17 janeiro, 2018

BONECAS DE CERA DERRETIDAS


Ainda hoje, e onde menos se espera, pode sentir-se a diferença entre o antigo Portugal pobre, rural e analfabeto e um outro mais urbano, rico e educado. Vi essa diferença hoje no modo como as capas dos jornais anunciam a morte de Madalena Iglésias. Nas do Correio da Manhã e do JN, jornais mais populares e lidos por camadas menos ilustradas da população, a notícia passa praticamente despercebida. O Correio da Manhã, como é seu timbre, preferiu valorizar os faits divers do costume e tão ao gosto popular, dando grande destaque ao Porsche de um jogador de futebol e a um funeral em Tondela. Já o Público ocupa metade da capa com uma fotografia da cantora. O relevo dado pelo jornal I é mesmo esmagador, enchendo 2/3 da sua capa. O DN não vai tão longe mas ainda assim dá-lhe um generoso destaque, merecendo mesmo um texto de Ana Sousa Dias. Ora, como explicar tamanho contraste?

Acontece que Madalena Iglésias, menina da rádio, da televisão, dos singles, dos espectáculos, dos festivais, vivia a muitos milhares de quilómetros de um Portugal sem luz eléctrica, sem televisão, sem rádio, feito de trabalho e de pobreza e cujo único consolo cultural era dado por ranchos folclóricos ou por alguns cantores mais populares que acediam a descer ao porão da sociedade, lá longe das luzes da ribalta. Quem eram os milhares de portugueses que, em 1969, esperavam em festa Simone de Oliveira, após ter cantado em Madrid, uma mítica Desfolhada que lhe valeu um penúltimo lugar?  Claro que não era a crème de la crème da sociedade, pouco dada a tão efusivas manifestações no espaço público. Mas era uma mediana elite, em crescente processo de terciarização, que tinha televisão em casa, que comprava singles ou LP's conforme as posses ou o grau de melomania, e cujas pessoas se juntavam ao serão (o ano passado foi na tua, este ano é na minha) para acompanhar as noites do festival da canção ou da Eurovisão. Isto, enquanto outra parte do país dormia com as galinhas (metaforicamente) ou por cima dos porcos ou das ovelhas (literalmente) depois de duros dias de trabalho, ou uma outra, que embora pudesse apreciar, fazia-o com alguma distância social e cultural.

Anos depois, uma parte do país que fervilhava com as canções do festival, urbanizando-se e cosmopolizando-se ainda mais, passou a olhar para essas canções com desdém e sobranceria, etiquetando-as de "nacional-cançonetismo", substituindo-as por novos ventos musicais, tanto estrangeiros como nacionais. Daí que naturalmente já ninguém hoje se reconheça nesse registo musical. Acontece todavia que já temos uma histórica margem de segurança que nos permite olhar para estes cantores e canções com algum respeito cultural misturado com alguma nostalgia. As canções eram musicalmente pobres, as letras uma verdadeira desgraça mas também é isso que lhe dá hoje um certo encanto, um pouco na linha daquele sentimento de condescendência com que olhamos para as crianças ou para povos culturalmente menos desenvolvidos como aborígenes e assim, cuja ingenuidade chega a ser tocante. Até porque a história faz verdadeiros milagres no que à recuperação de tendências mortas diz respeito, havendo hoje até cada vez mais uma valorização do retro ou vintage. Em termos simbólicos há um momento decisivo em Portugal, o concerto em que Vitorino, cantor de intervenção, tem a seu lado o romântico Tony de Matos para cantar com ele. E não por acaso também existem hoje várias versões de velhas canções, rejuvenescidas com sonoridades mais actuais, mas restituindo-lhe o encanto que genuinamente, e sem complexos, somos capazes de lhes reconhecer. Aconteceu agora em Portugal com Madalena Iglésias, como aconteceu há dias em França com France Gall cuja Poupée de Cire está para ela como Ele e Ela para a primeira. Também nós morremos um pouco com as suas mortes, é uma parte do nosso mundo que também morre. Bonecas da nossa infância e juventude que desaparecem como aquelas que verdadeiramente desapareceram de caves e sótãos entretanto limpos e renovados. Mas só alguns o sentirão. 

16 janeiro, 2018

CLAREZA E DISTINÇÃO


Regresso ao filme "Le Diable, Probablement", de Robert Bresson. O que este rapaz acaba de dizer ao psiquiatra é muito mais do que uma simples frase. É uma ideia muitas vezes, e orgulhosamente, assumida por um certo tipo de pessoas que se desviam do que vulgarmente se considera normal, convencional, seguido pela maioria, enfim, o senso comum. Gurus, visionários, líderes carismáticos, religiosos ou políticos, que defendem as suas absurdas concepções do mundo, fazendo da sua fraqueza precisamente a sua força, isto é, a posse de uma superior verdade que poucos conseguem alcançar. Embora noutro contexto social, político e cultural, ainda recentemente, nos anos 60 e 70 do século passado, uma famosa corrente da psiquiatria defendia ser o esquizofrénico, não um doente mas uma pessoa com um sentido da realidade muito mais apurado. Um desses psiquiatras, dizia mesmo não ser o esquizofrénico um doente que falhou socialmente pela sua dificuldade em se adaptar à sociedade mas, bem pelo contrário, uma pessoa com sucesso precisamente por ter conseguido não se adaptar à sociedade, sendo esta, sim, afectada com a sua moral burguesa. Provavelmente não será o esquizofrénico nem uma coisa nem outra e neste caso estamos apenas a lidar com casos clínicos individuais que não representam qualquer perigo para a sociedade. Preocupante, sim, é a tendência de muitos para se deixarem seduzir por ideias absurdas, encarando-as como uma revelação cuja posse os torna especiais mensageiros de uma ordem nova que desejam aplicar para bem do mundo e da humanidade. Ideias absolutamente claras e que os tornam naturalmente distintos perante todos aqueles, a esmagadora maioria que apenas deseja ter uma vida normal, que não vêem um palmo à frente dos olhos.

15 janeiro, 2018

ACTO REFLEXO



Esta imagem não é uma fotografia mas o fotograma de um filme, querendo isto então dizer que há um contexto temporal que passo já a explicar. Trata-se de um filme de Robert Bresson, Le Diable, Problablement, no momento de um comício de jovens revolucionários. Um deles sobe ao palco para discursar e a primeira coisa que diz, arrebatado, é: "Eu proclamo a destruição!". Grande entusiasmo, palmas, gritos de apoio na multidão. E continua o jovem arrebatado: "Todos podem destruir!". De novo grande entusiasmo, palmas e gritos de apoio na multidão. E prossegue, sem esmorecer o arrebatamento: "É fácil...Nós podemos incitar centenas de milhares de pessoas com slogans". Enfim, sem surpresa, voltamos a ter grande entusiasmo, palmas e gritos de apoio na multidão. Entretanto, um jovem, com ar céptico e de quem se sente distante de todos os outros, pergunta:" Mas destruir o quê? E como?" É então que surge o tal rapaz que vemos no fotograma, dando a sua resposta às dúvidas do amigo.

De facto, a condição mais importante no acto de destruir, é não pensar, não saber, decidir rapidamente, a fim de não cair na tentação de não agir. Acontece aqui socialmente o mesmo que num contexto neurológico com o acto reflexo. Temos no nosso sistema nervoso central dois centros coordenadores: o encéfalo (que inclui o nosso cinzento córtex cerebral cujo tamanho nos separa orgulhosamente de uma galinha) e a medula-espinal. A medula-espinal serve para coordenar acções que têm de ser rápidas. Se pegarmos numa coisa a ferver, não temos muito tempo para decidir se devemos ou não retirar a mão. É retirá-la o mais depressa possível, de um modo reflexo e automático: sem pensar, sem reflectir, sem ponderar vantagens e desvantagens, isto é, sem deliberar. Daí não precisar de ir lá acima à massa cinzenta do córtex. O problema é quando acontece algo do género em acções políticas que visam uma atitude destrutiva, total ou parcial, seja de direita ou de esquerda, face à realidade vigente. Como o rapaz céptico do filme é bom estarmos conscientes da existência de dirigentes e de multidões que, como galinhas estúpidas, agem perante a realidade apenas orientadas pela medula-espinal. E não é também verdade que uma galinha a cacarejar é o que há de mais parecido com um slogan? Anatomicamente, não é grande a distância que vai da medula espinal ao córtex. Mas há todo um abismo que separa a reflexão do simples reflexo.

14 janeiro, 2018

IDEOLOGIAS FELIZES



Embora a memória esteja sempre condicionada pelo modo como cada pessoa filtra o passado à sua maneira, há neste passado um conjunto de factos consumados que não permite (tirando alguns casos patológicos), a liberdade de lembrar o que não existiu ou a liberdade de esquecer o que existiu. Se eu nunca almocei no Gambrinus não me posso lembrar de lá ter almoçado. Se me lembro de ter almoçado na Tia Alice é porque, de facto, lá almocei. Do mesmo modo, também não me poderei esquecer se casei ou não casei, se tive ou não filhos, se fui ou não à universidade, se estive ou não em Nova Iorque, se fiz ou não uma selfie com Marcelo Rebelo de Sousa. Em suma, os factos podem ser filtrados mas um facto será sempre um facto e um não facto será sempre um não facto.

