25 julho, 2019


Os ponteiros deste relógio podem ser parados mas este não dispensa a sua anual manutenção. Voltará a ter corda em Setembro. Boas férias.


24 julho, 2019

Grace Robertson

Oito mulheres num mesmo carrossel mas tão diferentes dentro dele. Estão sentadas, paradas. No entanto, movem-se. Movem-se através de um movimento rápido e circular pelo qual não são responsáveis. É a máquina, com a sua energia, com a sua força, que as faz andar à roda sem fazerem alguma coisa por isso. Não são, pois, responsáveis por esse movimento como é a pessoa que na rua decide andar depressa ou devagar, ir para a direita ou esquerda. Mas apesar de já não serem ali senhoras do seu destino, vivem de maneira diferente a experiência do carrossel.

As duas da frente divertem-se à brava com o ridículo da sua situação. Riem-se de si próprias. É por isso que estão felizes. As pessoas que se sabem rir de si próprias são as mais felizes do mundo. A seguir, temos outras duas que se divertem mas com o divertimento das outras. Não é um divertimento tão espontâneo e eloquente mas, ainda assim, justificam bem o dinheiro que gastaram para estar ali. Com as duas seguintes já tudo muda de figura. Estão ali e com a consciência de estarem ali mas parece não saberem muito bem porquê e para quê. Talvez por obrigação ou porque as outras também estão. Por isso não sabem muito bem o que fazer com a alegria de estar dentro de um carrossel. Talvez levem a vida demasiado a sério e, por isso, terão medo de que as suas saias se possam levantar com o vento e mostrar as pernas. Por fim, as duas últimas, que parece não terem sequer a consciência de estarem ali. Não se divertem mas também não parecem estar tensas. Nem estão tão felizes como as primeiras nem enfadadas como as que estão mesmo à sua frente.

Há ali uma unidade. Uma estrutura partilhada por todas. Todas andam à roda, o movimento circular é-lhes comum. Todavia, o modo como viverão essa circularidade e as leis mecânicas do movimento, já dependerá do que cada uma espera desse movimento. Dos seus desejos, ambições, expectativas mas também dos seus medos, angústias, traumas, complexos. Para as mulheres das carruagens da frente o carrossel será sempre motivo para mais uma viagem. Para as mulheres das filas de trás, cada viagem será sempre, e mais uma vez, uma corrida contra si próprias.

23 julho, 2019

Existe um abismo entre o que sabemos e não sabemos. Eu sei o que sei, por exemplo, que D. Afonso Henriques foi o primeiro rei de Portugal, que existem duas Coreias, que Pacheco Pereira tem barba e o Liverpool é campeão europeu. Mas não sei o que não sei e nem posso saber pois assim deixaria de não saber. Mas o nosso conhecimento não se divide apenas entre o que sabemos e não sabemos. Há coisas que sabemos melhor em virtude de um traço mnésico mais espesso, estando guardadas na ponta da língua: o nome do primeiro-ministro ou a capital de Portugal. Há coisas que sabemos pior porque o traço mnésico está menos espesso: posso sabê-lo, mas se me perguntarem quem foi campeão europeu o ano passado, preciso de mais tempo do que se me perguntarem o deste ano. 

Existem ainda aquelas informações que com algum desespero sentimos debaixo da nossa língua sem se conseguirem soltar. Anteontem queria lembrar-me em que filme aparece Duke Ellington a fazer dele próprio mas não conseguia e isso estava a irritar-me. Não me irrito com o que não sei pois não me posso irritar com o que não sei que existe. Outra coisa é sabermos que sabemos mas sem conseguirmos recuperá-lo. Depois de grande luta, lá consegui. Dá a sensação de ser como a informação que tenho num disco externo guardado na minha consciência. Sei que tenho a informação, só que não está momentaneamente disponível, demorando mais tempo a recuperá-la como quando abrimos a gaveta para consultar uma coisa guardada no disco externo.

Mas há muito que tenho outro e potente dispositivo mnésico: o Google. Eu obtenho diariamente muitas informações que não conservo na minha consciência, remetendo-as para o Google enquanto disco externo. E um disco externo que, como o que guarda as informações "debaixo da língua", sinto quase organicamente. O facto de ter sempre um smartphone junto ao meu corpo, torna-o igualmente extensão natural da minha vida mental, disponibilizando de imediato toda a informação de que preciso. Há trinta anos, se conhecesse nomes como "Irma Blank" ou "Joseph Antoine d'Ornano", das duas uma: conservava-os na minha memória imediata ou no disco rígido "debaixo da minha língua", ou perdia-os. Graças ao Google, posso dar-me ao luxo de os esquecer sem os perder. Acabo até por senti-los mais como meus do que estando debaixo da língua, pois a sua invocação já não depende de mecanismos involuntários da minha mente (podia estar ainda à espera de saber em que filme Duke Ellington faz de si próprio) mas de uma simples consulta que demora segundos como acontece com o campeão europeu de 2018. Poderia dizer que o mesmo se passaria com os livros, nomeadamente enciclopédias. Trata-se, porém, já de um processo anacrónico e inorgânico no que à recuperação de informação diz respeito. O Google, através do movimento rápido dos meus dedos, surge cada vez mais como um dispositivo omnisciente onde se encontra cada vez mais alojado o que sabemos mas sem disso termos consciência. Torna-se, assim, cada vez mais próximo do que não sabemos: não sabemos o que não sabemos e também não sabemos o que sabemos e quanto mais próximo estivermos do saber também mais longe dele iremos ficar.


22 julho, 2019

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Cansaram-se de estar fechados no palácio. Gostam dele, claro. É o palácio que lhes dá a identidade social e alimenta a vaidade. Mas o palácio é feito de expressões e poses cientificamente estudadas como um espartilho mental que os submete a um cosmos em que cada um sabe o lugar que ocupa. Um duque é um duque, um conde é um conde, uma açafata é uma açafata. Decidiram então ir divertir-se para o jardim em frente do palácio. Mas a geometria do jardim torna tudo igualmente previsível e mecânico. O velho labirinto já é percorrido de olhos fechados, já deram furtivos beijos e lançaram maliciosos olhares pelos seus cantos e recantos, já todas as palavras foram ditas sobre os bancos de pedra. E o jardim, embora bonito, é natureza domesticada, projectada à imagem e semelhança dos caprichos estéticos dos seus mentores.

Saíram do jardim e olhem para eles agora! Descobriram a desordem do imprevisto e da aventura. Já não é um jardim. Repare-se na imensa verticalidade vegetal que esmaga a sua ínfima humanidade. Há, neste local, uma escala natural que os transcende e remete para uma finitude da qual não têm consciência. Verticalidade que não a da catedral. Esta pode estar erguida para o céu e toda a sua marmórea linguagem apontar para o divino mas será sempre a expressão da criatividade artística. Pode esmagar-nos mas é o trabalho de arquitectos, engenheiros e pedreiros que nos esmaga, ao invés de todo este verde feito de luz e de sombras, mais labiríntico do que o geométrico labirinto do jardim. Eles, que brincam, não têm consciência disso. Mas se brincam assim, longe das poses estudadas do palácio, é porque já perceberam que estão fora do elemento humano, entrando num reino vegetal cuja umbrosidade está para além das convenções morais, religiosas, políticas e estéticas.

Nietzsche, na "Origem da Tragédia", cita uma passagem de "O Mundo como Vontade e Representação", na qual penso sempre que olho para esta festa (e ontem voltei a vê-la): "Assim como no mar convulso que, isento de todos os limites, ergue e baixa montanhas de ondas uivando, um navegante se encontra sentado num bote, confiando no frágil transporte, assim se encontra, no meio de um mundo de tormentos, o indivíduo calmamente sentado, apoiado e confiando no principium individuationis".

E não é por causa do pequeno tumulto das ondas que me lembro disto. A analogia não é com a água mas com o verde, a imensidão da floresta que, embora os esmague (veja-se ainda aquelas árvores sobre eles que mais parecem uma onda gigante que os vai engolir) sem disso terem consciência, lhes dá uma sensação de abrigo. Ali, finalmente, exibem a sua espontaneidade e infantilidade sem medo de censura e punição. Não só passam despercebidos nesta maré verde, também eles sentem que passam despercebidos. Como Adão e Eva viveram sem a vergonha da sua nudez, também estes aristocratas deixam cair as máscaras, ficando a sua liberdade protegida pelo inumano rumor das árvores imensas, pela lógica das sombras, pelo suave murmulhar das águas, sobrepostos ao metálico som do cravo e ao adocicado das cordas que ficaram esquecidos na sala de música. A música agora é outra. Música que, ao regressarem ao palácio, irão de deixar de ouvir mas graças à qual ficarão reconciliados consigo mesmos, como o profeta persa que nasceu a rir.

*Fragonard - A Ilha do Amor ou A Festa em Rambouillet

20 julho, 2019


No parque de estacionamento, passo por uma zona de carregamento de baterias de carros eléctricos e vejo um cartaz na parede. Há muito que sei existirem encontros nacionais ou jantares/convívio, sei lá, de motards, pessoas com 2CV ou 4L, calhambeques, caçadores, pescadores, radioamadores, bloggers, coleccionadores disto e daquilo, homens que usam bigode, mulheres, escuteiros, pessoas que estiveram no concerto dos Genesis em 1975 ou pessoas cujo apelido é Ferreira. Mas ter hoje sabido haver também um encontro nacional de carros eléctricos (o cartaz continua lá mas já decorreu em Maio), leva-me a pensar que, por muitos anos que venha a viver, nunca deixarei de me surpreender com a capacidade gregária do ser humano.


19 julho, 2019

Fui ao Modelo comprar peixe mas acabei também por trazer um livro que me interessava com 40% de desconto. Sem problema. Gosto de livrarias, sobretudo das antigas e bonitas, mas não é por ver um livro em frente à secção de tachos e panelas que vou deixar de o comprar. O que eu não esperava era chegar a casa para me sentar um bocadinho no sofá a ler antes de fazer o almoço e dar com ele com manchas de água e de sangue e a cheirar a peixe. Desconsolou-me ver assim o meu livro que deveria cheirar a novo mas isso também me permitiu saber duas coisas: uma, é haver poucas coisas tão desconsoladoras no mundo como um livro novo a cheirar a peixe (como também presumo ser desconsolador um peixe a cheirar a livros), a outra, é haver coisas no mundo que seria preferível nunca sabermos.

