15 dezembro, 2018





Tive a sorte de ter uma professora primária bastante religiosa, que nos contava histórias bíblicas em vez das injecções de cidadania que hoje os professores são obrigados a dar às crianças no seu papel de enfermeiros republicanos. Isso permitiu-me, não tendo eu qualquer contacto pessoal com a religião durante os meus primeiros anos de vida, perceber facilmente o assunto deste quadro quando vi pela primeira vez a sua reprodução: a torre de Babel. Situação impossível hoje, em que até a própria catequese serve para ver filmes cuja edificação moral não ponho, todavia, em causa. Talvez influenciado pela moral da história, associada à poderosa intervenção divina para punir o orgulho e ambição dos homens, lembro-me de ter ficado com a ideia de estar perante a representação de uma ruína, de um desolador cenário de abandono e destruição. Só muitos anos depois, já adulto, lendo sobre ele e vendo a imagem com atenção, percebi tratar-se da construção da torre e não da sua destruição. 

Para além de enorme cronista visual da sua época, Bruegel é um dos mais intelectualmente engenhosos e subtis pintores de todos os tempos. Escondidos no meio da esmagadora beleza de alguns dos seus quadros, tanto podemos encontrar desafiantes enigmas como piscadelas de olho para  duplas leituras, dando espaço para renovadas interpretações. Não faço ideia se, nesta sua torre de Babel do Kunsthistorisches de Viena (existe uma outra em Roterdão) o pintor faz questão de jogar com essa ambiguidade. Objectivamente, o que aqui vemos é a construção da torre e se nos aproximarmos para observarmos todos os seus pormenores não restam quaisquer dúvidas. Mas se nos afastarmos, e afastarmos ainda mais até ficarmos com uma mera gestalt da imagem, o que vemos é essencialmente uma ruína. Este movimento de aproximação e afastamento coloca-nos na posição de seres bicéfalos que conseguem ver uma coisa e a sua contrária, neste caso, construção e destruição, fazendo da contradição elemento essencial da sua identidade. Apesar da bíblica moral desta história, não vejo este quadro como sendo propriamente uma vanitas. Ou melhor, também o é, sim, só que, para além de divergir da canónica representação da vanitas, vai para além dela. Enquanto na vanitas tradicional o presente e o futuro surgem através de elementos distintos que chocam entre si, nesta torre, vemos o começo e o fim concentrados num mesmo plano. Sem ser preciso mexer os olhos, bastando apenas fazer zoom in e zoom out, descobrimos duas torres completamente distintas, percebendo que no seu começo está já escrito o seu fim.

Nós vivemos no espaço e no tempo, somos sempre um «ser aí». Como diria Hegel, um conhecido filósofo alemão do século XIX, entretanto esquecido, isso faz-nos cair na tentação de uma visão unilateral da realidade, um pouco como acontece com os cavalos que, por causa das palas, só conseguem ver o que está diante dos seus olhos, sem qualquer ligação ao que se encontra à sua esquerda ou à sua direita. Acontece que montante só existe em função de jusante e jusante em função de montante. Quem olha para o pequeno fio de água que sai da nascente não vê o enorme oceano, quem olha para a imensidão do oceano já não consegue conceber o que começou por ser um fio de água. É normal que assim seja. Mas o que Bruegel mostra com a sua torre, ou melhor, o que eu, livremente ou mesmo abusivamente, perante o quadro, faço Bruegel querer mostrar com a sua torre, é que isso pode ser perigoso. E fá-lo, evitando aquele fácil e demasiado didáctico movimento diacrónico entre o antes da mulher jovem e bela com as suas jóias, e a sua decrepitude, ou o antes dos frutos frescos com as suas folhas viçosas e o seu posterior amarelecimento e apodrecimento. Fá-lo, sim, mas colocando não só a vanitas num plano histórico-político, mostrando o ambicioso rei (para quem, segundo o historiador romano Flávio Josefo, «a única maneira de afastar os homens do temor de Deus, era torná-los dependentes do seu próprio poder» contemplando a sua obra enquanto alguns se ajoelham perante ele, como também, obrigar a ver no empolgante começo de um grandioso projecto a triste e desoladora alvorada do seu próprio fim. Como diria o já citado Hegel, no seu célebre prefácio da sua Fenomenologia do Espírito, o verdadeiro não é o aqui e agora, o verdadeiro não é a memória do recente nem a expectativa do futuro próximo, «O verdadeiro é o todo», esse final crepúsculo sobrevoado pela Ave da Minerva que, com os seus olhos cheios de sabedora irá ver o que, para nós, na nossa cegueira de simples criaturas que nascem e morrem in illo tempore, não passa ainda de uma ignorante escuridão.





14 dezembro, 2018

BELLE DE JOUR


Entrar hoje na loja de um museu é participar numa experiência verdadeiramente pornográfica, sendo os actores as próprias obras que, numa espécie de vida dupla, saltam das hieráticas e institucionais paredes onde se encontram penduradas, para palcos hard-core como ímans para o frigorífico, copos, chapéus de chuva, caixas de óculos, chocolates, porta-chaves, tabuleiros, tolhas de papel ou tábuas de skate. Mas o mais insólito palco que me foi dado a ver até hoje foram lenços de assoar, sórdida fetichização que só consigo ver ultrapassada por rolos de papel higiénico com um clássico barroco ou impressionista. O que até pode fazer algum sentido se pensarmos nalgumas obras contemporâneas, permitindo uma perfeita harmonia com o sentido estético da obra mas também com o sentido performativo ou conceptual de muita arte contemporânea, tão idolatrada por uma daquelas obscuras minorias que lembra os espectadores dos cinemas porno de outrora, só que, neste caso, comprazendo-se numa orgulhosa clandestinidade feita de intelectualíssimas e esteticíssimas erecções. Ser, hoje, obra de arte, representando dignamente o seu papel num museu perto de si, está, sem dúvida, cada vez mais difícil. 


13 dezembro, 2018


Há dias, durante um teste, um aluno pergunta-me as horas e eu pergunto-lhe se já ouviu falar numa coisa chamada relógio. Já, mas lembrando-me que também já estamos no século XXI, pedindo-me se poderia consultar o telemóvel para ver as horas. Eu digo que não, invocando o Regulamento Interno da escola. Ganhei, ou melhor, o século XX ganhou ao século XXI. Mas uma vitória que não passa de um último cartucho numa batalha perdida. Irá chegar o dia em que um relógio num pulso será tão anacrónico como hoje alguém retirar um relógio do bolso preso a uma corrente. Ou um par de suspensórios. Ou uma navalha de barbear no lavatório da casa de banho. Ou uma combinação. Ou uns sapatinhos de dormir feitos de lã. Ou uma braseira numa mesa de camilha. Ou uma máquina de costura ou de escrever numa divisão da casa. Ou um candeeiro a petróleo. Ou tantas outras coisas que já fizeram parte do mais comum quotidiano e que não resistem a essa «tempestade chamada progresso», com «a sua catástrofe única, que acumula ruína sobre ruína, dispersa a nossos pés». A mais antiga prenda de Natal que me lembro de receber, e em que a alegria de a receber esteve em absoluta conformidade com o desejo de a receber, presumindo que por isso mesmo a terei recebido, foi um relógio. Na minha viagem de finalistas do liceu, no sul de Espanha, fomos um dia a Ceuta. O que nesse se passou na cabeça de muitos (não da minha, sempre fiel aos ponteiros) com grande excitação, foi poder comprar muito mais barato nessa cidade um relógio digital, que ainda era novidade e último grito da tecnologia. Não haverá hoje em Portugal uma única criança cujo maior desejo para o Natal seja receber um relógio ou um único jovem que se excite com a ideia de comprar um relógio mais barato numa qualquer exótica cidade. O século XXI ainda é jovem com os seus dezoito anos de idade. Mas no a relógios diz respeito, e para quem nasceu dentro dele, já atingiu a sua plena maioridade
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10 dezembro, 2018



Soube que os museus de Paris fecharam no sábado, incluindo, claro, o Louvre, onde se encontra pendurada a senhora Lisa há mais de 200 anos, actualmente, para gáudio de milhares de turistas, muitos dos quais lá vão só para poderem fotografá-la ou se auto-fotografarem com ela. Daí eu conseguir imaginar o seu ricto subtilmente alterado para as fotografias da praxe quando, no domingo de manhã, regressou à sua rotina diária, depois de 24 horas de absoluta paz e silêncio num dia em que não era suposto tal acontecer. Os turistas, esses, não devem ter dado por nada.

05 dezembro, 2018

Ninguém sai de casa com a intenção de se entregar à tristeza mas pode-se sair de casa com a clara intenção de se entregar à melancolia. A tristeza não se procura, evita-se, foge-se dela, havendo uma razão para se estar triste. Mas se virmos bem faz todo o sentido procurar, activamente, a melancolia. A melancolia não tem de ter uma causa o que faz toda a diferença face à tristeza, apesar de serem sentimentos vizinhos. A melancolia é uma espécie de tristeza mas uma tristeza evanescente, uma tristeza vaga e indolor, faltando-lhe a intensidade dramática da tristeza propriamente dita. Estar melancólico é um estar triste sem tristeza, daí a suavidade poder ser intencionalmente procurada, porque, sendo uma tristeza sem conteúdo, atenua o peso desta, tornando-se numa espécie de tristeza amiga quando não é possível estar alegre.

A melancolia, enquanto exercício espontâneo da alma, joga muitas vezes com uma esteticização da tristeza através de elementos exteriores: paisagens, ambientes, meteorologia, objectos, silêncios. Graças à transferência de um interior dorido para um exterior indutor de sensações agradáveis, é possível uma depuração e, consequentemente, um alívio da tristeza. Em vez de concentrada na sua própria dor, a alma humana sublima essa dor na paisagem, no nevoeiro, na chuva, nas luzes das casas ao anoitecer, nas folhas amarelas espalhadas pelo chão, no vazio do deserto ou de um mar infinito. E assim, o que antes era dor passa a ser vivido de um modo contemplativo, em que o sujeito triste passa a ser um espectador da sua tristeza exposta em diversos palcos do mundo. A alma continua triste mas passa a ver a tristeza do lado de fora. E o que antes eram chagas, lágrimas e esgares de dor transforma-se num sereno silêncio no qual já só vagamente se pressente os tristes dias passados. 

