15 abril, 2021

O PIANO SEM MESTRE


Paul Wittgenstein, irmão do filósofo, perdeu o braço direito durante a I guerra. Tragédia maior na vida de um pianista. Mas foi para ele que, entre outros, músicos como Ravel, Hindemith ou Britten, escreveram composições para serem tocadas apenas com a mão esquerda. Eu poderia extrair desta história uma bonita moral. Uma bonita moral como incentivo à "resiliência", ao "mindfulness", ao "pensamento positivo", ao "coaching", tudo isto ungido com lindas frases como "Por cada porta que se fecha há uma janela que se abre!" ou, ainda mais sublimemente (atribuída a Fernando Pessoa), "Pedras no caminho? Um dia vou construir um castelo", e outras do mesmo calibre poético ou espiritual. Mas não extraio. Só ficarei convencido no dia em que grandes músicos se sentarem ao piano para comporem peças para serem tocadas sem mãos.

14 abril, 2021

OS DADOS ESTÃO LANÇADOS


Tendo-lhe sido pedido um daqueles conselhos para a vida, Grouxo Marx, perante tão séria e profunda questão, só poderia dar uma resposta marxista, embora, imagino, com sussurrante gravitas para poder torná-la ainda mais dramaticamente marxista: «Examina sempre os dados». Eis um bom conselho para quem (no fundo, todos nós, herdeiros da Revolução Científica, do Iluminismo e do Positivismo) 2500 anos depois ainda não entenderam o célebre fragmento em que Heraclito, com a obscura clareza que o caracterizava, explica que «o tempo é uma criança jogando ao gamão, o reino de uma criança». [fr.52]

13 abril, 2021

o meu metro quadrado

A minha sala tem duas janelas que dão para uma rua com prédios e, noutra parede, uma porta envidraçada que dá para uma outra rua também com prédios. Falta de prédios não é coisa que se faça sentir por aqui. Porém, há um ponto, cirurgicamente localizado na minha sala, que faz com que através da porta envidraçada me seja dada uma paisagem deslumbrante. Num primeiro plano, um campo verdíssimo, muitas vezes com ovelhas a pastar, salpicado de algumas casas rurais. Num segundo, pequenas camadas de colinas vagamente arborizadas até chegarmos, já bem ao longe, ao branco de uma aldeia, pois a esta distância, é mais a aldeia a estar no branco do que o branco na aldeia. E então, depois, como pano de fundo de toda esta representação campestre, impõem-se, majestáticas, as quase femininas curvas da serra de Aire por baixo de um enorme céu. São vários os matizes de verde que tenho pela frente, os quais vão discretamente mudando com as variações da luz e demais condições meteorológicas. Neste preciso momento, graças à pouca luz de um dia nublado, tenho um verde europeu, rutilante, mas também manchas de um verde mais mediterrânico, coados por uma neblina matinal que dá à paisagem um encanto quase feérico. A serra, essa, cobre-se por vezes de um nevoeiro que lhe faz perder momentaneamente a nudez, parecendo um espectro mais pressentido do que visto. Quando falo no ponto cirúrgico da minha sala é para ser mesmo levado à letra, como se o espaço tivesse de ser delimitado pelo rigor de um bisturi pois um pequeno desvio leva-me de novo aos prédios de uma das ruas. 

Foi fazendo a minha pessoal Conferência de Berlim, ou como um colono acabado de chegar ao Oeste, que um dia resolvi, com regra e esquadro, aqui marcar o território em que trabalho ou mais recentemente dou aulas (estou a falar ou a ouvir alunos e a olhar para a paisagem), leio jornais e muitas vezes sem ser jornais, faço as minhas pesquisas na Internet, incluindo as mais deambulatórias, tendo sempre este cenário, seja como visão central, seja como visão periférica. Por vezes vejo títulos sobre preços do m2 em diferentes cidades ou em diferentes zonas da mesma cidade. O m2 em Paris, Londres, Lisboa, Porto, Braga ou Aveiro, o m2 no Parque das Nações ou em Carnide. Na minha terra acontece o mesmo. Mas, para mim, tudo isso não passa de filistina informação, embora importante para muita gente que deseja vender, comprar ou alugar. Eu não sei quanto vale o m2 no sítio onde moro nem o m2 da casa onde moro. Independentemente da localização, das assoalhadas, das funcionalidades, da presença ou ausência de despensa, garagem, varandas, casa de banho interior ou sem ser interior, o meu metro quadrado é o metro quadrado onde vivo quando estou em casa no qual uma cadeira exerce a sua força de gravidade que me leva para o seu centro. Se de repente um mago agora transformasse esta minha humilde casa em Chambord ou Blenheim Palace, continuando a dar-me esta vista, eu iria continuar a habitar este meu metro quadrado. Este meu metro quadrado é o o rio da minha aldeia. O Tejo, o Danúbio, o Tamisa, o Sena, o Pó, todos esse rios com tantos quilómetros e que buscam enormes oceanos, são meros afluentes do meu metro quadrado.

12 abril, 2021

UM PAÍS ZANGADO

Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal! Padre António Vieira. Sermão de SºAntónio aos Peixes


12 Angry Men, de Sidney Lumet, é um dos meus filmes. Por várias razões, não sendo nenhuma delas agora para aqui chamada. Estes doze homens formam um júri que irá decidir se um jovem acusado de matar o pai é culpado ou inocente. Doze homens, portanto, para tomar uma decisão a respeito de um único crime cuja base factual é relativamente simples. O filme começa com onze membros a rapidamente sentenciar, perante a crua evidência dos factos, a culpa do rapaz. O filme só não dura dez minutos porque um deles começa a questionar, a analisar, a encontrar as fragilidades de algumas evidências factuais que praticamente atiram o jovem para a cadeira eléctrica. Após horas de grande intensidade emocional, em que a psicologia e a natureza humana emergem no seu melhor e no seu pior, o júri decide por unanimidade considerá-lo inocente. 

Não sei se seria necessário tanta gente para avaliar um crime. O que sei é que apenas uma pessoa me parece bastante pouco para avaliar dezenas de crimes, de elevada complexidade processual, envolvendo várias pessoas, sabendo-se ainda que, por imposição do acaso, fosse outro o juiz e tudo poderia ser bastante diferente. No filme muitos daqueles homens ficaram zangados com a pertinaz resistência de um só homem. O mesmo que acontece agora em Portugal também por causa de um só homem, só que em vez de onze temos milhões de pessoas zangadas. Estas pessoas não estão zangadas por terem mau feitio, serem rancorosas, padecerem de doentio ressentimento ou só porque estão atiçadas pelas capas do Correio da Manhã ou pela imbecil e reptiliana verborreia de André Ventura. É uma enorme massa zangada que atravessa toda a sociedade portuguesa, da esquerda à direita, de todos as classes sociais, muitas delas vivendo com dificuldade do seu trabalho ou falta dele, que pagam impostos e sabem que ao menor erro terão de pagar por isso. Algumas delas serão mesmo juristas que consideram haver erros graves de natureza jurídica na decisão do juiz. Em comum, terão a inteligência e perspicácia suficiente para perceberem que há mentiras que só na cabeça de um vigarista ou de um juiz parecem resultar ou que, havendo prova de crimes, a justiça portuguesa possui mecanismos para impedir as justas consequências desses crimes.

O filme acaba com doze homens saindo apaziguados após horas de grande efervescência, graças à sensatez e prudência de um só homem. O que vamos continuar a ter em Portugal são milhões de pessoas durante muito tempo zangadas por causa da insensatez e hybris de um só homem que resolve afrontar não apenas o Ministério Público mas um país inteiro. Ajudando a atirar milhares deles para os peludos e primitivos braços de André Ventura.  

Uma pessoa sente-se tentada a concordar com Kafka quando ele diz a Gustav Januch que num mundo sem Deus é quase uma obrigação moral o sentido de humor. Mas, pensando melhor, é bem capaz de ser o contrário. Num mundo tutelado por Deus é mais premente o humor uma vez que há uma ordem estabelecida e uma das funções mais nobres e elevadas do humor é instalar uma certa desordem no mundo. O humor é subversivo, corrosivo, desmistificador, desidealizador. Num mundo sem Deus, pelo contrário, é preciso ser sério. Vive-se como uma criança que fugiu de casa e que precisa de sobreviver apenas pelos seus próprios instintos. A  obrigação moral, neste caso, ao contrário de um mundo com Deus, no qual, como em Abraão, basta a fé para dar um sentido às nossas vidas, é pensar seriamente sobre o que não está previamente pensado. Quer isto ainda dizer que a importância do sentido de humor num mundo sem Deus é também para assim nos podemos rir de nós próprios e dos outros que são também como nós próprios. Enfim, não era isto que eu tinha pensado dizer quando comecei e não posso evitar um sentimento de estranheza por tão espontânea mudança. Mas também é verdade que quando Gregor acordou no dia seguinte já não era o mesmo que adormecera na noite anterior.

11 abril, 2021

FILHOS MENORES DE UM DEUS MAIOR


Eu não sou professor de Religião e Moral mas pela quantidade de vezes que invoco passagens bíblicas, por brincadeira, gosto de lembrar isso aos alunos. Passagem muito convocada é aquela em que Jesus diz para não fazer publicidade quando se dá uma esmola, e que termina com a sugestiva e célebre imagem: «Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que fez a mão direita a fim de que a tua esmola permaneça em segredo» (Mateus, 6). Três séculos e tal antes, embora num sentido mais abrangente, Aristóteles sugere a mesma ideia, sabendo nós que não leu os Evangelhos mas também não sendo provável que nem Jesus nem Mateus conhecessem Aristóteles, o que em si não tem importância pois se há coisa que não falta na história são ideias proferidas por pessoas que nada sabiam umas das outras.

O que me importa aqui não é a ideia mas o diferente impacto dos dois como figuras de autoridade num argumento que, não sendo de autoridade, acaba por beneficiar dela. Eu posso defender a ideia sem ter de falar de Aristóteles ou Jesus. A ideia é boa e é facilmente entendida por qualquer pessoa. Porquê então recorrer a uma figura de autoridade, seja Aristóteles, seja Jesus? Pelo prestígio, valor ou superioridade intelectual ou moral de ambos. Agora, porquê Jesus e não Aristóteles, quando tudo em mim deveria remeter para o contrário? Sou de Filosofia e Jesus não foi filósofo. Não sou cristão e embora Cristo também não o tenha sido, por razões óbvias estaria muito mais próximo de o ser do que Aristóteles. São duas as razões. Uma de natureza literária: a força imagética da passagem de Mateus tem muito mais impacto do que a simples ideia que lhe subjaz. A outra, porque apesar da dupla matriz grega e judaica-cristã da nossa cultura, a figura de Cristo, pelo peso religioso dessa matriz, tem um valor simbólico que nenhum grego possui. 