Quem não reagiu da mesma maneira ao desconsolador acontecimento foram os meus gatos, que ficaram tão empolgados com o cheiro como quando eu abro as latinhas de comida húmida. Enquanto folheava o livro, a custo, com os olhos a pedirem-me para o ler e o nariz para o deixar uma semana na varanda a arejar (o que acabei por fazer), os gatos pareciam só ter mesmo nariz mas como se fossem os meus olhos. A diferença é que em vez de o ir folheando e lendo, giravam em torno dele, roçavam-se, davam-lhe cabeçadinhas e miavam histericamente. Assistir a esta bibliófila devoção fez-me lembrar um antigo cartaz para a promoção da leitura, que mostrava a fotografia ampliada de uma traça, tendo por baixo a seguinte frase: «Não sabe ler mas já devorou mais livros que você.» Mas ver também tanto entusiasmo perante um objecto feito para ser lido mas não porque vai ser lido,  levou-me igualmente a pensar numa tendência cada vez mais comum, a de pessoas que compram livros ou falam mesmo de livros e autores com o mesmo entusiasmo olfactivo dos meus gatos mas, ainda também como os meus gatos, sem nunca os lerem. Razão teriam Esopo ou La Fontaine: nada como os animais para melhor compreendermos os seres humanos.

18 julho, 2019

O Menino Selvagem, de François Truffaut termina com uma experiência cruel. O seu tutor quer saber se Victor já desenvolveu o sentimento de justiça. Este, habituado a uma recompensa quando age bem e a ser castigado quando age mal, recebe uma tarefa que irá cumprir correctamente, só que em vez de recompensado é castigado, reagindo com violência e mordendo o tutor. E como reage o tutor? Abraça-o, faz-lhe festas e dizendo como aquela mordedura o encheu de alegria. Percebendo que o sentimento de justiça e de injustiça já não eram estranhos à cada vez menos selvagem criança, conclui: «Ao provocar esse sentimento elevei o selvagem à estatura de um ser moral através do seu mais nobre atributo».

Embora esta situação não remeta para a noção de justiça distributiva, não pude deixar de pensar nela ao dar conta desta experiência com macacos. Temos de ser prudentes face a tudo o que são experiências científicas pois vão quase no mesmo caminho da época de transferências no futebol em que o que agora é verdade rapidamente deixa de o ser. Mas a sê-lo, isso leva-me então pensar que há muitas pessoas, sobretudo empresários, políticos e financeiros que circulam pelo mundo por baixo do seu fato ou vestido de fino recorte e de muita regra de etiqueta que inclui o saber estar à mesa ou saber cumprimentar as pessoas de acordo com as circunstâncias, que apesar de já terem superado o estado selvagem dos símios, ainda não tiveram tempo suficiente para alcançar a verdadeira humanidade.  

17 julho, 2019



Há dias, foi grande a minha surpresa ao ir na rua e dar com um cartaz das Testemunhas de Jeová. A primeira vez que vi um. Achei estranho mas ter crescido a ler os clássicos folhetos que afáveis senhoras deixavam na caixa do correio fez-me logo perceber, pelo grafismo e estética, algures entre uma banda desenhada trash e a publicidade institucional aos ecopontos, que só poderia ser da missionária congregação. Escatológicos folhetos feitos de cósmicos duelos entre o Céu e o Inferno, Deus e o Diabo, salvação e condenação, o bem e o mal, e tudo isso num registo que deixaria o velho Mani roído de inveja. Crescer com aquelas revistas teria mesmo de marcar o meu imaginário, na mesma linha dos reclames da margarina Vaqueiro, do Presto ou da voz do engenheiro Sousa Veloso. 

Só que, entretanto, vi melhor e pensei:«Ups» O cartaz não era das Testemunhas de Jeová mas do Bloco de Esquerda. «Ups», exigiu imperativamente o meu cérebro que pensasse outra vez. Eu sei que este meu cérebro habituado a associar botas que não batem com perdigotas, não é de confiança. Mas parece-me bem mais razoável imaginar Donald Trump leitor compulsivo de Henry David Thoreau do que associar Testemunhas de Jeová ao Bloco de Esquerda. Só que o meu cérebro, desta vez baixinho, lentamente, levantando o dedo timidamente como aquele aluno que deseja responder a uma questão do professor mas sem grande confiança no que vai dizer, me pede para de novo pensar:«Ups». E logo de imediato não penso «Ups» mas «UPS!» Pois claro. Se há partido religioso em Portugal, esse partido é o B.E.!

É verdade que o B.E. se tornou um partido crescido, institucional e até com responsabilidades a nível de poder, parte do mainstream político, afastando-se daquela sua associação à legalização da erva ou defesa de um generoso espectro cromático-sexual. Mas uma coisa é o B.E. quando está acordado, outra é o B.E. quando está a dormir e a sonhar. Neste sentido, apesar da esquerda à esquerda do PS ter arejado os quartos, na verdade, o seu inconsciente (por definição atemporal) continua assombrado pelas almas penadas da UDP e PSR. O típico militante do B.E. pode adorar ter dinheiro como os ricos, os carros dos ricos, as casas de ricos, os restaurantes dos ricos ou caprichosos tiques de rico. Mas nos mais recônditos segredos do seu vermelho inconsciente, odeia os ricos, os empresários, o capital, a «América», a liberdade económica (a que chama, com esgar de repugnância, «neoliberalismo») ou a liberdade tout court, como qualquer clássico marxista-leninista. Por isso, sim, o B.E. continua a ser um partido dramaticamente religioso, com uma visão agónica das classes sociais, que divide a realidade em sagrado e profano, amigos e inimigos e, como na Cidade de Deus de Santo Agostinho ou no delirante fim da história marxista, a ter esperança num Grand Final que separa os bons dos maus. No cartaz do B.E. o que apenas surpreende é a desinspirada estética Jeová num partido que preza a sua modernidade. Quanto ao resto, fugiram-lhe os olhos para a verdade. 


16 julho, 2019



Faz hoje 50 anos que foi por aí acima a Apollo 11, rumo à Lua do Tintim e de Júlio Verne. Se há coisa que tem resistido ao lento processo de desencantamento do mundo, sobretudo a partir da revolução científica, da industrialização e do pragmatismo contemporâneo cego pela electricidade em ruas e avenidas das cidades, é a Lua. A Lua dos poetas, dos amantes, dos noctívagos, dos mitos, a lua lupina, seja cheia ou parcial, seja brilhante ou velada e desvelada por entre nuvens cinzentas, seja apenas adivinhada no meio do nevoeiro, seja o seu lado escuro, o seu dark side, para sermos claros, seja de prata, de papel, de queijo, de mel, de sangue, seja para entrar por ela dentro com uma bicicleta, a lua continuará a ser o que nós queremos que ela seja, enquanto formos humanos e não já pós-humanos, enquanto estivermos acordados e não já só meio sonâmbulos como os nova-iorquinos de Garcia Lorca. O Sol pode aquecer-nos mas é a Lua que nos faz sonhar.

15 julho, 2019



Torna-se quase incontornável deparar com esta fotografia entre membros do governo português durante o debate do Estado da Nação, sem vir à cabeça uma qualquer tradicional pintura de grupo holandesa. Assim de repente, e sem termos de ir mais longe, Rembrandt (Síndico dos Fabricantes de Tecidos ou a Lição de Anatomia do dr. Tulp) ou Frans Hals (Os Regentes do Hospital de Santa Isabel). Como é evidente, nada tem que ver com o conteúdo. Governantes portugueses do século XXI são governantes portugueses do século XXI, médicos holandeses do século XVII são médicos holandeses do século XVII. É o desenho, a construção, a elegante dinâmica resultante de um movimento espontâneo que se imobilizou, o periclitante equilíbrio entre a linha horizontal e o modo como o ministro Vieira da Silva emerge verticalmente (aliás, a sua própria inclinação a fazer lembrar a de Isabel de Velasco nas Meninas na direcção da personagem central) a harmonia do grupo a despeito da irredutibilidade de cada um dos seus elementos. A semana passada uma colega começa a falar de uma pessoa que ambos conhecemos. Bastaram uns segundos para que a mesa de pé de galo no interior da minha cabeça trouxesse à presença Thomas Gradgrind, personagem de Tempos Difíceis. Isto, claro, de novo, sem existir qualquer ligação entre ambas. Percebo, a partir destes dois movimentos do meu espírito, o modo como a arte, neste caso pintura e literatura mas podendo ser outra qualquer, se pode tornar modelo, paradigma, arquétipo da própria realidade, que se submete e passa a ser compreendida em função daquela. Considero a ideia deveras estimulante mas não posso deixar de ficar preocupado. Porque no fundo é a ideia que atravessa todo o Quixote e embora fosse a partir da conversão interior do Engenhoso Fidalgo que este começou a viver a sua vida de modo empolgante, isso é motivo suficiente, por razões que me parecem mais que óbvias, para não deixar uma pessoa descansada. Mais ainda quando já se chega à fase de perceber o modo como se submete a realidade à arte, recorrendo-se à personagem cervantina, num algo barroco jogo de espelhos que, por razões que não me parecem menos óbvias, tem tanto de cómico como de sinistro.

13 julho, 2019


A frase de Pavese continua a ser bonita, se bem que já um pouco enjoativa pelo uso excessivo. Mas será sempre útil nem que seja para nos lembrarmos que o mundo é suficientemente grande para haver sempre lugares aonde não calha irmos para sermos felizes e, sendo assim, aos quais também não poderemos voltar.

12 julho, 2019


Os dias são feitos de espuma, a mesma que vemos aparecer e desaparecer quando molhamos os pés na praia. Um dia pode parecer uma eternidade no Ulisses de Joyce mas não passa de um fugaz clarão. Um ano, sim, já tem alguma substância e numa década o tempo ganha ainda mais solidez. Daí falarmos em «anos 20», «anos 40» ou «anos 60» com uma identidade ou personalidade como se fosse um João ou um Manuel. Mas por vezes temos de esticar a década em décadas para entendermos certos paradigmas sociais ou culturais. Por exemplo, a importância cultural da França na segunda metade do século XX. Claro que há a swinging Londres dos anos 60, as loiras liberalidades nórdicas, a belisssima e alegre Itália (ou a parte de Itália que pode ser belissima e alegre), o duelo spaghetti entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental. Sim, tudo isso, marcou a Europa do pós-guerra mas seria a França a marcá-la como mais ninguém, tornando-se na sua Meca cultural e simbólica como já havia sido nos séculos XIII ou XVIII. Claro que não acabo de descobrir a pólvora mas voltei a lembrar-me disso por causa do primeiro parágrafo do editorial do Le Figaro [aumentar] de hoje. Há uma maneira de pensar, de escrever, de debater, de continuar obsessivamente a viver dentro de uma linguagem que, cada vez mais, é em França que se pode observar. Não por acaso, é lá que filósofos e outros intelectuais continuam a ser figuras públicas, entrevistados em jornais, revistas, televisão, rádio, ou a aparecerem em livrarias títulos e temas que já não se vêem em mais lado nenhum.

