19 outubro, 2017

PSICOPATOLOGIA DA VIDA QUOTDIANA

Jean Luc Godard | Bando à Parte

Estou sossegadinho na biblioteca a corrigir testes. Na mesa ao lado sentam-se duas fedelhas de 12 ou 13 anos que começam a falar alto e a rir bastante. Passado algum tempo resolvo intervir. Chamo-as, elas viram-se para mim, e explico que me estão a perturbar. Uma delas, com ar muito arrependido, pede desculpa, virando-se de novo para logo de imediato continuarem a falar tão alto e a rir tanto como anteriormente, presumo que sobre o assunto que as obriguei a interromper. 

18 outubro, 2017

PORTUGAL DOS PEQUENITOS

August  Sander

Ao aproximar-me do meu prédio, vou dar com três alunas minhas sentadas nas escadas que lhe dão acesso. Pergunto se estão a preparar um plano para me assaltarem a casa, mas não, estão apenas à espera que abra a loja que fica por baixo para pedirem um patrocínio. Festa de finalistas ou baile de gala, já? Não, patrocínio para a lista que irão formar para a Associação de Estudantes e cujo processo eleitoral começa em breve.

Vamos lá então tentar perceber. Alunas do 12ºano, isto é, pré-universitárias, consideram normal andar de loja em loja ou empresa em empresa a pedir patrocínios para uma lista que vai concorrer para a A.E. de uma escola, pois precisa de dinheiro para o habitual folclore de T-shirts, balões, rebuçados, papeladas mil, material lúdico alugado para pôr a garotada a fazer actividades, mesas de som e colunas altamente sofisticadas graças às quais a escola irá ser, durante os dias de campanha, transformada num Inferno. Por outro lado, comerciantes e empresários consideram normal dar dinheiro a jovens pré-universitários que formam listas para uma Associação de Estudantes, sem nada saberem a respeito das qualidades ou defeitos dos seus membros, do seu programa, do seu projecto, só porque é um modo de fazerem publicidade à sua loja ou empresa.

Há uns anos, tive um aluno do 10ºano a quem disse, em jeito de brincadeira, por ser bastante argumentativo e mostrar algum interesse por assuntos sociais e políticos, que teria um grande futuro na política. No ano seguinte, por ter mudado de área, deixou de ser meu aluno mas soube que passara a ser delegado de turma (creio que os políticos começam sempre por ser delegados de turma). Dois anos depois, isto é, já pré-universitário, como as alunas que agora pedem patrocínios em lojas, vem ter comigo na rua, bastante entusiasmado, para me dizer que iria mesmo meter-se na política. Perguntei em que partido se iria meter, explicando-me então que tinha dois convites, um da Juventude Socialista e outro da Juventude Centrista, não sabendo ainda muito bem qual deles iria aceitar.

Há bastante tempo que não vou ao Portugal dos Pequenitos, em Coimbra. Mas lembro-me bem da última vez que lá fui e do meu espanto com a enorme verosimilhança das suas casas e de alguns arranjos urbanísticos: nós olhamos para as casas pequenas e conseguimos ver as grandes. Só mesmo a escala é diferente.

17 outubro, 2017

GRANDES CANÇÕES (7) - GILBERT BECAUD - L'IMPORTANT C'EST LA ROSE


AS BOCAS E OS FRUTOS

Severin Roesen | Natureza Morta com Frutos

Ninguém pode saber exactamente o que sentiu Adão perante a pletórica dimensão vegetal do paraíso. Mas eu bem sei o que senti há tempos na minha cozinha, transformada num edénico jardim de sabores, e não deve ter andado muito longe da virginal volúpia do nosso avô, anterior à ignóbil expulsão ordenada por um deus despótico e caprichoso.

Tenho sempre fruta em casa. O que nem sempre acontece é toda ela ser de uma olímpica qualidade. Na verdade, acontece poderem ser as óptimas pêras e as uvas mas já os pêssegos não serem por aí além ou o melão ser arraçado de pepino. Ou o contrário. Daí o que me aconteceu ser uma espécie de milagre que fez de mim uma abençoada criatura: possuir (digo "possuir" em vez de "ter"), ao mesmo tempo, sem excepção, num grau de absoluta perfeição, e aí vai disto, uvas, maçãs, mangas, pêssegos, pêras, bananas, dióspiros, romãs e laranjas. Para a bênção ser suprema só faltavam aquelas carnudas cerejas, belas e escuras como sangue seco, e com aquele sabor que dá a um filósofo existencialista a mais brilhante luz ao fundo do túnel.

Ao comer um daqueles suculentos pêssegos com um final floral, fui obrigado a concluir ser o pêssego a melhor fruta do mundo. Sim, aquela sensação de prazer que obriga a pensar que não pode ser superada por qualquer outra. Porém, chegada a vez de comer um cacho de umas tremendas uvas moscatel, tive precisamente a mesma impressão, surgida com a clareza e distinção de uma ideia platónica, só que na minha boca, cada vez mais transformada num céu de pura inteligibilidade: nada há de melhor do que um cacho de uvas. E isto, tendo ali à minha frente os mesmos pêssegos que me fizeram dizer, com matemática evidência, ser o pêssego a melhor fruta ao cimo da Terra. E a mesma impressão foi surgindo com o dióspiro, a romã, a sumarenta pêra, tudo perfeições supremas, absolutas, unas e indivisíveis. Atenção, uma coisa é a pessoa comer as uvas perfeitas e o pêssego perfeito mas, gostando mais de uvas ou de pêssegos, acaba por preferir uma perfeição a outra perfeição. Eu posso considerar Messi e Federer os melhores jogadores mas, gostando mais de futebol do que de ténis, posso preferir a "perfeição" de Messi à "perfeição" de Federer. Porém, no caso da fruta, não fui capaz de eleger uma perfeição em detrimento das outras. Direi então, sendo cada fruto um centro absoluto, tratar-se de valores incomensuráveis, impedindo qualquer tipo de gradação, hierarquização, relativização.

Ora, o mesmo se pode passar com as pessoas e os seus projectos de vida, as suas experiências, as suas percepções do mundo, muitos deles radicalmente diferentes entre si. Claro que cada pessoa pode preferir um registo a outro. Eu imagino-me a fazer certas coisas e não me imagino a fazer outras. Mas serei obrigado a reconhecer que a pessoa que se imagina a fazer o que eu não consigo imaginar para mim, pode não conseguir imaginar para si o que eu consigo imaginar para mim. Eu detesto rins e iscas. Mas consigo perceber que o prazer de algumas pessoas a comer rins e iscas não andará longe do meu prazer a comer as uvas moscatel ou aqueles pêssegos com sabor floral. Não estou com isto a pensar em valores morais, caindo num perigoso relativismo. Há limites que nunca podem ser ultrapassados e que podem ser considerados objectivamente imorais. Mas até essa linha fica ao critério de cada um a fruta perfeita que deseja comer.

16 outubro, 2017

EM ROMA SÊ ROMANO

Tim O'Brian

Consta que o perfil sexual dos seminaristas vai passar a ser investigado para evitar a ordenação de padres com tendências homossexuais. Nada tenho contra os pruridos da igreja católica com o sexo, como nada poderei ter contra a castidade e celibato dos padres. Não sou católico nem padre, nada disso, portanto, me diz respeito. Não significa, porém, que, enquanto ser racional que me esforço por ser (embora tantas vezes falhado), não estranhe a discriminação de que são alvo os putativos padres homossexuais. Se a igreja católica proíbe os seus padres de terem relações sexuais ou refrear as pulsões sexuais com que a natureza os dotou, que diferença fará um padre ser homossexual ou heterossexual? O que deve fazer um padre atraído por uma mulher? Refrear, anular ou sublimar a sua pulsão sexual e seguir em frente para cumprir as suas tarefas eclesiásticas. O que deve fazer um padre atraído por um homem? Refrear, anular ou sublimar a sua pulsão sexual e seguir em frente para cumprir as suas tarefas eclesiásticas. Se é suposto castrar o ser sexuado que há em cada padre, o que distingue então um padre homo de um padre hetero? Um padre sexualmente castrado será apenas um padre sexualmente anulado e o que não existe não  pode ter graus ou naturezas.

15 outubro, 2017

CRASH

O realizador David Cronenberg


«Cala-te quando falas comigo!» Do filme Gato Preto, Gato Branco, Emir Kusturica


Vou muito sossegado na minha caminhada quando, ali na recta que vai do colégio Andrade Corvo até à rotunda da Atouguia, passam dois carros a apitar um para o outro. Pelo modo como as buzinas tagarelavam, percebi logo tratar-se de arrufo entre condutores, confirmado depois pelo modo como gesticulavam. A estridência sonora ainda se prolongou durante um bocado. Ora apitava um, ora apitava outro, ora apitavam os dois ao mesmo tempo, ora com sons mais longos, ora com sons mais curtos. A situação tornou-se cómica pelo modo como as buzinadelas sugeriam a ideia de frases sonoras, transformando aquilo num diálogo. Diálogo insólito, é verdade, pois um diálogo implica uma linguagem, e uma linguagem com uma estrutura sintáctica e semântica que dê um sentido ao que diz A e, consequentemente, ouvido por B, ou o que diz B, ouvido depois por A, enquanto duas buzinas não passa de simples ruído, uma informe manifestação sonora em que cada um das partes tenta impor-se à outra. Mas também é verdade que já assisti a pequenas e longas conversas em que o objectivo, apesar de palavras em vez de buzinas, é exactamente o mesmo. As palavras servem apenas para disfarçar, dando uma aparência racional ao discurso, pois o que conta mesmo é buzinar. Buzinar mais e buzinar mais alto do que a buzina do interlocutor. 

