21 julho, 2017

A ESTÁTUA


Já lá vão uns bons anos mas ninguém esquece a destruição assassina das estátuas de Buda no Afeganistão. Apesar do choque, não surpreendeu, vindo daqueles andrajosos talibãs que, apesar do requintado estatuto de "Estudantes de Teologia" ainda hoje vemos como gente ignorante, primitiva, fanática, insensível, com lata para se divertirem a destruir património riquíssimo. Mas não deixa de ser desafiante comparar esse infantil e irracional desprezo perante as estátuas, com a pose solene, séria, adulta, destes homens perante igualmente uma estátua, neste caso de Napoleão, acabada de derrubar na Place Vêndome, no conturbado ano de 1871. Temos assim destruição de estátuas nos dois lados: uns porque as desprezam, outros porque as respeitam apesar de as deitarem abaixo, ou antes, deitam-nas abaixo precisamente porque as respeitam.

Mas não tinha de ser assim. Lembremos a dramática "Querela das Imagens", ainda nos primeiros tempos do cristianismo, por causa da veneração de imagens. Imagens beijadas, tocadas, que configuravam espaços sagrados e às quais se atribuíam poderes, tanto no espaço privado como público. Uma tradição vinda das camadas populares, mais dadas a comportamentos primários e supersticiosos do que a complexos pensamentos teológicos e filosóficos mas que também neste campo iria ter defensores e opositores. Os defensores, dizendo que uma imagem participava do seu original, sendo por isso digna de veneração. Dizendo que se Deus encarnou, o que é visível tem dignidade, valorizando-se assim a visão de imagens, até por ser mais acessível do que a palavra para alimentar o sentimento religioso. Em contrapartida, o papa Leão III propôs a destruição de tudo o que fosse imagem, mandando mesmo destruir a de Cristo na porta de bronze do seu palácio, venerada pelo povo. Antes disso, ainda no tempo do Império Romano, já se via no culto das imagens um primário e perigoso vestígio pagão. Aliás, não por acaso, na arte bizantina, onde o culto da imagem atinge o seu esplendor, é abolida a estatuária, pela sua associação a uma idolatria pagã. Repito: idolatria, veneração de falsas imagens em detrimento de uma relação mais espiritual ou interior com o sagrado. Ganharam os defensores como ainda hoje se pode ver ao entrarmos em qualquer igreja ou nos melhores museu do mundo. Mas tivessem perdido e a história das imagens na cultura ocidental teria um rumo completamente diferente.

Disse no início que a comparação entre os talibãs e os revolucionários é desafiante. Agora que já lembrei esta querela, posso explicar melhor porquê. Repare-se na pose daqueles homens: a pose solene dos caçadores quando exibem um poderoso leão a seus pés como precioso troféu, já inofensivo como um gatinho de peluche. Também estes homens têm um imperador a seus pés e dá bem para imaginar a sua exuberância horas antes enquanto derrubavam a coluna. Acontece que o leão, pouco antes de ser caçado, era um ser vivo, terrível e ameaçador, um verdadeiro rei da selva, assustando tudo e todos. Mas Napoleão? O verdadeiro Napoleão está morto há 50 anos. Como explicar esta solene pose face a um bloco de pedra que representa um imperador morto há 50 anos? Isto, numa praça bem perto dos salons philosophiques, por onde homens como Voltaire, Diderot ou d'Alembert espalhavam as luzes da razão, ou bem perto dos modernos boulevards há pouco rasgados em nome de um racionalismo urbano? Como diria um psicólogo que estuda o desenvolvimento da criança, há ali uma infantilidade mítico-mágica, sincrética, pré-operatória ou pré-racional. Estes homens levam tão a sério aquele pedaço de pedra derrubado como uma criança a sua boneca a quem dá de comer, muda a fralda, veste e com quem conversa.

Li uma vez o saudoso deputado João Amaral contar que, no meio de uma delegação parlamentar de visita à Coreia do Norte, estava numa praça de capital, vendo um polícia aproximar-se depressa e com ar ameaçador. Depois de alguma confusão lá acabou por perceber que estava a pisar a sombra da estátua do ditador, o que era absolutamente proibido. Nós rimo-nos disto mas, vendo bem, não há grande diferença entre um bloco de pedra e a sombra do bloco de pedra. O que é válido para a estátua de Napoleão ou para a sombra da estátua de um ditador, é também válido para um boneco de loiça representando a Nossa Senhora de Fátima, um ícone ortodoxo representando um santo ou um Cristo de madeira no altar de uma igreja perante o qual as pessoas se ajoelham quando passam, ou até para a bandeira de um país que não pode ser rasgada apesar de não passar de um pedaço de pano colorido. Atenção, eu fico muito feliz por o cristianismo ter seguido o caminho da valorização da imagem. Graças a isso, temos algumas das mais belas pinturas ou esculturas da história da arte, um património artístico de incalculável valor. Eu mesmo, durante décadas, absolutamente insensível à arte medieval, tenho-me convertido cada vez mais à sua beleza ao ponto de me comover com muitas delas. Todavia, seguindo a linha islâmica face às imagens, ou até em harmonia com o que é dito no Antigo Testamento relativamente à impossibilidade de representar Deus, os talibãs têm razão no que se refere à nossa relação com as imagens enquanto fenómeno idolátrico ou até com laivos fetichistas. Pedaços de pedra que ganham poder quando erguidos, pedaços de pedra que depois o perdem quando deitados abaixo. Nós olhamos para os talibãs com desprezo e a sobranceria de quem vê o mundo com quadros mentais desenvolvidos mas não vislumbramos nada de especial na fúria com que, no nosso mundo desenvolvido, uns deitam furiosamente estátuas abaixo e outros as erguem com devoção, considerando tudo isso normal. O mundo não é assim tanto só feito de preto e de branco como esta velha fotografia de Paris.

20 julho, 2017

O CARTEIRO DE IMMANUEL KANT


É impossível apresentar Kant a alguém sem referir os seus imprescindíveis passeios depois de almoço, fossem quais fossem as condições meteorológicas, sempre o mesmo percurso, passando sempre às mesmas horas pelos mesmo sítios. Diz-se que os habitantes de Königsberg poderiam saber as horas pelo momento em que ele estaria a passar. Diz-se também que só uma vez tal não aconteceu. Foi quando, ansioso por saber notícias que vinham de França, onde houvera uma revolução, modificou o seu percurso para ir ao encontro do carteiro que lhe trazia as novidades.

Vou agora imaginar Kant em Königsberg (actual Kaliningrado), lá no Báltico, à espera, ansioso, de novidades de França. Novidades? Ansioso? Como novidades, num tempo em que não havia televisão, rádio, internet, telégrafo, fax, telefone, carro, comboio ou avião? Vejo-o a aproximar-se do carteiro, conversam um pouco (ele era um excelente conversador), afasta-se para ler, ficando então a par do que vinha desse longínquo país. Imaginar isto obriga-me a pensar na distância entre o que ele fica a saber e no que, entretanto, já aconteceu depois disso sem que ele possa disso dar conta, porque a França é a França e o Báltico é o Báltico.

Dessa vazia e escura distância temporal entre o que se sabe que está a acontecer e o que está a acontecer mas não se sabe, não nos podemos nós hoje queixar. Seja em que parte do mundo for, sabemos em directo tudo ou quase tudo o que está a acontecer. E com actualizações hora a hora. E com reportagens de correspondentes ou enviados especiais de vários canais, falando de noite quando para nós é de dia ou vice-versa. E com dezenas de fotografias, entretanto espalhadas pelos jornais e pela rede, dos mais ínfimos e supérfluos pormenores, como se nós próprios andássemos por lá a vasculhar tudo o que há, tanto para ser visto como para não ser visto mas que acabamos por não conseguir deixar de ver. E com entrevistas a quem lá vive. E com comentários especializados nas televisões, explicando os mínimos detalhes até aos limites da exaustão e do mais absoluto tédio. Podemos, pois, considerar que dominamos bem os acontecimentos históricos, graças ao poder da informação, da comunicação, da tecnologia.

Sim, até certo ponto é verdade. Mas é verdade quando se trata da onda que bate na areia e que molha os nossos pés. Vemos a onda, começando a formar-se, lá longe, à superfície, a crescer, a aproximar-se e, finalmente, a estatelar-se na areia até chegar aos nossos pés. Porém, o que vemos é apenas a parte final, a consequência, não as várias conjugações, imperceptíveis a olho nu, tanto no fundo do mar como ao nível dos campos gravitacionais, que estão na origem da onda que se desfaz, já exangue, nos nossos pés. Diz-se, e não longe da verdade, que a Filosofia política do século XIX é uma reflexão e uma discussão à volta do que foi gerado pela Revolução Francesa. Diz-se, e também não longe da verdade, que a Filosofia Política do século XX é uma reflexão e discussão à volta do que foi gerado pelo Comunismo. Kant, um homem que também escreveu importantes textos políticos nos finais do século XVIII, não podia adivinhar, ao receber as notícias pelo carteiro, o que iria ser a Filosofia Política do século seguinte. Nós, aqui e agora, com tanta informação e comunicação, hora a hora actualizada, ainda só estamos em 2017, com a onda do século ainda a formar-se à superfície da água, estamos muito longe de saber o que virá a ser a Filosofia Política do século XXI ou do século XXII. Vemos, aqui e agora, as ondas a bater nos nossos pés, mas estas ainda são as ondas do passado que, exaustas, já só nos lambem os pés antes de desaparecerem de vez na areia. Mas não sabemos que tipos de onda virão a molhar os pés de quem ainda tem tanto para viver neste século, pois, e apesar de neste preciso momento, hora a hora, dia a dia, mês a mês, ano a ano, já estar a acontecer, sabe-se lá onde e como, o que acontece agora nas profundezas do mar e dos campos gravitacionais da história, é imperceptível a olho nu. No que a isso diz respeito, o pobre e esforçado carteiro de Kant continua a ser ainda o nosso carteiro.

19 julho, 2017

CORTES

JRC | DUPLO CORTE [ Livraria Lello*]

Tivesse Maria Antonieta ficado sossegadinha no palácio de Hofburg, em Viena, e tudo seria diferente. Mal sabia ela onde se iria meter. Não bastando chamarem-lhe a "autre-chienne" lá pela corte de línguas bem afiadas, acabaria por sofrer um corte ainda mais acutilante. Com tão trágico destino, e mesmo considerando ter sido em criança aluna de Gluck, é uma tremenda ironia daquele (do destino, claro, não de Gluck que, entretanto, já tinha morrido) ficar para a história como rainha consorte. É verdade que não há machado que corte a raiz ao pensamento mas quando o pensamento não tem raízes, torna-se tudo bem mais complicado. Como diria um qualquer revolucionário espanhol dos anos 30 do século passado, mais vale comer brioches em pé do que partir confortavelmente de joelhos.