A maneira como o editorialista se refere à morte não é um acaso resultante da sua pessoal idiossincrasia. Não, é francesa. Em França a morte ainda não se encontra em registo pragmático, aquela coisa chata que nos vai impedir de frequentar as melhores praias, restaurantes e esplanadas anunciadas em capas de revistas e dar cabo de todos aqueles felizes momentos que eternizamos em selfies que irão durar três segundos no Facebook ou no Instagram. Não, como para um grego, um medieval, vá, como para toda a gente até recentemente, a morte, tal como os seus pressupostos filosóficos e antropológicos, continua a ser em França um mistério e um mistério passível de ser pensado e escrito, obrigando desse modo a tornar a vida ela própria um mistério passível de ser pensado e escrito. Temos de admitir que a França está culturalmente moribunda para o resto do mundo. Mas se houve um tempo em que Paris e a França se tornaram sensuais pelas luzes que atraíam o resto do mundo como mosquitos, Paris e a França continuam a ser hoje sensuais mas pelo glamour da diferença e de uma patine que aumenta quanto mais o tempo caminha veloz para o futuro.

11 julho, 2019

Palavras e expressões detestáveis ou simplesmente irritantes (9):

Cenário dantesco

Triste destino o das pessoas que chegam ao fim da vida com uma sensação de derrota. Mas também não invejo o de algumas cujas vitórias as levam um dia a ter vontade de dizer o que disse Pirro, o célebre comandante grego: «Mais uma vitória destas e estamos perdidos».

10 julho, 2019

Um dos meus contos preferidos de Nabokov chama-se 'Acasos'. Rapidamente: um casal russo, marido e mulher, estão há anos sem saberem do destino um do outro após uma separação forçada na sequência da revolução. Um dia, sem o saberem, fazem uma viagem no mesmo comboio e é por um triz, um insignificante acaso, que não se encontram na carruagem-restaurante desse comboio. Se tivesse acontecido teria sido uma enorme coincidência resultante de vários acasos. Mas foi também devido a vários acasos que, por um milimétrico triz, não aconteceu. E pronto, pouco depois desse dia ele morre enquanto ela continua o seu caminho à procura dele, sem chegarem a saber terem estado um dia a poucos metros um do outro, no mesmo comboio.

Eis, pois, a melancólica ideia do que num chega a acontecer devido a um pequeno acaso e sem saber que aconteceu não ter acontecido. Os fios que o acaso tece são surpreendentes quando ocorrem as mais improváveis coincidências. Basta um segundo a mais ou a menos, um metro a mais ou a menos ou virar à direita em vez de à esquerda, para acontecer o que nos leva depois a dizer, perplexos «Caramba, mas que grande coincidência!». O que não nos passa pela cabeça é o que nunca chegou a acontecer também por mera coincidência, aquilo que por um segundo a mais ou a menos, um metro a mais ou a menos ou virar à direita em vez de à esquerda, teria acontecido mas não aconteceu. Como naquele casal, isso nunca nos passa pela cabeça, nem poderia passar. Como diria Parménides de Eleia, não se pode pensar o que não é, não há pensamento ou discurso para o que não existe.

Cada pessoa tem o seu currículo de coincidências para contar, algumas delas impressionantes. Mas tão impressionantes como essas são as muitas coincidências que fazem com que não aconteça uma coincidência que teria mudado o rumo das vidas, sem termos sequer consciência de que as vidas são o que são também pelo que nunca chegou a acontecer. Nós somos o que somos mas o que somos é muitas vezes também uma negação do que estivemos para ser e que só não fomos por certos acasos. Para além de sabermos o como e porquê de muita coisa que muda, há também muita coisa que não muda sem sabermos como e porquê, porque nunca chegamos a ter consciência do que não chegou a acontecer. Para nós, que só temos olhos para o que é, nada mudou. Mas para quem tem olhos para o que é e o que não, como é o caso de Deus ou de um romancista, a perspectiva será sempre diferente. Mas ainda bem que temos a perspectiva humana. É bom saber mas melhor ainda ignorar.

08 julho, 2019

Não. O grande acontecimento da semana passada não foi o jogo das cadeiras entre a França e a Alemanha ou entre as principais famílias políticas europeias mas a misteriosa capa da Paris Match onde Sarkozy surge mais alto que Bruni. Entretanto, na sequência deste alturagate o PÚBLICO coloca esta magna quaestio. A pergunta surpreende num jornal em que o seu director, por causa de um polémico artigo de Maria de Fátima Bonifácio acaba de escrever um editorial em que lembra o facto do seu jornal ser contra qualquer discriminação. Esqueceu-se, todavia, de que a sua pergunta já é em si discriminatória. É como perguntar: pode um cigano tirar o curso de Engenharia Aeroespacial? Pode um afrodescendente entrar num anúncio publicitário da Mercedes? Pode uma lésbica ser ministra da Defesa? Pode um telejornal ser apresentado por um maneta? 

Ora bem, uma coisa é as mulheres gostarem de homens altos, pronto, é assim mesmo e as coisas são o que são. Outra será admitir em abstracto a possibilidade de terem de andar com um homem mais alto. Uma mulher pode gostar de homens loiros e não ter de andar com um, de homens que falem cinco línguas e não ter de andar com um, gostar de homens que não ressonem e não ter de andar com um. Eu também gostaria de não ter alunos parvos e tenho de os ter. Porquê então admitir a possibilidade de ter de andar com um homem mais alto só porque o aprecia? Enquanto membro do clube dos baixotes, tendo a mesma altura que Sarkozy, alerto assim para esta infame discriminação entre discriminações de primeira, mediáticas e ideologizadas, e discriminações de segunda, silenciosas mas não menos perniciosas. Toda a gente alerta para a discriminação racial ou sexual mas alguém se preocupa connosco, os que já foram discriminados à nascença pela lotaria genética? Quando o próprio PÚBLICO vem com aquela conversa, estamos esclarecidos.

Assim, para impedir esta dupla discriminação, exijo, como se pretende noutras discriminações, uma discriminação positiva para mulheres com homens mais baixos ou para homens com mulheres mais altas. Dentro das próprias cotas para mulheres nas listas partidárias, haver cotas para mulheres que sejam mais altas do que os homens. Para aceder a cursos superiores, reservar vagas para raparigas que sejam maiores do que os namorados ou rapazes mais baixos que as namoradas. E em candidaturas para emprego, reservar sempre uma ou duas vagas para pessoas nessa situação. Já não se pode ouvir falar no défice de mulheres, de afrodescendentes, de ciganos ou de LGBT+ em funções socialmente valorizadas. Tenho todo o respeito por todos eles (e elas, como agora se diz) mas de nós ninguém se lembra. Se, porventura, calhar existir um ser humano que é mulher, afrodescendente e tiver um namorado ou marido mais  baixo do que ela, nesse caso, deverá passar à frente de todos (e de todas, como agora se diz). Não faz sentido, em pleno século XXI, discriminações de qualquer ordem. Devemos caminhar para a igualdade, sim, mas não aquela soviética igualdade de uns serem mais iguais que outros, a qual subsiste numa espécie de ranking das discriminações. Sim, as discriminações são todas iguais  mas umas são mais iguais que outras. Não pode ser.

07 julho, 2019

Pouco antes do ano lectivo acabar, tinha uma turma a fazer trabalhos de grupo. Uma aluna chama-me para ler uma parte que haviam escrito. Eu leio, digo que está muito bem mas para fazer o favor de corrigir a palavra «mudificar». Ela mostrou-se surpreendida mas admitiu ter hesitado ao escrevê-la, explicando a sua opção pelo facto de se escrever «mudar» e não «modar», e sendo palavras com a mesma origem e significado, fazia mais sentido optar pelo «u» em vez do «o». Eu não gostei de ver o erro nem a sua pertinente justificação a redime do erro. Mas achei a justificação interessante, levando-me depois a considerar que é possível haver alguém que erra com base numa justificação sensata, tal como fazer o que é aceite como correcto mas sem pensar ou saber justificá-lo.

Continuemos na escrita. Não aprendemos a escrever através de um processo racional, ao longo do qual vamos, como um cientista, aprendendo e dominando regras para depois as aplicar. Direi mesmo que aprender a ler e escrever, mais do que um processo lógico e linguístico é um processo icónico. Qual a explicação lógica ou linguística que damos para escrever «colher de sopa» em vez de «culher de sopa» e «custo justo» em vez de «costo justo»? Eis a verdade: Nenhuma. Haverá, mas não a temos nem precisamos dela para aprender a escrever e ler. Aprendemos, porque olhamos para as palavras não como signos linguísticos mas como imagens que memorizamos tal como objectos, paisagens ou rostos de pessoas. Nós lemos (vemos) várias vezes «colher de sopa» e passamos a escrever «colher de sopa». Quer isto dizer que ao elogiarmos alguém por escrever sem erros ou ao ficarmos indignados com alguém por dar erros, se trata de uma reacção centrada em aspectos mecânicos e passivos que resultam de uma maior ou menor força do hábito nesse processo de aprendizagem.

Ora, acontece com aspectos de natureza moral e social o mesmo que acontece com a língua. Fazemos e não fazemos muitas coisas por acreditarmos que é isso que deve ou não deve ser feito. Mas se nos perguntarem porque é ou não bem feito, não sabemos explicar. Fazemos o que fazemos por imitação, por força do hábito, não fazendo outras apenas porque não tivemos modelos para imitar. Mas também acontece haver pessoas que fazem coisas que consideramos erradas mas se quisermos mesmo explicar por que agem de maneira errada a nossa única explicação reside no facto de não ter sido essa a maneira como aprendemos, do mesmo modo que dizemos que «culher de sopa» está errado porque não foi a palavra que nos habituámos a ver ou que há qualquer coisa de errado no rosto de uma pessoa branca que pintou a cara de preto. Daí poder haver pessoas que agem de maneira que consideramos errada, mas que o fazem de um modo racional, ponderado, consistente, ao contrário da maioria, que age de maneira consensualmente entendida como sendo a correcta mas que apenas se limita a imitar o que os olhos viram. 

