum impacto ao usar a palavra, passei a avisar que sabia o que estava a dizer apesar de a maior parte das pessoas dizer "fila", e explicando por que a dizia. Porém, já vou dando por mim a dizer "fila", entrando assim rapidamente em sintonia com o meu auditório. Fico irritado comigo mesmo quando a digo mas facilita-me as coisas dizê-la. Fico irritado porque é uma traição à minha língua, irritado porque não há qualquer justificação racional para mudar, irritado porque ninguém me impede de me manter fiel à velha língua portuguesa. E assim vai morrendo uma palavra, uma expressão, sem que ninguém o tivesse decretado ou sequer desejado. Foi assim e pronto, sem sabermos muito bem como se cristalizou e quem cristalizou, como um vento que sentimos mas sem o vermos. Não falta muito para chegar o dia em que passarei a dizer "fila" sem que me irrite ou sequer dê por isso. Deve ser mais ou menos isto a que chamam Zeitgeist

06 março, 2019

A minha gata está com o primeiro cio. Pobrezinha, só faz lembrar a Vulpina, do Amarcord. Mia, geme, emite guturais sons de sofrimento, roça-se pelo chão, pela mobília, por mim, deita-se em posição de cópula, esperando pelo macho que não vem. Um desespero digno de uma piedade pagã. O irmão, já esterilizado, assiste sem nada perceber e sem nada poder fazer. Não tivesse sido esterilizado, perceberia e saberia bem o que fazer. Todo este sofrimento tem um único fim: procriar. Marioneta da natureza, espera pelo seu gato para, rapidamente cumprir a sua missão e voltar de novo à sua diária pacatez felina. Se eu conseguisse comunicar com ela e ela comigo, perguntando-lhe para quê, não seria capaz de responder. E não saberia responder porque não existe qualquer razão para isso. Tem-se filhos, seja gato, peixe, ave, insecto, crustáceo, réptil ou planta, porque a natureza assim o exige. 

A personagem principal do romance A Sonata de Kreutzer, de Tolstói, defende, inspirado na filosofia de Schopenhauer, bastante popular à época, que juntamente com os gatos, os peixes, as aves, os insectos, os crustáceos, os répteis ou as plantas, também os seres humanos não escapam a esse destino. O amor, a paixão, não passam de um ardil para levar homens e mulheres ao sexo para se reproduzirem. Ao contrário do que se passa entre seres humanos e gatos é possível seres humanos comunicarem com seres humanos. Mas se perguntarmos a um homem ou mulher para que deseja ter filhos, a resposta será, como dirá a estranha personagem do romance, para existirmos. E existirmos para quê? Para viver. Pois, mas viver para quê? Para que vivem os gatos, os peixes, as aves, os insectos, os crustáceos, os répteis, as plantas, os seres humanos e por que querem os gatos, as aves, os insectos, os crustáceos, os répteis, as plantas, os seres humanos ter gatos, aves, insectos, crustáceos, répteis, plantas, seres humanos? Não sabe a minha gata durante o seu cio, como também não sabem dois seres humanos em plena cópula. 

28 fevereiro, 2019

A SOMBRA DE UM SORRISO

No Turandot, última ópera de Puccini, Calaf, filho do rei deposto (Timur) vai encontrar o pai pelas ruas da amargura e logo percebe estar acompanhado por uma jovem (Liu), que trata dele e o ampara com enorme devoção. Perguntando depois à rapariga quem é ela, responde: «Não sou ninguém... uma escrava, senhor». Entretanto pergunta-lhe a razão por que ampara o velho rei caído em desgraça: « Porque um dia...no palácio me sorristes», é a resposta.

Mais adiante, Calaf apaixona-se pela princesa Turandot. Sabe-se que Turandot se casará com o homem que, sendo de sangue real, consiga descodificar três enigmas. O problema é que basta falhar um deles para ser implacavelmente morto, o que já aconteceu com vários pretendentes cujas cabeças são morbidamente exibidas. Calaf, apaixonado, irá aceitar o desafio mas não sem uma grande resistência de todos os que o rodeiam (um portentoso momento operático), avisando-o tratar-se de uma missão quase impossível que o levará à morte. O seu pai e Lia são os mais desesperados. Ela, falando em seu nome e do rei, dirige-lhe as seguintes palavras que têm tanto de belo como de triste:

Se o teu destino,
amanhã se decidir,
nós morreremos a caminho do exílio.
Ele perderá o seu filho...
eu, a sombra de um sorriso. 

Liu, continua presa ao sorriso que Calaf um dia lhe dirigiu. Nós não vimos esse sorriso mas não é difícil imaginar a cena: o príncipe anda na sua vida, por acaso vê Liu e, por alguma vaga razão, lança-lhe um sorriso. Um sorriso de ocasião, avulso, que nasce e morre em segundos. Um sorriso do senhor para a sua escrava, em que nem o senhor desce até à sua escrava só porque lhe sorriu, nem esta se eleva até ao seu senhor por ser o alvo de um sorriso dele. Ele continuará senhor, sorrindo para muitos dos seus anónimos súbditos, ela continuará reduzida à sua insignificante condição de escrava. Mas com uma grande diferença: o sorriso, que ele logo esqueceu, foi guardado por ela como um sinal de esperança, levando-a mesmo a ligar-se ao pobre e velho rei enquanto pai do homem que lhe sorriu.

Esta relação individual entre um homem e uma mulher de diferente condição social é facilmente transposta para a relação entre políticos e o povo, ou, em rigor, entre eleitos e eleitores, nas nossas democracias. Os políticos sorriem, sorriem cada vez mais e o povo aprecia os sorrisos, sobretudo de quem sorri melhor, pois há sorrisos para vários gostos, sejam de esquerda ou de direita, e cada político tem o seu. E o povo, vendo o político sorrir, sente-se capturado por ele. Mas o sorriso do político dirigido ao povo não é muito diferente do sorriso que Calaf dirige a Liu, apenas o facto de ser mais consciente, intencional, calculado. O sorriso dá a ilusão da proximidade e do vínculo, mas cá está: enquanto o político logo esquece o sorriso e o aperto de mão que deu na arruada, no comício, no mercado, a pessoa beijada ou cuja mão foi apertada e a quem o sorriso foi dirigido, ficará com ele guardado. Porém, no fundo, não se trata verdadeiramente de guardar um sorriso. Como diria Liu, será antes a sombra de um sorriso embora também neste caso o político fique com a sombra do sorriso do eleitor, bem na sombra, aliás: na urna onde depositou o seu voto. Porque, para o político, o povo, tal como Liu se apresenta a Calaf, também não é ninguém. Apenas uma massa que vota e que, só por isso, merece de vez em quando um sorriso.

27 fevereiro, 2019



Sempre achei piada àquelas fotografias antigas, incluindo publicitárias, nas quais vemos adultos entusiasmados com um último grito tecnológico: donas de casa sorridentes junto a uma máquina de lavar roupa ou de um ferro eléctrico, cavalheiros com ar executivo ou com glamour turístico a entrarem para um vulgar avião como se de uma luxuosa viagem à lua se tratasse, apenas acessível a milionários excêntricos, crianças deliciadas por estarem a beber um pacote de leite com chocolate ou urbaníssimos cereais de pequeno-almoço, enfim, gente orgulhosa por falar através de um telemóvel quando em Portugal ainda havia muita sem telefone. Como têm piada, por exemplo, as fotografias do célebre Kitchen Debate entre Nixon e Khrushchev, em 1959, perante o que na altura seria uma cozinha moderna tornada acessível ao comum dos mortais graças à dinâmica económica do livre mercado. O que se torna interessante nessas imagens é a ingenuidade, a expressão infantil de maduros e respeitáveis adultos. Vistas, hoje, por nós, conscientes que estamos da banalidade adquirida pelo que outrora os entusiasmou, as suas expressões fazem lembrar as das criancinhas na noite de Natal perante brinquedos aos quais pouco depois deixarão de ligar por já fazerem parte da sua rotina. Ou aqueles nativos de tribos recônditas quando homens brancos lhes mostram objectos do nosso quotidiano. Mas isso sabemos nós, hoje, ao conseguirmos olhar para um passado que ainda não formou uma consciência da futuro. 