Se eu quiser fazer passar esta mensagem a um ateu com impulsos anti-clericais, jamais recorreria a Mateus para o fazer para não me sujeitar a ser ridicularizado. Mas, por outro lado, apesar da ideia em Aristóteles estar mais bem explicada do que em Mateus, é a este que eu recorro por saber de antemão que irá resultar melhor. Eu percebo que uma marca de shampô contrate Cristiano Ronaldo para um anúncio em vez de Valter Hugo Mãe. Mas também percebo que João Tordo seja preterido apesar de ter mais cabelo do que Cristiano Ronaldo. Porque cabelo é cabelo mas uma coisa é esse cabelo estar na cabeça de quem joga à bola, outra será estar na cabeça de quem escreve livros que poucos lerão. 

Os argumentos de autoridade são perfeitamente legítimos e a eles recorremos muito mais do que julgamos. Se nos perguntarem por que tomamos um medicamento em vez de não o tomar, como sabemos que a composição química da água é H2O ou como sabemos que a batalha de Aljubarrota ocorreu mesmo, recorremos à autoridade do médico, do cientista (ou professor de Ciências) e do historiador (ou professor de História). Um argumento de autoridade pode trazer problemas, sim, quando duas figuras de autoridade defendem coisas opostas. Basta pensar num debate sobre assuntos económicos entre Francisco Louçã e o primo Vítor Gaspar. Agora, verdadeiramente interessante é quando duas figuras de autoridade dizem a mesma coisa mas preferimos uma em detrimento da outra. É bom lembrar que estamos a falar de ideias e ideias são mesmo isso: ideias, não pessoas. Talvez isso aconteça por causa da menoridade de que fala Kant, enquanto «incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. (...) É tão cómodo ser menor».

09 abril, 2021

L'ÊTRE ET LE NÉANDERTAL


Recentes descobertas paleontológicas mostram ter havido, de modo frequente e continuado ao longo de muito tempo, relações sexuais entre entre sapiens e neandartais. Não se trata de um despiciendo pormenor. Pelo contrário, poderá ser mesmo a catana certa para os golpes fatais nessa tão cerrada floresta que é a Antropologia Filosófica, confirmando de uma vez por todas as sábias palavras de Kant na Sexta Proposição da Ideia De Uma História Universal Com Um Propósito Cosmopolita: «de um lenho tão retorcido, de que o homem é feito, nada de inteiramente direito se pode fazer». Pode ser que o homem, essa vacilante ponte entre o macaco e o super-homem, venha a ser finalmente superado por este, ou, como pensará um optimista tecnológico, a humanidade venha a ser salva pela pós-humanidade. O problema é que já não seremos nós: alguém acredita que uma lagarta se reveja na borboleta em que se transformou? Por isso o melhor mesmo é sermos conservadores no modo de estabelecermos a nossa essência enquanto velhos seres humanos, preferindo um mal que já conhecemos a um bem ainda por conhecer. Somos o que somos pelo modo como começámos e ninguém pode escapar ao seu destino. Trata-se apenas de continuar a tentar que, enquanto filhos do velho casal paleontológico, possamos sair mais a um do que ao outro.    

08 abril, 2021

CORTE SEM CORTESIA

Garry Winogrand | Baile do Centenário do Metropolitan Museum, 1969

A minha memória semântica tem coisas. Não tenho problemas em memorizar uma lista de nomes cuja sequência seja aleatória (50 estados dos EUA, capitais de países) ou que, não sendo aleatória, não está sujeita a regras sintácticas (a sequência cronológica dos reis [e duas rainhas] de Portugal). Mas, por muito pequeno que seja, não consigo decorar um poema ou a letra de uma canção. Há uns anos tentei decorar a célebre estrofe da carta de Sá de Miranda a D. João III, «Homem de um só parecer/De um só rosto e de uma fé/De antes quebrar que volver/Outra coisa pode ser/Mas da corte homem não é», e não fui capaz. Ainda hoje não sou capaz. Consigo, no horizonte de uma memória a curto-prazo mas, horas depois, já não consigo refazê-la. Há sempre uma troca, uma palavra que falta, atribuindo isso a uma qualquer deficiência no hemisfério esquerdo do meu cérebro.

O meu desejo de decorar esta estrofe não foi inocente. Como toda a gente, há muito que a conhecia mas quando um dia a li com mais atenção percebi que gostaria de poder citá-la numa aula ou numa boa discussão para ilustrar o meu cepticismo e sincretismo ideológico, aversivo a fixações dogmáticas diante de um mundo complexo, plural e mutável. Para mim, a ideia de «homem da corte», em pleno Renascimento significa pensar em Pico della Mirandola, Baldassare Castiglione, Erasmo, Montaigne, Charron, Damião de Góis, Baltasar Gracián, La Mothe Le Vayer, gente tolerante, de espírito aberto, permeável ao fluxo das ideias e atreita a uma certa vagabundagem intelectual. Mas «homem da corte» também no sentido de fineza de espírito, educação, diplomacia, desejo de aprender coisas, preocupação com a verdade, pressupondo isso a possível troca de certas verdades por outras que acabamos por considerar mais justas e superiores. E «Homem de um só parecer, de um só rosto e de uma fé, de antes quebrar que volver» sugere-me inflexibilidade, espírito petrificado, casmurrice, dogmatismo tribal, preguiça mental, forretice intelectual, mais próprio de sociedades fechadas com as suas anquilosadas ideologias.

Entretanto, há dias, calhou ler uma crónica na qual se fazia o elogio de uma figura da primeira metade do século passado, invocando-se para esse efeito o seu estatuto de «Homem de um só parecer, de um só rosto e de uma fé, de antes quebrar que volver», o que me deixou incrédulo pelo modo leviano como o cronista deturpou o sentido dos versos. Mas aquilo ficou a roer-me cá dentro e resolvi, para além de reler a estrofe, pegar numa História da Literatura para tentar descobrir os bastidores da carta. E fiquei estarrecido: o autor da crónica estava certo, a minha interpretação da estrofe estava completamente errada, bem nos antípodas do que pretendia o poeta. 

Fiquei a saber que Sá de Miranda desde muito cedo se integra nos meandros da corte. Homem bem formado, culto, comunicativo, apreciador do convívio com a aristocracia. Porém, subitamente e sem nada que o fizesse prever, abandona a vida mundana, recolhendo-se na solidão campestre, e sem nunca mais voltar a Lisboa, onde encontra uma felicidade desconhecida para quem vive na corte. E é através das suas «Cartas» que se revela a sua rendição à vida simples do campo e recente aversão à corte, onde, considera, grassa a falsidade, depravação, frivolidade, tacticismo, e da qual, por isso, se deve afastar qualquer homem íntegro, isto é «de um só parecer, de um só rosto e de uma fé». Numa carta ao irmão, Mem de Sá, recorre a Ícaro e Faetonte para criticar as grandes ambições do ser humano, a Esopo para distinguir o rato da cidade e o rato do campo, a Heraclito para invocar os benefícios da solidão, longe dos ruídos do mundo. Numa outra, a António Pereira, homem que vai partir para a corte, manifesta o escritor o seu desgosto com isso, recorrendo de novo aos antigos para lembrar que a ideia de «homem de bem» não passa por títulos nobiliárquicos e bens materiais. Ainda ao cunhado, Manuel Machado de Azevedo, fala de «Lisboa e do paço como atoleiros que não se podem transpor».

Posto isto, o que vem desde logo à cabeça é o que diz Nietzsche no §125 de Para Além do Bem e do Mal: «Quando temos de mudar de opinião acerca de alguém, atribuímos-lhe o desagrado que ele nos provoca com isso». Maldito seja o poeta, portanto. Torna-se ainda mais irritante uma vez que, apesar de saber que não é disso que se trata, continuo a olhar para a estrofe e a ver nela o que via antes. Mas também entendo o que ele diz, o que torna a coisa, vendo agora o seu lado positivo, bastante interessante: o mesmo texto, palavra a palavra, poder ser usado para defender uma ideia mas também a sua contrária. E, sendo esse o caso, considero-me por isso legitimado a nomeá-lo para meu proveito. Mas trata-se de uma legitimidade diferente da que eu sentiria antes de ter feito a minha pequena investigação sobre Sá de Miranda. Antes, nomearia, sem ter consciência da sua origem, fazendo-o, portanto, ingenuamente, de boa fé. Mas, fazendo-o agora, com a consciência do seu verdadeiro significado, acabo por fazer batota. Não estou a mentir mas não deixo de omitir informação importante, cá está, para meu próprio proveito.

Serve isto também para dizer que a luta entre a verdade e a mentira, o conhecimento e a ilusão é por vezes mais complexa do que parece à primeira vista. Mentir não tem que ver com o conteúdo de uma proposição mas com o estado de espírito de quem a diz. Mas também com o modo como contextualizamos ou descontextualizamos uma ideia, um pensamento, um facto, o modo como o que dizemos a outro, tendo a consciência do que dizemos e não deveríamos ter dito ou não dizemos e não deveríamos ter dito, condiciona a sua percepção do que eu digo. Isto que aconteceu entre mim e a estrofe de Sá de Miranda não tem qualquer importância. Mas numa escala mais pequena remete para coisas que, no passado, no presente e no futuro, são de enorme importância para a humanidade, embora hoje, mais importante do que nunca, pela facilidade e ligeireza com que se dizem coisas e as suas contrárias. No fundo, não deixa de ser também uma questão moral, como diria Habermas. E nesse aspecto, Sá de Miranda é bem capaz de continuar a ter razão mas, pobre dele, sem saber disso. O mundo, movido pela tecnologia, hiperbolizando a comunicação, está cada vez mais transformado numa grande corte na qual a integridade, o carácter e a verdade têm cada vez menos importância. 