05 julho, 2019


O que é assustador nesta fotografia disparada por Alfred Eisenstaedt em 1933? A sua terrível normalidade. Este Goebbels não é aquele vendido pela propaganda, em Berlim ou na varanda de Berghof a apanhar os ares da montanha, aquele ao lado dos seus loiros rebentos ou da sua germaníssima mulher. Goebbels está simplesmente no Carlton Hotel de Genebra durante uma vulgar Liga das Nações, antes de fazer uma vulgar conferência de imprensa, radiofónica pois ainda não há televisão. Em suma: um político, como os seus homólogos franceses, ingleses ou holandeses, talvez um pouco diferente por ter estudado Literatura e Filosofia. Mas foi este mesmo político que, neste ano de 1933, faria na bonita cidade de Nuremberga o discurso no qual avisa que a paciência em relação aos judeus está a chegar ao fim, o mesmo político que viria a proferir o célebre discurso no Palácio de Desportos de Berlim no qual, quase vomitando os pulmões, pede a Totale Krieg.

A minha questão agora é a seguinte. Será que ao vermos em Julho de 2019 políticos que já obtiveram democraticamente o poder ou em vias disso, fortemente nacionalistas, racistas, xenófobos, com uma visão agónica das relações internacionais e tendo na sua agenda conteúdos que divergem do projecto racionalista/iluminista europeu, poderemos olhar para a sua normalidade em conferências de imprensa, em reuniões internacionais, na sua diária actividade política como olhamos agora, e só agora, para esta fotografia de Goebbels? Ou seja, vermos o ovo ainda antes da serpente?

Devemos ter cuidado com as comparações, poupando os excessos para quando chegar mesmo a sua vez. Estes políticos não são fascistas como Primo de Rivera, Goebbels, Mussolini ou Mosley. Nem projectam qualquer tipo de revolucionário fascismo. Ao contrário do que se diz, e do que parece, a história não se repete. Pode haver fenómenos parecidos mas não iguais pois o mundo nunca é o mesmo. Mas é importante saber que a serpente é traiçoeira e que o veneno pode vir sempre de onde menos se espera. Estes políticos são pessoas normais mas também é verdade que é quase sempre de pessoas normais, ou que julgávamos normais, que vêm os actos mais hediondos. Actos que mudam a ordem estabelecida e que para os entender devemos ir a montante, ao antes de as coisas acontecerem, ao momento em que tudo é ainda tão normal que se torna inconcebível. Depois de tudo acontecer, então sim, há sempre uma explicação para o que aconteceu. É o ovo de Colombo a explicar o ovo da serpente. Desafiante é o contrário: compreender o excesso, o desvio, o desvario da razão no seio da invisível normalidade. E assim compreender melhor a radicalidade do mal, ab ovo, antes de vir à superfície.

04 julho, 2019


Há tempos, precisando de explicar algumas coisas sobre a teoria da justiça do filósofo norte-americano John Rawls, achei por bem começar pela ideia de «estado social». Assim, para comparar o nosso mundo antes e depois dele, pedi meia dúzia de características da vida social no século XIX.        Silêncio.      Vá lá, qualquer coisa que lhes venha à cabeça.       Silêncio.       Ah, finalmente, uma resposta: no século XIX ainda não havia Internet. Sim, é verdade, mais verdadeiro não poderia ser. E penso no desperdício que é ter agora para ali um tijolo com setecentas e tal páginas sobre a sociedade vitoriana. Um trambolho que apenas serve para ocupar espaço e ganhar pó. Na era da Internet a realidade tornou-se bem mais simples, e, sendo mais simples, tornou-se também mais simples de compreender. Havemos de chegar a um ponto em que a realidade deixará de existir e então, para grande alívio de todos nós, já nada haverá para compreender.



03 julho, 2019


Na capa do jornal I de ontem vinha o seguinte: «Prédio Coutinho - Tribunal para despejos num dia em que uma morte trava uma vitória». Graças a Deus, não entendo grande coisa de tribunais mas ainda assim, e apesar de existirem de vários tipos (Judiciais, de primeira instância, etc.) achei estranho existirem tribunais especificamente para parar despejos. Ocorrendo-me então que poderia ter alguma coisa que ver com o AO, recorri ao Ciberdúvidas para esclarecer o assunto, dando com esta dúvida. Aceito que o esclarecimento está muito bem conseguido mas o seu clímax argumentativo é quando se afirma que o cérebro tende a encontrar o sentido mais coerente da palavra. Fiquei estarrecido. E fiquei estarrecido porque o que eu li foi «Tribunal para despejos num dia em que uma morte trava uma vitória» tendo o meu cérebro logo pensado num «Tribunal para despejos num dia em que uma morte trava uma vitória». Quer isto dizer que o meu cérebro não funcionou e se o meu cérebro não funcionou tenho fortes razões para ficar preocupado pois gostaria de ter o cérebro a funcionar durante os anos que me restam. Eu sei que para os cérebros das crianças e jovens de hoje é um exercício giro e sobretudo estimulante. E se muitos não sabiam ler e escrever, é verdade que, de um dia para o outro, através de um milagre legislativo, passaram a saber. Mas isso são eles, que têm cérebros fresquinhos e bem afinados, na flor da vida cerebral. Agora, para pessoas como eu, com uma vida cerebral já algo gasta pelo peso dos anos, o que aí vem, no que à leitura diz respeito, não vai ser bonito de se ver. Sem assentos, só me resta mesmo andar aos trambolhões.


02 julho, 2019


Pronto, algum dia iria chegar aquela fase da vida em que os filhos, algo embaraçados, nos dizem «Sim, pai...já sabemos...», «Sim, pai...já contaste...», «Sim, pai...já tinhas dito...». Dizem os entendidos no assunto que, logo a seguir à saúde, a mais importante condição para se ser feliz é saber esquecer, ter uma péssima memória. A ser verdade, tenho então um futuro radiante à minha frente.

01 julho, 2019

ÓRGÃOS VITAIS (7)

O peso da ária Tu che di gel sei cinta, da Turandot, derradeira ópera de Puccini, cantada por Liu antes de se suicidar, não está apenas em ser esmagadoramente bela. Pelo menos para mim, limita bastante a alegria do final, quando vemos derreter-se um inquebrantável bloco de gelo chamado Turandot para se converter ao amor. Mas há ainda duas outras razões, extra-musicais  (haverá uma terceira, musical, mas que não vem agora ao caso), que a tornam especial. Quando compõe a Turandot o compositor já estava muito doente, falecendo precisamente no momento em que escrevia a ária, sendo a obra depois concluída por Franco Alfano, um compositor menor, a partir de alguns esboços deixados por Puccini. Quem não gostou mesmo nada dos acabamentos foi Toscanini, que dirigiu a obra na sua estreia em 1926. E mais enfático não poderia ser: no momento em que Maria Zamboni acaba de cantar a sua pungente ária, caindo no chão, moribunda, o maestro interrompe a actuação, vira-se para o público e informa que a obra termina ali. Sinceramente, o que estão a sentir muitos professores, sobretudo os mais velhos, que foram para o ensino por genuína vocação, é o que sentiu Toscanini naquela noite de estreia no Scala de Milão. Apetece-lhes parar, enfiar a batuta no bolso, anunciar que o espectáculo terminou e que venham outros se quiserem para continuarem esta triste obra agora escrita por compositores menores. 

27 junho, 2019



«Tinha o nariz um pouco grande mas bonito, aquilino; um buçozinho ligeiro matizava-lhe o lábio superior; a tez, porém, era de uma cor regular, mate, como o marfim ou o âmbar leitoso. O lustro do cabelo ondulado lembrava a Judite de Allessandro Allori no Palácio Pitti». Ivan Turguénev, Águas  da Primavera


Uma das coisas que sabem as pessoas que de Platão pouco sabem é a sua veemente rejeição da arte e dos artistas. Homero seria um bom exemplo para ilustrar a sua raivinha de estimação mas vou antes lembrar a célebre história em que Zêuxis e Parrásio disputam o título de melhor pintor. O primeiro pinta umas uvas tão reais que os pássaros se atiraram a elas para as comer. Grande artista, portanto. Quando depois se dirige ao estúdio de Parrásio este pede-lhe para afastar a cortina que permitia ver a sua pintura. Ao fazê-lo, Zêuxis descobre ser a cortina pintada. Grande pintor, portanto, rindo melhor por ser o último. Eis uma história engraçada mas à qual Platão não acharia piada. Porque mostra o pior da arte, a sua verdadeira essência: mentira, aparência, ilusão. Ao contrário do cientista (o conceito é anacrónico, não existe em grego antigo mas serve para facilitar) cujo trabalho consiste em usar a razão para produzir conhecimento, o artista usa os sentidos para criar simulacros. Platão nunca foi ao cinema nem ao Japão mas foi certamente das primeiras pessoas a ficar chocada com o império dos sentidos. Porquê esta raivinha face aos sentidos e que viria a marcar a história intelectual do Ocidente?

É contra-intuitivo e vai contra o senso comum mas para o filósofo uma ideia é mais real do que uma coisa. Pensemos numa árvore. Uma árvore é mutável, corruptível, contingente (pode ou não existir) dispersando-se na multiplicidade (oliveiras, macieiras, sobreiros, carvalhos, grandes, pequenas, folha caduca, folha persistente, etc). Se a árvore que vemos diante dos nossos olhos pode estar reduzida a cinzas minutos depois, isso já não pode acontecer com a ideia de árvore. Podem todas as árvores acabar, o próprio mundo acabar mas a ideia de árvore subsiste na sua inteligível pureza: imutável, incorruptível, necessária, una, absoluta. Conhecer é conhecer o que "é" através da razão, não o que tanto pode ser como deixar de ser através dos sentidos. Conhecer é conhecer o universal através da razão não o particular através dos sentidos. Se eu disser que uma árvore é uma planta que dá laranjas estarei a cometer um erro pois se é verdade que algumas árvores dão laranjas, não é menos verdade que outras não as dão. Neste sentido, as árvores físicas não passam de cópias imperfeitas e aparentes da ideia de árvore, a única que verdadeiramente "é". Sem espinhas, diríamos hoje. Ora, o que faz o artista? Ao pintar uma árvore a partir da árvore que vê à sua frente, está a produzir uma cópia de uma cópia. Se a árvore física já é uma aparência da verdadeira árvore, a árvore do pintor ainda é mais aparente por se afastar ainda mais da primeira. Eis a razão porque Platão vê os artistas (inclui os poetas) como inimigos do conhecimento, sendo, sobretudo, criadores de ilusões, falsidades, aparências.