O que torna especial esta fotografia da inauguração de um congresso dedicado a inovações científicas, é a possibilidade de, graças à expressão individual das pessoas que rodeiam o já nosso bem conhecido robot Sophia ou de o desenho de uma pequena multidão completamente absorvida pela presença da simpática máquina, vermos o presente e ao mesmo tempo já sabermos como o iremos ver no futuro, isto é, do mesmo modo que hoje olhamos para as fotografias do passado. E conseguimos isso porque, neste caso, a distância que separa o presente do futuro surge como algo sincrética. Daí ser ainda mais fácil imaginar um certo embaraço nalgumas destas pessoas face à sua ingenuidade, quando voltarem a ver-se nestas fotografias da inauguração. É que não vai ser preciso muito tempo para que a Sophia deixe de ser apenas um simpático e tosco protótipo, surgindo aos nossos olhos com a mesma evidência quotidiana de uma máquina de lavar roupa, de um ferro eléctrico, de um telemóvel, de uma entrada num avião ou dos urbaníssimos cereais de pequeno-almoço. 

26 fevereiro, 2019

Há dias, o meu filho descobriu que tenho uma máquina fotográfica analógica, da qual eu próprio já me havia esquecido. Entusiasmado com a ideia de a usar, quis experimentá-la, entusiasmo reforçado com o lado físico de haver um rolo, o processo, algo complexo, de o colocar e ainda ter que o tirar para ser revelado, sem saber o que vai ser revelado.

A experiência da consciência de quem vai usar uma máquina analógica pela primeira vez parece revelar uma curiosidade e entusiasmo idênticos ao de quem, em tempos, usou uma máquina digital pela primeira vez: a curiosidade e entusiasmo da primeira vez e em ruptura com a experiência anterior. Trata-se, porém, de duas experiências distintas. Imaginemos um extraterrestre que acaba de chegar e a quem mostramos duas máquinas fotográficas, uma analógica e outra digital, explicando-lhe ser uma delas mais moderna e levando à quase extinção da outra. Se entretanto lhe perguntarmos qual a mais antiga e a mais moderna, ele não irá ter dificuldade em responder. Porquê? Porque, objectivamente, há uma evolução e um conjunto de vantagens na máquina digital face à analógica, não fazendo qualquer sentido a ideia de os seres humanos terem começado a fotografar com máquina digital para depois a substituir por uma máquinas analógica.

Daí a experiência da consciência face às duas máquinas, apesar da comum experiência da novidade, não poder ser a mesma. Quem começou a fotografar com digital, depois de décadas com analógica, vive uma experiência de superação, movido por um entusiasmo pela recente invenção, negando a experiência anterior através de uma total projecção no futuro. Já quem resolve fotografar com analógica, depois de anos com digital (ou telemóvel), vive a experiência da conservação de uma experiência anterior, que não a sua, sabendo ao mesmo tempo ter sido superada por um racional pragmatismo e funcionalidade. Quem hoje fotografa com analógica não pode estar completamente projectado no passado por se tratar de uma experiência impossível para quem vive no presente. O que acontece é a possibilidade de experienciar o passado a partir de uma consciência do presente, experiência impossível para quem fotografou no passado sem uma consciência do futuro. Mas quem experimenta fotografar com uma analógica num tempo em que se fotografa com digital ou telemóvel, está a conservar uma experiência passada, sentindo-se ao mesmo tempo moderno, ou ainda mais moderno por ter a consciência de estar a fotografar com uma máquina que foi superada. 

Daí o romantismo da experiência, maior ainda se for o próprio a revelar as suas fotografias numa câmara escura, com toda a panóplia de instrumentos e substâncias necessárias para o fazer. Romantismo que, por tradição, surge nos antípodas de uma obsessão modernista e revolucionária que, movida por uma pulsão de vida e criação, nunca pode deixar de ser também movida por uma pulsão de vida e destruição, acabando assim por permanentemente desfalecer com o seu próprio veneno, ao contrário de uma modernidade romântica que se vai também nutrindo do seu passado.

25 fevereiro, 2019


Fui dar com um cd gravado, sem qualquer identificação do compositor ou das composições, tornando-se assim num mero círculo de plástico com música lá dentro. Pu-lo no leitor e não reconheci a música. Por estranho e até estúpido que possa parecer, fiquei com uma terrível sensação de vazio e desconforto. Quando ouvimos música, ouvimos música. O prazer da música não deve estar dependente do nome de quem a compôs. Porquê então a sensação de vazio por ouvir e apreciar uma música sem conhecer o seu autor? Porque a nossa natureza racional exige uma relação com o mundo marcada por uma disposição conceptual. Nós precisamos de nomes e de conceitos como de pão para a boca. Precisamos de nomear, catalogar, dissecar, arrumar as nossas sensações visuais, auditivas, olfactivas, tácteis e gustativas em gavetas lógicas e conceptuais.
   
            

Mas o que acontece, entretanto, com uma composição anónima? Veja-se esta bela composição do século XVI cujo autor é anónimo. Ora, a minha reacção perante esta composição deveria ser idêntica à daquela perante o disco não identificado, uma vez que em ambas não consigo identificar o compositor. Só que, psicologicamente, é bastante diferente. No caso da composição anónima é como se o anonimato construísse uma identidade própria. A história da música está cheia de composições anónimas. Ora, sempre que eu vejo uma composição cujo autor é anónimo, o "anónimo", ainda que possam ser muitos e variados, tem o mesmo valor identitário de um Bach, de um Beethoven ou de um Ravel. É como se fosse um luto assumido. A história da música assume que esta composição é anónima e, nos seus catálogos, nas suas etiquetas, na sua cronológica alfabética o "Anónimo" aparece ao lado de Albinoni e Albéniz e antes de Bach ou Brahms. Eu não estou a ouvir uma música anónima mas a música de um anónimo cuja identidade se tornou tão real como a dos seus vizinhos alfabéticos.

O que se torna desconfortável com a música não identificada no meu pedaço de plástico redondo é a consciência de que o compositor não é anónimo. Eu sei que existe, é real, tem uma identidade mas eu não sei dela. É como o pai que não consegue fazer o luto de um filho desaparecido. Eu oiço a música, gosto dela, mas sinto que me falta uma parte dela, que está alienada, incompleta, irregular. Uma mancha vazia que limita a lucidez na minha relação com os sons musicais. Porém, isto não deveria ser até a forma mais pura de ouvir música, tal como numa prova cega de vinhos ou na apreciação de várias candidaturas para um emprego? A música pela música, sem saber se é deste ou daquele. Será que o facto de eu gostar de Bach não me levará a tentar gostar mais de uma música de Bach de que gosto menos? E será que o facto de eu não gostar muito de Chopin não me impedirá de gostar mais de uma composição sua da qual poderia gostar mais se fosse composta por um compositor de quem gosto mais? Até que ponto a natureza abstracta, vazia e fantasmagórica dos conceitos não se sobreporá à força das sensações puras e do prazer estético, anulando-a mesmo parcialmente? Até que ponto o facto de eu saber que uma música é do século XVIII ou XIX, barroca ou romântica, de um alemão ou de um francês, não limita o valor de uma audição pura? Eu entendo que nós precisamos de catalogar, etiquetar. É a nossa natureza, somos assim. Mas talvez seja também uma camisa de forças que limita a nossa liberdade de ouvir sem preconceitos e a fruição de um prazer mais natural e genuíno.

24 fevereiro, 2019



Há muitos anos, ainda bem dentro do século passado, fui com um amigo ver um filme no Terminal do Rossio. Eu não sabia nada do filme, apenas que era de Stanley Kubrick, garantia para valer a pena numa altura em que escolha teria de ser bem pensada para não desperdiçar os poucos trocos que se tinham no bolso. Quando o filme acabou e nos levantámos, olhámos um para o outro e como duas máquinas perfeitamente sincronizadas, só fomos capazes de dizer, ainda meio atordoados:"Foda-se!". O filme chamava-se "The Shining".