01 abril, 2021

10 ANOS

Gosto muito de história, para mim fascinante por duas razões. Pela sua fina contingência, a linha quase invisível que separa o real do possível, pelo que foi mas poderia não ter sido. Mas fascinante ainda por continuar a ser, já depois de ter sido, uma espécie de realidade alternativa ao excesso de peso do real mais imediato e quotidiano, assim como se fosse uma 8ª arte que emerge natural e espontaneamente sem criador, apenas feita de personagens sem necessidade de procurarem um autor. Há tempos, por engano, em vez de me enviarem um jornal desse dia, enviaram-me o desse dia, sim, mas de há dez anos, dez anos certinhos, que li como se o desse mesmo dia se tratasse. Ri-me interiormente com o insólito da situação e, de imediato, como num filme dos Monthy Python, estatelou-se na minha memória, vinda sei lá de onde, a canção do Paulo de Carvalho. Na história, dez anos é muito pouco tempo. Sentimos diferença entre 1276 e 1286, 1610 e 1620, 1880 e 1890, ainda que tenham acontecido coisas importantes entre esses anos? Mas quando se trata de descermos à mais pura efemeridade quotidiana, dez anos é mesmo muito tempo. Daí que apesar de tudo aquilo ter sido tão real, o efeito do tempo acabou por transferir todas aquelas notícias para o campo da ficção. E, tornando-se ficção, silenciosa, distante e tranquilamente ficção, tornou-se não só mais interessante mas muito mais fascinante do que o jornal do dia, que acabei por ler no dia seguinte, meio enfastiado, dando razão a André Gide que dizia que a coisa mais velha do mundo é o jornal do dia anterior.

31 março, 2021

OS CORREDORES E A PAREDE


Até nem está no Louvre mas foi da figura de Cronos devorando os seus filhos numa parede do Prado, que me lembrei enquanto via Francofonia, filme/documentário de Alexander Sokurov sobre o museu parisiense. Sobre o Louvre em particular mas, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre o tempo e sobre a natureza de qualquer museu. No centro do filme surgem dois homens de campos opostos mas unidos pelo amor à arte. Jacques Jaujard, director do Louvre, ex-combatente na I Guerra Mundial contra os alemães e Franz Wolff Metternich, aristocrata alemão formado em História de Arte, que combateu os franceses na I Guerra Mundial e que está em Paris com a missão de proteger obras de arte ameaçadas pela guerra. Mais até do que centrais são figuras simbólicas no sentido mesmo etimológico da palavra "símbolo": unir duas partes que estão separadas. Jaujard e Metternich, dois homens de um mundo em convulsão, seres que habitam no tempo, que se faz e desfaz como se viesse do tear de Penélope, mas também dois homens, enquanto amantes da arte, profundamente ligados num mundo inteligível, imutável, silencioso, impermeável às turbulências sociais e políticas da história.

O que foi a Revolução Francesa? Um mundo ruidoso e virado ao contrário mas que hoje não passa de um simples nome para catalogar um conjunto de factos e quem os personificou. Quem foram Robespierre ou Napoleão, esse espírito do mundo que Hegel viu a passar de cavalo mesmo por baixo da sua janela? Não só o espírito do mundo mas também senhor de meio mundo. Mas, depois, tudo morre, não só Robespierre e Napoleão mas também os seus mundos, desvanecendo-se para sempre na textura cruel do mundo futuro e dos quais fica apenas uma indirecta e vaga memória. Já diante das paredes do museu deixa de ser importante ser francês ou alemão, civil ou militar, invasor ou invadido. O que é ser francês ou alemão, civil ou militar, perante a expressão de La Gioconda, uma múmia egípcia, o Naufrágio da Medusa? 

Nós não vivemos a guerra franco-prussiana, quem a viveu não viveu as guerras napoleónicas que, por sua vez, não viveu a guerra dos Trinta Anos. O espaço e o tempo tornam os mundos distantes: o nosso mundo, do mundo de Bismarck, o deste do de Napoleão e por aí fora: Goethe, Rousseau, Frederico II, Catarina Francisco I. Cada um olha para o seu mundo mas ao suspenderem todos eles o olhar sobre La Gioconda, a Virgem dos Rochedos ou S. João Baptista, descobrem um mundo que é de todos e não é de ninguém, um mundo que conquistou o seu próprio sentido, conservado num silencioso aquário onde o relógio parou e, onde ao contrário dos luscos-fuscos da história, a luz é eterna. O peso do mundo vai-se dissolvendo mas o museu permanece com as suas vozes silenciosas para quem as quiser escutar. Por isso, num sentido platónico, apesar de Platão não gostar de arte, também mais real, mais verdadeiro e mais absoluto do que aquele à saída do museu, com os seus dias sempre e fatalmente contados, rumo à sua dissolução.

26 março, 2021

ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS


Dei por mim a pensar na expressão "A minha vida dava um filme". Isto implica um passado feito de unidade e continuidade, uma sequência temporal cujas partes formarão um todo coerente. E também a ideia de uma vida que, pela negativa ou positiva, não se confunde com as vidas de pessoas comuns nas quais nada de assinalável acontece, valendo por isso a pena ser contada, até para evitar a injustiça de ser esquecida. 

Não é este o sentido que agora me interessa mas outro bem mais simples: o modo como cada um organiza a percepção do seu passado. E embora as pessoas não tenham de transformar o seu passado num grande aventura, existe ainda assim uma tendência para o representar cinematograficamente, seja numa história, seja em vários episódios como numa série da Netflix. Isto tem que ver com uma necessidade de ordem e harmonia da mente humana, não só na percepção de imagens mas também de acções, acontecimentos, vivências. O que se passará na cabeça de uma pessoa a quem se pede para pensar globalmente no seu passado? Uma sequência rápida de acontecimentos condensados em meia dúzia de imagens fortes ou simbólicas: o primeiro dia de escola, um passeio à praia, uma doença, o primeiro beijo, um acidente, uma viagem, a morte de alguém. Mas, neste caso, não estamos a transformar a nossa vida num filme mas num conjunto disperso de fotogramas, significando isto que mais do que cinematográfica, temos antes uma visão fotográfica do passado.

Dizia o fotógrafo Harry Callahan que dos cerca de 40 000 negativos que possuía, gostava apenas de umas 800 fotografias. Significa isto duas coisas. A mais óbvia é que do muito que disparou pouco aproveitou. Mas significa ainda que uma separação entre os 40 000 negativos e as 800 fotografias não é feita entre duas unidades separadas no tempo, estando, pelo contrário, misturadas e interligadas Ora, a nossa vida também funciona assim e é assim que deve ser percepcionada. Vamos imaginar que estas crianças judias fotografadas por Roman Vishniac sobreviveram ao Holocausto, tendo morrido velhas muitas décadas depois. Olhando para o seu passado terão tendência para ver um filme profundamente dramático ou mesmo de terror. Mas onde existe esse filme? Ou até mesmo os episódios de uma série? Em lado nenhum. A vida de uma pessoa, por muito boa ou má que seja, é feita de milhares e milhares de negativos dispersos, misturados, dos quais aproveitamos uma parte reduzida. E tanto é possível encontrar fotografias felizes no meio de centenas que denunciam uma vida infeliz, como fotografias infelizes no meio de centenas uma vida feliz. Os filmes podem ser de terror, dramas, comédias, de aventuras, de amor. As vidas muito dificilmente reproduzem essa lógica cinematográfica. Mais do que tentarmos reconstruir filmes na nossa vida, deveríamos ir à procura de negativos fotográficos para aproveitar o maior número possível. E quanto mais conseguirmos aproveitar mais a nossa vida terá valido a pena, já contando com os seus piores momentos nos quais, apesar de tudo, haverá também muitos risos bonitos que merecem ficar registados e que tantas vezes ficaram por revelar na câmara escura.

25 março, 2021

NOT I


Existem três aldeias cujos nomes, Caveira, Bonflorido e Vale Carvão, não podem deixar de estimular a imaginação de para quem essas terras não passam de meros nomes. Ao contrário das sensações que nos obrigam a ver uma cadeira diante de uma cadeira ou a cheirar frango assado diante de um frango assado, ao contrário da razão que nos obriga a dizer que o dobro de dois é quatro e não cinco, a liberdade da imaginação permite-lhe prodigalizar o que não existe. O que lembra Caveira? Pois, uma caveira é uma caveira é uma caveira. Em suma, uma caveira. Se quisermos sublimar um pouco, podemos ainda pensar num título de um conto de Edgar Allan Poe ou um daqueles filmes de terror dos anos 70 em que se vê bem que o sangue é molho de tomate. Imagina-se uma população esquálida, desvitalizada, noctívagas almas penadas num romântico locus horrendus. Já Bonflorido transpira lirismo por todos os poros. Podia ser tirada de um poema de António Ramos Rosa ou Eugénio de Andrade, um jovial pedaço de Bernardim Ribeiro. Lê-se ou ouve-se «Bonflorido» e começa logo a soar “Feno de Portugal, aroma da natureza” ou a voz de Meredith Monk na Memory Song "Trees...trees...birds...birds...coffee, coffee, coffee". Pois, mas com Vale Carvão voltamos a regredir. Vale Carvão poderia ser uma versão portuguesa de uma aldeia inglesa algures entre Manchester e Liverpool, casas com telhados pretos da fuligem e cuja população caminha pelas ruas a tossir e a lamentar How green was my valley, neste caso, na língua de Camões. 

Eis, pois, a indomável imaginação a fazer o seu trabalho. Acontece que as três terras ficam de tal modo encostadas umas às outras que poderiam ser uma só. O ar puro que se respira é o mesmo, como a luz do Sol ou o encantador chilrear dos passarinhos, as casas, as ruas. Enfim, três terras tão separadas pelos nomes como Dr Jekyll e Mr. Hyde mas tão iguais na sua natureza, como a Divina Trindade. A nossa percepção do mundo no terreno, enquanto realidade física é, portanto, bem diferente do que acontece quando lidamos com simples nomes, sendo ainda mais notória quando o nome adquire a força de um conceito, fazendo com que muitas vezes vivamos num mundo virtual, numa espécie de newspeak orwelliana que nos impõe um mundo através de uma imposição convencional da linguagem, tornada, entretanto, flatus vocis. Desgraçadamente, é isso que acontece com grande parte do que se diz e, a fortiori, do que se ouve dizer, expulsando o sujeito da sua própria consciência e subjectividade. Logo agora que estou velho é que haveria de me fugir o pé para o estruturalismo.

13 março, 2021

O SOM E A FÚRIA

Campos Elísios, tarde de 8 de Dezembro de 2018

“Tomorrow and tomorrow and tomorrow,

Creeps in this petty pace from day to day

To the last syllable of recorded time,

And all our yesterdays have lighted fools

The way to dusty death. Out, out, brief candle!

Life’s but a walking shadow, a poor player

That struts and frets his hour upon the stage

And then is heard no more: it is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing.”