14 outubro, 2017

CLÍNICA GERAL

Eugene Smith | Série Country Doctor

No mercado, peço ao senhor dos queijos que me desse o mais forte de ovelha que lá tivesse, dando-me então a provar três lasquinhas de queijos diferentes. Como acordei bem disposto, e apesar de falar com ele pela primeira vez, apeteceu-me comentar que ando a pensar suicidar-me e como não gosto de métodos violentos iria tentar através do colesterol. Foi o suficiente, juro pela saúde dos meus filhos, para levar com uma dissertação de uns quinze minutos sobre nutricionismo, medicina quântica, grupos sanguíneos, tipos de gordura, tipos de carne, animais alimentados a milho, animais alimentados a trigo e aveia, alimentação no tempo das cavernas e outras coisas do género. Momentos depois, enquanto encho um saco com romãs, a velhota volta a repetir (creio que pela terceira vez) a história das romãs fazerem muito bem à saúde e que uma cliente sua, uma doutora médica, as leva aos magotes, presumindo cá para mim que com o espírito de quem sai de uma farmácia. Entretanto, tive de passar pelo Modelo e como me esquecera de comprar batatas, aproveitei para o fazer. Não é que junto delas está agora uma indicação com as propriedades das batatas que são favoráveis à saúde? Mas a cereja em cima do bolo vi eu, há dias, no Porto. Na rua da Torrinha descubro um sapateiro cujo nome é "Clínica do Calçado". Fiquei estarrecido com a designação. Entretanto, horas depois, desta vez na rua do Paraíso, volto a encontrar outro sapateiro também chamado "Clínica do Calçado". Pensando tratar-se de um franchising, resolvi pesquisar. Não, não é um franchising mas antes um conceito. A clínica da rua da Torrinha chama-se "Antes e Depois", a clínica da rua do Paraíso chama-se "Amândio G. Ferreira", vindo entretanto a descobrir mais clínicas destas no país. Parece pois que deixou de haver sapateiros para passarmos a ter clínicos de sapatos. Se pensar na obsessão sanitária de que enferma a vida moderna serei obrigado a concluir que tudo bate certo. E eu, ingénuo, que pensava que quando se mandava beber água do Vimeiro porque a saúde estava primeiro, era só por se tratar de uma rima que daria um slogan giro para entrar no ouvido.

13 outubro, 2017

A MONTANHA MÁGICA

Pawel Kuczinsky

Há dias, no final de uma aula, um aluno, excelente e inteligente aluno, de resto, veio ter comigo muito entusiasmado por ter descoberto que eu tenho um blogue mas lamentando também, logo de seguida, serem os textos muito grandes, assumindo, embora de um modo elegante e eufemístico, não ter grande paciência para os ler. Engraçado, pois isto passou-se poucos dias depois de eu estar a falar com um colega que me dizia ter grande admiração intelectual por Pacheco Pereira mas sem paciência para ler as suas crónicas devido à sua assustadora dimensão. 

A actual reacção a esta pachecopereirização do texto, fez-me lembrar o que dizia Nabokov relativamente ao facto de haver escritores de fundo e de velocidade e de cada escritor ter um número de página que nunca deverá ultrapassar:  «Um editor disse-me uma vez que cada escritor traz gravado dentro de si o número exacto de páginas que nunca ultrapassará em nenhum livro. O meu número era, salvo erro, o 385. Tchekov nunca poderia escrever um verdadeiro romance comprido. Era um sprinter e não um stayer. Dá a impressão de que não sabia manter focado, durante muito tempo, o padrão de vida que o seu génio apanhava por todo o lado; só era capaz de manter o encanto vivo deste padrão pelo período necessário a um conto, mas não podia conservar os pormenores necessários a uma narrativa longa e em grande escala».

Ora, talvez se possa então também dizer que cada leitor terá uma quantidade de leitura que não deve, ou não pode ultrapassar. Fará pois também sentido concluir que o actual leitor médio não consegue suportar o tempo de leitura do leitor médio de outros tempos. Há uns anos, resolvi finalmente ler "Guerra e Paz", tendo precisado de vários meses para chegar ao fim. O livro é uma verdadeira obra-prima, tive um enorme prazer em lê-lo mas lembro-me igualmente de uma certa sensação de alienação por tudo o que não estaria a ler durante esses meses, e que era muito, e cada vez mais. Claro que não me arrependi nada de o ler, sendo ainda hoje um livro ao qual regresso imensas vezes para me deleitar com muitas das passagens que sublinhei. Mas torna-se cada vez mais difícil aguentar tanto texto numa época em que, para além de muitos outros estímulos visuais ou sonoros, estamos rodeados de pequenos textos por todos os lados, de fácil e rápida leitura, textos que todos os outros lêem, o que aumenta ainda mais a necessidade de os ler. Ou seja, haver um mundo lá fora que corre velozmente enquanto estamos durante tanto tempo com um romance, pode, na verdade, criar um sensação de perigoso alheamento face a esse mundo.

Mas trata-se ainda de uma outra razão, a qual atinge igualmente o texto jornalístico ou bloguístico, se pensarmos em blogues cujos textos se apresentam com o registo de crónica. Num tempo em que a informação surge cada vez mais triturada para que possa ser consumida sem ter que mastigar muito e, depois, facilmente digerida, qualquer crónica pachecopereirizada surge como obstáculo intransponível. Nada disto tem que ver com uma menor inteligência, qualquer tipo de regressão intelectual de natureza civilizacional, mas apenas com uma nova gestão do tempo que nos torna naturalmente incapacitados para grandes textos, embora preservando as nossas naturais faculdades. Se pensarmos na leitura de um jornal numa época anterior à televisão e, entretanto, à Internet, percebemos facilmente ser a disponibilidade mental para a leitura de um jornal muito maior. Lembro-me de estar a passar uns dias numa aldeia, sem nada para fazer, com todo o tempo do mundo, havendo ao lado de casa um café onde todos os dias lia o "Correio da Manhã" depois de almoço. Eu nunca tive o hábito de ler o "Correio da Manhã" mas acabava sempre por consumir o jornal de uma ponta a outra, lendo o que interessava e o que não interessava que, já agora, era quase tudo. O mesmo se passa quando na sala de espera de um consultório acabamos por ler coisas que, no dia-a-dia, jamais iríamos ler, envolvendo não apenas coisas que não interessam mas também outras que interessam. Estar em 1930 num café a ler um jornal ou ir levar um jornal para casa para ler depois de jantar ou já deitado na cama, não é o mesmo que o ler hoje. Daí a lógica da twitterização se sobrepor cada vez mais à lógica da pachecopereirização.  Continua-se a escrever longos romances ou longas crónicas de jornal? Sim, claro. Porém, trata-se de um registo cada vez mais cultivado apenas, algo romanticamente, por quem teima em viver num mundo que foi o seu e que se aproxima cada vez mais do seu fim. 

12 outubro, 2017

GRANDES CANÇÕES (6) - BLONDIE - MARIA


NACIONALISMO


Admito ser limitação minha mas há dois sentimentos que, por muito que me esforce, não consigo entender: o sentimento religioso e o sentimento nacionalista. Quanto ao primeiro, percebo que uma pessoa consiga acreditar no que deseja muito acreditar ou apenas por uma preguiça mental que evita duvidar do que se começou a acreditar numa fase da vida em que é possível acreditar seja no que for. Isso percebo. Só não consigo é ter a minha própria experiência da experiência de acreditar numa coisa na qual não faz o menor sentido acreditar. Percebo que uma pessoa acredite numa coisa absurda como 8x7 serem 63. O que não consigo é ter a experiência de acreditar que 8x7 são 63 quando me sinto racionalmente obrigado a acreditar que são 56. Pronto, é mais ou menos isto.

Ao contrário da religião, com o sentimento nacionalista não existe a crença num objecto que tudo leva a crer que seja falso. Por muito legítima que seja a emoção na experiência religiosa, estará sempre condicionada pela verdade ou falsidade dos seus conteúdos. Claro que o sentimento nacionalista pode estar infectado por crenças falsas ou simplesmente frágeis de carácter histórico ou filosófico. Mas o que conta verdadeiramente no sentimento nacionalista é de natureza emocional e as emoções não são verdadeiras nem falsas, apenas emoções. Ora, a emoção eu consigo perceber. Sentir emocionalmente apego a uma nação não anda muito longe de sentir apego à família ou a um clube. Eu, não sendo nacionalista, sinto esse apego: nasci aqui, habituei-me a ser português e a tudo o que tenha que ver com Portugal, tenho aqui as minhas raízes e, sendo assim, quando chega o dia de Portugal jogar com a Suíça, torço por Portugal. Ou sinto que chego a casa quando saio de Badajoz para entrar em Elvas apesar de não ter qualquer ligação a esta cidade a não ser as ameixas quando como sericaia.

Pronto, isso é uma coisa. Outra é a minha identidade depender excessivamente desse sentimento nacionalista ou considerar demasiado importante o peso individual da minha nação, quer dizer, o que ela tem de específico e único face às outras nações. Raças, culturas, línguas, histórias, está tudo tão misturado ao longo dos séculos, que se torna difícil aceitar um excesso de emocional concentração patriótica ou nacionalista. Consigo entendê-lo numa situação radical como a de um país ser ocupado por outro à margem do Direito Internacional, tendo o primeiro todo o direito à sua liberdade, independência, auto-determinação. Porém, no actual quadro europeu, e apesar do "excesso de história" de alguns países, exacerbados sentimentos nacionalistas soam desajustados, regressivos, atávicos. E, claro, disruptivos. Percebo a patológica necessidade disso como posso perceber a patológica necessidade de um adulto se sentir atraído por crianças ou a patológica necessidade de matar gente. Consigo perceber a partir do momento em que me ponho a brincar à psiquiatria. Mas, confesso, e creio que felizmente, não consigo fazer a minha experiência pessoal dessa experiência. 