04 dezembro, 2018

O LENHO RETORCIDO

Enquanto almoçava no bar da escola, numa mesa ao lado, um grupo de alunos esteve durante vários minutos a cantar alegremente uma canção do Toy que eu pensava chamar-se "Toda a noite" mas cujo título, vim depois a saber, é "Coração não tem idade (vou beijar)". Não é propriamente dramático estar a almoçar enquanto um grupo de alunos canta aquilo. Todas as profissões têm os seus riscos e ser professor não é excepção. O problema é que desde então, como um vírus, a canção não me sai da cabeça, chegando mesmo ao ponto de dar por mim a assobiá-la enquanto arranjava duas romãs, esse fruto tão barroco e em cuja natureza nada remete para a canção maliciosamente instalada nos meus circuitos neuronais. Há muito que o tinha percebido mas graças a esta canção percebi também, por experiência própria, por que razão Thomas Morus projectou a sua utopia numa ilha. E por que razão, fossem os anabaptistas na cidade de Münster em 1534, os jacobinos franceses do século XVIII, os soviéticos ou nazis do século XX ou tantas outras experiências de carácter milenarista, todos eles tenham sentido necessidade de cortar não só com o passado mas também com tudo o que pudesse representar uma ameaça à sua pureza. O que, entretanto, a experiência do bar da minha escola me mostrou, é que o perigo maior não vem, afinal, de fora mas de dentro. Muita gente haverá a qual nem que passasse um dia inteiro a ouvir aquela canção, iria alguma vez assobiá-la ou ouvi-la mentalmente. Se foi o meu caso é porque há na minha natureza qualquer coisa que me faz assobiá-la ou ouvi-la mentalmente. Paciência. Não serei perfeito mas também há muito que a isso me habituei. Ao que não me habituaria seria a viver numa ilha, um pedaço de terra rodeado de água por todos os lados. Mas é para lá que os ditadores desejam enviar pessoas como eu. 

30 novembro, 2018


O principal motivo pelo qual a literatura se tornará cada vez mais irrelevante resulta da crescente irrelevância do que já foram três boas razões para ler. Ler já foi entretenimento quando ainda não havia televisão mas sobretudo televisão onde se pode ver tudo o que se quer e à hora que se quer, internet, telemóvel com as suas múltiplas e acessíveis funções ou meios de transporte que levassem as pessoas para fora da sua área de residência. Ler também já foi um meio de afirmação social. Não ter a sua bibliotecazinha com o cânone literário da época, não conhecer ou citar os autores certos poderia ser tão desprestigiante como não saber estar à mesa ou não ter bom gosto a vestir. Ler também já foi um meio para aprender, saber coisas, ficar mais culto graças aos conhecimentos obtidos através da leitura de um romance. Acontece que já nada disso faz sentido. Daí que explicar a alguém que deve ler por causa de um putativo benefício, seja como explicar a uma criança que deve comer brócolos em vez de vez batatas fritas por ser mais saudável. A única razão que pode levar uma pessoa a ler e gostar de ler é o próprio prazer da leitura, o prazer do texto, um prazer que se esgota em si próprio como o prazer de comer chocolate ou de nadar em água quente num dia frio.

Vejamos estes dois excertos, ambos de Proust.

«[O mar] Encanta-nos, como a música, que não traz em si, como a linguagem, vestígios das coisas, que nada nos diz dos homens, mas imita os movimentos das nossas almas. Erguendo-se com as vagas, caindo com elas, o nosso coração esquece as suas próprias fraquezas e consola-nos numa harmonia íntima entre a sua tristeza e a do mar, que confunde o seu destino e o das coisas.» Os Prazeres e os Dias


«Naquela manhã, no jardim das Tulherias, o sol adormeceu em todos e cada um dos degraus de pedra, como um adolescente louro cujo sono leve é logo interrompido pela passagem de uma sombra. Encostados ao velho palácio reverdescem rebentos novos. O sopro do vento encantado casa com o perfume do passado o odor fresco do lilás. As estátuas que nas nossas praças públicas nos assustam, como se fossem loucas, aqui, sossegadas, nas alamedas, sob o verde que lhes protege a brancura, sonham.» Os Prazeres e os Dias

Muita gente se interroga acerca do motivo por que o mar fascina tanto, atraindo o nosso olhar durante longos pedaços de tempo. Ora, o primeiro texto dá  o seu plausível contributo para satisfazer a curiosidade. Será uma curiosidade menor mas agora que lemos o texto de Proust também nos apercebemos que o impacto de uma estátua num espaço aberto é bem diferente do que tem no interior de um jardim, contribuindo o texto para uma reflexão sobre o assunto. E se ambos os textos ajudam a perceber melhor os respectivos temas, tal como ler Guerra e Paz ajuda perceber melhor a história do século XIX, não é sobretudo para isso que servem mas para fruição do próprio texto como se a música de Debussy ou Satie se metamorfoseasse em palavras para serem lidas. Palavras para serem lidas vagarosamente, repetidamente se necessário for, com o desejo de as sublinhar para voltarem um dia a serem lidas de novo como uma fotografia antiga que nunca nos cansa. Neste sentido, o texto, tal como o mar, afasta-se da linguagem comum, sendo evasiva face ao mundo ainda que a este se refira, sendo o prazer de olhar para o texto da mesma natureza do prazer de olhar para o mar ou para a brancura de uma estátua nas Tulherias, assombrada por uma luz verde.

Daí Kundera ter razão quando diz que o conhecimento é a única moral do romance. Não no sentido enciclopédico, para saber o que foi a batalha de Borodino, como era o Chiado do século XIX ou a vida quotidiana em Auschwitz, mas para descobrir, como dizia Broch, o que apenas um romance, e não uma enciclopédia, um livro técnico, ou o Google, pode descobrir. E a grande descoberta será mesmo a da própria linguagem do mesmo modo que a grande descoberta da música não é mais do que sons. 

27 novembro, 2018

O CAMELO, O LEÃO E A CRIANÇA

[clicar na imagem para aumentar]


      «E que faz o santo na floresta?»- perguntou Zaratustra.
      O santo respondeu: 
     «Faço canções e canto-as. E, quando faço canções, rio, choro e murmuro; portanto, louvo a Deus.
    Ao cantar, chorar, rir e murmurar, louvo a Deus que é o meu Deus. Mas que nos trazes tu de presente?»
     Quando Zaratustra ouviu estas palavras, despediu-se do santo e disse:
     «Que teria eu para vos dar? Mas deixai-me ir embora depressa, para que não vos tire nada!»
     E assim se separaram um do outro, o velho e o homem feito, rindo, tal como riem dois garotos.     Mas quando Zaratustra se encontrou só, falou assim no seu íntimo:
   «Será, então, possível? Este velho santo ainda nada ouviu dizer, na sua floresta, de que Deus morreu



A grande diversidade humana deste quadro de Bruegel pode ser arrumada em diferentes categorias consoante a posição de cada pessoa face ao acontecimento descrito pelo pintor: o caminho de Jesus para o calvário. Num primeiro plano, os que fazem parte do círculo de Jesus, lamentando e sofrendo sem nada poderem fazer para evitar a Paixão. Depois, as que se riem, insultam o condenado, lançando sobre ele todo o seu desprezo. Como qualquer voyeur moderno que pára na estrada para se regalar com um acidente, há os que assistem só para fugir à monotonia de uma vida na qual rareiam os acontecimentos excepcionais. Enfim, temos ainda os soldados, os quais, ainda que sendo parte activa da cena, estão ali apenas para cumprir ordens, muito provavelmente sem saberem porquê.

Mas há um pequeno grupo, mesmo por baixo do monte onde se encontra o moinho, que embora passe despercebido merece a nossa atenção. O que não é novidade, tratando-se do pintor flamengo. Olhar com mais atenção para o que passa despercebido é o tipo de exercício que Bruegel mais nos pede para fazermos em muito da sua obra. Neste caso, um grupo de crianças que brinca, que se diverte, completamente alheado do motivo que leva toda aquela gente ali. Aquelas crianças somos cada vez mais nós, europeus do século XXI.

No século XIX, e mesmo em parte do século XX o Cristianismo era ainda a grande referência da nossa identidade cultural mas também, ou por causa disso, da consciência e comportamento individual de cada um, fosse por uma forte adesão aos seus valores, rituais e emoções, fosse por uma acérrima rejeição deles. Não por acaso, são desse tempo organizações e movimentos políticos alimentados por uma ideologia anti-clerical e anti-religiosa ou perspectivas filosóficas marcadas pelo ateísmo. Nada disso acontece hoje. Somos cristãos, vivemos rodeados de igrejas, comemora-se o Natal ou a Páscoa, mas já mergulhados nos nossos divertissements modernos e cada vez mais afastados de uma longa história que teve Cristo como centro de gravidade. Não por acaso, é comum ler ou ouvir, hoje, no campo da igreja, com grande respeito embora com alguma condescendência intelectual, nomear filósofos ateus como Nietzsche ou Feuerbach. Tal acontece porque, invocar ateus da velha guarda, torna possível continuar a fazer da religião ou de um cristianismo agonizantes, centro de debate, resistindo-se assim mais um pouco à indiferença daquelas crianças que brincam no quadro de Bruegel.

Estas crianças, mesmo com a morte de Cristo à sua frente, já nada sabem dela. Não sofrem com ela, não se regozijam com ela, apenas se divertem enquanto o filho de Deus caminha para o seu calvário. Depois do camelo que suporta os valores cristãos, depois do leão que se revolta contra os valores cristãos, temos por fim a criança, na sua santa inocência, que, para além de serem períodos de férias, vive o Natal para comer e receber prendas, que vive a Páscoa para poder ir a caminho do Algarve, comendo amêndoas e ovos de chocolate e que um dia entrará numa igreja apenas para poder, com o telemóvel, postar depois uma foto turística numa qualquer rede social. Nascem crianças e é como crianças que irão morrer.