Shakespeare, Macbeth


E por falar em Paris e actos revolucionários...Há dois anos e tal o museu D'Orsay fez uma exposição sobre os períodos azul e rosa de Picasso a que não poderia resistir. Lá fui, tendo em mente passar o sábado no museu, aproveitando depois o domingo para dar umas voltas. Acontece ter coincidido com o auge das manifestações dos coletes amarelos, estando tudo fechado no sábado. Fui então forçado a mudar os planos: dar as minhas voltas no sábado e museu no domingo. Quando saio de manhã cedo do hotel começo logo a ver grupos com coletes amarelos rumo aos Campos Elísios. De repente percebi que nesse dia iria estar no centro do mundo, não devendo perder essa oportunidade. Resolvi então que em vez de vestir o fato cinzento de flâneur para deambular pela cidade de Baudelaire deveria mergulhar nas turbulentas águas do devir histórico.

E mergulhei. Não foi como estar a ver um jogo de futebol no próprio estádio em vez de o ver na televisão. Fiz o meu baptismo de gás lacrimogéneo, andei a correr à frente da polícia, não porque a polícia tivesse alguma coisa contra mim mas contra as pessoas no meio das quais eu me encontrava. E por ali andei, ruas cheias de piquetes policiais, polícias a correr para dentro de prédios para apanhar pessoas que para lá se tinham enfiado, lojas de luxo com as montras entaipadas, caixas multibanco destruídas e sobretudo gente muita crispada e ressentida, parte dela com ar de panela de pressão que se prepara para explodir. As pessoas olhavam muito para mim, deixando-me desconfortável. Andava sem colete amarelo, não tinha ar de francês e não parava de tirar fotografias com o telemóvel em vez de, como todos os outros, gritar para chamar nomes a Macron. E tive a nítida sensação de que o meu mundo não era aquele, fosse ali ou em Lisboa. Gosto muito de história mas não nasci para actor da história nem para ajudar a acelerá-la. Andava ali, sim, mas como um antropólogo em Marte, não resistindo a observar e a fotografar, enfim, deu-me para isso, mas cheio de pena de não andar entre os quadros de Picasso. Voltei agora a arrepiar-me ao ver de novo os olhos daquele polícia a olhar directamente para os meus enquanto lhe aponto o telemóvel. Devia estar a pensar quem pensava eu que era para estar a fotografá-lo mesmo nas suas barbas, e se o pensou, pensou bem. Eu não queria nada daquilo, queria lá eu saber dos polícias e dos coletes amarelos, a história que fique para quem a quer fazer.

Um mês e pico depois voltei, desta vez com o meu filho, para dar umas voltas e aproveitar para ver uns quadros, entre os quais uma exposição de Fernand Khnopff no Petit Palais. Demos bons passeios: parques, rio, livrarias, galerias ou só mesmo a deambular por ruas ainda sem turistas. Estávamos a almoçar no Marais quando ele diz que gostava de ver o Bataclan. Eu não sou dado a voyeurismos, ainda que a posteriori, mas entendi que seria importante para ele enquanto jovem, dadas as circunstâncias em que ocorreu. Como era perto fomos a pé, passando ainda pela casa de Victor Hugo na Place des Vosges, que estava fulgurante com as árvores cor de fogo em perfeita harmonia com as fachadas avermelhadas dos edifícios a fazer lembrar Toulouse. Já a caminho do Bataclan passámos na Bastilha onde, sem que eu soubesse, ocorria a manifestação semanal dos coletes amarelos. Grande agitação, montes de polícias a chegar com o som estridente das sirenes e com aquele ar de quem se prepara para mais um momento de intensa animação histórica. À noite, já no hotel, soube pelo telejornal que tinha sido a manifestação mais violenta de todas (um luso-descendente perdeu um olho). Foi estranho estar a ver aquelas imagens no telejornal, não a dois mil quilómetros de distância mas mesmo ali ao lado e tendo eu lá passado. Ainda tentei ver-me na televisão mas não quiseram saber de mim, quem sabe se por desta vez não ter colete amarelo ao contrário da outra vez em que queriam saber de mim por não o ter. E voltei de novo a sentir-me no coração do mundo em vez de mero espectador confortavelmente sentado no seu sofá antes de jantar.

Dois anos e tal depois de ter mergulhado nas agitadas águas do devir histórico, o que me ficou? O que  acabei mesmo por guardar na memória? Não a barata tonta em que me transformei na primeira manifestação, andando de um lado para o outro a captar a verdadeira realidade, a sonora e veloz pulsação do mundo, mas perambular lentamente pelo poético universo azul e rosa de Picasso, a langorosa elegância de Khnopff, o confortável interior da casa novecentista de um grande escritor, a Place des Vosges cor de fogo, o aroma do frio nas Tulherias e Buttes Chaumont, uma cidade adormecida no seu Inverno livre de turistas. Tudo o que de agitado se passou naqueles dois sábados ficou transformado em sombra: os coletes amarelos que voltaram para o subterrâneo mundo invisível do qual subitamente emergiram mas também eu enquanto efémero espectador daqueles dois filmes que fui ver por engano. Oscar Wilde, que repousa tranquilamente bem perto daqueles dois campos de batalha, numa cidade cheia de história e de tantas outras batalhas bem mais importantes, dizia que não é a arte que imita a vida mas o contrário. Pena não ser ainda mais. 

12 março, 2021

ESTÁTUAS


A revista do Expresso traz um artigo sobre os dois meses e picos da Comuna de Paris. O meu século preferido é o XIX, ao contrário de muitos continuo a gostar bastante de Paris e há muito tempo que me interesso pelos movimentos utópicos. Três boas razões para também há muito me interessar pela Comuna de 1871. Porém, neste caso, apenas me interessa a fotografia que acompanha o artigo e que aqui reproduzo.

Faz uns bons anos que andrajosos, ignorantes, primitivos e fanáticos talibãs, destruíram com júbilo as estátuas de Buda. Nada que ver com a burguesa e solene pose destes respeitáveis cavalheiros (curiosidade: o nono a contar da direita é o pintor Gustave Courbet, responsável pela demolição) diante de uma estátua derrubada de Napoleão I na Place Vêndome. Mas haverá assim tanta diferença? Lembremos a medieval e dramática "Querela das Imagens" por causa da veneração de imagens, muitas delas tocadas e beijadas e às quais se atribuíam poderes, fenómeno sobretudo ligado às camadas populares, mais dadas a comportamentos primários e supersticiosos, bem longe das tergiversações teológicas e filosóficas das elites eclesiásticas. Diziam os defensores das imagens serem estas dignas de veneração uma vez que, algo platonicamente, participam do seu original, sendo até mais acessíveis do que a palavra para alimentar o sentimento religioso dos menos dotados intelectualmente. Em contrapartida, o papa Leão III propôs a destruição de tudo o que fosse imagem, ordenando mesmo a destruição de uma imagem de Cristo na porta de bronze do seu palácio, venerada pelo povo. Talvez uma cena de ciúmes, digo eu, embora a explicação oficial invoque o combate à idolatria e a defesa de uma relação mais espiritual com o sagrado. Pronto, ganharam os iconófilos, perderam os iconoclastas. Ainda bem, por podermos assim entrar em certas igrejas católicas e ortodoxas, ou nos melhores museu do mundo, e vermos belas obras de arte. Tivessem perdido e a história das imagens teria um rumo completamente diferente, como se pode constatar ao entrarmos numa mesquita ou numa despojada igreja protestante.

Reparemos de novo na pose daqueles homens, lembrando caçadores quando exibem a seus pés um inofensivo mas outrora poderoso leão. Também estes homens têm um imperador a seus pés e dá bem para imaginar a emoção quando a coluna estava a ser derrubada. Acontece que o leão, pouco antes de ser caçado, é um ser vivo, terrível e ameaçador, um verdadeiro rei da selva. Mas Napoleão? O verdadeiro Napoleão, imperador, ao contrário da sua pesada cópia, estava morto há 50 anos. Isto, numa praça bem perto dos salons littéraires do século XVIII, por onde Voltaire, Diderot ou d'Alembert espalhavam as luzes da razão, ou ainda dos modernos boulevards há pouco rasgados em nome de um racionalismo urbano? Como diria um psicólogo, há ali uma infantilidade mítico-mágica e pré-operatória, mais própria de crianças de cinco anos. Estes homens levam tão a sério aquele pedaço de matéria como uma criança a sua boneca com quem conversa e a quem dá de comer.

Há uns bons anos, deputados portugueses de visita à Coreia do Norte, estavam numa praça de capital quando um deles vê um polícia aproximar-se com ar ameaçador por estar a pisar a sombra da estátua do ditador, proibido por lei. Achamos ridículo mas, vendo bem, como diria Platão, trata-se de uma cópia e da cópia dessa cópia. E o que é válido para a estátua de Napoleão ou para a sombra da estátua de um ditador, também o é para um boneco de loiça representando Nossa Senhora de Fátima, um ícone ortodoxo representando um santo ou um Cristo de madeira no altar de uma igreja perante o qual as pessoas se ajoelham. Cópias, tudo cópias. Seguindo a linha islâmica face às imagens, ou até em harmonia com o Antigo Testamento sobre a impossibilidade de representar Deus, os talibãs têm razão no que se refere à nossa relação com as imagens enquanto fenómeno idolátrico ou com laivos fetichistas. Pedaços de pedra que ganham poder quando erguidos, pedaços de pedra que o perdem quando deitados abaixo. Nós olhamos para os talibãs com o desprezo e a sobranceria própria de gente civilizada mas não vemos nada de especial na fúria com que, no nosso mundo desenvolvido, uns deitam abaixo as estátuas que outros ergueram com devoção. Continuamos todos crianças, marcados pelo poder mágico dos brinquedos.

11 março, 2021

MR. DE MILLE, I´M READY FOR MY CLOSE-UP

No seu primeiro filme como actor de cinema, It Should Happen to You, Jack Lemmon lê de uma assentada meia página e começa a representar efusivamente. George Cukor, de imediato, manda cortar. Aproxima-se do actor para lhe dizer que foi estupendo, muito bem, vai ser uma grande estrela. Mas que deve ser mais contido, explicando-lhe, pedagogicamente, a diferença entre representar no teatro e no cinema. Que no teatro o actor está afastado do público enquanto no cinema, com os grande planos, não pode haver tanto entusiasmo na representação. E manda repetir. Depois de umas doze vezes em que manda repetir, pedindo sempre menos intensidade na representação, Lemmon reage já meio irritado: "Senhor Cukor, por amor de Deus, a continuar assim vou acabar por não representar em absoluto". E Cukor responde: "Agora sim, vamos entender-nos". 

Uma lição para o nosso tempo de exaltação narcísica e egocêntrica mas em que não passamos de sombras de uma Gloria que já não existe ou de uma glória que nunca existiu.