10 outubro, 2017

SEM DIRECÇÃO


Se pensarmos na história como um filme, teria protagonistas e figurantes e o homem que aparece aqui morto seria claramente um protagonista. Um protagonista com um projecto social, uma ideologia, uma filosofia, um ideal. Entretanto morto, perdeu a consciência de tudo isso e a consciência de si como parte de tudo isso. Mas os figurantes que ali rodeiam o herói morto, apesar de vivos, também não têm consciência de si e do que ali estão a fazer. O homem morto sabia, ou julgava que sabia, por que tinha uma arma nos braços ou por que causa iria morrer, os outros apenas sabiam que tinham de matar o homem que tinha uma arma nos braços, não matando em nome de uma causa mas apenas porque lhes mandaram matar. São soldados como poderiam ser camponeses, operários ou mineiros, enfim, alguma profissão iriam ter. Olham para o troféu, exibem o troféu, mas muito longe de entender o verdadeiro significado do troféu, o que está em jogo com o troféu, o que representa historicamente o troféu. Não sabem o que é o socialismo ou a economia de mercado, o que é a Guerra Fria, quem foi Marx, Bernstein ou Trotsky, a diferença entre reforma e revolução. Claro que enquanto figurantes são importantes. o que seria de um filme sem os anónimos figurantes? Alguém imagina um filme romântico em que dois amantes passeiam numa Paris esvaziada de pessoas? E quem seriam Dario, Alexandre, Aníbal, Napoleão, Hitler ou Montgomery sem as suas tropas? Mas também o que sabem as tropas do que andam a fazer? No fundo, não passam de massas cegas e acéfalas que avançam ao som de uma ideia lançada mas que apenas entendem como um assobio que os faz depois correr ou saltar como se fossem cães amestrados.

Mas também saberão mesmo os protagonistas o que andam a fazer? Quer dizer, sabem. Mas não serão igualmente figurantes dentro de um argumento que eles próprios não dominam? Não terão apenas decorado e representado o seu pequeno papel de um filme cujo desenrolar desconhecem em absoluto? Talvez sejamos todos, protagonistas e figurantes, demasiado pequenos para este grande filme que sabemos como foi mas cujos encadeamentos nunca sabemos como irão ser depois de o largarmos, pois trata-se de um filme sem realizador e produtor. Escrevesse eu em inglês e em vez de dizer que o filme não tem «realizador» diria que não tem «director». Aproveito, no entanto, a palavra inglesa para, pensando em Português, concluir que, neste grande filme contínuo e ininterrupto que é a história, todos nós, protagonistas e figurantes, actuamos sem uma verdadeira noção da direcção em que caminhamos.

06 outubro, 2017

A LUTA CONTINUA



Uma das condições mais elementares da natureza é a relação entre o movimento e o repouso. O estado natural de uma pedra ou de uma planta é o repouso. O de um animal já será o movimento, embora diferente conforme se trate de um molusco, de um réptil ou de um mamífero, assim como do contexto em que se encontra. O leão caça quando tem de caçar, dorme quando tem de dormir. O ser humano não é excepção. Não fomos feitos para estarmos sempre em repouso mas também sempre em movimento, devendo existir uma sábia harmonia entre os dois estados.

Faz-me por isso alguma confusão as pessoas que estão sempre em luta, que só pensam em lutar, acordam e adormecem a pensar sobre que lutas irão travar. E se só lutam porque vivem é também caso para dizer que só acreditam que vivem quando lutam. Esta necessidade de lutar faz-me lembrar o conto os «Sapatos Vermelhos» de Hans Christian Andersen, no qual uma rapariga, dominada por esses sapatos, que entretanto deixou de poder descalçar, não consegue parar de dançar, levando-a ao desespero. A diferença é que a rapariga não suportou dançar sem parar enquanto quem luta pensa sempre que ainda não lutou tudo o que havia para lutar. 

Vamos lá ver, nada tenho contra a ideia de lutar. Eu próprio andei a lutar a semana passada com uma varejeira que entrou por uma janela da sala e vi-me e desejei-me para me ver livre dela. Mas cá está, lutei porque essa necessidade veio ter comigo, não fui eu que andei à procura da necessidade de lutar. É como o medo. Nós precisamos de ter medo para sobreviver. Mas não é saudável viver sempre com medo, um enorme desperdício mental, emocional e existencial. Em suma, a necessidade de lutar ou de ter medo deve ser reactiva e não activa. O saudoso Eduardo Prado Coelho, creio que no seu diário Tudo o que Não Escrevi, falava na ideia de uma «neurose militante», o que me parece ser uma expressão bastante feliz para compreender a pessoa que está sempre a lutar. O que eu acho é que uma pessoa que precisa de estar sempre a lutar, está em luta consigo própria, começando a ressacar emocionalmente se não tiver nada com que lutar.

Apesar de desterrado em Paris, dizia com muita graça Heinrich von Bamberger, para explicar a personalidade de Bismarck, que «as pessoas nascem revolucionárias, o acaso da vida é que decide se há-de ser um revolucionário vermelho ou um revolucionário branco». Pronto, está-lhes na massa do sangue, sendo um destino que têm de cumprir para poderem sentir-se contentes. Em vez de estarem descansadinhos num sofá a ler ou a ver um filme do Michael Moore preferem andar por aí quixotescamente a lutar. Eu não teria nada contra isso, e até poderia sentir alguma condescendência cristã se as suas descargas revolucionárias fossem em privado, entre familiares e amigos. Mas como a tendência não é essa, acabam por ser bastante aborrecidos e maçadores com as suas intermináveis lutas, seja a fazer barulho na rua, seja com greves só para mostrar que estão vivos e para as curvas mas atrapalhando as vidas das pessoas, seja a sujar paredes, seja a destilar má disposição, em contraponto com os fofinhos afectos presidenciais, seja quando lhes dá para isso e o contexto é favorável, matar pessoas, tradição revolucionária que, felizmente, se foi perdendo com os anos. Como diria o também saudoso Willy Brandt, ser revolucionário aos 18, ainda vá, e até faz algum sentido. Mas depois de uma certa idade preferir ser revolucionário, sempre a lutar, sentindo-se rodeado de varejeiras por todos os lados, em vez de um mentalmente anafado social-democrata, já é coisa que só a Psicologia pode ajudar a explicar.

05 outubro, 2017

MATCH POINT


Sendo ele um dos meus heróis, sabe Deus o que me custa considerar a digressão europeia de Woody Allen desastrosa, uma coisa assim mesmo para esquecer. Não a tocar clarinete com a sua New Orleans Jazz Band mas com os filmes que por cá fez. Barcelona é de fugir, e se Paris bate no fundo, Roma chega mesmo a furar o chão para se estatelar na cave. Mas há uma enorme excepção: Londres, Match Point, um grande filme com um perfume de tragédia grega, sobre o acaso, a sorte e o azar, sobre a bola de ténis que, pousando caprichosamente sobre a fina rede, tanto pode cair para um lado como para o outro, decidindo assim o vencedor e o derrotado da partida. Como nos jogos de ténis, a história da humanidade é feita das vitórias de uns e derrotas de outros. Mas não têm todas o mesmo sentido histórico.

Se olharmos para as datas mais importantes, vamos encontrar vitórias e derrotas impostas por uma certa necessidade histórica. Por exemplo, o 25 de Abril. Mais cedo ou mais tarde teria de acontecer e foi naquele dia como poderia ter sido um ano antes ou dois anos depois. Mas tinha de ser. Seria impossível durante muito mais tempo um regime daquela natureza na Europa, como, aliás, em Espanha ou na Grécia ou como hoje no Brasil, Uruguai, Chile ou Argentina. Atenção, tal como num jogo de futebol onde a sorte e o azar contam bastante, não é forçoso ganhar sempre o melhor, impondo justiça no resultado. Se assim fosse, nunca teria havido esclavagismo, massacres horríveis, o «Terror» revolucionário francês, o comunismo não teria passado de literatura utópica e o nazismo seria apenas tema para um filme. Porém, e embora de um modo, infelizmente, nem sempre linear, a história vai impondo valores mais justos e razoáveis. Daí ser impensável voltar a haver esclavagismo ou monarquias absolutas na Europa. Ou melhor, pode voltar, de acordo com circunstâncias extraordinárias que hoje nem conseguimos conceber (daí um livro como O Mundo de Ontem, de Stefen Zweig, nunca dever sair das mesinhas de cabeceira) mas para depois se repor uma mais justa normalidade.

Outras datas, porém, já não resultam de uma necessidade histórica mas, na linha do que mostra o filme, da caprichosa «vontade da bola» sobre a finíssima espessura da rede. Olhando para o passado, já não conseguimos imaginar outros vencedores e derrotados senão os que venceram e perderam. Mas tivesse a bola caído para o outro lado e estaríamos hoje a não conseguir imaginar o que hoje temos como verdade segura. Foi assim mas não teria de ser assim e tivesse sido de outra maneira, não iríamos sentir estranheza. Hoje, um espanhol, um inglês, um belga ou um holandês não acham estranha a ideia de acordarem de manhã num país monárquico tal como um português, um italiano, um francês ou um grego acordarem numa república. Mas poderia ser tudo ao contrário. Em França, depois de 1789, a monarquia foi restaurada diversas vezes (desde logo, de certo modo, com Napoleão) e a Espanha teve uma experiência republicana. Mas não ficou assim porque, somando várias ironias, a bola «decidiu» que fosse de outro maneira.

Em Portugal, o 5 de Outubro é disso um exemplo. Portugal poderia ser hoje uma monarquia, os meus pais, eu e os meus filhos teríamos todos nascido numa monarquia, sendo isso tão normal como para um sueco ou dinamarquês. Tal não aconteceu porque o capricho da bola sobre a rede fez com que fosse de outro modo, nunca por uma certa ordem natural das coisas. Fosse a bola para o outro lado e hoje seria um dia normal de trabalho, sem nada para comemorar e sem pensarmos na hipótese de haver alguma coisa para comemorar. Alguém se lembra, nos dias 4 de Março, 17 de Maio ou 25 de Junho de nada haver para comemorar? Seria também assim o 5 de Outubro. Significa tudo isto que, ao contrário daquele tempo, hoje, ter havido 5 de Outubro não aquece nem arrefece. Foi assim e pronto como o contrário seria assim e pronto, levando-me a pensar não haver por isso qualquer razão para comemorar o que quer que seja. Fizesse ponte este fim-de-semana e talvez a minha perspectiva já fosse outra.

