23 agosto, 2016

A ESPLANADA

Sebastiano del Piombo | Giovane Romana detta Dorotea

E por falar em contos de Nabokov, há um outro, chamado La Veneziana que, escrito em 1924, antecipa a ideia, embora mais estética e fenomenológica do que física, de se poder entrar dentro da pintura, como viria a fazer Yourcenar num dos seus Contos Orientais, o realizador Akira Kurosawa num dos seus belos «sonhos» com a pintura de Van Gogh ou, noutro contexto, o que fez Woody Allen no fabuloso Rosa Púrpura do Cairo, onde uma mulher. numa sala de cinema. entra no próprio filme depois do seu herói sair da tela para a levar.

O conto tem pano para mangas mas restrinjo-me apenas ao seguinte. No castelo de um coleccionador de arte, encontra-se um quadro de Sebastiano del Piombo chamado La Veneziana. Na realidade, o quadro não existe mas, segundo Dimitri Nabokov, filho do escritor, é quase de certeza inspirado num outro do mesmo pintor, esse sim, verdadeiro, e que ele terá visto no Staatliche Museum de Berlim, chamado Giovane Romana detta Dorotea. No castelo, encontra-se a passar uns dias um restaurador e grande amante de pintura (McGore), assim como Simpson, um jovem simples e apagado e sem quaisquer conhecimentos de arte. Convidando o segundo para contemplar o quadro de Piombo, McGore, explicando ao jovem a sua paixão pela pintura, revela que sempre que está perante um quadro que mexe com ele, concentra toda a sua força de vontade para nele entrar, transformando-o numa realidade viva onde acontecem coisas. Coisas às quais, naturalmente, só tem o privilégio de assistir quem fizer esse exercício..

Esta ideia de entrar para dentro da própria pintura fez-me lembrar Malraux a dizer em As Vozes do Silêncio, que a feição principal da pintura moderna é não narrar. Mais: que o fim da arte da ficção é uma condição para o nascimento da arte moderna. Significa isto, claro, digo eu, que se fizermos o exercício de entrar em grande parte da pintura contemporânea actual, não haverá muito para dizer ou fazer. Direi mesmo que a minha vontade é voltar para trás, preferindo sentar-me a ler o jornal numa qualquer esplanada com uma água tónica fresca com limão. Ora bem, associar a pintura a uma lógica narrativa como faz Malraux, não implica pensar em termos puramente figurativos no seu sentido mais clássico e realista, ainda que o motivo seja mitológico ou sobrenatural. Quer dizer, não tem de ser o interior de uma casa holandesa do século XVII, a representação de uma batalha entre cristãos e turcos que, de facto existiu, o rosto fotográfico de um burguês italiano do século XVI, como não tem de ser uma descrição realista de um  anjo a anunciar a gravidez de Maria num quadro renascentista, ou a sua ascensão ao céu num quadro barroco. Muito menos terá de ser um quadro onde o que mais importa é a descrição ilustrativa de um acto social, como nos humorísticos quadros de Hogarth ou, por razões mais sérias (e algumas cómicas) na pintura de Daumier. Dê lá por onde der, grande parte da boa pintura moderna, incluindo muita a já caminhar para a abstracção, é ainda figurativa. E enquanto assim for, abre a porta à narrativa e aos naturais mecanismos da ficção, quanto a mim, a melhor homenagem que à pintura pode ser feita e a mais interessante via de a abordar. Não pretendo com isto dizer que não haja boa pintura não figurativa. Há. Como há péssima pintura figurativa e cujo atroz mau gosto só dá vontade de a atirar pela janela. Quero apenas dizer que o excesso de vanguardismo e de experimentalismo foram, a pouco e pouco, levando a pintura para terrenos cada vez mais pantanosos e que sob a capa da liberdade artística e da procura de novos rumos, a pintura foi-se tornando cada vez mais opaca, limitando-se a alimentar discursos que quanto mais inteligentes parecem, mais vazios e estúpidos se tornam. 