No caso deste rapaz cujo pai foi assassinado, acontece uma coisa diferente: olhar para o passado, não como foi mas como teria sido. E se, como vimos, o que aconteceu ou não aconteceu está irreversivelmente limitado por fronteiras factuais, já pensar no passado como poderia ter sido é abrir a porta à mais pura e livre imaginação. Um filho que nunca riu com o pai depois deste ter escorregado numa casca de banana, uma vez que nunca aconteceu o pai ter escorregado numa casca de banana, nunca poderá  recordar o dia em que riu com o pai por ter escorregado numa casca de banana. Não ri e sabe que nunca poderia rir pois nunca tal aconteceu. Mas um filho de cujo passado roubaram o pai pode livremente lá meter tudo o que bem entender até ao infinito: terem jogado à bola no parque aos sábados de manhã, as leituras de histórias antes de adormecer, as viagens, as idas ao Mcdonald´s, o apoio do pai na bancada nos dias em que o filho jogava nos infantis, as macacadas de ambos na praia. Não se trata de memória mas antes de uma memória vicariante que tenderá para a mais pura felicidade, ainda que se trate igualmente de uma felicidade vicariante. Este rapaz nunca irá pensar no pai como alguém que entrava em casa sem olhar para ele, que o castigava por tudo e por nada, que nunca ia ver os seus jogos ou que nunca lhe leu uma história antes de adormecer. Não, irá pensar no pai com uma felicidade vicariante como compensação de uma felicidade que teria sido efectiva no caso de ter sido possível.

Embora até agora só tenha falado de passado, o que verdadeiramente me interessa tem que ver com o futuro. Mais concretamente, o processo pelo qual a imaginação, também com uma liberdade infinita graças à inexistência de fronteiras factuais, projecta o que ainda não existe. Das três dimensões temporais, o futuro é a única que não está condicionada por factos, exceptuando os óbvios, como o de todos irmos um dia morrer ou de não podemos estar ao mesmo tempo a almoçar no Gambrinus e na Tia Alice. E tal como o rapaz espanhol está protegido pela inexistência do que foi para poder imaginar o que bem entender, também há ideologias visionárias cuja  fértil imaginação está protegida pela inexistência do que ainda não é. Podemos livremente imaginar que hoje poderia existir uma terra do leite e do mel se o processo histórico tivesse sido diferente. Todavia, pelos testemunhos vindos do passado, sabemos com toda a certeza que tal terra nunca existiu. Mas quem poderá vir do futuro para nos dizer que tal terra nunca irá existir? Ninguém. Logo, a nossa imaginação, a nossa liberdade visionária irá ter sempre as portas escancaradas para continuar rumo ao infinito, dando origem a uma vicariante felicidade ideológica intrinsecamente protegida pela ausência de factos.

12 janeiro, 2018

CASAL GARCIA


Sinceramente, tenho que dar razão a Schopenhauer quando diz que homens e mulheres, ao sentirem o desejo de acasalar, estão, como marionetas, a ser instrumentalizados pela natureza para que venham a ter filhos. Qual a diferença entre um homem e uma mulher que acasalam, esta engravida e deixa descendência, e duas aves, dois peixes, dois insectos ou dois mamíferos que acasalam, a fêmea engravida e deixa descendência? Nenhuma. Claro que o processo é diferente mas a essência é a mesma: somos indivíduos, desejamos e agimos em nome individual mas estamos apenas a servir a nossa espécie. Apaixonamo-nos, acreditando ser em vista da nossa felicidade individual mas isso não passa de uma armadilha para fazer com que a espécie sobreviva, tal como acontece com qualquer outra. Se isto for verdade, não ter deliberadamente filhos parece ser um acto de resistência individual, a expressão da liberdade de um indivíduo que se recusa a medir as suas acções pelos interesses de uma abstracção. Como diria Søren Kierkegaard, outro filósofo da mesma época, a multidão é uma mentira e ser indivíduo, assumir-se como indivíduo, passa por lutar, não sem algum romantismo, contra o esmagador poder da multidão. Porém, no que diz respeito a deixar descendência, a coisa torna-se complicada. Se as pessoas deixarem de ter filhos para assim assumirem a sua individualidade, a espécie acaba e acabando a espécie deixa de existir pessoas para assumir a sua individualidade. Sendo assim, ter filhos parece ser um imperativo não só natural como moral, não tendo nós outro remédio senão aceitar o poder tirânico da natureza e a nossa submissão a essa vã abstracção que é a espécie, deixando-nos de caprichos metafísicos sobre uma liberdade individual que, ao contrário do que possa parecer, nos torna cada vez menos, não só o que somos mas também  o que devemos querer ser. Cada vez que nasce um filho há um casal que acaba de entregar a sua carta a Garcia, cumprindo assim a sua, biologicamente nobre, missão, dando-se tanto por satisfeitos como no primeiro e prazenteiro passo, com ou sem cigarro no final, dessa procriação.

11 janeiro, 2018

ANOMIA SEMÂNTICA

Alguns alunos ficaram surpreendidos depois de lhes ter explicado a noção de altruísmo/altruísta. Já tinham ouvido a palavra mas associavam a qualquer coisa de negativo. Uma rapariga disse mesmo julgar que chamar altruísta a alguém seria chamar estúpido ou algo assim. Entretanto, por curiosidade, perguntei se alguém sabia o que significa estultícia ou considerar alguém estulto. Como esperava, ninguém sabia. Aproveitei então para perguntar se associavam a palavra a algo positivo ou negativo. Todos associaram a algo positivo, tendo arriscado sinónimos como inteligência ou elegância. Há um lado triste em tudo isto: se a língua portuguesa é uma pátria, custa ver assim tanta gente apátrida. Mas não deixa também de haver um lado cómico nesta espécie de anomia semântica. Se a anomia propriamente dita é terrível pelo modo como ameaça a ordem social, esta anomia semântica pode ser vista como versão cómica das distópicas transformações da linguagem que encontramos no "1984". Se, nos antípodas de um livro ou filme (como a excelente adaptação de Michael Radford) cinzento, opressivo, claustrofóbico, dermos com uma realidade onde as pessoas chamam altruístas umas às outras para se ofenderem e chamam estultas umas às outras para se elogiarem, tal será digno da mais hilariante das comédias.

10 janeiro, 2018

UMA SEMANA DEPOIS

Há uma semana e picos entrámos num novo ano. Um ano novo no qual se entra sempre com a sensação de um novo começo, de um novo e fresco ponto de partida, como um jogo de futebol que se inicia com o seu virginal 0-0, ainda que se trate de um Barcelona-Torres Novas, e independentemente de todos os resultados anteriores, tanto os bons como os maus. Daí os desejos e votos expressos para o novo ano, o renascer da esperança, o optimismo pela libertação de males que ficam para trás com o velho e moribundo ano que dá o último suspiro. Uma semana depois as pessoas descobrem que afinal nada mudou, descobrem que os anos não existem, não passando de uma formalidade temporal para que o tempo cronológico siga o cíclico tempo astronómico dos 365 dias que a Terra demora a dar a volta ao Sol, quando, no fundo, não passa de uma linha contínua rumo ao infinito. Basta uma semana, uma simples e singela semana para perceber que não existem começos nem fins, que a vida segue continuamente como sempre seguiu e sempre seguirá, umas vezes para cima, outras vezes para baixo, quase sempre nem para um lado ou para o outro.

08 janeiro, 2018

PÉ TORTO

Alfred Eisenstaedt

Um leitor medieval não pode olhar para a Ilíada do mesmo modo que um grego. Um leitor do século XVII não pode olhar para a Divina Comédia como um medieval, nem Shakespeare pode ser lido (ou visto) da mesma maneira por um leitor (ou espectador) do seu tempo e um outro do século XIX. E por uma simples razão: quem vive depois viu coisas e sabe coisas que não foram vistas nem sabidas por quem viveu antes, fazendo com que o que se lê tenha um significado condicionado tanto pelo que se viu e se sabe como pelo que não se viu nem se sabe. Daí que não possamos ler hoje um romance como Middlemarch como uma pessoa do século XIX, o século em que foi escrito.

Há tempos, recorri aqui ao Middlemarch para mostrar o modo implacável como a intelectual Dorothea Brooke atinge a sua irmã Celia, pessoa centrada nas coisas mais vulgares e mundanas da vida. A frase "Há muita coisa que só é verdadeira para o entendimento das mentes mais vulgares" diz tudo. Recordo que a agreste atitude de Dorothea resulta do facto de a irmã embirrar com o futuro cunhado, Mr. Casaubon, um austero e feio clérigo mas completamente embrenhado em assuntos espirituais, tão valorizados por Dorothea. Porém, a narradora do romance não dá ponto sem nó, oferecendo também ao leitor, numa bandeja, o contrário: as fragilidades e limitações de uma pessoa tão espiritual como Dorothea. Vejamos três breves passagens:

"Era isso que tornava Dorothea tão infantil e, na opinião de certos juízes, tão tonta, apesar de toda a sua reputada inteligência: como provava, por exemplo, o facto de agora se lançar, metaforicamente, aos pés de Mr. Casaubon para lhe beijar os antiquados atacadores, como se ele fosse um papa protestante".

"A fé de Dorothea supria tudo o que as palavras de Mr. Casaubon deixavam por dizer: que crente tem ouvidos para discernir uma tolice ou uma perturbante omissão? O texto, seja de um profeta ou de um poeta, expande-se para acolher tudo o que nele quisermos introduzir, e até os seus erros gramaticais se tornam sublimes".

"Miss Brooke era sem dúvida muito ingénua, não obstante toda a sua alegada inteligência. Celia, cujo intelecto nunca ninguém julgara poderoso, percebia muito mais rapidamente a vacuidade das presunções alheias. Em determinadas circunstâncias, ter poucos sentimentos parece ser a única protecção contra tê-los em excesso".

O que significa ler, em 2018, estas três passagens de um livro escrito em Oitocentos? O que sabemos nós que George Eliot não saberia para que adquiram um significado diferente para nós? Atenção, não estou a falar de pessoas vivendo em planetas diferentes. Há coisas que nós sabemos que ela também já saberia. Mas é impossível ler estas três passagens sem pensar em muitas tragédias ocorridas do século passado, com a cumplicidade de pessoas como Dorothea Brooke. Pessoas que, com ingénua perversidade, puseram os ideais acima dos factos, a utopia acima da realidade, desejaram construir de raiz uma natureza humana, endireitando à força o "lenho retorcido do qual nada de direito se pode fazer" de que fala Kant, enfim, pessoas que, com os mais elevados e nobres argumentos, idolatraram monstros sanguinários ou outros que não fizeram mal a ninguém mas cujas ideias absurdas escritas com intelectual profundidade ajudaram a legitimar monstros sanguinários. Sim, "há muita coisa que só é verdadeira para o entendimento das mentes mais vulgares". Mas também há muita que só é verdadeira para o entendimento de certas mentes que se julgam superiores e se ufanam da sua superioridade. Serão "verdades" muito diferentes mas podem ambas igualmente matar ou fazer grandes estragos em vítimas inocentes. Por muito grande que pareça o pé direito que vai do mais chão senso comum ao mais elevado telhado das ideias, a distância é muitas vezes bem pequena.

