22 outubro, 2018

O Chiado estava alegre como é costume. Junto à saída do metro, mesmo em frente à esplanada da Brasileira, uma criaturas entretinham-se a fazer umas macacadas, mistura de contorcionismo circense com convulsões, ao som de uma música em perfeita harmonia com o resto. Várias pessoas assistiam ao espectáculo com ar de alegria e felicidade. Uns metros mais abaixo, duas raparigas exoticamente vestidas de igual, dançavam de maneira igual ao som de uma música igualmente exótica, para o público sentado na esplanada da Benard, tão alegre e feliz como o público mais acima.

Entretanto, várias pessoas iam-se sentando junto a Pessoa para a fotografia da praxe. Para quem lamentava já não se comemorar o dia dos seus anos, ou antes, para quem lamentava já nem sequer fazer anos, a realidade agora é bem diferente: todos os seus dias são de comemoração, dias de alegria e felicidade, com tanta gente a esperar pela sua vez para a fotografia com um homenageado que traz o futuro roubado na algibeira para já não mais o perder. Gente, porém, que exprime a mesma alegria e felicidade que, poucos segundos antes ou poucos segundos depois, exprime perante os dois espectáculos mesmo ali ao pé. Eis, pois, no meio de tanta alegria e felicidade, uma tristeza merecida. Lisboa é uma festa mas a poesia continua na rua.

19 outubro, 2018


Durante a aula, numa das turmas a quem na última aula do primeiro período do ano anterior, passei o filme Twelve Angry Men, de Sidney Lumet, havia dois tipos de alunos: os que sabiam que CR7 violou e os que sabiam que CR7 não violou, ambos com argumentos, certamente valiosos, para defender a sua tese. Instado a dar opinião, respondi que não fazia a mais pequena ideia. Percebi que o meu desconhecimento ou ignorância foi recebido com alguma estranheza, enfim, como se fosse uma anormalidade não saber o que toda a gente sabe, mesma que seja uma coisa e a sua contrária. Ainda há quem defenda, nomeadamente os manuais da disciplina, ser o cinema um bom instrumento didáctico para a aprendizagem da Filosofia.

18 outubro, 2018


Ficou célebre a frase que Saint Simon, o conde de Saint Simon, obrigou o seu criado a dizer-lhe todas as manhãs para o acordar: «Que Vossa Senhoria se levante, pois tem grandes coisas a fazer». Entre outras, uma desvantagem de ser plebeu no século XXI em vez de aristocrata no século XIX é não poder ter um criado para nos acordar. Um telemóvel do século XXI pode ser uma rica coisa mas o seu despertador só serve mesmo para nos acordar, sem que cheguemos a perceber bem para quê.


12 outubro, 2018











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Calhou ter ido ver a exposição do Mapplethorpe em pleno olho do furacão que, qual cereja em cima do bolo do frenesim mediático, incluiu nesse dia a manifestação de protesto à entrada do museu e da qual, quiseram os benevolentes deuses que eu pudesse escapar. Vista a exposição, passei depois à da colecção Sonnabend (entretanto, já terminada), onde fui dar com uma enorme fotografia de um fotógrafo que desconhecia, Elger Esser, um alemão que cresceu em Itália, estimulante conjugação que homens como Goethe, Winckelmann ou Nietzsche não desdenhariam, para não falar de tantos outros também nascidos a norte dos Alpes. Ter parado naquela fotografia seria sempre uma experiência cujo valor nunca iria depender de circunstâncias alheias. Mas o facto de ter coincidido com a polémica conjuntura daquele momento que, entretanto, rapidamente se desvaneceu, deu ainda maior valor à experiência. Não posso precisar quanto, mas sei, pela experiência interna do tempo, que fiquei a vê-la muito mais tempo do que a média que habitualmente despendo com um quadro ou uma fotografia. Bem sabemos como é versátil a experiência interna do tempo, que o digam escritores como Marcel Proust, James Joyce ou Virginia Woolf ou filósofos como S. Agostinho ou Henri Bergson. Porém, neste caso, ainda que fossem apenas alguns segundos com os olhos, teria sido sempre bem mais com o espírito, nada de inédito uma vez que já tive fugazes visões que nunca desapareceram nem irão desaparecer. Não tem pois razão Sophia quando diz a Lídia que «O tempo apaga tudo menos esse/longo indelével rasto/Que o não-vivido deixa». Mas, pronto, não foi o caso, pois sei o tempo que os olhos precisaram de gastar até eu dizer a mim mesmo que já podia então ir embora. O que não sei é se fiquei mais tempo por ter pensado que era ali que me apetecia viver ou se pensei que era ali que me apetecia viver por ter ficado mais tempo. Provavelmente, foram as duas coisas como se fossem apenas uma só. Sobre o tempo, sobretudo o tempo parado, é mesmo muito difícil dizer e, quando assim é, o melhor é mesmo calar para ficar apenas a ver.

09 outubro, 2018

Eu leio isto

«Os versos não são, como as pessoas julgam, sentimentos (esses aparecem bastante cedo) - são experiências. Para conseguir um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer os animais, é preciso sentir como voam os pássaros e conhecer o gesto das pequenas flores quando se abrem de manhã. É preciso poder recapitular caminhos que há muito se via aproximarem-se - dias da infância ainda por esclarecer, pais que era preciso magoar quando nos traziam uma alegria que nós não compreendíamos, doenças infantis que tão estranhamente começam acompanhadas de tantas transformações profundas e difíceis, dias passados em quartos calmos e contidos e manhãs passadas junto ao mar, o próprio mar, os mares, as noites passadas em viagem que nas alturas se dissipavam sussurrando e voavam com todos os astros. É preciso ter recordações de muitas noites de amor em que nenhuma a outra se assemelhava, de gritos de mulheres em trabalhos de parto e de parturientes leves, brancas, adormecidas, que se fecham. Mas também é preciso ter estado junto de moribundos, ter ficado sentado junto de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos intermitentes. E também não basta ter recordações. É preciso poder esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois as próprias recordações ainda não são o que mais importa. Só quando se tornam sangue dentro de nós, olhar e gesto, quando deixam de ter nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então pode acontecer que, no decurso de uma hora muito rara, a primeira palavra de um verso delas se erga e delas saia.» [Rainer Maria Rilke, As Anotações de Malte Laurids Brigge]

e recordo a famosa frase em que Adorno diz que é bárbaro escrever poesia depois de Auschwitz. A frase, dura, indignou Günter Grass, referindo-se à ousadia do filósofo que tem a lata de se comparar a um Deus que resolve proibir os pássaros de cantar. Entretanto, como tudo isto se tornou anacrónico algumas décadas depois. Olhando para a experiência do mundo e da vida da qual se alimentam cada vez mais as crianças e jovens de hoje, a poesia, mais cedo ou mais tarde irá desaparecer. Auschwitz já lá vai. O mundo, o tal mundo de carne e osso, repleto de verdadeiras experiências, boas e más, no qual vivemos durante séculos e séculos, parece também estar a ir. A poesia não deixará de ser escrita por um imperativo ético nem as pessoas estão proibidas de a escrever, como pretendia o escritor alemão. A poesia deixará de ser escrita pela simples e chã razão de nada haver para dizer. Na luta entre a dor e o nada, o nada irá cada vez mais vencer.

05 outubro, 2018

A VELA



Velar tem dois sentidos bastante distintos. Por um lado, pode significar proteger, tomar conta, dar atenção, estar de vigília. Nesta famosa e não menos bela cena doméstica de George de la Tour, é isso que vemos. Entretanto, a vigília aqui não se reduz apenas ao efeito protector das duas mulheres cujos corpos e rostos se concentram no recém-nascido, mas também ao efeito da luz quente e macia suavemente derramada sobre as personagens. Quer isto dizer que a luz que permite a vigília naquela divisão da casa resgatada da escuridão torna-se também ela própria protectora, mesmo que não possua os rostos, os olhos, as mãos e o amor das duas mulheres.

Mas velar também pode significar tapar ou esconder. A luz ajuda a velar a criança mas também a esconde e protege. Ao limitar-se a focar o recém-nascido, remete tudo o resto para uma escuridão que aumenta à medida que se afasta do foco central, e que quanto mais aumenta mais o protege. Como em qualquer claro-escuro, a fronteira entre a luz e a sombra permite a intimidade do seu motivo central. Porém, neste caso, pelo motivo da cena, essa intimidade é muito maior, dando a nós, espectadores, o privilégio de fazer parte dela e de nela permanecer em silêncio para não desapaziguar a utópica quietude de quem vela e é velado. Estivessem estas três figuras, hoje, num quarto lá de casa ou na sala de espera de um consultório pediátrico, iluminadas por uma luz eléctrica, ficava a cena despida e desabrigada. Sendo a luz de uma vela a demarcar o seu espaço é como se estivesse coberta por um véu de escuridão que lhe confere o direito ao pudor e privacidade. 

A luz vela (no sentido de esconder, cobrir) as três personagens do mesmo modo que o faz a luz da vela na mesa de um restaurante ou mesmo a lareira de uma sala como única fonte de luz para quem esteja junto dela. O restaurante tem a sua própria luz eléctrica, uma luz igualitária e democrática que invade todo o espaço mas o contorno desenhado pela luz da vela em cada mesa cria uma fronteira com as outras, uma linha imaginária que impõe um espaço privado e íntimo que todos devem respeitar. Isto porque a luz eléctrica é centrífuga enquanto a luz da vela é centrípeta. Se de noite olharmos para um prédio, as luzes que emanam dos apartamentos tornam-se públicas, anulando a escuridão da noite. Fazem parte do apartamento mas passam a fazer também parte da paisagem urbana nocturna, e quanto maior for a cidade, maior o seu impacto, como acontece em volumosas cidades como Nova Iorque ou Hong Kong ou, indo ainda mais longe, quando contribuem para criar manchas luminosas que se vêem em imagens nocturnas da Terra a partir de um satélite. Luzes, pois, que se juntam e que quanto mais se juntam mais afirmam a sua presença no mundo, assumindo orgulhosamente a sua plena e pública visibilidade. Precisamente o contrário do que acontece com a luz da vela neste quadro de La Tour. Uma luz que quanto mais vela no sentido de dar atenção mais vela no sentido de cobrir e que quanto mais vela no sentido de cobrir mais vela no sentido de dar atenção, tornando o foco da cena absolutamente único, mas igualmente tornando sagrado e digno de silenciosa deferência, como acontece com as luzes das velas num altar ou junto a um ícone ortodoxo, o que nasceu para ser profano.  

04 outubro, 2018

NÃO ME DEIXAREI ESQUECER-TE, PEQUENO DAVID CROCKET


Ontem, de manhã, ia eu pelo passeio a caminho da escola, quando no passeio do outro lado da rua, indo na mesma direcção, vejo um garoto dos seus 11 ou 12 anos, palmo e meio da altura, óculos, mochila às costas, com ar que poderia ser o do Woody Allen quando tinha essa idade, a acenar-me com um entusiasmo que não fazia sentido em alguém que não conheço, e a quer dizer-me qualquer coisa que não conseguia perceber. Mas finalmente lá consegui: estava a querer avisar-me que levava a mochila aberta. Olho então para a mochila pendurada no meu ombro direito e, de facto, vejo-a toda escancarada. Fecho-a e desta vez sou eu que, entusiasmado começo a gritar para o outro lado da rua para agradecer (continuávamos lado a lado) e também a acenar para reforçar o agradecimento. Ele, todo contente pela boa acção, continuava a olhar para mim, até que bate com a cabeça numa árvore que já ali está há alguns anos, logo a seguir à capela de Santo António. Os óculos caem para o chão e aleija-se mesmo, o que não me surpreende, atendendo ao impacto do choque, levando-o durante bastante tempo a esfregar a testa com uma expressão de dor. Inteirando-me da situação, percebi então que uma das hastes dos óculos estava quase partida e a cabeça não tinha ficado mesmo nada bem tratada. E lá continuámos a caminho da escola, ele com dores e eu com sentimento de culpa.

Hoje, num dos intervalos da manhã, vejo um garoto todo contente a dirigir-se para mim a sorrir, perguntando-me se eu ainda me lembrava de ontem levar a mochila aberta e que tinha sido ele a avisar-me. Nos dias que correm não é aconselhável apertar crianças mas vontade não me faltou. Mas fiz-lhe uma grande festa na cabeça, dizendo-lhe que não só me lembrava perfeitamente de ele me ter avisado mas que também nunca o iria esquecer. Lá nos despedimos então mas sem eu lhe dizer que tinha acabado de ganhar na vida um herói. Um herói que, dois dias antes, teria sido o mais improvável dos heróis.

03 outubro, 2018

Jacques-Henri Lartigue

«Quem é Kathryn Mayorga, a mulher que acusa Ronaldo de Violação?», pergunta e responde o PÚBLICO. Na resposta, considerei especialmente interessante a seguinte passagem: «Contou que a escola lhe foi difícil porque sofre de défice de atenção e tinha dificuldades de aprendizagem. Disse que é por causa disso que, ainda hoje, se põe a falar muito depressa. Ainda assim, conseguiu licenciar-se em jornalismo na Universidade do Nevada.»

A adversativa da última frase não me parece fazer sentido. Em vez dela deveria estar um indicador de conclusão. Se pensarmos no cada vez mais alucinante ritmo do jornalismo actual, que melhor curso poderia ter escolhido uma rapariga que fala muito depressa e com défice de atenção?

22 setembro, 2018


Esta mulher, Raquel Bartolome,  depois de responder a um teste com 99 perguntas, foi impedida por um juiz de exercer o direito de voto por padecer de uma incapacidade mental. Presume-se, pois, não ser ela dotada da racional capacidade de deliberação para, quando no momento de votar, fazê-lo enquanto acto livre, consciente e responsável. O problema é que se apenas votassem as pessoas que o fazem de um modo livre, consciente e responsável, após um processo de deliberação, suportado por um básico nível conhecimento de natureza ideológica, política e económica, iríamos ao encontro do desejo platónico de deixar a vida política entregue a uma ilustrada elite intelectual. A democracia é muito linda e merece ser protegida face a outros sistemas ainda mais perniciosos. Só que também não devemos ter ilusões: a democracia é o poder do povo e o povo, como diria o mesmo Platão numa obra chamada Górgias, age perante um discurso de Péricles como um grupo de crianças perante alguém que lhe oferece guloseimas. Raquel Bartolome deverá poder votar. Pode não ter cabeça para a trigonometria, para ler os clássicos russos ou até mesmo para compreender a guerra civil espanhola mas, no momento de votar, é apenas mais uma mulher que vota entre outras mulheres e homens que votam. 

09 setembro, 2018

PASSA POR MIM EM COPACABANA


Causou indignação um recente concerto rock numa igreja durante o festival de música "Bons Sons", estando ainda fresca uma outra por causa de um espectáculo de dança pouco ortodoxo numa igreja de Leiria. Não sendo católico, nada tenho a dizer sobre o que se pode ou não fazer dentro de um espaço privado. O mesmo não acontece com a cada vez mais saturada ocupação de ruas e praças das principais cidades para tocar e cantar, enquanto espaço público que é de todos.

Estar na Piazza Maggiore de Bolonha é estar no coração do Renascimento. Imagine-se chegarem ali três fedelhos, hip-hopers da cabeça aos pés, com um leitor de cd's ligado a uma coluna da qual era expelida uma cacofonia que enchia toda a praça enquanto iam coreografando uns gestos que fazem descer a humanidade a um nível simiesco. Como se este filme de terror não bastasse, de imediato se juntaram dezenas de turistas, fotografando e filmando com os telemóveis, felizes e contentes com tão grandioso evento cultural. Deverá tal ser permitido, respeitando-se a liberdade das pessoas num espaço público que é de todos? Não. E não, pela mesma razão que não faz sentido construir um edifício moderno numa zona histórica ou, por muita qualidade artística que possa ter, uma pintura mural na parte lateral de uma catedral ou num palácio renascentista, uma vez que destrói a identidade histórica e cultural de uma zona ou de um edifício.

É verdade que a música não se vê mas a sua presença é invasiva, passando a fazer parte da textura de um lugar, tal como os objectos ou os cheiros. Não que se deva impedir a animação musical por si só em espaços que são hoje turísticos e de lazer. A Royal Mille é a rua mais bonita de Edimburgo, uma rua cheia de história, ligando o castelo ao palácio de Holyrood. Ver, numa longa rua, duas ou três pessoas a tocar gaita de foles, dá à rua uma atmosfera verdadeiramente escocesa. Claro que não é necessário andar por uma cidade ouvindo música ambiente como se de um restaurante se tratasse. Porém, neste caso, para além de não se tornar invasivo uma vez que se trata de música acústica, está bem integrada no ambiente urbano, em perfeita harmonia com a sua identidade histórica e cultural. Se naquela praça de Bolonha um grupo de músicos tocasse música antiga aconteceria o mesmo, enriquecendo a experiência cultural ou mesmo turística (sim, turística) do lugar. Andar numa rua de Alfama e dar com duas pessoas a tocar guitarra e outra a cantar fado está acusticamente para a zona como uma casa branca com roupa estendida, estando eu à vontade para o dizer uma vez que não aprecio fado. Lisboa não é Milão, nem Portugal tem tradição operática, mas ouvir alguém cantar árias de ópera não destoa num bairro que tem o S. Carlos como espaço relevante para a sua identidade cultural. O que já não acontece, por exemplo, quando em pleno Chiado ou Alfama se é obrigado a ouvir música que nada tem que ver essas zonas tão marcadas social e culturalmente. Poderão fazê-lo, sem dúvida, e desde que acusticamente, em não-lugares como estações de metro ou em zonas sem valor histórico ou cultural mas onde também passa muita gente para ouvir.

Se fosse eu quem mandasse, para tocar ou cantar numa zona culturalmente sensível, só com aprovação camarária, após avaliação por parte da vereação da cultura com base em critérios técnicos  e estéticos bem definidos, tal como acontece com elementos arquitectónicos. Não aprovar não significa censurar ou impedir as pessoas  de usar o espaço público para exibir os seus dotes artísticos e ter algum proveito financeiro com eles. Apenas proteger os lugares de pessoas que, por mero interesse individual a eles se desejam sobrepor, destruindo a sua identidade. Ouvir bossa nova, ainda para mais electrificada, tomando um café ao lado de Pessoa ou Neil Young em plena Alfama é, como um gás traiçoeiro, um modo sorrateiro de intoxicar uma cidade. 

08 setembro, 2018

O MUNDO DE ONTEM


No filme See No Evil (Richard Fleischer, 1971, Sarah (Mia Farrow) regressa à enorme mansão dos tios, após um período no hospital. Ela é cega mas movimenta-se com grande à vontade pela enorme casa, fazendo a sua vida de modo perfeitamente normal. Tal só é possível graças ao facto de haver uma ordem naquela casa, de estar tudo no sítio certo de acordo com uma rotina doméstica. Sim, tropeça uma vez numa peça mas isso acontece só porque foi lá colocada durante a sua ausência e, de acordo com a ordem estabelecida, não deveria lá estar. Entretanto, um brutal e anormal acontecimento dentro de casa vai alterar toda esta confortável ordem. Sarah, que até aqui controlava o seu quotidiano, atrapalha-se, perde-se, não sabe para aonde ir, o que fazer. A dada altura fere o pé ao pisar um pedaço de vidro no chão da cozinha pela qual andou inúmeras vezes sem qualquer preocupação ou dano. Porquê, porque está lá quando não deveria estar ou, se estivesse, seria logo removido. O mundo de Sarah desmorona-se porque toda uma ordem marcada pela previsibilidade e estabilidade, como se de um relógio suíço se tratasse, se desmorona sem que ela esteja preparada para isso, uma vez que cresceu no meio da ordem e não da desordem.

Passa assim a existir uma dupla cegueira em Sarah. Por um lado, a cegueira propriamente dita  mas que, em termos pragmáticos, acaba por não o ser, esquecendo-se mesmo de que o é. Se todas as pessoas daquela casa estivessem a ser observadas à distância, através de uns binóculos, não se notaria a diferença entre ela e os outros. Porém, na sequência do acontecimento anormal, passa a existir uma outra cegueira. Ora, é esta cegueira que se torna verdadeiramente interessante no filme. Uma cegueira que pode ser partilhada por cegos e não cegos e da qual todos nós, sem excepção, podemos ocasionalmente padecer. Precisamente porque todos nós fomos criados para a ordem e não para a desordem, todos nós aprendemos a viver num mundo organizado, feito de rotina e previsibilidade, tal como acontece com a natureza. Quando, entretanto, isso deixa de acontecer, começamos a tropeçar, os nossos movimentos gaguejam e a cabeça começa a errar, deixando de conseguir pensar com razoabilidade numa realidade que deixou de momentaneamente de a ter, passando apenas a funcionar o instinto de sobrevivência com base em decisões ad hoc. Sarah, na sua casa virada ao contrário, é muito mais do que uma rapariga cega. Ela é a própria humanidade quando também acontece acordar de manhã para perceber que o mundo daquele dia, já não é, como diria Stefen Zweig, o mundo do dia anterior.

27 agosto, 2018



Padre Matias de Bremscheid | A Donzela Cristã no seu Ornato de Virtudes:

Em 1620, o bispo de Autun, que desejava transmitir aos seus diocesanos, por meio de uma carta pastoral, a sã doutrina sobre os bailes, perguntou ao conde de Bussy Barbutin se esses divertimentos, nas classes elevadas e educadas, não seriam talvez inofensivos. O referido conde respondeu ao bispo, do seguinte modo:«Sempre tive por perigosos os bailes; não só o meu bom senso, mas ainda a minha experiência, conduzem-me a esta conclusão. Bem sei que, para algumas pessoas, há menos perigo do que para outras; não obstante, os temperamentos mais frios aí se inflamam. Em regra, estas espécies de ajuntamentos compõem-se de pessoas jovens que, na solidão, a muito custo, logram vencer as tentações, dificuldade que mais e mais se agrava, em tais lugares. A minha opinião, portanto,  é que um bom cristão não deve ir a nenhum baile».

Finalmente, donzela cristã, nunca jamais, leias livro, jornal ou revista, que contenha coisas lúbricas ou pensamentos e versos ambíguos, de dúbio sentido e que se prestem a uma interpretação pouco decente. Muito embora seja magnífica  a linguagem ou estilo, não te deixes todavia aliciar e corromper. O veneno é sempre veneno, ainda contido no mais artístico frasco dourado. Extremamente pernicioso, para a moralidade, são os tais romances, sobretudo os romances de amor. Quantas donzelas não depravaram o próprio coração com essas leituras e encheram a cabeça de ideias extravagantes e falsos conceitos de vida! Eis a razão por que Santo Afonso admoesta com grande energia:«Proibi, pais de família, aos vossos filhos, com máximo rigor, que leiam romances, os quais deixam, na infeliz mocidade, torpes impressões que lhe roubam a mocidade e a excitam ao pecado».

O que se diz dos livros maus, pode aplicar-se também às figuras e estátuas imorais. Não as encares, nem as examines de perto. São, de algum modo, ainda mais perigosas para a virtude que os escritos e as conversas desonestas. O que se vê produz uma impressão mais funda do que aquilo que se lê ou ouve. Não de detenhas, portanto, em frente de mostruários, onde se expõem coisas capazes de ofender a olhos castos.

Alerta, pois, e guarda-te que, por desgraça, hoje não raro se encontram nas revistas, nos artigos de comércio e nos móveis, as figuras mais torpes e vergonhosas. Quantas donzelas honestas, que preferiam morrer a cometer uma acção impura, foram perdendo a pouco e pouco, na contemplação de de tais figuras, o delicado pudor e a aversão do pecado e se despenharam, por fim, no abismo do vício!

Que o dano e o prejuízo delas te sirva de aviso! Se, pelo modo indicado, procederes, cautelosa , se evitares, com toda a atenção, os perigos e a isto acrescentares a frequente recepção da sagrada Comunhão, amor filial e devoção à Santíssima Virgem Maria, passarás, pura e feliz, o belo tempo da tua mocidade, e conservarás intacta a inocência até ao dia do teu casamento, ou até à hora da morte, se não quiseres contrair matrimónio.

21 agosto, 2018

JANGADA DE PEDRA

Tenho uma visão relativamente clara da Europa, essa ponta extrema de um continente que se estende de Vladivostok a Brest. Jean Guitton (Conversas com Gérard Prévost)


31 julho, 2018

José Sócrates enquanto jovem estudante de engenharia

Cada pessoa tem direito às suas obsessões e eu, filho de Deus como os outros, tenho direito às minhas. Há muito que uma das minhas maiores obsessões é o engenheiro José Sócrates. Sei que é terrível mas trata-se de uma compulsão que o meu livre-arbítrio não consegue resolver. Tivesse-me saído na rifa a Monica Bellucci, a Isabelle Huppert, a Kathia Buniatishvili ou mesmo, vá, e isto já é o desespero a falar, a Cristina Ferreira, e adormeceria mais apaziguado antes de me ser tirada a energia vital durante a noite após a sua sucúbica passagem. Mas não, havia-me de calhar o engenheiro, personagem com a qual, graças a Deus, nunca sonho, mas que vai não vai me invade os pensamentos ao longo dos dias. Fosse eu um Balzac, um Stendhal, um Dostoievski, um James, um  Proust, um Musil, um Thomas Harris ou uma Patricia Highsmith, e, para exorcizar o daimon  que me assombra, escreveria o meu roman à clef cuja acção, para manter as distâncias, não poderia ter o seu início em Vilar de Maçada mas numa qualquer terreola inventada neste país de tantas oportunidades perdidas mas de tantas outras ganhas. Mas escritor não sou, restando-me apenas aprender a suportar o resto dos meus dias com se de um castigo divino se tratasse para expiar uma qualquer merecida ou imerecida culpa, sei lá.

Mas de uma coisa podemos dar graças e sirvo-me deste raro e preciosíssimo retrato do engenheiro enquanto jovem, que consegui descobrir. Qualquer arguto psicólogo que analise bem este rosto, o seu visionário e messiânico olhar, a sua fria e determinada expressão, só pode chegar a uma conclusão: a humanidade deve respirar de alívio por ter querido o destino que o engenheiro ascendesse aos mais elevados desígnios políticos, num cantinho de uma Europa democrática, aberta e liberal, num Estado de direito no qual, apesar de tudo o que sabemos e não sabemos, as instituições ainda vão funcionando. Claro que alguém teria de sofrer as consequências deste natalício destino e calhou a nós, portugueses, sermos as vítimas, podendo espanhóis, franceses, ingleses, belgas e tantos outros respirar de alívio. 

Há gente na história que fez muito mal porque as condições o permitiram como há muita gente que não o fez porque as condições foram outras. Dizia Lincoln que para conhecermos o carácter de uma pessoa basta dar-lhe poder. O que não falta por aí são pessoas terríveis. Só que em vez de terem ocupado tronos ou palácios ministeriais em regimes autoritários, expressam todo o seu carácter nos aspectos mais comezinhos da vida quotidiana e doméstica que se esgota ali. Imaginemos o seguinte e terrível cenário: o engenheiro, sendo, aliás, o conceito de engenheiro tão caro nesse contexto social e político, em vez de chegar ao poder em Portugal no século XXI, teria chegado na Rússia dos Sovietes, já sem a força real ou simbólica de um Lenine para refrigerar as mais inconfessáveis pulsões, embora este também não fosse propriamente dado a sentimentos franciscanos com quem não partilhasse os seus elevados e, salvo sejam, nobres objectivos. Nós, portugueses, sabemos do que o engenheiro é capaz e um bom psicólogo clínico saberá melhor do que ninguém explicar por que é o engenheiro capaz. O que nunca iremos saber é do que o engenheiro seria capaz, no caso de ter a sua oportunidade histórica para fazer tudo o que fosse capaz. Não sabemos mas podemos imaginar com a mesma clarividente visão das bruxas de Macbeth. 

30 julho, 2018



Quando se fala no facto das ideias poderem ter um efeito destruidor, pensa-se, sobretudo, num plano social e político. De facto, muitas tragédias históricas resultaram, pelo menos em parte, de programas, doutrinas, ideais, crenças religiosas ou até mesmo refinadas teorias filosóficas e científicas. Menos comum é pensar no seu efeito destruidor na arte. Mas também o há. Uma coisa é a arte, como dizia Leonardo, ser cosa mentale. Sempre o foi e sempre o será. Mas ser cosa mentale, enquanto processo, não é o mesmo que submeter a arte a princípios que a subjuguem. Até porque uma coisa são princípios que a explicam, o que é natural, outra são princípios que a subjugam.

Um bom exemplo de subjugação da arte a ideias é o pintor belga Jean Delville. Olhemos para este seu auto-retrato. Vamos supor que é o primeiro quadro que vemos deste pintor. Trata-se de um quadro interessante, tal como mais dois ou três retratos feitos por ele, e que até abre o apetite para o resto da sua obra. Retratos que, não sendo mais do que isso, cumprem bem a sua função estética ou até psicológica, deixando antever uma pintura que vale a pena descobrir. Porém, a pintura de Delville não passa de uma horrível cacofonia visual, espalhafatosa, infectada por um dos mais pavorosos kitsch e mau gosto da arte moderna. E porquê? Porque resolveu pôr a pintura ao serviço da sua filosofia esotérica, do ocultismo, de princípios teosóficos. Dir-se-á que muita da melhor e mais bela pintura europeia tem uma temática religiosa ou mitológica. Da melhor e mais bela, uma vez que a sua forma não está submetida ao poder do seu conteúdo, conseguindo-se um perfeito equilíbrio entre ambos. Será certamente, como toda a boa pintura, uma pintura que deseja falar mas nunca uma pintura que queira dizer tudo, esgotando em demasia a forma com o seu conteúdo. Dando origem a uma linguagem pictórica que ousa apresentar-se como profunda e espiritual, Delville não só não consegue como acaba mesmo por destruir o desejável equilíbrio entre o seu conteúdo e a maneira de o expressar. Mesmo pintores como Moreau, Khnopff, ou Puvis de Chavannes, cuja pintura não anda longe desta, conseguem, apesar de tudo, uma elegância clássica e discreta que pode não ser fácil de apreciar mas que também não fere os olhos como acontece com a pintura de Delville, a qual, hoje, servirá apenas para ilustrar os mais estúpidos e pirosos sites de espiritualidade e misticismo barato que contaminam o espaço virtual.

29 julho, 2018


Dos três filmes da minha vida, dois andam muito à volta da morte. E se há coisa que para mim enriquece uma cidade é um cemitério que valha a pena. Diz isto alguém que não é depressivo, que não tem tendências suicidas, nem é dado a pensamentos mórbidos. Talvez a explicação esteja naquela célebre frase do Lyndon Johnson sobre o sacana do Hoover: «It's probably better to have him inside the tent pissing out, than outside the tent pissing in».


28 julho, 2018


Ter ainda bem presentes algumas das metamorfoses relatadas por Ovídio pode ser uma explicação para o facto de encarar com grande naturalidade o facto de entrar no Modelo e na prateleira onde ainda há dias retirei a Amiga Genial ver agora garrafas de vinho e cerveja. Seja ou não essa a explicação, trata-se, sem dúvida, de uma metamorfose comercial que em virtude do actual conteúdo da prateleira poderá ser vista como eloquente expressão da modernidade líquida.



27 julho, 2018


Mete tanta impressão ver aqui Vladimir Ilitch Ulianov como qualquer outra pessoa na mesma situação, ainda para mais tratando-se de um homem com cinquenta e picos. Mas a impressão é maior se associarmos a este homem uma vida cheia enquanto agitador, exilado orador, político, filósofo, diria mesmo uma das mais influentes figuras do século XX que a ele ficou muito a dever. Entretanto, se me lembrei desta fotografia, não foi para assinalar a fragilidade inerente a todo o ser humano mas por uma bem mais comezinha razão: o anteprojecto de reforma constitucional em Cuba no qual se elimina a palavra "comunismo". E lembrei-me para lamentar não podermos ver a vitalidade ou decrepitude das ideias tal como a vemos dos corpos, como é o caso do corpo de Lenine nesta fotografia e vinte anos antes.

Este lamento levou-me a recuar até 1907, à cidade de Londres, onde se encontram Estaline, Lenine, Trotski e Gorki para o congresso do POSDR. Talvez por já ter visto tantos filmes e séries inglesas de época, consigo imaginar estes russos exilados a passear pelas ruas de Londres, observando a cidade e fazendo comentários sobre o que vêem. E o que vêem é naturalmente uma sociedade bem diferente daquela ideal com que sonham, cheia de imperfeições e, politicamente, um regime parlamentar burguês que serve os interesses das classes exploradoras que desejam aniquilar para dar origem a uma bem mais justa ditadura do proletariado onde todos serão iguais. Quem tem paciência e tolerância para a imperfeição quando, no horizonte, se avista a perfeição e o ideal? Uma perfeição que, dez anos depois, fez os triunfantes bolcheviques arregaçarem as mangas para a construir nos seus ateliers de engenheiros sociais e políticos onde efervesciam o que pareciam ser ideias jovens e revolucionárias.

Mas cá está o problema de não se conseguir perceber funções vitais e orgânicas já velhas em ideias que parecem frescas como alfaces acabadas de colher. No caso do comunismo, uma anquilosada ideologia cuja biografia se resume em poucas palavras: nasceu no século XIX, cresceu ao longo do século XX para, na parte final deste, ficar no estado em que se encontra aqui Vladimir Ilitch Ulianov, mas já decrépita e condenada à nascença, como muitas pessoas sensatas conseguiram antever. Pudessem as ideias ser vistas e não apenas pensadas e, apesar de tal não demover alguns fanáticos e intrépidos visionários ou oportunistas, talvez se tivessem evitado tantos milhões de pessoas mortas à fome ou assassinadas, tantos milhões de pessoas cujas sociedades foram marcadas pela pobreza, perseguições, ausência de liberdade, tudo isso enquanto castas burocráticas iam vivendo com grande conforto burguês ou mesmo satisfazendo caprichos que nunca passariam pela cabeça dos mais excêntricos políticos ocidentais. Saudemos o povo cubano que finalmente se viu livre deste pesadelo constitucional, fazendo votos para que, a pouco e pouco, e por tentativa e erro, vão desenhando uma sociedade com as imperfeições que, espero, nunca venhamos a prescindir.

25 julho, 2018



Se eu seleccionasse aleatoriamente cem pessoas, dando um euro às que conseguissem identificar o homem desta fotografia, o meu prejuízo iria ser bem pequeno ou mesmo nenhum. E se em vez de mostrar a fotografia simplesmente perguntasse quem foi Romain Rolland, exercício teoricamente mais acessível? Apostaria um jantar em como o prejuízo não iria ser muito diferente. Porém, trata-se de um escritor cuja importância foi enorme na primeira metade do século passado, prémio Nobel da Literatura, sobretudo pelo seu Jean-Christophe, um Bildungsroman composto por 10 volumes, escrito nos primeiros anos do século, e que seria facilmente encontrado nas estantes de uma geração, entretanto, desaparecida. Num livro de memórias, O Passado Remoto, o escritor italiano Giovanni Papini recorda o seu encontro com Romain Rolland em Florença:

Estava numa pequena pensão do Lungarno Acciaioli, perto da ponte Vecchio, e fui dar com um homem bastante diferente daquilo que imaginara. Nunca chegara a ver nenhum retrato seu e, como muitas vezes acontece, compusera-lhe uma imagem imaginária através da do seu «herói», através de Jean Christophe. Percebi logo, assim que o vi, que me tinha enganado. Rolland teria, por aquele tempo, uns cinquenta anos, mas o seu aspecto era cavalheiresco, quase delicado, como a de um jovem de trinta. Tinha uma testa alta e bonita, que o seu cabelo pouco abundante mais ampliava, um belo rosto oval, dois olhos de «pensador» sentimental e um bigodinho fino, por cima de uma boca pequena, um tanto feminina. Imaginara por forma completamente diferente o poeta do tempestuoso Jean Christophe. Em vez de um titã encolerizado e selvagem, encontrava-me diante de um amável e cortês exemplar do homme de lettres, não tanto de um epígono do Sturm und Drang, quanto de um normalien distinto e estudioso.

Papini faz depois algumas referências à sua longa conversa, durante a qual o escritor francês explicou a sua visão de uma civilização espiritual europeia. Não vou citar nada a esse respeito pois o que me importa aqui é só mesmo o homem e escritor e não as suas ideias, as quais valem o que valem e, no seu caso, até podem valer bastante. Achei muito interessante o modo como nesta descrição, Papini junta o lado físico do escritor à sua natureza intelectual. Mas antes de prosseguir apenas um pequeno mas creio que oportuno parêntesis: há muito tempo que tenho guardada esta fotografia. Não fui, pois, por mera curiosidade, à procura do aspecto físico do escritor por causa do texto de Papini. O texto fez-me apenas lembrar o facto de ter a fotografia e porquê.

E porquê? Não foi ser a imagem antiga de um escritor. O escritor como homem é tão antigo como outro e interessante homem qualquer, como por exemplo, entre tantos outros, os homens e mulheres de August Sander. Foi sobretudo por ser a imagem de um escritor com um tipo de gravitas «institucional», intelectual e cultural que já não existe. Onde pretende chegar Papini quando refere o «cortês exemplar do homme de lettres»  ou o «normalien distinto e estudioso»? Refere-se ao típico escritor do romain-fleuve mas muito mais do que isso: o escritor que não se limita a contar uma história mas o escritor que constrói um vasto conhecimento do mundo sobre o qual vai depois pensar e muitas vezes intervir, reflectindo-se não só na sua obra como escritor mas também como intelectual ou mesmo como maître à penser. Claro que, em sentido lato, e ao contrário de um agricultor, de um vendedor de electrodomésticos ou de um contabilista, alguém que escreve livros é um intelectual. Mas não no sentido em que são intelectuais, não só Romain Rolland, mas escritores como Balzac, Herculano, Zola, Tolstoi, Eça, Martin du Gard, Musil, Zweig, Mann, Sartre, Beauvoir, T.S. Eliot, Malraux, Magris, Saramago, ou mesmo Miguéis ou Sena. Escritores com os quais se lê o mundo através de um prisma que conjuga elementos históricos, políticos, sociais, psicológicos, que ultrapassam em muito a simples narrativa do romance. Escritores que fizeram parte de movimentos ou tertúlias reunidas em cafés e restaurantes por essa Europa fora que assinaram manifestos, que viajaram (embora não necessariamente, como é o caso de Proust) não só para proveito pessoal mas também como políticos, filósofos, historiadores ou sociólogos em busca de fermento para fazer crescer os seus romances muito para além das suas personagens, ou antes, para dar mundo às suas personagens ou permitir às suas personagens encontrar um mundo.

Ser escritor, hoje, é cada vez mais alguém que apenas escreve livros. Não há nada de errado nisto. Há muitos e bons livros que merecem ser lidos por escritores de que gosto muito e merecem os maiores encómios. Mas escritores cuja força interventiva se esgota nos seus livros, os quais, mais do que ajudar a expor o mundo perante os nossos olhos, reflectem sobretudo o mundo pessoal do escritor ou da pessoa por trás do escritor. Mesmo escrever um romance histórico com 700 páginas, que terá certamente muito de investigação e conhecimento histórico, não faz do escritor o homme de lettres ou o distinto normalien a que se refere Papini, uma vez que o conhecimento histórico do escritor se esgota no próprio romance, tendo um carácter sobretudo funcional e não de transcendência face ao romance.

E não deixa de ser aflitivo assistir, desde o sofá, à azáfama comercial, à correria de tanto escritor que mais parece delegado de propaganda médica, de festival em festival, de congresso em congresso, de feira em feira, de apresentação de livro em apresentação livro, de entrevista em entrevista, sobretudo para dar a conhecer os seus livros. Também não tem nada de errado nisso. Quem não é conhecido não vende e um escritor quer ser vendido e lido e a muito editor basta que seja vendido. Também não tem nada de errado nisso. Escrever e vender  livros é uma actividade comercial tão legítima como outra qualquer e não foi o facto de também o fazer que retira a Camilo o estatuto de enormíssimo escritor. Mas confesso a minha melancólica frustração por haver cada vez menos escritores com o conhecimento, a sabedoria, a inteligência geral e, não menos importante, a intervenção cívica, tendo por trás o superior ethos literário de um Romain Rolland sentado a ler o jornal num luminoso café europeu.

21 julho, 2018

AUGUST STRINDBERG - A CIDADE [1903]


Publicado em 1819, o "O Mundo como Vontade e Representação" viria a ser uma obra seminal para um certo século XIX. Sim, há o século XIX optimista, de Marx, de Morris, do casal Webb, de Mill, de Fourier, o das revoluções liberais, do socialismo, do anarquismo, da "Comuna de Paris" e de uma Paris com os seus novos boulevards rasgados pelo barão Haussmann, do nascimento de repúblicas e da glorificação do Estado-Nação, de uma exploração erudita dos folclores nacionais, do orgulho colonial, de uma crescente industrialização, do materialismo, positivismo e cientismo. Mas também há o século XIX do desespero romântico, do suicídio estético, do niilismo, do irracional, de um melancólico bucolismo, do spleen baudelairiano, do absinto, de Dostoievski ou Lautréamont, da arte pela arte cultivada pelo artista na solidão do seu sótão, enfim, da rapariga de Manet ao balcão das Folies-Bergère ou das evanescentes ninfas pré-rafaelitas. Sim, discute-se e conspira-se nos cafés, salões e fábricas mas o seu ruído não chega aos ouvidos do caminhante sobre o mar de névoa de Caspar David Friederich ou dos ouvidos  de Luís II, submerso num wagneriano oceano musical durante os seus passeios de cavalo à volta de Neuschwanstein e cuja romântica nascente se encontra em Bayreuth.

Nessa obra de 1819, é o jovem Nietzsche que o lembra anos, mais tarde, em A Origem da Tragédia, Arthur Schopenhauer sugere a imagem de um indivíduo tranquilamente sentado no seu pequeno bote, não tendo a consciência da (sublime, diria Kant) ilimitada imensidão do oceano onde se encontra a navegar. Confia no seu bote e sente-se por isso seguro. Se, porém, o virmos cada vez mais e mais a partir do alto até se tornar um pontinho perdido no meio de um oceano cujos movimentos obscuros ninguém domina, então, aqui sim, iremos perceber a intrínseca fragilidade deste indivíduo indolentemente sentado no seu bote. É nesta terrível imagem de Schopenhauer que não posso deixar de pensar quando vejo esta cidade de Strindberg, talvez Veneza, mas não necessariamente Veneza.

No meio de tanto cinzento, o seu quente brilho atrai-nos como se fôssemos mosquitos em busca de um lugar seguro para repousar. Deve ser bom andar por lá, cada um concentrado na sua realidade particular. Andar pelas suas ruas, canais, atravessar pontes, frequentar, quer burgueses cafés para conversar, ler jornais ou só para ver e ser visto, quer tabernas onde o vinho e o divertimento popular afogam as mágoas de quem nasceu no lado errado da vida, ou simplesmente, brincar, namorar ou simplesmente estar por casa nos seus afazeres domésticos. Como um bote parado em águas, à superfície, tranquilas, estar na cidade é habitar o elemento humano por excelência, a cidade como produto da engenharia, arte e arquitectura, a cidade como pólis, a cidade como conquista do ser humano sobre a natureza ou até sobre si próprio enquanto bruto ciclope perdido na sua bárbara individualidade.

Porém, esta cidade de Strindberg, ainda que orgulhosa com a sua majestática catedral ao centro onde as almas se reconfortam, é uma cidade ameaçada, uma pequena ilha perdida num universo que a ignora. O céu sobre esta cidade, como alguns de El Greco, sobretudo os de Toledo, é um céu atormentado, dramático, onde o obscuro teatro dos elementos conjura, com a cumplicidade do mar, sem que a cidade disso se aperceba. Não é o céu de Munch. Este é feito da mesma angustiada substância de quem vive por baixo dele, enquanto o de Strindberg surge em contraste com a cidade. Com a cidade e com o optimismo não só finissecular mas também dos primeiros anos do novo século que ainda há pouco começou. Paris, Londres, Berlim, Hamburgo, Baden-Baden, Munique, Viena, Budapeste, Bruxelas, Turim, Milão, Basileia, o alegre e vibrante cosmpolitismo da cidade na mais verdadeira acepção da palavra.

Mesmo o atormentado céu de El Greco sobre Toledo é um céu transcendente sobre a cidade para a sugar como um íman, deixando-a à mercê de um poder religioso que está muito acima de quem o tem na Terra, e quem diz na Terra diz na cidade. Nós vemos o Enterro do Conde de Orgaz e percebemos como é fugaz o poder na Terra e a sua insignificância face ao que se ganhou no além. Podemos precisar de algum tempo para lá encontrar o grande e poderoso Filipe II perdido no meio de uma multidão mas é mesmo lá que encontra sua verdadeira glória entre os santos, os anjos e Deus. Pode pois assustar o céu de Toledo mas assusta enquanto mysterium tremendum et fascinans que define o sagrado enquanto tal, impondo o seu respeito a quem nasceu sob o signo da mortalidade. Assusta mas atrai ao mesmo tempo. Este céu de Strindberg sobre a cidade é outra coisa. Uma massa informe que, com o mar, reduz a insignificante e frágil cidade a um poder desconhecido, imprevisível e incontrolável, ainda que os seus habitantes, felizmente para eles, disso não tenham consciência. A cidade pode sentir-se segura sobre os seus alicerces mas há uma embriaguez cósmica cujo hálito derramado sobre ela, como o siroco para os suicidas de Trieste, pode deitar tudo a perder. Foi este céu de Strindberg, e não o de El Greco, que viria a conquistar o século que ainda há pouco começara e muito provavelmente foi sempre este céu que existiu e existirá sobre as cidades tão orgulhosamente construídas pelos seres humanos como sobre as suas ruínas das quais, também com orgulho, são os seres humanos os construtores.

19 julho, 2018

Devido a uma apocalíptica catástrofe, em poucos minutos Portugal vai ficar submerso. Eu tenho a possibilidade de seleccionar 20 figuras públicas que irão ser salvas dentro de um bote, as quais irão mais tarde refazer o país. Sem qualquer ponta de idolatria ou hagiográfica veneração, uma dessas figuras seria a procuradora Maria José Morgado. Há pessoas de quem gostamos, que respeitamos ou em quem temos confiança, ou não, apesar de não as conhecermos ou de termos delas apenas um vago e distante conhecimento. Embora seja deste tipo o meu conhecimento dela, Maria José Morgado é uma mulher de quem gosto, que respeito e em quem tenho confiança, num nível muito acima da média. Por isso resolvi ler a sua entrevista no PÚBLICO de hoje.

Lembrando o tempo em que resolveu deixar de ser revolucionária, fala de uma certa ressaca pelo vazio que foi encontrar após tanta adrenalina descarregada. Que depois foi combatida lendo e estudando bastante mas também com exercício físico intenso. Eu achei graça a esta resposta pois vai ao encontro de uma ideia que considero bastante verosímil: grande parte do que somos, mas também do que não somos, deve-se a uma questão energética. No romance A Amiga Genial, diz Elena: "[...] fiz muitas coisas na vida mas sem convicção, sempre me senti um bocado desligada das minhas acções". Cá está, havia em Elena um défice energético que marcou uma distância entre si e si. Outras pessoas estão completamente mergulhadas no que fazem e no que são -  ou melhor, são o que fazem ou fazem o que são - sem qualquer tipo de dúvidas ou mediação introspectiva. Serão assim os revolucionários mas também não revolucionários nas mais diversas funções, seja no mundo político, empresarial, militar ou mesmo pessoal. Há pessoas que parecem estar sempre ligadas à corrente, verdadeiras máquinas de agir, para as quais o tempo interior quase não existe. Se os fins de toda essa tensão energética forem uns, o mundo só terá a ganhar, se forem outros, terá a perder, noutros casos ainda - a maioria - nem uma coisa nem outra. Pelo que se pode depreender da entrevista, Maria José Morgado encontrou o equilíbrio certo entre a energia necessária para o mundo e a falta dela para as coisas onde o seu excesso se torna prejudicial, seja para o mundo, seja para si próprio. Bendito exercício físico intenso que ajudou a curar a ressaca.

18 julho, 2018

Conheço algumas pessoas que choraram em Auschwitz. Já tentei várias vezes mas não consigo perceber porquê. Auschwitz-Birkenau não é mais do que um museu composto por vários edifícios no meio de uma vasta área. Nalguns deles podem-se ver fotografias e cartazes informativos acerca do campo ou ainda alguns objectos pertencentes aos prisioneiros como, por exemplo, sapatos. Esta relação visual com o lager é a mesma que teremos num campo de batalha onde morreram milhares de pessoas ou que se pode ter, num domingo de manhã, em visita guiada, ao largo de São Domingos, a respeito do massacre de Lisboa. Um tipo de relação em que os olhos atenuam o esmagador peso do essencial. Como ver numa caixinha as cinzas de alguém que outrora foi um ser humano que nunca conhecemos, também o que os nossos olhos vêem num museu ou no espaço onde em tempos aconteceu algo esmagador, não passa de um  vestígio mudo de uma realidade que fugiu dali para sempre. 

Auschwitz será para sempre o ânus do mundo, o nível mais repugnante e desprezível a que desceu o ser humano. Mas o que verdadeiramente choca, envergonha e, sim, mexe com os nervos de uma pessoa, é a própria ideia de Auschwitz, a pulsação do seu sentido, ou melhor, da falta dele, para além da representação visual que serve para satisfazer a nossa inesgotável curiosidade, diria Nietzsche, uma socrática curiosidade, como se pode aferir pela quantidade de telemóveis, tablets e máquinas fotográficas sempre a disparar durante a visita, ao longo da qual uma guia vai dando toda a informação necessária e que as pessoas ouvem com toda a atenção como se acabassem de chegar há pouco à Terra. Ou à História.

Lê-se o Primo Levi, e, sim, vai-se respirando fundo para ir resistindo àquela descida aos abismo. Acaba-se As Benevolentes, o vertiginoso romance de Jonathan Littel, e precisa-se de algum tempo para regressar à normalidade depois de toda aquela orgia demencial de destruição tão racionalmente organizada como se de uma qualquer normal empresa alemã de sucesso se tratasse. Aí, sim, entramos no elemento do próprio horror, do absurdo, sentindo-se tanto o calor inocente das vítimas como o calor sádico dos algozes, construindo-se mentalmente a ideia-chave de tudo aquilo e na qual só muito relutantemente se consegue acreditar. Mas depois de ter acreditado em tudo o que havia para acreditar, de ter percebido tudo o que haveria para perceber e de ter sentido tudo o que havia para sentir, os olhos que chegam ao museu de Auschwitz-Birkenau apenas servem para ver e já sem qualquer lágrima para verter.

17 julho, 2018


Diz o povo, e com razão, que o hábito não faz o monge. O provérbio é antigo mas também evidente a sua actualidade. Apenas os hábitos mudaram, sendo, como sempre, muito mais, e variados, do que os próprios monges. O verdadeiro monge, esse, nem se lembra que o tem vestido.

15 julho, 2018

ROMAN CIESLEWICZ - MONA TSE TUNG


Do que mais gosto nesta montagem do artista polaco é a ambiguidade no que respeita à sua verosimilhança. Se virmos o original que serve de base a esta montagem, percebemos uma certa associação entre o seráfico e contemplativo rosto do jovem Mao Tse Tung e o da jovem italiana pintada por Leonardo. Uma associação que seria impossível com a cara de parvo de Nixon, o ar de sacanice inteligente de Kissinger ou a tão soviética sisudez de Brejnev. Daí uma certa verosimilhança nesta montagem em virtude do facto dos dois jovens partilharem um ethos comum. Porém, ver o rosto de La Gioconda enfiado nesta farda revolucionária chinesa é um contra-senso que logo denuncia a natureza impossível da imagem, reduzindo-a a uma dimensão caricatural e humorística.

O contra-senso pode ser entendido de duas maneiras. A mais óbvia, resulta da consciência da distância entre o contexto histórico da imagem original de Mao e o contexto histórico de Mona Lisa, a qual fica de imediato descontextualizada. O mesmo se passaria se vestíssemos Péricles de fato e gravata ou D. Sebastião com um fato de astronauta. Mas há uma outra mais subtil. Já se disse tudo e mais alguma coisa sobre o rosto de Mona Lisa. Mas existem duas Monas Lisas: a mulher real, que viveu num espaço e tempo reais e que foi pintada pelo génio italiano, e a mulher cujo rosto se emancipou face à identidade empírica da jovem mulher. Eu não sei qual a semelhança entre as duas Monas Lisas. Pode ser grande ou pequena mas para o caso não interessa. Por muito grande que seja, o rosto da Mona Lisa de Leonardo, ganhou vida própria, ou mesmo o valor absoluto de um arquétipo, que faz extraí-la do seu contexto empírico, a Renascença italiana, e ultrapassar ainda a psicologia de uma mulher real, para se tornar simplesmente num rosto cuja psicologia subsiste na própria pintura. Mas o que dizer sobre o rosto de Mao, abstraindo-nos da farda e do chapéu? Sim, ficarmos apenas com o rosto de Mao. Mas será sempre o rosto de um homem normal, ainda para mais sem o sfumato, essa delicada película com que Leonardo faz transcender ainda mais o rosto do seu modelo. Ver, pois, o rosto de La Gioconda  como ersatz do rosto de Mao, contribui ainda mais para o não-sentido da montagem.

Uma montagem feita por um polaco, que associa a imagem de um revolucionário chinês com a imagem de um pintor italiano, levada para França. Polónia, China, Itália, França, países cheios de História, diria mesmo com excesso de História, como alguém disse a respeito do povo judeu. Mas História que passa completamente ao lado do eterno, imutável e puramente ideal rosto de La Gioconda. Podemos legitimamente permutar rostos independentemente das suas épocas históricas. O nosso D. João V, sem peruca e vestido segundo um padrão actual, passaria por um homem do século XXI. Rostos são rostos. Do mesmo modo, poderíamos colocar nesta farda revolucionária de Mao, ainda que por piada, o rosto de Trump, de Putin ou até da senhora Merkel. O efeito, seria, obviamente caricatural. Fazê-lo com o rosto de Mona Lisa já é completamente diferente, mesmo até diferente de outros rostos femininos antigos, por exemplo, Rafael ou Ticiano. Porque a verdadeira Mona Lisa nunca existiu nem nunca existirá a não ser nos pincéis de Leonardo.

14 julho, 2018

Há um pequeno ensaio de I. Berlin, chamado Political Judgement cujas principais questões são: o que significa uma sabedoria política? Ou ser politicamente competente? Há uma «ciência política» tal como há uma Biologia ou uma Química? Será que, na realidade política, existem leis, invariáveis, mecanismos inexoráveis e previsíveis, permeáveis ao exercício da razão? A sua resposta é veemente: não!

É por isso que, sendo ele herdeiro de um certo iluminismo, arrasa por completo a pretensão de reduzir tudo ao poder da razão. Pior ainda: aplicar tais pretensões. Lenine, Estaline, Hitler, Mao, Ceausescu, Chavez são homens que quiseram fazer política com uma doutrina colocada na mesinha de cabeceira. Homens que olharam para as suas sociedades e não viram outra coisa senão um laboratório onde poderiam aplicar o seu programa, a sua agenda racional. Para Berlin, os grandes pesadelos políticos do século XX, embora por razões distintas, continuam a ser herdeiros da fé iluminista segundo a qual é possível construir uma sociedade a partir de um modelo racionalmente elaborado no ateliê científico do político enquanto sábio ou vidente iluminado, deslumbrado com os seus ideais.

Ora, a realidade não é assim. A realidade, a verdadeira realidade é multicolor, evanescente, contraditória, fugidia e demasiado feita de misturas para poder ser catalogada como as borboletas. Daí Berlin preferir políticos como Colbert, Washington, Talleyrand, Disraeli, Bismarck, Churchill ou Roosevelt. Homens que, mais do que matemáticos ou engenheiros da política, olharam para esta através da intuição, do improviso, de uma sabedoria prática e não doutrinária. É por isso também, considera, que romancistas de águas profundas como Tolstói ou Proust, estando atentos às pequenas partículas atómicas do real, ao invisível, aos caprichos da alma, entendem muito melhor a realidade do que fanáticos racionalistas como Holbach, Helvétius ou La Mettrie, três dos principais inspiradores da revolução da qual hoje se comemora o aniversário. Infelizmente, as críticas de Berlin, continuam actuais. É que há muito robespierrezinho escondido em muitos dos nossos engenheiros sociais, e se é verdade que já não se cortam cabeças por fora, existem diversas maneiras de as cortar por dentro. 

13 julho, 2018

Tornou-se habitual, sobretudo nas pessoas que fazem questão de falar bem, dizer "virtualidades" em vez de "virtudes". Ainda há dias, uma política da nossa praça referia-se às "virtualidades da geringonça". Eu gosto de palavras como "piedade", "compaixão", "caridade" ou "misericórdia", e digo-as. Mas, vá, percebo um certo pudor em dizê-las devido à sua ressonância religiosa, a qual, diga-se de passagem, também não morde. Mas, "virtude"?  Raios, custa assim tanto dizer "virtude"? Ou será porque a ideia de virtude, com toda a sua força moral, tem um sentido cada vez mais virtual?

12 julho, 2018

Uma coisa que me incomoda é, numa exposição temporária, só poder ver um quadro importante pertencente a uma colecção privada sem um espaço museológico que o torne acessível a toda a gente, graças à boa vontade do proprietário que o emprestou. Sim, é um privilégio estar a vê-lo mas também sabendo que se trata de uma condição excepcional e que terminada a exposição nunca mais irei pôr-lhe a vista em cima. Não se trata de reconhecer qualquer ilegitimidade quanto à sua posse. Se a pessoa o comprou é porque alguém o vendeu e longe de mim pôr em causa a transacção.

Aqui há uns anos, no Q&A do The Guardian, perguntaram ao Bryan Ferry qual era, exceptuando propriedades, a coisa mais cara que possuía. Era uma obra de arte mas afirmou logo de seguida que não lhe pertencia verdadeiramente, tendo apenas a tarefa de a conservar para a geração seguinte. Está bem, abelha! Devia estar a pensar nos filhos e nos amigos dos filhos que vão lá a casa. Vamos supor que, para facturar numa situação de grande crise, o Estado venderia à Madonna e ao George Clooney os palácios da Pena e de Queluz, para suas residências privadas. É inconcebível? É. Mas também é bom não esquecer que foram construídos precisamente para serem residências privadas, às quais só tinham acesso os moradores e seus convidados. No fundo, se vendidos agora, voltariam a encontrar a sua natureza, com os seus quartos, salas, cozinhas e jardins privados. Acontece que, por serem de interesse público, qualquer pessoa ganhou o direito de lá entrar. Perder esse direito seria perder o direito a um património que é de todos porque do interesse de todos ainda que não seja de todos.

O mesmo se passa com as obras de arte de colecção privadas. Mal descubro num livro ou na Internet uma obra que me interessa, vou ver o sítio onde se encontra. Vejo então que faz parte de uma colecção privada à qual o público não tem acesso e sinto-me verdadeiramente alienado. O mesmo pintor tem quadros que podem ser vistos por todos e quadros que só podem ser vistos por quem o seu proprietário quer que sejam vistos. Raios, não é justo, por muito legítimo que seja. Com pena minha, não conto ver a colecção do Isabella Stewart Gardner. Mas o facto de saber que as suas obras estão acessíveis ao comum dos mortais, deixa-me apaziguado. Não vou mas sei que posso ir. Em sentido contrário, saber que em Portugal pode haver quem compre um quadro de enorme valor para o ter pendurado na sala, deixa-me com a sensação de me estarem a tirar algo que me pertence, não achando grande piada a esse bombom dado à criancinha para acalmar a birra, que é um dia poder vê-lo no caso de existir uma exposição temporária para a qual generosamente será emprestado. 

11 julho, 2018

A ESTÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO INSTAGRAM

Há pessoas que detestam ir ao supermercado. Há pessoas que não detestam ir ao supermercado mas detestam estar na bicha para pagar na caixa. Eu serei um felizardo uma vez que gosto de ir ao supermercado. Em relação a estar na bicha, embora considere haver coisas na vida mais interessantes para fazer, reconheço que é rara a vez em que não haja motivos para uma pequena e instantânea sociologia de supermercado.

Hoje, depois de fazer as minhas compras ali no Modelo, dirigi-me para a bicha para pagar. Estava enorme, obrigando-me a uma estadia maior do que o habitual mas, cá está, aprende-se sempre alguma coisa! Estava lá para aí há 5 minutos quando passam dois homens, mais velhos do que eu, com aquele ar de bom português cuja única condição para emborcar duas ou três minis é parar, tendo um deles, com uma valente bigodaça e um cestinho de plástico na mão dito para o outro: "Eh pá, ganda fila que prá qui tá". O sociólogo que há em mim ganhou logo ali o dia. Em primeiro lugar por ver dois homens que, em tempos, nem de um supermercado se podiam aproximar sob pena de arriscarem a sua masculinidade, andando agora ali às compras com a mesma naturalidade com que comem caracóis e discutem o Sporting numa esplanada ali da avenida.Claro que em 2018  já não se trata de novidade nenhuma mas apreciei invocar o contraste. Agora, surpreendente, mas surpreendente mesmo, foi ver o bigodaças a dizer "fila" em vez de "bicha". Surpreendente e até chocante. Para mim, um homem a sério continua a dizer "bicha". "Fila" tornou-se uma expressão mais feminina ou de homens urbanos obcecados com a elegância, que passaram a considerar a palavra "bicha" rude e boçal. Isso, para mim, não passa de uma traição ao bom, velho e vernacular Português. Ver aquele homem a dizer aquilo foi, pois, uma desilusão, levando-me a pensar que, mais ano, menos ano, a palavra "bicha" está para a nossa língua como tantas outras que, hoje, só conseguimos ler em escritores como Camilo ou Aquilino.

Mas o empírico benefício de estar numa bicha de supermercado não acabou aqui. A demora permitiu-me ainda ler com mais atenção as capas das revistas ali expostas. Foi o caso do número de Verão da revista Women's Health cuja capa aqui trago:



Em abstracto, se pensar numa revista dedicada à saúde, irei pensar em assuntos relacionados com pulmões, fígados, rins, estômagos, pele, olhos, ouvidos e assim. Porém, se também em abstracto pensar numa revista dedicada especificamente à saúde da mulher, a minha mente viajará até ao misterioso mundo da gravidez, da menstruação, da menopausa, da candidíase, da secura vaginal, da infecção urinária, dos quistos nos ovários, dos miomas, das histeroctomias e outras coisas assim do género. Porém, como se pode empiricamente constatar nesta revista dedicada à saúde da mulher, a realidade é bastante diferente. 

Entretanto, podemos considerar que o destaque dado ao rabo de Rita Pereira numa revista dedicada à saúde da mulher não passa de um mero acidente. Mas o sociólogo que há em mim, casmurro, não se pode ficar apenas pelo território da contingência social, devendo ir à procura de padrões e invariáveis. Foi o que fiz. E o que descubro eu na Women's Health de Maio/Junho de 2015? 



Exacto! O rabo de Rita Pereira. Neste caso, para além de como perder 6 quilos, uma barriga firme, comida com poucas calorias, fatos de treinos cool, cabelos à prova de ginásio e corpo de praia, temos a preciosa indicação de que bastam 20 minutos diários para se conseguir um rabo perfeito, o qual, presumo, é o mesmo que dizer o rabo de Rita Pereira. Ora, tudo isto pode parecer algo desfasado da realidade, levando-nos a presumir serem as pessoas desta revista algo taralhocas. Porém, se levarmos a sério este artigo, assim como a obsessão moderna relativamente às selfies do Instagram e do Facebook, seremos obrigados a reconhecer que a saúde feminina está cada vez mais reduzida a um plano, que parecendo obsessivamente físico, não deixa de ser obsessivamente mental. Posso estar enganado mas creio que, por este andar, num futuro próximo, a Cirurgia Estética e a Psiquiatria irão ultrapassar a Ginecologia e a Obstetrícia enquanto especialidades ligadas à saúde da mulher.

A saúde masculina, já por si bem menos complexa do que a feminina, pelos vistos, também


10 julho, 2018

Durante as refeições, que ele comia no seu escritório, invadiam-no pensamentos importantes. Geralmente era incapaz de dizer o que acabava de  levar à boca. Reservemos a consciência para as ideias importantes que se alimentam dela: é-lhes indispensável. Sem consciência são inconcebíveis. Mastigar e digerir, pelo contrário, são funções autónomas. Elias Canetti, Auto de Fé.


Sim, compreendo, embora não concorde uma vez que comer é para mim assunto de alguma importância. Depois, trata-se de um dualismo errado: o que não falta por aí são processos mentais, cuja mastigação e digestão é tão autónoma e mecânica como a mais básica das funções vitais.

20 junho, 2018

LICHTENSTEIN NO COLOMBO

Meu deus, já faz dezoito anos que resolvi ir a Serralves ver a exposição do Andy Warhol. Eu nunca gostei dele mas, sendo uma pessoa de espírito aberto e que gosta de dar o benefício da dúvida, lá fui com cartesiana prudência, liberto de prévios pensamentos e sentimentos, metendo entre parêntesis tudo que sabia a seu respeito de modo a poder lá chegar com o mais puro e virginal olhar sobre a sua obra. Creio que não resisti quinze ou vinte minutos. O suficiente para dar o meu rico tempo por mal empregue e concluir que não fosse a criatura americana e um produto muito bem vendido, a começar pelo próprio, e estaria reduzido a uma mais do que merecida irrelevância. 

Foi há muito tempo mas lembro-me bem do meu enorme desconforto por estar a ver tudo aquilo no espaço formal de um museu. Eu não tenho nada contra outdoors, as montras da Zara ou os carros comerciais que andam pelas ruas com o logotipo da empresa, mas se eu entrasse num museu para ver outdoors, montras da Zara ou carros comerciais sentir-me-ia a pessoa mais estúpida do mundo em vez de me sentir apenas estúpido. Quero por isso saudar a exposição de 41 obras de Roy Lichtenstein no Colombo, no âmbito de um projecto de divulgação artística.  Se na altura dos saldos passar por lá para fazer umas compras e, no entretanto, ver a exposição, estou certo de que dessa vez não irei sentir o mesmo desconforto de Serralves. Eu sei que parece demasiado rebuscado ir buscar a Física aristotélica para esta conversa mas foi mesmo dela que me lembrei para concluir que se cada objecto tem o seu lugar natural o das obras de Roy Lichtenstein é precisamente o Centro Comercial Colombo, algures entre uma loja da Zara e uma KFC. Mehr Licht, implorou Goethe no seu leito de morte. More Lichtenstein, irão desejar os comerciantes e clientes, certamente empolgados por esta erupção de arte na catedral do consumo.

14 junho, 2018

O SENHOR VÍTOR

Hoje passei pelo senhor Vítor e cumprimentei-o dizendo "Bom dia, senhor Vítor". Eu jogava ao berlinde e já o senhor Vítor era senhor Vítor, continuando a sê-lo até hoje e até sempre. Isto para mim é normal, como creio ser normal para o senhor Vítor ser tratado por senhor Vítor. Mas a pessoa que diz isto é a mesma que fica desconfortável quando é cumprimentada na rua por um "Bom dia, senhor professor" ou "Bom dia, senhor doutor". Eu sei que para quem me cumprimenta desta maneira, sou tão senhor ou tão doutor como para mim o senhor Vítor é senhor Vítor e provavelmente nem lhes passa pela cabeça não me tratarem por senhor ou doutor como pela minha também não passa não tratar o senhor Vítor por senhor Vítor.

O passado é o que já não existe, o futuro o que ainda não existe. Mas entre o que deixa de existir e o que ainda não existe, existem momentos que são como a foz de um rio, onde a água já não é doce mas também ainda não é salgada. O poeta Ovídio bem se poderia lembrar de metamorfosear a foz de um rio no deus Janus.  Janus, o deus das duas faces, uma virada para o passado, outra para o futuro. É pois este o meu estado ao tratar o senhor Vítor por senhor Vítor mas sentindo-me desconfortável quando passo eu a ser o senhor, mesmo sabendo ter idade para o ser. O estado de quem é apanhado entre dois tempos, um que ainda existe mas em vias de deixar de existir, outro que já existe mas ainda com vestígios do anterior.

Também é isto que acontece muitas vezes na história. O que normalmente vemos na história são épocas, eras, períodos, revoluções que destroem realidades para para darem lugar a outras: Antes de Cristo/Depois de Cristo, Alta Idade Média/Baixa Idade Média, Monarquia/República, Estado Novo/Democracia, Grécia Antiga, Renascimento, Absolutismo, Revolução Francesa, descolonizações, etc. Mas a história também é feita de vidas materiais e espirituais que se vão desvanecendo sem se dar por elas. Vamos um português de 1875 e facilmente o distinguimos do português de 1926. Mas há muita coisa no primeiro que já prepara o segundo como este tem muita coisa do primeiro. Coisas que aparecem e desaparecem quase sempre como um gás incolor e inodoro que tanto nos invade como se esvai, sem que demos por isso.

13 junho, 2018

CENOTÁFIOS

Não vejo o acto de ler como um bem em si mesmo nem o não ler como um mal. Ver as coisas dessa maneira revela uma visão bibliocêntrica que põe em causa a liberdade de não ler, de se obter prazer por outras vias, de se poder ser normal, realizado e feliz sem precisar de ler, e que o digam os Esteves sem metafísica deste mundo. Ler é bom? Sim, claro. Há livros que me deram e a muitas outras pessoas um enorme prazer, mas também não me parece especialmente dramático não sentir qualquer prazer em ler e que os tais livros, ou mesmo quaisquer outros, que me deram, e a outras pessoas, prazer, nada digam a muitas pessoas que, só por isso, devem ser vistas como imundos trogloditas. Nem entendo que se possa ser melhor ou pior pessoa por ler ou deixar de ler.

Posto isto, quero agora evidenciar esta entrevista. Diz o entrevistado haver pessoas que compram livros, não para ler mas para coleccionar. Parece-me, entretanto, que o facto de se comprar livros que não vão ser lidos não se esgota na referida situação de desejar tê-los apenas enquanto peças de colecção. Parece-me ocorrer também o facto de se comprar livros não devido a um gosto pela leitura mas pela ideia de gosto pela leitura. Mais do que ler, gosta-se da ideia de ler ou de ter o que se gostaria de ler. Isto acontece porque ainda vivemos sob um paradigma bibliófilo, o que está muito longe de implicar que toda a gente lesse ou gostasse de ler. Significa apenas ver o livro como elemento fundamental da nossa história e civilização, sendo por isso valorizado por elites sociais e culturais que arrastavam consigo muitas outras pessoas que se habituaram a ver no livro uma peça importante da sua educação e formação. Trata-se, porém, de um paradigma em crise. Crise que não se avalia pela ausência de livrarias, pela ausência de livros e pela ausência de pessoas que compram livros. Aliás, nunca se publicou tanto como agora e nunca se compraram tantos livros como agora, o que acontece porque ainda fomos educados a ver o livro como elemento fundamental da nossa educação e formação, associando a sua ausência à ausência de educação e formação. E é bom comprar um livro, levar o livro para casa, abri-lo, cheirá-lo, folheá-lo, passar os olhos por ele. Livro que se compra porque se ouviu, algures, falar nele, talvez até num jornal, porque se tem boas referências do autor, porque é um autor que já foi percebido como autor que se deve ter para se poder ter o que se considera dever ter.

Porém, depois de tudo isto, da parte bonita de tudo isto, vem o mais difícil: ter de os ler. O que não é impedimento para se falar nele, de sentir que se leu apenas pelo mágico poder da sua posse, ou até mesmo rejubilar por se encontrar alguém que também o tem e do qual também gosta, apesar de também não o ter lido. Sim, é perfeitamente possível duas pessoas conversarem sobre um livro, apenas porque o têm, apenas porque gostam da onda do autor ou só apenas porque o folhearam e sabem umas coisas sobre ele. É neste sentido que os livros se tornam cada vez mais cenotáfios. O cenotáfio é um túmulo que invoca uma pessoa que lá não está. Não está mas é como se estivesse, não deixando por isso de ser homenageada. É isso que os livros são cada vez mais numa estante. Estão lá mas apenas para invocar a sua ideia, o seu valor, a sua memória.

12 junho, 2018


Na feira do livro de Lisboa havia uma banca onde se encontrava Maria do Carmo Vieira com uma petição contra o acordo ortográfico. Apesar do meu cepticismo face a este tipo de iniciativas, a minha simpatia pela causa levou-me, sem hesitar, a assinar, enquanto íamos dando dois dedos de conversa. Fiquei perplexo com o empenho militante com que ela está envolvida nesta causa. Mas ainda mais fiquei, à despedida, pelo modo emocionado como manifestou a sua gratidão por eu ter assinado. Insisto quanto ao meu cepticismo, que não é defeito mas feitio, nem tendo já sequer idade para o mudar. Mas que inveja! Inveja pelo entusiasmo e espírito militante de pessoas que saem à rua com fé e esperança, regressando todos os dias a casa com a consciência do dever cumprido, só parando quando, um dia, o coração deixar definitivamente de bater. Eu tenho simpatia por esta causa, como posso ter por outras. Coisa bem diferente é estar apaixonado e sentir o coração a bater mas isso já eu não sei o que é.


11 junho, 2018

O ROSTO E AS MÁSCARAS


Eis um momento descontraído e informal da tomada de posse do novo governo espanhol. Pretendo realçar o facto de estarem todos a rir, ou a sorrir mas, também, ou sobretudo, não o fazerem pelo mesmo motivo. Aquelas pessoas formam uma estrutura visual única, mas disseminadas em diversas partes como ilhas sem contacto entre si. Comecemos pelo lado esquerdo. Temos um grupo cujo centro é o rei onde a animação ou mesmo o espírito de paródia são inequívocos. À sua direita está uma mulher de casaco branco a rir enquanto conversa com outra cujo rosto não vemos. Pela posição do corpo e a direcção do olhar, percebe-se que o motivo por que ri nada tem que ver com o que faz rir o grupo anterior. Depois, mesmo na margem da fotografia, um homem ri, e percebe-se que a sua conversa também decorre sem qualquer ligação com as outras. Termino com o homem e a mulher em primeiro plano. Não estando a rir como os outros, as expressões e posição dos braços denunciam uma clara boa disposição resultante de uma descontraída troca de palavras.

Não se trata de uma mera coincidência. Se estivermos sentados num café, de certeza que iremos observar pessoas com expressões completamente diferentes. Numa mesa veremos pessoas divertidas, noutra mesmo ao lado já veremos outras conversando com ar sério, fazendo de cada mesa uma unidade básica sem qualquer ligação com as outras. Mas não é isso que acontece nas quatro unidades desta imagem. E não acontece por se tratar de uma fase da cerimónia que impele as pessoas para a alegria e descontracção, ao contrário do momento mais formal e solene em que todos devem estar com ar grave e sério. Porém, não há nada escrito que obrigue as pessoas a dizerem piadas ou a puxar assuntos que permitam uma alegre empatia entre si. Por que razão tal acontece?

Há um texto das Notas Contemporâneas, intitulado A Decadência do Riso, no qual Eça lamenta a traição do seu tempo ao famoso mandamento de Rabelais «Riam, riam, porque rir é o que é próprio do homem!». Mostra pois a sua revolta face a um tempo sorumbático cuja melancolia romântica surge em claro contraste com a primaveril alegria renascentista e barroca que, contrariou as «soturnas torres feudais» entretanto «abandonadas às corujas e aos fantasmas». Um tempo em que a humanidade entristeceu, em que se esqueceu da boa gargalhada, em que os filhos são educados a conter o riso porque associado à falta de juízo. Tudo isto por causa da civilização. De uma civilização que, ao contrário do que acontece com o selvagem africano, ainda capaz de rir com saudável energia e espontaneidade, obriga as pessoas à ordem, à regra, a uma seriedade política, social, artística, literária, tornando doloroso o acto de pensar.

Regressasse agora Eça à pátria e facilmente iria perceber o quanto as coisas mudaram. O provérbio segundo o qual mais vale cair em graça do que ser engraçado deu lugar a um facto evidente: é preciso ser engraçado para cair em graça. É muito provável que grande parte dos portugueses nunca tenha ouvido falar de Rabelais mas também não precisam para poderem vestir a sua camisola. O sentido de humor, rir, mostrar alegria, estar feliz e contente deixou de ser um estado reactivo, uma manifestação espontânea perante um dado estímulo particular, para se tornar num padrão de cultura que condiciona a relação com o mundo e com os outros. Hoje, quem não ri é um marginal, um auto-excluído do sistema convencional, alguém que resiste à pressão que impele as pessoas para a descontracção e ligeireza.

Daí o feliz relevo desta fotografia: um insignificante microcosmos mas que revela ao mesmo tempo o mesmo tipo de dinâmica estrutural que submete os indivíduos ao seu poder num contexto social mais vasto. Se um destes indivíduos, em vez de estar a rir ou simplesmente animado e descontraído, estivesse com o mesmo ar grave e sério apresentado no momento mais formal da tomada de posse, isso teria um significado político. Tudo na política são máscaras, sendo aquela uma simples continuação das relações sociais vulgares, apenas com a diferença de ver os seus comportamentos mais sufragados publicamente. Quem disse que o estruturalismo está morto?

10 junho, 2018

NIETZSCHE PARA PRINCIPIANTES


Ontem, no parque da cidade do Porto, durante o concerto de Nick Cave, chovia. E o cantor pediu para que continuasse a chover.



09 junho, 2018

Há uma zona da feira do livro de Lisboa em cujos pavilhões se encontram alfarrabistas. Ver por ali todos aqueles livros no meio de uma feira cada vez mais moderna, vibrante e cheia de atractivos, não deixa de provocar uma certa melancolia. Livros que já foram frescas novidades, best sellers que faziam parte de qualquer biblioteca pessoal durante os anos 40, 50, 60, 70 ou até 80, e anunciados com pompa e circunstância, estão agora ali como obsoletas velharias que só interessam mesmo a coleccionadores imbuídos de um certo romantismo arqueológico. A questão é acontecer o mesmo na parte moderna, vibrante e atractiva da feira. A grande maioria daqueles milhares livros vai passar mais rapidamente à história do que passaram os anteriores, esmagados pelo peso das recentes novidades, como no quadro de Bruegel em que peixes vão engolindo outros peixes que, por sua vez, comem outros peixes. Há qualquer coisa de mórbido em todo aquele sonoro colorido no meio de uma cidade onde não se consegue parar de editar mas onde também dificilmente se consegue parar para ler.