O que significará o desejo de McGore de entrar no próprio quadro? É como sentado numa esplanada de uma cidade de um país onde se chega pela primeira vez, observando o movimento à sua volta em busca de um sentido para o que se vê, fazendo com que essa realidade passe a fazer parte de nós ou nós parte dela, como um texto que se decorou (com o coração, claro), e que passa a fazer parte de nós tal como as nossas memórias mais íntimas e pessoais. Observar com atenção o que se passa à nossa volta, implica uma lógica narrativa feita de pessoas, acções, desejos, emoções, objectivos, ambientes, a mesma lógica a que se refere Malraux ao pensar nas personagens, acções, desejos, emoções, objectivos que, consubstanciados em cores e formas, observamos na arte figurativa passível de ser narrada. Como McGore certamente sabia, o melhor que podemos descobrir numa pintura são os seus cheiros, os seus sons, as texturas dos seus objectos, o que terão dito ou irão dizer as suas personagens, quais os seus processos mentais, transformando cada pintura numa praça onde, sentados numa esplanada, descobrimos a beleza de novos mundos em vez de estarmos apenas a ler o jornal com uma água tónica fresca.

22 agosto, 2016

TERROR


Jorge Molder | série Nox, 1999

Farto de ser vítima da minha desorganização mental, decidi finalmente fazer uma lista das compras para não ter que chegar a casa e descobrir que me faltou a salsa, a lata de grão ou os queijos frescos. Sentar-me pacientemente na mesa da cozinha a escrever a lista das compras teve, na minha bárbara mente, o mesmo impacto civilizacional do Código Hamurabi, da Magna Carta ou do Code Napoleónico nas respectivas sociedades, daí o meu natural orgulho ao ver a minha letra, apesar de horrível, ao serviço de uma causa superior: a passagem do caos ao cosmos na intimidade de uma teogonia doméstica. Saio de casa todo contentinho e ufano por aí afora, a sentir o fresquinho da manhã, e é já entre a capela de S. António e o Continente que descubro ter deixado na mesa da cozinha a lista das compras do meu orgulho e contentamento.

Há um conto de Nabokov chamado «Terror», onde, entre outras coisas mais radicais e com requintado grau de morbidez e até de uma certa filosófica mistura de insânia e lucidez, explica o narrador que, de noite, ao sentar-se na secretária a trabalhar, se esquece de tal maneira de si próprio que ao ver-se depois ao espelho não se reconhece como sendo ele, tendo aquela primeira impressão de quem vê um amigo íntimo após anos de separação, um rosto familiar mas vazio de significado. O que se passa comigo é um bocadinho diferente mas não menos assustador. Não se trata de deixar de me reconhecer mas de me sentir nas garras de um fantasma interior que brinca comigo, tornando-me refém das suas perversas graçolas. Um fantasma que, através de um insidioso processo  de manipulação, me dissolve e suga para um mundo onde eu eu sou mas já sem ser eu. Estou tão farto dele que a minha vontade era atirar-lhe uma lata de grão como se fosse uma pessoa de carne e osso. Mas um fantasma é como um gás que nos toca, abraça, envolve, aperta mas sem  se deixar tocar, abraçar, envolver, apertar. Sacana.

19 agosto, 2016

CARRUAGEM 21



À minha frente, no Intercidades, viaja um casal já de uma certa idade. Entretanto, o comboio pára numa estação e pouco depois chega ao pé deles uma jovem que, algo arrogante e sem hesitações, lhes diz que um daqueles lugares é dela. Apesar da minha má visão por estarem de costas, percebo alguma atrapalhação no casal, tendo o homem dito, ele sim, hesitante e com alguma humildade, que julgava estar no lugar correcto, começando de imediato a procurar os bilhetes. E a rapariga, que não, que eles é que estavam mal e, denunciando já uma certa impaciência, consulta o telemóvel para provar que um daqueles lugares era o dela. A situação mais confusa fica quando o homem mostra os dois bilhetes, provando estarem nos lugares certos. Foi então que se descobriu que, sim, um daqueles lugares seria o da rapariga se estivéssemos na carruagem 22. Acontece que estávamos na carruagem 21. E sem pedir desculpa ou com o mais leve sorriso de embaraço, a rapariga lá foi para a sua carruagem.