03 outubro, 2017

AS AGULHAS


Lembro-me de o arquitecto e urbanista brasileiro Jaime Lerner dizer que as cidades já não podem estar dependentes de grandes planeamentos, de grandes projectos como aconteceu noutros tempos. Presumo que se queria referir a coisas como a Lisboa Pombalina ou os boulevards rasgados pelo barão Haussmann na Paris do século XIX. Tais projectos são caros e demoram muito tempo. Apresentava então a ideia de uma acupunctura urbana: intervenções pontuais e originais no interior de uma cidade que ajudam a criar nela uma nova energia. Dava como exemplo a pirâmide do Louvre ou o Paley Park em Nova Iorque, muito pequeno mas com um excelente impacto, não no skyline da Grande Maçã mas na vida «cá de baixo». Enfim, coisas rápidas mas bastante eficazes. 

Agora que decorreu mais um autárquico processo eleitoral, tremo só de pensar que os edis conheçam a ideia (se é que não conhecem já), lhe achem graça e depois se sintam ainda mais legitimados por este modelo de intervenção urbana. É verdade que a paisagem urbana do nosso Portugal já está generosamente desgraçada por rotundas, repuxos, edifícios e uma arte pública que faz com que uma simples saída à rua se torne num pesadelo estético. Mas sendo o entusiasmo dos nossos autarcas ilimitado, e havendo sempre espaço para mais umas intervençõezinhas, é de temer que as terapêuticas agulhas façam com que a cura se transforme cada vez mais na própria doença. Em grande parte do país, «edílico» raramente coincide com idílico.

02 outubro, 2017

OS ESPAÇOS EM VOLTA

Jose Manuel Ballester

Todos os trabalhos desta série do fotógrafo e pintor espanhol partilham um elemento comum: a ausência de presença humana em espaços que nos habituámos a reconhecer em função dessa fortíssima presença. Espaços tão obviamente reconhecidos que nem vale a pena identificá-los. Aquela jangada à deriva no mar só pode ser a de Géricault, aquele jardim não pode ser outro senão o da Anunciação, de Leonardo. Embora nada tenham que ver com a série «Poética da desaparição» de Ixone Sadala, outra artista espanhola, foi a ideia de uma poética da desaparição que me ocorreu quando os vi a primeira vez. Estranhamente, o impacto não foi negativo, apesar da desintegração do elemento humano numa paisagem densamente humanizada. Melancólico, sim, uma melancolia da perda ao vermos todas as suas personagens partir. Mas também deixando o seu rasto graças à preservação de um espaço que permaneceu igual ao que sempre foi. Partiram, mas a indelével memória delas nesse espaço prende-as a ele, como almas que a morte fez desaparecer do mundo em que sempre viveram mas do qual, como almas penadas, não conseguem libertar-se graças à enorme osmose entre os dois. No fundo, o que há de poético nesta desaparição do que julgaríamos ser eterno e imutável, do que foi criado para não poder ser de outra maneira, é a presença quase física de um silêncio ainda  maior em espaços que, já por si, porque de pintura se trata, são silenciosos, ainda que ecoem gritos e tiros de espingarda no mundo real, como no fuzilamento de 3 de Maio, pintado por Goya, o som da tempestade sobre a jangada ou dos passos dos caçadores sobre a neve.

Deixando agora a melancolia, um possível exercício motivado por estes trabalhos será testar a importância do elemento humano a partir da consciência da sua perda, obrigando-nos a reconhecer a superioridade do mundo do espírito face a um mundo exterior despojado desse espírito. O que estas espaços sem vida revelam é o mesmo que o rosto de alguém que acaba de morrer, cuja identidade permanece mas sem a alma que lhe dá vida. No caso destas imagens, também o espaço é o mesmo mas um espaço literalmente desvitalizado, desanimado, isto é, sem uma anima que lhe insufle vida. Trata-se, neste sentido, de pensar o espaço físico como simples palco do movimento do espírito, tábuas de madeira que, sem esse movimento, se tornam desoladoras, vazias, lunares, quase inorgânicas. O teatro do espírito humano, a odisseia do espírito, que vai de um regresso da caça numa floresta do século XVI a um fuzilamento espanhol do século XIX, passando pelo tranquilo atelier de um pintor do século XVII, e que apresenta múltiplas e as mais variadas expressões, precisa do seus espaços para se manifestar. Ulisses é Ulisses mas sem as ilhas por que passou no regresso a Ítaca, não teríamos Odisseia, apenas a normal viagem de um homem sem nada para contar. Mas também o que serão ilhas gregas sem Ulisses, sem Circe, sem Calipso, sem os Ciclopes ou sem uma Penélope trabalhando diariamente no seu tear sem nunca chegar ao fim? Apenas ilhas. Eis, pois, o que também acontece com estes espaços alienados do elemento humano: apenas espaços.

Creio, porém, que estes trabalhos permitem ainda outro e não menos interessante exercício: Perceber a pintura como um mundo que se sobrepõe à realidade propriamente dita. Sem dúvida que o mundo existe sem a consciência dele. O mar, uma floresta ou o salão de um palácio real não precisam de uma consciência humana para serem o mar, uma floresta ou o salão, embora a consciência deles possa não coincidir necessariamente com o que são em si mesmos, como bem ensinou Kant. Mas a partir do momento em que o pintor recria um espaço concreto na sua tela, será esse espaço que prevalece. Doravante, aquele salão real será sempre o salão da família real espanhola e de parte da sua corte. Uma jangada à deriva no mar será sempre a jangada de Géricault, aquela pequena encosta com o casario ao fundo deixou de o ser para se transformar definitivamente no fuzilamento recriado por Goya tal como Guernica deixou de existir sem Picasso. Os fuzilamentos de 3 de Maio de 1808 existiram mas o de Goya tornou-se a sua essência, para a qual os olhos e os espíritos se viram para os pensar e nomear. Ora, despojar os espaços do seu elemento humano criado pelo pintor, é voltar a um tempo anterior a essa criação, um tempo que já não conseguimos mais compreender. Deixar de ver ali Cristo e os apóstolos à volta da mesa, torna não só o quadro irreal mas anula também a própria ideia da Última Ceia pois a partir do momento em que o pintor a recriou já não sabemos viver sem ela. É caso para lembrar Oscar Wilde com a sua ideia de ser a vida a imitar a arte e não o contrário.

30 setembro, 2017

O PIANO

Os Fabulosos Irmãos Baker [fotograma]
Ontem, a caminho de casa, começo a ouvir, vinda de trás, uma música que percebi logo ser de um carro em campanha eleitoral. A música consistia numa melodia tocada apenas por um um piano, uma coisa assim tão suave, tão smooth como a que se pode ouvir num tranquilo bar de hotel ou numa daquelas praias quase privadas cujos frequentadores procuram essencialmente descansar. A minha reacção foi logo tentar adivinhar, antes que o carro passasse por mim, de que partido político seria. Rapidamente anulei a possibilidade de um partido de esquerda, apostando, por isso, no PSD ou CDS.

Era do PSD. Serei um génio? Não, basta ter o sábio instinto de um animal. No já longínquo ano de 1975, entre ir a Lisboa a manifestações anti-gonçalvistas e andar (ou tentar, hèlas) a apalpar maminhas em festas de garagem, um dos meus passatempos preferidos era olhar para uma pessoa e tentar adivinhar se seria de esquerda ou de direita. Não era um exercício difícil: roupa, cortes de cabelo, barba, marca de tabaco ou outros adereços menores eram sinais ideológicos objectivos. Porém, sinais que com o tempo se desvaneceram e tornaram híbridos, mostrando que a objectividade, apesar de existir, não passou de uma convenção historicamente situada. Hoje existem outros mas o risco é sem dúvida muito maior. Como explicar então ter conseguido adivinhar rapidamente de que partido seria aquele carro? Atenção, não foi por exclusão de partes. Se um carro do PS andasse a expelir o clássico socialista de Vangelis ou um carro do PCP ou do BE uma qualquer canção de intervenção ou algo assim, claro que o suave piano teria que ser obra de um outro partido. Porém, não dei por ter acontecido isso durante a campanha aqui pela paróquia.

A resposta pode ser encontrada no código genético de cada um dos partidos. Os puros partidos de esquerda têm um passado de luta, de combate, vivendo para mudar radicalmente uma ordem social e política com a qual embirram e se sentem desconfortáveis, apesar de ser a que na história conseguiu os melhores níveis de desenvolvimento social. Um passado de luta mas também um presente e, já agora, pelo que julgo ser a realidade, um não menos promissor futuro. A esquerda pura não gosta do capitalismo, do liberalismo, da democracia burguesa. Adaptou-se bem a ela, graças a Deus, mas quando se deita e adormece para descer às profundezas dos mais irredutíveis prazeres e desejos, é com um mundo bem diferente que sonha. Daí serem partidos zangados, intrinsecamente descontentes e maldispostos, que vivem para lutar, protestar, reivindicar. Ora, a haver música num carro seu, nunca poderia ser uma dengosa melodia para ouvir com um copo de um uísque caro num restaurante burguês ao qual se chegou num carro igualmente burguês, embora se há coisa que não falte é gente da esquerda pura a gostar de uísques caros, restaurantes e carros burgueses.