26 novembro, 2018



Uma pessoa entala o dedo numa porta e sente uma fortíssima dor. Dias depois já só sentirá uma moínha, meses mais tarde lembra-se disso ou conta-o a alguém tendo apenas uma ideia conservada na memória. O mesmo acontece com o prazer ou qualquer outro tipo de experiência. Isso faz com que a relação de uma pessoa com as suas próprias experiências internas se torne idêntica à sua relação com as experiências internas dos outros. Alguém me diz que sente uma dor de dentes, outra fala-me do prazer que está a sentir ao comer um Magnum de amêndoas. Percebo as suas experiências de dor ou prazer pois também já senti dor de dentes e prazer com o gelado. Porém, a relação que mantenho com essa minha dor ou esse meu prazer não é diferente da relação que mantenho com a dor ou o prazer das outras duas pessoas. Perante a minha dor ou prazer passados, sou tão outro para mim mesmo como os outros que me falam das suas experiências de dor ou prazer.

Acontece que se vive sempre num presente cuja fugacidade torna rapidamente tudo em passado. O chocolate que agora como, rapidamente se transforma no chocolate que comi e da memória que tenho dele. A bela paisagem que vejo à minha frente, por muito grande que seja o meu esforço perceptivo para a conservar o melhor possível na memória, horas depois, já pouco tem que ver com a vívida sensação ao olhar para ela. E o mesmo se passa com tudo o que se vive, dos momentos mais felizes aos mais infelizes, passando pelos neutros, que são a esmagadora maioria. É por isso que olho para trás e vejo sempre um fantasma, o que não acontece quando me relaciono com as experiências dos outros. Entendo o outro mas assumo-o sempre como alguém completamente exterior a mim. Já com as minhas experiências é diferente. Eu sou eu, fui eu que fiz, fui eu que vi, percebo que sou quem está nessas experiências mas, ao mesmo tempo, vejo-me como um outro dentro de mim, um eu cujas experiências se desfizeram na morte de cada presente, tornando-me a toda a hora num outro, invisível dentro dos contornos da sua visibilidade. Enfim, um fantasma.


09 novembro, 2018




Na sala de espera da dentista pego numa Nova Gente, de Setembro, visto os números mais recentes, mas também os da Caras, os meus preferidos sempre que vou à dentista, já estarem em mãos alheias, isto enquanto, mesmo por cima da minha cabeça, a SIC transmite uma telenovela portuguesa. Páginas tantas, viro uma folha e a primeira coisa que vejo na página seguinte é um título com a palavra "CASAMENTO" (percebi depois que se referia à relação entre a cantora Britney Spears e o seu personal trainer). Mas no preciso momento em que os meus olhos lêem a palavra "CASAMENTO", oiço a palavra "casamento" vinda da boca de uma das personagem que falavam por cima da minha cabeça. Não foi um segundo antes. Não foi um segundo depois. Foi num único e mesmíssimo momento, um decisivo momento com diria um antigo grego, de unidimensional esplendor.

04 novembro, 2018

25 outubro, 2018



A mente humana é uma coisa estranha. Quando, há dias, vi esta fotografia de Vivian Maier, a primeira coisa que me veio à cabeça foi o célebre capricho de Goya «O Sono da Razão Produz Monstros". Ser estranho não é o mesmo que não fazer sentido, podendo significar apenas o facto de, até neurologicamente, não sabermos exactamente como associamos espontaneamente coisas tão diferentes. Mas cá está, hegelianamente falando, primeiro acontece e então depois encontramos um sentido para o que acontece. 

Vemos aqui, a dormir, um homem mergulhado em jornais e revistas. O que não deixa de ser paradoxal. Tanta informação que torna possível uma maior consciência do mundo e de si ou mesmo uma formação pessoal mais rica... e o homem dorme. Mas não será precisamente isso que está a acontecer hoje, e cada vez mais? Vivemos mergulhados em informação que vai chegando ao minuto através de jornais, revistas, televisão, rádio, redes sociais, notícias on line com as mais diferentes e, nalguns casos, obscuras origens. Toneladas de informação que, em muitos casos, não só banaliza o real, tornando-nos indiferentes a ele, como acaba por ser factor de ignorância e desinformação cuja consequência pode ser dramática para o tipo de sociedade que aprendemos a ver como sendo a mais livre e justa. Se, noutros tempos, aconteceram coisas más por ausência de informação, hoje coisas más podem acontecer por excesso de informação. Monstros passados, quer à esquerda, quer à direita, emergiram porque, por ausência de informação, as pessoas dormiam e quando acordaram já era demasiado tarde. Monstros actuais podem emergir por as pessoas dormirem só que, desta vez, por excesso de informação. Seja como for, o resultado será sempre o mesmo: o sono da razão produzir sempre, mas sempre, os seus monstros.

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De Vivian Maier conhecia apenas algumas fotografias, certamente as mais conhecidas, incluindo alguns auto-retratos. Mas depois de ver este documentário fiquei absolutamente fascinado pela mulher por trás da fotógrafa.

22 outubro, 2018

O Chiado estava alegre como é costume. Junto à saída do metro, mesmo em frente à esplanada da Brasileira, uma criaturas entretinham-se a fazer umas macacadas, mistura de contorcionismo circense com convulsões, ao som de uma música em perfeita harmonia com o resto. Várias pessoas assistiam ao espectáculo com ar de alegria e felicidade. Uns metros mais abaixo, duas raparigas exoticamente vestidas de igual, dançavam de maneira igual ao som de uma música igualmente exótica, para o público sentado na esplanada da Benard, tão alegre e feliz como o público mais acima.

Entretanto, várias pessoas iam-se sentando junto a Pessoa para a fotografia da praxe. Para quem lamentava já não se comemorar o dia dos seus anos, ou antes, para quem lamentava já nem sequer fazer anos, a realidade agora é bem diferente: todos os seus dias são de comemoração, dias de alegria e felicidade, com tanta gente a esperar pela sua vez para a fotografia com um homenageado que traz o futuro roubado na algibeira para já não mais o perder. Gente, porém, que exprime a mesma alegria e felicidade que, poucos segundos antes ou poucos segundos depois, exprime perante os dois espectáculos mesmo ali ao pé. Eis, pois, no meio de tanta alegria e felicidade, uma tristeza merecida. Lisboa é uma festa mas a poesia continua na rua.

19 outubro, 2018


Durante a aula, numa das turmas a quem na última aula do primeiro período do ano anterior, passei o filme Twelve Angry Men, de Sidney Lumet, havia dois tipos de alunos: os que sabiam que CR7 violou e os que sabiam que CR7 não violou, ambos com argumentos, certamente valiosos, para defender a sua tese. Instado a dar opinião, respondi que não fazia a mais pequena ideia. Percebi que o meu desconhecimento ou ignorância foi recebido com alguma estranheza, enfim, como se fosse uma anormalidade não saber o que toda a gente sabe, mesma que seja uma coisa e a sua contrária. Ainda há quem defenda, nomeadamente os manuais da disciplina, ser o cinema um bom instrumento didáctico para a aprendizagem da Filosofia.

18 outubro, 2018


Ficou célebre a frase que Saint Simon, o conde de Saint Simon, obrigou o seu criado a dizer-lhe todas as manhãs para o acordar: «Que Vossa Senhoria se levante, pois tem grandes coisas a fazer». Entre outras, uma desvantagem de ser plebeu no século XXI em vez de aristocrata no século XIX é não poder ter um criado para nos acordar. Um telemóvel do século XXI pode ser uma rica coisa mas o seu despertador só serve mesmo para nos acordar, sem que cheguemos a perceber bem para quê.


12 outubro, 2018











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Calhou ter ido ver a exposição do Mapplethorpe em pleno olho do furacão que, qual cereja em cima do bolo do frenesim mediático, incluiu nesse dia a manifestação de protesto à entrada do museu e da qual, quiseram os benevolentes deuses que eu pudesse escapar. Vista a exposição, passei depois à da colecção Sonnabend (entretanto, já terminada), onde fui dar com uma enorme fotografia de um fotógrafo que desconhecia, Elger Esser, um alemão que cresceu em Itália, estimulante conjugação que homens como Goethe, Winckelmann ou Nietzsche não desdenhariam, para não falar de tantos outros também nascidos a norte dos Alpes. Ter parado naquela fotografia seria sempre uma experiência cujo valor nunca iria depender de circunstâncias alheias. Mas o facto de ter coincidido com a polémica conjuntura daquele momento que, entretanto, rapidamente se desvaneceu, deu ainda maior valor à experiência. Não posso precisar quanto, mas sei, pela experiência interna do tempo, que fiquei a vê-la muito mais tempo do que a média que habitualmente despendo com um quadro ou uma fotografia. Bem sabemos como é versátil a experiência interna do tempo, que o digam escritores como Marcel Proust, James Joyce ou Virginia Woolf ou filósofos como S. Agostinho ou Henri Bergson. Porém, neste caso, ainda que fossem apenas alguns segundos com os olhos, teria sido sempre bem mais com o espírito, nada de inédito uma vez que já tive fugazes visões que nunca desapareceram nem irão desaparecer. Não tem pois razão Sophia quando diz a Lídia que «O tempo apaga tudo menos esse/longo indelével rasto/Que o não-vivido deixa». Mas, pronto, não foi o caso, pois sei o tempo que os olhos precisaram de gastar até eu dizer a mim mesmo que já podia então ir embora. O que não sei é se fiquei mais tempo por ter pensado que era ali que me apetecia viver ou se pensei que era ali que me apetecia viver por ter ficado mais tempo. Provavelmente, foram as duas coisas como se fossem apenas uma só. Sobre o tempo, sobretudo o tempo parado, é mesmo muito difícil dizer e, quando assim é, o melhor é mesmo calar para ficar apenas a ver.