07 janeiro, 2018

NEM IRONIA, NEM MAIÊUTICA

Stromboli [fotograma]

Imaginemos três pessoas que tenham estado uma só vez em Itália. Uma delas em Bolzano, outra em Florença e a terceira em Nápoles. Um dia encontram-se e descobrem que todas estiveram em Itália, facto que lhes dá o sentimento de partilharem um elemento comum e de saberem do que se fala sempre que uma delas fala de Itália. É também quase sempre isto que acontece sempre que as pessoas se metem a falar de coisas como a existência de Deus, o socialismo, a liberdade, a justiça, o bem, ou simplesmente a felicidade, a vaidade, o medo, o amor ou o bem-estar de cada um. Não deixa de ser engraçado as pessoas julgarem que se entendem e concordam umas com as outras só porque lhe dão o mesmo nome, em assuntos sobre os quais discordam profundamente ou julgarem que discordam umas das outras em assuntos sobre os quais concordam completamente, só porque lhe dão nomes diferentes.

04 janeiro, 2018

MANHÃ SUBMERSA

Pieter Janssens Eliga | A Varredora

Passar a ferro é a tarefa doméstica que mais detesto fazer e para a qual tenho menos aptidão. Mas com o monte de roupa ali a ganhar um volume já assustador e sendo dia de entrar um bocadinho mais tarde, resolvi que não passaria de hoje. Logo de manhã, bem cedo, fui então para a sala para a primeira etapa de tão espinhosa e desconcertante tarefa. Porém, não foi nada disso que aconteceu. Estava uma manhã de intenso nevoeiro e chuva miudinha. A sala tem vista para duas ruas, ambas com prédios, mas entre estes tenho milagrosamente um pequeno trecho de paisagem inglesa com aldeia ao fundo já em registo de miniatura. Ora, com a tábua estrategicamente colocada de frente para a paisagem, com as árvores e todo o restante verde graciosamente diluído no branco do nevoeiro, enquanto ia ouvindo a minha ópera preferida, descobri-me, como se estivesse duplicado fora de mim, numa atmosfera de absoluta e silenciosa serenidade doméstica. Esta casa fica numa terra portuguesa, no ferro de engomar está o nome de uma marca americana, a ópera é de um italiano chamado Antonio Vivaldi. Mas o tempo, aquele pedaço de tempo perdido no tempo só pode ser holandês, um tempo tão graciosamente diluído nos espaços domésticos da pintura holandesa do século XVII como o verde da paisagem inglesa no nevoeiro matinal também ele graciosamente diluído nas intemporais e pastoris árias de uma ópera barroca.

03 janeiro, 2018

REGRESSÃO PARA O JANTAR


Cresci a ler livros infantis cheios de belas ilustrações. Um dos que mais gastei com os dedos e os olhos era sobre o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, sendo o mago Merlin a personagem que mais me fascinava e cujas imagens tenho mais presentes, apesar de ter há muito perdido o rasto do livro. Talvez isso explique o facto de, ainda hoje, e admito que com uma certa dose de casmurrice, não conseguir perceber por que raio se chama varinha mágica àquele pequeno electrodoméstico com que trituro os legumes para fazer a base da sopa.

02 janeiro, 2018

O PANO E A NÓDOA

André Kertész

Calhou estar ontem à mesma mesa com uma senhora que só conheço muito vagamente e há muito não encontrava. Perguntou-me se eu já estava reformado. Há momentos na vida em que é complicado gerir uma emoção, sendo este um deles. Por um lado, se há coisa com que sonho na vida é com a reforma, com a felicidade de poder acordar todos os dias e dizer «Ai que prazer não cumprir um dever». Mas, por outro, saber que já é possível ser visto como alguém passível de estar reformado e que quando chegar a vez de me reformar irei ser ainda mais visto como alguém passível de ser reformado, não deixou de me provocar um misto de angústia e melancolia. É como estar perante a melhor das iguarias e, ao mesmo tempo, saber que tem na sua composição um elemento tóxico. A velha sabedoria popular tem uma expressão que explica tudo: no melhor pano cai a nódoa. No meu caso, ainda não estou a ver o belo e fino pano sobre a mesa mas já consigo imaginar a nódoa a manchá-lo.

01 janeiro, 2018



Ele tinha apanhado uma grande constipação, porque a única roupa que tinha para vestir era a pele do urso que ainda não caçara.
Thomas Fuller




24 dezembro, 2017

A PÁGINAS TANTAS

Jacques-Henri Lartigue 

Contava Nabokov que um editor lhe disse ter cada escritor gravado em si o número de páginas que nunca ultrapassará num livro. O dele, pelos vistos, era o 385. Pensando na velha frase de Wilde que diz ser a vida que imita a arte e não o contrário, dá vontade de dizer que, na vida, existem os sprinters, que vivem como se vivessem na escrita de Tchekov, escritor de respiração curta, capaz de explicar a vida inteira de um ser humano em poucas páginas, e stayers que vivem como na escrita de Tolstoi, que escreve dezenas de páginas sobre um simples pormenor. Tomando como ponto de partida a duração, não faz sentido falar em escritores revolucionários ou conservadores. Não se é revolucionário ou conservador na literatura por se ser stayer ou sprinter. Na vida, porém, as coisas são diferentes. De acordo com uma lógica da duração, viver como se estivéssemos num romance de Tolstoi tem um sentido conservador, enquanto viver como num conto ou no teatro de Tchekov, revela um impulso para a mudança, viver sob o domínio do instante e da fugacidade. Enquanto Guerra e Paz parece nunca mais acabar, porque haverá sempre mais alguma coisa para dizer ou reflectir, Tchekov passa de um conto ou de um texto dramático para outro como uma rã de nenúfar em nenúfar.

Na vida, ser conservador é querer mudar apenas quando o que se vive já não pode ser salvo. É ver tudo como um livro que dura, em que haverá sempre mais uma frase, um parágrafo, um capítulo para escrever. É continuar a aceitar o que está vivo e respira, evitando-se apenas o que ficou moribundo e chegou ao fim. Cada pessoa também deve ter o seu próprio número de páginas para o que precisa de viver, independentemente dos anos que irá viver. Uns precisam de mais, outros precisam de menos. Porém, haverá ainda os que gostariam de viver como o Guerra e Paz só que não têm jeito para isso. Não é fácil ser conservador, tal como não é fácil escrever muito e menos ainda escrever bem. É muito mais fácil acordar de manhã com impulsos de mudança e puramente virado para a acção.

23 dezembro, 2017

VIA INFORMÁTICA PARA O SOCIALISMO

[Tradução: É Berlim quando não sabemos se é um CEO ou um sem-abrigo]

A frase é bem engraçada e criativa mas também, sem dúvida assumidamente, bastante retórica. Claro que saberemos sempre distinguir um CEO de um sem-abrigo: pelo olfacto, pela quantidade de óleo no cabelo e nódoas na roupa, pela marca do carro (ou ausência dele) onde se senta. Ceo's e sem-abrigo, ricos e pobres, irão sempre existir. Muitas vezes até por razões pessoais e não decorrentes de um sistema social injusto e desequilibrado. Mas também nunca como hoje, sobretudo em empresas modernas cuja cultura é bem diferente daquela mais clássica, ainda associada a um século tão longínquo como já é o século XX, se tornou tão difícil distinguir as pessoas em função "do andar" do edifício onde trabalham.

Continuamos a ter na mesma empresa, pessoas a ganharem rios de dinheiro, enquanto outros quantias bem mais modestas. Porém, seguindo o pragmático bom senso de clássicos do pensamento social como Mandeville, David Hume, Adam Smith, ou até contemporâneos como Rawls, ainda bem que assim é. Ainda bem que há pessoas ambiciosas, vaidosas, cobiçosas, materialistas, que desejam cupidamente ganhar rios de dinheiro para poderem ter brutas casas, brutos carros, irem a brutos restaurantes ou fazerem brutas viagens. Ganhamos todos pois são eles, e não os trabalhadores, os quais se limitam a vender a sua força de trabalho para viverem as suas confortáveis vidinhas, que dinamizam economicamente uma sociedade, que criam riqueza ou geram emprego.

Ainda assim, graças a uma evolução social, muitas vezes à custa de grandes lutas, nunca os níveis de igualdade social e de igualdade de oportunidades foram tão elevados nos países europeus mais desenvolvidos, o que não é o caso de Portugal, ainda que registe melhorias. Até porque graças ainda a um processo de evolução social, o empresário, o CEO ou o assalariado de uma empresa  moderna, cada vez mais dependente das novas tecnologias, onde deixámos de ter operários para passarmos a ter gente com formação especializada, estão cada vez mais longe dos velhos estereótipos. E sim, já é possível ver hoje a ir para o trabalho um empresário ou CEO de calças rotas e t-shirt, trabalhando no meio de todos os outros com uns phones nos ouvidos. E se lá entrarmos podemos ter mesmo dificuldade em perceber quem manda e quem obedece. Poderão ser insondáveis, e bem menos directos do que muitos desejam, os caminhos para o socialismo, mas eles existem.

22 dezembro, 2017

EM LOUVOR DA HIPOCRISIA

Anja Miller

Há muito que se tornou lugar comum criticar o Natal por causa da sua atmosfera de beata hipocrisia. Mas onde muitos vêem motivo de crítica, eu consigo ver uma inestimável virtude. A hipocrisia é um dos mais nobres e belos sentimentos da humanidade, uma das grandes conquistas do seu processo evolutivo, substituindo, a pouco e pouco, processos bem mais sinceros e honestos como o desejo, e consequente prática, de matar, ferir, torturar ou simplesmente prejudicar pessoas, sem precisar de dissimular a enorme satisfação que isso provoca nos agentes.