A cega crença que levou a  rapariga a achar que estava cheia de razão, é muito interessante. Não por esta situação insignificante mas a sua semelhança com outras, essas sim relevantes, que incorrem numa falácia que consiste em acreditar que pelo facto de uma parte ser verdadeira, o todo ao qual pertence também o será. Crenças de natureza política, ideológica, pedagógica e tantas outras. Por exemplo, ser comunista pelo facto do comunismo conter alguns valores bondosos para a humanidade, entusiasmar-se com as primaveras árabes ou a exportação da democracia liberal para o mundo muçulmano em virtude da sua bondade intrínseca ou a fé em modelos pedagógicos letais para o ensino sob pretexto de apoiar os jovens menos favorecidos. Uma das características do pensamento utópico explicada por Isaiah Berlin, é a crença dogmática num todo onde os valores se conjugam harmoniosamente, sem qualquer tipo de conflito ou incompatibilidades. Crença que está na origem de enormes crueldades e atrocidades em nome de princípios justos e verdadeiros.

Conheci o cartonista George du Maurier (1834-1896) graças a um romance de David Lodge, «Autor, Autor», uma grande e comovente homenagem a Henry James, grande amigo daquele e onde surge como personagem importante. A ilustração que vemos em cima é uma das suas mais conhecidas. O jovem e simples clérigo, fazendo grande cerimónia em casa do bispo que o convida para jantar, não rejeita o ovo em más condições que lhe é dado a comer. É fantástico o sentido de humor de Du Maurier perante a humildade do jovem que tem a consciência do todo ser mau mas não quer desapontar o bispo. Embora por razões completamente opostas (arrogância, presunção de superioridade, vontade de  poder em vez da humildade, simplicidade e até subserviência do jovem), a mesma piada poderia ser atirada a todos aqueles que falaciosamente rejeitam a ideia de um ovo estar estragado pelo facto de certas partes deles serem supostamente comestíveis. Falácia que já levou milhões de pessoas ao longo da história, a tremendas intoxicações. Noutros contextos, por acreditar que aquele lugar era o seu, nem quero pensar no que poderia fazer aquela jovem ao casal que viajava sossegadinho no seu lugar rumo ao seu destino.

01 agosto, 2016

AI QUE PRAZER TER UM LIVRO PARA LER

Peter Vilhelm Ilsted | Mulher Lendo, 1907

O fenómeno não é novo. Mas também é verdade que nunca foi tão fácil como agora ter uma razoável cultura literária sem precisar de ler. A receita é simples: ler umas recensões críticas em jornais de referência, apanhar de raspão na TV, durante um zapping, algumas ideias sobre um livro, e quem diz TV diz um blogue, enfim, algumas úteis informações cozinhadas nas redes sociais para serem reaquecidas e servidas as vezes que forem necessárias, sem que o livro tivesse alguma vez surgido à frente dos olhos de tanta gente supostamente culta e dando ares de intelectual, que já não andando na rua com um livro debaixo do braço como em tempos, usa o teclado de um computador para mostrar ao mundo toda a sua vasta erudição. Nada disto é grave, a vida é mesmo assim, e de certeza que já nos salões literários do séculos XVIII e XIX, embora por via oral, o mesmo fenómeno ocorreria.