A partir daqui restariam três partidos. Todos eles têm uma coisa em comum: gostam do capitalismo, do liberalismo e da democracia burguesa, sendo assim partidos estruturalmente tranquilos em relação ao mundo em que vivemos, excepto quando estão na oposição. Pronto, estando na oposição, estão em luta. Mas cá está, não é uma luta raivosa contra um mundo que rejeitam, antes uma luta conjuntural pela reconquista do poder do qual até se sentem meio proprietários. A zanga do PS quando está na oposição é com o PSD e por vezes com o CDS, a zanga destes, na oposição, é com o PS. Trata-se pois de uma zanga de comadres, não uma zanga revolucionária, rabugenta, militante. Mas ainda assim são diferentes. O PS, apesar de não ser hoje um partido de luta, nasceu na Alemanha precisamente para lutar. Quer dizer, para além das actuais lutas birrentas quando está na oposição, há um "gene da luta" no seu ADN. De luta mesmo, não de birra de partido mimado pelo sistema que o alimenta e lhe dá colinho institucional. Daí ainda haver, embora cada vez mais remotamente, um imaginário épico no seu sub-consciente, o qual não se compadece com o delicodoce som de um piano. Ora, o mesmo não acontece com o PSD e o CDS. Partidos betinhos por várias razões, não sendo a menos importante o facto de não terem um património heróico e de terem visto a luz do dia já em democracia para viverem num mundo à sua imagem e semelhança. Tirando um ou outro drama, como o estar na oposição ou lutas intestinas, são partidos tranquilos, felizes, conservadores, como um gato bem alimentado numa casa silenciosa e cheia de Sol. Nada melhor, portanto, do que um piano suave para exprimir esta paz com um mundo onde os seus desejos se reflectem em harmonia com o princípio da realidade.

29 setembro, 2017

A DESFOLHADA


Há muito que se diz que um homem não deveria ir embora desta vida sem ter feito um filho, escrito um livro e plantado uma árvore. Destes três desígnios, fazer um filho era, antigamente, o mais fácil, até porque, como diz a canção, quem faz um filho fá-lo por gosto, pelo menos o processo, o que por si já facilita bastante. Escrever um livro, por razões óbvias, seria a mais difícil. Hoje é o contrário. Se, por um lado, olharmos para as actuais taxas de natalidade e, por outro lado, entrarmos numa livraria ou supermercado com livros, somos forçados a concluir que fazer filhos, não o processo, que continuará a ser feito com grande gosto, mas o filho propriamente dito, é tarefa assaz problemática e difícil para cada vemos mais pessoas. Já escrever livros passou a ser tão simples e natural como respirar, comer, beber, dormir ou satisfazer quotidianamente certas necessidades fisiológicas. Sobretudo a última.

27 setembro, 2017

15 MINUTOS


«Yo siempre fui un tipo que intentaba dirigirise al mayor número de personas. No me interesaba escribir revelaciones profundas, ni crear una obra como "Esperando Godot". No me interesaba. Lo que quería era elevar el gusto de la persona corriente, elevarlo um poquito. Con algunas películas, sucede que la gente las olvida en cuanto sale del cine. Si unas personas ven una película mía y luego se sientam en un café a hablar de ella durante quince minutos, me parece una recompensa magnífica. Me basta». Cameron Crowe, Conversaciones con Billy Wilder

A minha adoração pelos filmes de Wilder é inversamente proporcional à minha embirração com quase todos os filmes de Godard. É um daqueles realizadores que me lembra sempre a selecção da Dinamarca no ano em que foi campeã da Europa: aparece assim como quem não quer a coisa, assobiando distraidamente para o ar, para depois arrasar. Não tenho a menor paciência para quem passa o tempo a dizer, de megafone na boca "Olhem para mim, vejam como sou inteligente e profundo, digno de admiração e reverência". Aliás, se virmos bem, muito do que é considerada grande arte e que sobreviveu ao ritmo implacável do tempo, é arte que foi feita para o gosto e inteligência comum. As tragédias gregas ou o teatro de Shakespeare não foram criados para uma elite ver em obscuros gabinetes fáusticos. Muito do que se tornou literatura clássica foram textos para serem lidos em jornais ou revistas . E as óperas de Mozart eram vistas e ouvidas por todos.

Assume o grande realizador nesta grande entrevista que, com os seus filmes, não teve a veleidade de mudar radicalmente o gosto das pessoas e promover uma nova ordem estética e intelectual. Fazer pensar enquanto se ri ou fazer pensar enquanto se chora já seria, para ele, missão suficientemente nobre. Quem faz filmes com o objectivo de falar deles durante horas, arrisca-se a que não se fale mais do que 15 minutos. O contrário é que não é para todos: fazer filmes ligeiros, ou aparentemente ligeiros, para deles se falar durante 15 minutos e ficarmos o resto da vida a vê-los e a falar sobre eles.

26 setembro, 2017

GRANDES CANÇÕES (2) - BEIRUT- LA LLORONA








VISIONAR

Jacques Tati | O Meu Tio [fotograma]

Ele há mesmo coisas, uma delas é o "visionar" ter vindo a substituir o simplesmente "ver". Por exemplo, nas escolas portuguesas fala-se agora muito em visionar um filme, visionar um documentário, visionar um powerpoint. Embora eu não seja exemplo para ninguém, continuo, como sempre, a gostar mais de ver filmes do que de visionar filmes. Mas no caso das escolas até dá para entender. Numa escola moderna, tecnologicamente desenvolvida e com desígnios pedagógicos e educativos cada vez mais sofisticados, o simples acto de ver torna-se demasiado simples e primário. Os pais e avós das crianças é que viam, isso num tempo em que a educação ainda tinha pouco da nossa actual engenharia tão iluminada por mapas conceptuais cada vez mais eficazes e gratificantes. Visionar deve ser coisa mais finlandesa e, nesse tempo, Portugal estava muito longe da Finlândia. Hoje, graças a Deus, esse tempo acabou, embora continuemos a ter bastante Sol, contrariamente ao que se passa no escandinavo país. Com tanto visionamento há coisas que as pessoas vão mesmo conseguir deixar de ver, o que até pode nem ser uma má ideia.

25 setembro, 2017

TUDO É NADA



Bem confusa, esta Vista Fantástica dos Principais Monumentos de Itália, pintada em 1858 por Petrus Henricus Van Helven, nascido em Amesterdão mas depois vivendo e morrendo em Itália. O que salta logo à vista é mesmo o seu elemento fantástico: ver, na mesma "rua", as catedrais de Milão, de S. Marcos, de Florença ou de S. Pedro, em Roma. Uma visão cujo excesso paisagístico acentua uma utópica busca romântica da espontaneidade, da liberdade, concentrando, num mesmo espaço, várias perfeições, como se a sua simples soma desse origem a uma perfeição suprema. Cada cidade tem a sua bela catedral mas a falta das outras dá a cada uma delas um valor relativo e incompleto. Ora, concentrar tudo num mesmo espaço permite criar um espaço dos espaços, uma beleza de belezas, enfim, uma cidade ideal, onde está tudo e nada falta.

Trata-se, porém, de uma ilusão. O valor e a beleza de cada unidade individual ficariam a perder pois é na feliz multiplicidade que cada uma assume a sua específica identidade. Vemos esta paisagem e logo damos com um artificialismo que lembra o kitsch da Disneylândia, espaços supostamente utópicos mas cuja concentração, unidade e densidade lúdica e urbana logo degenera num sentido territorial que anula uma vivência natural do espaço e do tempo. Se todos os países fossem transformados como aqui a Itália, desapareceriam. É verdade que vemos ali a Itália e não a França, Portugal ou Espanha. Mas se a Itália fosse isto, estaríamos a alienar o vazio que existe entre substâncias, tão importante como os silêncios na música. Estou a pensar em John Zorn que dizia querer um dia tocar a Tetralogia de Wagner em meia dúzia de segundos. É um pouco isso que acontece quando vemos o trailer de um filme. As cidades, porém, tal como os filmes, e ao contrário dos seus trailers, são feitas de dispersão, de um fluidez que acentua a sua múltipla textura.

A Itália não é uma abstracta ideia de um espaço povoado por catedrais idealmente concentradas. É também os espaços vazios entre elas, carimbando a identidade particular de cada uma e à cidade a que pertencem. Viajar em Itália não é entrar de manhã em S. Marcos para, ainda antes de almoço, fazer a de S. Pedro, almoçar e, depois, à tarde, Santa Maria del Fiore, como se se tratasse de um Luna Park. Tudo o que podemos apreciar, valorizar, amar, está exposto perante o nosso olhar mas também perante a permanente renovação do desejo de olhar. E o que nós vemos, amamos e desejamos são as coisas, não as suas ideias. Ideias nas quais muitas vezes nos perdemos como no interior de um labirinto. Geometricamente perfeito, mentalmente desafiante, mas sem vida e sem alma.

GRANDES CANÇÕES (1) - NICK CAVE-THE MERCY SEAT

24 setembro, 2017

TRINCADEIRA PRETA DE ALCOROCHEL



Em Portugal, o começo do Outono é uma farsa. Houve tempos em que eu ainda acreditava que a chegada do Outono harmonizasse a teoria do calendário com uma realidade climatérica e paisagística que vai chegando como o lânguido som de um violoncelo ouvido ao longe, de início quase imperceptível, mas, à medida que se aproxima, envolvendo-nos cada vez mais no seu perfume. Se a velhice é a fase da vida em que as ilusões se desvanecem, não é a atempada chegada do Outono que irá ser a excepção, sendo já crónico o seu adiamento.