09 outubro, 2018

Eu leio isto

«Os versos não são, como as pessoas julgam, sentimentos (esses aparecem bastante cedo) - são experiências. Para conseguir um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer os animais, é preciso sentir como voam os pássaros e conhecer o gesto das pequenas flores quando se abrem de manhã. É preciso poder recapitular caminhos que há muito se via aproximarem-se - dias da infância ainda por esclarecer, pais que era preciso magoar quando nos traziam uma alegria que nós não compreendíamos, doenças infantis que tão estranhamente começam acompanhadas de tantas transformações profundas e difíceis, dias passados em quartos calmos e contidos e manhãs passadas junto ao mar, o próprio mar, os mares, as noites passadas em viagem que nas alturas se dissipavam sussurrando e voavam com todos os astros. É preciso ter recordações de muitas noites de amor em que nenhuma a outra se assemelhava, de gritos de mulheres em trabalhos de parto e de parturientes leves, brancas, adormecidas, que se fecham. Mas também é preciso ter estado junto de moribundos, ter ficado sentado junto de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos intermitentes. E também não basta ter recordações. É preciso poder esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois as próprias recordações ainda não são o que mais importa. Só quando se tornam sangue dentro de nós, olhar e gesto, quando deixam de ter nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então pode acontecer que, no decurso de uma hora muito rara, a primeira palavra de um verso delas se erga e delas saia.» [Rainer Maria Rilke, As Anotações de Malte Laurids Brigge]

e recordo a famosa frase em que Adorno diz que é bárbaro escrever poesia depois de Auschwitz. A frase, dura, indignou Günter Grass, referindo-se à ousadia do filósofo que tem a lata de se comparar a um Deus que resolve proibir os pássaros de cantar. Entretanto, como tudo isto se tornou anacrónico algumas décadas depois. Olhando para a experiência do mundo e da vida da qual se alimentam cada vez mais as crianças e jovens de hoje, a poesia, mais cedo ou mais tarde irá desaparecer. Auschwitz já lá vai. O mundo, o tal mundo de carne e osso, repleto de verdadeiras experiências, boas e más, no qual vivemos durante séculos e séculos, parece também estar a ir. A poesia não deixará de ser escrita por um imperativo ético nem as pessoas estão proibidas de a escrever, como pretendia o escritor alemão. A poesia deixará de ser escrita pela simples e chã razão de nada haver para dizer. Na luta entre a dor e o nada, o nada irá cada vez mais vencer.

05 outubro, 2018

A VELA



Velar tem dois sentidos bastante distintos. Por um lado, pode significar proteger, tomar conta, dar atenção, estar de vigília. Nesta famosa e não menos bela cena doméstica de George de la Tour, é isso que vemos. Entretanto, a vigília aqui não se reduz apenas ao efeito protector das duas mulheres cujos corpos e rostos se concentram no recém-nascido, mas também ao efeito da luz quente e macia suavemente derramada sobre as personagens. Quer isto dizer que a luz que permite a vigília naquela divisão da casa resgatada da escuridão torna-se também ela própria protectora, mesmo que não possua os rostos, os olhos, as mãos e o amor das duas mulheres.

Mas velar também pode significar tapar ou esconder. A luz ajuda a velar a criança mas também a esconde e protege. Ao limitar-se a focar o recém-nascido, remete tudo o resto para uma escuridão que aumenta à medida que se afasta do foco central, e que quanto mais aumenta mais o protege. Como em qualquer claro-escuro, a fronteira entre a luz e a sombra permite a intimidade do seu motivo central. Porém, neste caso, pelo motivo da cena, essa intimidade é muito maior, dando a nós, espectadores, o privilégio de fazer parte dela e de nela permanecer em silêncio para não desapaziguar a utópica quietude de quem vela e é velado. Estivessem estas três figuras, hoje, num quarto lá de casa ou na sala de espera de um consultório pediátrico, iluminadas por uma luz eléctrica, ficava a cena despida e desabrigada. Sendo a luz de uma vela a demarcar o seu espaço é como se estivesse coberta por um véu de escuridão que lhe confere o direito ao pudor e privacidade. 

A luz vela (no sentido de esconder, cobrir) as três personagens do mesmo modo que o faz a luz da vela na mesa de um restaurante ou mesmo a lareira de uma sala como única fonte de luz para quem esteja junto dela. O restaurante tem a sua própria luz eléctrica, uma luz igualitária e democrática que invade todo o espaço mas o contorno desenhado pela luz da vela em cada mesa cria uma fronteira com as outras, uma linha imaginária que impõe um espaço privado e íntimo que todos devem respeitar. Isto porque a luz eléctrica é centrífuga enquanto a luz da vela é centrípeta. Se de noite olharmos para um prédio, as luzes que emanam dos apartamentos tornam-se públicas, anulando a escuridão da noite. Fazem parte do apartamento mas passam a fazer também parte da paisagem urbana nocturna, e quanto maior for a cidade, maior o seu impacto, como acontece em volumosas cidades como Nova Iorque ou Hong Kong ou, indo ainda mais longe, quando contribuem para criar manchas luminosas que se vêem em imagens nocturnas da Terra a partir de um satélite. Luzes, pois, que se juntam e que quanto mais se juntam mais afirmam a sua presença no mundo, assumindo orgulhosamente a sua plena e pública visibilidade. Precisamente o contrário do que acontece com a luz da vela neste quadro de La Tour. Uma luz que quanto mais vela no sentido de dar atenção mais vela no sentido de cobrir e que quanto mais vela no sentido de cobrir mais vela no sentido de dar atenção, tornando o foco da cena absolutamente único, mas igualmente tornando sagrado e digno de silenciosa deferência, como acontece com as luzes das velas num altar ou junto a um ícone ortodoxo, o que nasceu para ser profano.  

04 outubro, 2018

NÃO ME DEIXAREI ESQUECER-TE, PEQUENO DAVID CROCKET


Ontem, de manhã, ia eu pelo passeio a caminho da escola, quando no passeio do outro lado da rua, indo na mesma direcção, vejo um garoto dos seus 11 ou 12 anos, palmo e meio da altura, óculos, mochila às costas, com ar que poderia ser o do Woody Allen quando tinha essa idade, a acenar-me com um entusiasmo que não fazia sentido em alguém que não conheço, e a quer dizer-me qualquer coisa que não conseguia perceber. Mas finalmente lá consegui: estava a querer avisar-me que levava a mochila aberta. Olho então para a mochila pendurada no meu ombro direito e, de facto, vejo-a toda escancarada. Fecho-a e desta vez sou eu que, entusiasmado começo a gritar para o outro lado da rua para agradecer (continuávamos lado a lado) e também a acenar para reforçar o agradecimento. Ele, todo contente pela boa acção, continuava a olhar para mim, até que bate com a cabeça numa árvore que já ali está há alguns anos, logo a seguir à capela de Santo António. Os óculos caem para o chão e aleija-se mesmo, o que não me surpreende, atendendo ao impacto do choque, levando-o durante bastante tempo a esfregar a testa com uma expressão de dor. Inteirando-me da situação, percebi então que uma das hastes dos óculos estava quase partida e a cabeça não tinha ficado mesmo nada bem tratada. E lá continuámos a caminho da escola, ele com dores e eu com sentimento de culpa.

Hoje, num dos intervalos da manhã, vejo um garoto todo contente a dirigir-se para mim a sorrir, perguntando-me se eu ainda me lembrava de ontem levar a mochila aberta e que tinha sido ele a avisar-me. Nos dias que correm não é aconselhável apertar crianças mas vontade não me faltou. Mas fiz-lhe uma grande festa na cabeça, dizendo-lhe que não só me lembrava perfeitamente de ele me ter avisado mas que também nunca o iria esquecer. Lá nos despedimos então mas sem eu lhe dizer que tinha acabado de ganhar na vida um herói. Um herói que, dois dias antes, teria sido o mais improvável dos heróis.

03 outubro, 2018

Jacques-Henri Lartigue

«Quem é Kathryn Mayorga, a mulher que acusa Ronaldo de Violação?», pergunta e responde o PÚBLICO. Na resposta, considerei especialmente interessante a seguinte passagem: «Contou que a escola lhe foi difícil porque sofre de défice de atenção e tinha dificuldades de aprendizagem. Disse que é por causa disso que, ainda hoje, se põe a falar muito depressa. Ainda assim, conseguiu licenciar-se em jornalismo na Universidade do Nevada.»

A adversativa da última frase não me parece fazer sentido. Em vez dela deveria estar um indicador de conclusão. Se pensarmos no cada vez mais alucinante ritmo do jornalismo actual, que melhor curso poderia ter escolhido uma rapariga que fala muito depressa e com défice de atenção?

22 setembro, 2018


Esta mulher, Raquel Bartolome,  depois de responder a um teste com 99 perguntas, foi impedida por um juiz de exercer o direito de voto por padecer de uma incapacidade mental. Presume-se, pois, não ser ela dotada da racional capacidade de deliberação para, quando no momento de votar, fazê-lo enquanto acto livre, consciente e responsável. O problema é que se apenas votassem as pessoas que o fazem de um modo livre, consciente e responsável, após um processo de deliberação, suportado por um básico nível conhecimento de natureza ideológica, política e económica, iríamos ao encontro do desejo platónico de deixar a vida política entregue a uma ilustrada elite intelectual. A democracia é muito linda e merece ser protegida face a outros sistemas ainda mais perniciosos. Só que também não devemos ter ilusões: a democracia é o poder do povo e o povo, como diria o mesmo Platão numa obra chamada Górgias, age perante um discurso de Péricles como um grupo de crianças perante alguém que lhe oferece guloseimas. Raquel Bartolome deverá poder votar. Pode não ter cabeça para a trigonometria, para ler os clássicos russos ou até mesmo para compreender a guerra civil espanhola mas, no momento de votar, é apenas mais uma mulher que vota entre outras mulheres e homens que votam. 

09 setembro, 2018

PASSA POR MIM EM COPACABANA


Causou indignação um recente concerto rock numa igreja durante o festival de música "Bons Sons", estando ainda fresca uma outra por causa de um espectáculo de dança pouco ortodoxo numa igreja de Leiria. Não sendo católico, nada tenho a dizer sobre o que se pode ou não fazer dentro de um espaço privado. O mesmo não acontece com a cada vez mais saturada ocupação de ruas e praças das principais cidades para tocar e cantar, enquanto espaço público que é de todos.