*No tempo em que se podia andar por lá horas quase sozinho.

18 julho, 2017

A PASSADEIRA


Como ando quase sempre a pé, a minha relação com as passadeiras é mais como peão do que como automobilista. Quando um carro pára para eu atravessar, embora saiba que é obrigado a fazê-lo, tenho o hábito de agradecer, levantando ligeiramente o braço. Claro que isto só faz sentido numa terra pequena como a minha, onde em ruas estreitas e com pouco movimento, acontece com frequência um frente-a-frente entre um só carro e uma pessoa a atravessar. Também, enquanto automobilista, gosto que a pessoa que atravessa a passadeira me agradeça e fico algo incomodado quando atravessam tão indiferentes como se eu lá não estivesse. Não é que leve a mal, as pessoas não têm a obrigação de se sentirem gratas por uma coisa que a lei me obriga a fazer. Levo a mal, sim, quando prendo uma porta para deixar passar alguém que depois não me agradece, tratando-se, neste caso, da mais pura grosseria e má educação. Não, é apenas de um certo desconforto pela minha invisibilidade quando o peão bem sabe que a minha paragem forçada foi condição necessária para poder atravessar. Pronto, também não precisa de agradecer como um senhor há dias se preparava para atravessar. Ao ver que vinham dois carros, o meu e outro em sentido contrário, mandou, com gestos bastante expressivos, os carros continuarem. Só que tanto eu como o outro condutor parámos mesmo e o senhor lá atravessou a passadeira mas parecendo um daqueles maestros exuberantes que, ao agradecerem, baixam freneticamente a cabeça quase até à cintura, virando-se para a direita e para a esquerda com enorme entusiasmo. Confesso que me senti desconfortável com tamanha gratidão.

A minha questão agora é a seguinte: porquê esta minha apologia do agradecimento face a um comportamento obrigatório por lei? Para melhor compreender o que está em jogo, vou associar esta situação a duas outras. Numa estrada, é obrigatório por lei prestarmos assistência a pessoas vítimas de acidentes. Mas se eu tiver um acidente e for socorrido por uma pessoa que parou o carro, claro que lhe irei agradecer e se não o fizer, darei uma terrível imagem de ingratidão. Quando, numa loja, pago uma coisa que custou 10 euros com uma nota de 20 o empregado é obrigado a dar-me o troco. Ainda assim, agradeço, e creio que é isso que faz qualquer pessoa educada. Mas porquê? Para explicar, vou dar uma volta ao bilhar grande só para referir um livro chamado "The Roads to Modernity - The British, French and American Enlightements", de uma senhora chamada Gertrude Himmelfarb. Entre outras coisas, explica ela que a essência do Iluminismo francês é a "razão", já no Iluminismo inglês vamos encontrar tanto o "sentimento moral" como as "virtudes sociais" ou "afecções sociais", nas quais podemos encontrar, entre outras, um "fellow-feeling" que não sei bem como traduzir, pois qualquer tradução me soa mal, incluindo "companheirismo" ou "solidariedade", considerando esta última, aliás, horrível e até já roçar o pindérico ou pior ainda, o mais insuportável kitsch. Quer dizer, mais do que ser racionais que funcionam com base em imperativos racionais que podem ser postulados cientificamente, tornando o ser humano uma máquina perfeita cujas leis são apenas uma parte das mais gerais leis da natureza estudadas pelos cientistas (explica a autora que um cientista como Newton, uma referência suprema para o povo inglês, tendo mesmo direito a funeral de Estado, teve, de um ponto de vista moral, grande impacto na França "philosophique" do século XVIII, o que não aconteceu no seu país, onde separam o que é propriamente científico e racional do que é especificamente humano), devemos entender as disposições morais e sociais dos seres humanos a partir do sentimento, do afecto, de uma natural e espontânea simpatia, que explicam o impulso filantrópico da maioria das pessoas como se viu recentemente em Portugal com o incêndio de Pedrógão Grande.

Agradecer um troco ao balcão ou a paragem de um carro na passadeira, não é propriamente um sentimento moral como a compaixão ou a benevolência. Será antes uma virtude cívica como a "fellow-feeling" que torna a outra pessoa não um simples objecto reduzido à condição de cumprir uma obrigação mas alguém que cumpre uma obrigação numa relação comigo que as circunstâncias tornaram pessoal. Eu não agradeço à minha varinha mágica ou à minha liquidificadora desempenharem com competência as suas funções. Ora, se eu não sinto a obrigação de agradecer o troco ou a paragem do carro na passadeira, estou a reduzir aquelas pessoas à simples condição de máquinas que se limitam a cumprir uma função a que são obrigadas por um conjunto de regras morais ou jurídicas. Agradeço, sim, como acto de "re-conhecimento", revelando ter a consciência de que, "ali e agora" é aquela pessoa especificamente, aquela pessoa na sua individualidade, que está a fazer aquilo que é suposto fazer. Não seria necessário mas também uma das coisas que mais distinguem os seres humanos é a "elevação do supérfluo". A polidez é um bom exemplo desta virtude social ou cívica e, tal como na passadeira ou na loja, é ela que me faz gostar de ouvir um aluno dizer "obrigado" quando lhe entrego o enunciado do teste que sou obrigado a entregar-lhe, ou presumo que o aluno gosta de ouvir quando sou eu a dizê-lo, quando me entrega o teste que ele é obrigado a entregar-me para eu poder corrigi-lo. Nesse momento, somos muito mais do que professor e aluno como entidades abstractas que cumprem funções técnicas e objectivas. Somos duas pessoas, dois indivíduos, duas consciências, que se reconhecem como tal e que gostam de se reconhecer como tal. Tal como na passadeira, também sermos muito mais do que um automobilista e um peão.

17 julho, 2017

UM SUAVE VENENO


Fiquei contente com o golo do Éder, como fiquei contente, minutos depois, quando o árbitro apitou para o fim do jogo. Poderia não ter ficado. Fosse francês e teria ficado furioso. Fosse austríaco ou lituano e talvez ficasse indiferente. Mesmo sendo português, poderia ter ficado indiferente. Uma pessoa pode ser portuguesa e não sentir nada de especial pelo seu país. Vendo bem, racionalmente, até me sinto mais europeu do que português e, mais racionalmente ainda, mais ser humano do que europeu. Mas como nem tudo na vida é racional, não consigo resistir ao destino de ter nascido aqui, de falar, ler, escrever e pensar com a língua que se fala aqui, de comer o que se come aqui, de ter crescido no meio de quem aqui vive, no meio de hábitos, tradições, paisagens que só quem aqui nasce e vive pode compreender. Se tivesse nascido na Finlândia ou na Hungria, passar-se-ia comigo o que se passa com quem nasceu lá. Mas como foi aqui e não lá que nasci e cresci, e apesar de não considerar Portugal melhor ou pior do que os outros países, ou não sendo dado a erupções patrióticas, gosto de ser português e do país que faz com que goste de ser o que sou.

Fiquei pois contente com o golo do Éder, como fiquei contente, minutos depois, quando o árbitro apitou para o fim do jogo. E de me sentir algo orgulhoso por o meu país ser campeão europeu apesar de jogar um futebol medíocre. Confesso, porém, que não sinto o mesmo orgulho perante os feitos históricos dos portugueses, como não sinto qualquer vergonha ou culpa pelo que de desprezível outros portugueses fizeram em tempos. Foram eles, não fui eu. É verdade que também não fui eu quem marcou o golo, foi o Éder. Nem joguei aquele jogo, nem sequer estive lá no banco como massagista. Mas aquele jogo ocorreu no meu tempo, com pessoas que vivem no meu tempo e fazem partem da minha vida em tempo real. Claro que eles se sentirão mais orgulhosos do que eu, merecem muito mais esse orgulho do que eu. Mas eu, sendo português como eles, aqui e agora, partilhando o mesmo país, posso ir à boleia do seu orgulho. Ora, o mesmo não acontece com o que os meus antepassados fizeram, fosse de bom, fosse de mau.

Daí não conseguir dar para este peditório. Reconhecer as atrocidades do passado? Sem dúvida. Um massacre é um massacre, seja onde for e quando for. Agora, pedir desculpa, implica uma culpa e este país Portugal não tem culpa do que de errado se fez em tempos. Entre o reino de Portugal de 1500 e a república portuguesa de 2017 existe um hiato brutal. Há mais semelhança, hoje, entre um português e um africano, do que entre um português de 1500 e um português de 2017. Aqueles governantes já não existem, aqueles portugueses já não existem, como não existe aquele regime, aquela ordem de valores, aquela mentalidade, aqueles hábitos, enfim, aquele mundo. Pedir desculpa parece-me, pois, absolutamente despropositado.

O que se torna interessante compreender é a agenda política e o subconsciente político de quem permanentemente se mobiliza contra os países do mundo ocidental. Por que razão vivem permanentemente em busca de causas, de lutas, de conflitos, sempre em busca de mais uma polémica que denuncie os nossos regimes abertos, liberais e verdadeiramente democráticos, tão diferentes dos regimes com que eles sonham nos seus delírios ideológicos? Nuns casos serão ressentimentos mal resolvidos, noutros casos será sede de protagonismo, noutros casos ainda um excesso de testosterona mental que leva algumas pessoas a sentir necessidades revolucionárias. Seja. O mais irritante acaba por ser mesmo a sua obsessão em mexerem no lixo da história em vez de se concentrarem no que estes países, que tanto os revoltam, conseguiram de bom. Tão bom, que milhares de africanos, descendentes de antigos escravos trazidos para a Europa, morrem nas águas do Mediterrâneo ao tentarem viver para esses países em busca de um futuro melhor. Exigir um pedido de desculpa é muito mais do que isso: é uma necessidade de humilhar, de apontar a faca, de continuar a mantê-los reféns de um passado que já não existe a fim de poder fragilizá-los. Claro que a memória é um bem que não deve ser apagado. Mas aqui é muito mais do que isso. Trata-se de a transformar num veneno suave para poder mantê-los como alvo do seu subversivo ódio, raiva e ressentimento revolucionário. Felizmente, há homens como Barack Obama, Nelson Mandela ou Martin Luther King, cujas lutas e acções visam melhorar o seu próprio mundo, em vez de falarem, pregarem ou esbracejarem em nome de coisa nenhuma.