O Outono tem uma sombria beleza tchekhoviana que me limpa os olhos do excesso de Sol, podendo voltar a olhar tranquilamente para as coisas após os terríveis encadeamentos do Estio cujo radical Iluminismo meteorológico, seca, queima e descora tudo o que se submete ao seu jacobino poder. Mas continuar a minha terra acima dos 30 graus nestes dias, é deitar tudo a perder. O que me salva são os frutos. Ontem, comi a primeira romã. A volúpia dos dióspiros já vai na segunda semana de felicidade, os figos secos, abrindo-se para as nozes, levam um avanço ainda maior Também ontem, no mercado, comprei, à própria senhora que as apanhou, umas uvas da casta Trincadeira Preta, sendo a experiência de as comer absolutamente redentora. No Fugas de ontem, na sua habitual crónica de vinhos (absolutamente imperdíveis, um dos melhores cronistas portugueses e que fala sobre vinhos como mais ninguém), Pedro Garcias escreve sobre o vinho bebido pelos padres nas suas homilias. O vinho do padre, como quase tudo na Igreja Católica, tem um valor perfunctório, um gesto que se repete mecanicamente, motivado por um simbolismo cada vez mais perdido nas caves da história e enredado em tortuosas burocracias teológicas e litúrgicas num documento como o lá citado Redemptione Sacramentum

Os padres que bebam o vinho que quiserem ou que a Teologia lhes deixa beber, isso é lá com eles. Sei é que jamais terão a minha religiosa experiência com as uvas Trincadeira Preta que ando a comer desde ontem e cujo sabor é tão miraculoso como o milagre do vinho: pequenas, uma doçura adstringente, quase pretas por fora mas cujo vermelho vivo derramado lembra uma elegância renascentista. Manchas de sangue salpicando as paredes do saco onde vinham. Manchas de sangue espalhadas no lava-loiça branco quando as passo por água, ao desfazerem-se algumas já meio esmagadas no cacho. Naturalmente que precisaram do Sol para aqui chegarem. Eu nada tenho contra o Sol, bem pelo contrário, é impossível viver sem ele e quando está ameno consegue mesmo dar à paisagem uma jovial tranquilidade impressionista. Mas já cumpriu o seu papel, agora deveriam ser outras as sensações a emergir. Mas eu vingo-me com as uvas e o seu sangue, a sua cor, o seu cheiro, o seu sabor. Encho a boca delas, uma a uma, fazendo da minha boca um lagar onde as vou esmagando. E fico apaziguado só de imaginar aquele sangue vermelho a escorrer pela boca e pela garganta. Não há Outono lá fora, pois amarelo e luminoso continua o mundo, mas há um revigorado Outono cá dentro. Melhor sabor do que o desta semente de vinho só mesmo o quente aroma de um estábulo num dia fresco de chuva miudinha. Mas aí já terá chegado o Outono de vez.

23 setembro, 2017

AH, AH, AH, AH, STAYIN' ALIVE, STAYIN' ALIVE



Creio que o que me perturba na festa da democracia, ou melhor, na folia carnavalesca da democracia, é o mesmo que sempre me perturbou nas discotecas: o ruído. Porém, na discoteca, o ruído estava associado ao prazer de dançar ou de ouvir aquele tipo de música, o que até nem era o meu caso. Já na festa da democracia o ruído para nada serve a não ser para a democracia se festejar a si própria. Uma festa autofágica na qual se celebra a liberdade de ser patético e ridículo, de fazer barulho e de se ser eleito ainda que não se saiba muito bem porquê. Confesso ser bem mais agradável, e até saudável, o silêncio de uma ditadura do que o chinfrim histérico da democracia. Mas também compreendo, apesar do chinfrim, ser a democracia, ao menos filosoficamente, um sistema mais arejado do que uma ditadura. Por isso, como cidadão, resigno-me a aceitar a democracia como o melhor dos sistemas. Já como pessoa sensível que sou e faço tenção de continuar a ser, agradecia que a democracia me deixasse o mais possível em paz.

Infelizmente, não sou rico para me poder dar ao luxo de evitar sair de casa para trabalhar ou exilar-me numa alpina montanha mágica ou ilha grega bem longe da pátria em períodos eleitorais. Tenho pois que viver rodeado de candidatos a presidentes de câmara, de assembleias não sei das quantas ou de épicos pretendentes ao olímpico lugar de uma junta de freguesia, que mais parecem Testemunhas de Jeová anunciando o paraíso, não na Terra mas lá na terra. Para mim, a democracia é assim como ir à casa de banho, uma coisa que tem de ser. Mas tirando os que têm prisão de ventre, quem fica feliz por ir à casa de banho? Com a democracia também é um bocadinho assim. Por que raio hei-de ficar feliz pelo facto de o presidente da câmara ser o Manuel Germano? Ou ficar excitado porque a Assembleia ou lá o que aquilo é, ficou com a composição X em vez da Y e o presidente da junta vai ser o senhor Armando dos seguros ou a dona Anabela que é professora num agrupamento ? Mas que raio contribui isso para a minha felicidade, ainda que se trate de uma felicidade cidadã, seja lá o que isso for? Eu até consigo perceber que as pessoas sintam alguma motivação para votar porque se sentem valorizadas, cidadãs, dignas protagonistas do processo histórico. Agora, mais do que isso, porquê? Já disse, aceito a democracia mas adoraria que a democracia não pensasse excessivamente em mim. Ela que não se preocupe comigo pois eu estou bem e recomendo-me. Ela, coitada, tão parva que anda, nem por isso.

20 setembro, 2017

CAMPANHA ELEITORAL


Depois da II Guerra Mundial surgiram as chamadas "democracias populares", as quais de democracia tinham tanto como a quantidade de cabelos que povoavam a caixa craniana do saudoso Yul Breyner. Acontece que a democracia é, por definição e essência, um sistema político "popular", atingindo o seu cúmulo em períodos de campanha eleitoral. Claro que existem democracias mais avançadas do que outras em virtude do povo estar também mais avançado. Pelo que tenho visto ao passar por muitos concelhos neste popular momento de campanha eleitoral, observando com semiótico esmero os cartazes que poluem este já tão visualmente poluído país, sou obrigado a concluir que a nossa democracia ainda está num plano culturalmente rastejante. 

A passagem do cinema mudo para o cinema sonoro não foi isenta de polémica. Os mais puristas e conservadores defendiam que o som iria desgraçar o cinema, roubando a sua essência visual, e aos actores a sua fortíssima expressividade dramática que compensava a ausência de diálogo. Basta pensar no espantoso papel de Gloria Swanson no Sunset Boulevard a fazer um papel que bem poderia ser o dela própria no seu período áureo. Hoje, porém, é absolutamente consensual o grande benefício que foi a introdução da palavra no cinema. Independentemente da qualidade de tantos filmes mudos, é evidente que com a palavra é possível transmitir mensagens e enriquecer a narrativa de uma maneira que sem ela se torna impossível.

Já com a esmagadora maioria dos cartazes eleitorais neste esplendor autárquico, acontece o contrário. O vazio, a estultícia e o ridículo do que lá aparece escrito são de tal modo esmagadores, que só teriam a ganhar deixando apenas os rostos dos candidatos e respectivos nomes, só para sabemos quem são. Tirando um caso ou outro nos quais existe uma mensagem que pode ser decifrada por um cérebro humano num dado contexto concelhio, tudo o que se lê não quer dizer absolutamente nada,  não tem qualquer significado, não remete para nada que nos leve a sustentar racionalmente a decisão de votar num dado candidato. Os nossos partidos políticos atingem, neste sentido, o nível intelectual dos jornais desportivos, que tratam os seus leitores como indigentes. Quando um jornal desportivo coloca na primeira página e em letras gordas uma afirmação de Jorge Jesus, do género "QUEREMOS CONTINUAR A GANHAR JOGOS", está a considerar os seus leitores idiotas. O que no futebol até se compreende pois  um adepto de futebol, como é o meu caso, é um idiota assumido, encontrando-se no domínio do irracional e de emoções que precisam de ser alimentadas como os frangos de aviário com a farinha.

Já na política, não é bonito ver partidos políticos que dizem defender os interesses do povo, tratar este mesmo povo como se se tratasse de uma criança a quem se diz umas coisas tontas para se conseguir que coma a sopa. Esta fotografia de Michael O'Leary, director executivo da Ryanair, tem imensa graça. Ela surge no âmbito das centenas de voos cancelados pela companhia, uma situação caótica e irresponsável que trouxe danos não só a passageiros mas também a todos aqueles que iriam beneficiar com esses passageiros. Isto, claro, não tem graça nenhuma. O que tem, e mesmo muita, é a frase publicitária por detrás do responsável enquanto dá as suas explicações ridículas. A frase, como facilmente se percebe, não significa absolutamente nada. Claro que a publicidade é mesmo assim, sendo rara a frase que possa significar alguma coisa de útil e relevante para se conhecer melhor o produto que se está a vender. Mas, cá está, é como no futebol, estamos no domínio das emoções e de uma ilusão tacitamente aceite pelo consumidor, tal como acontece com o espectador de teatro ou de cinema que sabe ser tudo aquilo mentira, mas aceitando o jogo. A política, porém, desde Platão e Aristóteles, é, e bem, considerada uma das dimensões mais nobres do ser humano. O que se vê por aí, pelo contrário, é o envilecimento do eleitor, desgraçadamente reduzido à condição de alguém que mete um boletim de voto na urna depois de ter passado rapidamente os olhos pela primeira página de um jornal desportivo. 