09 março, 2021

A VERVE DIGITAL

Paul Klee | Angelus Novus

Desembaraçado da majestade que lhe dava a peliça, o antigo Ega reaparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mefistófeles em verve, lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas grandes frases, numa luta constante com o monóculo, que lhe caía do olho, que ele procurava pelo peito, pelos ombros, pelos rins, retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se também, a fria sala aquecia. discutiam o naturalismo, Gambetta, o niilismo; depois, com ferocidade e à uma, malharam sobre o país...


Não o digo com a mesma certeza com que digo que hoje está um belo dia de sol. Mas creio que em poucas décadas as pessoas vão deixar de ler livros de ficção. Quando digo pessoas, refiro-me às pessoas em geral e não àquelas que continuarão a ler romances como outras a ouvir ópera ou sinfonias, a coleccionar selos ou postais antigos, fazendo parte de um reduzido e elitista nicho de leitores. A razão é simples: chama-se história. Não se trata do poder destrutivo do deus Cronos sobre as nossas vidas mas do vendaval que suga o anjo da história para o futuro, impedindo-o de reverter a catástrofe que acumula ruínas sobre ruínas atrás de si. 

Neste caso, a história tem um nome mais específico: obesidade digital. Cada vez mais empanturrados de comida digital, sendo tal a quantidade e variedade de comida que faz com que, como num banquete, a pessoa mastigue um pedaço de comida enquanto avidamente ataca com os olhos a comida em seu redor, também o tempo da leitura fique reduzido ao tempo breve de chilreios digitais com meia dúzia de linhas. A consequência natural é ficar incapaz de ler um romance com umas simples cem páginas ou um artigo mais longo de um jornal, enxotando os olhos para longe.

A razão por que razão escolhi aquele pedaço de Os Maias em vez de um outro como este,

Um tom fino retiniu, o relógio Luís XIV foi ferindo alegremente, vivamente, a meia-noite;-depois a toada argentina do seu minuete vibrou um momento e morreu. Houve de novo um silêncio. Uma renda vermelha recobria os globos de dois grandes candeeiros Carcel; e a luz assim coada, caindo sobre os damascos vermelhos das paredes, dos assentos, fazia com que uma doce refracção cor-de-rosa, um vaporoso de nuvem em que a sala se banhava e dormia: só aqui e além, sobre os carvalhos sombrios das estantes, rebrilhava em silêncio o ouro de um Sèvres, uma palidez de marfim, ou algum tom esmaltado de velha majólica.

é porque no caso deste poder-se-ia dizer que se trata de um registo demasiado descritivo para os nossos frenéticos padrões actuais nos quais estão ausentes o silêncio e a solidão off line, infectados com vulgaridades e medíocres e egocêntricos estados de alma. Claro que basta aprender na escola primária a juntar letras e palavras para ler a passagem onde intervêm Carlos e Ega. Qualquer pessoa a lê, e até acredito que com agrado. Se vai deixar de ler é porque se encontra a páginas tantas de um livro com centenas de passagens e, para a ler, como tantas outras neste livro, teria de ler tudo o que está antes e tudo o que está depois e isso já começa a não ser possível por causa do que não se está a ler enquanto se está a ler e porque a areia que desliza na ampulheta se esgota num ápice.

Eu não quero fazer moral com o fim da leitura. As coisas são o que são e a história é feita da destruição do que se julgava indestrutível. Trata-se apenas de uma melancólica nota sobre o fim de uma riqueza mental milenar e cujo fim, ironicamente, se anuncia quando os níveis de alfabetização são os mais elevados de sempre. Mas também os de indigência. A indigência crescente faz-se notar com impacto porque o seu contrário vai ainda exercendo a sua função. Mas quando isso deixar de acontecer também a indigência irá desaparecer. Eis a parte reconfortante da história. Se numa ilha todos nascem cegos há muitas gerações, não existe cegueira. O mesmo irá acontecer com o fim da leitura quando já quase ninguém ler, insuflados de verve digital pelo anjo da história com as suas asas bem abertas a dar a dar.

08 março, 2021

NOVIGENTE

Época estranha a nossa. Foi editado um livro sobre 12 pintoras portuguesas. Sejam elas quem forem e o que pintem, só ali estão porque são mulheres. É como juntar Gonçalo M. Tavares e Pedro Chagas Freitas ou Mão Morta e Rosinha por serem portugueses. Entretanto, farto-me de receber mails que começam por "Caras(os) colegas" ou "Caros(as) professores(as), peço o favor de avisarem todos(as) os(as) alunos(as) que...", não vá eu esquecer-me que existem homens e mulheres. Mas, por outro lado, a Alemanha admite que a menção ao sexo da criança passe a ficar em branco no registo de nascimento, o festival de cinema de Berlim vai acabar com os prémios para melhor actor e melhor actriz, ficando apenas para a melhor actuação e a habitual saudação no serviço de segurança ou informação do metro de Londres deixou de ser "Ladies and Gentlemen", sendo substituída por "Hello, everyone". Acordo de manhã e já começo a ter saudade de um mundo de homens e mulheres e em que ser homem ou mulher é apenas isso e nada mais do que isso, simplicidade partilhada por um casal que casava em Berlim ou acasalava na mais selvagem Amazónia. Do mesmo modo que eu, nascido na segunda metade do século XX, quando penso nos anos 20 do meu século vejo sempre uma época longínqua e com a qual nada tenho que ver, quem nascer em 2060 vai pensar o mesmo dos anos 20 deste século mas aumentado bastantes vezes.

Vai ser publicado em Portugal o novo livro de Kazuo Ishiguro. Irei lê-lo por duas razões. Porque um dos melhores livros que li foi escrito por ele, chama-se "Os Despojos do Dia", e porque é sobre inteligência artificial. Tendo lido um excelente livro de Ian McEwan sobre o mesmo assunto, sem dúvida desafiante, a minha expectativa é elevada. Que relação existe entre o problema da inteligência artificial e o do género? Nenhuma e toda ao mesmo tempo. Nenhuma, por razões óbvias. Mas toda, porque serão dois dos temas que mais importância terão na construção do "pós-humano. Mas são diferentes os seus pressupostos. Enquanto a inteligência artificial decorre de uma natural pulsão tecnológica do ser humano que vem desde a pré-história, sendo-lhe, por isso, natural (O dr. Frankenstein é um homem mas o homem também é, de certo modo, o dr. Frankenstein, o mesmo é dizer, Prometeu), a obsessão do género é ideológica, dando origem a uma newspeak totalitária que desvirtua o mais elementar senso comum. Desgraçadamente, não me parece ser apenas uma moda passageira alimentada por gente bem intencionada mas tonta. E que seria menos tonta se tivesse lido a história do dr. Frankenstein, que também era muito bem intencionado. Mas que não percebeu que nem tudo o que pode ser feito deve ser feito e do quanto perigoso é, como dizia o outro, andarmos a fazer de Deus antes de aprendermos a ser humanos e com as emoções básicas e preconceitos ideológicos dos seres humanos. Robespierre morreu na sua própria guilhotina. Seria bom um destino mais animador para o Homem, num mundo de homens e mulheres mas no qual sejam acima de tudo pessoas.

06 março, 2021

ETERNO PERNOITAR


Várias razões poderão explicar a ida a um museu de pintura. Uma delas, não rara, é porque toda a gente vai e é preciso ir aonde toda a gente vai; outra hipótese é ter um restaurante com uma agradável esplanada ou vista bonita; razão não desprezível, será tirar uma selfie com a Mona Lisa, esta, porém, algo perigosa pelo risco de sufocação; por estranho que pareça também se pode ir a um museu para ver mesmo pintura, havendo, neste caso, várias possibilidades: entrar para ver quadros ao acaso sem fazer ideia do que se vai encontrar, para ver especificamente certos quadros, ou então só mesmo para ver um único quadro (que não a Mona Lisa), a visita ideal a um museu de acordo com o saudoso Umberto Eco. 

Já entrei em museus motivado pelas três últimas razões (embora por vezes tenha usufruído da segunda) e este quadro de Quentin Matsys faz parte do rol dos que descobri por mero acaso num museu do qual nada sabia.  Eu nada entendo de pintura mas tenho um olho clínico que me permite entrar numa galeria cujas paredes estão cheias de quadros e num ápice perceber dos quais vale a pena aproximar-me, o que dá imenso jeito quando há centenas de quadros para ver e não ver. Foi o que aconteceu com este. A minha aproximação ao quadro deu-se em três tempos. Ainda sem saber que pertencia a um pintor que prezo, fui atraído por um elemento comum na pintura desta época que muito me agrada: figuras sagradas integradas numa paisagem natural ou social povoada por gente absorvida na sua actividade quotidiana e sem se dar conta da relevância de tão importantes figuras, alheamento mútuo que gera uma descontinuidade simbólica entre os dois planos. Depois, claro, os rostos das três figuras (sim, inclui o cordeiro), transbordando amor e delicadeza. Do mesmo modo que as figuras lá atrás se concentram nas suas actividades diárias, vemos uma trindade ensimesmada na qual, como na Trindade propriamente dita, o uno e o múltiplo se encontram numa plena harmonia consubstanciada nas três delicadas e amorosas expressões. Mas foi ao descer os olhos que a força do quadro surgiu em todo o seu esplendor, fixada nas pernas das três figuras (sim, inclui o cordeiro).  

Talleyrand, um homem da diplomacia e que foi tudo e o seu contrário, dizia, certamente com bom conhecimento de causa, que a linguagem foi dada ao homem para esconder o pensamento. Sim, a linguagem permite expressar o que se sente ou se pensa mas também dizer com o fim de esconder ou dissimular. Com o rosto passa-se o mesmo. O rosto pode ser o espelho da alma mas, na teatrocracia social em que todos mergulhamos desde o berço, esse mesmo rosto também aprende a esconder e a dissimular com precisão, eficácia e até elegância as íntimas movimentações das almas. Claro que não é isso que se passa nesta cândida ou mesmo seráfica cena na qual transparece o mais puro amor, sem filtros ou barreiras. Mas é o inconsciente e espontâneo movimento das suas pernas, como se de um acto reflexo se tratasse, que verdadeiramente explica estes rostos sem máscara e a sua mais genuína aproximação, como se cada par de pernas estivesse provida de um íman que faz cumprir o desejo de fusão destas três pessoas (sim, inclui o cordeiro). As pernas em si mesmas, como um cotovelo, uma barriga ou um ombro, não são uma parte expressiva do corpo. Mas neste retrato são as pernas que expressam amor, que falam, que se declaram, ainda que nada digam porque pernas nada podem dizer. As três figuras podem olhar-se, sorrir, conversar, brincar, cuidar ou dar atenção umas às outras. Tudo isso aproxima, é verdade, mas o registo permanece social e, nesse aspecto, não se distinguem dos restantes comuns dos mortais com os seus gestos e expressões adquiridos. É pois na sua mais simples pulsão de enovelamento, fora do tempo e espaço social e seus constrangimentos que as suas pernas, como se ganhassem vida própria, espelham um amor que parece pedir uma amena eternidade. Vi muita e boa pintura neste museu e este quadro está longe de ter sido o que de artisticamente vi mais interessante. Mas depois de várias horas de cosa mentale, como diria Leonardo, foi este que trouxe para casa guardado no coração.