16 julho, 2017

O INQUÉRITO


É normal estar engripado? Depende. Ao contrário de conceitos como os de átomo, massa muscular, pressão atmosférica ou raiz quadrada, o conceito de normalidade é equívoco. Por isso respondo: sim e não. Não, porque estar engripado não é o nosso estado natural mas um estado de excepção. Não é suposto viver com gripe, apenas ocasionalmente. Mas também é normal pois acontece com frequência. Toda a gente já teve gripe e quando estamos engripados ou vemos alguém engripado, não vemos nisso qualquer anormalidade. Posto isto, o que pensar sobre um médico considerar a homossexualidade uma anomalia? Será a homossexualidade uma anomalia? E poderá um médico, enquanto técnico de saúde, considerar a homossexualidade uma anomalia? Primeira pergunta: sim e não. Segunda pergunta: sim.

Sim, a homossexualidade é uma anomalia na medida em que há uma lógica no facto de haver em toda a natureza sexuada (seres humanos, animais e plantas) dois elementos, o masculino e o feminino, que se atraem mutuamente. A natureza sabe bem o que faz e não é por acaso que existem dois sexos. Fosse a homossexualidade um estado preponderante da natureza e seria catastrófico em termos evolutivos. Neste sentido, sim, a homossexualidade é, e será sempre, uma anomalia, e ainda bem para a natureza em geral, e humanidade em particular, constituir um estado de excepção. Até podemos considerar a bissexualidade menos anómala e mais biologicamente racional do que a própria homossexualidade, uma vez que a atracção por pessoas do mesmo sexo não inibe trocas sexuais com pessoas do sexo oposto, assegurando assim a sobrevivência da espécie, o que não acontece quando homens apenas têm relações sexuais com homens e mulheres com mulheres. Mas também podemos considerar a homossexualidade normal. Sempre existiram, existem e irão continuar a existir homossexuais. E num quadro estatístico que não põe em risco a sobrevivência da espécie, podendo pois a humanidade dormir descansada em relação a isso. Para além disso, um homossexual é uma pessoa normal em tudo o resto, devendo, por isso, ser visto pelo que é como pessoa e não sobre o que faz ou deixa de fazer sexualmente.

Agora, por que é admissível um médico considerar a homossexualidade uma anomalia? É admissível se se basear numa leitura naturalista, tal como referi inicialmente. Claro que o facto de se tratar de um médico católico praticante, faz com que a sua leitura técnica fique contaminada por elementos ideológicos mas o mesmo se passará com os médicos que ficarão indignados com tal leitura, considerando a homossexualidade tão natural como a heterossexualidade. A homossexualidade enquanto matéria científica ou clínica distancia-se bastante de assuntos como a diabetes, a tuberculose ou a osteoporose, limitando bastante a possibilidade de uma abordagem puramente técnica e objectiva, impermeável a infiltrações ideológicas, políticas ou religiosas. Trata-se, por isso, de uma discussão que, em virtude dos seus pressupostos filosóficos, jamais terá fim.

Eu, que não sou médico, pretendo opinar. Considero que a homossexualidade tanto pode ser considerada uma doença como não ser considerada uma doença. Depende. Para entender esta ambivalência é preciso dizer o que se entende por saúde e doença. Ainda hoje, em muitas situações, e os médicos que o digam, é difícil distingui-las. Mas vou arriscar: pode-se considerar uma pessoa doente quando uma dada alteração no organismo (ou na mente) pode levar à morte ou a constrangimentos físicos (ou mentais), que criam situações aversivas que limitam a possibilidade de fazer uma vida normal. Ora, se um homossexual aceita a sua homossexualidade, vive bem com ela e se escolhesse ser de novo homossexual se voltasse a nascer, não faz sentido considerar esta pessoa doente. Se, pelo contrário, um homossexual vive mal com a sua homossexualidade, vivendo permanentemente frustrado e em conflito consigo mesmo por sê-lo, então este homossexual apresenta sintomas de doença, que o impedem de viver normalmente a sua vida, podendo assim precisar de apoio clínico. Quer isto dizer que o mesmo médico pode, numa consulta, considerar um homossexual, saudável, e, numa consulta seguinte, considerar um outro homossexual, doente. Doença, no seu sentido mais comum, como é o caso de uma gripe, que também provoca um mal-estar, não, vamos lá não meter tudo no mesmo saco, uma aberração, uma desordem grave, como sentir atracção por crianças, animais ou sentir prazer em andar a abrir gabardinas em lugares públicos.

Não concordo, portanto, com a posição  redutora de Gentil Martins sobre a homossexualidade. Estou, por isso, também à vontade para também considerar lamentável, mais uma vez, as reacções de histeria e fanatismo, igualmente impregnadas de ideologia, de quem se julga único detentor da verdade e a poder marcar a sua posição, silenciando todos aqueles que se opõem. O médico Gentil Martins tem direito à sua posição filosófica e outros o direito de discordar por motivos igualmente filosóficos. Inquérito? Passarem os perseguidos a perseguidores é um clássico da história e aí está mais uma vez a realidade para o confirmar.

15 julho, 2017

O ÚLTIMO METRO

Nelson Garrido

Qualquer pessoa da minha geração cresceu a ouvir as palavras "paneleiro" e "paneleirice" por tudo e por nada, as quais, felizmente, foram deixando de se usar. Ser hoje paneleiro está definitivamente em vias de extinção. Há apenas pessoas que são homossexuais ou gays, vistas e tratadas com naturalidade, sem qualquer estigmatização, sendo também cada vez mais habitual ver casais homossexuais assumir a sua relação no espaço público sem que haja qualquer tipo de reacção. Ainda bem para eles mas também para a própria sociedade por se tornar assim mais saudável, aberta à diversidade, livre, madura.

Como aconteceu tal mudança? Não sei, aconteceu. Pronto, não foi por acaso nem por obra e graça do Espírito Santo, o qual, pelo que dizem os seus porta-vozes, até se tem revelado conservador nestas matérias. Tudo o que acontece tem uma causa e este caso não é excepção. Mas ocorreu naturalmente, sem imposições, decretos-lei, campanhas formais de mentalização, propaganda institucional. Nada disso. Foi a própria sociedade, espontaneamente e levada pela sua própria dinâmica em busca do seu crescimento e maturidade, que aqui chegou.

Mas o que pensar desta decisão do metro de Londres, agora, sim, já com uma "linguagem contemporânea", segundo a fascista comunidade LGTB? Se a absoluta normalização de um/a homossexual é um feliz sintoma de uma sociedade naturalmente saudável, tal decisão já será sintoma de uma sociedade frágil e refém de gente tarada, obcecada, fanática, mentalmente desequilibrada. Que eu saiba, existem apenas dois sexos, sendo, por isso, perfeitamente apropriado o tratamento "Ladies and Gentlemen". Dois homossexuais continuam a ser dois homens, dois "gentlemen", duas lésbicas, continuam a ser duas "ladies". Se eu falar com um  homossexual trato-o por "senhor", se eu falar com uma lésbica, trato-a por "senhora". Não é por um homem sentir-se sexualmente atraído por homens que deixa de ser homem e uma mulher também não deixa de o ser por se sentir atraída por mulheres. Também uma pessoa bissexual não perde a sua identidade sexual, continua a ser um homem ou mulher. Mais, até acaba por ficar em vantagem por tanto poder aceitar a versão "gentlemen" como a versão "ladies", consoante os seus indicadores hormonais ou psicológicos desse dia. Também não vislumbro qualquer discriminação no caso de se tratar de alguém transsexual. Se era homem e passou a ser mulher, deixou de se lhe aplicar a versão "gentlemen" para passar a ser a versão "ladies". Se era mulher e passou a ser homem, aplica-se o contrário. Nenhum deles fica órfão no que toca a uma identidade sexual.

Não faz pois qualquer sentido esta absurda decisão. O seu sentido é ser um sintoma de uma modernidade bacoca, da submissão de uma sociedade que revela níveis de abertura bastante evidentes à agenda fanática e radical de gente que quer compensar séculos de discriminação com uma obsessão doentia pela normalidade, de gente que quer uma sociedade tão saudável e tão perfeitamente igualitária que acaba por poder morrer da própria cura. Eu disse atrás que a relação aberta com a homossexualidade, aliás, tal como em relação a outras minorias, é sintoma de uma sociedade saudável. Mas uma sociedade que arrisca perder referências, valores, tradições seculares, para ficar bem na fotografia de quem quer levar o fascismo do politicamente correcto ao seu ponto mais insano (o mesmo aconteceu de resto, durante anos com a agenda islâmica radical), arrisca-se a ser uma sociedade que, mais cedo ou mais tarde, se enterra num niilismo absurdo, desagregada, perdida, sem saber o que pensar. E onde todos perdem.

14 julho, 2017

DIÁLOGOS DE SURDOS


A capa de hoje do DN traz um título de notícia engraçado apesar de falso. Ou melhor, engraçado por ser falso pois se fosse verdadeiro não teria graça nenhuma, até porque se trata de uma notícia triste. Diz então o DN que "Notas de Química e Física põem em risco candidaturas a Engenharia". Para quem não está bem dentro do assunto, lê a notícia e pensa que se trata das notas de duas disciplinas: Química e Física. Ora bem, essas duas disciplinas existem, mas no 12º ano e não têm exame nacional. Onde há exame nacional é em "Física e Química", uma única disciplina, no 11ºano. Ora, isto faz uma certa confusão, a qual fez estragos também aqui.

Quando dantes se dizia "Ter uma aula de Físico-Química" ou "Fazer teste a "Físico-Química", sabia-se que se tratava de uma só disciplina. Porém, ao substituir-se o hífen pela conjunção copulativa "e", dando lugar à actual disciplina de "Física e Química", começam os problemas. Imaginemos um aluno que tem as duas disciplinas no 12º ano e diz "Hoje é 2ª feira e vou ter Física e Química" e imaginemos outro aluno que está no 11º ano e diz "Hoje é 2ª feira e vou ter Física e Química". Ora, dizer  "Hoje é  2ª feira e vou ter Física e Química" é simplesmente dizer  "Hoje é  2ª feira e vou ter Física e Química". Acontece que  o primeiro irá ter nesse dia duas disciplinas, "Química" e "Física", enquanto o segundo vai ter uma só disciplina "Física e Química". Depois não é só isso. Dizer "Jorge Jesus e Rui Vitória são dois treinadores" não é diferente de "Rui Vitória e Jorge Jesus são dois treinadores", havendo liberdade para invocar os nomes pela ordem que quisermos, tal como na sequência "Estocolmo, Londres, Atenas e Madrid são capitais europeias", uma vez que se trata de uma sequência de nomes puramente descritiva cuja ordem é aleatória. Acontece que dizer "Química e Física" não tem o mesmo sentido de "Física e Química" pois já não se trata de uma sequência descritiva de dois nomes mas a expressão verbal de um conceito, o conceito de "Física e Química", que é diferente do conceito de "Física" e do conceito de "Química", apesar de ser construído a partir destes dois. No 12º ano, sim, o aluno, olhando para o horário no domingo à noite, tanto pode dizer "Amanhã vou ter Física e Química", como dizer "Amanhã vou ter Química e Física". Mas quem não sabe que a disciplina de 11º ano se chama "Física e Química" ao ler o título que refere as disciplinas de Química e Física irá reforçar a ideia de que se trata de duas disciplinas em vez de uma.