Seria maravilhoso, quiçá sublime, ver a humanidade como uma espécie de comunidade evangélica na qual todos seríamos irmãos. Só que não é, nunca foi, nem nunca será. E, sinceramente, nem teria de o ser para tornar a vida razoavelmente suportável neste barco onde todos navegamos sem sabermos bem para onde vai. Nós não temos que amar o vizinho do lado que tem sempre a televisão em altos berros, os colegas de trabalho que nos fazem trabalhar muito mais do que o necessário, a senhora do mini-mercado onde vamos comprar os legumes e a fruta ou os funcionários das finanças que nos atendem para tratar dos nossos impostos. Não temos e, até pelo contrário, temos todo o direito de com eles embirrar e desejar vê-los pelas costas o mais rápido possível. Ora, se não é maravilhoso, apesar disso, conseguirmos cumprimentá-las, esboçar um sorriso nos lábios ou mesmo criar um ambiente razoavelmente suportável, então não sei mesmo o que possa ser maravilhoso socialmente.

Vale a pena lembrar o sentido teatral que encontramos na etimologia da palavra "hipocrisia". E, de facto, quando somos hipócritas não passamos mesmo de actores a representar um papel que estudámos e que não coincide com o que verdadeiramente sentimos e pensamos. Mas aí é que está. Ao fingirmos sermos bons, ao aprendermos cada vez melhor o papel do que seríamos idealmente, acabamos por sorrateiramente nos irmos aperfeiçoando social e moralmente. Assim  um bocadinho como as regras de etiqueta. Deve haver poucas coisas tão teatrais como as regras de etiqueta. Trata-se, porém, de uma teatralidade que foi tornando as pessoas cada vez mais educadas e polidas, tornando-se com o tempo tão natural que a sua origem deixou de fazer sentido, passando a fazer parte da identidade das pessoas. Com a hipocrisia sucede o mesmo. Fingindo sermos bonzinhos, vamos domesticando a besta que há em nós, embora mais nuns do que noutros, havendo infelizmente quem ainda não consiga ser suficientemente hipócrita. Mas se a besta que há em nós consegue parar na rua para sorrir e falar amenamente com alguém que detesta e a quem ainda se lembra de desejar Boas Festas, é porque deixou, definitivamente, de o ser e mostrando estar no bom caminho. Entretanto, aproveita a besta que há neste blogger para, com dose suficiente de sincera e genuína hipocrisia, desejar o mesmo a todos. 

21 dezembro, 2017

BLHAC!

Walker Evans

«- Há muita coisa que só é verdadeira para o entendimento das mentes mais vulgares», George Eliot, Middlemarch

Uma proposição, na Filosofia, consiste numa frase na qual dois conceitos estão ligados de modo afirmativo ou negativo. São proposições frases como "Viseu é uma cidade", "Júpiter não é um país europeu", "O cão não é um animal vertebrado" ou "Donald Trump é norte-coreano". Todas elas têm um valor de verdade, não por serem verdadeiras, pois as duas últimas não o são, mas por estarem formuladas de modo a poderem ser verdadeiras ou falsas, o que já não acontece com frases como "Que horas são?", "Anda cá!", "Ai que bom" ou "Blhac, que nojo!", cujos conteúdos não são verdadeiros nem falsos.

A frase extraída do Middlemarch como epígrafe tem um contexto. Dorothea Brooke está enamorada de um clérigo bastante conservador e austero, afastado dos mais mundanos divertimentos, muito mais velho do que ela, feio, mas com uma vida intelectual bastante activa. Celia, irmã de Dorothea, embirra com ele, não vendo com bons olhos a futura relação, ainda para mais quando há um jovem simpático e rico interessado nela mas que Dorothea rejeita por lhe interessar tanto quanto uma folha de alface a um leão. Daí Celia envenenar um pouco o ambiente, pegando em coisas como o modo irritante como o clérigo pega na colher ao comer a sopa ou no modo irritante como pisca os olhos antes de falar. É precisamente na sequência destes comentários que Dorothea, já sem paciência, responde à irmã com a citada frase e cujo sentido também precisa de ser aqui explicado.

Dorothea é uma jovem profundamente intelectual e fascinada por tudo o que tenha que ver com a vida do espírito. Daí o seu interesse pelo clérigo, valorizando o que considera realmente importante para o caracterizar como pessoa. Na sua opinião, o que faz a irmã é centrar-se em ninharias, ficando impedida de ver a verdade a respeito dele. Até se pode dar o caso de ser verdade o modo como o homem pega na colher ou pisca os olhos. Mas, segundo Dorothea, não passa de uma verdade que só é vista por Celia e pessoas como ela, por ser a única que conseguem ver, resultante de uma emoção primária da qual está ausente um conteúdo racional. Dorothea não diz, mas é como se dissesse, que uma mente vulgar consegue transformar uma emoção numa frase com um aparente valor de verdade. Por exemplo, a frase "Blhac, que nojo", não tem valor de verdade uma vez que se limita a exprimir uma emoção. Ora, o mesmo acontece com frases como "Ele é estranho a pegar na colher" ou "Ele pisca os olhos antes de falar", enquanto frases que se limitam a exprimir uma emoção. Mas frases que, entretanto, se transformam numa espécie de juízo supostamente verdadeiro a respeito de uma pessoa. Fosse a irmã uma pessoa centrada no importante e nem repararia nesses aspectos irrisórios, anulando assim a emoção que serve de base ao seu assassínio de carácter

A frase de Dorothea, retirada de um romance do século XIX, vindo de uma Inglaterra vitoriana já tão longe de nós mentalmente, socialmente ou tecnologicamente, é de uma assustadora actualidade. Hoje, com a facilidade de opinar e comunicar através de redes sociais e outros canais como jornais on line, acontece o mesmo que, de acordo com Dorothea, faz a irmã e pessoas como ela. Uma pura expressão das emoções, como acontece com a frase "Blhac, que nojo!", sem qualquer base racional e argumentativa, marcada por um facilitismo atroz, mas que facilmente adquire a aparência de juízos com valor de verdade. É este tipo de discurso, centrado nos aspectos mais mesquinhos e insignificantes da realidade, que derrota qualquer tentativa séria de analisar e discutir os mais variados assuntos que fazem a ordem dos dias. As consequências deste tipo de quadro mental e de atitude, podem ser, quando menos se espera, devastadoras, como já o foram tantas vezes.

20 dezembro, 2017

OS ESCRITORES

André Kertész | Série On Reading

Viver em sociedade permite compensar a falta de auto-suficiência de cada um. Daí um electricista, um médico, um agricultor ou um mecânico de automóveis se complementarem. E eu preciso bem mais de todos eles do que eles de mim, sendo por isso enorme a minha gratidão.O que sinto em relação aos escritores de quem gosto é também um pouco isso mas muito mais do que isso. O melhor que me pode acontecer quando leio um livro é sentir que estou a ler o que gostaria de ter escrito sem disso ser capaz. Aqui a gratidão é outra. Não se trata já de uma gratidão utilitária, como acontece com a cabeleireira que me corta o cabelo ou a dentista que me restaura o dente, mas de uma gratidão mais íntima ou psicológica. Jamais me passaria pela cabeça ser dentista ou cabeleireiro, apesar de não passar sem eles. Mas não me importaria nada de ser escritor. Só que em vez de ficar invejoso, frustrado, irritado, ressentido, por ver um escritor a fazer tão bem aquilo de que não sou capaz, fico feliz por ver no papel o que eu gostaria de lá pôr se conseguisse. Não escrevi aquilo, sei que não escrevi aquilo mas sinto-me como se fosse eu a escrever. Estou a ler e, sem ter qualquer trabalho, vejo aparecer nas folhas, quase por milagre, coisas difíceis de escrever, só tornadas possíveis graças ao talento de alguns. Quero lá saber que seja outra pessoa a escrevê-lo. O que eu quero é ver a coisa escrita, revelada, a emergir no papel. E, ao contrário do que se passa com o electricista, o dentista e a cabeleireira, em que o meu reconhecimento é pago com dinheiro e um obrigado no fim, em relação aos escritores o meu reconhecimento é feito de prazer, júbilo, sentimento de plenitude e de auto-conhecimento por estar a lê-los. É verdade que não me conhecem nem jamais me conhecerão para eu lhes poder dizer isto. Mas não deixam de ficar homenageados no lugar mais rico que existe dentro de mim. 

18 dezembro, 2017

ISTO É MESMO UMA TESOURA


Pensei ter sido vítima do zelo mais extremo e paternalista que se poderia supor, depois de ver um técnico de saúde explicar, com um imaculado fervor didáctico, que a melhor maneira de as pessoas se protegerem do frio é andarem na rua bem agasalhadas e terem a casa aquecida. Precipitei-me, todavia, pois o que parecia ter um valor absoluto logo desceu para um outro mais temperado e relativo. No Modelo aqui perto de casa, na parede junto à mesa onde as pessoas embrulham as prendas em regime de self-service, dois papéis, vermelhos e brancos como os sinais de trânsito de perigo, avisam que as tesouras são objectos cortantes, devendo-se por isso ter cuidado a manuseá-las. Como diria Camilo, «Isto orça por parvoíce mas é original, merecimento raro nas parvoíces que por aí se escrevem e dizem», das quais eu próprio serei o último a ousar ilibar-me.