Estar na Piazza Maggiore de Bolonha é estar no coração do Renascimento. Imagine-se chegarem ali três fedelhos, hip-hopers da cabeça aos pés, com um leitor de cd's ligado a uma coluna da qual era expelida uma cacofonia que enchia toda a praça enquanto iam coreografando uns gestos que fazem descer a humanidade a um nível simiesco. Como se este filme de terror não bastasse, de imediato se juntaram dezenas de turistas, fotografando e filmando com os telemóveis, felizes e contentes com tão grandioso evento cultural. Deverá tal ser permitido, respeitando-se a liberdade das pessoas num espaço público que é de todos? Não. E não, pela mesma razão que não faz sentido construir um edifício moderno numa zona histórica ou, por muita qualidade artística que possa ter, uma pintura mural na parte lateral de uma catedral ou num palácio renascentista, uma vez que destrói a identidade histórica e cultural de uma zona ou de um edifício.

É verdade que a música não se vê mas a sua presença é invasiva, passando a fazer parte da textura de um lugar, tal como os objectos ou os cheiros. Não que se deva impedir a animação musical por si só em espaços que são hoje turísticos e de lazer. A Royal Mille é a rua mais bonita de Edimburgo, uma rua cheia de história, ligando o castelo ao palácio de Holyrood. Ver, numa longa rua, duas ou três pessoas a tocar gaita de foles, dá à rua uma atmosfera verdadeiramente escocesa. Claro que não é necessário andar por uma cidade ouvindo música ambiente como se de um restaurante se tratasse. Porém, neste caso, para além de não se tornar invasivo uma vez que se trata de música acústica, está bem integrada no ambiente urbano, em perfeita harmonia com a sua identidade histórica e cultural. Se naquela praça de Bolonha um grupo de músicos tocasse música antiga aconteceria o mesmo, enriquecendo a experiência cultural ou mesmo turística (sim, turística) do lugar. Andar numa rua de Alfama e dar com duas pessoas a tocar guitarra e outra a cantar fado está acusticamente para a zona como uma casa branca com roupa estendida, estando eu à vontade para o dizer uma vez que não aprecio fado. Lisboa não é Milão, nem Portugal tem tradição operática, mas ouvir alguém cantar árias de ópera não destoa num bairro que tem o S. Carlos como espaço relevante para a sua identidade cultural. O que já não acontece, por exemplo, quando em pleno Chiado ou Alfama se é obrigado a ouvir música que nada tem que ver essas zonas tão marcadas social e culturalmente. Poderão fazê-lo, sem dúvida, e desde que acusticamente, em não-lugares como estações de metro ou em zonas sem valor histórico ou cultural mas onde também passa muita gente para ouvir.

Se fosse eu quem mandasse, para tocar ou cantar numa zona culturalmente sensível, só com aprovação camarária, após avaliação por parte da vereação da cultura com base em critérios técnicos  e estéticos bem definidos, tal como acontece com elementos arquitectónicos. Não aprovar não significa censurar ou impedir as pessoas  de usar o espaço público para exibir os seus dotes artísticos e ter algum proveito financeiro com eles. Apenas proteger os lugares de pessoas que, por mero interesse individual a eles se desejam sobrepor, destruindo a sua identidade. Ouvir bossa nova, ainda para mais electrificada, tomando um café ao lado de Pessoa ou Neil Young em plena Alfama é, como um gás traiçoeiro, um modo sorrateiro de intoxicar uma cidade. 

08 setembro, 2018

O MUNDO DE ONTEM


No filme See No Evil (Richard Fleischer, 1971, Sarah (Mia Farrow) regressa à enorme mansão dos tios, após um período no hospital. Ela é cega mas movimenta-se com grande à vontade pela enorme casa, fazendo a sua vida de modo perfeitamente normal. Tal só é possível graças ao facto de haver uma ordem naquela casa, de estar tudo no sítio certo de acordo com uma rotina doméstica. Sim, tropeça uma vez numa peça mas isso acontece só porque foi lá colocada durante a sua ausência e, de acordo com a ordem estabelecida, não deveria lá estar. Entretanto, um brutal e anormal acontecimento dentro de casa vai alterar toda esta confortável ordem. Sarah, que até aqui controlava o seu quotidiano, atrapalha-se, perde-se, não sabe para aonde ir, o que fazer. A dada altura fere o pé ao pisar um pedaço de vidro no chão da cozinha pela qual andou inúmeras vezes sem qualquer preocupação ou dano. Porquê, porque está lá quando não deveria estar ou, se estivesse, seria logo removido. O mundo de Sarah desmorona-se porque toda uma ordem marcada pela previsibilidade e estabilidade, como se de um relógio suíço se tratasse, se desmorona sem que ela esteja preparada para isso, uma vez que cresceu no meio da ordem e não da desordem.

Passa assim a existir uma dupla cegueira em Sarah. Por um lado, a cegueira propriamente dita  mas que, em termos pragmáticos, acaba por não o ser, esquecendo-se mesmo de que o é. Se todas as pessoas daquela casa estivessem a ser observadas à distância, através de uns binóculos, não se notaria a diferença entre ela e os outros. Porém, na sequência do acontecimento anormal, passa a existir uma outra cegueira. Ora, é esta cegueira que se torna verdadeiramente interessante no filme. Uma cegueira que pode ser partilhada por cegos e não cegos e da qual todos nós, sem excepção, podemos ocasionalmente padecer. Precisamente porque todos nós fomos criados para a ordem e não para a desordem, todos nós aprendemos a viver num mundo organizado, feito de rotina e previsibilidade, tal como acontece com a natureza. Quando, entretanto, isso deixa de acontecer, começamos a tropeçar, os nossos movimentos gaguejam e a cabeça começa a errar, deixando de conseguir pensar com razoabilidade numa realidade que deixou de momentaneamente de a ter, passando apenas a funcionar o instinto de sobrevivência com base em decisões ad hoc. Sarah, na sua casa virada ao contrário, é muito mais do que uma rapariga cega. Ela é a própria humanidade quando também acontece acordar de manhã para perceber que o mundo daquele dia, já não é, como diria Stefen Zweig, o mundo do dia anterior.

27 agosto, 2018



Padre Matias de Bremscheid | A Donzela Cristã no seu Ornato de Virtudes:

Em 1620, o bispo de Autun, que desejava transmitir aos seus diocesanos, por meio de uma carta pastoral, a sã doutrina sobre os bailes, perguntou ao conde de Bussy Barbutin se esses divertimentos, nas classes elevadas e educadas, não seriam talvez inofensivos. O referido conde respondeu ao bispo, do seguinte modo:«Sempre tive por perigosos os bailes; não só o meu bom senso, mas ainda a minha experiência, conduzem-me a esta conclusão. Bem sei que, para algumas pessoas, há menos perigo do que para outras; não obstante, os temperamentos mais frios aí se inflamam. Em regra, estas espécies de ajuntamentos compõem-se de pessoas jovens que, na solidão, a muito custo, logram vencer as tentações, dificuldade que mais e mais se agrava, em tais lugares. A minha opinião, portanto,  é que um bom cristão não deve ir a nenhum baile».

Finalmente, donzela cristã, nunca jamais, leias livro, jornal ou revista, que contenha coisas lúbricas ou pensamentos e versos ambíguos, de dúbio sentido e que se prestem a uma interpretação pouco decente. Muito embora seja magnífica  a linguagem ou estilo, não te deixes todavia aliciar e corromper. O veneno é sempre veneno, ainda contido no mais artístico frasco dourado. Extremamente pernicioso, para a moralidade, são os tais romances, sobretudo os romances de amor. Quantas donzelas não depravaram o próprio coração com essas leituras e encheram a cabeça de ideias extravagantes e falsos conceitos de vida! Eis a razão por que Santo Afonso admoesta com grande energia:«Proibi, pais de família, aos vossos filhos, com máximo rigor, que leiam romances, os quais deixam, na infeliz mocidade, torpes impressões que lhe roubam a mocidade e a excitam ao pecado».

O que se diz dos livros maus, pode aplicar-se também às figuras e estátuas imorais. Não as encares, nem as examines de perto. São, de algum modo, ainda mais perigosas para a virtude que os escritos e as conversas desonestas. O que se vê produz uma impressão mais funda do que aquilo que se lê ou ouve. Não de detenhas, portanto, em frente de mostruários, onde se expõem coisas capazes de ofender a olhos castos.

Alerta, pois, e guarda-te que, por desgraça, hoje não raro se encontram nas revistas, nos artigos de comércio e nos móveis, as figuras mais torpes e vergonhosas. Quantas donzelas honestas, que preferiam morrer a cometer uma acção impura, foram perdendo a pouco e pouco, na contemplação de de tais figuras, o delicado pudor e a aversão do pecado e se despenharam, por fim, no abismo do vício!

Que o dano e o prejuízo delas te sirva de aviso! Se, pelo modo indicado, procederes, cautelosa , se evitares, com toda a atenção, os perigos e a isto acrescentares a frequente recepção da sagrada Comunhão, amor filial e devoção à Santíssima Virgem Maria, passarás, pura e feliz, o belo tempo da tua mocidade, e conservarás intacta a inocência até ao dia do teu casamento, ou até à hora da morte, se não quiseres contrair matrimónio.