Nesta altura do ano e com cerca de 40ºC a ameaçarem derreter o que resta da minha já escassa vida mental, a última coisa que me apetece é pensar em escola e afins, excepto os cafés que ficam em frente dela e onde se podem beber umas imperais com uns tremoços para precisamente hidratar um pouco o cérebro e dar-lhe algumas esperanças. Quem conseguiu chegar até aqui vai considerar que, dito isto, a minha vida mental já nem no domínio da escassez se encontra uma vez que outra coisa não fiz senão falar de escola. Pois, mas isso foi só para agora aqui chegar. Isto que acontece com o simples nome de uma disciplina de 11ºano é parecido com o que pode acontecer na nossa vida mental quando nos pomos a usar, juntar, separar, relacionar, hierarquizar conceitos, sobretudo aqueles cujo grau de abstracção é mais complexo. Falar por exemplo de liberdade, justiça, igualdade, amor, felicidade e tantos outros, permite estabelecer relações entre eles de maneira a sermos conduzidos a um caos sintáctico e semântico do qual dificilmente saímos, sem que as pessoas disso se apercebam. Pensemos num diálogo entre duas pessoas onde surgirão equívocos por causa do que expus anteriormente. E estamos a falar de uma simples disciplina de 11ºano e de duas de 12ºano. Se levarmos a mesma situação para o campo político, ideológico, religioso ou até pessoal, os equívocos serão ainda maiores pois nem sequer existe um referente empírico (por exemplo, consultar a ficha do aluno ou o plano de estudos do Ensino Secundário) para poder ultrapassar objectivamente o equívoco. Por isso muitos dos nossos diálogos são, e serão sempre, diálogos de surdos para os quais não há, nem creio que venha a haver, aparelhos auditivos para os poder resolver.

13 julho, 2017

O TEMPO EMBRULHADO


Há dias, deu-me para ir ver uma caixas que para ali tinha e fui dar com uns copos embrulhados em folhas de jornal, não tendo resistido a esticar algumas delas para ler notícias de há vários anos. Bem sei que a coisa mais velha do mundo é o jornal do dia anterior. Não me surpreende, pois, a inquietante estranheza  que é estar a ler notícias de há vários anos como se acabasse de comprar o jornal num quiosque. O que verdadeiramente me surpreendeu não foi tanto aquele cemitério de notícias frescas e de "última hora" mas as próprias folhas amarfanhadas, amachucadas, amarrotadas, esta estranha e disforme expressão física do tempo factual. Como se aquelas folhas se tornassem numa extensão física dos próprios conteúdos noticiosos, outrora lisos e transparentemente lúcidos.

A nossa consciência do tempo, ou melhor, a nossa consciência dos factos no tempo, também pode ser uma consciência lisa como as folhas de um jornal acabado de comprar, ou, pelo contrário, uma consciência amarfanhada, como a folha de um jornal que embrulha há anos o copo. Ir em busca do tempo perdido é como voltar a alisar uma folha de jornal cujas notícias se perdem num caos informe e ilegível com o objectivo de proteger copos. Acontece simplesmente o seguinte: enquanto o copo está protegido pelas amarfanhadas notícias de um velho jornal, não se pode beber por ele. E um copo protegido é um copo inútil. Quando, finalmente, o copo é desembrulhado para poder ser usado e as folhas de jornal podem ser de novo alisadas, regressa então à sua fragilidade de sempre.

11 julho, 2017

HO FATTO PENSIERI CON CONTROL

Eileen Cowin

«Existe uma espécie de cepticismo, antecedente a todo o estudo e filosofia, que é muito inculcada por Descartes e outros, como preservativo soberano contra o erro e o juízo precipitado». David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Secção XII


Gosto bastante desta tese empirista e céptica que associa o uso do preservativo ao pensamento. Um preservativo mental não impede o pensamento nem o prazer de pensar enquanto exercício, mais leve ou intenso conforme os níveis de testosterona mental. Sabendo nós quão perigosas podem ser as ideias, todo o cuidado é pouco. O poeta Heinrich Heine, o tal que disse que quem começa por queimar livros acaba por vir mais tarde a queimar pessoas, também dizia que as páginas escritas no gabinete de um solitário escritor, podem, a jusante, vir a provocar muitos estragos. Daí o inestimável benefício de pensar com preservativo. Não havendo total certeza sobre as possíveis consequências dos pensamentos, evita-se assim a acéfala gravidez de milhares ou milhões de cabeças com infectas ideias que, um dia, já mais crescidas, só virão a trazer mais problemas.

O que pode então significar pensar com preservativo? Significa: "Ok, leiam-me mas não me levem demasiado a sério tal como eu também não me levo, riam-se do que é risível no que escrevo ou no que irá estar datado daqui a meia dúzia de anos". Pode parecer estranho haver pessoas que escrevam com preservativo de tamanha resistência e qualidade, mas há. Montaigne é um bom exemplo disso. Montaigne que juntou tudo aquilo que escreveu numa obra chamada "Ensaios". Hoje, o conceito está excessivamente vulgarizado mas a sua essência é bem interessante."Essayer", em francês, significa tentar, experimentar, testar. Quem escreve um ensaio está a experimentar ideias mas sem lhes dar qualquer importância dogmática ou valor definitivo. Aliás, tal como a ideia de ensaiar no teatro, que serve para testar, pôr à prova, perceber o que está mal mas sem comprometer e sem levar ainda demasiado a sério, ao contrário do que acontece na noite de estreia, quando já não se pode errar.

Ao contrário das crianças do Another Brick in the Wall que cantam "We dont't need no thought control", o que venho aqui propor é precisamente um "thought" control graças ao poder de um bom e resistente preservativo mental. Eu sei que a ideia de  "thought control" é horripilante, fazendo lembrar fascismo, comunismo ou democracia venezuelana. Não, obrigado, não precisamos disso. Mas não é disso que se trata aqui, tipo um Estado a prender as ideias das pessoas com camisas de força, impedindo-as de pensar livremente. Trata-se antes de ser a própria pessoa que pensa, numa atitude profiláctica, a limitar as possibilidades de contágio ou gravidez, impondo limites ao valor dos seus pensamentos. E hoje cada vez mais pois a esmagadora maioria das pessoas, apressada e com instintos caprinos no que ao pensamento toca, não se dá ao trabalho de ler ou ouvir com preservativo. Lê ou ouve e passado pouco tempo pode estar infectada por ideias perigosas e absurdas que depois contagiam outras num processo sem fim, ainda para mais agora que, graças às redes sociais, vivemos um tempo de desenfreadas orgias de pensamentos que conduzem a um triste processo de "gravidez de massas". E se há território onde merece mesmo um controlo da natalidade é nas ideias. Controlo com control, jamais com controle, que fique bem claro.

10 julho, 2017

TAKE A WALK ON THE WHITE SIDE



Ninguém gosta de se sentir ridículo mas há pessoas que têm mais dificuldade do que outras em escapar a essa triste condição. Eu sou uma delas. Durante a minha última caminhada, transformei a estrada que vai desde a rotunda da Atouguia ao Colégio Andrade Corvo na estrada de Damasco. Claro que estrada de Damasco há só uma mas na minha pessoal enciclopédia passou a ser todo o lugar onde se dá uma revelação, que tanto pode ser de fora para dentro como de dentro para fora. No meu caso, desta vez, foi de dentro para fora, consistindo a revelação em perceber a minha ridícula figura pelo facto de ir vestido com uma T-shirt, uns calções e com os pés enfiados num par de sapatilhas. Pela reacção de absoluta indiferença das pessoas por quem passo durante a minha caminhada, percebo que não estou a ser ridículo para elas. Não vejo ninguém a rir ou a fazer um esforço para não se rir. Pessoas que passam por mim aos pares ou em trio, não fazem comentários, ainda que discretos, à minha passagem. Mas cá está, não foram elas mas eu quem se apercebeu do meu próprio ridículo.

Vá para onde for, ando quase sempre a pé, com o tipo de roupa que vestem as pessoas normais para fazerem as suas vidas normais. É assim que vou para a escola, às compras, ao café, ao banco tratar de algum assunto. Qual então o sentido de vestir uma T-shirt e uns calções e calçar umas sapatilhas para fazer precisamente o que faço quando vou para a escola ou ao café? Poder-se-ia dar o caso de andar muito mais depressa ou de correr durante a caminhada, o que justificaria uma roupa mais apropriada. Mas não. Eu tenho uma passada mais ou menos rápida, sendo sempre igual, quer vá para a escola, quer faça uma caminhada. E detesto correr. Há tempos, voltei a experimentar correr só um bocadinho para ver no que dava, e veio-me logo à cabeça a diatribe de Dom Rigoberto contra os desportistas, escrita pela mão de Mario Vargas Llosa, no escatologicamente elegante Os Cadernos de Dom Rigoberto. Pior: senti uma mistura entre o ir a fugir da polícia e ser cavalo na versão They shoot horses, don't they?

Ora, se Kant fazia as suas diárias caminhadas por Königsberg vestido com a sua roupa normal, se Rousseau devaneava, solitário, pelos campos franceses, com a sua roupa normal, se era com a sua roupa normal que Pessoa sonhava com o rio da sua aldeia enquanto caminhava junto ao Tejo, se era com a sua habitual roupa bávara que Heidegger pastoreava o ser pela Floresta Negra, se Baudelaire, Rilke, Walter Benjamin ou Cortázar caminhavam com a sua roupa normal pela cidade, se Woodsworth ou Beatrix Potter sozinhos, ou se John Ruskin na companhia de John Everett Millais caminhavam com roupa normal pelo norte de Inglaterra, se foi com a sua roupa normal que Göethe calcorreou quilómetros por Itália, se era também com a sua roupa normal que Nietzsche subia a montanha e nem consta que Charles Darwin tenha explorado as Galápagos de fato de treino, por que raio hei-de eu vestir uma T-Shirt, uns calções e calçar umas sapatilhas para igualmente caminhar durante uma miserável hora? E não aceito que se diga que Kant só não ia fazer a sua caminhada de calções porque na altura não se usava. E que Göethe não foi para Itália de sapatilhas ou Ruskin não passeou pelo norte de T-Shirt pelas mesmas razões. Já agora, não era também com roupas normais que os lisboetas do século XIX iam passear para o Passeio Público (onde ficam hoje os Restauradores) ou os portuenses para o jardim de S. Lázaro (onde fica hoje o jardim de S. Lázaro)? Alguém iria vestir uns trapos fatelas só para se sentir mais confortável a caminhar?