22 fevereiro, 2021

BABA

Abriu um Burger King na minha terra. Não sendo psiquiatra, não posso falar do que levará à voluntária servidão de ficar preso dentro de um automóvel, por sua vez preso numa fila de carros com centenas de metros de comprimento (algumas pessoas fora do carro a fumar ou a esticar as pernas como nas auto-estradas quando há um acidente) para, uma hora e tal depois, receber um disco cheio de gordura dentro de um pão industrial e umas batatas fritas carregadas de sal, que se irá depois mastigar dentro do automóvel com as mãos oleosas, provavelmente a ouvir a RFM.

O que me interessa é a anglófona fonética do nome: "Burger King". O som liberto da sua semântica. Se numa estrada ou cidade passar por um restaurante chamado "Rei dos Frangos", "Rei dos Leitões" ou "Rei dos Enchidos", passa-me logo  a fome. Não tenho nada contra a monarquia mas é daquelas situações em que me apetece não só ser republicano mas republicano com um daqueles aventais que jamais entrariam na cozinha de um restaurante que se apresente como cabeça coroada de um reinado de frangos de aviário.

Com "Burger King" já não é assim. Acontece o mesmo que dantes quando pré-adolescentes escreviam numa parede "Fernando LOVE Luísa" ou "Fátima LOVE Joaquim" em vez de escrever "Amor" ou "Ama". Tal acontece porque o elemento fonético não-natural exacerba o carácter ideal do amor, libertando-o de uma suposta vulgaridade presente na linguagem quotidiana. Dizer uma coisa em Inglês retira-lhe normalidade, salvando a palavra da sua rotina natural. Isso também explica por que razão tantas empresas portuguesas, ou os slogans que as suportam, têm nomes ingleses. Também "Burger King" está liberto da foleirice estigmatizante de "Rei dos Hambúrgeres". Daí dizer-se "Bur. Ger. King" com a mesma voluptuosidade fonética sentida por Humbert quando diz "Lo.Li.Ta".

Mas também não era ainda bem aqui que eu queria chegar embora dependa disso. O que mais me interessa é o facto de nos podermos movimentar dentro da linguagem, sem termos bem a consciência do significado das palavras. A escritora Sophia de Mello Breyner Andresen (muito bem acompanhada pelo Bexiguinha da "Aparição") dizia que uma palavra mil vezes repetida transforma-se em baba. Não há mal nenhum nisso se pensarmos no aspecto meramente prático e funcional da linguagem. O problema é quando a linguagem manipula, retirando-nos qualquer consciência crítica do seu significado, quando as palavras deturpam a nossa maneira de ver o mundo ou nós próprios. Orwell explica bem como um regime totalitário e opressivo organiza a consciência da pessoa através do poder de uma  palavra cujo significado se esbateu. Basta pensar no Ministério da Verdade e no slogan do partido: Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força. Isso explica o facto de no tempo das duas Alemanhas sermos capazes de dizer "República Democrática Alemã" sem nos rirmos ou estremecermos, porque dizíamos "Democrática" centrados apenas na sua fonética ou no hábito de o ouvirmos e dizermos sem pensarmos no seu verdadeiro significado. Já se pensarmos no nome completo da "Coreia do Norte", que também contém a palavra "democrática", teremos um sobressalto. Porquê? Porque sai da rotina, porque não estamos habituados a chamar-lhe "democrática".

Mas é assim com outras coisas. Quando dizemos, vemos ou ouvimos palavras como "esquisito" (aquela pessoa é esquisita), "amigo", "porreiro", "perigoso", "felicidade", "bem", "científico", "verdade", "progresso", "Deus", "liberdade" e tantas outras, acreditamos saber muito bem o que estamos a ouvir ou a dizer mas não estamos. Repetimos e repetimos, reproduzindo acéfala e mecanicamente lugares-comuns, preconceitos, estereótipos. Será que uma dada pessoa é mesmo esquisita ou sê-lo-ão antes as que a consideram esquisita? Seria um inquérito interessante de realizar à entrada do Burger King.

18 fevereiro, 2021

LUPAS

Que se fará dos homens que desprezam as coisas pequenas e não acreditam nas grandes? Pascal, Pensamentos §193

Entendo a preocupação do pensador francês mas, felizmente, não é problema do qual padeça o nosso tempo. É verdade que deixámos há muito de acreditar em coisas grandes mas também estamos muito longe, talvez cada vez mais longe, de desprezar as coisas pequenas, as quais, graças às lupas que por aí circulam, adquirem cada vez mais um invejável tamanho.

14 fevereiro, 2021

O VISÍVEL E O INVISÍVEL



Num primeiro olhar, esta fotografia da japonesa Tomoko Yoneda limita-se a mostrar o que toda a gente vê: uma paisagem campestre fotograficamente pouco atraente que, pela sua chã tangibilidade, não merece sequer uns segundos da nossa atenção, ainda para mais com um poste de electricidade a manchar o que ainda resta de um certo encanto bucólico. Acontece que o seu valor fotográfico [passando-se o mesmo com esta] não está todo no que se vê mas num jogo entre o que nela é ao mesmo tempo visível e invisível, fazendo-nos vê-la melhor pelo que não se vê mas também o que não se vê através do que se vê. Confuso? 

Neste mesmo sítio deu-se uma das mais terríveis batalhas da I Guerra Mundial (Marne), com trincheiras onde morreram e se estropiaram milhares de jovens europeus, muitos dos quais, tivessem 20 anos agora, estariam tranquilamente a estudar na universidade, alguns deles a fazer Erasmus nos países que ali estão a combater por serem inimigos. Agora que o sabemos, já podemos olhar para esta tranquila paisagem campestre para, por contraste, vermos então o que já não podemos ver, do mesmo modo que graças ao que já não vemos passamos a ver melhor o que está diante dos nossos olhos. Não como num claro-escuro em que estes se entrelaçam sob a mesma visão. Antes como fronteira na qual olhamos alternadamente para cada um dos lados, entre o que outrora foi um apocalíptico teatro de guerra e o que dele ficou reduzido a silenciosa e indiferente paisagem, apenas separados por uma fina camada de tempo.

Ligar a anterior tempestade bélica à presente quietude, leva-nos a ver esta mesma quietude no dia anterior ao início da longa matança, a quietude como um imutável e absoluto fundo silencioso do qual emergem as pontuais e contingentes erupções para voltarem de novo a submergir no silêncio da História. Como a famosa onda da Nazaré, as erupções vêm de um fundo invisível mas que faz o seu trabalho lento e oculto nas costas do presente, sempre demasiado distraído consigo próprio para disso se aperceber. Neste momento, como sempre, o mundo e a humanidade podem estar na presença de não-factos, tão invisíveis como esta campestre paisagem à qual ninguém prestaria atenção. Daqui a cem anos, quando se fizer a história do século XXI, ir-se-á então olhar para inócuos e insignificantes paisagens como esta, entretanto associada às ondas que poderão vir a fazer a história do nosso século. Aqui vê-se uma floresta mas poderá ser uma praça, uma avenida, uma cidade.

Se desde sempre existisse fotografia, uma foto de Salamina seria diferente de uma outra de Aljubarrota e esta de Austerlitz. Tudo é diferente na história. Mas sob essa superfície feita de ruídos e de cores, existirá sempre um oceano informe e intemporal para onde é sempre demasiado cedo ou demasiado tarde para olhar, porque, como diria Santo Agostinho, ele mesmo um pensador da história, o futuro é o que ainda não existe e o passado o que já não existe. Entre essas duas não existências repousam tranquilas paisagens cuja imutabilidade, agora que sabemos o que há nesta de invisível, é só aparente.

22 dezembro, 2019

O TEAR

Qual o grau de grandeza de uma coisa? Como diria Heraclito de Éfeso, responder com os olhos não passa de uma distracção que nos afasta do essencial. A mesa é grande se comparada com a caneta mas pequena em relação à casa que por sua vez é pequena em relação à rua. Uma formiga é enorme face a uma bactéria, e um castelo, visto do céu, não passa de um ponto na paisagem. É verdade que precisamos de saber medir para sobrevivermos na vida quotidiana. Se os sapatos forem demasiado grandes ou pequenos não servem para calçar; um pavilhão é pequeno para os Rolling Stones mas enorme para uma banda de garagem; três mil quilómetros é uma distância impensável para ir de carro almoçar de carro a qualquer lado mas de avião até dá para dormitar um pouco. Precisamos, pois, pragmática e racionalmente, de medir, quantificar, gerir a ordem de grandeza das coisas.

Mas há uma outra ordem de realidade que não a esparramada à frente dos olhos, que esbate a distância entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno. Por exemplo, no Azul: o marido ri ao acabar de contar uma anedota e, nesse momento, morre ele e a filha que segue no banco de trás. E a morte é o segundo momento mais importante da vida de uma pessoa. Ele não sabe, ela não sabe, a filha muito menos - embora soe absurdo haver menos saber do que o não saber - mas nós vemos o óleo a pingar, gota a gota, minúsculas e invisíveis gotas, preparando atomicamente, lentamente, cinicamente, eficazmente, o segundo momento mais importante da vida do pai e da filha contra uma árvore que até poderia estar dois miseráveis metros ao lado do sítio onde tudo terminou num igualmente miserável segundo.