21 agosto, 2018

JANGADA DE PEDRA

Tenho uma visão relativamente clara da Europa, essa ponta extrema de um continente que se estende de Vladivostok a Brest. Jean Guitton (Conversas com Gérard Prévost)


31 julho, 2018

José Sócrates enquanto jovem estudante de engenharia

Cada pessoa tem direito às suas obsessões e eu, filho de Deus como os outros, tenho direito às minhas. Há muito que uma das minhas maiores obsessões é o engenheiro José Sócrates. Sei que é terrível mas trata-se de uma compulsão que o meu livre-arbítrio não consegue resolver. Tivesse-me saído na rifa a Monica Bellucci, a Isabelle Huppert, a Kathia Buniatishvili ou mesmo, vá, e isto já é o desespero a falar, a Cristina Ferreira, e adormeceria mais apaziguado antes de me ser tirada a energia vital durante a noite após a sua sucúbica passagem. Mas não, havia-me de calhar o engenheiro, personagem com a qual, graças a Deus, nunca sonho, mas que vai não vai me invade os pensamentos ao longo dos dias. Fosse eu um Balzac, um Stendhal, um Dostoievski, um James, um  Proust, um Musil, um Thomas Harris ou uma Patricia Highsmith, e, para exorcizar o daimon  que me assombra, escreveria o meu roman à clef cuja acção, para manter as distâncias, não poderia ter o seu início em Vilar de Maçada mas numa qualquer terreola inventada neste país de tantas oportunidades perdidas mas de tantas outras ganhas. Mas escritor não sou, restando-me apenas aprender a suportar o resto dos meus dias com se de um castigo divino se tratasse para expiar uma qualquer merecida ou imerecida culpa, sei lá.

Mas de uma coisa podemos dar graças e sirvo-me deste raro e preciosíssimo retrato do engenheiro enquanto jovem, que consegui descobrir. Qualquer arguto psicólogo que analise bem este rosto, o seu visionário e messiânico olhar, a sua fria e determinada expressão, só pode chegar a uma conclusão: a humanidade deve respirar de alívio por ter querido o destino que o engenheiro ascendesse aos mais elevados desígnios políticos, num cantinho de uma Europa democrática, aberta e liberal, num Estado de direito no qual, apesar de tudo o que sabemos e não sabemos, as instituições ainda vão funcionando. Claro que alguém teria de sofrer as consequências deste natalício destino e calhou a nós, portugueses, sermos as vítimas, podendo espanhóis, franceses, ingleses, belgas e tantos outros respirar de alívio. 

Há gente na história que fez muito mal porque as condições o permitiram como há muita gente que não o fez porque as condições foram outras. Dizia Lincoln que para conhecermos o carácter de uma pessoa basta dar-lhe poder. O que não falta por aí são pessoas terríveis. Só que em vez de terem ocupado tronos ou palácios ministeriais em regimes autoritários, expressam todo o seu carácter nos aspectos mais comezinhos da vida quotidiana e doméstica que se esgota ali. Imaginemos o seguinte e terrível cenário: o engenheiro, sendo, aliás, o conceito de engenheiro tão caro nesse contexto social e político, em vez de chegar ao poder em Portugal no século XXI, teria chegado na Rússia dos Sovietes, já sem a força real ou simbólica de um Lenine para refrigerar as mais inconfessáveis pulsões, embora este também não fosse propriamente dado a sentimentos franciscanos com quem não partilhasse os seus elevados e, salvo sejam, nobres objectivos. Nós, portugueses, sabemos do que o engenheiro é capaz e um bom psicólogo clínico saberá melhor do que ninguém explicar por que é o engenheiro capaz. O que nunca iremos saber é do que o engenheiro seria capaz, no caso de ter a sua oportunidade histórica para fazer tudo o que fosse capaz. Não sabemos mas podemos imaginar com a mesma clarividente visão das bruxas de Macbeth. 

30 julho, 2018



Quando se fala no facto das ideias poderem ter um efeito destruidor, pensa-se, sobretudo, num plano social e político. De facto, muitas tragédias históricas resultaram, pelo menos em parte, de programas, doutrinas, ideais, crenças religiosas ou até mesmo refinadas teorias filosóficas e científicas. Menos comum é pensar no seu efeito destruidor na arte. Mas também o há. Uma coisa é a arte, como dizia Leonardo, ser cosa mentale. Sempre o foi e sempre o será. Mas ser cosa mentale, enquanto processo, não é o mesmo que submeter a arte a princípios que a subjuguem. Até porque uma coisa são princípios que a explicam, o que é natural, outra são princípios que a subjugam.

Um bom exemplo de subjugação da arte a ideias é o pintor belga Jean Delville. Olhemos para este seu auto-retrato. Vamos supor que é o primeiro quadro que vemos deste pintor. Trata-se de um quadro interessante, tal como mais dois ou três retratos feitos por ele, e que até abre o apetite para o resto da sua obra. Retratos que, não sendo mais do que isso, cumprem bem a sua função estética ou até psicológica, deixando antever uma pintura que vale a pena descobrir. Porém, a pintura de Delville não passa de uma horrível cacofonia visual, espalhafatosa, infectada por um dos mais pavorosos kitsch e mau gosto da arte moderna. E porquê? Porque resolveu pôr a pintura ao serviço da sua filosofia esotérica, do ocultismo, de princípios teosóficos. Dir-se-á que muita da melhor e mais bela pintura europeia tem uma temática religiosa ou mitológica. Da melhor e mais bela, uma vez que a sua forma não está submetida ao poder do seu conteúdo, conseguindo-se um perfeito equilíbrio entre ambos. Será certamente, como toda a boa pintura, uma pintura que deseja falar mas nunca uma pintura que queira dizer tudo, esgotando em demasia a forma com o seu conteúdo. Dando origem a uma linguagem pictórica que ousa apresentar-se como profunda e espiritual, Delville não só não consegue como acaba mesmo por destruir o desejável equilíbrio entre o seu conteúdo e a maneira de o expressar. Mesmo pintores como Moreau, Khnopff, ou Puvis de Chavannes, cuja pintura não anda longe desta, conseguem, apesar de tudo, uma elegância clássica e discreta que pode não ser fácil de apreciar mas que também não fere os olhos como acontece com a pintura de Delville, a qual, hoje, servirá apenas para ilustrar os mais estúpidos e pirosos sites de espiritualidade e misticismo barato que contaminam o espaço virtual.

29 julho, 2018


Dos três filmes da minha vida, dois andam muito à volta da morte. E se há coisa que para mim enriquece uma cidade é um cemitério que valha a pena. Diz isto alguém que não é depressivo, que não tem tendências suicidas, nem é dado a pensamentos mórbidos. Talvez a explicação esteja naquela célebre frase do Lyndon Johnson sobre o sacana do Hoover: «It's probably better to have him inside the tent pissing out, than outside the tent pissing in».


28 julho, 2018


Ter ainda bem presentes algumas das metamorfoses relatadas por Ovídio pode ser uma explicação para o facto de encarar com grande naturalidade o facto de entrar no Modelo e na prateleira onde ainda há dias retirei a Amiga Genial ver agora garrafas de vinho e cerveja. Seja ou não essa a explicação, trata-se, sem dúvida, de uma metamorfose comercial que em virtude do actual conteúdo da prateleira poderá ser vista como eloquente expressão da modernidade líquida.



27 julho, 2018


Mete tanta impressão ver aqui Vladimir Ilitch Ulianov como qualquer outra pessoa na mesma situação, ainda para mais tratando-se de um homem com cinquenta e picos. Mas a impressão é maior se associarmos a este homem uma vida cheia enquanto agitador, exilado orador, político, filósofo, diria mesmo uma das mais influentes figuras do século XX que a ele ficou muito a dever. Entretanto, se me lembrei desta fotografia, não foi para assinalar a fragilidade inerente a todo o ser humano mas por uma bem mais comezinha razão: o anteprojecto de reforma constitucional em Cuba no qual se elimina a palavra "comunismo". E lembrei-me para lamentar não podermos ver a vitalidade ou decrepitude das ideias tal como a vemos dos corpos, como é o caso do corpo de Lenine nesta fotografia e vinte anos antes.

Este lamento levou-me a recuar até 1907, à cidade de Londres, onde se encontram Estaline, Lenine, Trotski e Gorki para o congresso do POSDR. Talvez por já ter visto tantos filmes e séries inglesas de época, consigo imaginar estes russos exilados a passear pelas ruas de Londres, observando a cidade e fazendo comentários sobre o que vêem. E o que vêem é naturalmente uma sociedade bem diferente daquela ideal com que sonham, cheia de imperfeições e, politicamente, um regime parlamentar burguês que serve os interesses das classes exploradoras que desejam aniquilar para dar origem a uma bem mais justa ditadura do proletariado onde todos serão iguais. Quem tem paciência e tolerância para a imperfeição quando, no horizonte, se avista a perfeição e o ideal? Uma perfeição que, dez anos depois, fez os triunfantes bolcheviques arregaçarem as mangas para a construir nos seus ateliers de engenheiros sociais e políticos onde efervesciam o que pareciam ser ideias jovens e revolucionárias.

Mas cá está o problema de não se conseguir perceber funções vitais e orgânicas já velhas em ideias que parecem frescas como alfaces acabadas de colher. No caso do comunismo, uma anquilosada ideologia cuja biografia se resume em poucas palavras: nasceu no século XIX, cresceu ao longo do século XX para, na parte final deste, ficar no estado em que se encontra aqui Vladimir Ilitch Ulianov, mas já decrépita e condenada à nascença, como muitas pessoas sensatas conseguiram antever. Pudessem as ideias ser vistas e não apenas pensadas e, apesar de tal não demover alguns fanáticos e intrépidos visionários ou oportunistas, talvez se tivessem evitado tantos milhões de pessoas mortas à fome ou assassinadas, tantos milhões de pessoas cujas sociedades foram marcadas pela pobreza, perseguições, ausência de liberdade, tudo isso enquanto castas burocráticas iam vivendo com grande conforto burguês ou mesmo satisfazendo caprichos que nunca passariam pela cabeça dos mais excêntricos políticos ocidentais. Saudemos o povo cubano que finalmente se viu livre deste pesadelo constitucional, fazendo votos para que, a pouco e pouco, e por tentativa e erro, vão desenhando uma sociedade com as imperfeições que, espero, nunca venhamos a prescindir.