Com um rigor escolástico digno de um De Ente et Essentia, o que avisa o providencialíssimo aviso, pois é bom lembrar que os avisos visam avisar, é que uma tesoura é mesmo uma tesoura, uma vez que o cortar está para o cortante objecto, como o iluminar para a lâmpada, o refrescar para a ventoinha ou o picar gelo para o picador de gelo, excepto em thrillers eróticos, embora também seja verdade que coisas como BMW's, roupas e camarões que, à partida, serviriam apenas para deslocar, vestir ou comer, visam outros propósitos bem afastados das respectivas essências. Parece recorrer o prudente hipermercado à mesma estratégia que em Mocondo, localidade de Cem Anos de Solidão, onde por causa de uma terrível amnésia que atinge os seus habitantes estes começam a escrever placas como "Isto é uma árvore" junto a uma árvore, "Isto é uma casa" junto a uma casa, ou ainda "Isto é uma vaca e uma vaca dá leite que é preciso tirar diariamente", placa que, como facilmente se presumirá, não seria fixada junto de uma pocilga, de uma capoeira ou de um tanque com peixes, mas no animal cujo nome se lhe adequa tão adequadamente como o nome "rosa" à respectiva flor que se vê e cheira embora haja coisas rosas que não são flor como é o caso de camisolas alternativas do Benfica ou uma Rosa Luxemburgo que até era polaca e nem teve direito a nome de jardim em Paris.

Sendo a comparação legítima, é óbvio que a causa será outra, graças a Deus, que isto de amnésias é mais coisa para afectar políticos, banqueiros e CEO's. Nestes tempos de pós-modernidade, tão pós-modernos que a própria pós-modernidade parece já ser um pré-qualquer, muitas coisas que parecem que são, não o são, enquanto outros que parecem não o ser, afinal são-no, e deixo já as minhas desculpas pelo algo barrocado e retorcido atavio da frase que mais parece ter origem numa "catedrática embriaguês", como diria de novo o grande Camilo, com a sua irónica placidez. Começou na própria arte, com cachimbos que não são cachimbos apesar de o serem, ou com urinóis que sem o deixar não o são de todo. Depois, com a novilíngua de que fala Orwell, com a langue de bois, cunhada pelos franceses, para além da correcção política que tanto aturde as consciências, deixando-as sem saber o que é normal ou anormal, verdade ou inverdade, o mundo, a pouco e pouco, foi perdendo as suas referências. O Modelo, porém, fazendo jus ao seu nome, não está para desvairadas afasias mentais, mostrando aos seus privilegiados clientes que o platonismo ainda não morreu e que na mais pura inteligível realidade, bem acima das contingências deste mundo que, por vezes, como no filme, mais parece um manicómio, uma tesoura é mesmo uma tesoura é mesmo uma tesoura.

17 dezembro, 2017

ÀS CLARAS

Parece que um dos clássicos, em boa verdade, cómicos, das provas cegas de vinhos, é as pessoas darem uma má classificação aos seus próprios vinhos. Se porventura ou desventura pudéssemos trocar os vinhos por pessoas, tanto no plano descritivo como no do exame moral, estou certo de que iria acontecer o mesmo. Porém, como, feliz ou infelizmente, vá-se lá saber, isso não é possível, prevalecerá sempre o que ensina Nietzsche no §98 de Para Além do Bem e do Mal: «Quando educamos a nossa própria consciência, ela beija-nos quando nos morde»

16 dezembro, 2017

O LEITOR FANTASMA

Sir John Lavery| Uma Noite de Outubro

Por mero acaso, calhou ler este texto no qual há duas coisas que não entendo. A primeira, é a sua autora referir o grego antigo de Homero, o japonês de Mishima, o russo de Akhmatova, o húngaro de Márai ou o polaco de Szymborska, como línguas que não domina. Domina? Eu teria falado de línguas que não entendo, das quais não percebo patavina, excepto as palavras "labdarúgás" e "kézilabda" que significam, respectivamente, "futebol" e "andebol" em húngaro, e sei-as pela simples e prosaica razão de ter diariamente o meu matinal choque de realidade, vendo as capas de jornais nacionais e internacionais, incluindo os desportivos. Não incluí o alemão de Thomas Mann ou Hermann Hesse por admitir que se possa dar mesmo o caso da autora não dominar a língua, em vez de nada perceber.

Mas há outra coisa: não saber o que teria sido ser privada de todos aqueles escritores. Eu não conheço pessoalmente a autora do texto mas, fosse o caso, dir-lhe-ia que ser privada de um escritor é tão dramático como Filipe II ter sido privado do fecho-éclair, do qual nunca sentiu qualquer falta pois nunca iria pensar no que não pode ser pensado pelas simples razão de que não se pode pensar no que não se sabe que existe. O mesmo se passa num contexto literário. Embora goste muito, mas mesmo muito, de livros como Antígona, D. Quixote ou Os Maias, confesso não sentir qualquer falta dos livros que nunca chegaram a ser escritos por Sófocles, Cervantes ou Eça, porque nunca se lembraram de os escrever ou porque entretanto morreram. E se, por acaso, Sófocles, Cervantes ou Eça nunca tivessem chegado a nascer em virtude dos seus pais nunca se terem conhecido, ou terem-se conhecido mas em vez de nascerem os próprios Sófocles, Cervantes ou Eça que escreveram aqueles livros, terem nascido pessoas que teriam feito outra coisa na vida, ou dar-se ainda o caso de terem mesmo nascido mas morrido em crianças, facto normal nas suas épocas, não chegando por isso a escrevê-los, que remédio tinha eu senão viver a minha vida sem nunca os ter lido. Espero, portanto, em prol da saúde mental da autora, que não se sinta então especialmente perturbada por existirem excelentes autores por esse mundo fora, dos quais nunca ouviu falar, ou então que já ouviu mas que escrevem, ou escreveram, em línguas que não domina, como o sueco, o albanês, o checo ou o servo-croata, não estando, porém, e desgraçadamente, ainda traduzidos. É que há vida para além dos livros, dos que se leram mas sobretudo dos que nunca se leram nem se irão ler.

15 dezembro, 2017

O LIVRO NA ERA DA SUA REPRODUTIBILIDADE COMERCIAL


Ofereceram-me um livro, já agora, excelente, chamado "Livrarias" cujo autor é Jorge Carrión, um jovem professor catalão. Como o título indica, o livro é sobre o seu próprio elemento natural, o seu ecossistema: as livrarias, neste caso, as mais bonitas ou com mais histórias para contar, de todo o mundo. Portugal não passou ao lado, aparecendo por lá a Bertrand do Chiado, a Ler Devagar e, claro, a Lello. Se um marciano chegado à Terra pegasse neste livro iria perceber que, sendo a livraria uma loja, um espaço comercial onde se vende uma mercadoria, a sua natureza é bem diferente daquela de uma loja de roupa ou de electrodomésticos. Uma natureza que a faz aproximar de muitos restaurantes e cafés que ainda existem por esse mundo fora, aos quais também se vai para usufruir do seu espaço e da sua atmosfera, vistos e sentidos como profanos santuários.

Precisei de passar pelo Modelo para comprar umas cebolas e cenouras mas resolvi dar primeiro um giro pelos livros para uma vista de olhos. Foi com grande surpresa mas também desconsolo que encontrei a capa do "Ensaios sobre Literatura", de Walter Benjamin, tendo lá chapado um auto-colante a dizer "10% de desconto em cartão Continente".  Vi isto e pensei logo no livro sobre livrarias, ficando algo desolado ao ver Benjamin com um auto-colante do "cartão Continente", ainda para mais, não sem alguma ironia, num livro sobre literatura. Mas como tento sempre ver o lado mais simpático das coisas, acabei por depois considerar, já com as cebolas e cenouras a caminho de casa, que a lógica certa não é vermos Walter Benjamin rebaixado ao nível de um espaço comercial onde também se vendem cebolas e cenouras mas ver um espaço comercial onde se vendem cebolas e cenouras também se ter elevado até Walter Benjamin. Há-de também ser isto a dialéctica.

13 dezembro, 2017

A ALEGORIA DA CASERNA


O conceito de "senso comum" é ambíguo. Pode traduzir a ideia de um conhecimento prático, baseado numa clareza e bom senso partilhados por todas as pessoas, independentemente do seu grau académico e cultural. Mas também pode estar associado à ideia, neste caso negativa, de superficialidade, de preconceito, de juízos sem grande critério. Ora, o facto de hoje qualquer criatura ter em seu poder, repito, em seu poder, um teclado, faz com que este sentido negativo se tornasse vulgar nas redes sociais ou nas caixas de comentários dos jornais on line, espaços onde os mais exacerbados estados de alma são vomitados de um modo indigente e boçal,  baixando a inteligência humana para um nível reptiliano.

Eu começo sempre as minhas aulas de Filosofia por uma pequena passagem da "República" de Platão, que ficou conhecida como "Alegoria da Caverna". A ideia é mostrar como é possível pensar nas coisas para além do que o hábito nos fez parecerem ser e que aceitamos sem ponta de espírito crítico. Agarramo-nos a uma ideia e dali já não saímos mais. Acontece que tendo revisto o filme "12 Angry Men", de Sidney Lumet, que tinha visto há uns anos, sou obrigado a reconhecer que o seu valor pedagógico não é inferior ao da sugestiva mensagem da alegoria platónica.

Após toda a apresentação dos factos, os doze elementos do júri reúnem-se numa pequena sala do tribunal para decidirem o veredicto sobre o processo de um jovem acusado de matar o pai. Os factos são de tal modo contra o garoto que nem cinco minutos serão precisos para resolver o assunto. Mas um dos homens pede para pensar melhor, começando a questionar coisas não tão óbvias quanto pareciam. Mas tem um problema: alguns dos homens estão ali com o espírito de quem está descontraidamente numa caserna a dizer umas larachas, encarando de um modo leviano o caso (até porque nesse dia há um importante jogo de baseball), ainda que esteja em causa a vida de um jovem. Daí aparecer logo quem se enfureça pela perda de tempo resultante de uma análise e reflexão mais séria. Acontece que essa reflexão leva alguns a mudar o sentido de voto, enfurecendo ainda mais aqueles cujas opiniões são inabaláveis e nas quais não há espaço nem para um miligrama de dúvida. Um dos que vacilam diz que precisa de pensar melhor mas há logo quem lhe responde que isso só serve para baralhar as cabeças. Um outro, perante alguém que diz "Não sei", reage com violência, respondendo que  "tem de saber", como se um estado de dúvida fosse uma aberração mental. Especialmente um deles, assume todo o fel e raiva que tem dentro de si, descarregando não só nos seus colegas de júri mas sobretudo no garoto que está a ser julgado. Excelente, no filme, o contraste entre a fineza, perspicácia e bom senso do homem que começa sozinho, e a estupidez e boçalidade de outros.