18 setembro, 2017

BRUNO VARELA OU O HERÓI ROMÂNTICO


Embora mais por piada inspirada por um título literário, fala-se bastante da angústia do guarda-redes antes do penalty. Porém, se há momento em que um guarda-redes jamais terá razões para sentir angústia é antes de um penalty, o único golo cuja responsabilidade jamais lhe será imputada. Sabemos que há golos tão fantásticos que não dão qualquer hipótese a um guarda-redes. Mas haverá sempre alguém a dizer que poderia ter feito mais, estar melhor colocado na baliza, enfim, qualquer coisa. Já no penalty o guarda-redes está intrinsecamente protegido pela ideia de um golo natural e previsível. A angústia do guarda-redes é outra, mais vasta e metafísica, explicada pela sua natureza trágica e que lhe confere o estatuto de herói romântico. Num excelente livro chamado O Herói e o Único - O Espírito Trágico do Romantismo, o espanhol Rafael Argullol apresenta vários tipos de herói romântico: o nómada, o suicida, o enamorado, o sonâmbulo, etc., mas esqueceu-se de um: o guarda-redes. Guarda-redes que partilha a mesma natureza de grandes arquétipos trágicos como Antígona, Édipo, Ájax, Hamlet, Macbeth ou Lear, que revelam a extrema solidão do homem que enfrenta o «Destino agigantando a sua desnuda individualidade», e que, acrescento eu, atinge o seu paroxismo nesse instante distópico que é o frango, fazendo instalar a desordem no plano racional elaborado para a equipa pelo demiurgo que se senta no banco.

Para um positivista pitosga que só vê factos à frente, uma equipa de futebol são 11, mas, no fundo, são 10+1 ou 1+10. Esta é que é a realidade, como diria, no seu jeito oracular, Octávio Machado. Todos os jogadores  de campo atacam e defendem e, apesar de teoricamente cada um deles ocupar uma posição no terreno, podem movimentar-se por todo o campo, significando isto que surgem como colectivo ou massa, realidade consubstanciada numa mesma cor de camisola partilhada por todos. Durante um jogo, todos esses jogadores, sem excepção, cometem erros: golos inacreditavelmente falhados, jogadores comidinhos pela velocidade de outros, livres directos mal marcados, passes errados, cantos inócuos, faltas cometidas sem necessidade, jogadores que não saltaram o que deviam para evitar um golo de cabeça, enfim, defesas que parecem manteiga. Mas nunca se diz que uma equipa perde um jogo por causa de um jogador individualmente considerado, mesmo que se falhe um golo de baliza aberta. Será criticado, chamar-lhe-ão «nabo» mas, no implacável tribunal dos adeptos desiludidos, nunca irá sair do campo na condição de vítima sacrificial. Mesmo situação tão dramática como um auto-golo tem atenuantes, pois, apesar da gravidade da consequência, como gesto técnico deficiente está no mesmo plano de todos os outros ao longo do jogo: colocou mal o pé ou a cabeça na bola, estava pressionado por um adversário que o obrigou a errar ou ainda um infeliz ressalto do qual não teve culpa. Mesmo o jogador que falha um penalty na final de um mundial ou de uma Liga dos Campeões beneficia de uma indulgente compreensão pois sabe-se que mais cedo ou mais tarde alguém irá ter de falhar. Foi aquele, mas se não fosse teria que ser forçosamente outro, ou seja, o erro vai mesmo existir, estando só cinicamente à espera do seu autor.

Mas depois temos o guarda-redes, essa individualidade única e solitária no seu território, como Zaratustra na sua montanha, carregando o peso do mundo às costas. Solitário, por um lado, por ser alguém circunscrito a esse território, assistindo, com uma distância teórica, ao movimento da bola pelo campo, intervindo apenas quando a bola se aproxima. O que lhe dá um estatuto ontologicamente negativo: enquanto os outros participam na construção do golo, podendo todos eles marcá-lo (o que acontece cada vez mais no futebol moderno, onde já surgem defesas isolados na baliza contrária), o guarda-redes apenas existe para o negar. Vista a coisa sob uma hegeliana ciência da lógica, os jogadores de campo estão no domínio do ser, enquanto o guarda-redes está no domínio do não-ser, da pura negatividade. Claro que há uma harmoniosa totalidade nesta relação dialéctica entre o ser dos jogadores de campo e o não-ser do guarda-redes, mas este emergirá sempre solitariamente na sua identidade, contraditória face à dos outros.

Depois, porque o seu erro não é um erro qualquer: não é o erro de «um jogador» que erra mas o erro «do jogador» que não pode errar. Quer dizer, poder, pode, e tanto pode que erra, mas a situação é mais complexa do que parece. Ao contrário do que pode parecer, o erro de um jogador de campo não faz parte do domínio da contingência mas da necessidade. Há contingência, sim, pois não se sabe onde e quando vai errar, havendo situações em que errou quando poderia não ter errado e situações em que não errou quando poderia ter errado. Mas quando o jogador entra no campo já sabe que vai cometer erros, o erro faz parte da própria essência do jogo, o que até leva alguns filósofos a defender a tese segundo a qual vence a equipa que comete menos erros. Já o erro do guarda-redes é marcado por um plano moral. Claro que é domínio do «poder ser», e, neste aspecto, um guarda-redes, tal como os outros, sobe ao relvado limitado pela presença do «erro radical». Mas um é o domínio do «poder ser», outro será o do «dever ser». Quando Deus criou Adão e Eva, sabia bem o que estava a fazer: dois seres finitos, frágeis, atirados ao mundo. Porém, não deixou de os avisar, impondo uma condição. Daí que, se uma equipa de futebol tivesse sido acabada de criar por Deus, o guarda-redes seria o Adão da equipa, o único que vive o conflito trágico de quem é atirado para a baliza para poder errar mas sem a liberdade para o fazer. Entretanto, quando o erro apresenta a bíblica dimensão do frango, acrescenta-se à solidão inerente ao seu posto, a vertigem de uma brutal Queda sem redenção. O frango que dita uma derrota representa uma mácula de tal modo irredimível no final dos 90 minutos que, houvesse futebol na Idade Média, e Dante teria atirado o guarda-redes frangalheiro para o nono círculo do Inferno, ao qual seriam poupados todos os outros.

Quando uma equipa sofre o golo que dita ou pode ditar a derrota, vê o mundo desabar. Quando esse golo é um frango protagonizado por aquele em quem confiaram para defender as suas redes, vêem o mundo desabar ainda mais dramaticamente mas, tal como referi atrás, do mesmo modo que o guarda-redes assiste afastado ao desenrolar como elemento exterior, no momento do frango todos os outros 10 assistem, unidos e como elementos exteriores, à Queda do seu guardião. Guardião que vê o mundo desabar mas, como se isso não bastasse, vê-se também a desabar com o mundo. E nem chega a ser assassinado pela consciência implacável dos adeptos. Antes disso, já dentro da sua cometeu suicídio.

17 setembro, 2017

NOMES BRANCOS

José Paulo Ferro | Do livro "Roll Over, Adeus Anos 70"

Estava no balcão dos queijos do Intermarché quando surge a Noémia, uma rapariga do meu tempo de escola, que não via há anos. Fiquei contente por vê-la mas também impressionado com um cabelo tão branco como o das avozinhas das histórias infantis e do qual fiz logo um espelho onde vi reflectido o inexorável peso da idade, obrigando-me a ganhar consciência de como estamos todos a ficar velhos. Claro que se trata de um facto certo e sabido, até porque também tenho espelho em casa e um par de pernas que fazem com que a diferença entre subir e descer a ladeira do Bairro dos Pobres seja cada vez mais como subir e descer o Paralelo 38. Mas ser um facto certo e sabido é uma coisa, outra é ver aparecer a Noémia com os seus cabelos brancos como o das avós das histórias infantis.

Mas ainda mais do que os seus cabelos brancos, o que me fez sentir ainda mais velho foi o seu nome, perceber que faço parte de um tempo em que havia raparigas que se chamavam Noémia. O que me levar ao seguinte exercício: fazer um levantamento dos nomes dos meus colegas de turma do secundário, quase tudo raparigas por se tratar de uma turma de Humanidades. Nomes que, outrora, tal como os cabelos, foram pretos, castanhos ou louros (não havia nenhuma ruiva!) e que com o tempo se tornaram brancos como os cabelos das avós. Quanto aos rapazes, para além de mim, havia dois Vítor, um Joaquim e um Fernando. Três nomes que deixaram de existir há várias gerações. Mas é quando se chega às raparigas que o choque de irrealidade se torna  brutal. Só Fernandas, um dos nomes mais sonantes de então, eram umas cinco ou seis. Há quantas décadas não nasce em Portugal uma rapariga que se vai chamar Fernanda? Se houvesse agora em Portugal um Karl Ove Knausgard que fosse escrever uma carta à filha que vai nascer, a possibilidade de esta vir a chamar-se Fernanda seria tão remota como a do Benfica ser campeão este ano. Depois, havia nomes como Cândida, Joaquina, Edite, Judite, Custódia, Emília, Filomena, Laura, Céu, Fátima, Lina (duas), Albertina, Irene, Dália, Cremilde ou Dina. Isto na minha turma pois fora desta ainda tinha amigas chamadas Piedade, Felisbela, Cesaltina, Lurdes, Olga, Natália, Amélia, Celina, Rosário, Dulce, Elsa, Isilda, Rosalina, Celeste ou Idalina. Mesmo nomes que, de certo modo, resistiram ao desgaste do tempo, nomes como Paula, Isabel, Luísa, Teresa, Cristina ou Margarida, deixaram de ser comuns. Há quantos anos não tenho uma aluna chamada Paula, Teresa ou Luísa? Nomes que não sendo brancos como a neve, se tornaram pelo menos grisalhos.

Eu olho para estes nomes e sinto-me a fazer parte de um museu onde ficámos todos como animais embalsamados. Ainda hoje fico impressionado com um animal embalsamado cujos dentes arreganhados fazem com que parecça vivo. Ora, com toda esta brancura onomástica passa-se o mesmo, só que no sentido inverso. Enquanto os animais estão mortos e bem mortos mas fazem-nos cair na ilusão de estarem animados por um sopro vital e que a todo o instante saltem da prateleira e comecem a correr, nós estamos vivos e bem vivos mas olha-se para estes nomes e parece estarmos em repouso numa prateleira, dando-nos um certo ar fantasmagórico, o que até seria excitante se viéssemos do século XIX em vez do século XX. O que iria eu sentir se estivesse a acampar na Costa da Caparica, ao lado de uma tenda com estrangeiros que entretanto me dissessem vir da Prússia? E um estudante que tivesse acabado de chegar a Portugal para fazer Erasmus, vindo da República de Weimar? Ou fazer amizade no comboio com alguém que, ao trocarmos moradas, escrevesse "Constantinopla"? Embora reais, pensaria tratar-se de fantasmas com uma etérea passagem pelo presente. Ora, é também isto que sucede connosco por causa dos nossos nomes. Somos reais, quer dizer, andamos, respiramos, falamos, mas viemos todos de um mundo que já não existe. Como os cabelos pretos da Noémia.