Nós temos a tendência para pensar em grande, uma fixação nos grandes acontecimentos que irrompem no mundo para o mudar, umas vezes para pior, outras tantas para melhor, certamente resultado de um cérebro viciado na grandeza ontológica. Mas é um tear de finíssimos e pequenos fios cuja insustentável leveza tudo decide. Diz-nos Homero que Penélope «[...] trabalhava de dia ao grande tear/mas desfazia a trama de noite à luz das tochas». Também na vida é assim, com o grande tear que faz e desfaz sem que vejamos um palmo à frente do nariz, tecendo coincidências e descoincidências, as primeiras sobressaltando-nos com o que aconteceu por causa de um simples segundo ou vinte metros de distância, as segundas, sem que delas nos apercebamos uma vez que não podemos ter consciência do que por causa de um segundo ou de vinte metros de distância não chegou a acontecer. Não conhecemos a textura da realidade, a sua ínfima vitalidade, limitando-nos a viver nela como se sobrevoando uma floresta víssemos apenas umas vagas cores e formas, fazendo parecer tudo linear, planeado, controlado, previsível. É mesmo preciso penetrar na floresta para entender como somos esmagados por ela. Umas vezes para nosso prejuízo, outras, benefício. Mas quase sempre para nem uma coisa nem outra.

27 outubro, 2019



Pode chover ou abater-se uma tempestade, mas não é isso que conta; uma pequena alegria pode surgir frequentemente num dia chuvoso e fazer um homem parar algures, para ficar sozinho com a sua felicidade, ou então levá-lo a levantar-se e olhar para diante, independentemente do sítio onde se encontre, para depois se rir tranquilamente uma e outra vez, enquanto observa tudo em seu redor. O que é que existe à nossa volta que nos faça pensar? Uma vidraça límpida de uma janela, um raio de sol na vidraça, o avistamento de um regato ou talvez uma faixa de azul entre as nuvens. Não é preciso mais do que isso. Knut Hamsun, Pan

O desejo de eternidade poderá ser sublime mas, como uma tempestade no mar ou um vulcão em erupção, demasiado esmagador para o desejo humano. Eternidade, absoluto, infinito: apesar da sua anelante aura romântica, não passam de arquétipos vazios. Ou antes, é por causa da sua anelente aura romântica que não passam de conceitos vazios. O A=A, como diz Hegel na Fenomenologia do Espírito, é uma pura identidade sem vida, sem o drama da história ou da biografia, sem as dores e as alegrias do mundo. Até Deus, que no Livro do Êxodo se apresenta a Moisés como "Eu sou Aquele que sou", se cansou dela enquanto nos olhava melancolicamente lá de cima, como os anjos de Wenders. A encarnação faz por isso todo o sentido num Deus cansado de pensar sem nos ver nos olhos e de ser pensado sem os seus olhos serem vistos. O que é a encarnação senão um Deus que se desensimesma, atirando-se para a fugacidade do instante? Um Deus mergulhado no espaço e no tempo, com pernas para andar, mãos para criar e boca para falar, que tanto ensina na montanha, como entra em casa de Marta e Maria, cura Lázaro da morte, se ira no templo ou entra festivo em Jerusalém.

Daí a nossa sorte em sermos cristãos ao invés de outra coisa qualquer. O cristianismo é a religião de um Deus que se faz carne, sente, emociona, ama e se irrita mas não como o Pai na sua infinita omnisciência e omnipotência. Ama e irrita-se como Deus que deixou a sua transcendente intemporalidade para se assumir num tempo estilhaçado em instantes, cada um com a sua identidade e diferente de todos os outros. O que o cristianismo tem de melhor para nos oferecer pode ser o amor mas também o tempo, em vez da rígida e transcendente lei e de uma perfunctória adoração própria de uma consciência infeliz e dilacerada pela separação entre si e o divino. Nós vivemos no tempo, em minúsculos instantes como se fossem sonatas que se desejam repetidas num processo de eterno retorno, até mais não podermos. Deus quis ser homem. O homem jamais será Deus e ainda bem. Do que precisa mesmo é de aprender a viver com a grandiosa sabedoria das pequenas coisas.

25 setembro, 2019


Saio de Lisboa de manhã muito cedo rumo a Torres Novas e na zona do Carregado entro num túnel de nevoeiro. Na paisagem, para além da película branca, apenas vagas formas esverdeadas das árvores que acompanham a estrada. E sinto-me como se estivesse num filme de Antonioni, uma percepcão cinematográfica de mim próprio acentuada pelo facto de coincidir com um adágio da ópera que vinha ouvir, tornada música de fundo. Como se eu fosse um espectador numa sala de cinema, vendo-me a mim próprio conduzir um carro no meio do nevoeiro. Passa o nevoeiro mas volto a encontrá-lo na zona de Santarém. Senti-me tentado a repetir a experiência mas desta vez, sendo a música alegre, já não fui capaz. O que me motivou duas questões: por que razão circular devagarinho no meio do nevoeiro (estar numa estrada larga, só com um sentido e sem curvas acentuadas ajuda bastante) induz uma pulsão introspectiva mas também o facto de essa introspecção ser movida por um sentimento, não de tristeza mas de melancolia?

É verdade que conduzir de noite pode predispor mais para esse tipo de sentimento. Mas nada que se compare com a branca espessura do nevoeiro. Há uma enorme diferença entre a noite e o nevoeiro no que a uma poética do espaço diz respeito, sendo ainda possível juntar as duas, isto é, conduzir de noite, com nevoeiro. Esta terrível situação torna-nos meros animais num agónico movimento pela sobrevivência. Não queremos pensar, apenas ter olhos para perceber onde estamos: se na nossa faixa, se diante de uma recta, se numa curva, ainda sobre o asfalto ou já próximos de um abismo que nos atire para a morte. Conduzir numa noite de nevoeiro aproxima-se de um pesadelo, como se essa noite, sem rosto, tivesse braços nos quais, em pânico, estamos presos, sem sabermos se nos salvamos ou se já estamos condenados mas ainda sem o sabermos.

Já uma noite normal, sem nevoeiro, tem o efeito de apagar a paisagem à volta mas sem abdicarmos do nosso estado mental normal. Isso, graças à electricidade, a qual faz toda a diferença. Como no Génesis, a terra era sem forma e vazia e havia trevas sobre o abismo. E o espírito da electricidade moveu-se sobre o mundo. Não por acaso, dizia Lenine que o socialismo é os sovietes mais a electricidade. Sabia bem o que dizia. A electricidade teve um poder avassalador, não ficando a nossa relação com o mundo imune a esse poder. Há uma noite antes da electricidade e outra depois, tornada mera extensão do dia. O que não se pode fazer hoje de noite que não se faça de dia? Claro que conduzir um carro de noite pode alterar o nosso estado mental, encerrando-nos um pouco mais na intimidade da nossa auto-consciência e não apenas na nossa consciência do mundo. Mas nada que se pareça com o nevoeiro.

Com o nevoeiro diurno tudo se altera. O nevoeiro não apaga a luz do dia como o faz a noite, que se torna a acender com a electricidade. Há luz no nevoeiro, podendo-se mesmo vislumbrar o poder do Sol espalhado na paisagem. O nevoeiro, com a sua brancura, com a sua luz, não apaga o mundo. É a nós que apaga, quer dizer, o nosso eu empírico ou social, escondendo-nos do mundo como quando entramos numa daquelas cápsulas da ressonância magnética, impedindo qualquer tipo de distracção ou atenção para tudo o que não sejamos nós mesmos. Mas não se trata apenas do nevoeiro. É o nevoeiro ao mesmo tempo que avançamos na estrada. Ao contrário do nevoeiro nocturno, avançamos com alguma segurança, como um avião nas nuvens. Trata-se, porém, de um movimento que nos leva a atravessar um espaço desconhecido, impedindo-nos de ter a consciência do lugar onde nos encontramos. Ora, dificilmente haverá melhor ideia do que esta para representar o nosso futuro, ou a ligação entre o nosso passado e futuro, impedindo um estado mental intencional face ao mundo e ao nosso dia seguinte (trabalho ou qualquer outro tipo de planos ou rotinas). Circulamos, avançamos sobre o asfalto, mas num movimento etéreo e abstracto que nos faz sentir frágeis, finitos, mortais, olhando para a nossa vida como algo de imponderável. Estarmos diante da nossa existência tornada realidade evanescente e distante de nós próprios, como se o eu estivesse num lado e a a sua existência noutro, induz assim um estado de melancolia, uma tristeza sem tristeza. E cá está: se a música for um adágio, temos o som em perfeita harmonia com a imagem. Sendo alegre, sobrepõe-se à imagem, anulando, total ou parcialmente, toda a nebulosa poética de um mundo envolvido em nevoeiro.


24 setembro, 2019

O JASMIM DA NOITE


Não sendo baptizado e educado numa família na qual a religião esteve sempre ausente, cheguei a adulto sem nada saber acerca do cristianismo ou do catolicismo para além do básico e de uma vaga memória de algumas edificantes histórias bíblicas contadas pela minha professora da escola primária. A Teologia, então, seria uma espécie de ciência oculta ou esotérica. Porém, chegado à faculdade, e vindo a ter uma cadeira de Filosofia Medieval, fui levado até àquele território com o espírito de quem se prepara para aprender polaco ou ler o Finnegans Wake. Um dos conceitos mais difíceis de enfrentar foi o de Trindade e respectivas hipóstases. Mas se o Pai e o Filho ainda faziam algum sentido para mim (enfim, um pai é um pai e um filho é um filho), o meu problema era mesmo com o Espírito Santo. Hoje, percebo, tratava-se de uma regressão cognitiva da minha parte que, de acordo com a Psicologia do Desenvolvimento, me atirava para os regressivos meandros das operações concretas de uma criança da escola primária.

Hoje, pelo contrário, o que tenho mesmo dificuldade em compreender é o Pai e o Filho, pouco consentâneos com o que será uma entidade divina. O Espírito Santo, esse, é a mais evidente hipóstase da Trindade. O Espírito Santo é como o aroma do jasmim da noite. Não se vê, não se toca mas na sua invisibilidade e imaterialidade, inspira-nos e alimenta o espírito em plena escuridão nocturna. O seu poder olfactivo é tal que inebria ao mesmo tempo que ilumina ou ilumina ao mesmo tempo que inebria. O seu poder é o da paz, da serenidade, do amor, um poder que não desejamos que alguma vez se acabe.  Daí que, para mim, teologicamente, faz todo o sentido deixar para sempre o Filho na cruz,  símbolo principal de milhões de cristãos, enquanto o Pai continua ensimesmado na sua eterna omnipotência e omnisciência. Fosse eu religioso, não eram cruzes, nossas senhoras ou últimas ceias que eu queria em minha casa. Queria, sim, o jasmim da noite para todo o sempre para encher os meus dias com o seu invisível mas glorioso poder olfactivo. 


23 setembro, 2019


Palavras e expressões detestáveis ou simplesmente irritantes (11):

"Costumo dizer que..."