O filme é de 1958, sendo triste pensar como nunca houve tanta gente em cujos olhos e reptilianos intelectos o filme deveria ser espetado como os bolos cheios de creme dos filmes cómicos. Mas também é verdade que quem mais precisaria de o ver é quem menos iria compreendê-lo.

12 dezembro, 2017

DISPENSA DE EXAME

Dizia Platão que uma vida não examinada não merece ser vivida. Compreendo que examinar a vida possa ser um exercício estimulante, seja num ginásio, num banquete, ou no cárcere onde Sócrates viria a morrer, para ficarmos por cenários gregos. Mas apetece-me dizer a este respeito o que disse Unamuno da dúvida cartesiana quando lhe chama "dúvida de estufa", tranquilamente formulada à lareira numa noite de Inverno. Para levar a questão mesmo a sério, deverá ser formulada de outra maneira: só quando não se percebe por que merece a vida ser vivida é que se exige examiná-la. Longe da luz quente e do sereno crepitar da lareira, antes ao frio e à chuva. À lareira, nada há verdadeiramente para examinar, apenas usufruir dela.

11 dezembro, 2017

CINCO MINUTOS SÃO TREZENTOS SEGUNDOS

O filósofo Martin Heidegger e mulher na sua cabana na Floresta Negra

Apresento aos alunos o seguinte caso como ponto de partida para um debate de natureza moral, no âmbito de uma sociedade multicultural: uma funcionária, de origem síria mas ocidentalizada, de uma elegante perfumaria, onde todas se vestem segundo o padrão ocidental, casa com um muçulmano conservador. No dia seguinte, chega ao trabalho com um véu na cabeça e uma túnica que lhe tapa todo o corpo. A dona da perfumaria, não aceitando aquele tipo de indumentária, diz que tem de se vestir como antes, sob pena de ser despedida. A empregada é despedida, fazendo uma queixa-crime da patroa, acusando-a de ter uma atitude racista, xenófoba, discriminatória e intolerante face a outra cultura.

Peço-lhes cinco minutos de silêncio para poderem reflectir um pouco sobre este conflito, ainda antes de tomarem posição e começarem a debater. Faz-se então silêncio. Nem vinte segundos depois, pergunta-me um aluno se é permitido trocar ideias com o colega do lado ainda antes de debater com a turma. Eu, ingénuo, e apesar de não ser o previsto, digo que sim, pensando tratar-se de um caso isolado. Acto contínuo, deparo-me com uma turma de 32 alunos em frenético movimento, uns para o lado, outros para trás, outros ainda esticando-se para a frente, dando origem a uma estridente cacofonia que, não obstante eu perceber tratar-se de um efeito sonoro resultante de estarem mesmo a discutir o assunto, me obrigou a fazer uma coisa que detesto: gritar. Só que o barulho era tanto que nem gritar me ouviam. Só com o estrondoso impacto de um livro que eu, selvaticamente, quase esmaguei na carteira, foi possível aperceberem-se de eu estar a querer comunicar alguma coisa à turma. Finalmente, fez-se silêncio. Silêncio que apenas serviu para eu dizer que podíamos então iniciar o debate. Debate que durou toda a aula, mostrando-se assim como foram bem aproveitados aqueles 5 minutos roubados ao silêncio. Para eles, claro. Já eu limitei-me a lembrar da seguinte passagem de um texto de Simone Weil, escrito no já longínquo ano de 1950:

«Chegámos a uma situação em que quase não pensamos, seja em que domínio for, excepto para tomar posição "pró" ou "contra" uma opinião. Procuram-se depois os argumentos, consoante o caso, seja pró ou seja contra. [...] Um pouco por todo o lado, a posição de tomar partido, de tomar posição pró ou contra, substitui a operação do pensamento». Nota Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos

10 dezembro, 2017

A VOCAÇÃO

Sou contra os quadros de honra nas escolas mas fui à cerimónia da minha para entregar os diplomas a três alunas de quem fui director de turma, que respeito como alunas e pessoas, e por quem tenho bastante simpatia. À medida que os eleitos iam sendo chamados ao palco, aparecia a sua identificação num ecrã gigante, assim como a profissão que irão um dia abraçar: médicos, veterinários, engenheiros, economistas, empresários, enfim, o costume. Encerrada a cerimónia, encontro a C., minha aluna há muitos anos, estando agora ali na condição de já quarentona mãe. Lá pusemos a conversa em dia, a vida, o trabalho, os filhos. Ah, e a irmã? Irmã que era da mesma turma. Muito calada, com ar introspectivo, quase sempre sozinha mas também com o ar mais tranquilo deste mundo, o mesmo ar com que me disse, ainda tão fedelha, que queria ser freira. Ah, e a irmã?, perguntava eu. E a irmã lá continua freira, em Famalicão. É sem dificuldade que a imagino já quarentona mas com o seu ar tranquilo e introspectivo de sempre, longe dos prosaicos e turbulentos meandros deste mundo. Ter uma vocação desde pequena há-de ser uma Graça: poder ser o que se é, com a mesma aristotélica naturalidade com que uma pedra repousa no chão, os peixes se deslocam na água e as aves voam no céu. 

09 dezembro, 2017

06 dezembro, 2017

A CONSTELAÇÃO

[Forografia de Alberto Carlos Lima]

Recebi há dias um mail de um moço que, por mero acaso, passou por este meu texto onde falo de quem ficou para a história como "Buíça, o regicida" e ao qual já voltei diversas vezes assim como ao regicídio propriamente dito, que ainda hoje me custa aceitar. E onde falo também dos seus filhos Elvira e Manuel, a respeito dos quais deixou estes "Apontamentos", dias antes daquele em que sabia que iria morrer. O mail era de um trineto de Buíça, e no qual me dizia nada saber do bisavô mas que a bisavó viveu bastantes anos, tendo falecido com mais de 80 anos.

Foi com uma surpresa de flâneur em cuja presença deflagra uma rua, uma praceta ou um beco da cidade por onde caminha que veio ter comigo a imagem da constelação na versão de Walter Benjamin, a ligação de pontos de luz afastados uns dos outros mas onde é possível desenhar uma imagem com sentido. Parecido, mas ainda assim diferente do que me aconteceu quando tinha 14 anos e calhou apertar a mão a Mário Soares. Era ele na altura ministro dos Negócios Estrangeiros e, dias antes, tinha-o visto na televisão a apertar a mão de Henry Kissinger, na Casa Branca. Logo depois de ter apertado a mão de Mário Soares construí mentalmente a ligação entre a minha mão e a de Kissinger. Mas Kissinger era alguém que estava vivo, sendo a minha aproximação a de alguém que, estando longe no espaço, fazia parte do meu mundo. Era, por isso, de certo modo, ainda uma ligação física, como ainda física é a experiência de Roland Barthes quando diz, diante de uma fotografia, estar a ver os olhos que viram o imperador.

Nesta caso agora é diferente. Eu recebo o mail do filho, do filho, da filha de "Buíça, o regicida", que no dia 1 de Fevereiro de 1908 assassina o rei e o príncipe herdeiro, na praça do Comércio. A praça continua lá mas desapareceram o mundo e as pessoas que lá existiam, assim como o que existiu depois e existiu depois e existiu depois, sendo já absolutamente ténue qualquer ligação física entre o meu mundos e o deles. É antes uma ligação no tempo, uma daquelas ligações quando caminhamos, melancólica e silenciosamente, por ruínas, como Isabel Archer no Coliseu de Roma, ligações que tanto nos fazem deixar por instantes o mundo dos vivos como fazer com que os mortos passem, por instantes, a fazer parte do mundo dos vivos. O trineto de Buíça é, acima de tudo, um jovem. Mas também não deixa de ser uma nova pedra, entretanto descoberta, de uma ruína. E no fundo, e literalmente no fundo, todos nós somos partes de ruínas que, na maior parte dos casos, nunca chegarão a ser desenterradas. Mas, quando isso acontece, são pontos de luz que se ligam, num desenho que brilha na mais negra escuridão do tempo.

05 dezembro, 2017

PERTURBAÇÃO


Não, não venho falar do romance de Thomas Bernhard que dá o título a este post mas do quadro de Balthus, O Sonho de Teresa, o que acaba por também por envolver parte do universo do pintor francês. Não porque tivesse hoje acordado com especial apetência para falar do quadro ou do pintor mas apenas por causa de mais esta magnífica notícia. 

Os testes projectivos são um modelo bastante comum dentro dos testes de personalidade. Trata-se de um teste no qual uma pessoa ao realizar uma tarefa acaba por por projectar aspectos da sua personalidade ou certos estados mentais e emocionais. Por exemplo, põe-se à sua frente um desenho ou uma pintura passível de várias interpretações (quanto mais ambígua melhor), pedindo-se para a interpretar. Ora, ao fazê-lo, e ao fazê-lo de uma certa maneira em vez de outra, permite perceber certos estados internos não directamente observáveis. Lembrei-me destes testes por causa da petição em que se pede para retirar o quadro do Metropolitan, considerando "perturbador" que o grande e prestigiado museu apresente um quadro daquela natureza, lembrando ainda que numa exposição em 2013 dedicada ao pintor se encontrava um aviso que alertava para o facto de algumas pinturas poderem "perturbar" os visitantes. Ora, de que terão medo estes bíblicos zeladores da moral e bons costumes e das consciências? Qual a causa do medo que leva certas pessoas a não quererem ver o quadro, a sentirem-se chocadas com o quadro, a verem no quadro qualquer coisa de ignóbil e perverso? Sim, falam  dos pedófilos. Mas os pedófilos serão as últimas pessoas a sentirem-se perturbadas, chocadas, horrorizadas, com este quadro! 