O que não deixa de ser engraçado, mas também não menos perverso, é o natural processo corrosivo da memória acabar por colocar num mesmo nível de cognição a pessoa A que leu um livro e a pessoa B, que não o leu, e do qual irão ambas falar. Cinco, dez ou vinte anos depois de se ler um livro, o que dele se sabe é praticamente o que sabe quem não o leu mas dele sabe falar graças a um conjunto de referências obtidas ad hoc. E quanto mais distante tiver sido a leitura mais as duas posições se equivalem. Tal acontece porque, com o passar do tempo, grande parte dos conteúdos resultantes da leitura se esvaem para se fossilizarem num conjunto de referências gerais, que podem ser aprendidas sem um contacto directo com o texto. Os processos são muito diferentes mas o resultado é o mesmo. O mesmo se passa na escola quando se trata de fazer testes sobre obras que não foram lidas. O aluno compra uma sebenta ou consulta um site onde aprende a conhecer o assunto principal da obra, a resumir os capítulos ou a caracterizar as personagens, podendo vir a ter a mesma classificação de um outro que a leu de fio a pavio, sendo difícil distingui-los. Pode dar-se mesmo o caso do aluno que não leu a obra tirar melhor nota do que aquele que a leu, em virtude de uma boa capacidade para lidar com informações obtidas por via indirecta. O que virá depois, ao longo da vida, não é diferente. Se alguém disser ou escrever que certa pessoa lembra o Bartleby, se comparar o carácter de Aquiles com o de Agamémnon, ou aproveitar umas linhas para dissertar sobre o Quixote, o Homem sem Qualidades, a Recherche (dito assim, com o seu francês nickname, para reforçar as afinidades electivas entre pessoas que falam de livros que não leram), o que se passa na sua consciência é semelhante ao que se passa na consciência de quem efectivamente os leu, e tanto mais assim será quanto mais afastada no tempo tiver sido a leitura, uma vez que «ter lido» não é mesmo do que «estar a ler», do mesmo modo que o pastel de nata comido por um japonês há 5 anos não é o mesmo pastel de nata comido na hora por esse mesmo japonês. A memória de quem o comeu há 5 anos, permite apenas invocar de um modo vago, insípido e demasiado geral um sabor doce que mistura açúcar, ovos, nata e massa folhada, uma textura cremosa por dentro e outra mais rija por fora. Uma memória que, sendo directa (a pessoa comeu mesmo o bolo) acaba por, mutatis mutandis, estar no mesmo plano da memória da pessoa que leu o livro há muito, a qual irá coincidir com a memória indirecta (como diria Espinosa,  um conhecimento por «ouvir-dizer») da pessoa que não o leu mas sabe dele falar. Um processo de cristalização conceptual que pode ocorrer igualmente na Filosofia. Num plano conceptual, o que distingue a pessoa que fala do imperativo categórico depois de ter lido Kant, ou do que pensa Platão sobre a poesia ou pintura depois de ter lido a República, daquela que conhece por ter aprendido numa aula ou lido rapidamente alguma coisa sobre o assunto num site de Filosofia?  

Com o cinema pode acontecer a mesma coisa. Lembro-me de ser garoto e de gostar e falar de filmes ainda antes de os ter visto, por saber do que tratavam, o que criticavam, o que defendiam, o estilo. Qualquer pessoa pode fazê-lo, tal como faz com os livros. Todavia, por muito aborrecido, complexo, tortuoso que seja o filme, bastam duas horas para que se chegue ao fim, valendo assim a pena o investimento para depois dele se falar com erudito e pimpão «conhecimento de causa». Com o livro já é mais complexo. Ler exige mais atenção, concentração, tempo. Mesmo um livro de cem páginas exige algumas horas de leitura e de total afastamento do mundo, exilando o olhar numa folha de papel onde, ao contrário de um filme, por muito parado que seja, nada acontece, apenas caracteres pretos numa superfície branca, os quais terão de ser descodificados por alguém em cuja mente é obrigatório existir vida inteligente.