22 setembro, 2019


Em garoto, sempre que ia ao futebol ver jogar o Torres Novas, era normal ouvir adeptos do meu clube a insultar ou ridicularizar jogadores pretos das equipas adversárias. Já na altura achava isso estranho, uma vez que na nossa própria equipa havia jogadores pretos, pensando então no que pensariam esses  "nossos" jogadores ao ouvirem tais impropérios. Décadas volvidas, a realidade continua a alimentar essa minha perplexidade. E, neste caso, quando o FC Porto tem jogadores como Danilo, Mbemba, Manafá ou Marega.

Eu só tenho uma explicação para este fenómeno psicologicamente complexo. Socorrendo-me de Orwell, sou obrigado a pensar que para muitas pessoas os pretos são macacos mas há uns que são mais macacos que outros: os que são adversários, que não fazem parte da sua tribo, que não lhes podem dar alegrias mas apenas tristezas, como é o jogador da equipa suíça que ia marcar a grande penalidade, ao contrário de Danilo que lhes pode dar alegrias. Trata-se assim de um fenómeno mentalmente interessante: uma manipulação da realidade que, a partir dos nossos interesses egoístas, é vista ou deixa de ser vista, tal como uma pessoa hipnotizada consegue ver à frente dos olhos o que lá não está ou não consegue ver o que está mesmo chapado à sua frente. Danilo pode ser tão preto (ou ainda mais) do que o outro jogador, mas para o adepto do FC Porto, ainda que os olhos o vejam preto, não é assim que a sua cabeça o vê, a qual, por ser pobre e apequenada, faz com que ao olhar para o outro jogador não consiga ver mais do que essa tão anatematizada cor.

Se porventura na próxima época Danilo fosse jogar para a equipa suíça e o outro jogador para o FCP, e as duas equipas voltassem a defrontar-se no Porto, Danilo, que agora não é macaco, iria passar por um processo de macaquização, enquanto o jogador suíço iria alegremente usufruir de um processo de desmacaquização, tornando-se um jogador como Corona ou Alex Telles. Falamos de futebol mas o mesmo estranho, para não dizer bizarro, processo, ocorre em muitas outras circunstâncias bem mais sérias, algumas delas com milhões de mortos e tantas outras inocentes vítimas. Daí devermos confiar mais nos olhos da razão do que nos olhos propriamente ditos ou ouvidos pelos quais tão facilmente emprenhamos. E lá nisso continua Platão a ter razão com a sua alegoria da caverna. Os prisioneiros e o homem livre dessa história, 2500 anos depois, continuam e continuarão a ser sempre os mesmos. As cavernas é que vão sendo diferentes e, infelizmente, não faltam por aí.


21 setembro, 2019


A diferença entre o infinitivo de um verbo e o substantivo que lhe está associado é a diferença entre a acção e ideia. Isso explica o facto de o escritor Robert Louis Stevenson ter um dia afirmado que "não é a vida que amamos, mas o viver". Quem mo disse foi Enrique Vila-Matas num muito engraçado livrinho chamado "Perder Teorias" no qual foca a tensão entre teoria e prática literária, entre escrever ficção e escrever sobre escrever ficção, chegando mesmo ao ponto de, com imensa graça, satirizar a cultura francesa dos anos 70, tão centrada na teoria e crítica literária, afirmando que aquela consideraria uma grosseria passar da teoria à prática, por exemplo, imagine-se, escrever um romance propriamente dito.

Ora, o que se passa entre teoria literária e literatura, trate-se de romance, conto, poesia ou teatro, passa-se igualmente na própria vida. Não por acaso o jovem Nietzsche na sua seminal obra "A Origem da Tragédia" se refere criticamente a uma cultura alexandrina, herdeira de uma letal associação entre Platão e o cristianismo, que torna o homem ocidental uma espécie de toupeira que sabe muito mas sem ver um palmo de vida à frente.  Poderíamos, algo cinicamente, afirmar que as invectivas do filósofo contra aquela dupla não foram escritas com um frasco de tinta mas com um garrafão de testosterona tão ao jeito da sua viril juventude. Sabemos hoje que a bioquímica não é área que deva ser desprezada para explicar tanto comportamentos e processos mentais, mas também é verdade que, isoladamente, se trataria de uma explicação demasiado redutora. Não sejamos também injustos com o velho filósofo grego quando diz que uma vida não examinada não merece a pena ser vivida. Claro que merece. Outra coisa não fazem a ética ou a política e muito mal iria a humanidade (ou a pós-humanidade) se a ética e a política passassem à condição de vaga memória. Mas cá está: quando o centro passa a ser a própria vida que, no fundo, não passa de uma abstracção, do mesmo modo que a ideia de cão não se confunde com o labrador preto de uma moradia em Coimbra ou com o chow chow castanho de um apartamento em Lisboa, o frasco com cuja tinta essa vida se escreve pode ir a pouco e pouco secando. Podemos saber tudo o que há para saber sobre cães mas, como no quarto de Mary, nada saber sobre cães. Com a vida pode acontecer o mesmo. Daí que nela o que é importante é fazer, ainda que não saiba, ou nem sequer se desconfie, porquê e para quê.



22 agosto, 2019

Quando comecei a estudar teologia não entendia o Espírito Santo. Agora é o que compreendo melhor.

25 julho, 2019


Os ponteiros deste relógio podem ser parados mas este não dispensa a sua anual manutenção. Voltará a ter corda em Setembro. Boas férias.


24 julho, 2019

Grace Robertson

Oito mulheres num mesmo carrossel mas tão diferentes dentro dele. Estão sentadas, paradas. No entanto, movem-se. Movem-se através de um movimento rápido e circular pelo qual não são responsáveis. É a máquina, com a sua energia, com a sua força, que as faz andar à roda sem fazerem alguma coisa por isso. Não são, pois, responsáveis por esse movimento como é a pessoa que na rua decide andar depressa ou devagar, ir para a direita ou esquerda. Mas apesar de já não serem ali senhoras do seu destino, vivem de maneira diferente a experiência do carrossel.

As duas da frente divertem-se à brava com o ridículo da sua situação. Riem-se de si próprias. É por isso que estão felizes. As pessoas que se sabem rir de si próprias são as mais felizes do mundo. A seguir, temos outras duas que se divertem mas com o divertimento das outras. Não é um divertimento tão espontâneo e eloquente mas, ainda assim, justificam bem o dinheiro que gastaram para estar ali. Com as duas seguintes já tudo muda de figura. Estão ali e com a consciência de estarem ali mas parece não saberem muito bem porquê e para quê. Talvez por obrigação ou porque as outras também estão. Por isso não sabem muito bem o que fazer com a alegria de estar dentro de um carrossel. Talvez levem a vida demasiado a sério e, por isso, terão medo de que as suas saias se possam levantar com o vento e mostrar as pernas. Por fim, as duas últimas, que parece não terem sequer a consciência de estarem ali. Não se divertem mas também não parecem estar tensas. Nem estão tão felizes como as primeiras nem enfadadas como as que estão mesmo à sua frente.

Há ali uma unidade. Uma estrutura partilhada por todas. Todas andam à roda, o movimento circular é-lhes comum. Todavia, o modo como viverão essa circularidade e as leis mecânicas do movimento, já dependerá do que cada uma espera desse movimento. Dos seus desejos, ambições, expectativas mas também dos seus medos, angústias, traumas, complexos. Para as mulheres das carruagens da frente o carrossel será sempre motivo para mais uma viagem. Para as mulheres das filas de trás, cada viagem será sempre, e mais uma vez, uma corrida contra si próprias.

23 julho, 2019

Existe um abismo entre o que sabemos e não sabemos. Eu sei o que sei, por exemplo, que D. Afonso Henriques foi o primeiro rei de Portugal, que existem duas Coreias, que Pacheco Pereira tem barba e o Liverpool é campeão europeu. Mas não sei o que não sei e nem posso saber pois assim deixaria de não saber. Mas o nosso conhecimento não se divide apenas entre o que sabemos e não sabemos. Há coisas que sabemos melhor em virtude de um traço mnésico mais espesso, estando guardadas na ponta da língua: o nome do primeiro-ministro ou a capital de Portugal. Há coisas que sabemos pior porque o traço mnésico está menos espesso: posso sabê-lo, mas se me perguntarem quem foi campeão europeu o ano passado, preciso de mais tempo do que se me perguntarem o deste ano. 

Existem ainda aquelas informações que com algum desespero sentimos debaixo da nossa língua sem se conseguirem soltar. Anteontem queria lembrar-me em que filme aparece Duke Ellington a fazer dele próprio mas não conseguia e isso estava a irritar-me. Não me irrito com o que não sei pois não me posso irritar com o que não sei que existe. Outra coisa é sabermos que sabemos mas sem conseguirmos recuperá-lo. Depois de grande luta, lá consegui. Dá a sensação de ser como a informação que tenho num disco externo guardado na minha consciência. Sei que tenho a informação, só que não está momentaneamente disponível, demorando mais tempo a recuperá-la como quando abrimos a gaveta para consultar uma coisa guardada no disco externo.

Mas há muito que tenho outro e potente dispositivo mnésico: o Google. Eu obtenho diariamente muitas informações que não conservo na minha consciência, remetendo-as para o Google enquanto disco externo. E um disco externo que, como o que guarda as informações "debaixo da língua", sinto quase organicamente. O facto de ter sempre um smartphone junto ao meu corpo, torna-o igualmente extensão natural da minha vida mental, disponibilizando de imediato toda a informação de que preciso. Há trinta anos, se conhecesse nomes como "Irma Blank" ou "Joseph Antoine d'Ornano", das duas uma: conservava-os na minha memória imediata ou no disco rígido "debaixo da minha língua", ou perdia-os. Graças ao Google, posso dar-me ao luxo de os esquecer sem os perder. Acabo até por senti-los mais como meus do que estando debaixo da língua, pois a sua invocação já não depende de mecanismos involuntários da minha mente (podia estar ainda à espera de saber em que filme Duke Ellington faz de si próprio) mas de uma simples consulta que demora segundos como acontece com o campeão europeu de 2018. Poderia dizer que o mesmo se passaria com os livros, nomeadamente enciclopédias. Trata-se, porém, já de um processo anacrónico e inorgânico no que à recuperação de informação diz respeito. O Google, através do movimento rápido dos meus dedos, surge cada vez mais como um dispositivo omnisciente onde se encontra cada vez mais alojado o que sabemos mas sem disso termos consciência. Torna-se, assim, cada vez mais próximo do que não sabemos: não sabemos o que não sabemos e também não sabemos o que sabemos e quanto mais próximo estivermos do saber também mais longe dele iremos ficar.