Olhemos bem para o quadro. Sim, o seu motivo central é uma rapariga numa pose lânguida e numa posição que permite ver as suas cuecas. E apenas isso: uma rapariga numa pose lânguida e numa posição que permite ver as suas cuecas. Um momento que toda a gente que teve filhas, sobrinhas, netas, filhas de amigos ou de vizinhos, observou com raparigas desta idade, onde uma mente infantil ainda torna displicente a relação com o seu corpo e a roupa que o cobre, numa idade em que esse corpo começa a deixar de ser sexualmente neutro. Acontece num sofá, num jardim, no chão de uma sala a ler um livro, a brincar. É normal. Claro que ao passar este tipo de situação para a pintura, terá um impacto que não tem na vida real. Sim, é verdade. Mas o que levará uma pessoa a sentir-se perturbada com a rapariga? Eu olho para ela, volto a olhar, olho para o quadro com atenção, para todo o quadro que existe para além das cuecas da rapariga, e,vá-se lá saber porquê, não sinto qualquer perturbação. E não é por ser pedófilo pois se o fosse poderia sentir uma atracção ou excitação que, de todo, não sinto. Percebo a erotização estética do corpo de uma rapariga que já não sendo criança, não é ainda adulta, consigo mesmo perceber a possível excitação de um pedófilo perante a imagem mas isso não implica sentir a excitação do pedófilo nem a perturbação de quem fica chocado. Mas qual é o problema? Qual é o problema de perceber que uma rapariga está a mudar e a ganhar um corpo sexuado? É preciso ficar chocado, por um lado, ou excitado, por outro? Temos que ficar chocados ou excitados sempre que vemos uma mulher nua num quadro? Não podemos apreciar esteticamente um corpo nu numa pintura sem ter que, digamos assim, sentir os mais primários impulsos a darem sinal? Sim, repito, eu vejo esta rapariga e percebo perfeitamente que é uma rapariga que se está a tornar mulher. E vejo o gato, vejo o quarto ou sala, vejo a cor, vejo a luz, vejo toda a atmosfera que envolve o quadro e cujo impacto estético é inegável.

Uma das coisas que me dão verdadeiramente prazer é entrar na sala de um museu, ver lá muito ao longe um quadro que nunca vi e adivinhar o seu autor. Dizer "Olha ali um El Greco, olha ali um Modigliani, olha ali um Rubens, olha ali um Schiele". Porque uma das coisas que mais gosto na pintura é o facto de cada pintor criar um mundo novo, que é só dele, ou que não sendo apenas dele, tem a sua própria impressão digital. Não quer isto dizer que o simples facto de ter um mundo faça com que goste dele. Há pintores que o têm e considero-os insuportáveis. Balthus, não sendo um dos meus pintores preferidos, criou um mundo de grande valor artístico e passível de proporcionar uma experiência estética que posso estar longe de desprezar sem que esteja aqui obcecado a pensar nas cuecas brancas da menina ou seja lá o que raio mais for. As cuecas da menina não mordem. Morder, isso sim, mordem as consciências de muitas pessoas.

04 dezembro, 2017

FRITZ VON UHDE - A IRMÃ MAIS VELHA, 1885



Poder ter estado alguma vez numa velha casa abandonada, cheia de caliça pelo chão e por objectos destroçados, permite saber o que é uma casa abandonada cheia de caliça pelo chão e por objectos destroçados. Saber o que é uma casa suspensa na sua tranquila ruína da qual o tempo fugiu, deixando-a ensimesmada e entregue a um vazio que se eternizou. Claro que será sempre possível propor o exercício a quem nunca esteve numa casa assim, pondo a sua imaginação a trabalhar, associando imagens conhecidas para dar origem a novas imagens. É o que fazemos, por exemplo, com seres imaginários como o centauro ou a sereia. Nunca ninguém os viu mas, graças à imaginação que associa coisas conhecidas, como homens e cavalos ou mulheres e peixes, podemos então ver coisas nunca vistas. Portanto, é possível imaginar o interior de uma velha casa abandonada, cheia de caliça que vai obstruindo os seus poros e impedindo-a de respirar. Mas não é a mesma coisa. A imaginação pode ser poderosa mas faltam-lhe as verdadeiras sensações, ouvir o verdadeiro silêncio, sentir o cheiro, as verdadeiras cores e, sobretudo, captar numa só impressão um todo que é anterior à soma das suas partes. 

Eu já estive e diversas vezes. Daí ser essa a minha primeira impressão perante esta tela do pintor alemão cujo pincel é levado por uma sensibilidade impressionista. Com a diferença, porém, de, neste caso, a casa não estar abandonada, estando duas figuras humanas, duas irmãs, que certamente habitam a casa desabitada. Não se trata de uma contradição, isto de habitar uma casa desabitada, bastando olhar para o entender. O modo como as duas figuras sobressaem do fundo da tela graças a contornos bem definidos, aproxima-se de uma abordagem realista, longe, portanto, da impressão mais pura e radical, tão comum na época, em que a figura humana se desvanece na própria paisagem ou se transforma em mancha, em traço ou em simples ponto inscrito na tela. Mas as duas figuras também estão de tal modo presas ao fundo que acabam por fazer parte dele. E não estou sobretudo a pensar na continuidade cromática entre a saia da irmã mais velha e as pernas da irmã mais nova com o resto da casa. Penso, sim, ou melhor, vejo, caliça por todo o lado e não apenas a desfazer-se na parede, no chão ou sobre a cadeira como numa típica casa abandonada e em ruínas. Uma caliça omnipresente, uma insidiosa caliça que uniformiza toda a casa e à qual não escapam as duas figuras que lá vivem. Por isso a casa não está verdadeiramente habitada, isto é, ocupada por pessoas que se posicionam sobre um espaço que lhes é exterior. Estas duas raparigas, estando lá, são duas ruínas dentro da própria ruína, dois fantasmas oprimidos pela atmosfera fantasmagórica da casa e cuja respiração e cheiro é a respiração e cheiro da própria casa.

Mas o quadro tem tanto de dramático como de esperança. Há duas manchas cromáticas dissonantes na imagem. O branco na irmã mais nova, um branco que exprime uma pureza e inocência que nada tem que ver com o infectado branco da caliça que contamina todo o quadro. Mas vale sobretudo o vermelho da irmã mais velha. Um vermelho que tanto pode ser de sangue como de fogo, sangue ou fogo que imprimem  um sopro vital, movimento, energia a duas figuras em risco de desvanecimento. Faz por isso todo o sentido que este quadro onde surgem duas irmãs, se intitule A Irmã Mais Velha. Não se trata de dar mais valor a uma do que a outra enquanto pessoas mas apenas de traduzir sinteticamente o que se está aqui a passar. A mais pequena, olhando sem nada perceber do que acontece, do que vive ou até da própria casa enquanto a mais velha, qual poderosa locomotiva de ferro, caminha para o exterior, para um mundo real que existe lá fora. A direcção do olhar para baixo não exprime submissão, desistência ou vacilação. É o olhar de quem tem o peso do destino às suas costas  e que contra o qual tem de lutar em vez de se sentar numa cadeira com pedaços de caliça e a desfazer-se. A história conhecida destas duas raparigas começa e acaba aqui nesta imagem. Não há aqui nem antes nem depois, apenas um movimento suspenso. Mas a cor da sua camisa, a firme robustez do seu corpo e aquele olhar não ausente mas antes concentrado no que mais importa, faz-me acreditar que passado pouco tempo a casa ficou finalmente entregue ao silêncio e aos restos de caliça que continuaram a cair como flocos de neve numa despida paisagem invernal.

03 dezembro, 2017

EDUCAÇÃO COGNITIVA


Há muitos anos, o crítico de televisão Mário Castrim veio a Torres Novas dar uma palestra e fui ouvi-lo. Foi mesmo há muitos anos e já não me recordo de nada do que disse, excepto a sua defesa de uma certa ideia de censura, ainda que pedagógica. Claro que ouvir um comunista dizer "censura", ainda que por elevadas razões pedagógicas, faz sempre ficar de pé atrás, se pensarmos nos opressores regimes que ainda são uma referência para a nossa esquerda paleolítica que celebra a Revolução de Outubro. Mas sendo eu todo ouvidos e nada preconceituoso, levei a sério uma analogia que serviu de base ao seu argumento: se existem medicamentos que não são de venda livre pelos seus possíveis efeitos secundários, por que não há-de acontecer o mesmo com produtos culturais que podem influenciar negativamente os comportamentos? A analogia é poderosa e o tema delicado, sendo isso razão para que goste sempre de o discutir, tendo-o já proposto várias vezes para debater em 90 minutos de aula de Filosofia.

Excluindo, por razões óbvias, os nichos infantil e juvenil, ou conteúdos que, fora de um contexto artístico, incentivem ostensivamente qualquer tipo de violência (por exemplo, o terrorismo ou violência sexual) sou contra qualquer tipo de censura ou condicionamento das artes no que toca à transmissão de valores ou diferentes registos de vida. Ao contrário dos medicamentos, onde a relação causal entre a sua ingestão e um dado malefício é clara e directa, nada me diz que a mesma se estabeleça entre um filme ou um livro e um comportamento desviante. Não só a esmagadora maioria das pessoas, apesar dos zeladores das consciência pensarem que não, tem dois dedos de testa para saber distinguir um filme da realidade, como são múltiplas e complexas as causas que levam as pessoas a serem o que são. Não vejo por isso qualquer razão para impedir o que para mim é sagrado e inalienável: a liberdade criativa, mesmo que não gostemos do seu resultado, e a sua imunidade face a quaisquer amarras ideológicas que a limitem.

Não é por acaso que venho com esta conversa, que tanto serve para as artes como para a vida quotidiana. Em Portugal passa um bocadinho ao lado (havendo algumas felizes excepções) mas há países onde se está a dar grande destaque ao assunto, nomeadamente por causa dos ventos moralistas (sobretudo no mundo anglo-saxónico) que pretendem varrer tudo o que possa contaminar ideias bacteriologicamente puras no campo dos valores e comportamentos, fazendo com que a clássica ligação entre censura e regimes ditatoriais passe para dentro de sociedades livres e abertas. A França é um dos países onde o tema está na ordem do dia e vou pegar em três situações distintas.