25 julho, 2018



Se eu seleccionasse aleatoriamente cem pessoas, dando um euro às que conseguissem identificar o homem desta fotografia, o meu prejuízo iria ser bem pequeno ou mesmo nenhum. E se em vez de mostrar a fotografia simplesmente perguntasse quem foi Romain Rolland, exercício teoricamente mais acessível? Apostaria um jantar em como o prejuízo não iria ser muito diferente. Porém, trata-se de um escritor cuja importância foi enorme na primeira metade do século passado, prémio Nobel da Literatura, sobretudo pelo seu Jean-Christophe, um Bildungsroman composto por 10 volumes, escrito nos primeiros anos do século, e que seria facilmente encontrado nas estantes de uma geração, entretanto, desaparecida. Num livro de memórias, O Passado Remoto, o escritor italiano Giovanni Papini recorda o seu encontro com Romain Rolland em Florença:

Estava numa pequena pensão do Lungarno Acciaioli, perto da ponte Vecchio, e fui dar com um homem bastante diferente daquilo que imaginara. Nunca chegara a ver nenhum retrato seu e, como muitas vezes acontece, compusera-lhe uma imagem imaginária através da do seu «herói», através de Jean Christophe. Percebi logo, assim que o vi, que me tinha enganado. Rolland teria, por aquele tempo, uns cinquenta anos, mas o seu aspecto era cavalheiresco, quase delicado, como a de um jovem de trinta. Tinha uma testa alta e bonita, que o seu cabelo pouco abundante mais ampliava, um belo rosto oval, dois olhos de «pensador» sentimental e um bigodinho fino, por cima de uma boca pequena, um tanto feminina. Imaginara por forma completamente diferente o poeta do tempestuoso Jean Christophe. Em vez de um titã encolerizado e selvagem, encontrava-me diante de um amável e cortês exemplar do homme de lettres, não tanto de um epígono do Sturm und Drang, quanto de um normalien distinto e estudioso.

Papini faz depois algumas referências à sua longa conversa, durante a qual o escritor francês explicou a sua visão de uma civilização espiritual europeia. Não vou citar nada a esse respeito pois o que me importa aqui é só mesmo o homem e escritor e não as suas ideias, as quais valem o que valem e, no seu caso, até podem valer bastante. Achei muito interessante o modo como nesta descrição, Papini junta o lado físico do escritor à sua natureza intelectual. Mas antes de prosseguir apenas um pequeno mas creio que oportuno parêntesis: há muito tempo que tenho guardada esta fotografia. Não fui, pois, por mera curiosidade, à procura do aspecto físico do escritor por causa do texto de Papini. O texto fez-me apenas lembrar o facto de ter a fotografia e porquê.

E porquê? Não foi ser a imagem antiga de um escritor. O escritor como homem é tão antigo como outro e interessante homem qualquer, como por exemplo, entre tantos outros, os homens e mulheres de August Sander. Foi sobretudo por ser a imagem de um escritor com um tipo de gravitas «institucional», intelectual e cultural que já não existe. Onde pretende chegar Papini quando refere o «cortês exemplar do homme de lettres»  ou o «normalien distinto e estudioso»? Refere-se ao típico escritor do romain-fleuve mas muito mais do que isso: o escritor que não se limita a contar uma história mas o escritor que constrói um vasto conhecimento do mundo sobre o qual vai depois pensar e muitas vezes intervir, reflectindo-se não só na sua obra como escritor mas também como intelectual ou mesmo como maître à penser. Claro que, em sentido lato, e ao contrário de um agricultor, de um vendedor de electrodomésticos ou de um contabilista, alguém que escreve livros é um intelectual. Mas não no sentido em que são intelectuais, não só Romain Rolland, mas escritores como Balzac, Herculano, Zola, Tolstoi, Eça, Martin du Gard, Musil, Zweig, Mann, Sartre, Beauvoir, T.S. Eliot, Malraux, Magris, Saramago, ou mesmo Miguéis ou Sena. Escritores com os quais se lê o mundo através de um prisma que conjuga elementos históricos, políticos, sociais, psicológicos, que ultrapassam em muito a simples narrativa do romance. Escritores que fizeram parte de movimentos ou tertúlias reunidas em cafés e restaurantes por essa Europa fora que assinaram manifestos, que viajaram (embora não necessariamente, como é o caso de Proust) não só para proveito pessoal mas também como políticos, filósofos, historiadores ou sociólogos em busca de fermento para fazer crescer os seus romances muito para além das suas personagens, ou antes, para dar mundo às suas personagens ou permitir às suas personagens encontrar um mundo.

Ser escritor, hoje, é cada vez mais alguém que apenas escreve livros. Não há nada de errado nisto. Há muitos e bons livros que merecem ser lidos por escritores de que gosto muito e merecem os maiores encómios. Mas escritores cuja força interventiva se esgota nos seus livros, os quais, mais do que ajudar a expor o mundo perante os nossos olhos, reflectem sobretudo o mundo pessoal do escritor ou da pessoa por trás do escritor. Mesmo escrever um romance histórico com 700 páginas, que terá certamente muito de investigação e conhecimento histórico, não faz do escritor o homme de lettres ou o distinto normalien a que se refere Papini, uma vez que o conhecimento histórico do escritor se esgota no próprio romance, tendo um carácter sobretudo funcional e não de transcendência face ao romance.

E não deixa de ser aflitivo assistir, desde o sofá, à azáfama comercial, à correria de tanto escritor que mais parece delegado de propaganda médica, de festival em festival, de congresso em congresso, de feira em feira, de apresentação de livro em apresentação livro, de entrevista em entrevista, sobretudo para dar a conhecer os seus livros. Também não tem nada de errado nisso. Quem não é conhecido não vende e um escritor quer ser vendido e lido e a muito editor basta que seja vendido. Também não tem nada de errado nisso. Escrever e vender  livros é uma actividade comercial tão legítima como outra qualquer e não foi o facto de também o fazer que retira a Camilo o estatuto de enormíssimo escritor. Mas confesso a minha melancólica frustração por haver cada vez menos escritores com o conhecimento, a sabedoria, a inteligência geral e, não menos importante, a intervenção cívica, tendo por trás o superior ethos literário de um Romain Rolland sentado a ler o jornal num luminoso café europeu.

21 julho, 2018

AUGUST STRINDBERG - A CIDADE [1903]


Publicado em 1819, o "O Mundo como Vontade e Representação" viria a ser uma obra seminal para um certo século XIX. Sim, há o século XIX optimista, de Marx, de Morris, do casal Webb, de Mill, de Fourier, o das revoluções liberais, do socialismo, do anarquismo, da "Comuna de Paris" e de uma Paris com os seus novos boulevards rasgados pelo barão Haussmann, do nascimento de repúblicas e da glorificação do Estado-Nação, de uma exploração erudita dos folclores nacionais, do orgulho colonial, de uma crescente industrialização, do materialismo, positivismo e cientismo. Mas também há o século XIX do desespero romântico, do suicídio estético, do niilismo, do irracional, de um melancólico bucolismo, do spleen baudelairiano, do absinto, de Dostoievski ou Lautréamont, da arte pela arte cultivada pelo artista na solidão do seu sótão, enfim, da rapariga de Manet ao balcão das Folies-Bergère ou das evanescentes ninfas pré-rafaelitas. Sim, discute-se e conspira-se nos cafés, salões e fábricas mas o seu ruído não chega aos ouvidos do caminhante sobre o mar de névoa de Caspar David Friederich ou dos ouvidos  de Luís II, submerso num wagneriano oceano musical durante os seus passeios de cavalo à volta de Neuschwanstein e cuja romântica nascente se encontra em Bayreuth.

Nessa obra de 1819, é o jovem Nietzsche que o lembra anos, mais tarde, em A Origem da Tragédia, Arthur Schopenhauer sugere a imagem de um indivíduo tranquilamente sentado no seu pequeno bote, não tendo a consciência da (sublime, diria Kant) ilimitada imensidão do oceano onde se encontra a navegar. Confia no seu bote e sente-se por isso seguro. Se, porém, o virmos cada vez mais e mais a partir do alto até se tornar um pontinho perdido no meio de um oceano cujos movimentos obscuros ninguém domina, então, aqui sim, iremos perceber a intrínseca fragilidade deste indivíduo indolentemente sentado no seu bote. É nesta terrível imagem de Schopenhauer que não posso deixar de pensar quando vejo esta cidade de Strindberg, talvez Veneza, mas não necessariamente Veneza.

No meio de tanto cinzento, o seu quente brilho atrai-nos como se fôssemos mosquitos em busca de um lugar seguro para repousar. Deve ser bom andar por lá, cada um concentrado na sua realidade particular. Andar pelas suas ruas, canais, atravessar pontes, frequentar, quer burgueses cafés para conversar, ler jornais ou só para ver e ser visto, quer tabernas onde o vinho e o divertimento popular afogam as mágoas de quem nasceu no lado errado da vida, ou simplesmente, brincar, namorar ou simplesmente estar por casa nos seus afazeres domésticos. Como um bote parado em águas, à superfície, tranquilas, estar na cidade é habitar o elemento humano por excelência, a cidade como produto da engenharia, arte e arquitectura, a cidade como pólis, a cidade como conquista do ser humano sobre a natureza ou até sobre si próprio enquanto bruto ciclope perdido na sua bárbara individualidade.

Porém, esta cidade de Strindberg, ainda que orgulhosa com a sua majestática catedral ao centro onde as almas se reconfortam, é uma cidade ameaçada, uma pequena ilha perdida num universo que a ignora. O céu sobre esta cidade, como alguns de El Greco, sobretudo os de Toledo, é um céu atormentado, dramático, onde o obscuro teatro dos elementos conjura, com a cumplicidade do mar, sem que a cidade disso se aperceba. Não é o céu de Munch. Este é feito da mesma angustiada substância de quem vive por baixo dele, enquanto o de Strindberg surge em contraste com a cidade. Com a cidade e com o optimismo não só finissecular mas também dos primeiros anos do novo século que ainda há pouco começou. Paris, Londres, Berlim, Hamburgo, Baden-Baden, Munique, Viena, Budapeste, Bruxelas, Turim, Milão, Basileia, o alegre e vibrante cosmpolitismo da cidade na mais verdadeira acepção da palavra.