Vai fazer dois anos, estava em Manchester e resolvi passar pela Withworth Art Gallery, na zona universitária da cidade. Entretanto, passo por uma sala onde, pelo som, estaria a acontecer alguma coisa. Entro e vou dar com a projecção de um filme/instalação em três ecrãs gigantes. Sentei-me, percebendo que tinha apanhado a projecção a meio e fico a ver. Não sei quanto tempo depois e apesar de ter voltado ao ponto em que tinha começado a ver, continuei a ver, tendo sido difícil arrancar dali. À saída da sala onde era a projecção, estava o funcionário do museu, eu olho para ele sem dizer nada mas fazendo uma expressão algo teatral e que poderia equivaler à palavra que havia pronunciado muitos anos antes quando se acenderam as luzes do Terminal do Rossio.O homem, mostrando ter percebido o que eu queria dizer, começa a abanar a cabeça e abre a boca para me dizer: "Powerful, sir, powerful!". Retiro da parede o folheto da projecção, ficando assim a saber que tinha acabado de ver isto

Há umas semanas, creio que no Ipsílon, vejo o nome do autor dessa instalação e as minhas orelhas de imediato se levantaram. Descobri que estava em exibição uma nova instalação sua no Museu Berardo, desta vez, não com três ecrãs gigantes mas seis. Sem dúvida que o impacto brutal do The Shining não se pode separar do facto de nada saber a seu respeito quando fui vê-lo. Hoje, sendo um filme que anda nas bocas do mundo, quem o vê já sabe ao que vai. Creio que uma certa explicação para os diferentes impactos que as duas instalações tiveram em mim passa também por aí: da primeira vez, eu, que até sou algo alérgico a tudo o que me cheire a instalação, não estava à espera do que ia ver, enquanto desta vez já estava preparadíssimo. Ainda assim, arrisco dizer que mesmo com uma apreciação fria e objectiva gostei mais da primeira do que desta. Seja como for, trata-se de um trabalho fabuloso que merece sem dúvida ser visto. Até ao dia 10 de Março, podendo as horas da exibição ser consultadas aqui.

23 fevereiro, 2019


Foi estranho entrar nos pastéis de Belém e descobrir que também por lá se vendem bolas de Berlim e outros bolos do mesmo género. E se por lá estão é porque há quem os coma. Uma descoberta que serve para desmontar qualquer tipo de pensamento utópico que, à esquerda ou à direita, sonha com um mundo em que todos partilhamos as mesmas verdades. Dizia o velho Arquíloco que «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante". Confesso, sem vergonha, que precisei de três pastéis de nata para um simples café, e se tivesse capacidade para comer mais três seriam ainda três pastéis de nata. Se me visse ao espelho enquanto me regalava com os pastéis de nata, iria ver o reflexo de um ouriço. Mas como em vez do espelho tinha os outros bolos, descobri-me raposa. Que maravilhoso seria um mundo em que todos soubéssemos apenas uma coisa muito importante. Não havendo esse mundo, fica a vida mais complicada embora talvez mais rica e interessante, por muito difícil que me seja compreender como é possível entrar nos pastéis de Belém e comer uma bola de Berlim. Mas foi nesse mundo que sempre vivemos e é nesse mundo que temos de continuar a saber viver.  

20 fevereiro, 2019



Comparando o retrato na pintura e na fotografia, deve-se realçar o papel do tempo na relação do olho com a mão que, respectivamente, pinta ou dispara. Tanto o pintor como o fotógrafo podem ser excelentes caçadores de rostos. E o resultado até pode ser igual, uma vez que há pintura cujo hiper-realismo se confunde com a fotografia e fotografia que se aproxima da pintura. Mas os processos são diferentes.

O pintor estuda o modelo e depura-o, sabendo que irá reproduzir não o rosto que se vê mas uma ideia de rosto, ainda que com fotográfica verosimilhança. O que fez Leonardo com a natureza empírica da senhora Lisa del Giocondo? Olhando para o seu rosto, mutável e condicionado por múltiplos factores quotidianos, conferiu-lhe incorruptível identidade. Se agora se descobrissem retratos dela com outras expressões, resistiríamos a associá-las ao rosto que fixámos na sua eterna inteligibilidade, adquirindo o estatuto de impuras emanações. Já o fotógrafo, em virtude de um processo mecânico marcado pela velocidade, é um caçador de instantes mergulhado na turbulência do real. Enquanto o pintor pensa, reflecte, imagina, projecta, dorme e sonha com o rosto que persegue para o poder gravar num plano ideal, o fotógrafo, por muito conhecedor e estudioso que seja de um rosto, não tem tempo para uma construção subjectiva a não ser que seja encenada. Não usa a mão para pintar mas para disparar. Dispara, podendo mesmo conseguir o instante perfeito mas nunca tem o controle da situação, está sempre dependente das flutuações desse rosto. Por isso, o rosto fotografado, por muito icónico que se torne e dê a ilusão de ser o verdadeiro e único rosto daquela pessoa empírica, será sempre um rosto contingente, relativo, submetido às suas variações.

O resultado até pode ser o mesmo, e há, de facto, rostos fotografados que adquiriram o estatuto de arquétipo. Mas o processo será sempre diferente. Suponhamos que no tempo de Leonardo já existia a fotografia e que um certo fotógrafo teria captado a mesma expressão pintada pelas mãos de Leonardo. Ora, o que os nossos olhos veriam seria o mesmo mas o processo subjectivo da construção do rosto, bem diferente. O pintor é um homem livre, um criador, um filósofo do rosto ou um artista que pensa o rosto. O fotógrafo, por muito sensível e intuitivo que seja, será sempre mais um engenheiro do rosto, alguém precisa da máquina para caçar um rosto que nunca lhe pertencerá completamente. Mesmo na produção estudada de um rosto, a máquina instalará sempre uma distância entre sujeito que fotografa e objecto fotografado. Enquanto o pintor trabalha "de olhos fechados", absorvendo mentalmente o objecto retratado para o tornar imanente à sua consciência, o fotógrafo, ainda que dispare centenas de vezes sobre um mesmo rosto, este ser-lhe-á sempre transcende e cuja posse terá sempre que dividir com a sua máquina.

19 fevereiro, 2019


Morreu, com 95 anos, o marinheiro do célebre beijo de Times Square. Há uns anos que já havia morrido a enfermeira beijada, com a avançada idade de 91 anos. Agora que tudo acabou de vez não será de menosprezar a irónica melancolia de o beijo ter ocorrido num sítio chamado Times Square, consequência de um festivo impulso juvenil. Faz toda a diferença. Uma das mais célebres fotografias do século XX transforma-se assim, e para todo o sempre, numa barroca vanitas


18 fevereiro, 2019

Há uma teoria filosófica segundo a qual as nossas escolhas não são livres mas determinadas por causas que não conseguimos controlar e das quais podemos mesmo não ter consciência. Podemos resumi-la numa simples frase: "Não fui eu mas o meu cérebro". Tenho a ilusão de ter sido "eu" a escolher mas isso só acontece por não ter consciência da sua causa. Se eu cair de um 5ºandar, sei que não estou a cair porque quero mas porque a força da gravidade a isso me obriga. Também no meu corpo, no meu organismo, no meu cérebro existem "forças de gravidade", só que, não tendo consciência delas, acredito existir um "eu" que me permite agir livremente e independentemente de qualquer causa que me obriga a agir de uma certa maneira. Sou uma marioneta mas sem saber que o sou apenas porque não tenho consciência dos fios invisíveis que me movem.

Perguntemos agora: porque odeio a pessoa A, me apaixono pela pessoa B, simpatizo com a pessoa C? O que estará a acontecer em mim que possa explicar tudo isso? Ninguém decide livremente odiar, amar, simpatizar ou antipatizar, isso não acontece por via de uma deliberação, de uma reflexão. Podemos assim voltar à frase que resume a teoria atrás referida mas, neste caso, afirmando: "Não sou eu que odeio mas o meu cérebro", "Não fui que me apaixonei mas o meu cérebro", "É o meu cérebro e não eu que simpatiza com aquela pessoa".

O que vejo quando olho para um espelho? O meu corpo? Não, vejo a pele que reveste o meu corpo, essa película exterior que cobre o meu corpo. Mas o meu corpo são os meus órgãos, as minhas vísceras, as minhas veias, o meu sangue, as minhas bactérias, o meu líquido linfático, o meu suco gástrico, a minha bílis, as minhas células, o meu sémen, as minhas hormonas, os meus neurotransmissores, os meus ossos, os meus músculos, os meus tendões, e tanta coisa que vive no meu corpo sem me passar sequer saber pela cabeça que existe. Mas quando me olho ao espelho vejo apenas uma pele que torna o meu corpo suportável e não abjecto e repugnante. No fundo, também o "eu" que sinto a apaixonar-se, a odiar ou a simpatizar é apenas uma camada exterior, visível, que torna a minha existência individual suportável para mim e para os outros. Mas, no fundo, um "eu" tão fictício e ilusório como o que em tempos se considerou ser a alma. 

Eu olho para a minha mão, o meu joelho, o meu pé e sei que são meus, apesar de, ao contrário das meus pensamentos, emoções, sentimentos, serem exteriores à minha consciência tal como o teclado em que escrevo ou a mesa sobre a qual está o teclado. Não posso dizer que vivo com eles desde que nasci, pois mais do que serem parte de mim são também aquilo que eu sou. Mas o que vejo quando penso no cérebro? Eu não vejo o meu cérebro nem considero que o meu cérebro está em mim como estão a minha mão, o meu joelho ou o meu pé. Serei mais "eu" a estar no meu cérebro do que o meu cérebro em "mim" e quando julgo pensar no meu cérebro o que provavelmente acontece é o meu cérebro a pensar sobre si próprio embora me dando a ilusão de ser eu a pensar nele. Tudo isto leva a pensar-me como um fantasma, um mero espectro embora disfarçado por um "eu" que me torne suportável enquanto indivíduo, tal como o meu corpo sob a minha pele. Que o meu cérebro trate bem de si próprio para o meu "eu" ter uma aparência saudável é a minha grande esperança, se bem que nada possa fazer para que isso aconteça ou deixe de acontecer.

15 fevereiro, 2019

Há muito que sigo um critério para perceber o quanto gosto de um quadro: desejar ou não tê-lo na minha sala, fazer dele parte do meu quotidiano. Pode ser um critério pouco original, elementar, demasiado simplista. Mas é eficaz e a sua simplicidade, mais do que um defeito, é uma virtude, sendo também ainda com base nele que vou construindo o meu museu imaginário. Já bem mais complicado é explicar por que razão gosto ou não gosto. Posso explicar, mas ficando por um plano meramente sensorial, invocando coisas como a cor, a luz, uma certa organização formal, deixando naturalmente de lado o seu conteúdo como fará um defensor do realismo socialista ou de uma arte social e politicamente comprometida. Mas ficar por esse plano significa colocar uma obra de arte no de um alimento que me propicia prazer, de uma camisa ou de um aroma, em detrimento de um outro tecnicamente complexo e mais subtil intelectualmente, o que parece manifestamente injusto para a obra de arte. Porém, depois de dormir umas horas sobre o assunto, sou levado a acreditar que sim.

Se meter um triângulo de Toblerone na boca, sinto prazer mas se meter um pedaço de fígado de cebolada a reacção é de repulsa. Que posso eu dizer para explicar por que gosto de um e detesto o outro, a não ser que "gosto porque gosto" ou "não gosto porque não gosto", sem saber o motivo para gostar ou não gostar e sem ter decidido gostar ou não gostar? E o mesmo se passa ao sentir mais prazer com o som  do violoncelo do que com o do violino, quando numa loja prefiro uma camisa a outra ou prefiro o aroma do café acabado de moer ao de um refogado. Dir-se-á que uma obra de arte, tendo uma natureza espiritual, exigirá sempre um elemento psicológico superior, uma justificação sustentada racionalmente ou que a sua apreciação implica um gosto passível de ser educado e refinado culturalmente. Aceito a possível relação entre as duas coisas mas não uma conexão necessária, ou mesmo contingente, entre elas.

O especialista num pintor ou corrente pode explicar de um modo tecnicamente claro e objectivo diversas razões para justificar o seu valor. Porém, do mesmo modo que se pode compreender a explicação científica de um nutricionista sobre o valor nutritivo dos brócolos sem termos que gostar de os comer, tal compreensão não nos obriga a gostar desse pintor. Como também podermos não gostar de uma pessoa, apesar de lhe reconhecermos várias qualidades. Depois, é verdade que o juízo de gosto na arte pode ser educado, levando-nos assim pensar num plano superior ao de gostos primários como o paladar ou o olfacto.  Mas a possibilidade de ser educado não implica atribuir-lhe uma causa erudita ou intelectualmente superior. O nosso olfacto, hoje, está mais educado do que o de uma pessoa do século XIX. Certos cheiros que seriam tão normais que nem se daria por eles, são hoje considerados incómodos ou mesmo insuportáveis. Também o prazer suscitado por um bom vinho ou por uma peça de roupa pode ser educado, não sendo o vinho ou a roupa obras de arte criadas para serem contempladas. Em relação à arte, terei que admitir ser a educação do gosto importante, preparando o terreno para uma sensibilidade estética que de outro modo seria difícil obter. Mas isso é também o que se passa no filme "O Menino Selvagem", quando o médico que educa o pequeno Victor, que cresceu sozinho na floresta, leva-o a desenvolver a sua sensibilidade olfactiva, visual ou táctil. E o facto de existir essa prévia sensibilidade estética face à arte está muito longe de ser razão suficiente ou até necessária para apreciar uma obra, do mesmo modo que uma educação do paladar não implica apreciar um vinho que outros considerarão de elevado valor.

Justificar o gosto por um quadro, recorrendo a uma explicação técnica ou racional resulta de uma falaciosa inversão causal: nós acreditamos que gostamos, apresentando uma razão para isso mas, no fundo, o que acontece é apresentarmos a explicação porque gostamos, sendo o gosto anterior à explicação. Claro que pode haver quadros dos quais gostemos, invocando uma causa para o explicar, por exemplo, associando-o a determinadas situações da nossa vida, podendo algumas delas ser mesmo fúteis ou caprichosas. Mas se for esse o caso, trata-se de uma explicação extra-artística tal como poderá ter valor afectivo um objecto que outra pessoa desprezaria pela sua insignificância, como uma simples pedra.

Assumir a mera sensibilidade como causa do juízo estético na arte não significa fazer descer a arte ao nível da perfumaria, da gastronomia ou do vestuário. A contemplação de uma obra de arte permite uma experiência intelectual e emocional que um perfume, um alimento ou peça de roupa jamais terão, por muito "gourmet" que se possa ser com o nariz ou os olhos. Mas trata-se de uma experiência que terá como condição necessária uma adesão espontânea no plano da sensibilidade.  E mesmo quando nos esforçamos para gostar do que antes não gostávamos, o esforço será da sensibilidade e não do intelecto.

14 fevereiro, 2019

No Ipsílon da semana passada, Pedro Portugal escreve este artigo intitulado «Porque é que os conservadores odeiam a arte do presente?» Trata-se de um exercício de manipulação argumentativa com um grau de requinte raramente visto. Primeiro, porque associa conservadorismo a extrema-direita ou direita trauliteira, o que está longe de ser verdadeiro. O facto de pessoas de extrema-direita não gostarem  de arte contemporânea não significa que toda a gente que não gosta de arte contemporânea seja de extrema-direita. Depois, porque para defender nomes de artistas contemporâneos cujo nome rapidamente cai no esquecimento, invoca nomes de pintores do século XIX, conservadores, que também caíram no esquecimento. Pois, e ainda bem que caíram uma vez que a sua pintura é mesmo de fugir como são os casos de Bouguereau ou Cabanel, querendo  isto significar que uma má relação com a arte contemporânea está longe de significar apreciar maus pintores conservadores ou vir defender uma pintura de «pores-do-sol, flores, gatinhos, corações, crianças brancas e outras coisas belas», colocando "o menino da lágrima" num plano superior ao de muitos pintores consagrados. Finalmente, porque também se esqueceu de referir que nem toda a arte contemporânea é lixo, embora nalguns casos até o seja literalmente e eu já os vi. Há artistas que continuam a respeitar a arte e a dignificá-la. Defender a arte contemporânea como um todo face aos seus críticos, significa criar uma fortaleza onde não existem critérios de demarcação entre o que tem e não tem valor. Em vez de tentar defender a arte contemporânea de inimigos sem relevância sociológica e descredibilizá-los para, por oposição, credibilizar o seu campo, do género "Se quem nos ataca é mau isso deve querer significar que temos valor", seria mais indicado Pedro Portugal fazer um exercício de auto-crítica. O melhor serviço que poderia fazer à arte contemporânea, do que dela ainda se pode salvar.

13 fevereiro, 2019


Pensemos num espírito desejoso de criar novas linguagens, como era o de Picasso. Que, embora tecnicamente o pudesse fazer, já não queria mais pintar como Monet, Degas, Pissarro, Van Gogh, e muito menos ainda como Rembrandt, Velasquez ou Ticiano. Para quê chover no molhado, pintar o que já foi pintado, a última coisa desejada por um espírito inquieto? Há aquele jogo que consiste em correr à volta das cadeiras e as pessoas vão perdendo à medida que aquelas vão deixando de estar disponíveis. Picasso teve sorte pois quando começou a pintar havia ainda muitas cadeiras disponíveis, ocupando, com artística autoridade, algumas delas.

Espíritos desejosos de criar novas linguagens sempre houve e irá continuar a haver. Mas pensemos num deles, hoje, vendo-o a olhar para a tela em branco ou para os diversos materiais que tem à sua frente e com os quais poderá fazer arte. O nosso artista tem um problema óbvio: muito menos cadeiras disponíveis para se sentar do que as que tiveram Picasso, Modigliani, Schiele, Kandinsky, Mondrian, Klein, Malevich, Richter ou Tàpies. Ele olha para a tela em branco e sabe que já não pode pintar o que já foi pintado e quanto mais coisas tiverem sido pintadas menos haverá para pintar. E o que de facto acontece é que vai sendo cada vez mais recorrente pegar no pincel e sofrer, não a angústia da influência mas a a angústia do já pintado, receando imitar, reproduzir, enfim, papaguear. E quem diz um pintor diz também um compositor, um escritor ou até um arquitecto que, à sua maneira, é um artista. Trata-se, portanto, de perceber que já não há espaço no jogo de cadeiras, mais valendo acabar com ele e recomeçar com outras cadeiras completamente diferentes. Não quer isto dizer que o pintor moderno não goste dos pintores que o tempo tornou clássicos. O que nunca faltou foi pintores modernos a passarem os seus dias nos grandes museus para aprenderem com os clássicos. Mas cá está: cadeiras que já foram ocupadas e que por isso deixaram de servir. Mas há sempre novas possibilidades para jogar: acabam-se as cadeiras, criam-se urinóis.

Eis uma razão para o facto de a arte contemporânea se ter intelectualizado cada vez mais: um ilimitado pensamento que compensa os limites do olho. A arte deu sempre a ver e assim irá continuar. Mas esgotando-se o campo da cor, da forma, da expressão, da narrativa enquanto elementos intuitivamente visuais, a saída está num "ver" cada vez mais subjugado ao "pensar", às ideias, a conceptualizações diversas, sejam estas, sociais, políticas ou meramente formais. Claro que há pensamento na arte clássica, na qual, de resto, já incluiremos os velhos modernos de ontem e anteontem. Os artistas sempre pensaram, e muito. A arte é cosa mentale, lembrava Leonardo. Mas havendo sempre um equilíbrio, uma harmonia entre o conteúdo e a forma ou entre o elemento intelectual e estético propriamente ditos, o que hoje está cada vez difícil de conseguir. Claro que o artista poderá sempre dizer que não se trata de uma incapacidade ou dificuldade mas de um objectivo assumido e até desejado. Não acredito. Trata-se mesmo de um problema de falta de cadeiras que, mais cedo ou mais tarde, levará à morte da arte, há muito antecipada filosoficamente por Hegel. Morte da arte não significa deixar de criar obras que podemos continuar livremente a considerar como sendo arte. Morte, no sentido de se tratar de obras que se perdem no efémero, num puro experimentalismo protagonizadas por artistas que, ao contrário de outros que começaram por ser incompreendidos mas a quem o tempo fez justiça, ninguém percebe ou alguma vez perceberá, ou que são expressas numa linguagem para ser desmontada intelectualmente, perdendo-se cada vez mais o seu sentido propriamente estético, e longe de mim, mas mesmo muito longe, considerar a beleza como desígnio central da arte como defenderão os mais conservadores. 

12 fevereiro, 2019


Se a arte for sobretudo entendida como exercício intelectualmente estimulante, feita para pensar ou como mero pretexto para pensar sobre coisas que lhe são exteriores, nesse caso então, e muito sinceramente, prefiro fazer palavras cruzadas.


11 fevereiro, 2019


Os meus pais tiveram três carros, todos eles brancos. Para mim eram apenas carros que por acaso eram brancos e sempre olhei para carros brancos enquanto carros simplesmente brancos. Um dia alguém me disse que os carros brancos lembram electrodomésticos. Foi um clique. Desde então, sempre que olho com mais atenção para um carro, apercebendo-me de que é branco, passei a ver um carro que parece um electrodoméstico, e quanto maior e mais volume tiver, mais electrodoméstico me parece. Mostrei vários quadros de Vermeer numa sala de aula. Para a esmagadora maioria dos alunos não são mais do que quadros nos quais se vêem homens e mulheres a fazer diversas coisas como escrever cartas, tocar instrumentos ou conversar. O que falta ali é também e tão só um clique que permita ver uma obra de arte, e que obra de arte, onde antes apenas havia homens e mulheres em salas a fazer diversas coisas. Consegui-lo, chamará para o campo da arte e da sensibilidade estética quem, até aí, via só com os olhos, tal como eu também já tive um tempo em que os carros brancos eram só carros brancos por ser apenas com os olhos que olhava para eles.


06 fevereiro, 2019


Por cada átomo de memória haverá sempre outros, muitos mais, de esquecimento, falsas memórias, auto-manipulação, dissimulação. A consciência está sempre refém de um eterno presente, não podendo estar onde ainda não esteve mas também sem poder voltar onde já esteve. E não há Teseus para o labirinto do tempo. Haverá o sabor da madalena, dirão os proustianos. Mas não, madalena há só uma, a original e no interior do labirinto, voltar a encontrá-la jamais passará de uma doce ilusão através de um jogo de espelhos.


05 fevereiro, 2019



Há músicas que nunca ficarão na cabeça ou no coração de alguém (no estômago seria improvável). Por exemplo, a 10ª Sinfonia de Bethoven ou o seu Quarteto de Cordas nº 17. Isto, pela simples razão de que nunca existiram. Não se trata sequer de estarem perdidas, algures e nunca virem a ser encontradas. Não, o compositor morreu, nunca chegando a compor o que poderia ter composto se não tivesse morrido. Meditar melancolicamente sobre o que poderiam ter sido se vivesse mais uns anos é um exercício vazio e infrutífero. Não dá para saber ou sequer imaginar. Mais interessante, academicamente, embora não menos especulativo, será pensar no que poderia estar hoje o compositor a fazer se não fosse habitual as pessoas morrerem antes dos cem anos mas por volta dos trezentos. Seria um compositor conservador, mantendo a sua linha romântica, ou ir-se-ia adaptando aos novos tempos, passando pelo dodecafonismo ou mesmo ao ponto de fazer música com panelas de pressão e outros utensílios domésticos?

Mas temos ainda uma outra possibilidade a respeito do que não existe: esta. Mais do que inútil, porque o que iremos ouvir nunca será o resto da sinfonia que Schubert nunca chegou a concluir, trata-se ainda de um exercício que retirará aos dois existentes andamentos da sinfonia, a sua misteriosa identidade resultante da sua incompletude. Sucede com a Sinfonia Incompleta de Schubert o mesmo que com as melancólicas beleza das ruínas ou de uma igreja inacabada. Ainda bem que a natureza, a estupidez humana ou a inclemência do tempo pouparam tantos dos que são hoje alguns dos mais belos e interessantes monumentos. Mas também foi a natureza, a estupidez humana ou a inclemência do tempo que esculpiram o que viria a ser a definitiva identidade de muitos lugares. Imaginemos a abadia de S. Galgano, em Itália, inteira. Fosse esse o caso e jamais Andrei Tarkovski a teria escolhido para o seu filme «Nostalgia». E pensemos como deixaríamos de ver Isabel Archer a atravessar as ruínas de Roma, tal como Henry James a imaginou, no caso de a cidade ter sido preservada até hoje. Ou no quadro de Caspar David Friederich se em vez de um vestígio de abadia tivéssemos a abadia propriamente dita.

Os despojos da história são tão património como o que a história nos legou por inteiro. Tentar completar o que incompleto ficou, para além, do seu evidente artificialismo, significa rasgar uma identidade que acabaria por se cristalizar. A Vénus de Milo não foi feita para existir sem os braços, como uma mulher nascida com uma anormalidade genética. Mas colocar, hoje, o que terão sido originalmente os seus dois braços, seria também marcá-la com uma outra anormalidade genética porque é sem os seus dois braços que o tempo haveria de esculpi-la. O mesmo se passa com a Sinfonia Incompleta do genial compositor austríaco que, com a sua morte aos 31 anos, terá como maior obra o que nunca chegou a compor e, por isso, nunca chegaremos a ouvir. 

03 fevereiro, 2019



Aconteceu-me há dias uma coisa deveras estranha: estou a tomar banho, olho por acaso para o ralo do poliban e vejo uma rosácea gótica. Ou estou a ficar tão esteta, tão esteta, tão esteta, que até já consigo ver uma rosácea gótica no ralo do poliban, ou então estou a ficar tão abstruso, tão abstruso, tão abstruso, que até já consigo ver uma rosácea gótica no ralo do poliban. Admito serem ambas algo preocupantes. Seja como for, verdadeiramente preocupante, e não apenas algo preocupante, será um dia estar a olhar para uma rosácea gótica e ver o ralo de um poliban.


25 janeiro, 2019




           And all you touch and all you see
Is all your life will ever be

                                                                              Pink Floyd, Dark Side of the Moon

23 janeiro, 2019


Errar é mais coisa da vontade do que do entendimento. Uma pessoa não erra por pensar que 8x7 são 54, que a capital da Costa do Marfim é Kampala ou que a tomada da Bastilha ocorreu no dia 14 de Junho de 1789. Erra, sim, só quando decide aceitar (acreditar) isso como verdadeiro. É assim um bocadinho como o facto de que pensar em assaltar uma loja não faz da pessoa um ladrão, e de não se ser assassino só por pensar em matar alguém. Portanto, erramos, não por pensar o que pensamos, ainda que seja falso, mas por decidir o que decidimos. Ora, como temos de passar a vida a tomar decisões, a vontade acaba por nos forçar a errar mais vezes do que gostaríamos. Há, todavia, uma possibilidade de tal não acontecer: não agir, não fazer, não ir, não desejar, enfim, não querer, isto é, deixarmos de estar dependentes da nossa frágil vontade. Também se tivermos dor num braço, uma boa maneira de deixarmos de a ter e até mesmo de não voltarmos a tê-la, é cortar o braço. Fica o assunto arrumado. Com a decapitação da vontade passa-se o mesmo. Há exemplos históricos disso: eremitas, anacoretas, estilitas, monges e freiras que se recolhem nas suas celas, fazendo muitas vezes voto do silêncio. O mundo fica lá fora enquanto eles ficam resguardadinhos dentro de si mesmos. Mas podemos estar perante algo paradoxal: deixa-se de viver para não errar mas deixar de viver será provavelmente o erro supremo, o maior de todos os erros. A pessoa sente-se protegida do erro mas é ao sentir-se protegida dele que acaba por ficar mais exposta a ele. Não agir é também um modo de agir, não querer, um modo de querer, não desejar, um modo de desejar. E mesmo não ir é um modo de ir para onde se vai ficar, não existindo no mundo não-lugares onde nos possamos tornar não-pessoas. Daí, em suma, ser preferível assumirmos o erro por nossa conta e risco. É que enquanto o pau vai e vem folgam as costas. 



22 janeiro, 2019


Gente velha, ou perto disso, como é o meu caso, costuma dizer, com laivos de sapiência tardia, que seria bom voltar a ser jovem mas sabendo o que se sabe hoje. O que não passa de uma melancólica ilusão. É verdade que confiamos mais no que sabemos hoje por oposição ao que não sabíamos antes. Mas nunca pensamos no que não sabemos hoje mas que viríamos um dia a saber, se vivêssemos mais. Se vivêssemos duzentos anos, passaríamos a ser agora tão ingénuos como já fomos, embora acreditando que já deixámos de o ser. Quanto mais se vive mais há para saber e, sendo assim, menos se sabe, e sem se poder saber o que não se sabe. É verdade que se soubesse o que se vem a saber depois, há erros que seriam evitados. Mas se chegássemos aos duzentos anos, não iríamos evitar os outros erros que iríamos na mesma cometer. Os erros partem sempre à nossa frente e nós, pobres tartarugas, nunca os conseguimos apanhar.


19 janeiro, 2019


Dizia Camus, no Mito de Sísifo, que o único problema verdadeiramente filosófico é o suicídio: saber se a vida vale ou não a pena ser vivida. Isto de filósofos reflectirem e falarem sobre o suicídio faz-me lembrar aquela piada de Unamuno  a respeito da dúvida cartesiana, chamando-lhe "dúvida de estufa", aquela dúvida de quem, com o seu roupão vestido, está confortavelmente sentado em frente à lareira. Com o suicídio passa-se o mesmo. Vários filósofos não varreram o problema para debaixo do tapete, tendo a coragem de lhe fazer umas festinhas com a pena. Mas outra coisa será, como um náufrago em desespero, mas ao contrário, agarrá-lo pelo pescoço para se prender a ele e deixar-se levar por ele rumo ao nada. Esse, sim, ou quem já esteve agarrado a ele ainda que sem se deixar levar por ele, percebe de suicídio e a sua resposta não poderia ser mais firme e inequívoca. Tudo o resto não passa de tagarelice filosófica. 


16 janeiro, 2019

HÁ MACHADO QUE CORTE A RAIZ AO PENSAMENTO?


Não. Está, pois, certa a canção. O pensamento nem sequer tem raízes, sendo também por isso que, ao contrário das árvores se movimenta livremente, dando bons frutos ali ou acolá. O pensamento é como o vento para o qual também não há morte: sopra livre sem sabermos muito bem de onde vem e para aonde vai. Claro que existem machados que podem ameaçar, chocar, ferir ou mesmo decepar o pensamento. É o que não falta na história. E um machado, ao contrário, das facas de dois gumes, só tem um gume e, por muito polido que se apresente, é sempre para o pior e mais sinistro lado que aponta. Mas, depois o pensamento volta a renascer pois é essa a natureza de quem nasceu para pensar e que o faz com a mesma naturalidade com que respira.

O que acontece muitas vezes é já não apetecer pensar, estar cansado de pensar ou não se saber muito bem o que pensar, parecendo que os pensamentos se gastaram, sendo o discurso do ódio, do ressentimento, do medo ou das pulsões mais tribais, o que mais segurança dá e melhor responde às nossas necessidades mais imediatas. E quando não apetece pensar, basta um sim, um não, uma linha recta. Não é preciso mais nada. E, claro muitos machados para ir cortando o excesso de vegetação que só serve para atrapalhar, não se descansando enquanto o processo de desflorestação não estiver acabado.

Mas, cá está. Do mesmo modo que somos máquinas desejantes, somos também máquinas que pensam. Depois de grandes machadadas há sempre um regresso à normalidade, quando se percebe o inferno que é viver num deserto sem árvores de fruto no qual a vida se resume aos aspectos mais primários da existência, rebaixando-nos ao nível dos animais. Seja como for, um machado será sempre um instrumento perigoso, devendo ser levado a sério. Daí que o melhor mesmo seja ignorá-lo o mais possível mas não esquecendo nunca as razões de quem sente vontade de brincar com ele. Se é verdade que o pensamento faz parte da nossa natureza, a atracção pelo abismo do deserto não faz menos e, por vezes, está mesmo ao virar da esquina.

14 janeiro, 2019


Não sei se por alteração dos níveis de serotonina ou dopamina, tenho momentos na vida em que caio num certo pessimismo face à natureza humana. Mas também é verdade que a realidade é generosa e muitas vezes me dá um enorme contributo para o combater. É o caso de situações como esta ou esta. De facto, quando um treinador de uma equipa de infantis de futsal da Póvoa de Santa Iria agride uma jovem árbitra, ou quando adeptos de Beja e de Massamá se põem à pancada durante um jogo de futebol de iniciados, isso mostra que mesmo nas situações mais comuns da existência humana podemos sentir que está em jogo a coisa mais importante da nossa vida e pela qual matamos ou morremos. Não, não é preciso ser jogador do Real Madrid ou treinador do Liverpool numa final da Liga dos Campeões, estar numa final de uns Jogos Olímpicos, de um mundial de natação ou no court de Wimbledon ou Roland Garros para nos sentirmos as pessoas mais importantes do mundo a disputar o troféu mais importante do mundo. Nem ser herói porque morremos numa batalha onde defendemos a liberdade da tirania e do despotismo ou porque arriscamos a vida a salvar uma criança de uma casa em chamas. Nada disso. Qualquer um de nós é a pessoa mais importante do mundo e seja lá o que fazemos será sempre a coisa mais importante do mundo, nem que se trate de um jogo de infantis de futsal ou de iniciados de futebol entre clubes de bairro. Ora, se isto não é deveras animador e grande motivo de esperança e entusiasmo para toda a humanidade, então nada saberei sobre o que o possa ser, voltando assim a ficar refém das caprichosas movimentações dos meus níveis de serotonina e dopamina, condenado a acordar de manhã céptico face ao que a natureza humana continuará a ter para nos dar.



13 janeiro, 2019



Entendo o fascínio aqui expresso por se beber um vinho feito quando Napoleão ainda era vivo. Admito mesmo um fascínio maior do que o de Roland Barthes em A Câmara Clara, perante uma fotografia, de 1852, do irmão mais novo de Napoleão, ao ver os olhos que viram o próprio imperador. Mas um fascínio que, como todo o fascínio, não passa de uma ilusão e mistificação. Jaime Vaz esquece-se do tempo, esse siamês irmão da morte que, implacável, tudo destrói e a nada perdoa, mesmo que se trate de um vinho adormecido numa escura garrafa no interior de uma escura garrafeira há duzentos anos. Perguntava Heraclito, no fragmento 16, «Quem poderá esconder-se do fogo, que não dorme? O vinho pode ter sido feito com Napoleão ainda vivo mas o vinho que se irá beber hoje é o vinho feito com Napoleão ainda vivo mais duzentos anos em cima dele, fazendo com que já não seja o vinho feito com Napoleão ainda vivo mas com um Napoleão já morto há duzentos anos. E o tempo é como o fogo: o seu calor tanto gera, traz as coisas à vida, como destrói, retirando depois a vida que lhes deu. O vinho do tempo de Napoleão que vamos beber hoje é como o rio de Heraclito: cada vez que entramos nele, já serão outras as águas que correm por ele. 



02 janeiro, 2019

DOIS MIL E DEZANOVES

Ficou célebre e causou polémica aquela frase da senhora Thatcher em que nega a existência da sociedade, pois só os indivíduos existem. A frase em si nada tem que justifique tamanha celebridade. Trata-se de uma vexata quaestio que já vem dos gregos, que depois vem animar bastante as universidades medievais (o romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa, passa por aí) e que ainda faz parte do cardápio filosófico contemporâneo. 

Já a polémica fará mais sentido devido ao veneno político e ideológico que da frase emana. Mas dá para entender a ideia, a qual consiste em duvidar que o todo existe anteriormente às suas partes, sendo apenas estas consideradas reais. Ora, levar a frase a sério, impede, por exemplo, um professor dizer, numa aula, que a turma não existe mas apenas 30 alunos à sua frente, que não existe uma equipa chamada Benfica mas 11 jogadores ou que os próprios Beatles nunca existiram, apenas quatro músicos chamados McCartney, Lennon, Harrison e Ringo. Percebe-se assim que levar a frase a sério trará problemas à nossa habitual forma de pensar e perceber a realidade com que lidamos diariamente. Onde já me parece haver alguma razão para a desconfiança thatcheriana face à abstracção do todo, é quando no final de cada ano se deseja um "bom ano". Ora, se há coisa que não tem qualquer significado é precisamente um "bom ano". A parte boa é que um "mau ano" também não. 

Um ano tem 365 dias. Pois, é muito dia. Como pode assim haver um bom ou mau ano? Pode-se ter um bom ou mau dia ou mesmo, vá, uma boa ou má semana. Já um mês bom ou mau é coisa difícil de conceber mas é quando se chega ao bom ou mau ano que os circuitos entopem. Vejamos uma pessoa que esteve desempregada durante bastante tempo e que em Janeiro de 2019 consegue um emprego a ganhar muito bem e com o qual se sentirá bastante realizada profissionalmente. Depois, fará montes de coisas ao  longo do ano que lhe darão imenso prazer. Só que no dia 20 de Dezembro é gravemente atropelada por um tipo todo contente a falar ao telemóvel, morrendo depois de três dias de grande sofrimento. Questão: 2019 foi um bom ou mau para esta pessoa? Sim, fez muita coisa boa durante o ano, mas pode-se considerar "bom ano" aquele em que a pessoa morreu, considerando que morrer não é propriamente uma coisa agradável, sobretudo quando se desejaria continuar a viver por muitos mais e bons anos? E o mesmo é válido para o contrário: uma pessoa que andou grande parte do ano aos caídos mas que em Novembro ganha o Euromilhões, graças ao qual passará a fazer montes de coisas que lhe darão imenso prazer e que passado uma semana tem a bater-lhe à porta 874 candidatos a serem o homem ou a mulher da sua vida. De novo a questão: esta pessoa teve um bom ou mau 2019?

Claro que o ano existe enquanto realidade astronómica. Só que, como muito bem sabe Don Fabricio, astrónomo amador em O Leopardo, os ciclos astronómicos pouco têm que ver com a espuma dos 365 dias que preenchem o nosso bem terreno calendário. A espuma que se forma na areia quando a onda morre já entretanto desapareceu quando chega a segunda onda. Isso, sim, é a realidade, a realidade dos dias bons e maus ou do próprio dia que pode ter momentos bons ou maus. Daí que, de certeza absoluta, venhamos a ter vários 2019. O dos dias bons, o dos dias maus, o dos dias nem bons nem maus, e tudo isso devido às mais diversas razões. Ainda assim, dá para perceber a bondade de quem, por ser mais simples, deseja um bom ano aos outros. A mesma razão que me leva também a desejar um bom ano a quem passar por aqui.

31 dezembro, 2018


«Hoje todas as faltas são protegidas pelo modernismo que tudo admite quanto maior for a imperfeição e eu quero ser um homem do meu tempo.» Carta de Carlos Reis a Maria Adelaide Lima Cruz 21 julho de 1924.