Uma pessoa lê isto e não pode deixar de pensar que virá um dia, caso seja um filme português, em que os actores não vão poder aparecer a comer feijoada, cozido à portuguesa, francesinhas ou tripas, uma vez que pode contribuir para o aumento de doenças cardiovasculares. E nem pensar em cenas em restaurantes de fast food. E que para além do facto de já não haver heróis ou heroínas de cigarro na boca (uma boa ideia é meter só os maus a fumar para pavlovianamente  se sentir aversão pelo acto de fumar), também irá desaparecer de todos os filmes qualquer tipo de bebida alcoólicas, apenas, vá, uma cervejita ou outra mas na condição de ser um filme para maiores de 18 anos e com bolinha vermelha. E por falar em bolinha vermelha, em cenas de cama, os actores deverão deixar bem claro aos espectadores, que usam preservativo: sempre que vai haver sexo, o actor pisca o olho para a câmara enquanto abre o preservativo, para criar um clima de pedagógica cumplicidade com o espectador. E os heróis devem passar a ser também representantes de minorias. Nada de heróis brancos, heterossexuais e saudáveis, o herói deve passar a ser preto, homossexual, ou transsexual, ou bissexual, ou panssexual e, já agora, se tiver algum tipo de deficiência, tanto melhor.

Por outro lado como aqui, se pode ver, passou-se a questionar a possível avaliação de uma obra cinematográfica com base nos defeitos morais dos seus realizadores ou actores (o caso recente da troca de Kevin Spacey por Christopher Plummer no trabalho de pós-produção do último filme de Ridley Scott, é eloquente). Eu nem quero pensar na quantidade de escritores, compositores, músicos, pintores, cujas obras irão um dia para o Index, pela sua associação a valores considerados repugnantes. O que mostra que, segundo os guardiões do politicamente correcto, os espectadores são duplamente estúpidos. Estúpidos porque levam os maus exemplos do cinema para a realidade (Será que no tempo de O Último Tango em Paris, terá havido um aumento brutal na compra de manteiga?) mas também por levarem os maus exemplos da realidade para o cinema, ainda que o actor ou a actriz façam papéis de anjinhos da guarda.

Muito interessante esta entrevista com uma professora de cinema em Chicago que, num acto de grande coragem e resistência cívica, deita uma aliviadora água na fervura, só por dizer que há situações e situações no que diz respeito ao que se pode considerar ofensa ou crime sexual. E há coisas que são efectivamente de mau gosto e merecem reprovação. Por exemplo, transformar uma apresentadora de televisão num objecto sexuado é reprovável e merecedor de crítica, uma vez que desvirtua o seu papel que, naquele contexto, não passa pela sua "boca de felatio", as mamas ou as pernas. Outra coisa, porém, é sexualizar o corpo masculino ou feminino no cinema, na pintura ou na fotografia. Reprovar ou limitar esse processo nada tem que ver com a arte em si mas com representações ideológicas  e morais que, podendo até ser justas e sensatas, não têm legitimidade para condicionar o processo artístico. Infelizmente, parece termos conversa para muito tempo.

02 dezembro, 2017

JOSÉ SÓCRATES




«Quando temos de mudar de opinião acerca de alguém, atribuímos-lhe com rudeza o desagrado que ele nos provoca com isso». F. Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, § 124

Um polícia mata, acidentalmente e em legítima defesa, um homem que acabara de cometer um crime. Sendo o polícia conhecido pelo seu método pouco ortodoxo para lidar com criminosos, e recentemente punido por isso pelo seu superior, fica assustado com a ideia de não acreditarem no que aconteceu e resolve esconder o morto, que virá entretanto a ser descoberto. O principal suspeito, por razões que não vale a pena explicar, é um taxista já velhote, bonacheirão, excelente homem, algo ingénuo até, e pai da rapariga com quem o polícia recentemente se envolveu (uma Gene Tierney sempre em estado de graça), também uma doce e gentil pessoa que adora o pai. Temendo dizer a verdade, mas também angustiado com a ideia de ver o inocente velhote acusado, o polícia diz que se deve seguir a pista de um patife ligado ao bas fond mas, de facto, sem qualquer relação com o crime. Isto passa-se num film noir de Otto Preminger chamado Where the Sidewalk Ends [O Castigo da Justiça]. Eu estou a ver o filme com a consciência de estar a sentir o que o realizador quer que eu sinta: que o patife, apesar de inocente, venha a ser considerado o autor do crime. É perverso da minha parte? É. Apesar de o homem ser o que é, não cometeu o crime, sendo por isso moralmente errado desejar a sua acusação. Mas também sou humano, significando isso que, para além de pretender orientar-me por crenças, desejos e decisões racionais, sou também feito de insidiosas emoções e sentimentos.

Vem isto a propósito de José Sócrates. Mesmo reconhecendo que não fica bem fazer exercícios de auto-enaltecimento, vou perder o pudor e assumir que sou uma boa pessoa e com bom feitio, muito pouco dada a ódios e aversões radicais. Há, porém, algumas excepções, e José Sócrates é uma delas. O homem consegue fazer soltar o vago e remoto selvagem que há em mim, exaltando emoções que deviam estar desactivadas algures numa caverna pré-histórica. Só que perante tão execrável criatura, não consigo sentir menos do que nojo e repugnância. Esta asquerosa personagem da nossa democracia está acusada de diversos crimes, beneficiando, porém, formalmente, da presunção da inocência. Quando, entretanto, o julgamento se iniciar, há duas possibilidades: é ilibado e vai para casa gozar a sua vida, ou é acusado de todos ou alguns dos crimes e passa a ver o Sol através das grades. É aqui que, pecador me confesso, torço ardentemente para que seja considerado culpado. Eu sinto e acredito que o homem não presta, que não passa de uma reles pessoa. Se for culpado, isso vai confirmar o que penso dele, apaziguando assim a minha consciência, pois apenas desejo que ele seja mesmo o que desejo que ele seja, evitando assim uma desconfortável dissonância entre o que eu desejo pensar (que cometeu os crimes) mas que a realidade não consegue provar. Já vê-lo ilibado dos seus crimes os quais, se for esse o caso, não foram cometidos, não irá de qualquer modo alterar a minha ideia a seu respeito, deixando-me, por isso, desiludido. Deus é grande e há-de saber perdoar-me. 

30 novembro, 2017

DEUS 2.0

[2001 Odisseia no Espaço]

[também aqui]

O problema da existência de Deus foi, até ao século XIX, tema incontornável da Filosofia, não havendo filósofo que não metesse a sua colherada nem que fosse para deitar veneno. Depois, quase recebeu a extrema-unção. Resistiram as diversas artes com grandes obras sobre a felicidade ou angústia de um mundo com ou sem Deus, mas foi sobretudo na agenda ideológica que se manteve mais animado, sendo Deus amigo ou inimigo conforme a cartilha política republicana, monárquica, integralista, fascista, anarco-sindicalista, comunista, socialista, democrata-cristã, católica progressista, sem esquecer a Carbonária que, antes de Al Gore, era o CO2 da igreja. E não faltavam jovens católicos com avassaladoras crises de fé, sobretudo após leituras de obras como O Drama de Jean Barois, ou pelo triste e cruel espectáculo de um mundo incompatível com a ideia de um Deus misericordioso mas que mais parecia um surdo-mudo incapaz de comunicar por linguagem gestual. No final do século ainda houve alguma animação com manifestações à porta de cinemas por motivos religiosos, embora como reacção popular a uma imagem heterodoxa de Cristo ou Maria e não pela existência de Deus no seu mais sofisticado e perfumado sentido filosófico ou teológico.

Ao pensar agora nas minhas inflamadas discussões liceais sobre a existência de Deus, entre imperiais e tremoços no café Portugal ou entre imperiais e queijinhos amanteigados no Zé da Ana, combustadas pelas fervorosas jacobinices de um niilista russo do século XIX, vejo todo um mundo que se finou. O problema é hoje tão estimulante para um jovem como uma máquina de fazer gelo para um esquimó. Ao introduzi-lo nas aulas, na esperança de estimular alguma adrenalina mental, via alunos anestesiados com a mesma dose de abulia que os levaria a sacar do telemóvel perante um discurso parlamentar de Jorge Lacão sobre a reforma do Estado num programa a preto e branco ainda do tempo do Eládio Clímaco, na RTP Memória. Contrariamente a fait-divers cómicos sobre a Coreia do Norte, a existência de Deus não chega sequer a ser um problema desinteressante mas apenas um não-problema.

Mas consegui um bom truque culinário para inverter a situação: um modernaço e gourmet molho conceptual. Jogando com os conceitos de causalidade e acaso, exorto os garotos a imaginarem Deus como um super-hiper-mega-giga computador cósmico cuja base de dados contém tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá no universo. Enfim, uma espertalhona versão high-tech da clássica e mais humilde noção de “omnisciência”. Nada que faça lembrar pais, filhos ou espíritos santos, conversa de catequese ou missa dominical, apenas e só um super-hiper-mega-giga computador cósmico, toma e embrulha! Vejo então caras limpas das vacuidades do Facebook e de vídeos estúpidos do Youtube e, agora sim, sinto pensamentos fervilhando dentro das cabeças com tão cool sugestão. Entretanto, eles discutem e eu já não me sinto o melancólico espectro de um niilista russo do século XIX que arrumava a existência de Deus na classe dos opiáceos e outras drogas duras. Sinto-me vivo e filosoficamente titilante e, graças a Deus, já desintoxicado dos não menos duros opiáceos contrários.

29 novembro, 2017

WUTHERING DAYS

É um privilégio da língua portuguesa a palavra tempo poder ser usada tanto num sentido cronológico como meteorológico, coisa impensável em línguas que distinguem time e weather ou zeit e wetter. Permite, por exemplo, olhar para o calendário e ver os agrestes temporais do Yorkshire.