Por que razão terei eu então que ser ridículo, vestindo roupa ridícula, para fazer a coisa mais natural do mundo desde que deixamos de gatinhar? Porque eu próprio estou já contaminado pelo espírito técnico-instrumental que infecta o nosso tempo. Comer e fazer sexo deixaram de ser simples actos que dão prazer para se tornarem actos clínicos com peso e medida, ser pai implica aconselhamento através de livros e psicólogos, para se ser feliz é suposto ler centenas de livros dos quais pelo menos 50% tem "Mindfullness" no título. Entretanto, caminhar, entrou na mesma onda. Caminhar deixou de ser uma simples vadiagem física e mental da qual resulta um corpo mais apaziguado e uma mente simplesmente mais desopilada, para passar a ser um acto praticado de manhã cedo, ao fim da tarde ou já de noite em ruas transformadas em campos de treino ao ar livre, sendo depois as casas os balneários. Veste-se o fato de treino ou os calções e lá vai a pessoa para o seu exercício, controlando os quilómetros que faz, o tempo que demora em cada caminhada, havendo mesmo pessoas com umas coleiras nos braços para fazer medições sabe Deus de quê.

Tal mentalidade técnico-instrumental chegou também às praias como se pode aqui constatar. Por que razão tem uma pessoa que simplesmente vai à praia ser transformada num banhista em vez de uma pessoa que simplesmente vai à praia? Alguém tem a veleidade de transformar o sr. Palomar num banhista só porque está numa praia? Eu já estive muitas vezes em praias sem tomar banho e nem sequer poderia ter a clássica desculpa de estar com o período, a qual, de resto, já deixou de se dar. Uma das melhores recordações que tenho da praia é andar, já vestido, na praia do Vau sem ninguém, no lusco-fusco, ouvindo apenas o som das ondas na areia e as gaivotas. Mas cá está.Para esta gente uma pessoa vai à praia, não para ler o jornal ou um livro, para estar a brincar com os filhos, para passar pelas brasas ou simplesmente para estar a ver o mar ou pôr os cinco sentidos a absorver o que só a beira-mar proporciona. Ser banhista torna-se assim numa categoria biopolítica do mesmo nível do caminhante, estatutos impostos sobre o nosso corpo e espírito, que nos fazem perder a doce espontaneidade de existir para passar a ser regulada por códigos artificiais. Nutricionistas dizem-nos como comer, sexólogos como fazer sexo "gratificante", institutos, o que fazer na praia, ideólogos do politicamente correcto como falar. Só faltava cá o simples acto de andar a pé, transformado num exercício cardiovascular ou para emagrecer, sobretudo nos períodos que antecedem aqueles em que somos transformados em banhistas.

09 julho, 2017

ENGENHEIROS DE ALMAS CEM ANOS DEPOIS

Isaak Izrailevich Brodsky 

No Público de ontem, em registo de "estado de alma", a respeito da manifestação, em Lisboa, de apoio ao grande timoneiro venezuelano, o cronista João Miguel Tavares mostrava a sua perplexidade face ao contraste entre as coisas que um comunista diz para dar um ar de modernidade e de resignação à "democracia burguesa" e, depois, as suas acções, fugidas para a verdade como tantas vezes a boca. É natural. O cronista, sendo um jovem, terá mais dificuldade em perceber a cabeça de um bolchevique. Sendo eu mais velho, já poucas coisas me surpreendem, incluindo a labiríntica cabeça de um bolchevique.

Atenção, eu disse poucas. Quer isto dizer que ainda há espaço para alguns coelhos na cartola das surpresas. Superlativo exemplo do que estou a dizer é a lista de membros do Comité Central do PCP que pode ser aqui consultada. Vejo o primeiro da lista: Adelino Nunes, operário, 53 anos de idade. Tudo normal com a sua identificação. Porém, logo no terceiro, uma surpresa: Alexandre Araújo, intelectual, 44 anos de idade. Ainda pensei que ser apresentado como intelectual fosse um engano, uma gralha, sei lá, uma confusão qualquer. Só que, logo umas filas mais abaixo, aparece Filipe Vintém, igualmente intelectual. E mais abaixo, Jaime Toga. Como intelectuais serão João Frazão, José Ângelo Alves, Manuel Gouveia, Maria Manuela Pinto Ângelo e Miguel Soares. Não é pois engano, gralha, uma confusão qualquer. São mesmo intelectuais, i-n-t-e-l-e-c-t-u-a-i-s, assim mesmo, preto no branco, dito devagarinho para acreditar no que estou a ler. Agora que já acreditei, preciso urgentemente de perceber o que raio possa ser um intelectual. Bem, eu sei o que é um intelectual ou até o que é ter ar de intelectual, por exemplo, o João Pires, que por acaso até surge com o estatuto, aliás, mais que suspeito, de licenciado em gestão de empresas, tem ar de intelectual. Pronto, não é isso, o que preciso mesmo de saber é o que é ser intelectual enquanto elemento básico da identidade com que uma pessoa se apresenta à humanidade.

Terá que ver com a clássica oposição entre "trabalho intelectual" e "trabalho manual", por exemplo, a que distingue numa fábrica, o trabalho do operário e o do contabilista ou do engenheiro? Ora, se nesta lista aparecem Agostinho Lopes e Vladimiro Vale, que são engenheiros, Carlos Carvalhas e Ilda Figueiredo e Ricardo Oliveira, economistas, o já referido João Pires, José Maria Pós-de-Mina e Vasco Cardoso, gestores de empresas, João Torres, empregado de escritório, Luís Fernandes, técnico de telecomunicações, Paula Santos, que é licenciada em Química Tecnológica, e Teresa Chaveiro, técnica de Informática, não faria sentido os nossos intelectuais aparecerem como grupo específico. Faria sentido, sim, serem também apresentados pela sua profissão, sei lá, empregados de escritório, bancários, agentes de seguros, engenheiros, contabilistas ou gestores. Ou então, para não cometer injustas desigualdades, considerar intelectuais todos os outros que nomeei. Ficando assim como está, leva-me a ter de abandonar a pista que separa trabalho manual e intelectual.

"Intelectual" pode também ser usado como adjectivo. Diz-se por exemplo, e bem, que Eduardo Prado Coelho e José Saramago eram intelectuais, como intelectuais serão Eduardo Lourenço e George Steiner, ou, apesar de já não estar mentalmente entre nós, Agustina. Toda a gente pensa mas há pessoas que pensam mais e melhor do que outras (mesmo podendo-se não concordar com o que escrevem), toda a gente sabe escrever mas há pessoas que escrevem coisas que nem toda a gente é capaz de escrever. E apesar de hoje qualquer pessoa (eu incluído) poder manifestar opinião, seja em blogues, nas redes sociais, ou nessas pestíferas lixeiras que são as caixas de comentários dos jornais, reconhecemos que só algumas o fazem em virtude de uma competência que nem todas possuem. Ora, estarão os intelectuais do Comité Central aqui nessa condição? Não, não faz sentido. Neste comité há pessoas da área do ensino, incluindo universitário, Sociologia, Teologia, Psicologia, Ciências da Comunicação, Jornalismo, Biologia, História, Direito, Artes Plásticas, e que não são apresentadas como intelectuais. Atenção, não têm de ser intelectuais só porque são dessas áreas. Eu tive professores na universidade cuja vida inteligente estava ao nível de um papagaio, há psicólogos e sociólogos que abrem a boca e dão vontade de chorar, jornalistas que deveriam regressar à escola primária, enfim, obras de arte que, numa prova cega, ficaríamos sem saber se foram pintadas por um ser humano ou se por um chimpanzé lobotomizado. Neste caso, os membros do Comité que foram eleitos intelectuais poderão tê-lo sido pelo reconhecimento de uma actividade efectivamente intelectual. Mas isso não faz sentido. Se assim fosse, estar-se-ia a menosprezar os outros, atirando-se-lhes implicitamente à cara não terem qualidade suficiente para serem intelectuais. Depois, se os eleitos são mesmo, mas mesmo, intelectuais, onde estão as actividades em que se destacam e que permitem esse reconhecimento público? Admito que seja ignorância minha mas nunca ouvi falar de qualquer um deles, tendo ainda que presumir que não serão assim considerados só porque quando acordam de manhã estão meia-hora a olhar para o tecto em profunda reflexão. Mais, não esqueçamos a presença neste comité de Rúben de Carvalho, um homem ligado à cultura, que escreve, que pensa, ou seja, um verdadeiro intelectual, mas que é apresentado como jornalista. Ou a presença de um director literário que, seja lá o que isso for e onde for, não pode deixar de ter uma componente intelectual. Tiro na água mais uma vez e porta-aviões nem vê-lo.

Quando o desespero é grande, buscam-se todas as possibilidades. No meu caso, tratando-se de compreender a cabeça de um bolchevique, resta a possibilidade de irmos até às raízes do bolchevismo. Os bolcheviques demonstraram sempre um grande apreço pelos intelectuais e convém não esquecer que na Rússia do século XIX vamos encontrar um grande grupo de intelectuais como Belinsky, Alexander Herzen ou Chernyshevsky, politicamente comprometidos e com grande vontade de mudar o mundo. É verdade que já depois da revolução muitos foram assassinados, enviados para trabalhos forçados na Sibéria, exilados ou fortemente vigiados, como são os casos de Boris Pasternak e Anna Akhmatova que sofreram as passinhas, não do Algarve mas de Moscovo. Só que esses eram maus e desprezíveis intelectuais, isto é, os que não alinhavam com os messiânicos desígnios do Partido. Já os outros, não: mimados, apaparicados, louvados e colocados num altar. O que faz todo o sentido. O marxismo-leninismo apresentou-se ao mundo como um sistema científica e filosoficamente consolidado, não sendo as revoluções socialistas e comunistas uma manifestação espontânea e arbitrária de massas populares ou um mero e irresponsável devaneio de meia dúzia de românticos e utopistas iluminados. É uma construção que precisa dos seus engenheiros, dos seus inspiradores e dos seus intérpretes que irão legitimar e confirmar todo o processo pelas científicas leis da história e por uma imaculada racionalidade filosófica. Os intelectuais, e o próprio Lenine foi um intelectual que não se limitou a escrever textos de estratégia política mas textos de filosofia pura e dura como é o caso de Materialismo e Empirocriticismo, foram assim transformados, como troféu, numa espécie de clero que conferia consciência moral, política e científica a todo o processo ou, se quisermos, advogados de defesa com o objectivo de explicar, com bons argumentos bebidos em Marx e Engels, a lógica do processo. E quem diz cientistas ou filósofos, diz também escritores, pintores, arquitectos, cineastas ou músicos que enalteciam pela arte toda a majestade do processo revolucionário, sendo, aliás, bastante interessante, acompanhar a relação entre o poder e as flutuações estéticas e programáticas por que passaram alguns desses artistas. O compositor Dimitri Chostakovitch é disso um bom exemplo, entre muitos outros artistas que se viram e desejaram para não irem parar com a cabeça ao cepo.

Não sei se virá daí a tradicional associação do intelectual à esquerda, dando origem à clássica figura do "intelectual de esquerda", o que não deixa de ser quase redundante, uma vez que ser intelectual é ser de esquerda, alguém que emerge criticamente face a uma sociedade filistina e burguesa, baseada em valores errados, inimigos da liberdade, da justiça, da igualdade. Seja como for, associar esta identidade de esquerda do intelectual à velha tradição do intelectual como vanguarda, o farol que ajuda o navio do progresso a caminhar para bom porto, pode ajudar a explicar que, em Portugal, o Partido Comunista seja aquele que sempre deu mais importância aos seus intelectuais, possuindo mesmo, formalmente, na sua estrutura, um "Sector Intelectual", como de resto não se vê em nenhum outro partido. O que faz todo o sentido. O partido não se limita a lutar mas pensa enquanto luta, ou luta porque pensa, apresentando o intelectual uma dimensão reflexiva e objectiva que o coloca num patamar acima das meras estratégias políticas que apenas visam a manutenção de "ordem burguesa e neo-liberal", tornando-se assim numa espécie, como alguém lhe chamou, de "funcionário da humanidade", ao serviço dos mais elevados interesses daquela, contra a lógica dos interesses de uma minoria de exploradores.

Pronto, isto não esclarece nem de longe nem de perto o mistério dos "Intelectuais do Comité Central". Continuo a não fazer ideia por que são aqueles e não outros. Mas percebo esta necessidade de apresentar intelectuais com a mesma naturalidade com que se apresentam operários, engenheiros ou enfermeiros. Trata-se de um partido que não tem apenas pessoas que são engenheiros e depois pensam, que são agentes culturais e depois pensam, que são sociólogos e por acaso acabam também depois por pensar. Não, tem no seu comité pessoa cujo trabalho é mesmo pensar, que pensam-pensam, que vivem para pensar, que vieram ao mundo para pensar. E quando um partido tem assim no seu comité central tanta gente que vive para pensar, isso significa que, como há precisamente cem anos, só pode mesmo estar no bom caminho.

08 julho, 2017

EU SOU O CAMINHO

JRC | Fátima

Hoje de manhã, bem cedo, durante uma caminhada, mais um carro que pára para me perguntar o caminho para Fátima. Já perdi a conta aos carros que já pararam por causa do caminho para Fátima, seja a que hora for. Até já sei que quando pára um carro é por causa do caminho para Fátima. Como sempre, pergunto se procuram a auto-estrada, se a estrada normal. Pergunta retórica pois já sei que é a estrada normal e, para facilitar, conforme o sítio onde nos encontramos, ora mando ir pela estrada do Pafarrão, ora mando ir pela estrada de Minde. Posso ser uma alma perdida, uma alma caída, uma alma tresmalhada. Mas também é verdade que quando querem saber o caminho para Fátima é comigo que vêm ter.

07 julho, 2017

SELF-EFFACING


Magritte | L'Heureux Donateur

Ainda hoje sinto um enorme prazer, quase infantil, diria, em aprender palavras novas. Mas há algumas que me deixam contente e triste ao mesmo tempo. Contente porque já irei poder usá-las quando me fizerem falta. Mas também algo triste por aprendê-las tão tarde quando fizeram tanta falta antes, obrigando-me a recorrer a outras menos boas. Não podemos dar pela falta do que não conhecemos mas a partir do momento em que conhecemos descobrimos a falta que fez. Estou a falar, claro, de palavras da nossa língua. Mas também acontece várias vezes ler palavras doutras línguas cuja tradução literal não funciona na nossa, e pensar na falta que me fazem. Uma dessas palavras é "self-effacing". Por exemplo, Isaiah Berlin, refere-se, como elogio, claro, a Turgueniev como um "self-effacing". Que Deus me perdoe, e longe de mim querer entrar no mesmo rol de pessoa tão ilustre. Mas se eu não vou deixar de gostar de vinho tinto, de Cervantes ou de passear a pé lá por Turgueniev gostar, perante o espelho tenho também todo o direito a reclamar a palavra que melhor conheço para me definir. 

06 julho, 2017

E QUE TAL UM CONCERTO DE BRAHMS?



Já lá vão umas semanas, encontro no supermercado um antigo aluno, actualmente universitário. Conversaram-se as coisas do costume mas veio também à baila a sua geração, neste caso, os colegas universitários. Algo desanimado, diz-me que os nota aborrecidos. Nem mais: aborrecidos. Que poucas coisas os motivam, entusiasmam, empolgam, vendo tédio em quase tudo o que os rodeia e dando pouca importância às muitas coisas que têm. Eu, já velho, fico perplexo com tanto aborrecimento, com todo este spleen pós-moderno pelas esquinas do Bairro Alto, spleen, em tempos, de um marialvismo de faca e alguidar. Mas não há ninguém que convide esta gente para um concerto de Brahms?

05 julho, 2017

O MELHOR CEGO


Há dias, o Libération lembrava aquela célebre frase na qual se dizia alegremente que é preferível estar errado com Sartre do que ter razão com Aron. A frase pode sugerir um devaneio pós-adolescente espalhado pelos Boulevards de Saint Germain como um bom perfume francês, um capricho revolucionário para épater le bourgeois, embora em contradição com a ideia, certamente revolucionária, de que só a verdade é revolucionária. Se bem que também se possa achar que a ideia de que só a verdade é revolucionária também não passe de um capricho revolucionário para épater le bourgeois, o que pode levar à conclusão de que tudo pode servir desde que seja para épater le bourgeois.

A frase, porém, deve ser levada mais a sério. Podemos generalizá-la, trocando o binómio Sartre-Aron, esse velho Benfica-Porto da política francesa mais intelectualizada, por qualquer outro, seja qual for a matéria, da política à religião, passando pelo desporto ou as relações pessoais, onde uma das partes seja considerada verdadeira e a outra falsa. Nietzsche, na Gaia Ciência, lembra que a consciência é a evolução última e mais tardia da vida orgânica, sendo por isso frágil e incompleta, deixando a humanidade vulnerável com os seus falsos juízos, os seus delírios mesmo quando se está acordado. Enfim, a verdade é o que menos importa. Importa sim, acreditar naquilo em que gostamos de acreditar e defender aquilo em que gostamos de acreditar, evitando o mais possível parar um bocadinho para pensar se faz mesmo sentido acreditar no que consideramos verdadeiro, ainda que a poderosa realidade entre pelos olhos de quem a quer ver  O pior cego não é aquele que não quer ver. Esse é mesmo de todos o melhor cego por conseguir precisamente o que mais deseja: não ver. E deixando assim a sua consciência tranquila, bem encostadinha à almofada das ilusões para um sono bem repousado. 

04 julho, 2017

O CORVO


Mal pude esperar quando soube que era possível conhecer a capa da Playboy do mês em que eu nasci. Mal pude esperar mas, em vez de infantilmente surdo aos avisos da experiência e da idade, bem devia ter esperado. No lugar da esperada loira oxigenada com um ubérrimo busto em redonda dose dupla e sorriso lascivo enquanto me pisca o olho, a redonda dose dupla vou encontrá-la nos dedos de uma mulher, com ar espantado, com o objectivo de mandar o ceguinho usar óculos como fazem os automobilistas nos carros quando se exaltam com as aselhices dos outros. Isto, claro, sobre um fundo completamente negro, como seria de esperar numa revista como a Playboy, dada a assuntos fúnebres e melancólicos. E como se isso não bastasse, a descolorida cereja em cima do bolo amargo: um artigo sobre Edgar Allan Poe que, como toda a gente sabe, também é o tipo de coisa que mais avidamente esperam os meditabundos leitores da Playboy. Bate tudo certo, as constelações astrológicas do destino não brincam em serviço.

03 julho, 2017

CORTINAS MENTAIS



Eu não ligo nada a carros, apenas umas estruturas de lata com pneus que servem para me deslocar quando necessário. Porém, há dias, ao ler um conto de Cortázar, lembrei-me de que nem sempre foi assim. O conto chama-se A Auto-Estrada do Sul e toda a acção decorre durante um brutal e muito prolongado engarrafamento numa auto-estrada dos arredores de Paris. O conto tem pano para mangas mas não é das mangas que me vou ocupar. Sendo de 1966, os carros, que surgem com uma força metonímica enquanto extensão dos seus ocupantes, são os que existiam em 1966, quando eu tinha cinco anos e um dos meus passatempos preferidos era estar no terraço a vê-los passar. Como na altura eu não gostava de comer (como era possível?!) uma das estratégias maternas era mesmo levar-me para o terraço para me distrair com os carros enquanto ia enfiando colheradas e garfadas pelas minhas goelas abaixo.

Não pude deixar de pensar nisto ao surgirem no conto referências a Taunus, Anglias, Simcas, Cortinas, Peugeot 404, Dauphines, os carros que passavam na minha rua e que regressaram à minha memória como fantasmas molhados em chá. Ora, é impressionante o impacto perceptivo desses carros nos olhos de hoje, tão estranhos como se nunca tivessem existido. Porém, o impacto perceptivo dos carros naquele tempo era precisamente o mesmo que têm hoje um Audi 4, um Fiat Punto, um Renault Clio ou um Opel Corsa. Ver um Cortina em 1966 era ver "o carro", ver um Audi 4, hoje, é ver "o carro". Ou seja, o carro que eu via do terraço em 1966 era precisamente o mesmo carro que uma criança vê hoje do seu. Todavia, se quisermos voltar a ver um Cortina como vemos hoje um Audi 4 já não somos capazes, como não somos capazes de imaginar as actuais ruas de Torres Novas povoadas de Cortinas, Anglias, Taunus e Simcas. Confesso que não consigo deixar de me impressionar com esta mudança radical no modo de olharmos para as coisas, com o processo que faz com o que seja normal se transforme numa objecto completamente estranho, exótico, completamente fora dos nossos quadros mentais e perceptivos.

Mais inquietante se torna quando passamos dos carros para as ideias que já tivemos e que, também com os anos, foram substituídas por outras. Ideias que víamos tão normais, tão naturais como as ideias que temos hoje. Ideias que, tal como os Cortinas, os Anglias, os Simcas, estes vistos pelos olhos da cara, eram vistas pelos "olhos da alma" como "as ideias". Há porém, uma grande diferença: enquanto a distância que separa dos nossos olhos os carros antigos e os carros actuais compromete apenas a percepção visual, as ideias são muito mais do que simples percepções das coisas. São a matéria de que são feitos os nossos pensamentos sobre o que é verdadeiro ou falso, justo ou injusto, moralmente correcto ou incorrecto, sobre os modelo de sociedade que consideramos mais adequados ou inadequados. A coisa torna-se verdadeiramente assustadora quando olhamos para ideias que tiveram há 40 anos como, com os olhos, para um Cortina conduzido nessa altura. Acontece que os carros mudam porque apenas mudam os padrões estéticos e técnicos. Tudo normal, os carros não são verdadeiros nem falsos, justos ou injustos, moralmente correctos ou incorrectos, apenas carros do mesmo modo que há árvores, planetas ou cidades. Normal não deveria ser transformar uma ideia que considerámos "a ideia", numa versão mental do que são um Anglia ou Cortinas para os nossos olhos actuais. Podemos dizer que é a evolução e até é bom que assim seja. Como diria o famoso Barão de Itararé, não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar. Mas também quem nos garante que as ideias nas quais hoje acreditamos não serão vistas no futuro como irão ser os actuais Audi 4, Puntos ou Corsas, isto é, como são hoje vistos os Anglias ou Cortinas de outrora? Daí que com as nossas ideias mereça mais a pena tentar perceber à partida o que existe de errado nelas do que andarmos obcecados em mostrarmos que temos razão, cobrindo a verdade com o véu dos nossos preconceitos.

30 junho, 2017

O QUARTO VAZIO


O meu avô paterno foi um intrépido republicano, usava avental, ateu e anti-clerical. Eu estava num quarto ao lado dele quando morreu, na casa do Luso para onde os meus avós iam todos os anos no Verão fazer termas, mas pouco me lembro dele. Sei que era boa pessoa, amigo do seu amigo e que se dava com toda a gente. Prova disso era a sua relação com o padre Búzio de quem era bastante amigo e presença assídua lá na ourivesaria para dois dedos de conversa, sem que isso abanasse as suas convicções. Um dia o meu avô adoeceu e o padre Búzio foi lá a casa para o visitar. Chegado à porta do quarto, perguntou se podia entrar. Conta quem lá estava que o meu avô respondeu: «Se vem aqui como padre, não entra, se vem como amigo, seja então muito bem-vindo!». E entrou. Não sei se foi durante essa doença ou se noutra, o meu avô teve umas febres que o fizeram delirar. Num desses delírios viu a Nossa Senhora de Fátima aos pés da cama. Quando voltou a si não se lembrava de nada. E que não, que não podia ser, como era lá isso possível, coisa mais absurda que essa não podia haver. E proibiu que se voltasse a abordar o assunto, logo transformado em tabu. Pena essa gente estar só viva numa altura em que eu andava a jogar ao berlinde. Hoje, com tantas perguntas, estão todos mortos.

Um delírio é um delírio, vale o que vale, e muitos podem não valer nada. Mas este delírio do meu avô não deve ser deixado em saco roto. O meu avô detestava a religião, as crenças irracionais, a fraude de Fátima, a igreja, a padralhada. Como é possível um homem daqueles ver a Nossa Senhora aos pé da cama? É possível porque o ódio tem uma coisa em comum com o amor: a dependência e a valorização de quem odiado ou amado. Tal como no amor, odiar alguém significa valorizar essa pessoa, dar-lhe um peso importante, colocá-la bem no centro da nossa vida, dos nossos pensamentos, emoções, sentimentos. No fundo, o ateísmo do meu avô, ainda que pela negativa e de um modo reactivo, acabava por torná-lo tão dependente da religião e da igreja como um padre ou uma beata de sacristia. A mesma dependência dos franceses iluministas do século XIX, de anarquistas russos ou niilistas do século XIX, comunistas do século XX, para quem a religião tem uma importância estruturante. Nós somos queremos destruir o que é importante, desejo inexistente perante o que nos é indiferente ou sentimos desdém.

Em sentido inverso, isto também pode ajudar a explicar o fascínio dos crentes relativamente a filósofos ateus. Há uns anos, num casamento vi um padre no altar, no seu discurso aos noivos, citar Nietzsche. Nem queria acreditar no que estava a ouvir. Claro que o fez reactivamente mas não deixou de ser estranho. Há menos tempo, tive um professor católico, ligado igualmente à Universidade Católica, que leccionou um seminário de Filosofia da Religião exclusivamente centrado na Essência do Cristianismo, de Ludwig Feuerbach. E já tenho lido coisas de pessoas com maior ou menor ligação à igreja, invocando autores "inimigos". Não é de estranhar este interesse ou mesmo atracção por tais autores. Tal acontece precisamente porque vêem no ateísmo militante uma atitude que coloca a religião no centro dos problemas, das discussões, dos pensamentos, e se continua a haver pessoas que odeiam a religião é porque esta ainda preserva suficiente importância para tal. Está hoje a acontecer uma enorme afastamento das pessoas face à religião, a qual tem vindo a perder cada vez mais influência social, moral e espiritual. Ora, continuar a alimentar discussões sobre a existência de Deus, sobre o papel da religião, sobre as suas vantagens e desvantagens, significa continuar tais matérias ligadas à máquina, ainda com sinais vitais. No fundo, continuar a alimentar romanticamente uma paixão por questões teológicas e religiosas, ao contrário da cada vez maior actual indiferença. Formou-se aqui em Torres Novas um movimento contra a vinda do papa a Fátima, denunciando ao mesmo tempo o milagre de Fátima como um embuste. Eu fui solicitado para assinar uma petição. Não assinei, considerando-a um acto de rebeldia meio infantil e até a roçar alguma parvoíce. Mas não deixou de ser estimulante e engraçado o romantismo do movimento, uma tentativa de regresso às quezílias religiosas da I República ou do século XIX. Pessoalmente, considero bem mais saudável a tolerância actual, em que cada um acredita ou não acredita no que quer e ninguém chateia ninguém por isso. Mas lá é que eram tempos bem mais animados, não há a menor dúvida. Se fossem vivos, creio que hoje o padre Búzio entraria sem qualquer problema no quarto do meu avô enquanto padre. Porém, já não haveria esta história para contar, nem delirantes visões para esconder.

29 junho, 2017

SENTIDO

Alfred Eisenstaedt | 1940

O filósofo Paul Ricoeur, a grande referência intelectual de Emmanuel Macron, era a sensatez feita pessoa. Já em 1965 dizia que de todas as questões sociais e políticas a mais importante é a do sentido e do não-sentido, escrevendo, por exemplo, que «o mundo moderno dá-se a pensar sob o duplo signo da racionalidade e absurdidade crescentes (...). Os homens têm falta de justiça, certamente, de amor, seguramente, mas mais ainda de significado». Talvez a consciência disso seja a principal razão pela qual o mundo suspirou de alívio com a eleição de Macron (se bem que o facto de não ter um "partido", coloque a política francesa num plano inédito) e ficou apreensivo com a eleição de Trump. Nos anos 80, havia mísseis SS 20 soviéticos apontados aos países ocidentais, estando os Pershing, por sua vez, apontados para leste. Mas tudo fazia sentido. No lado de cá, havia o mercado, a liberdade, a modernidade. No de lá era o Estado totalitário e opressor, o Partido, um mundo claustrofóbico sugado por ideias do século XIX. Mas havia uma racionalidade nisto com os seus modelos claros e distintos, as suas duas lógicas. O mundo de hoje, sobretudo desde que o muro foi abaixo e após 11 de Setembro, é um mundo confuso. Países confusos, partidos confusos, líderes confusos, projectos sociais confusos, uma confusão por vezes a roçar a bipolaridade. O que faz falta agora não é um mundo novo que nunca poderá existir. Claro que também não é um mundo velho que já não poderá voltar a existir que faz falta. O que faz falta, mas falta mesmo, é olhar bem para o que ainda temos e dar-lhe um sentido que não queremos perder.

28 junho, 2017

O QUADRO MAIS FEIO DO MUNDO


Acabo de eleger este quadro como o mais feio do mundo. Pronto, estas coisas valem o que valem, haverá certamente muitos quadros tão feios como este mas algum teria que ficar. O meu problema agora é a dificuldade em explicar por que razão este quadro é feio, num mundo onde haverá muita gente que o apreciará e do qual até gostaria de ter uma reprodução na parede da sala. Será o tema, um homem e uma mulher, aristocratas ou burgueses, beijando-se num jardim? Não, o que não falta na arte são belos quadros de homens e mulheres aristocratas ou burgueses em jardins, beijando-se ou não. Serão as cores? Mas nós vamos encontrar estas mesmíssimas cores em grandes quadros, clássicos ou modernos. Será o modo como o pincel desfigura ou distorce as figuras, criando apenas uma vaga impressão? Mas isso seria destruir parte da riqueza do Impressionismo. Também não me parece haver aqui nada de especial com a luz de modo a vermos nela a chave para a absoluta fealdade deste quadro. Eis, portanto, uma tarefa tão complicada perante uma realidade que, sendo apenas feita de desenhos, cores e luz, parece ser de uma enorme simplicidade.

Talvez o rosto humano nos possa dar uma ajuda. Um rosto é muito simples, feito apenas de boca, nariz, dois olhos e uma testa, num fundo de carne, osso e pele. Como explicar então haver rostos que vão desde o muito bonito ao muito feio, passando por outros que são apenas bonitos ou apenas feios, e outros ainda que nem são bonitos nem feios? Apenas uma boca, um nariz, dois olhos e uma testa em comum, porém, que tremendas diferenças. Haverá ainda pessoas que passaram de um rosto bonito para um rosto feio e outras de um rosto feio para um rosto bonito. Podemos dizer que há uma explicação objectiva para isso. A pessoa X tinha um rosto bonito mas engordou bastante e ficou feia. Ou o contrário, a pessoa Y tinha um rosto bonito mas emagreceu muito. Mas não resulta. Há pessoas bonitas e feias com rostos magros, pessoas bonitas e feias com rostos redondos ou cheios. E haverá mesmo pessoas que, ao contrário da pessoa X, se tornaram mais bonitas porque  o rosto ganhou volume ou ao contrário da pessoa Y, se tornaram mais bonitas porque o perdeu.

Será possível invocar regras que determinem de um modo objectivo os diferentes resultados? Façamos o seguinte exercício. Estamos com duas imagens à frente, uma com um rosto bonito, outra com um rosto feio. Uma pessoa, que não está a vê-las, pede-nos para explicar por que é um dos rostos bonitos e o outro feio. Nós olhamos para as duas bocas, os dois narizes, os quatro olhos, as duas testas em duas superfícies de carne, osso e pele e no caso de não haver deformações, desvios ou desproporções demasiado óbvias, não me parece provável encontrar uma explicação objectiva baseada em conceitos e regras. Apenas a visão dos dois rostos permite compreender por que é um bonito e o outro feio, tal como um sabor bom e um sabor mau, um cheiro bom ou um cheiro mau, que só podem  ser entendidos se experienciados, nunca através de conceitos ou descrições verbais. E mesmo olhando para a boca, para o nariz, para os olhos e para todos os pormenores do rosto, individualmente, podemos não ver nada de errado. Boca normal, nariz normal, olhos  normais. O que resulta errado é a específica combinação entre eles que resultou mal. Bastaria colocar o nariz de outra pessoa por cima daquela boca e o resultado já poderia ser diferente. Ou então aquele mesmo nariz sofrer uma pequena alteração para logo dar origem a um rosto esteticamente mais depurado, aliás, tal como também num sabor ou num cheiro.


Ora, o que se passa com a pintura pode ser da mesma natureza. Se começarmos a desconstruir este quadro, separando os seus elementos que assim ficam descontextualizados, não haverá nada de especialmente errado nele. O que está errado é a maneira como todos os seus elementos particulares se conjugam no todo, dando origem a este verdadeiro crime de lesa-arte. As duas figuras e o carro, por estranho que possa parecer, não estão necessariamente erradas, o que está errado é a sua escala. Pensemos, por exemplo, no Boulevard des Capucines pintado por Monet ou no Boulevard de Montmartre à noite pintado por Pissarro. Se o casal e o carro fossem proporcionalmente enquadrados naqueles dois quadros, o efeito resultaria completamente diferente. Já aqui enchem o quadro de uma maneira que resulta esteticamente assassina. As duas figuras humanas quase a metade direita, o carro quase toda a metade esquerda. É verdade que existem quadros onde figuras humanas a beijarem-se ocupam uma área considerável da tela e são belos. O quadro de Klimt é disso um bom exemplo. Mas tal acontece porque as cores são outras, as roupas são outras, a espacialidade é outra, o fundo outra, havendo porém alguns destes elementos que noutro quadro poderiam contribuir para o desvirtuar. Se as cores fossem combinadas de outro modo ou com alguma variação dos seus matizes, assim como  a forma da qual resulta a construção da espacialidade do quadro, também o resultado poderia ser bem diferente. Por incrível que pareça, há pequenas manchas cromáticas comuns aos dois quadros (aliás, todas as cores do quadro horrível podem ser encontradas em belos quadros), a grande diferença está no modo como são combinadas, na sua escala e nos seus matizes. A diferença é que nos quadros de Klimt, Monet e Pissarro está tudo certo, enquanto neste está tudo absolutamente errado. Também na música é possível tornar as sonatas Für Elise e Mondschein de Beethoven em versões musicais deste quadro, se cantadas por Marco Paulo, acompanhado por guitarras, órgão, bateria, saxofone os mesmos instrumentos que estão na base de grandes composições no Rock, no Jazz, nos Blues. Ou seja, a música perfeita mas para um piano, os instrumentos perfeitos mas não para sonatas de Beethoven. O efeito estético resulta assim de um jogo onde as diferentes partes se combinam livremente, sendo determinantes pequenas variações e conjugações que, como num rosto, se forem as correctas terão um efeito estético agradável, se incorrectas deitarão tudo a perder. Neste quadro, tudo, mas mesmo tudo, foi deitado a perder.

27 junho, 2017

ENTRE MONGES

John Malmin

Hoje, vigilância no exame de Geometria Descritiva: 3 horas, ou seja, 180 minutos, ou seja, dois jogos de futebol seguidos, mas sem golos, sem defesas para a fotografia, jogadas espectaculares, lances polémicos, apenas a colectiva e laboriosa quietude de um scriptorium medieval. Geometria Descritiva, o terror das vigilâncias, o exame que ninguém quer, que todos temem, o cobrador de fraque das vigilâncias que, sinistro, nos toca no ombro, quando sai a escala de serviço. Eu, pelo contrário, gosto do serviço de vigilância de exames e o de Geometria Descritiva apenas faz com que esteja ainda mais meia hora em absoluto e sereno silêncio, vendo o tempo passar em câmara lenta, vagaroso, tranquilo, como o correr da água numa velha clepsidra. Eu tive sempre um grande fascínio pelos velhos estilitas como o velho Simão, apropriadamente chamado Estilita. Claro que é uma grande parvoíce comparar as duas coisas mas também há algo na vigilância de um exame de Geometria Descritiva, onde não podemos falar nem ouvir, onde não podemos sair e onde o tempo estica como um elástico, que me lembra aquela quietude e solidão de quem paira sobre o mundo e o fremente quotidiano. A razão pela qual os professores detestam o serviço de exames é precisamente a mesma por que eu goste dele. Eu até gosto de ser professor e de ensinar mas chegar a esta altura do ano e poder estar apenas ali, mudo, como um monge, apenas para me aprender, é sempre uma maneira de terminar o ano lectivo numa espiritual beleza e harmonia. E se o destino está cheio de coincidências, não pequena será a de a Geometria Descritiva ter sido criada por um Monge. Monge de nome, não monge no sentido religioso, o que faz com que seja completamente irrelevante para exprimir o monástico prazer da minha vigilância. Até porque se ele não era monge, eu cá também não o sou. Mas que lá tem a sua graça, lá isso tem.  

26 junho, 2017

ACORDAI

Elliott Erwitt

Dizer que se deve defender um acordo ainda que ele seja imperfeito, é de uma enorme redundância. Um acordo é, por natureza, imperfeito. Se há um acordo é porque há desacordo, o qual não é apagado pelo acordo, acontece apenas que as partes se limitam a perder o menos possível. Um acordo será mesmo uma manifestação da imperfeição humana, da impossibilidade de todos os seres humanos perseguirem os mesmos fins e valores. Ainda assim uma imperfeição suportável e até mais do que isso, desejável. Leões e gazelas, esses é que jamais chegarão a um acordo.

25 junho, 2017

POR ESTE RIO ACIMA

Andrei Tarkovski | Nostalgia

Mais de quarenta anos depois, regressei a um lugar onde fui feliz. Ia algo apreensivo com o célebre aviso de Pavese na cabeça. Mas logo percebi que não havia motivo para isso. Há uma coisa que Pavese deixou passar: quem regressa a um lugar onde se foi feliz já não é a mesma pessoa que foi feliz nesse lugar. A pessoa que foi feliz não coincide com a pessoa que regressa, a primeira ainda não é a que virá a ser depois de lá ter sido, a segunda já não é a que foi. Como diria Heraclito, nós somos e não somos e mesmo a água onde nos voltamos a banhar já não é a mesma onde nos banhámos antes, o que faz com  que se regresse ao rio como se fosse uma primeira vez. Não há, portanto, repetição, nem como tragédia primeiro, nem como farsa depois. Apenas um novo capítulo de uma história que só acaba quando as águas do rio se dissolvem de vez no imenso oceano.

24 junho, 2017

REAL ESPOSENDE



Uma das características das emoções é a sua intensidade, a qual pode ter vários graus. O medo e a alegria são maiores em certas circunstâncias do que noutras conforme a causa dessa emoção. A tristeza pela morte de alguém querido é muito maior do que a tristeza por uma nota num teste abaixo do esperado. A alegria por saber que alguém querido se salvou de uma doença grave não é comparável à alegria por uma nota acima do esperado. E ainda que a expressão física de emoções com diferentes graus de intensidade possa ser semelhante (risos, choro de alegria ou tristeza, abraços), quem as sente por dentro percebe bem as diferenças.

Como explicar então a transbordante alegria dos jogadores do Esposende por conquistarem a Taça da AF Braga, um torneio dos humildes distritais? Repare-se nos sinais exteriores de alegria destes jogadores e comparemos com os sinais exteriores de alegria dos jogadores do Real Madrid ao vencerem a Liga dos Campeões. Fisicamente, não há qualquer diferença: os risos, os abraços, os gritos, os saltos, são os mesmos. Será então que por dentro a emoção já será proporcional à importância do troféu? Será que por dentro a alegria dos jogadores do Real Madrid é maior por terem a consciência do troféu que é, sendo a alegria dos jogadores do Esposende menor por se tratar apenas de um troféu dos distritais? Não. As emoções são exactamente as mesmas, a alegria é a mesma, o entusiasmo é o mesmo, a sensação de plenitude é a mesma. Do mesmo modo, a explosão de alegria de um jogador do distrital de Viseu que marca um golo decisivo no último minuto é igual à explosão de alegria de um jogador que joga na Bundesliga, na Premier League ou no Calcio e que marca um golo decisivo no último minuto.

Racionalmente, não faz sentido tamanha alegria num jogo distrital. Uma taça dos distritais tem pouco valor e a alegria por uma vitória deveria ser proporcional a essa importância. Tratar-se-á então de uma espécie de tacanhez, de um certo provincianismo emocional que torna grande o que é pequeno? Não. É verdade que se trata de uma alegria que resulta de um exercício de uma livre imaginação, exacerbando uma importância que, objectiva e racionalmente, não tem, ao contrário do que se passa com uma final da Liga dos Campeões. Mas também é verdade que importâncias relativas podem ser justamente transformadas em importâncias absolutas. Vejamos, ser ministro é mais importante do que ser presidente da câmara de uma terra como Torres Novas, ser engenheiro é socialmente mais reconhecido do que ser canalizador. Mas quando queremos avaliar o trabalho de um presidente de câmara ou de um canalizador não é com um ministro ou com um engenheiro que os iremos comparar mas com outros presidentes de câmara e outros canalizadores. Um ministro pode sentir-se orgulhoso por um excelente trabalho durante o seu mandato. Ora, o presidente de câmara jamais poderá sentir orgulho por esse tipo de trabalho pois não está ao seu alcance. Mas pode sentir exactamente o mesmo tipo de orgulho pelo que pôde fazer enquanto presidente de câmara. A sua importância é objectivamente relativa mas se ele alcançou o máximo do que poderia ter feito enquanto autarca então neste caso o seu orgulho pode ser subjectivamente absoluto. E com o canalizador a mesma coisa. O canalizador não tem de olhar para si e ver um não-engenheiro. Tem de olhar para si enquanto canalizador, e se for um bom canalizador, competente, solicitado pelo seu valor, o seu orgulho pode ser tão intenso como o do engenheiro que fez uma ponte mundialmente conhecida. As emoções têm a sua própria inteligência e razões que a própria razão desconhece. E parabéns ao Esposende pelo brilhante título conquistado.