Porém, se de um ponto de vista conceptual ou no plano dos lugares comuns sobre um livro ou uma personagem (quem não sabe distinguir, mesmo sem ter lido, o Quixote de Sancho Pança? Revelar profundos conhecimentos de psicologia para caracterizar Raskolnikov ou Julien Sorel ou uma mítica madalena molhada no chá? Quem não é capaz de ter o seu Hamletezinho de trazer por casa? Ou capaz de debitar meia dúzia de ditos espirituais de Oscar Wilde com a mesma naturalidade de um analfabeto que clama pelos «egrégios avós» quando canta o hino nacional num estádio?), não há grande diferença entre quem lê e quem não lê, existe, todavia, algo que não é de somenos importância, que os separa: o prazer de ler. Prazer, mesmo que grande parte da leitura se esqueça ou dela se venha a ter apenas uma vaga memória. Ler não é um processo com vista a um resultado mas o próprio resultado, um fim em si mesmo. Ainda que passados uns minutos o sabor desapareça, não se deixa de comer o pastel de nata, pois o objectivo é precisamente o prazer que dá comê-lo. E mesmo que haja a necessidade de o fazer para matar a fome, o prazer de o saborear não é idêntico ao prazer de deixar sentir fome. O primeiro situa-se num plano estético, o segundo num plano funcional. Precisamente o mesmo que distingue quem leu livros dos quais parcialmente se esqueceu, de quem deles fala sem nunca os ter lido mas dos quais se serve para alcançar objectivos que nada têm que ver com tudo aquilo que um bom livro pode proporcionar a quem o leu.

18 julho, 2016

TRIUNFO SEM ODE

Angelo Morbelli | S'Avanza, 1894-96

O rapaz, de vinte e poucos anos, ar universitário, entra na carruagem e senta-se à minha frente. Acto contínuo, saca um livro da mochila, no caso, Pastoral Americana, de Philip Roth, pousando-o no lugar ao lado. Acto contínuo, tira de um bolso o telemóvel, começando a escrever e receber mensagens. Quando hora e tal depois, saio na minha estação, era o que continuava a fazer. 

Eu estava a fazer uma viagem de comboio mas tive o privilégio de fazer uma viagem no tempo. Não no sentido tradicional da expressão, como acontece com a pessoa da cidade que, visitando uma aldeia nos confins da serra, presencia algo que já não existe, mas no sentido de presenciar a própria substância do tempo, essa tempestade de que fala Benjamin, empurrando as pessoas para o futuro. A pessoa da cidade que visita a aldeia, passeia entre ruínas, vendo ainda à superfície, como almas penadas agonizantes, sinais de vida, o que ficou soterrado nas areias do tempo. No fundo, como numa feira medieval só que mesmo a sério, sem figurantes, produtos regionais e organizado por uma câmara municipal. O que me aconteceu naquela viagem foi uma coisa diferente: ver o anjo do tempo no preciso momento em que abana as suas poderosas e implacáveis asas e o seu sopro forte levanta as areias e poeiras que irão cobrir o que ainda está bem vivo e com sangue fresco na guelra.

Aquele rapaz pensou ler aquele livro no comboio. Achou que uma aborrecida viagem de comboio seria um bom momento para pôr a leitura em dia. Porém, não foi capaz de o ler. Não porque não o quisesse (bem pelo contrário) ou até não estivesse muito motivado para o fazer, mas porque o pujante esvoaçar do anjo não o deixou. Não por fazer mexer as folhas, como num dia de vento na praia mas porque a sua leitura foi ultrapassada pela impetuosa e implacável força do progresso. Há coisas que desaparecem da história por serem objectivamente más. Mas não é isso que acontece com grande parte delas. As coisas desaparecem porque surgem outras. As carroças e os arados puxados por bois não desapareceram por serem maus mas porque surgiram carros e tractores, que são melhores, sendo fácil medir e comparar as suas vantagens e desvantagens. Porém, nem tudo o que faz desaparecer objectos, acções, profissões, hábitos milenares, sonhos, é mensurável e passível de ser analisado utilitariamente. O que se deixou de fazer quando as televisões entraram nos lares das pessoas, não era  menos útil e vantajoso do que o que se passou a fazer depois. Ao invés de quem trocou carroças por carros por serem melhores, as pessoas não substituíram o que faziam antes da televisão por passar a ser melhor mas porque as asas do anjo da história a isso as obrigou. Levemente, sorrateiramente, como um gás incolor e inodoro que penetra na consciência das pessoas, alterando-lhes as crenças, os desejos, as motivações, as acções. No fundo, trata-se de uma espécie de lobotomia, impossibilitando o que antes se fazia natural e espontaneamente. Por isso o anjo da história é também uma cirurgião perverso que, com o pretexto do progresso, retira tecidos, limitando os comportamentos das pessoas ao que a sua pragmática e optimista vontade lhes impõe.