«O mês passado, a mais recente escola de pintura era, como todos sabem, a dos ângulos curvistas. Foi isto em Abril, e como estamos nos fins de Maio, é de crer que a essa escola já se tenha seguido outra mais avançada. Apresentaram-se os novos inovadores no último «salão dos independentes» de Paris. Foi uma boa precaução terem aparecido em Paris, e não no Cartaxo ou no centro de África, do contrário ainda a esta hora não teríamos dado por êles.» Agostinho de Campos, Carlos Reis e as modas em pintura, 1925

«À considérer cette «manière», ce style preste et un peu hâtif, on se rend vite compte que M.P.R. Picasso veut tout voir, veut tout exprimer. Certes,  on imagine aisément que la journée n'est pas assez durable pour ce frenétique amant de la vie moderneGustave Coquiot, prefácio do catálogo da exposição de Picasso na Galeria Vollard, que decorreu entre os dias 25 de Junho e 14 de Julho de 1901.


Pronto, está bem, o pintor Carlos Reis não está virado para modernices, querendo ser um homem do seu tempo. Um homem do seu tempo? O que significa ser um homem do seu tempo? No primeiro quartel do século XIX já andava Goya entretido com as pinturas negras. Turner pintou Chuva, Vapor e Velocidade em 1844. A primeira exposição impressionista no estúdio de Nadar é em 1874. Ainda nesse século vemos a pintar, entre tantos outros, Cézanne, Seurat, Van Gogh, Munch, Ensor, Gauguin, Vallonton, Bonnard, Vuillard, Denis, Redon. Já no século XX, bem antes ainda da carta de Carlos Reis a Maria Adelaide, temos em plena actividade artística, entre tantos outros, Klimt, Schiele, Kokoschka, Malevitch, Kandinsky, Marc, Modigliani, Soutine, Bracque, Picasso, Kirchner, Corinth, Beckmann, Nolde, Dix, Grosz, Chagall, Ernst, Chirico, os Delaunay, Mondrian, Klee, Redon. Matisse, Feininger, Campendonk . Ah, o Urinol de Duchamp é de 1917 e o português Amadeo de Souza-Cardoso morre em 1918, alguns anos, portanto, da carta de Carlos Reis. Volto então a questionar o que significa ser Carlos Reis um homem do seu tempo. Porém, não sei responder. Ele, como Agostinho de Campos, pode digerir mal os ímpetos modernos e ser pouco atreito a modas. Mas querendo, teimosamente, ser um homem do seu tempo, acaba por ser de tempo nenhum.

Por outro lado, é impressionante, mesmo muito impressionante, a evolução de Picasso depois de chegar a Paris com 19 anos. Pensar que Les Demoiselles d'Avignon é de 1907 quando pouco antes, andava pelo período azuis e rosa e outras experimentações, não pode deixar de impressionar. Daí a ironia involuntária, pois só percebida a posteriori, nas palavras de Coquiot no catálogo da exposição, se pensarmos que em 1901 ainda está no começo de tudo, quando Picasso só mal começa a ser Picasso, esse "amante da vida moderna", sempre ansioso por ser outro dentro do mesmo.

Eis, pois, um conservador e um revolucionário, duas visões completamente distintas do relógio e do calendário: um pintando enquanto olha para o ponteiro das horas, outro a pintar freneticamente, levado pelo ritmo insaciável do ponteiro dos segundos. Um, desejando permanecer numa identidade vazia e pura, o tal "seu tempo", livre  da mácula da negação, da contradição, o outro olhando para a tela que acaba de pintar mas já pensando numa nova linguagem. Superação ou conservação, eis a questão. Há uma palavra alemã, "aufhebung", que tem um duplo e contraditório sentido: precisamente, superação e conservação. Assim como uma criança que deixa de o ser para se tornar adolescente, que depois também nega para ser adulto. Estados que são negados mas que farão sempre parte da identidade dessa pessoa. Podemos deixar de ser crianças mas a criança que fomos nunca deixará de fazer parte de nós.

Nós só temos mesmo que aceitar a história e o tempo, tal como aceitamos as leis da natureza. Temos de olhar para o futuro e o anjo da história não sabe voar noutra direcção pois é um vento forte aquele que o empurra. Porém, podemos desejar acelerar mais ou acelerar menos, conforme o projecto de cada um e respectiva visão do mundo. Agora, uma coisa é o ritmo individual de pintores como Carlos Reis ou Picasso, outra será o ritmo da história. A chave estará mesmo, muito provavelmente, na síntese entre os dois: conservação e superação. Saber avançar mas também saber cuidar de todo um património de valores, referências, materiais ou imateriais, que outros nos deixaram. Que Carlos Reis e Picasso quisessem ser o que foram, isso foi lá com eles, e nenhum mal veio ao mundo por causa disso, antes pelo contrário. Mas uma sociedade imóvel e que despreza o progresso ou uma sociedade apenas virada para o futuro e que despreza o passado, são dois modelos de sociedade que apresentam perigos que devemos a todo o custo tentar evitar.


30 dezembro, 2018


A crença na imortalidade do homem explica-se por um narcisismozinho antropológico que faz com que ao contemplarmos o nosso reflexo na água, vejamos uma especial criatura lá bem no centro da criação e acima de todas as outras que nasceram sem alma, desde os vis insectos aos amados cães e gatos lá de casa. Estes nascem vivem e morrem, é assim e pronto, enquanto a nós, graças a uma criação à imagem e semelhança do criador, espera-nos um especial destino após a morte. Isto, na religião. Na filosofia desde cedo que se segue essa linha mas com variações e explicações mais sofisticadas. Seja como for, nenhuma escapa a esse narcisismo. E bem podem vir com a conversa de que somos pó e ao pó havemos de voltar pois isso nada mais é do que nos atirarem pó para os olhos, pois há sempre a porta da salvação para quem nela quiser entrar, certamente mais desempoeirado.

Mas não é apenas na crença na imortalidade que se manifesta esse narcisismo. O facto de darmos individualmente excessiva importância à nossa morte é farinha do mesmo saco, ainda que para outro pão. Claro que faz sentido pensar na nossa própria morte pela radical importância que tem nas nossas vidas, ou agir de maneira a evitá-la. Porém, pensar demasiado na sua própria morte ou sentir um excessivo medo de morrer, recusando aceitar tranquilamente esse inevitável destino, não passa de uma espécie de contínua "selfie existencial". Quem passa o seu tempo a auto-fotografar-se revela uma necessidade mórbida de impor a sua existência, virando-se doentiamente para si próprio em vez de o fazer para o mundo ou para os outros. Ora, quem teima em não aceitar a sua morte também não admite a sua saída de cena, estando em negação relativamente à ideia de não ser mais importante do que os que que já morreram e dos que irão morrer, e de não passar de alguém que por acaso nasceu e cuja morte o espera desde esse dia. Não se trata de instinto de sobrevivência ou de conservar o seu ser. É o narcisismo de quem não aceita deixar de ver a sua imagem reflectida no espelho, tal como a outros custa largar o telemóvel sempre virado para si pois isso os faz desaparecer.



28 dezembro, 2018

O TÚNEL


Calhou encontrar uma rapariga do meu tempo, uma daquelas pessoas que se vêem de dez em dez anos ou mais, por mero acaso na rua, durante esta época natalícia. O grande clássico nestes encontros, após despachar as secções do trabalho e dos filhos, é a maléfica passagem do tempo sobre as nossas envelhecidas pessoas, distribuindo-se as maleitas por ambos os interlocutores: a tendinite que dá uma dor de morrer quando se estica o braço, o problema no joelho, o raio das costas que não deixam ter posição, os pés sempre frios a pedirem o saquinho de água quente na cama, subir ladeiras ser o cabo dos trabalhos, a memória que já não é a mesma, o ouvido que, não tarda, está a pedir o aparelho que sempre associámos aos avós, enfim, a qualidade do sono que já teve dias bem melhores. Concluiu ela então, com um irónico suspiro e o amarelo sorriso do derrotado, que a velhice só traz coisas más. Eu, com autoridade filosófica, neguei, lembrando uma qualidade que só a idade pode trazer: a sabedoria! Os olhos dela animaram e a boca rasgou um sorriso em que o amarelo deu lugar a uma cor sadia: «-Sim, verdade, a sabedoria!». 

O que eu não quis explicar é o que significa essa sabedoria. Se fui eu a acender a luz no fundo do túnel, também não iria ser eu a apagá-la, ainda para mais depois de ver aquele sorriso iluminado por ela.