Turguénev descreve uma mulher, Gemma Roselli: nariz, cabelo, lábio superior, a sua pele. Acontece que esta mulher não existe, resulta apenas da sua literária imaginação. No entanto, num gesto de boa vontade, e porque uma imagem vale mais do que mil palavras, ajuda o leitor a aproximar-se da verdadeira identidade física de Gemma, através de um retrato de Judite pintado por Cristofano Alfari [o escritor enganou-se, tendo confundido o filho com o pai, também pintor]. Organizemo-nos: Judite, figura lendária, tem a sua história contada por um judeu palestino, anónimo, algures entre começos do século I e segunda metade do século II, integrando o cânone da Sagrada Escritura a partir do século IV, tendo o original, escrito em aramaico, desaparecido. Entretanto, o retrato dessa mulher vai surgir pela imaginação de um pintor italiano do século XVII, o qual, por sua vez, serve de modelo para uma mulher criada pela imaginação de um escritor russo do século XIX, ajudando assim um português do século XXI a aproximar-se da verdadeira identidade física de Gemma Roselli, que não existe. Estamos, em suma, perante um complexo jogo de espelhos, algo barroco, que iria deixar Platão absolutamente horrorizado. Consigo mesmo imaginar o seu esgar de repulsa. Mas também podemos ver a coisa por outro prisma: onde Platão, com repulsa, vê falsidade, ilusão, aparência, podemos ver nós a verdadeira riqueza da arte. "Humanity cannot bear very much reality"? Graças aos artistas, sejam eles escritores, pintores, escultores, cineastas ou compositores, ficamos bem mais aliviados desse peso.  

26 junho, 2019

Há pessoas cujo gosto a vestir, a decorar ou a decorarem-se não poderia ser pior. Um fenómeno mental que sempre me fascinou e inquietou. Já tentei várias vezes olhar para as suas roupas, unhas pintadas ou brincos, ou ainda para os bibelôs, candeeiros e sofás que compram como se fossem as coisas mais bonitas do mundo, mas desisto. Não consigo. Pronto, não consigo, é como tentar pôr-me na mente de um morcego. O que há na mente de um morcego para além de tudo aquilo que cientificamente sabemos existir? Não sabemos. Podemos fazer complexos exames radiológicos como emissão de positrões ou coisa do género, mas ainda assim se torna difícil saber, como diria um conhecido filósofo neste texto, o que é ser um morcego. Poderíamos também deitar uma dessas pessoas durante uma semana inteira no mais sofisticado laboratório para observarmos as suas mentes e ficaríamos a chuchar no dedo, a não perceber o que as leva a adorar aquela saia, aquela camisa ou livros com capas românticas e cobertas com rendinhas. Apetece-me dizer o que diz Wittgenstein nas Investigações Filosóficas: se um leão fosse capaz de falar nós não seríamos capazes de o compreender. Pronto, essas pessoas falam mas o seu mundo interior é tão inacessível como o de um animal que observamos todos os dias.

Imaginemos agora que vamos explicar a uma dessas pessoas que o seu sentido estético é deplorável. Com que palavras e argumentos o faríamos? Como podemos provar que o vestido e a mobília são desgraçadamente pirosos? Não temos como. O mesmo acontece quando as pessoas tentam discutir sobre assuntos cuja carga subjectiva ou emocional é elevada. Para quê então discutir política, filosofias de vida, problemas morais ou ideológicos como se fôssemos sujeitos neutros? Não somos. As nossas disposições mentais são irredutíveis à arte de bem argumentar ou a raciocínios logicamente imaculados. Nós não desejamos as coisas por termos arranjado justificações para as desejarmos. É o contrário: tentamos arranjar justificações para o que desejamos. Fala-se mas não se compreende porque não há nada para compreender. Partilhamos uma mesma linguagem mas isso só vai aumentar ainda mais o poder da ilusão e das aparências, levando-nos a acreditar que partilhamos códigos. A partir daqui não há nada para argumentar e explicar. Resta apenas o bom senso de aprendermos a viver com as nossas divergências, respeitando ideias contrárias (desde que não ameacem as ideias dos outros), zangando-nos o menos possível uns com os outros. Vá, podemos não gostar dos gostos de uma pessoa mas isso não nos impede de passarmos um bom bocado diante de umas imperiais e uns pires de tremoços.

25 junho, 2019



Abel Salazar [Notas de Filosofia da Arte] é tão condescendente com as imperfeições técnicas de Franz Hals, como implacável com a perfeição clássica de Jacques-Louis David da qual, de todo, não gosta. Por exemplo, o Rapto das Sabinas. Diz ele que numa situação tão dramática como aquela lhe falta vida, fúria, tensão, emoção, espontaneidade. Tudo ali foi estudado para, com rigidez formal, mostrar a beleza escultórica de alguns corpos, cada um dos quais suspenso na sua própria individualidade e sem poder traduzir o verdadeiro sentido da acção. Parece que o pintor quis ser Deus ao pegar no comando da televisão para congelar a imagem, ficando tudo suspenso numa rigidez egípcia e em que cada personagem se sobrepõe ao drama colectivo. Tem Abel Salazar toda a razão, sendo pintores como David que ajudam a perceber a reacção romântica que exacerbará os ânimos e tensões arteriais de europeus ilustrados do século XIX. Creio, porém, que, tal como em Hals, cujos defeitos são convertidos em qualidades, também esta limitação de David, não sem uma valente ironia, acaba por enriquecer a lógica narrativa e psicológica do quadro. 

Recorro a um dos aspectos mais impressionantes de Guerra e Paz: o modo como Tolstoi vai alternando entre uma grandiosidade épica e a intimidade psicológica das personagens. O romance dá-nos uma lição de história feita de massas, multidões, grandes movimentações sociais e políticas. Mas, depois, através de constantes zooms fotográficos, deixa a grande batalha, a intriga política, o salão, para entrar cada vez mais na consciência de cada um dos seus actores E, então, na intimidade da consciência de cada um, percebemos que cada consciência é um mundo próprio, fechado sobre si, auto-justificado e auto-motivado. A história é feita por eus, uns protagonistas, outros actores secundários, a maioria figurantes. Mas cada um entregue a si próprio, sobrepondo o seu mundo individual ao mundo em geral. Como se a história fosse um concerto para piano e orquestra mas em que todos se sentem o solista entregue ao seu próprio esforço e sentido de missão e não apenas mais um músico anónimo da orquestra. Sentindo-se solistas, ficarão mais sós do que numa dinâmica colectiva na qual cada um se sentiria uma peça cujo sentido está ligado ao das outras peças. David, claro que sem o querer, respeitando apenas as rígidas regras da academia, acabou por fazê-lo.

24 junho, 2019



Merece a pena uma vista de olhos neste catálogo da série Concealed Spaces do pintor/fotógrafo Jose Manuel Ballester e da qual já tinha dado conta aqui. O seu interesse não é por aí além mas como exercício não deixa de ter a sua graça. Entretanto, não voltei a pensar nisso até ver há tempos no site do museu Jacquemart André a divulgação de uma exposição de Hammershoi (até 22 de Julho), onde surge esta pintura na qual também há muito não pousava os olhos. 

Como quase tudo na vida, foi por mero acaso que, em 2008, descobri o pintor dinamarquês, ficando logo rendido à sua poética do espaço interior, uma versão nórdica da pintura de género holandesa mas com outra luz e outras figuras, sobretudo femininas, quase todas de costas e em pose de absoluto alheamento face ao mundo, prolongando no corpo e na alma a tranquilidade do espaço doméstico. Agora, o que tem esta série que ver com a pintura de Hammershoi? Nada. Mas voltando a olhar para esta sala mergulhada numa semi-obscuridade e em cuja parede repousa, lânguida, uma luz exterior, surgiram-me as paisagens vazias do espanhol. Todavia, são contraditórios os processos mentais face aos dois. Enquanto o exercício de Ballester reeduca os olhos para enfrentarmos um vazio despojado das figuras humanas que lá estavam, já esta sala de Hammershoi leva-me à tentação de a povoar com figuras humanas que nunca lá estiveram. Não que o quadro careça de tais figuras. Nada disso, o quadro é perfeito, respirando muito bem sem o elemento humano. Diria até ser uma ausência que evita distracções psicológicas ou narrativas que nos afastariam da sua luminosa essência. Não, o quadro é mesmo o que o pintor quis que fosse.

Mesmo assim não consigo resistir à ideia de fazer dele palco de um episódio humano. Uma mulher. Aquele sofá ali pede uma mulher, não um homem, e uma mulher só. Não no sentido da etérea solidão das mulheres de Hammershoi, apenas uma mulher dividida entre a luz e a penumbra da sala por causa de um homem. Ainda assim, façamos o esforço de admitir ali um homem. Só poderia ali estar em momento introspectivo por causa de uma mulher ou à espera de uma mulher que virá do seu privado aposento. Um homem ali nunca estaria a pensar em negócios, assuntos militares ou políticos. Não, esta sala exigirá sempre uma mulher, seja porque está lá mesmo, fisicamente, seja pela forte presença da sua ausência nas meditabundas divagações de uma mente masculina.

Uma história de amor ou desamor que, de acordo com o meu imaginário literário, teria de ser russa. Aquele sofá pede uma Irina Pávlovna [Fumo], uma Mária Nikoláevna [Águas de Primavera], uma Zinaída Aleksandrovna [Primeiro Amor], uma Anna Serguéievna [Pais e Filhos], uma senhora Pózdnichev [A Sonata de Kreutzer], uma Anna Pavlovna, uma Natacha, uma Helena, uma Sonia  [Guerra e Paz], enfim, uma Anna Karenina. Esta sala, esta luz, este sofá, aquelas cadeiras vazias, embora perfeitas, podem surgem como o trabalho de Ballester ao contrário: esta sala, esta luz, este sofá, aquelas cadeiras vazias, pedem uma história. Uma respiração humana, inquietude, o roçagar de um vestido, um pequeno suspiro, uma mão que toca outra mão, lágrimas de desespero, um sorriso amargo, um silêncio pesado como o rochedo de Sísifo, um fugaz e subtil gesto de volúpia, um olhar de raspão para desfalecer no vazio da sala ou um longo beijo de despedida. Tudo isso para, finalmente, voltarmos a ter o sofá vazio na sala vazia do quadro de Hammershoi devolvido à sua eterna quietude da qual nunca chegou verdadeiramente a sair. Apesar do rasto humano que  dele já não poderá mais desaparecer, pois o que existe jamais poderá nunca ter existido. 

22 junho, 2019

Ao médico ou ao militar não interessa conhecer o bem em si para conhecerem e alcançarem o bem nas respectivas profissões. O médico nem sequer está interessado em saber o que é a saúde em geral mas apenas a saúde deste ou daquele ser humano numa determinada circunstância. Nem sou eu que o digo, é Aristóteles. Eis o mundo do particular e do concreto, tão distante do mundo da abstracção. Claro que existe a saúde em geral. Sabemos o que é saúde e o que é a doença. São conceitos. Mas quando se trata de tirar uma pedra na vesícula, pensar na saúde em geral é absolutamente irrelevante. Passa-se o mesmo com a ideia de amor. As pessoas amam mas tendo muitas vezes uma ideia prévia de amor. As pessoas amam a ideia de amor e, quando amam alguém em particular, amam-na em função dessa ideia de amor. Pensando com Aristóteles, isto parece um erro. O amor não deve ser encarado como ideia ou horizonte formal mas tarefa completamente inscrita no particular. Mesmo o médico e o militar, cada um seguindo o seu bem, saberão que ser um bom médico não é o mesmo do que ser um bom militar. A ideia de bem é comum a ambos mas cada um deles deve ser bom à sua maneira: diferentes metas, diferentes caminhos, diferentes linguagens. Pensar como salvar seres humanos à beira da morte, como faz o médico, não é o mesmo do que pensar na melhor maneira de matar seres humanos à beira da vida, como faz militar. No entanto, o médico será tanto melhor quanto melhor souber salvá-los, o militar será tanto melhor quanto melhor souber matá-los. Do mesmo modo, cada par amoroso deve encontrar o seu próprio bem, condição que pode não ser suficiente mas que é necessária. O que acontece a quem ama, movido pela ideia de amor, e do bem que é é amor, é ficar muitas vezes sem saber como amar, tal como um médico ou um militar ficariam sem saber como agir se apenas movidos pela ideia geral de bem. E médicos confundidos com militares ou militares confundidos com médicos não seria coisa bonita de se ver. No amor é igual.

21 junho, 2019



Entro no prédio e sinto o aroma de um perfume feminino. Identifiquei-o logo como sendo um perfume barato e de má qualidade mas dando-me ao mesmo tempo prazer cheirá-lo. Julgo conseguir explicar isto pelo facto de ser um conhecido perfume que associo a um tempo arcaico da minha existência, no qual ainda não seria capaz de distinguir um bom de um mau perfume, e que me dava prazer. Nem que viva duzentos anos será sempre um aroma da minha infância. Os meus pais tinham uma perfumaria. Uma vez andava para lá a cheirar perfumes e dei com um que me deu tanto prazer que tive de o levar para casa. Percebi anos depois, deveria ser um dos perfumes mais baratos e de menos qualidade, mas foi aquele de que mais gostei. Hoje seria incapaz de sair à rua a cheirar àquele perfume mas tenho a certeza de que se hoje o cheirasse ir-me-ia dar prazer, transformado numa espécie de Rosebud olfactivo. Ou antes, o meu lado mais polido e educado no quadro de uma axiologia olfactiva iria rejeitá-lo mas o meu inconsciente infantil, arcaico, primitivo, pré-normativo, iria continuar, bem guardado no cofre das minhas privadas memórias, a sentir prazer com ele. Isto quase me faz sentir duas pessoas que nasceram no mesmo dia, uma que ficou presa no tempo a uma humildade espontânea e sem complexos, outra que evoluiu, tornando-se mais exigente, criteriosa e com expectativas mais elevadas. Engraçado é o facto de serem duas pessoas que continuam a dar-se bem, como se tivessem feito um pacto de amizade para toda a vida. A alma humana tem por vezes coisas que não lembram ao diabo. Mas ainda bem que noutras consegue ser de uma quase comovente simplicidade.

20 junho, 2019

O que será preferível? Estar cheio de sede no deserto ou com um copo de água encostado aos lábios mas sem poder bebê-la? Sede é sede, seja em que circunstância for. Mas a penitência será maior perante a água que não é possível beber. Isto para dizer que será preferível o estado de inconsciência perante um bem que não temos do que viver com a consciência da sua inacessibilidade. Basta pensar em Filipe II de Espanha que nunca sentiu, nem poderia sentir, a falta de um fecho éclair, apesar de ser o homem mais importante do mundo. No meio de tudo isto, a chatice está no raio do conjuntivo. Uma vida inteligente sem o presente, pretérito imperfeito ou futuro do conjuntivo, seria menos inteligente mas muito mais fácil de ser vivida. Vejamos, o modo indicativo dá-nos a realidade mas o conjuntivo dá-nos a possibilidade. E se é por via da possibilidade que nos elevamos a um nível superior, também é por via da possibilidade que nos atolamos no pântano do sofrimento. Tivéssemos apenas o modo indicativo, e o passado, o presente e o futuro seriam simples como um nascer do Sol. Diríamos apenas: "Fiz, faço, farei", "Fui, vou, irei", "Disse, digo, direi" com a mesma inconsciência mecânica com que a ninfa Eco repete os sons de Narciso, ou de um animal cumpre naturalmente o seu destino. Mas vem o conjuntivo e estraga tudo. Olha-se para o passado e pensa-se no que poderia ter sido, olha-se para o futuro e pensa-se no que poderá vir a ser. E, a partir daí, tudo se torna labiríntico. Eu gosto do mito adâmico e não me desagrada nada a ideia de ser filho de Adão. Mas foi com Tântalo que começámos verdadeiramente a ser humanos.

19 junho, 2019


Lembro-me bem do impacto de alguns retratos de corpo inteiro de Zurbarán na primeira vez que os vi, como é o caso desta Santa Isabel de Portugal e creio ter sido também a primeira vez que dei por mim a olhar esteticamente para peças de vestuário em pintura, embora já antes olhasse esteticamente para peças de vestuário. Vem isto a propósito desta exposição ontem inaugurada no Thyssen-Bornemisza, e que me leva ao seguinte problema: pode um vestido ser considerado uma obra de arte?

Um belo rosto, uma bela paisagem ou uma bela romã permitem uma experiência estética mas isso não faz deles obras de arte, pois o que nos leva a considerá-los belos não resultou de uma intervenção humana, de uma technê, como diria um grego antigo. E o vestido, uma vez que é resultado de uma criação humana? Acontece que o vestido (cobrir o corpo, proteger do frio, conforto ou alimentar a vaidade), tal como a romã (matar a fome) tem uma utilidade. Ora, será esta suficiente para retirar a um objecto o estatuto de obra de arte? Não, pois uma coisa é a sua utilidade, outra será um conjunto de elementos formais que estão na origem desse prazer. Podendo ser as duas ao mesmo tempo, uma coisa não é bela por ser útil nem é útil por ser bela. Mas será essa utilidade suficiente para subtrair ao vestido o digno e elevado estatuto de obra de arte? Considerar o vestido obra de arte por se tratar de uma criação humana que dá origem a um prazer estético abre um precedente perigoso, levando-nos a inserir na categoria de "obra de arte", lado a lado com um quadro de Monet, um quarteto de Mozart ou uma poema de Elliot, coisas como um Porsche 911, uma casa ou um serviço de chá. Mas o facto de ser perigoso não anula a possibilidade de ser verdadeiro. Mas também de ser falso.

Vejamos o retrato de Santa Isabel. Considero-o belíssimo mas admito haver quem ponha em causa essa beleza. O que já não se admite é a possibilidade de não o considerar uma obra de arte. Uma obra de arte que retrata uma mulher. Retrata uma mulher, sim, mas uma mulher que não está nua, que não está com um hábito de freira ou simplesmente com um vestido que passasse despercebido. Direi mesmo, sem querer ser grosseiro, que, formalmente, esteticamente, o impacto do vestido é tal que o que mais vemos é um vestido com mulher dentro do que uma mulher com um vestido. Façamos o seguinte exercício: quem resistiria melhor um sem o outro? A mulher sem o vestido ou o vestido sem a mulher? Imaginemos que a mulher teria apenas um vestido simples e sem qualquer impacto no quadro. Claro que há uma pose corporal e uma expressão na mulher, para além das flores nas mãos, que dão ao retrato uma identidade e uma identidade com sentido estético. Mas agora imaginemos o quadro reduzido a este mesmo vestido diagonalmente deitado numa certa posição, acompanhado das flores. Teríamos duas obras de arte com sentidos estéticos diferentes, tendo, na minha opinião, claro, a segunda maior valor em virtude do valor estético do vestido. Dir-se-á: mas uma coisa é o vestido pintado numa tela pendurada numa parede, outra seria esse vestido no corpo de uma mulher que caminha numa rua. Então imaginemos o seguinte: que esta santa Isabel teria sido retratada, em pose, diante do pintor, ao longo de horas, no seu atelier. Entretanto, o pintor está cansado, sugere parar a sessão e a mulher vai para casa. Eu estou sentado numa esplanada a beber um cappuccino e vejo passar a mulher uns metros à minha frente. Reparo na mulher, ainda com as flores nas mãos mas se vir o mesmo vestido que vejo no quadro pendurado na parede, o meu impacto estético irá ser o mesmo.

Acontece que o pintor pintou um vestido que não foi espontaneamente desenhado e "pintado" pela natureza mas por quem desenha e pinta vestidos. Se se der o caso de ter sido o próprio pintor a conceber o vestido faz coincidir as duas vertentes. E repito: fosse outro o vestido e outro seria o quadro. Qual então o pretexto para não considerar o vestido obra de arte, ao contrário do vestido do pintor? Podemos dizer que o pintor recorre a certos efeitos, camadas de luz e de sombras, o que não acontece com o criador do vestido. Sim, claro, mas isso não é suficiente para retirar ao vestido todo o seu valor enquanto obra de arte que está na origem da minha experiência estética. E sim, o mesmo se pode passar com um Porsche 911, uma casa ou um serviço de chá, objectos que podemos sempre ver numa perspectiva museológica. Quantos serviços de chá não estão expostos em museus? E se vamos ver coches num museu, não enquanto meios de transporte mas enquanto objectos artísticos, porque não podemos fazer o mesmo com automóveis? E quando se vai propositadamente a um país, uma cidade ou uma rua para apreciar certos edifícios pelo seu interesse estético? Ou artístico, diria também. Sinceramente, não vejo qualquer diferença só por se tratar de um vestido que uma mulher veste para sair à rua ou para levar a uma festa.

18 junho, 2019



Com algumas semanas de atraso, passei hoje por este cartaz que nunca tinha calhado ver, e que me fez estremecer interiormente com o susto. Não com a cara do senhor, que até tem aquele ar simpático de pessoa com quem se pode beber umas imperiais e morder uns tremoços, mas com a mensagem propriamente dita. Um Portugal português é qualquer coisa de verdadeiramente assustador. Se ainda nos vamos aguentando, isso deve-se ao que não é propriamente português. Quisesse a Europa europeia mandar às malvas o Portugal português ou não viessem para o Portugal português os não portugueses do Portugal que assim deixa de ser completamente português, que remédio teriam os portugueses do Portugal português senão, como noutros tempos, voltar de novo em força para a Europa europeia para se juntarem a tantos europeus iguais aos não portugueses do Portugal português. E pronto, isto para dizer que já estando eu velho para mudar e não gostando da ideia de ter de ver partir os mais jovens ou de não ver chegar os não portugueses que fazem de Portugal um pouco menos português, não conto assim vir um dia a votar no PNR.