É por isso que o gesto do rapaz ao colocar o livro no lugar vazio nada tem que ver com o gesto desta mulher que deixa cair o livro para o chão depois de adormecer. Ainda que o rapaz o faça consciente e intencionalmente e a mulher sem disso se dar conta, ele está muito mais impedido de continuar a leitura do que ela. Ela deixou de ler só porque foi vencida pela lânguida luz e a cálida brisa do entardecer, talvez até embalada pela melodia dos pássaros ou o indolente e melancólico cantar dos grilos. Mas o seu tempo de leitura é o tempo da leitura. Esta mulher sai da sala para a cadeira no exterior com o livro na mão porque ler faz tão parte da substância do seu tempo como o sal da água do mar. Não parou de ler porque o vento da história a impedisse de ler, apenas porque o vento suave do Estio interrompeu a sua leitura naquele final de tarde. Já o rapaz leva o livro para a viagem, sim, mas como se o seu tempo de leitura fosse água numa salina que sob o escaldante e espasmódico Sol do progresso que cria, inventa, excita, revoluciona hábitos, rotinas, prazeres, desejos, vontades, se vai evaporando, até desaparecer por completo nas brumas do tempo. 

16 julho, 2016

A TRAGICOMÉDIA DE UM HOMEM NORMAL

Duane Michals, 1982

Quando caiu a ponte de Entre-os-Rios, e andava uma repórter da TVI a perguntar aos familiares das vítimas o que sentiam, muitas pessoas, eu incluído, reagiram com um misto de perplexidade e de escárnio. O mesmo, poucos anos depois, ao ver em directo, auto-estrada fora, o percurso do carro funerário que transportou o jogador Fehér de Guimarães para Lisboa. Já passaram bastante anos mas foram dois momentos importantes da nossa pós-modernidade que, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, começou num programa de televisão francês no qual uma mulher se queixava da sua vida sexual com o marido.

Qual pois o espanto de ver um jornalista perguntar em directo a um homem que chora ao lado da mulher, acabada de morrer, no atentado de Nice, o que sente? A pergunta pode parecer chocante, importuna, demencial, devassadora. Mas está em perfeita sintonia com o tempo presente, no qual todos nós somos actores e encenadores, vivendo sempre em cima de um palco para, em tempo real, exibir perante um auditório universal essa magistral peça que é a vida de cada um de nós. Uma vida que presumimos sempre da maior importância para o mundo, daí a incontinente e vital necessidade de falar de nós, de expor os nossos estados de alma, de mostrar as fotos de tudo e mais alguma coisa, desde uma viagem, ao prato que temos à frente no restaurante. O jornalista da France 2 não passa de um homem normal que apenas solicita o que todas as pessoas normais esperam de outro homem normal. Diz o mesmo sociólogo que vivemos um tempo líquido, em que tudo é líquido. Tal como as lágrimas daquele homem o serão para o jornalista que lhe pergunta o que está a sentir mas que rapidamente irão secar, pois, paradoxalmente, quanto mais líquido for o mundo mais depressa as coisas secam.

04 maio, 2016

FRANCISCO DE GOYA | OS DUQUES DE OSUNA E SEUS FILHOS, 1788


Tendo nascido, estudado e vivido em Pisa, seria natural que a grande torre em frente à catedral fizesse parte da paisagem quotidiana de Galileu Galilei. Não pela inclinação que desvirtuou a geométrica perfeição desejada pelo seu arquitecto e que hoje faz as delícias dos milhares de turistas que lá vão para, com a selfie da praxe ou a ilusão óptica da mão a sustentar a torre, poderem brilhar no Facebook ou no Instagram. