28 junho, 2017

O QUADRO MAIS FEIO DO MUNDO


Acabo de eleger este quadro como o mais feio do mundo. Pronto, estas coisas valem o que valem, haverá certamente muitos quadros tão feios como este mas algum teria que ficar. O meu problema agora é a dificuldade em explicar por que razão este quadro é feio, num mundo onde haverá muita gente que o apreciará e do qual até gostaria de ter uma reprodução na parede da sala. Será o tema, um homem e uma mulher, aristocratas ou burgueses, beijando-se num jardim? Não, o que não falta na arte são belos quadros de homens e mulheres aristocratas ou burgueses em jardins, beijando-se ou não. Serão as cores? Mas nós vamos encontrar estas mesmíssimas cores em grandes quadros, clássicos ou modernos. Será o modo como o pincel desfigura ou distorce as figuras, criando apenas uma vaga impressão? Mas isso seria destruir parte da riqueza do Impressionismo. Também não me parece haver aqui nada de especial com a luz de modo a vermos nela a chave para a absoluta fealdade deste quadro. Eis, portanto, uma tarefa tão complicada perante uma realidade que, sendo apenas feita de desenhos, cores e luz, parece ser de uma enorme simplicidade.

Talvez o rosto humano nos possa dar uma ajuda. Um rosto é muito simples, feito apenas de boca, nariz, dois olhos e uma testa, num fundo de carne, osso e pele. Como explicar então haver rostos que vão desde o muito bonito ao muito feio, passando por outros que são apenas bonitos ou apenas feios, e outros ainda que nem são bonitos nem feios? Apenas uma boca, um nariz, dois olhos e uma testa em comum, porém, que tremendas diferenças. Haverá ainda pessoas que passaram de um rosto bonito para um rosto feio e outras de um rosto feio para um rosto bonito. Podemos dizer que há uma explicação objectiva para isso. A pessoa X tinha um rosto bonito mas engordou bastante e ficou feia. Ou o contrário, a pessoa Y tinha um rosto bonito mas emagreceu muito. Mas não resulta. Há pessoas bonitas e feias com rostos magros, pessoas bonitas e feias com rostos redondos ou cheios. E haverá mesmo pessoas que, ao contrário da pessoa X, se tornaram mais bonitas porque  o rosto ganhou volume ou ao contrário da pessoa Y, se tornaram mais bonitas porque o perdeu.

Será possível invocar regras que determinem de um modo objectivo os diferentes resultados? Façamos o seguinte exercício. Estamos com duas imagens à frente, uma com um rosto bonito, outra com um rosto feio. Uma pessoa, que não está a vê-las, pede-nos para explicar por que é um dos rostos bonitos e o outro feio. Nós olhamos para as duas bocas, os dois narizes, os quatro olhos, as duas testas em duas superfícies de carne, osso e pele e no caso de não haver deformações, desvios ou desproporções demasiado óbvias, não me parece provável encontrar uma explicação objectiva baseada em conceitos e regras. Apenas a visão dos dois rostos permite compreender por que é um bonito e o outro feio, tal como um sabor bom e um sabor mau, um cheiro bom ou um cheiro mau, que só podem  ser entendidos se experienciados, nunca através de conceitos ou descrições verbais. E mesmo olhando para a boca, para o nariz, para os olhos e para todos os pormenores do rosto, individualmente, podemos não ver nada de errado. Boca normal, nariz normal, olhos  normais. O que resulta errado é a específica combinação entre eles que resultou mal. Bastaria colocar o nariz de outra pessoa por cima daquela boca e o resultado já poderia ser diferente. Ou então aquele mesmo nariz sofrer uma pequena alteração para logo dar origem a um rosto esteticamente mais depurado, aliás, tal como também num sabor ou num cheiro.


Ora, o que se passa com a pintura pode ser da mesma natureza. Se começarmos a desconstruir este quadro, separando os seus elementos que assim ficam descontextualizados, não haverá nada de especialmente errado nele. O que está errado é a maneira como todos os seus elementos particulares se conjugam no todo, dando origem a este verdadeiro crime de lesa-arte. As duas figuras e o carro, por estranho que possa parecer, não estão necessariamente erradas, o que está errado é a sua escala. Pensemos, por exemplo, no Boulevard des Capucines pintado por Monet ou no Boulevard de Montmartre à noite pintado por Pissarro. Se o casal e o carro fossem proporcionalmente enquadrados naqueles dois quadros, o efeito resultaria completamente diferente. Já aqui enchem o quadro de uma maneira que resulta esteticamente assassina. As duas figuras humanas quase a metade direita, o carro quase toda a metade esquerda. É verdade que existem quadros onde figuras humanas a beijarem-se ocupam uma área considerável da tela e são belos. O quadro de Klimt é disso um bom exemplo. Mas tal acontece porque as cores são outras, as roupas são outras, a espacialidade é outra, o fundo outra, havendo porém alguns destes elementos que noutro quadro poderiam contribuir para o desvirtuar. Se as cores fossem combinadas de outro modo ou com alguma variação dos seus matizes, assim como  a forma da qual resulta a construção da espacialidade do quadro, também o resultado poderia ser bem diferente. Por incrível que pareça, há pequenas manchas cromáticas comuns aos dois quadros (aliás, todas as cores do quadro horrível podem ser encontradas em belos quadros), a grande diferença está no modo como são combinadas, na sua escala e nos seus matizes. A diferença é que nos quadros de Klimt, Monet e Pissarro está tudo certo, enquanto neste está tudo absolutamente errado. Também na música é possível tornar as sonatas Für Elise e Mondschein de Beethoven em versões musicais deste quadro, se cantadas por Marco Paulo, acompanhado por guitarras, órgão, bateria, saxofone os mesmos instrumentos que estão na base de grandes composições no Rock, no Jazz, nos Blues. Ou seja, a música perfeita mas para um piano, os instrumentos perfeitos mas não para sonatas de Beethoven. O efeito estético resulta assim de um jogo onde as diferentes partes se combinam livremente, sendo determinantes pequenas variações e conjugações que, como num rosto, se forem as correctas terão um efeito estético agradável, se incorrectas deitarão tudo a perder. Neste quadro, tudo, mas mesmo tudo, foi deitado a perder.

27 junho, 2017

ENTRE MONGES

John Malmin

Hoje, vigilância no exame de Geometria Descritiva: 3 horas, ou seja, 180 minutos, ou seja, dois jogos de futebol seguidos, mas sem golos, sem defesas para a fotografia, jogadas espectaculares, lances polémicos, apenas a colectiva e laboriosa quietude de um scriptorium medieval. Geometria Descritiva, o terror das vigilâncias, o exame que ninguém quer, que todos temem, o cobrador de fraque das vigilâncias que, sinistro, nos toca no ombro, quando sai a escala de serviço. Eu, pelo contrário, gosto do serviço de vigilância de exames e o de Geometria Descritiva apenas faz com que esteja ainda mais meia hora em absoluto e sereno silêncio, vendo o tempo passar em câmara lenta, vagaroso, tranquilo, como o correr da água numa velha clepsidra. Eu tive sempre um grande fascínio pelos velhos estilitas como o velho Simão, apropriadamente chamado Estilita. Claro que é uma grande parvoíce comparar as duas coisas mas também há algo na vigilância de um exame de Geometria Descritiva, onde não podemos falar nem ouvir, onde não podemos sair e onde o tempo estica como um elástico, que me lembra aquela quietude e solidão de quem paira sobre o mundo e o fremente quotidiano. A razão pela qual os professores detestam o serviço de exames é precisamente a mesma por que eu goste dele. Eu até gosto de ser professor e de ensinar mas chegar a esta altura do ano e poder estar apenas ali, mudo, como um monge, apenas para me aprender, é sempre uma maneira de terminar o ano lectivo numa espiritual beleza e harmonia. E se o destino está cheio de coincidências, não pequena será a de a Geometria Descritiva ter sido criada por um Monge. Monge de nome, não monge no sentido religioso, o que faz com que seja completamente irrelevante para exprimir o monástico prazer da minha vigilância. Até porque se ele não era monge, eu cá também não o sou. Mas que lá tem a sua graça, lá isso tem.  

26 junho, 2017

ACORDAI

Elliott Erwitt

Dizer que se deve defender um acordo ainda que ele seja imperfeito, é de uma enorme redundância. Um acordo é, por natureza, imperfeito. Se há um acordo é porque há desacordo, o qual não é apagado pelo acordo, acontece apenas que as partes se limitam a perder o menos possível. Um acordo será mesmo uma manifestação da imperfeição humana, da impossibilidade de todos os seres humanos perseguirem os mesmos fins e valores. Ainda assim uma imperfeição suportável e até mais do que isso, desejável. Leões e gazelas, esses é que jamais chegarão a um acordo.

25 junho, 2017

POR ESTE RIO ACIMA

Andrei Tarkovski | Nostalgia

Mais de quarenta anos depois, regressei a um lugar onde fui feliz. Ia algo apreensivo com o célebre aviso de Pavese na cabeça. Mas logo percebi que não havia motivo para isso. Há uma coisa que Pavese deixou passar: quem regressa a um lugar onde se foi feliz já não é a mesma pessoa que foi feliz nesse lugar. A pessoa que foi feliz não coincide com a pessoa que regressa, a primeira ainda não é a que virá a ser depois de lá ter sido, a segunda já não é a que foi. Como diria Heraclito, nós somos e não somos e mesmo a água onde nos voltamos a banhar já não é a mesma onde nos banhámos antes, o que faz com  que se regresse ao rio como se fosse uma primeira vez. Não há, portanto, repetição, nem como tragédia primeiro, nem como farsa depois. Apenas um novo capítulo de uma história que só acaba quando as águas do rio se dissolvem de vez no imenso oceano.

24 junho, 2017

REAL ESPOSENDE



Uma das características das emoções é a sua intensidade, a qual pode ter vários graus. O medo e a alegria são maiores em certas circunstâncias do que noutras conforme a causa dessa emoção. A tristeza pela morte de alguém querido é muito maior do que a tristeza por uma nota num teste abaixo do esperado. A alegria por saber que alguém querido se salvou de uma doença grave não é comparável à alegria por uma nota acima do esperado. E ainda que a expressão física de emoções com diferentes graus de intensidade possa ser semelhante (risos, choro de alegria ou tristeza, abraços), quem as sente por dentro percebe bem as diferenças.

Como explicar então a transbordante alegria dos jogadores do Esposende por conquistarem a Taça da AF Braga, um torneio dos humildes distritais? Repare-se nos sinais exteriores de alegria destes jogadores e comparemos com os sinais exteriores de alegria dos jogadores do Real Madrid ao vencerem a Liga dos Campeões. Fisicamente, não há qualquer diferença: os risos, os abraços, os gritos, os saltos, são os mesmos. Será então que por dentro a emoção já será proporcional à importância do troféu? Será que por dentro a alegria dos jogadores do Real Madrid é maior por terem a consciência do troféu que é, sendo a alegria dos jogadores do Esposende menor por se tratar apenas de um troféu dos distritais? Não. As emoções são exactamente as mesmas, a alegria é a mesma, o entusiasmo é o mesmo, a sensação de plenitude é a mesma. Do mesmo modo, a explosão de alegria de um jogador do distrital de Viseu que marca um golo decisivo no último minuto é igual à explosão de alegria de um jogador que joga na Bundesliga, na Premier League ou no Calcio e que marca um golo decisivo no último minuto.

Racionalmente, não faz sentido tamanha alegria num jogo distrital. Uma taça dos distritais tem pouco valor e a alegria por uma vitória deveria ser proporcional a essa importância. Tratar-se-á então de uma espécie de tacanhez, de um certo provincianismo emocional que torna grande o que é pequeno? Não. É verdade que se trata de uma alegria que resulta de um exercício de uma livre imaginação, exacerbando uma importância que, objectiva e racionalmente, não tem, ao contrário do que se passa com uma final da Liga dos Campeões. Mas também é verdade que importâncias relativas podem ser justamente transformadas em importâncias absolutas. Vejamos, ser ministro é mais importante do que ser presidente da câmara de uma terra como Torres Novas, ser engenheiro é socialmente mais reconhecido do que ser canalizador. Mas quando queremos avaliar o trabalho de um presidente de câmara ou de um canalizador não é com um ministro ou com um engenheiro que os iremos comparar mas com outros presidentes de câmara e outros canalizadores. Um ministro pode sentir-se orgulhoso por um excelente trabalho durante o seu mandato. Ora, o presidente de câmara jamais poderá sentir orgulho por esse tipo de trabalho pois não está ao seu alcance. Mas pode sentir exactamente o mesmo tipo de orgulho pelo que pôde fazer enquanto presidente de câmara. A sua importância é objectivamente relativa mas se ele alcançou o máximo do que poderia ter feito enquanto autarca então neste caso o seu orgulho pode ser subjectivamente absoluto. E com o canalizador a mesma coisa. O canalizador não tem de olhar para si e ver um não-engenheiro. Tem de olhar para si enquanto canalizador, e se for um bom canalizador, competente, solicitado pelo seu valor, o seu orgulho pode ser tão intenso como o do engenheiro que fez uma ponte mundialmente conhecida. As emoções têm a sua própria inteligência e razões que a própria razão desconhece. E parabéns ao Esposende pelo brilhante título conquistado.

22 junho, 2017

AS MOSCAS

Garry Winogrand

O Estado de Natureza enquanto estado de todos contra todos e no qual o mais forte anula o mais fraco, está longe de ser um estado de em que as pessoas se odeiam ferozmente, ou mais longe ainda de implicar um campo de batalha cheio de mortos e feridos espalhados pelo chão como em Austerlitz ou Estalinegrado. Mesmo esses não se odiavam, apenas sabiam que tinham de matar para não serem mortos. Bem disse Valéry que a guerra é um massacre entre pessoas que não se conhecem para proveito de pessoas que se conhecem mas não se massacram.

Do mesmo modo, como dirá Littell em As Benevolentes, que o bacilo de Koch não odeia a música de Pergolesi ou os textos de Kafka, ambos mortos por ele, e do mesmo modo que o médico que receita um antibiótico não odeia o bacilo, apenas deseja matá-lo, também o banqueiro ganancioso e o político corrupto não odeiam as milhares ou milhões de pessoas cujas vidas são prejudicadas com os seus actos ilícitos ou imorais. A vital necessidade de qualquer ser vivo aumentar a sua potência de agir é independente do amor e do ódio. O amor e o ódio implicam um conhecimento pessoal (um homem e uma mulher) ou abstracto (o racista, o terrorista que odeia cristãos ou o adepto do Benfica que odeia os do Porto). No Estado de Natureza, esse ódio não tem que existir pois o mais forte está apenas interessado no seu próprio bem e não no mal de outros que odeie. O mal dos outros é apenas um efeito secundário, uma consequência desagradável da perseguição do seu próprio bem.

A imoralidade económica, social e política é o resultado visível de uma doença narcísica que distrai a pessoa sobre si mesma, não de um conflito directo entre pessoas que se odeiam. Agora, os problemas de um país como Portugal, onde este Estado de Natureza se faz mais sentir do que em países mais evoluídos e civilizados, não se resolvem nos divãs dos psicanalistas. Resolvem-se com leis melhores. O problema é que as leis são feitas por pessoas e essas pessoas, em Portugal, chamam-se portugueses. E para esses poucos portugueses, todos os outros não passam de moscas que por aí esvoaçam e nas quais só verdadeiramente pensam quando os picam ou não os deixam ler tranquilamente o jornal. 

21 junho, 2017

IT'S BEEN A HARD DAY'S NIGHT


Naquele ainda bom pedaço de tempo entre o preenchimento do cabeçalho e o início do exame, em vez de estarmos a olhar para o tecto enquanto se espera pelo sr. Godot, que desta vez há-de vir, meto sempre alguma conversa com os alunos para desanuviar um bocadinho. Desta vez, vejo um aluno com uma T-shirt do Hard Rock Cafe de Cracóvia e resolvo iniciar as hostilidades, Então, já vi que andou por Cracóvia, e que tal? Sim, andei, gostei bastante, tal e tal. Acto contínuo, pergunto se também foi a Auschwitz, e ele, claro, sim, foi também a Auschwitz. Eu não sou bruxo mas há muito que percebi que Auschwitz, apesar de distar 80 quilómetros, faz parte de um todo onde entra Cracóvia e Birkenau, formando um pacote assim do género Paris-Eurodisney-Versalhes, Viena-Praga-Budapeste, Lisboa-Sintra-Cascais. Um destes dias ainda hei-de ver um aluno com uma T-shirt de Auschwitz.

20 junho, 2017

PEDRÓGÃO GRANDE



Até aí tinha corrido tudo bem. Ao pôr o chapéu no cabide dos chapéus e o guarda-chuva no suporte para guarda-chuvas, pensava que se Deus não estava no Céu e se nem tudo estava bem na Terra, estava-se tão perto disso que não fazia diferença. Não tinha sequer o menor indício de um palpite, se é que me entendem, de haver à espreita, numa esquina, o amargo despertar, com um saco cheio de chumbo na mão, pronto para me rachar o occipital. P.G. Wodehouse, Época de Acasalamento

Bem sei que o momento não é para comédias. Mas no meio de tanta tristeza com o destino das vítimas, foi de um texto humorístico que me lembrei a respeito do horrível incêndio de Pedrógão Grande: Época de Acasalamento. P.G. Wodehouse é um daqueles humoristas que, na alegre companhia de Jerome ou de Waugh, é de certo modo herdeiro da espirituosa escrita de Oscar Wilde, ou indo mais a montante, de Sterne. O ambiente natural dos livros de Wodehouse é o da aristocracia rural inglesa com os seus pequenos castelos, apimentado com fleumáticos mordomos. Aliás, vale a pena conhecer Wodehouse nem que seja só para conhecer Jeeves, um mordomo que lê Espinosa e que é capaz de reagir a um terramoto de magnitude 8 na escala de Richter como a um chá que está demasiado quente, sendo apenas preciso deixar arrefecer um pouco. É precisamente para um desses aristocráticos castelinhos que povoam o countryside inglês, habitado por cinco tias e um sobrinho, que somos levados no referido romance. É de um diálogo entre duas dessas tias que retirei esta passagem:

- Onde é que está Mr. Wooster?
- Pois é - interveio a tia de óculos. - Devia ter chegado esta tarde e nem sequer enviou um telegrama.
- Deve ser  um jovem bastante imprevisível.

Considerar alguém «imprevisível» não é nada de especial. No caso, porém, de conseguirmos entrar na cabeça bem mobilada de uma aristocrata inglesa cheia de 9 horas e chá das 5, percebemos que considerar alguém imprevisível não anda longe de uma maldição, de um desprezo por quem sai dos eixos de um mundo onde reina uma ordem absoluta, da qual não se pode fugir um milímetro sem cair no perigo de se tornar num feroz anarquista. Ora, assunto que se tem discutido muito nos últimos dias é a previsibilidade ou não previsibilidade das condições meteorológicas nos dramáticos dias do Pedrógão Grande. Há quem diga que não, que tudo aconteceu devido a um conjunto de condições naturais excepcionais, não havendo por isso capacidade de resposta adequada. Mas também há quem diga que, apesar disso, ou seja, condições anormais, muita coisa continua a falhar. Em que ficamos?

Ora bem, quem pensa que um acidente se deve sempre e necessariamente a um erro humano, padece de um optimismo fanático face aos desígnios da natureza humana. Acredita que se aprendermos a pôr sempre o chapéu no cabide dos chapéus e o guarda-chuva no suporte dos guarda-chuvas, a vida não apresentará grandes surpresas. Nesta linha de pensamento encontramos os revolucionários franceses do século XVIII, os socialistas científicos e positivistas do século XIX ou até mesmo uma mentalidade tecnocientífica já muito século XX. Era o tal mundo ordenado de que falava Stefen Zweig antes de surgir aquele dia de Verão de 1914 em que os europeus começaram a rachar os occipitais uns dos outros. Quem pensa assim não vê bem a coisa pois por muito racionalmente, cientificamente, tecnologicamente, que se organize a vida e a sociedade, há sempre um tijolo que cai em cima da cabeça de alguém que está no sítio errado e à hora errada. E enquanto formos humanos as coisas serão assim. No aristocrático mundo rural britânico o chá pode ser sempre servido da mesma maneira e à mesma hora mas a vida é muito mais labiríntica do que, e por muitas divisões que tenha, um vetusto castelinho inglês. E isso faz entrar a «desordem da imprevisibilidade» nas nossas vidas. Parece que as chamas de Pedrógão Grande faziam parte desta desordem e, quando assim é, o resultado só poderia ser terrível, fosse aqui, nos Estados Unidos, no sul de França ou na Austrália, como aliás tem acontecido.

Se a natureza, que com as suas leis que a tornam tão previsível, tem as suas imprevisibilidades, já os seres humanos, que têm tanto de imprevisível, têm as suas previsibilidades. E os portugueses especialmente as suas. Suas tão suas que cada vez me convenço mais que fazem parte do seu atávico património genético. Em matéria de incêndios, chega a ser verdadeiramente chocante a previsível previsibilidade dos portugueses. É verdade que não se pode fazer tudo para anular o imprevisível mas também é verdade que há muita coisa que não é feita para tornar mais imprevisível a previsibilidade dos incêndios em Portugal. Pedrogão Grande pode ser uma daquelas anormalidades que de tempos a tempos assolam a normal vida das pessoas. É assim na natureza como é assim na história e quando o vulcão chega a certo ponto já será difícil contê-lo. Mas se o imprevisível fogo já lá vai, virão agora de seguida os previsíveis de todos os anos e que já fazem parte do nosso quotidiano como o chá das 5 num castelo inglês. Só que ao contrário do que esperam as tias do castelo inglês, seria bom sermos verdadeiramente surpreendidos com imprevisíveis medidas que tornassem os previsíveis incêndios da época de Verão. alguns dos quais irão ser igualmente terríveis, um bocadinho menos previsíveis. Mas isso é coisa que, previsivelmente, claro está, não se vê e, previsivelmente, não se vai ver. Se os chapéus estivessem mesmo colocados no cabide dos chapéus e os guarda-chuvas no suporte para guarda-chuvas, iríamos continuar a ter occipitais rachados mas seriam, certamente e previsivelmente. muito menos.

P.S. Excelente crónica, a de António Guerreiro, hoje, no Público.


19 junho, 2017

CONTINENTE


«Nem sempre a Utopia foi uma ilha. Chamava-se outrora Abraxa e estava ligada ao continente; Utopos apoderou-se dela e deu-lhe o seu nome. Este conquistador teve génio bastante para humanizar uma população grosseira e selvagem e formar dela um povo que hoje ultrapassa em civilização todos os outros. Logo que pela vitória se tornou senhor do país, mandou cortar um istmo que o ligava ao continente, e a terra de Abraxa tornou-se deste modo a ilha da Utopia» Thomas More, A Utopia

Passagens como esta devem ter dado a volta à cabeça de muito boa e intencionada gente. A ideia de utopia está intrinsecamente ligada à ideia de ilha. Se não geograficamente, pelo menos simbolicamente. O muro de Berlim está todo nesta passagem de Thomas More assim como o enclausuramento de Portugal durante o salazarismo ou na actual Coreia do Norte. Apesar das diferenças, um traço comum: o desejo de criar artificialmente um tipo de humanidade de acordo com um projecto, preservando essa humanidade de nefastos contágios vindos do exterior que possam pôr em risco o sucesso desse projecto.

A história mais recente tem, felizmente, religado continentes que, durante anos, foram ilhas. Ora, um dos problemas do mundo actual já não é o de saber como reconstruir os istmos de outrora e, desse modo, fugir ao claustrofóbico pesadelo da ilha e do mare clausum. O grande problema é o mare liberum e a possibilidade que todos temos de estar em todo o lado e ao mesmo tempo. O mundo aberto e livre é bem mais difícil do que um mundo fechado no qual as pessoas vivem de acordo com alucinados projectos ideológicos. Num mundo fechado, perfeitamente fechado, todos sabemos o lugar que devemos ocupar, o Deus em que devemos acreditar ou estamos proibidos de acreditar, o que é o bem e o mal, o que representa ser feliz ou infeliz, ou o político que devemos admirar e seguir, ainda que sem ser no Twitter ou no Facebook.

E num mundo aberto? Como viver quando temos pela frente, não os contornos nítidos de uma ilha na qual ninguém se perde, mas uma imensa superfície continental na qual, como no deserto, nem sempre é fácil distinguir o norte do sul e o oeste do este? As cidades, os países, as culturas deixaram de ser ilhas. A partir de aqui, temos duas possibilidades. Ou fazemos como Utopos, e cortamos os istmos que nos ligam aos continentes, tentando desse modo cada cultura salvaguardar a sua identidade pura, ou então só temos mesmo que aprender a viver num continente comum no qual somos todos vizinhos. A última opção parece-me não só mais sensata como também inevitável.

14 junho, 2017

BEING THERE?!

Being There [fotograma]

Dizia Kant que conceitos sem intuições são vazios e que  intuições sem conceitos são cegas. Ou seja, os conceitos precisam de intuições e as intuições de conceitos como de pão para a boca, do mesmo modo que tanto um pão sem boca como uma boca sem pão também não valem grande coisa. Quando se juntam, então sim, pode chegar-se a resultados interessantes. O contexto será outro, é verdade, mas é legítimo questionar o que raio se pode esperar de políticos, sobretudo os que têm maiores responsabilidades, que juntam os seus confrangedores conceitos vazios às suas cegas intuições? Por natureza, estou muito longe de ser um pessimista mas neste caso dever-se-á sempre temer o pior.

13 junho, 2017

CLONAGEM

Magritte | Golconda

Não entendo por que razão, quando se fala de clonagem humana, aparecem sempre umas pessoas eivadas de espírito humanitário e com ataques de pânico por acharem que isso iria pôr em perigo a liberdade humana e a consciência individual. Perguntem a 10 milhões de portugueses o que fariam se lhes saísse o Euromilhões. O que fazem numa terça-feira à noite. O que pensam da vida. Ou o que fariam se tivessem na mão a lâmpada de Aladino. Numa época em que se vive obcecado com as estatísticas e as sondagens e em que há tantas respostas massificadas, acho estranho falarem apocalipticamente nos perigos da clonagem, quando esta é, há muito, uma evidência sociológica.

12 junho, 2017

PEEP SHOW

Eva Rubinstein

Há diferença entre o orgulho e a vaidade? Há. O orgulho resulta de um estado de satisfação interna por ser bom ou por alguma coisa que se fez de bom. É aquilo que agora, algo pindericamente, se designa por auto-estima. Eu detesto a palavra auto-estima, uma palavra vaga que apenas me daria jeito se eu agora abrisse um stand de automóveis para uma clientela hipster. Gosto mais de orgulho e é bom haver pessoas orgulhosas, pelo que são ou por algo que tenham feito. O orgulho é produtivo, mobilizador, pragmático, fazendo das boas acções os espelhos onde uma pessoa se vê para legitimar esse orgulho. A vaidade é completamente diferente. Significa deixar de se reconhecer numa acção ou num objecto resultante dessa acção, para se ver com os olhos dos outros, transformados em espelho, num exercício de submissão. Daí, algo paradoxalmente, a vaidade implicar um esquecimento de si: a pessoa vaidosa está tão centrada no olhos dos outros que acaba por se diluir neles. Robinson Crusoe, na sua ilha, pode sentir-se orgulhoso por ter conseguido sobreviver, estando numa luta permanente pelo seu próprio reconhecimento mas, sozinho, jamais conseguiria ser vaidoso pois não teria olhos à sua volta para alimentar a sua vaidade, podendo assim concentrar-se no que o faz ser bom e melhorar a sua vida na ilha. Parece-me que uma doentia vaidade está cada vez mais a ultrapassar um saudável orgulho, transformando o mundo num peep show cheio de janelas direccionadas para um centro vazio. Os herdeiros de Narciso, que se perde no rio no momento em que se quer possuir, também se esvaem, só que nos mil olhos de quem está do lado de lá.

11 junho, 2017

INOCÊNCIA

Joseph Caraud

Recuemos no tempo. Por exemplo, 1843, 1865 ou 1872, enfim, um qualquer ano do século XIX. Numa sala, num jardim, num quarto, depois do chá, uma criada levanta a mesa e, já na cozinha, ao retirar a loiça da bandeja, deixa cair uma chávena que logo se estilhaça no chão. Nada de importante, apenas uma chávena. A mulher não sabe, nem nunca virá a saber, que acaba de partir uma chávena do século XIX.

09 junho, 2017

PRAIÓPTICO

Weegee | Coney Island, 1940

Logo na sua capa, informa a revista Sábado que «Nutricionistas e personal trainers sugerem regras de ouro da alimentação e do exercício físico para conseguir um corpo de praia». Eu bem sei que são escassos os meus conhecimentos na área da biopolítica mas não deixo de ficar surpreendido com a evolução conceptual que nos leva do já clássico «Corpo Danone» a este mais moderno «Corpo de Praia».

O «Corpo Danone», apesar da sua natureza estética, está ainda marcado por um despotismo higiénico e gastronómico com a sua ideologia da pureza, da saúde, do bem-estar, do equilíbrio, da leveza. Uma ideologia cuja máxima expressão simbólica é passar com a mão pela barriga e sentir que nada de impuro existe no seu interior, nada das máculas primitivas que sustentaram a humanidade desde os primórdios. Uma espécie de barriga inorgânica, sem biologia, sem química, apenas um vácuo celeste que faz a mulher moderna sentir-se hiperleve e viver como se levitasse. Com o «Corpo Danone» gosta-se da imagem que o espelho devolve mas não menos importante é a felicidade resultante do que se pressente no seu interior. Daí que no programa «Corpo Danone» ainda haja um certo desígnio filosófico de raiz estóico-epicurista.

O «Corpo de Praia» é mais radical. Claro que o «Corpo de Praia» pressupõe o «Corpo Danone» com as suas regras de ouro da alimentação e do exercício físico dadas por nutricionistas e personal trainers como as tábuas dos mandamentos a Moisés. Acontece que a saúde do «Corpo Danone» é aqui apenas um efeito inevitável de quem almeja o «Corpo de Praia». Por exemplo, uma pessoa que deseja um belo bronzeado precisa de se expor ao Sol nas horas em que este é mais simpático. Ora, ao expor-se ao Sol, beneficia das suas generosas doses de Vitamina D, ainda que não fosse esse o objectivo. Eis o que se passa também com a alimentação saudável e o exercício físico como condições para o «Corpo de Praia». O seu único fim é a conquista de uma criteriosa visibilidade tal como uma obra de arte que precisa de reunir certas condições para ser aceite numa exigente galeria. Neste sentido, a praia é povoada por dois tipos de corpo, com estatutos diferentes: os corpos na praia e os corpos de praia. Eu, com a minha barriga de cinquentão, e outras excrescências adiposas, se for à praia, sou um «corpo na praia», como serei também um corpo na esplanada, um corpo no jardim, um corpo numa palestra ou um corpo nesta cadeira onde estou sentado. Mas alguém com o seu «Corpo de Praia» não ocupa um espaço que lhe é exterior, descobre-se no seu próprio elemento, a praia. Um corpo na praia é como um castelo de madeira que uma criança leva para a praia para o pousar na areia. Está ali como poderia estar noutro sítio qualquer. Um «Corpo de Praia» já será como um castelo de areia feito pela mesma criança lá na praia. Ambos são castelos mas um pertence mais à praia do que o outro, sendo por isso um «castelo de praia» e não um castelo para estar no quarto ou no infantário.

O «Corpo de Praia», tal como acontece com o panóptico de Bentham, perde assim a sua espontaneidade, a sua naturalidade, a normalidade de um corpo feito para existir e agir sem ser observado ainda que o seja, natural e espontaneamente, entre pessoas que observam e são observadas no espaço público, para passar a ser um corpo institucionalizado com a ajuda «científica», «técnica», «especializada» de nutricionistas e personal trainers. Uma versão estética do jacobinismo anti-religioso e republicano que tem mostrado as suas garras em França relativamente ao problema do burkini, querendo impor o que se é obrigado a vestir mas também o que se é obrigado a despir. Verdade que ninguém é obrigado a ter um «Corpo de Praia», ninguém vê o seu acesso à praia vedado por não o ter. Porém, não se tratando de uma questão formalmente política, legislativa, partidária, mais complexa e insidiosa se torna. Claro que não há qualquer mal em ter um «Corpo de Praia». Um «Corpo de Praia» não é outra coisa senão um corpo bonito e elegante, e o que não falta no mundo são pessoas como corpos bonitos e elegantes os quais existem com a mesma naturalidade com que existem pessoas com corpos que não são bonitos e elegantes, parecendo ainda normal que se pudéssemos todos escolher o corpo que nos estaria destinado tal como escolhemos a roupa que o redefine, iríamos todos escolher um corpo bonito e elegante, tal como escolheríamos ver ou ouvir bem e não ter dores nas costas em vez de ver ou ouvir mal e ter dores nas costas. O problema está simplesmente na institucionalização do «Corpo de Praia» com o seu controlo, a sua vigilância, a sua obsessiva idealização de acordo com normas das quais nos tornamos voluntariamente servos dentro dessa enorme prisão em que por vezes se torna a nossa consciência.

08 junho, 2017

DESEJO SEM ASAS


«... E finalmente supor que em vez de saber sempre tudo, poder dizer "ah", "oh" e "ai", em vez de "sim" e "amen"»  [Anjo para outro anjo no filme «As Asas do Desejo», Wim Wenders]

O que os anjos têm a mais, desejando ter menos é o que os seres humanos têm a menos, desejando ter mais, o que os anjos têm a menos, desejando ter mais é o que os seres humanos têm a mais, desejando ter menos.

06 junho, 2017

A LIVRARIA

Alfred Eisenstaedt

Casal de meia idade, ar turístico, de mão dada, em ritmo de caminhada. Por mero acaso, ela olha para o lado e resolve parar a marcha para observar melhor. Feita a observação, exclama então para o marido, com manifesto entusiasmo (em espanhol): "Esta livraria é conhecida!". Dito isto, quase automaticamente, posicionam-se de costas para a livraria conhecida, para ele, com a rapidez de um pistoleiro, sacar do telemóvel, esticar o braço e disparar perante dois sorrisos rasgados pela alegria de estarem mesmo em frente a uma livraria conhecida. Cumprido o objectivo, o marido volta a guardar o telemóvel e retomam a sua turística caminhada. A esta hora, no espaço virtual de uma qualquer rede social, já deverá estar imortalizada perante a parte da humanidade que escolheram para observar e aplaudir a sua heróica passagem pelo mundo, a sua histórica passagem pela livraria conhecida. É tão fácil ser feliz.

05 junho, 2017

ESTARÁ A MÚSICA CLÁSSICA FORA DE MODA?


«Estará a música clássica fora de moda?», questiona-se no último suplemento cultural do La Libre Belgique. A pergunta motiva-me dois comentários. 

Em primeiro lugar, a música clássica nunca esteve na moda, mesmo quando não existia o pop, o rock, o jazz, os blues, o pimba, a chamada música ligeira propriamente dita, o hip-hop, o techno e mais não sei quantos géneros ou sub-géneros cujos nomes não sei nem quero saber. Nada do que é propriamente erudito esteve alguma vez na moda, ou se esteve foi apenas fugaz e relativamente, e a chamada música clássica não é excepção. A esmagadora maioria da população europeia do tempo de Vivaldi, Bach, Beethoven, Chopin ou Mahler, nasceu, viveu e morreu sem nunca ter havido nada destes compositores. Mas não ouviram música, não dançaram? Sim, ouviram música e dançaram precisamente o que nos respectivos tempos equivaleria ao que hoje não é considerado clássico mas popular. E mesmo entre os consumidores de música erudita, há que ver o elemento social e pragmático da música, que para nós, hoje, é clássica e apenas nada mais que clássica, ligada a casamentos, baptizados, funerais, missas, festas, bailes, fogos de artifício, passeios de barco no Tamisa para deleite de Jorge I, ou eventos sociais onde a música serve de fundo ambiental para objectivos extra-musicais como o de ver e ser visto, seduzir e ser seduzido, a mesma função exercida pelo valor gastronómico de uma ementa num importante almoço de negócios, comparado com o que possa ser uma verdadeira e genuína experiência gastronómica. Sentar hoje 500 pessoas em frente a um palco, num fim de tarde ou depois de jantar, para, sossegadinhas e com ar de erudito deleite, ouvirem músicas que noutro tempo tinham uma função pragmática não permite uma comparação justa. É como apreciar na quieta vitrina de um museu um vestido que foi especialmente desenhado para ser visto a rodopiar durante uma dança. Neste sentido, a música clássica só pode mesmo estar fora de moda, como estaria na altura se lhe faltasse o elemento pragmático que lhe dava sentido. Como estará ainda fora de moda pelo facto de géneros musicais mais simples e populares se terem apropriado dos seus padrões melódicos, tornando-se mais acessíveis para um ouvido moderno, seja para induzir emoções de alegria, seja para comoções dramáticas ou melancólicas. Aliás, o mesmo que faz a moda ao nível do vestuário, copiando-se muitas vezes padrões clássicos usados em serões palacianos para os adaptar à leveza moderna, incluindo fatos de banho para serem usados em praias e piscinas.

Em segundo lugar, e pensando agora num sentido menos lato de «música clássica», a pergunta parece-me falaciosa, aliás, como a esmagadora maioria das generalizações. Se me perguntarem se gosto de música clássica sinto-me metido numa armadilha conceptual muito maior do que me perguntarem se gosto de comer. Se eu disser que gosto de comer ninguém vai pensar que tenho de gostar de tudo que seja comestível. Mas se eu disser que gosto de música clássica isso já parece implicar que goste de tudo o que seja música clássica. E o mesmo se passa com o Jazz. Gostar de Jazz implica gostar ao mesmo tempo de Duke Ellington e de Sun Ra? Do Chic Corea «eléctrico» e do Chic Corea «acústico»? Do Miles Davis dos anos 60 e do Miles Davis dos anos 80? Há muitos anos, vinha eu a sair de um concerto de Cecil Taylor nos jardins da Gulbenkian, indo à minha frente o saudoso Luís Villas Boas. O homem ia furioso, indignado, revoltado, queixando-se da péssima propaganda para o Jazz que era ouvir o pianista norte-americano. Eu ia divertido sobretudo porque tinha gostado bastante do concerto. Ora, com a música clássica passa-se o mesmo. Gostar de música clássica não implica gostar de tudo que seja clássico só porque é clássico. Pode-se gostar especialmente de música barroca, o que não implica gostar de tudo que seja barroco. Pode-se gostar especialmente de Bach, o que também não implica gostar de tudo o que Bach tenha composto. Se a primeira experiência clássica de uma pessoa cujo ouvido está educado pela música ligeira for uma sinfonia de Bruckner, provavelmente irá rejeitar a música clássica. Se for a Marcha Turca, de Mozart, provavelmente irá gostar e aberta para continuar a explorar. Ou seja, mesmo na música clássica, haverá sempre composições mais conhecidas e populares do que outras, nem que seja pequenos excertos para a publicidade (como aconteceu há uns com Prokofiev no perfume Égoïste, da Chanel, excelente, diga-se), no cinema (Strauss no 2001 Odisseia no Espaço) ou para dar um toque kitsch em situações de elevada solenidade. Mas isso não significa que alguma vez passe a estar na moda. O que irá sempre haver é um grupo restrito (talvez cada vez mais restrito) de pessoas que privilegiam a chamada música clássica para satisfazer as suas necessidades de fruição musical. Mas isso será assim no futuro como já o era há 50 anos quando qualquer cantor popular espanhol, italiano ou francês ensombrava os maiores gigantes da música clássica. Daí a pergunta do suplemento belga me parecer, para além de falaciosa, desnecessária. Tal como os velhos cortes de alfaiate não irão superar a rapidez e facilidade do pronto-a-vestir, também o pronto-a-ouvir irá sempre ditar os gostos da moda ao longo das quatro estações.

04 junho, 2017

IDEALISMO TRANSCENDENTAL

Donata Wenders

Diz Minucius Felix, em Octavianus, capítulo 24: «Nenhum de vós pense que, antes de amar Deus, se deve conhecê-Lo». Santo Agostinho poderia dizer a mesma coisa. Aliás, disse-o, só que de outra maneira. Tal como S. Paulo, uns séculos antes. O que faz todo o sentido. Se as pessoas estivessem na expectativa de poder começar a amar Deus só depois de O conhecer, nunca chegariam a consegui-lo pois não se pode conhecer o que não existe. Mas pode-se amar o que não existe. Para conhecer, tem de haver um objecto que possa ser conhecido, uma vez que conhecer é necessariamente conhecer alguma coisa. Para amar, pode haver alguém que ame mas sem um verdadeiro objecto para ser amado pois, muitas vezes, mais do que amar um objecto, o que verdadeiramente se ama é a ideia de amor ou a ideia de amar. A religião não é excepção.

03 junho, 2017

FEIRA MEDIEVAL


Está a decorrer mais uma edição da Feira Medieval de Torres Novas. Saudoso das minhas aulas relativas a esse período,  e enquanto bom e bairrista torrejano que sou, resolvi também aderir ao evento. Transformei então o meu secular T2 num humilde mosteiro, pondo provisoriamente de lado as minhas profanas leituras para fazer esvoaçar o meu espírito entre a incontornável Imitatio Christi e medievalíssimos textos de Santo Anselmo, S. Tomás de Aquino e S. Boaventura. Morando numa zona alta da cidade e ainda para mais não num rés-de-chão, não num primeiro andar, não num segundo andar mas num já altivo terceiro andar, o itinerário da minha mente rumo ao espírito do tempo revela-se assaz facilitado. Naturalmente que estar na média idade também há-de ter o seu peso nesta minha versão da idade média. Tem tudo para correr bem até ao fim.

02 junho, 2017

A IDEOLOGIA INGLESA


Mesmo à minha frente, uma rapariga da qual provém um perfume ostensivamente barato e com uma blusa de alças bastante aberta atrás. Nas suas costas, tão portuguesas como as minhas, está desenhada uma famosa frase na língua de Shakespeare mas que não é de Shakespeare nem de alguém que escrevesse na língua de Shakespeare: «What doesn't kill you makes you stronger». Centro-me na frase que ocupa uma parte significativa das costas logo abaixo do pescoço e penso no Inglês não só como língua mas como uma ideologia. Pouco depois, quando já me preparava para pagar o saco de laranjas que levava na mão, fui ainda levado a pensar que talvez esteja mesmo certa aquela outra frase escrita na mesma língua em que foi originalmente escrita a frase tatuada nas costas da rapariga, segundo a qual a ideologia dominante é sempre a ideologia da classe dominante.

01 junho, 2017

A CRIANÇA E O ESPECTRO

Wang Ningde

Na biblioteca da escola, na mesa ao lado da minha, estão umas crianças a estudar. Oiço uma delas dizer que Marcello Caetano era o primeiro-ministro quando foi o 25 de Abril e, de repente, um momento verdadeiramente dickensiano: olho para elas, olho para dentro de mim, e reencontro um grupo a comemorar o 5 de Outubro de 1910 quando eu tinha a idade das crianças sentadas na mesa ao lado da minha.

25 maio, 2017

ROTERDÃO


Uma pessoa prepara-se para comer a sopa, prova, diz que está quente e espera um pouco. Parece uma contradição, pois sendo suposto comer a sopa quente não faz sentido parar de comê-la por ser assim que está. Sabemos, porém, que dizer que a sopa está quente, significa estar demasiado quente para ser comida. Uma coisa é o sentido de "quente" associado à natureza da sopa, outra é quando adquire um sentido pragmático, significando o facto de não se poder comê-la, tratando-se, portanto, já não de um juízo descritivo mas normativo. Quando era criança, dizer que umas calças estavam rotas tinha os dois sentidos. Umas calças rotas eram umas calças rotas mas também era o mesmo que dizer que já não se poderiam usar. Pensei ontem nisto ao reparar em várias alunas na sala de aula com as calças rotas, algumas delas, mais do que rotas, com rasgões que são verdadeiras crateras. Não foi só ontem que descobri a moda das calças rota e rasgadas mas o facto de estarem a fazer um teste tornou-me mais ocioso e consequentemente, mais elucubrativo.

Para todas aquelas raparigas, o sentido físico, ou descritivo, de "roto", não só não está pragmaticamente associado a uma impossibilidade de uso como, bem pelo contrário, aumenta ainda mais tal possibilidade, uma vez que é por estarem rotas que desejam usá-las. Entretanto, dei comigo a pensar no que faria se me desse para ir para a escola também com calças rotas ou enormes crateras. Eu detesto calças rotas e não consigo imaginar-me com elas vestidas. Mas se gostasse? Para já, antecipo um enorme sucesso entre os alunos, transformando-me rapidamente em herói. Acontece que entre professores, funcionários, pais dos alunos (enfim, não todos, pelo que posso constatar) e sociedade em geral, a recepção não iria ser favorável. Porém, não haveria nada de errado nisso uma vez que o sentido de "roto" ou "rasgado" deixou de significar uma normativa impossibilidade de uso para passar a ser um conceito de moda com o respectivo sentido estético. E tanto assim é, que numa sala de aula coexistem alunos com calças rotas e sem calças rotas, não enquanto estados normativamente contraditórios mas apenas esteticamente distintos, tal como usar sapatilhas ou sapatos de vela. 

Um certo dia, entrou na sala um aluno com uma T-shirt que tinha umas letras garrafais a dizer "FUCK YOU", servindo de lírica legenda a uma mão cujo dedo do meio surgia epicamente erguido, talvez movido pelo poder sugestivo da palavra. Eu não disse nada mas admito que não me senti confortável ao vê-lo na minha aula com aquela T-shirt. Só no fim me ocorreu a ideia de que não deveria tê-lo deixado entrar na aula naquela condição mas também fui pudicamente assolado pelo desconforto de usar a minha autoridade num tempo em que a liberdade individual e uma espécie de ideologia juvenil tem um valor quase sagrado. Porém, muito diferente de um código de vestuário sem qualquer carga moralmente ofensiva, ainda que discutível, sendo o mesmo princípio válido para mim enquanto professor. Mas uma coisa são os princípios, seja ao nível da lógica, da ontologia ou da moral, outra é a realidade. E a realidade diz-me o seguinte: eu posso gostar de calças rotas, tenho todo o direito de gostar de calças rotas, de gostar apenas de pessoas com calças rotas e de só comprar calças aos meus filhos se forem rotas. Sei ainda que os alunos iriam ficar entusiasmados por me verem de calças rotas. Mas a escola, sendo uma instituição, tem os seus próprios códigos (que, aliás, não são estáticos), os quais não se compadecem com a liberdade e o gosto pessoal de cada um dos seus elementos, o que me obrigaria a abdicar da minha liberdade para respeitar aquilo que são regras básicas do senso comum. Mas se a escola é uma instituição para quem lá trabalha, não deixa também de ser uma instituição para quem lá estuda, querendo isto dizer que se não faz sentido os professores irem trabalhar de calças rotas e rasgadas, também não o deveria fazer para quem vai estudar. Agora, que se fala tanto na ideia de "comunidade educativa" (conceito que, confesso, me dá voltas ao estômago), tal igualdade comunitária deveria ser levada mesmo a sério, impedindo de entrar na escola alunos que se vestem de uma maneira que não é permitida em praticamente todos os locais de trabalho.

24 maio, 2017

UNTER DEN LINDEN AO VIRAR DA ESQUINA

Unter den Linden, 1900

Há várias coisas de que não gosto em Torres Novas mas uma das que gosto é ser uma cidade que parece uma aldeia ou uma aldeia que parece uma cidade. Eu tenho um rio que não é o rio da minha aldeia mas tenho as tílias da rua da minha escola, agora, na Primavera, que me fazem não pensar em cidades que existem para além delas: Bath, Edimburgo, Berlim, Trieste, Baden Baden, Dubrovnik, S. Francisco, Quioto, Sydney, Buenos Aires ou Marraqueche. Passar todas as manhãs por baixo delas, respirando o seu aroma até entrar na escola, faz perceber que uma cidade está longe de ser apenas o lugar onde se trabalha e se dorme. Todas as cidades têm coisas que foram inventadas para a felicidade das pessoas que lá vivem. Na minha, tenho as tílias da avenida do sítio onde trabalho, que não fazem pensar em nada. Passar debaixo delas de manhã cedo, é só passar debaixo delas de manhã cedo. E isso é tudo.

23 maio, 2017

ABRAÃO EM MANCHESTER

Caravaggio

«Não confio em pessoas que sabem exactamente o que Deus quer que elas façam.» 

Susan B. Anthony (1820-1906)

22 maio, 2017

A ADVERSIDADE DOS PRELIMINARES


Estou com um problema que passo a explicar. Eu nunca gostei dos romances de José Saramago. Tentei ler vários, mas só com dois deles consegui chegar ao fim e com grande esforço e resistência. Acontece que, após mais uma tentativa, li recentemente um outro do qual não só gostei como gostei mesmo muito. Tanto, que fiquei logo com vontade de o reler e de o inscrever na lista dos "Meus livros". O problema agora é este: Saramago é umas das minhas literárias birras de estimação mas escreveu um dos livros que mais gostei de ler. Doravante, como posso dizer que não gosto de Saramago? Mas também como dizer que gosto quando, excepto aquele, só consegui terminar dois livros e mesmo assim foi o que foi?

Imaginemos agora uma pessoa que adora os Beatles, tem os seus discos todos e até posters no quarto. Entretanto, perguntando-lhe qual a sua canção preferida do grupo inglês, diz ser o Helter Skelter, aquela que o levou a apaixonar-se pelo grupo, a que ouve mais vezes, a que escolheria para levar para a ilha deserta num MP3 só com espaço para uma canção. Ora, quando pensamos nos Beatles não é propriamente essa canção que surge como exemplo paradigmático da sua música. Porém, é tão legitimamente parte dos Fab Four, como Yesterday, Hey Jude, Penny Lane ou Let it Be. Só mais uma situação: o meu carro preferido é o Porsche 911 Carrera e o roxo uma das cores com que mais embirro. Ora, como irei reagir se vir o meu carro preferido pintado de roxo? Gosto ou não gosto do carro? O que acontece no meu espírito é "Gosto, mas,,," ou então "Não gosto, mas...".

O imbróglio surge porque a realidade tem uma natureza intrinsecamente adversativa (há sempre um "mas") que deveria levar-nos a definir as coisas por propriedades, mais centrados em acidentes particulares do que em necessárias generalidades, mas somos constrangidos a pensar com etiquetas dicotómicas como "gosto/não gosto", "bom/mau", "bonito/feio", "útil/inútil. Porquê? Porque há 2500 anos que somos gregos, há 2500 anos que vamos alimentando a nossa necessidade de ordem, unidade e coerência e também sentido prático na maneira de percepcionar as coisas. Imaginemos um homem e uma mulher durante um jantar em que é suposto seduzirem-se por entre as velas acesas. Chegado o momento de falar de literatura para mostrarem que são muito cultos e inteligentes, ela pergunta com ar meio lânguido, meio desafiador: "E... Saramago? Gosta de Saramago?" Ora, se ele responder, entre tosses, "Bem...pois... sim...enfim...quer dizer...por um lado...mas por outro..." o mais certo é os níveis de estrogénio e progesterona da interlocutora irem por aí abaixo, tendo que elegantemente disfarçar um primeiro bocejo. Em tudo, as pessoas querem, exigem, precisam de um sim ou não inequívoco, de auto-estradas mentais que lhes dêem segurança e não de atalhos e veredas onde se podem perder.

Diz Umberto Eco, por acaso não num livro chamado Kant e o Ornitorrinco mas num outro chamado A Vertigem das Listas, que pensar por propriedades é próprio de uma cultura primitiva sem capacidade de elaborar abstracções e hierarquias de géneros e espécies ou então de uma cultura muito à frente que goste de pôr em causa  definições dadas como garantidas. Ora, nós nem somos primitivos, presos a uma lógica do concreto, com os olhos dispersos no meio da multiplicidade das coisas, nem gostamos de andar a baralhar definições ou a virar de pernas para o ar a nossa rígida estrutura mental. Gostamos de simplificar, de tornar tudo objectivo e rápido. No fundo, também somos movidos por uma espécie de testosterona ou progesterona mental que nos faz olhar para o pensamento adversativo como um excesso de preliminares sem fim à vista.

21 maio, 2017

O PARADIGMA ENCONTRADO

Richard Avedon

Diz-se que a Europa está velha e cansada, que perdeu a capacidade de sonhar, de se reinventar, de pensar utopicamente, sentindo-se no ar um "eclipse do messianismo", tanto religioso como político, que a leva a cair num cinzento torpor. Um bocadinho assim como aqueles velhos casais já sem nada para fazer ou dizer e que vão diariamente assistindo à sua própria decadência. Que a Europa está velha, disso não há qualquer dúvida, não devendo, porém, ser isso motivo de vergonha mas de orgulho. Já cansada me parece uma constatação francamente exagerada. Onde muitos vêem cansaço, rotina, apatia, ruas sem saída, eu consigo ver um enorme sucesso, a conquista de grandes resultados. Sonhar? Mas sonhar com quê? Com a democracia? Mas nós já temos a democracia. Com uma sociedade sem escravatura? Sem operários e camponeses miseráveis a viverem e bairros imundos? Com educação e saúde para todos? Com liberdade religiosa, de imprensa ou de opinião? Com a emancipação da mulher? Com direitos para as crianças e serem protegidas por lei? Com uma cultura acessível para todos, seja por decreto-lei ou pelo próprio desenvolvimento da tecnologia? Com sindicatos como parceiros sociais? Com um estado de Direito? Mas como sonhar com tudo isso se abrimos os olhos para a Europa e vemos tudo isso. Isso e muito mais coisas que ainda há 200 anos eram, então sim, do domínio dos sonhos mais cor-de-rosa.

O que acontece com a Europa (ou o chamado "Mundo Ocidental") é o seguinte. Nós descobrimos o paradigma certo. Não se trata de um acaso histórico, de uma moda, de um devaneio ideológico-filosófico em regime experimental, mas do modelo mais justo, mais progressista e mais resistente às adversidades. Não significa isto que esteja tudo bem com a nossa estimada democracia liberal, que não haja problemas para resolver e que, assim sendo, fecha-se a loja pois a história chegou ao fim. Em primeiro lugar, a história nunca chegará ao fim pois onde houver dois seres humanos (que não precisam de ser um senhor e um escravo), a história irá continuar e sempre de modo imprevisível. Depois, mesmo havendo erros, problemas por resolver, anomalias e perplexidades várias, parece ser dentro deste paradigma que queremos continuar a viver e encontrar as soluções, ainda que num país como o Brasil.

Já foram feitas revoluções para implementar novos paradigmas dentro dos quais se pudesse erradicar definitivamente os problemas, construindo uma sociedade acima do meramente possível e do princípio da realidade. Sim, foram, mas não vale a pena lembrar a desgraça que foi.  A nossa «política normal», pelo contrário, é mais humilde, limitada e geneticamente imperfeita, ao contrário de ideologias eugénicas que visavam sociedades perfeitas. Mas é a única com efectivo poder para gerir a realidade em função dos seus condicionalismos. Não é um projecto romântico? Não, não é. Excita torrentes e ímpetos ideológicos em libidinosas consciências? Também não. Faz-nos sentir no meio de uma daquelas extáticas subidas ao céu da pintura barroca? Nem pensar. Até por isso deveríamos não falar em cansaço, sentindo antes, em vez disso, uma orgulhosa, embora prudente serenidade. Os outros, esses sim, cansam-se depressa, nascendo e morrendo velozmente no meio dos seus destroços, enquanto a velha Europa, com ou sem  bengala, ou até mesmo com alguns tropeções que podem originar entorses. lá vai dando os seus passeios de domingo, sem ter de se preocupar muito com o que vai acontecer na segunda-feira de manhã.

20 maio, 2017

ALBRECHT DÜRER- CRISTO ENTRE OS DOUTORES


Lucas não nos diz grande coisa sobre o encontro de Jesus, ainda criança, com os doutores. Do que verdadeiramente interessa, apenas isto: “Volvidos três dias, encontraram-n’O no Templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos quantos O ouviam estavam estupefactos com a Sua inteligência e as Suas respostas”.

Ainda assim, como de resto em inúmeros episódios bíblicos breves, há muitas representações artísticas deste encontro, os quais se limitam a exprimir literalmente o sugerido no texto: um debate, uma conversa, uma discussão entre um jovem e um grupo de adultos. Mas o que Dürer faz é diferente: ninguém fala, discute, argumenta. Nada acontece, apenas uma amálgama de rostos e de mãos. Não há comunicação, interacção, perguntas, respostas. Jesus está bem no meio dos doutores mas, ao mesmo tempo, ausente, com um olhar evasivo. Os doutores, por sua vez, exprimem diferentes estados: desconfiança, perplexidade, arrogância. Mas nada de diálogo. Arriscaria dizer que, ao retratar os doutores, o pintor alemão estaria a pensar naqueles cães que encontram um outro e começam a farejá-lo para o estudar. O que os doutores fazem é apenas farejar aquele jovem imberbe, de olhar limpo e expressão inocente. Onde estão aqui as referências dadas por Lucas? Ninguém ouve ninguém. Jesus não faz perguntas, não responde, não revela a sua inteligência. O mesmo se passa com os doutores. Estará o pintor Dürer a deturpar ou desprezar grosseiramente o que se encontra em Lucas para fazer um exercício completamente livre?

Não, pelo contrário. O que Dürer pretende mostrar é o que verdadeiramente se passou naquele momento entre Jesus e os doutores: nada.  Ora, não mostrando nada do diálogo, do debate, das perguntas e respostas, acaba por mostrar o mais importante: dois níveis de realidade jamais coincidentes. Se pudéssemos geometrizar esta imagem, reduzi-la o mais possível a uma pura abstracção, em vez desta aglomeração de rostos iríamos ficar com duas linhas paralelas que, por muito próximas que se encontrassem, jamais se iriam encontrar. Jesus representaria uma linha, os doutores a outra linha, separadas até ao infinito. Frente a frente mas distantes, como dois países vizinhos mas cuja fronteira delimita claramente dois sistemas, duas línguas, duas culturas. Não há aqui qualquer diálogo entre Cristo e os doutores porque, apesar de Lucas sugerir um diálogo, Dürer entendeu, e muito bem, tal não existir. Ou haver apenas uma aparência de diálogo. Os doutores reflectem, pensam, estudam, analisam, tentam decidir, tomar opções. Têm nas suas tortuosas cabeças séculos de sabedoria que parece querer soltar-se dos livros entreabertos. Mas na cabeça daquele menino nada disso existe. Naquela cabeça sucedem-se apenas estranhas parábolas, metáforas cuja evidência reduz a pó todos aqueles quilos de sapiência e erudição.

Cristo não precisa de pensar. E não precisa de pensar pois, como muito bem entendeu Pascal que, por sinal também era matemático e, tal como aqueles doutores, possuía a sapiência própria do seu tempo, o coração tem as suas razões que a razão jamais entenderá. Pois, por muito que se esforce, a razão jamais entenderá o essencial, aquilo que só se compreende quando nada se quer explicar, pois o que melhor se compreende é precisamente o que não precisa de ser explicado. A simplicidade das metáforas e parábolas de Cristo só fazem sentido para os pobres de espírito que pensam com o coração. Os doutores são demasiado complicados, tortuosos e o reino deles não é o do límpido céu mas o pedregoso e sinuoso reino da Terra, no qual será sempre preciso pensar para se poder sobreviver e não se perder. No reino dos céus vive-se, no reino da Terra sobrevive-se. E quem vive num dos mundos nada terá para dizer a quem vive no outro, pois não existem dicionários para traduzir a língua do céu para quem vive na Terra, e a língua da Terra para quem vive no céu.

Eis, pois, porque nesta cena montada por Dürer, o verdadeiro ar que se respira é o silêncio, a incomunicabilidade. Se virmos bem, ainda há dois pares de mãos que se chegam a tocar, ou seja, há ali um vislumbre de contacto, de comunicação, de um pequeno e subtil diálogo gestual. Mas não passa de uma ilusão. Se virmos mesmo bem, percebemos que as mãos do menino estão mais em contacto entre si do que com as mãos do doutor. E as mãos do doutor, ao mesmo tempo que parecem caminhar para as mãos de Jesus, como se quisessem agarrá-las, acabam por falhar a aproximação. Até porque o doutor olha em frente. Como se nem desse sequer pela presença do jovem que ali se encontra. E  o mesmo acontece com todos os outros. Poderíamos cortar esta tela em sete partes distintas. E ficaria tudo na mesma. Poderia ser uma cena de um filme de Antonioni.

18 maio, 2017

CEGUEIRA LOGOCÊNTRICA

Alfredo Cunha

Nunca um católico me provocou, me criticou ou me tentou converter, mostrando qualquer tipo de superioridade face ao meu ateísmo. Dizendo isto, talvez pareça estranho eu vir agora dizer que compreendo aqueles que ridicularizam a fé e o sentimento religioso, sobretudo o de cariz mais popular. Mas compreendo e por duas razões. Uma delas é eu próprio já ter feito o mesmo. A segunda, ligada à primeira, por facilmente se cair na tentação de um sentimento de superioridade positivista, sustentado numa ligação entre a experiência e razão, a qual ilumina o mundo, tanto físico como humano, em oposição às trevas da crença, da superstição, da ignorância.

Compreendo mas não posso aceitar. É verdade que continuo a não perceber a fé e a relação com o sobrenatural mas percebo o seu valor e utilidade para milhões de pessoas, mesmo que vá contra a minha noção de verdade, já para não falar na liberdade de cada um em acreditar no que bem entender. Daí a minha visão crítica dos que criticam e atacam manifestações de fé, seja cristã, seja mais especificamente católica ou mais especificamente ainda mariana, ao mesmo tempo que são incapazes de atacar manifestações de fé em culturas sem qualquer ligação com a nossa. Alguém imagina um desses críticos, tentando, algures na Amazónia, no meio de uma tribo africana ou até mesmo numa viagem à Índia, Marrocos ou Irão, demover as pessoas das suas crenças e rituais? Não só não o fará como até poderá encarar com algum encanto etnográfico tais manifestações e tentando respeitar a sua cultura.

Como explicar então esta tolerância e compreensão face a tais manifestações de "ignorância" e "obscurantismo"? Ora, parecendo bonitas e nobres, não deixam de ser perversas. Nós toleramos a crença ou o ritual de um índio da Amazónia e não aceitamos a crença ou o ritual de um católico porque a nossa cultura é sentida como superior, encarando-se como mácula tudo o que ponha em causa tal superioridade. Já para o índio da Amazónia devemos olhar como se olha para uma criança que acredita no Pai Natal ou em fadas, aceitando-o com uma condescendência paternalista. Uma cegueira logocêntrica que não deixa ver o facto de haver fragilidades universais que, independentemente da cultura, estão na origem do mesmo tipo de crenças e necessidades às quais todos nós temos direito.

17 maio, 2017

O PODER DA REALIDADE



"When things move, I get interested" Garry Winogrand

Num excelente livro sobre Espinosa, o filósofo francês Gilles Deleuze apresenta-o como alguém que propõe um novo modelo: o corpo. "Não se sabe o que pode um corpo", eis a famosa frase da Ética, obra onde o corpo é pensado e valorizado de um modo como até então ainda não se tinha visto. E remata com Nietszche para mostrar todo um território que, embora debaixo dos nossos olhos, está ainda por explorar e valorizar: "Espantamo-nos diante da consciência, mas o que é surpreendente é, acima de tudo, o corpo". E pronto, chega de citações.

Estive a rever as fotografias de Garry Winogrand e sem querer lembrei-me de Espinosa. Neste caso, não para dizer que "não se sabe o que pode um corpo" mas para dizer que "não se sabe o que pode a realidade". Winogrand é um fotógrafo da rua, mas não da mesma rua, e só para dar alguns exemplos, de Doisneau ou Elliot Erwitt, irmãos na construção de um humor encenado, de Lewis Hine ou Dorothea Lange, Weegee, Walker Evans, fotógrafos que vão à procura de um tipo específico de actores sociais, ou de Cartier Bresson, Brassäi ou do nosso Gérard Castello Lopes, em cujas fotografias de rua encontramos, para além do "instante decisivo", uma indisfarçável depuração estética. É verdade que existe "instante decisivo" em Winogrand mas trata-se de um "instante decisivo"mais humilde, no sentido em que se dirige para um domínio ainda mais sub-atómico e invisível do real, um domínio que aparentemente não existe para ser visto.

Uma reacção imediata perante a sua fotografia poderá ser "Caramba, mas que raio há aqui de tão especial e digno de ser visto?", reacção normal por vermos apenas o que estamos habituados a ver, sendo escandalosamente familiares. Dará até vontade de dizer a clássica frase perante a simplicidade de muitas pinturas modernas: "Grande coisa, isto também eu fazia!". Mas as coisas são um pouquinho mais complicadas. Se qualquer pessoa sair para rua e começar a disparar a torto e direito, o resultado não será muito provavelmente interessante pois não basta fotografar o que aparece espontaneamente para que tal aconteça. Para que o "instante decisivo" aconteça, é precisa uma feliz e única conjugação de elementos, ainda que simples e aparentemente desinteressantes. Diz Winogrand que se interessa por tudo o que mexe. Mas há mexer e mexer. No seu caso, trata-se de registar momentos únicos, num espaço e tempos certos, impedindo a sua submersão na espuma dos dias. O que pode a realidade? Nunca se sabe o que pode a realidade. Julgamos conhecê-la mas estamos já tão viciados nela que deixamos de a ver. E o que o fotógrafo faz é precisamente obrigar-nos a ver o que já deixámos de ver e a fazer-nos sentir ainda espanto com o que pode a realidade, como seu infinito fluxo que torna inesgotável o seu poder. 

11 maio, 2017

O CHAPÉU DE CHUVA


Ontem telefonou-me o meu filho a pedir para ir buscá-lo à biblioteca, pois tinham-lhe roubado o chapéu de chuva e estava a chover torrencialmente. Pronto, não há crise, não passa de um chapéu, tive de sair de casa sem estar à espera mas é coisa que já lá vai. 

Já lá vai mas continua a interessar-me o que acontece na cabeça de uma pessoa no preciso momento em que está a roubar o chapéu de chuva de outra. O motivo não é difícil de perceber. Está a chover torrencialmente, a pessoa deseja (ou precisa mesmo) de sair da biblioteca, sabendo que, sem o chapéu de chuva irá ficar ensopada. Olha então para o recipiente repleto de chapéus de chuva que se encontra à saída e resolve pegar num para ir à sua vida, satisfazendo assim o seu desejo. Agora, há duas possibilidades. A primeira, é no momento em que rouba o chapéu estar tão concentrado em satisfazer o seu desejo que nem se apercebe de que por causa disso uma outra pessoa irá ficar sem poder satisfazer o seu, para já não falar no facto de o chapéu ser propriedade desta. A segunda, é ter consciência disso no momento em que rouba o chapéu.

Se for o caso desta segunda, o mais certo é ter acontecido o seguinte: vê uma multidão de chapéus no recipiente, sabe que os chapéus pertencem às pessoas com quem ele partilhou o mesmo espaço mas não relaciona o chapéu com a pessoa à qual pertence. Sabe que faz mal mas não sabe a quem está a fazer mal, o que facilita bastante a sua acção. Não significa isto que não ver o rosto da pessoa a quem se faz mal seja condição necessária para o fazer. As pessoas que apontam uma faca a outras para lhes exigir a carteira ou os carteiristas que no autocarro metem a mão no bolso das vítimas, sabem perfeitamente quem estão a roubar e não é por isso que deixam de o fazer. Quando o mal tem de se soltar, solta-se em qualquer circunstância e de qualquer maneira. Mas também é verdade que pessoas haverá que também só fazem o mal porque a vítima não passa de uma abstracção. Não meto as mãos no fogo por ninguém, mas sei que haverá pessoas que não iriam roubar o chapéu a alguém que tivesse estado sentado numa mesa em frente da sua durante várias horas, mas já o farão se o chapéu não tiver rosto, nome, voz, em suma, uma identidade.

Diz Adam Smith [The Theory of Moral Sentiments] que não dormiríamos toda a noite se soubéssemos que no dia seguinte iríamos perder o dedo mindinho . Porém, se houvesse um terramoto na China que engolisse 100 milhões de chineses, ficaríamos chocados mas, passado o choque, não seria coisa que nos tirasse o sono. O nosso dedo é o nosso dedo, 100 milhões de chineses são 100 milhões de chineses. A minha dor é real, vívida e afecta o meu bem-estar, enquanto 100 milhões de chineses não passam de uma vaga abstracção. Daí a pertinência do género de exercício feito por Balzac no Père Goriot ou por Eça em A Relíquia: se soubermos que, neste momento, a morte de um qualquer chinês lá na longínqua China nos iria resolver uma forte dor no dedo ou permitir ganhar milhões de euros, iríamos aceitá-lo? Muitas pessoas normais, isto é, pessoas incapazes de o fazer se vissem fotografias ou conhecessem pessoalmente o chinês que iria morrer, iriam aceitar. Sim, a morte de uma pessoa é uma tragédia mas a morte de milhões não passa de estatística. Ainda assim, há quem não se preocupe particularmente com essa distinção, desde que a tragédia de quem morre sirva os seus interesses e desejos. Porém, a maioria da humanidade é antes potencial cliente do perfil anterior. No caso de ontem, na biblioteca de Torres Novas, felizmente tratou-se apenas de um chapéu de chuva.

10 maio, 2017

A BLASFÉMIA


André Kertész

Blasfémia é coisa grave, sendo isso compreensível até para um ateu do descristianizado mundo ocidental que pode não se sentir ofendido mas compreende o facto de haver quem se sinta. Difícil de compreender já será uma acusação de blasfémia como esta, só por alguém considerar errada a interpretação de um versículo do Alcorão. Difícil, porque nos habituámos a ver o erro como estado normal de quem arrisca interpretar, explicar, pensar, entendidos como exercícios especulativos.

Uma pessoa defende a tese de que todos os cisnes são brancos. A partir daí, sempre que vê mais um cisne branco convence-se ainda mais que se trata de uma tese verdadeira. Observar o mundo torna-se assim num exercício de procura de mais e mais cisnes brancos que a confirmem. Vejamos agora outra pessoa que defende a mesma tese: todos os cisnes são brancos. Porém, sabe que observar mais um, dez, cem ou mil cisnes brancos não dá quaisquer garantias de que a tese seja verdadeira. Algures, poderão estar cisnes não brancos dos quais não há ainda registo. O que faz ele, então? Em vez de ir à procura de mais um cisne branco, que nada garante, vai fazer o possível para encontrar o cisne não branco, o qual, se for encontrado, dá-nos uma absoluta garantia: estávamos errados. Trata-se de um exercício auto-destrutivo ou masoquista? À primeira vista parece que sim, pois de acordo com o senso comum e uma intuição mais básica, quando alguém acredita numa coisa faz os possíveis para mostrar que tem razão. Neste caso, faz-se o contrário, a pessoa acredita que todos os cisnes são brancos mas depois vai tentar provar que está errado. A vantagem é inegável para quem procura a verdade: fazer com que as nossas ideias sejam postas à prova, fiscalizadas, confrontadas com critérios objectivos que estão acima das nossas crenças. Se estiverem erradas, deitamo-las fora, devendo nós ficar satisfeitos por nos livrarmos delas. Se resistirem às diferentes tentativas de falsificação isso pode ser um bom indicador, devendo assim continuar em cima da mesa, enquanto nada surja que as refute.

O que acabo de dizer é uma síntese muito rápida e elementar do falsificacionismo de Karl Popper, uma proposta de metodologia científica e não a identidade de uma cultura. Seria, pois, uma patetice dizer que este é o registo mais comum da nossa cultura ocidental. Mas é nesta mesma cultura ocidental, começando na Grécia Antiga, passando pela universidade medieval (muito mais estimulante do que nos quiseram convencer), continuando no nascimento da ciência moderna, dos diferentes iluminismos (vá, esqueçamos Robespierre, Marat, Lenine, Mao Tsé Tung ou Maria de Lurdes Rodrigues, esses filhos espúrios das Luzes) e mais tarde do pensamento liberal, que vamos encontrar a arte da discussão, do diálogo, do pensamento livre, de uma genuína procura da verdade, a qual inclui o erro como momento inevitável e até estimulante. Nós, europeus, somos filhos desta tradição, daí a nossa enorme estranheza perante aquela bárbara (tanto no velho sentido romano como no actual) acusação de blasfémia.

09 maio, 2017

DESOLADORA DOENÇA

Mimmo Jodice, Rosto de estátua, Erculano

«Que desoladora doença [fascheuse maladie] acreditar que estás tão certo que te convences a ti mesmo que ninguém pode pensar o contrário». Ensaios, Livro I, capítulo 56

Eu gosto de Montaigne. Lembra-me aquele Platão de vigor socrático a provocar sofistas sabichões, a juvenil frescura de uma dúvida metódica não contaminada por piruetas escolásticas que envelheceram Descartes. Não percebo por que razão se associa o cepticismo a crise. Eu associo o cepticismo a um eterno ponto de partida que nunca chega a um ponto de chegada. Isto não é crise. É viver de olhos sempre abertos.

08 maio, 2017

SELVAGENS E SENTIMENTAIS


As capas de hoje do Público e do Correio da Manhã formam uma estrutura geométrico-conceptual bastante interessante. A fotografia central do Correio da Manhã, em grande destaque, é dedicada à vitória do Benfica em Vila do Conde. No canto inferior esquerdo, quase despercebido, informa que Macron ganhou as presidenciais. A fotografia central do Público, em grande destaque, é dedicada à vitória de Macron nas presidenciais. No canto inferior esquerdo, quase despercebido, informa que o Benfica ganhou em Vila do Conde. 

Se um ser vivo inteligente e racional acabasse de chegar de outro planeta e a primeira coisa que visse fossem estas duas capas, iria ficar confuso sobre o sentido da realidade. Tal aconteceria por não saber que não se tratam apenas de dois jornais mas de dois jornais lidos por pessoas com interesses diferentes. Todavia, não estão condenadas a uma diferença radical. Muitos dos leitores do Público, ao irem ao futebol, transformam-se no que são os leitores do Correio da Manhã, tornando-se, como diria Javier Marías, selvagens e sentimentais. Os segundos, incluindo os leitores dos "Correios da Manhã" ingleses, alemães, italianos ou polacos, são mais desleais do que os primeiros. Quando se interessam por politica continuam a ser tão selvagens e sentimentais como o são num estádio de futebol. Tal pode ajudar a explicar a razão por que é perigoso o futebol mas também por que é a política ainda mais.

06 maio, 2017

FORA DE JOGO

Alfred Eisenstaedt

Acontece comigo e creio que acontecerá com a maioria das pessoas. Se estiver perante uma televisão com 500 canais e, por mero acaso, for parar a um jogo de futebol entre os 9º e 14º classificados do campeonato búlgaro, ou a um jogo de andebol entre duas equipas finlandesas de juvenis, irei considerar que não têm interesse absolutamente nenhum e mudo de canal ou desligo a televisão. Mas se por qualquer razão resolver continuar a ver qualquer um desses jogos, não serei capaz de o ver sem tomar partido por uma das equipas. Ao fim de dois minutos já estou a torcer pela minha equipa preferida, da qual nunca tinha sequer ouvido falar. Qual o critério? Podem ser muitos: gostar mais da cor da camisola, ter um nome mais simpático, achar o treinador com um ar simpático, ao contrário do do outro, com ar arrogante e cuja cara me faz lembrar um colega de trabalho que detesto, estar atrás na classificação e eu gostar de tomar partido pelos mais fracos. Enfim, a lista poderia continuar.

Há equipas portuguesas e estrangeiras cujas vitórias me põem contente e desiludido se perderem. Tal pode acontecer só porque calhou ter um dia passado numa cidade da qual gostei e onde fui muito bem tratado num restaurante. Eu gosto do Hannover 96 e do Werder Bremen porque tenho boas recordações de juventude dessas cidades. Não gosto do Bayern de Munique porque sempre me relacionei com alemães do norte, habituando-me a olhar para os do sul com um certo protestante e prussiano desdém. Eu gosto da selecção da Costa do Marfim só porque já lá tive família, recebi postais do país para a minha colecção, habituando-me a uma certa familiaridade com o nome "Côte d'Ivoire", ajudado talvez pelo facto de eu também me chamar "Costa". Desde que conheci um tipo do Mali que era uma jóia e simpatia de pessoa, que passei a olhar para o país de outro modo. Se o Mali jogar contra o Gana, a Zâmbia ou o Egipto, a minha escolha não irá ser difícil. Mas nem é preciso tal acontecer. Eu não tenho qualquer ligação à Holanda, Argentina, Uruguai, Suécia ou Argélia. Mas se houver jogos entre as suas selecções, irei sempre preferir umas a outras, vá-se lá saber no momento porquê. Quando era novo, num Holanda-Argentina torcia pela Holanda, hoje torcerei pela Argentina. Os países são os mesmos, tal como Benfica ou o Porto serão sempre os mesmos, independentemente das mudanças casuais que neles poderão ocorrer, para melhor ou pior.

Agora, o que se passa com isto é também muitas vezes o que se passa com as preferências políticas de grande parte das pessoas. Há pessoas politizadas e com uma consciência social e política consistente, sabendo bem porque preferem o partido ou candidato A em vez do partido ou candidato B. Porém, muito provavelmente não é isso que acontecerá com a maior parte das pessoas. Acontecerá com elas o mesmo que a mim quando vou parar a um canal onde passa um jogo entre os 9º e 14º classificados do campeonato húngaro: ou não querem saber e desligam, ou então tomarão partido pelos mais espúrios e elementares motivos.