Mesmo o atormentado céu de El Greco sobre Toledo é um céu transcendente sobre a cidade para a sugar como um íman, deixando-a à mercê de um poder religioso que está muito acima de quem o tem na Terra, e quem diz na Terra diz na cidade. Nós vemos o Enterro do Conde de Orgaz e percebemos como é fugaz o poder na Terra e a sua insignificância face ao que se ganhou no além. Podemos precisar de algum tempo para lá encontrar o grande e poderoso Filipe II perdido no meio de uma multidão mas é mesmo lá que encontra sua verdadeira glória entre os santos, os anjos e Deus. Pode pois assustar o céu de Toledo mas assusta enquanto mysterium tremendum et fascinans que define o sagrado enquanto tal, impondo o seu respeito a quem nasceu sob o signo da mortalidade. Assusta mas atrai ao mesmo tempo. Este céu de Strindberg sobre a cidade é outra coisa. Uma massa informe que, com o mar, reduz a insignificante e frágil cidade a um poder desconhecido, imprevisível e incontrolável, ainda que os seus habitantes, felizmente para eles, disso não tenham consciência. A cidade pode sentir-se segura sobre os seus alicerces mas há uma embriaguez cósmica cujo hálito derramado sobre ela, como o siroco para os suicidas de Trieste, pode deitar tudo a perder. Foi este céu de Strindberg, e não o de El Greco, que viria a conquistar o século que ainda há pouco começara e muito provavelmente foi sempre este céu que existiu e existirá sobre as cidades tão orgulhosamente construídas pelos seres humanos como sobre as suas ruínas das quais, também com orgulho, são os seres humanos os construtores.

19 julho, 2018

Devido a uma apocalíptica catástrofe, em poucos minutos Portugal vai ficar submerso. Eu tenho a possibilidade de seleccionar 20 figuras públicas que irão ser salvas dentro de um bote, as quais irão mais tarde refazer o país. Sem qualquer ponta de idolatria ou hagiográfica veneração, uma dessas figuras seria a procuradora Maria José Morgado. Há pessoas de quem gostamos, que respeitamos ou em quem temos confiança, ou não, apesar de não as conhecermos ou de termos delas apenas um vago e distante conhecimento. Embora seja deste tipo o meu conhecimento dela, Maria José Morgado é uma mulher de quem gosto, que respeito e em quem tenho confiança, num nível muito acima da média. Por isso resolvi ler a sua entrevista no PÚBLICO de hoje.

Lembrando o tempo em que resolveu deixar de ser revolucionária, fala de uma certa ressaca pelo vazio que foi encontrar após tanta adrenalina descarregada. Que depois foi combatida lendo e estudando bastante mas também com exercício físico intenso. Eu achei graça a esta resposta pois vai ao encontro de uma ideia que considero bastante verosímil: grande parte do que somos, mas também do que não somos, deve-se a uma questão energética. No romance A Amiga Genial, diz Elena: "[...] fiz muitas coisas na vida mas sem convicção, sempre me senti um bocado desligada das minhas acções". Cá está, havia em Elena um défice energético que marcou uma distância entre si e si. Outras pessoas estão completamente mergulhadas no que fazem e no que são -  ou melhor, são o que fazem ou fazem o que são - sem qualquer tipo de dúvidas ou mediação introspectiva. Serão assim os revolucionários mas também não revolucionários nas mais diversas funções, seja no mundo político, empresarial, militar ou mesmo pessoal. Há pessoas que parecem estar sempre ligadas à corrente, verdadeiras máquinas de agir, para as quais o tempo interior quase não existe. Se os fins de toda essa tensão energética forem uns, o mundo só terá a ganhar, se forem outros, terá a perder, noutros casos ainda - a maioria - nem uma coisa nem outra. Pelo que se pode depreender da entrevista, Maria José Morgado encontrou o equilíbrio certo entre a energia necessária para o mundo e a falta dela para as coisas onde o seu excesso se torna prejudicial, seja para o mundo, seja para si próprio. Bendito exercício físico intenso que ajudou a curar a ressaca.

18 julho, 2018

Conheço algumas pessoas que choraram em Auschwitz. Já tentei várias vezes mas não consigo perceber porquê. Auschwitz-Birkenau não é mais do que um museu composto por vários edifícios no meio de uma vasta área. Nalguns deles podem-se ver fotografias e cartazes informativos acerca do campo ou ainda alguns objectos pertencentes aos prisioneiros como, por exemplo, sapatos. Esta relação visual com o lager é a mesma que teremos num campo de batalha onde morreram milhares de pessoas ou que se pode ter, num domingo de manhã, em visita guiada, ao largo de São Domingos, a respeito do massacre de Lisboa. Um tipo de relação em que os olhos atenuam o esmagador peso do essencial. Como ver numa caixinha as cinzas de alguém que outrora foi um ser humano que nunca conhecemos, também o que os nossos olhos vêem num museu ou no espaço onde em tempos aconteceu algo esmagador, não passa de um  vestígio mudo de uma realidade que fugiu dali para sempre. 

Auschwitz será para sempre o ânus do mundo, o nível mais repugnante e desprezível a que desceu o ser humano. Mas o que verdadeiramente choca, envergonha e, sim, mexe com os nervos de uma pessoa, é a própria ideia de Auschwitz, a pulsação do seu sentido, ou melhor, da falta dele, para além da representação visual que serve para satisfazer a nossa inesgotável curiosidade, diria Nietzsche, uma socrática curiosidade, como se pode aferir pela quantidade de telemóveis, tablets e máquinas fotográficas sempre a disparar durante a visita, ao longo da qual uma guia vai dando toda a informação necessária e que as pessoas ouvem com toda a atenção como se acabassem de chegar há pouco à Terra. Ou à História.

Lê-se o Primo Levi, e, sim, vai-se respirando fundo para ir resistindo àquela descida aos abismo. Acaba-se As Benevolentes, o vertiginoso romance de Jonathan Littel, e precisa-se de algum tempo para regressar à normalidade depois de toda aquela orgia demencial de destruição tão racionalmente organizada como se de uma qualquer normal empresa alemã de sucesso se tratasse. Aí, sim, entramos no elemento do próprio horror, do absurdo, sentindo-se tanto o calor inocente das vítimas como o calor sádico dos algozes, construindo-se mentalmente a ideia-chave de tudo aquilo e na qual só muito relutantemente se consegue acreditar. Mas depois de ter acreditado em tudo o que havia para acreditar, de ter percebido tudo o que haveria para perceber e de ter sentido tudo o que havia para sentir, os olhos que chegam ao museu de Auschwitz-Birkenau apenas servem para ver e já sem qualquer lágrima para verter.

17 julho, 2018


Diz o povo, e com razão, que o hábito não faz o monge. O provérbio é antigo mas também evidente a sua actualidade. Apenas os hábitos mudaram, sendo, como sempre, muito mais, e variados, do que os próprios monges. O verdadeiro monge, esse, nem se lembra que o tem vestido.

15 julho, 2018

ROMAN CIESLEWICZ - MONA TSE TUNG


Do que mais gosto nesta montagem do artista polaco é a ambiguidade no que respeita à sua verosimilhança. Se virmos o original que serve de base a esta montagem, percebemos uma certa associação entre o seráfico e contemplativo rosto do jovem Mao Tse Tung e o da jovem italiana pintada por Leonardo. Uma associação que seria impossível com a cara de parvo de Nixon, o ar de sacanice inteligente de Kissinger ou a tão soviética sisudez de Brejnev. Daí uma certa verosimilhança nesta montagem em virtude do facto dos dois jovens partilharem um ethos comum. Porém, ver o rosto de La Gioconda enfiado nesta farda revolucionária chinesa é um contra-senso que logo denuncia a natureza impossível da imagem, reduzindo-a a uma dimensão caricatural e humorística.

O contra-senso pode ser entendido de duas maneiras. A mais óbvia, resulta da consciência da distância entre o contexto histórico da imagem original de Mao e o contexto histórico de Mona Lisa, a qual fica de imediato descontextualizada. O mesmo se passaria se vestíssemos Péricles de fato e gravata ou D. Sebastião com um fato de astronauta. Mas há uma outra mais subtil. Já se disse tudo e mais alguma coisa sobre o rosto de Mona Lisa. Mas existem duas Monas Lisas: a mulher real, que viveu num espaço e tempo reais e que foi pintada pelo génio italiano, e a mulher cujo rosto se emancipou face à identidade empírica da jovem mulher. Eu não sei qual a semelhança entre as duas Monas Lisas. Pode ser grande ou pequena mas para o caso não interessa. Por muito grande que seja, o rosto da Mona Lisa de Leonardo, ganhou vida própria, ou mesmo o valor absoluto de um arquétipo, que faz extraí-la do seu contexto empírico, a Renascença italiana, e ultrapassar ainda a psicologia de uma mulher real, para se tornar simplesmente num rosto cuja psicologia subsiste na própria pintura. Mas o que dizer sobre o rosto de Mao, abstraindo-nos da farda e do chapéu? Sim, ficarmos apenas com o rosto de Mao. Mas será sempre o rosto de um homem normal, ainda para mais sem o sfumato, essa delicada película com que Leonardo faz transcender ainda mais o rosto do seu modelo. Ver, pois, o rosto de La Gioconda  como ersatz do rosto de Mao, contribui ainda mais para o não-sentido da montagem.

Uma montagem feita por um polaco, que associa a imagem de um revolucionário chinês com a imagem de um pintor italiano, levada para França. Polónia, China, Itália, França, países cheios de História, diria mesmo com excesso de História, como alguém disse a respeito do povo judeu. Mas História que passa completamente ao lado do eterno, imutável e puramente ideal rosto de La Gioconda. Podemos legitimamente permutar rostos independentemente das suas épocas históricas. O nosso D. João V, sem peruca e vestido segundo um padrão actual, passaria por um homem do século XXI. Rostos são rostos. Do mesmo modo, poderíamos colocar nesta farda revolucionária de Mao, ainda que por piada, o rosto de Trump, de Putin ou até da senhora Merkel. O efeito, seria, obviamente caricatural. Fazê-lo com o rosto de Mona Lisa já é completamente diferente, mesmo até diferente de outros rostos femininos antigos, por exemplo, Rafael ou Ticiano. Porque a verdadeira Mona Lisa nunca existiu nem nunca existirá a não ser nos pincéis de Leonardo.