Passo por dois homens na conversa e ouço um deles: "Se lá tivesse ficado tinha sido melhor". Conheço-os de vista: gente humilde, mais velha do que eu, 4ª classe no máximo. Não pude deixar de reparar no espontâneo e correcto uso do conjuntivo e do particípio passado, logo imaginando o drama se tivessem agora de aprendê-los noutra língua. Frases como "Até amanhã se Deus quiser", "Se me apetecesse, tinha ido" ou "Só se me passasse uma coisa ruim pela cabeça" são ditas sem esforço, mesmo por um analfabeto, pois é sem esforço que se aprende a língua materna. Ninguém se lembra do dia e lugar em que aprendeu a dizer "garfo", "árvore", "rouxinol", "sótão", "saco", "pneu", palavras vazias como "de", "mas", "e", "talvez", "mesmo" ou "como".

No sentido em que também não exige esforço, o senso comum apresenta uma certa semelhança com a língua materna, envolvendo também elementos simples (o que se deve fazer com uma constipação) e complexos (sociais, políticos, económicos, etc.). Mas há uma enorme diferença entre a língua materna e o senso comum. A língua é um sistema formal que permite nomear e comunicar através de palavras que não são verdadeiras nem falsas. As palavras "gato" ou "ou" não são verdadeiras ou falsas mas o mesmo não acontece com as nossas crenças. Dizer "Os políticos são todos iguais!" ou "Portugal está como está por causa da corrupção!" pode exprimir estados de alma mas os seus conteúdos, resultado de uma crença, têm valor de verdade, isto é, são verdadeiros ou falsos, tal como "Paris é capital de França" ou "Londres é capital de Itália". 

E isto é complicado pois habituamo-nos a exprimir espontaneamente e sem esforço as nossas crenças tal como o conjuntivo expresso pelo homem por quem passei na rua, com a vantagem para este de a gramática não envolver qualquer valor de verdade. Todos nós opinamos sobre questões cuja natureza é técnica, sejam económicas, políticas, jurídicas, ecológicas, agrárias, médicas mas sem sabermos o que efectivamente se passa na realidade. Apenas por intuição ou emoção, mimeticamente por "ouvir dizer" ou arrastados por falsas autoridades. Mas há uma boa notícia: é possível contrariar crenças falsas, ou crenças que até podem ser verdadeiras mas que não são conhecimento pois não sabemos justificá-las, lendo boas jornais e revistas, ler e ouvir pessoas que são autoridades nas respectivas áreas (onde também muitas vezes há opiniões contraditórias, é verdade). Só que há um problema: implica tempo e esforço como aprender os conjuntivos em Espanhol ou Alemão. E o resultado é o mesmo de uma deficiente aprendizagem da língua. Neste caso não se trata de falar mas de pensar erradamente. Assim sendo, o melhor seria ficar calado, o que é cada vez menos provável neste tempo de confrangedora tagarelice.

17 junho, 2019


Ao cuidado de João Miguel Tavares, pela sua súplica de desígnios nacionais.




Post Scriptum

Dançar em roda é mágico; a roda fala-nos das profundezas milenárias da memória. A Srª Raphaël, a professora, recortou esta fotografia da revista e olha-a, sonhadora. Queria, também, dançar numa roda. Durante toda a vida procurou um círculo de homens e mulheres a quem pudesse dar a mão para dançar em roda, primeiro procurou-o na Igreja metodista (o pai era um fanático religioso), depois no partido comunista, depois no partido trotskista, depois no partido trotskista dissidente, depois no movimento contra o aborto (a criança tem direito à vida!), depois no movimento para a legalização do aborto (a mulher tem direito ao seu corpo), procurou-o nos marxistas, nos psicanalistas,  depois nos estruturalistas, procurou-o em Lenine, no budismo Zen, em Mao Tse-Tung, entre os adeptos do yoga, na escola do nouveau roman e, para rematar, quer estar pelo menos em harmonia perfeita com os seus alunos, fazer com eles um todo, o que significa que os obriga sempre a pensar e a dizer a mesma coisa que ela, a ser um só corpo com ela, e uma só alma, no mesmo círculo e na mesma dança.

Milan Kundera, O Livro do Riso e do Esquecimento

16 junho, 2019

DOMINICAL CAPRICHO BARROCO


Morreu há dias Rúben de Carvalho, homem que reuniu consensos à esquerda e à direita. Mas morreu também aquele que foi o último membro do Comité Central do seu partido a ter estado preso. Foi, portanto, um "último homem". O último homem está presente em todos os tempos e em toda a parte. O último homem que esteve na guerra de 14-18 ou o último homem a ter conhecido alguém que esteve na guerra de 14-18, o último homem a ter desembarcado na Normandia, o último homem a ter estado num campo de concentração, o último homem a  ver Beethoven, o último homem a ser vacinado por Pasteur, o último homem a viver o dia 25 de Abril, o último homem a lembrar-se de um muro em Berlim, o último homem a ler A Cidade e as Serras, o último homem a beber água tirada de um poço, o último homem a ver um lince ibérico, enfim, o último homem a jogar ao berlinde ou a andar num carro de ladeira.

Rúben de Carvalho foi um último homem, sem fazer a mais pequena ideia, quando esteve preso, de que um dia iria ser um "último homem". Mas todos nós, ainda que por aproximação, somos últimos homens. E muitas vezes em contacto com os primeiros homens que umas vezes sabem que o são mas na maior parte dos casos não. Estes últimos homens são a consciência viva de experiências que um dia se tornarão mortas, não por não haver consciência histórica delas (haverá sempre, tal como nós temos consciência de como trabalhava um servo da gleba ou como se comia no século XVI) mas porque se tornarão apenas em conceitos sem sujeito. Daí falarmos em Antigo Egipto, no Século de Péricles, na Idade Média ou na Revolução Francesa mas sem a consciência da experiência delas, a qual nem passava pela consciência do conceito de Antigo Egipto, de Século de Péricles, etc., tal como no dia 25 de Abril as pessoas não tiveram a consciência de ser "o" 25 de Abril. Um dia, quando já não existir o último homem a estar vivo no 25 de Abril também este dia não passará de um conceito, do mesmo modo que no actual Comité Central as prisões políticas passaram a ser apenas prisões políticas para os homens que são os primeiros para quem as prisões políticas passaram a ser apenas prisões políticas. E assim funciona a história tal como na Capela dos Ossos. Entra-se lá e ficamos rodeados de ossadas anónimas de gente que, como Yorick, um dia riu, comeu, amou e odiou, em mundos que deixaram de existir logo que deixou de existir a consciência deles.

15 junho, 2019

Há situações em que temos de implorar aos deuses generosas doses de paciência e tolerância. Por exemplo, certos estados de alma de feministas tontas, que até se desculpariam na manhã seguinte a uma noite de bebedeira ou numa depressão pós-parto. O que não quer dizer que não haja situações em que as mulheres são discriminadas. Há. Veja-se este artigo que centra na mulher o moderno desejo de não querer ter filhos. Ser protagonista em vez de actor secundário pode ser desejável no cinema mas associar mais a mulher à maternidade do que o homem à paternidade, parece-me errado, como errado será responsabilizar mais a mulher por uma situação tão dramática como é a fraca natalidade. Dar aqui mais importância à mulher do que ao homem fá-la injustamente carregar o peso da culpa por um desvario demográfico cujas consequências nefastas são enormes.

Claro que há muita gente a não poder assumir a maternidade ou a paternidade, havendo mesmo casos em que seria uma irresponsabilidade fazê-lo. A seca de filhos, porém, ultrapassa estados de contingência, seja feminina ou masculina, sendo antes cultural e axiológica: um crescente individualismo e hedonismo. Casar com o objectivo de ser feliz é um recente desígnio. Não quer dizer que as pessoas não pudessem ser felizes no casamento, podiam, mas não era para serem felizes que casavam. Casavam para constituir família, segundo uma dinâmica em que cada uma das partes está subordinada à racionalidade do todo, tal como num exército ou numa fábrica. Não por acaso a ruptura entre a vida de solteiro e a de casado era evidente e mesmo sabendo-se que casar e ter filhos implicaria obrigações e sacrifícios, não deixava de se assumir como destino natural de qualquer homem ou mulher. Ora, isso acabou. E acabou porque o indivíduo, com os seus desejos, crenças e necessidades vem sempre primeiro que a tribo, a nação, a família. Já não existe um todo anterior à soma das partes, apenas partes que cumprem as suas ambiciosas e frenéticas agendas pessoais. Claro que há, e vai continuar a haver, casamento. Mas casamento que não é mais do que a continuação do namoro por outro meio, não se prescindindo das viagens, das jantaradas com os amigos, dos programas de fim-de-semana e de um rendimento que deve estar sobretudo concentrado na aquisição de bens secundários que exibem sucesso social e, com isso, aumentar a cotação de cada indivíduo no mercado social.

Depois, não menos importante, as alterações quanto à vida sexual. Numa sociedade fechada, sexualmente repressiva e em que o corpo é controlado socialmente, casar seria sempre um modo de poder legitimar algo tão natural como o sexo. E apesar de, exceptuando casos radicais, o sexo não estar exclusivamente associado à reprodução, era em grande parte associada a esta. Claro que sempre existiu o adultério, tanto masculino como feminino (mais legitimado e tolerado o primeiro até "pelo direito ao prazer do homem e as suas necessidades serem diferentes das necessidades das senhoras"), mas como situação marginal e errática face a uma institucional normalidade familiar. Isso também acabou em resultado de relações "líquidas" que duram enquanto dura a felicidade, a qual não apenas não carece de filhos como até os vê como obstáculo a essa felicidade e liberdade sexual. Ora, tudo isto reflecte a posição do indivíduo, não do homem ou da mulher. E assim vamos alegremente caminhando para o nosso suicídio colectivo. A única coisa boa é que diminuindo a população, diminuirá também a probabilidade de existirem feministas tontas.

14 junho, 2019

Imaginemos uma pessoa que nunca foi à Irlanda e vai de propósito a Dublin para ver esta exposição. Chega, almoça, vê a exposição, à noite bebe umas pints de guinness para depois regressar no dia seguinte ao seu país. Será esta uma situação ridícula ou mesmo absurda, ou, pelo contrário, fará algum sentido? 

Haverá um argumento forte a favor da primeira: pintar a paisagem irlandesa implica existir paisagem irlandesa, sendo esta o original e a pintura uma reprodução. Para quê então estar fechado num museu vendo reproduções quando se pode ter diante dos olhos a própria realidade? Podemos, todavia, contrapor o seguinte: nada nos diz que a pessoa que irá ver uma exposição relativa à paisagem irlandesa está interessada em conhecer a paisagem irlandesa. Fosse esse o caso, então sim, teria de pegar no carro para ver as paisagens sem a intermediação do pintor. E pisar, cheirar, ouvir, abrir os olhos o mais possível para a paisagem entrar toda pelos olhos, desígnio impossível numa tela ou mesmo numa fotografia. O conhecimento é uma disposição teórica que exige contacto (que pode ser de diferentes tipos) e uma percepção o mais objectiva possível da realidade, algo que uma obra de arte jamais permitirá.

Mas o nosso visitante da National Gallery poderá mesmo não quer conhecer a paisagem irlandesa, apenas ver obras de arte com a paisagem irlandesa como motivo. Ora, o que poderão as obras de arte possuir e de tal modo independentes da paisagem que esta até pode ser dispensada? O belo artístico, em oposição ao belo natural. A paisagem irlandesa, como um pôr do sol, pode ser bela. Mas trata-se de uma beleza que pese embora possa ser subjectivamente reconhecida por quem a contempla, não é resultado de qualquer processo consciente e intencional. O que não acontece com o belo artístico, que é resultado de um conjunto de elementos formais que só são possíveis em virtude da imaginação e criação do pintor, em suma, de um processo espiritual.

Claro que o belo natural também resulta de um processo espiritual. É verdade que a natureza não é uma obra de arte criada com o objectivo de ser bela. Mas a beleza é uma qualidade que apenas o ser humano poderá reconhecer. Um cão, um gato, uma ovelha ou uma vaca perante uma paisagem irlandesa jamais irão reconhecê-la como bela. O ser humano, sim, não porque, a montante, tenha sido criada para ser bela mas porque, a jusante, reúne condições espirituais para o fazer. O belo artístico, insisto, só é possível graças a um conjunto de elementos formais explorados pelo pintor, um processo espiritual tanto a montante, no momento da criação, como a jusante, ao existir uma experiência estética única e cujo reconhecimento não é possível com o belo natural.

Por fim, mas não menos importante, uma obra de arte que tem como motivo a paisagem irlandesa, que é bela, não tem forçosamente de ser bela. Eu consigo imaginar a beleza natural de certos motivos pintados, por  exemplo, por Chaïm Soutine, mas não é a beleza o que procura o pintor, ainda que seja reconhecida a realidade empírica que lhe serve de base. Tanto quanto sei, nenhum dos quadros de Soutine tem como base uma paisagem irlandesa. Mas suponhamos que teria. Ora, poderia haver todo o interesse em ver os quadros de Soutine inspirados em paisagens irlandesas sem que tal implicasse o tipo de experiência estética que só é possível diante da paisagem irlandesa. Em suma, seria legítimo ir a Dublin ver a exposição sem que alguma vez  se tivesse estado diante das paisagens retratadas.


13 junho, 2019


Acabei há dias Serotonina, o meu terceiro Houellebecq. Todos eles, mutatis mutandis, parecem apresentar sempre a mesma personagem e o tom é monocórdico: desilusão, desencanto, alienação face ao mundo e aos outros, solidão, desenraizamento, abulia, depressão, atolamento no álcool e em sexo mecânico e frívolo. É difícil não sentir alguma compaixão pelo homo houellebecqus ou até mesmo, nalguns aspectos, não nos projectarmos nele. Porém, não se trata de uma fatalidade, ninguém está condenado ao desespero das suas personagens, que tentam encontrar uma saída mas só encontram pela frente intransponíveis muros. Não. Haverá sempre a possibilidade de nos tornarmos Testemunhas de Jeová ou agentes da Remax como segundo emprego ou depois da reforma, escrevermos um livro ou até contratarmos um personal trainer. Como diz o povo naqueles dias em que acorda com instinto filosófico: quando o mundo fecha uma porta, Deus abre uma janela.


12 junho, 2019


Palavras e expressões detestáveis ou simplesmente irritantes (10):

Ponto final parágrafo



Ajudo a preparar os alunos para o exame nacional e um deles apresenta uma dúvida na área da estética. Peço-lhe para me dizer uma música qualquer de que goste muito para depois eu melhor levar a água ao moinho dele. Levanta a cabeça, pensa um bocadinho, hesita uma ou duas vezes para finalmente me atirar o Quarteto para Piano em Dó Menor de Mahler. Eu, claro, não disse nada, gostos são gostos e, como é óbvio, ainda para mais com a experiência que já levo com jovens em trinta e picos anos de ensino, o que se poderia esperar de um garoto desta geração tão refém da vulgaridade? Até porque já nem tenho idade para desilusões. Estupefacto ficaria se algum aluno viesse, sei lá, com A Noite Transfigurada de Schönberg ou um Quarteto de Alban Berg.


10 junho, 2019

Passei pelo Modelo para comprar umas coisas, uma das quais um pacote de gelatina de morango. Costumo comprar de marca branca por serem metade do preço e não notar grande diferença. Acontece que estavam lá as caixas onde seria suposto estarem as gelatinas distribuídas por sabores mas sem as gelatinas. Todas vazias, ao invés das outras que estavam cheias. Eu precisava  mesmo da gelatina e não me teria custado nada trazer logo uma das outras, 60 e picos cêntimos mais caras. Mas não! Como tinha de dar umas voltas, passei de propósito pelo Aldi para comprar uma das gelatinas que não quis comprar no Modelo. Tive mais trabalho? Tive. Perdi tempo? Perdi e até gastei gasolina. Mas não trouxe a gelatina que o supermercado queria obrigar-me a trazer.

Há muitos anos, numa sala de cinema de um centro comercial aqui da terra, já o filme ia adiantado quando começo a sentir a temperatura a aumentar e aumentar. Era Inverno, vestia roupa quente, o ambiente estava insuportável e eu a morrer de sede. Eis senão quando se acendem as luzes: intervalo. Às vezes sou um bocadinho lento a perceber as coisas mas ali deu logo para perceber que a ideia seria, mal se acendessem as luzes, despejar as pessoas para o bar mesmo ali ao lado como pintos num aviário, as quais acreditariam estar a exercer livremente a sua vontade (quando voltei à sala a temperatura era de novo a normal). Estava a morrer de sede? Estava. Mas não fui ao bar para pagar a água que eles queriam que eu bebesse.

Nunca gasto um cêntimo na área de serviço de uma auto-estrada. Nem um simples café ou litro de gasolina. Ficaria mais pobre por isso? Não. Mas recuso-me a pagar seja o que for que considere estupidamente acima do que é um preço razoável. Portugal é pequeno, abasteço-me antes e depois, tomo café antes e levo umas bolachas ou peça de fruta para o caso de dar a fome.

Tudo isto para dizer o quê? Que nunca fui revolucionário mesmo naquela idade em que é grande a tentação de o ser. Gosto do mercado, da iniciativa privada, da concorrência, enfim, alguém me diga qual o sistema que mais riqueza e qualidade de vida trouxe às populações. Mas vivemos numa realidade económica e social cheia imperfeições e a melhor estratégia para as combater não é destruí-la, transformá-la radicalmente em não se sabe muito bem o quê, pôr em causa o princípio da realidade para fazer valer o princípio do prazer. Não, a melhor estratégia é usar a nossa consciência e a nossa liberdade para resistir ao que nos querem impor, para dizer "Vocês querem ganhar dinheiro, acho muito bem, todos queremos e precisamos, mas não há-de ser à custa de marionetas acríticas que salivam com tudo o que lhes metem à frente e que vão atrás do mais pequeno impulso". Gosto de uma economia que produza coisas que eu vou comprar e com isso criar riqueza que beneficia o todo e as partes. Mas quero continuar a ser humano e não um hamster todo contentinho às voltas numa rodinha dentro de uma gaiola da qual não pode sair. Dei três exemplos insignificantes ou mesmo ridículos. Mas o que eu fiz em ponto pequeno pode, e deve, ser também feito ao nível das nossas grandes escolhas e acções mais importantes. Ser revolucionário não é destruir mas sobretudo resistir.

09 junho, 2019


Não tenho medo da morte, não tenho qualquer angústia perante esse sinistro buraco negro que nos suga de modo a nunca mais voltarmos a comer um belo frango assado com batatas fritas ou de ouvirmos os programas da manhã enquanto estamos engarrafados no IC 19. Não tenho medo dos cancros, das embolias, dos enfartes, das diverticuloses, das hepatites, dos aneurismas, das peritonites. O meu único medo é ser assassinado. Só saber que um dia poderá vir a minha fotografia na capa do Correio da Manhã, com o título "PROFESSOR DE FILOSOFIA ASSASSINADO" mesmo ao lado de uma fotografia da mãe do Cristiano Ronaldo ou da mulher, em biquini, de um jogador de futebol, é motivo de sobra para viver em sobressalto os anos que me restam.


08 junho, 2019


Na Poética do Espaço, diz Bachelard que, ao contrário do que se passa com as escadas que nos levam às divisões quotidianas de uma casa, que tanto se podem subir como descer, a escada para uma cave é uma escada que só desce enquanto a escada que leva ao sótão apenas se sobe. Há muitos séculos, Heraclito de Éfeso não se limitou a ensinar que não nos podemos banhar duas vezes nas águas do mesmo rio. Ensinou também que as mesmas escadas que servem para subir servem também para descer e é isso que acontece com as escadas que subimos e descemos todos os dias. O que acontece com as escadas que apenas descem para a cave ou que apenas sobem para o sótão, é o seu intenso e poético simbolismo. Mas o que acontecia com as escadas que levavam até ao consultório do dr. Freud, no tranquilo prédio de uma pacata rua de Viena, algo afastada do rebuliço central ainda com resquícios do Império, era completamente diferente. Subiam-se para descer para voltar depois a subir ao descê-las. Muitos desciam sem nunca voltar a subir. Outros, já mais reconciliados consigo e com os outros, regressavam mais livres e abertos para a azáfama urbana dos cafés vienenses.


07 junho, 2019


Palavras e expressões detestáveis ou simplesmente irritantes (8):

Um dia de cada vez.


Uma aluna entra na aula de muletas. O que aconteceu, rapariga, perguntei-lhe. O que aconteceu foi ela ter colocado mal o pé durante a aula de dança contemporânea, ficando assim naquele estado. Eu cá tenho pois as minhas razões para desconfiar de tudo o que é contemporâneo. Já saí de algumas  exposições com a cabeça também a precisar de muletas.