13 setembro, 2017

RIR COM RIR SE PAGA



Eu gosto de John Cage e as minhas prateleiras não se queixam com falta de música contemporânea. Não sou, portanto, um inveterado conservador em matéria musical. Mas mesmo que não gostasse, iria sentir um desconfortável arrepio se por acaso visse este vídeo sem a apresentação inicial e a reacção do compositor no final. O que veria, nesse caso, seria o compositor a tocar a sua música enquanto o público vai rindo como se de palhaços no circo ou de uma stand up comedy se tratasse. Um compositor escarnecido e humilhado no tribunal do gosto do cidadão comum. Porém, ouvindo o que diz o apresentador e, no fim, vendo o riso satisfeito do músico, percebe-se que, apesar do escárnio, não existe humilhação. É verdade que, rindo, o público mostra não perceber uma música que, ao contrário, por exemplo, desta, não foi feita para rir.  Mas o compositor também sabe ao que vai, sabe que público é aquele e como vai reagir.

Mas o que me traz aqui não é a ignorância do público em geral, no qual me incluo, face a muito do que se faz  na arte contemporânea, por muitos programas ou folhetos informativos que se consultem sobre o que se vê. Uma arte muito pensada e com um nível de elaboração intelectual que a torna inacessível, acabando o público por sentir o peso da sua ignorância em matéria de arte. Considero, porém, tal ignorância normal e até saudável, se pensar em tanto bluff, disparate e anormalidade que se vê por aí, o que, felizmente, não acontece com toda a arte. Em todos os ramos, da música à arquitectura, passando pela pintura, escultura, teatro ou dança, continuamos a encontrar produções de excelência.

O que desejo salientar é o facto desta situação específica servir para traduzir a relação de muita arte contemporânea com o público em geral,  fazendo tudo para, em nome da criatividade e de uma elevada ousadia estética, se criarem rupturas, legitimando assim um gueto artístico, uma minoria que assim se auto-constrói como elite e que olha com superioridade e até desprezo para o público em geral. Eu tenho todo o respeito por John Cage mas tanto o seu riso como a própria cumplicidade com o riso dos espectadores, não me apaziguam.  As pessoas riem-se dele, divertem-se com o que estão a ouvir mas ele também se ri do riso delas, da sua ignorância face ao que estão a ouvir. Eu, e juro que não tenho a mania da perseguição, ao ver, por vezes, certas exposições onde me sinto a pessoa mais estúpida do mundo, apesar dos artistas não estarem lá, é também esse riso que consigo ouvir, escarnecendo da minha ignorante e primária estupefacção.

12 setembro, 2017

SCANDISK

Marc Riboud | Arredores de Chartres, 1923

Durante séculos, era ao padre que as pessoas abriam a sua alma no segredo do confessionário. Alma que, metamorfoseada em mente ou psique, passou a revelar-se no divã de um psiquiatra. Hoje, entrega-se o disco rígido ao tipo que arranja os computadores. É nele que, actualmente, sem culpas, recalcamentos ou penitências, está, em bytes, a alma de uma pessoa.

10 setembro, 2017

PAULINA AO PIANO NA FESTA DO AVANTE



Numa quinta do Minho, uma fidalga viúva vive sozinha com o  seu filho Tomás, de 15 anos, prestes a ir para a universidade. O rapaz, que é poeta, está apaixonado por Paulina, uma jovem leiteira da quinta, pobre e analfabeta, a quem jura amor eterno. Desesperado por deixá-la, parte para Paris para cursar Medicina. Anos depois, regressa já homem feito, médico, a mente refinada por anos de convívio com a elite cultural parisiense e... doido para se atirar para os braços de Paulina, que nunca esqueceu e continua sua eleita para ocupar o leito nupcial. Quem sabia da história só podia temer o pior: passados os ingénuos devaneios de juventude, como gerir agora o fosso social e cultural entre dois adultos sem nada em comum para partilhar nas horas vivas e mortas da vidinha de todos os dias? Acontece que a Paulina que Tomás vai encontrar é agora uma elegante mulher sentada ao piano, cantando uma ária com uma bela e trabalhada voz. A mãe de Tomás, logo que este partiu para Paris, e certa de que o filho não iria quebrar a promessa, pega em Paulina e leva-a para Lisboa para lhe dar toda a educação própria de uma menina burguesa, e evitando assim um drama mais do que anunciado.

O conto de Júlio Dinis ao qual pertence esta história, chamado «As Apreensões de uma Mãe», acaba da melhor maneira, com felicidade para dar e vender. A sua moral, porém, é pessimista. A história acaba bem porque Paulina deixou de de ser uma simples camponesa para passar a ser uma elegante e educada burguesa. Não fosse isso e cá estaria a pirâmide social a fazer os seus estragos na relação entre dois seres humanos que foram para lá do mero estatuto de actores sociais, entrando na esfera da intimidade pessoal. Os mundos upstairsdownstairs podem viver pacífica e respeitosamente, mas terão sempre as escadas a separá-los e a delimitar os seus estatutos e códigos sociais na mansão Bellamy. Permanecesse ela camponesa e a relação rapidamente estouraria, eis a triste moral da história embora esquecida no meio de uma felicidade que caiu ad hoc da cabeça de uma sensata mãe preocupada com o destino do filho.

Pessimismo, portanto. Mas é caso para dizer, como o faz o senso comum quando quer dar o ar de uma certa graça filosófica, que quando se fecha uma porta, logo se abre uma janela, havendo afinal lugar para de novo sorrir. E qual é a janela? A janela da mobilidade social, toda ela aberta para um jardim de esperança. Se uma pobre e analfabeta leiteira se transforma numa burguesa sentada ao piano à hora do chá, isto significa que todas as pessoas, tendo a sua oportunidade, podem subir as escadas da mansão Bellamy. Eis a lógica do Estado Social, permitir que todas as Paulinas deste mundo se possam sentar um dia ao piano, casando com qualquer médico também deste mundo, ou, melhor ainda, e neste caso algo de impensável no mundo novecentista de Júlio Dinis, ver as próprias Paulinas com estetoscópio ao pescoço.

Sim, é verdade, a mobilidade social funciona como grande virtude social-democrata e de uma democracia avançada que busca níveis mais elevados de igualdade e justiça social. Só que isto também coloca um problema à esquerda, sobretudo comunista, que fica assim presa no seu próprio labirinto, no modo como gere a relação com a parte downstairs da casa. Percebe-se que no tempo de Marx e Engels, houvesse a necessidade de injectar doses maciças de auto-estima na classe operária, preparando-a para a luta de classes. Se a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, a classe dominada precisa de criar os seus próprios valores, as suas próprias necessidades e objectivos. Daí toda a retórica comunista pré-revolucionária, e depois soviética, à volta do orgulho operário e camponês, toda a deferência face às «classes trabalhadoras» como povo eleito rumo à socialista Terra Prometida. Mas o que fazer quando, graças à mobilidade social, quem está em baixo, isto é, dominado, passa a ter como grande objectivo passar para a parte de cima? Experimente-se perguntar a qualquer operário, motorista, caixa de supermercado ou cabeleireira o que desejam para os filhos? Que, em virtude de uma forte consciência de classe, mantenham orgulhosamente a tradição familiar? Não. O grande objectivo de qualquer família, muitas vezes com sacrifício, é lutar para que os filhos tenham uma vida melhor do que os pais, é ver um filho «engenheiro» ou «doutor» a subir as escadas da mansão, sendo isso motivo de orgulho para toda a família, e sendo aquele tanto maior quanto mais humilde for esta.

Não nos deixemos iludir pela esmagadora beleza poética do quadro de Vermeer. Uma coisa é a sua beleza intrínseca, outra o seu significado social. A sua beleza é a mesma das fotogénicas pobres casas de pedra de aldeias onde já ninguém quer viver mas que atraem turistas, sendo algumas até compradas e restauradas para uns fins-de-semana ou dias de férias para umas patuscadas com os amigos. Nós gostamos de ver aquela mulher, o rosto, os braços, o peito farto que alimentou uma ninhada de filhos, as roupas, mas ninguém quer ser aquela leiteira nem deseja aquele trabalho para um filho. Ela, no século XVII, sim, poderia estar conformada com o seu destino e ter orgulho no seu trabalho. Nasceu em baixo e em baixo sabia que iria sempre viver. Hoje, porém, tudo seria diferente. Claro que há hoje uma dignidade social num operário ou agricultor, a qual não existia no tempo de Dickens, Vítor Hugo, Gorki ou Soeiro Pereira Gomes. O almoço do trolha é bem mais apetecível e o Vagão J, entretanto, transformou-se em Intercidades, ainda que em 2ªclasse. Porém, ao contrário de um curso para ascender socialmente, ser «trabalhador» será sempre um recurso. Mesmo que se goste de o ser, é-se-o por falta de várias coisas para não o ser. Ou seja, a consciência de classe será cada vez mais pudica por se saber que se é trabalhador apenas por culpa própria. Os partidos do centro há muito que o perceberam. O Bloco de Esquerda finge que não percebe pois tem muito a perder com o seu eleitorado de gente urbana e socialmente mimada e que adora ser burguesa. O PCP, esse, teima em não querer perceber mas percebê-lo também só poderá significar ter a consciência do seu fim.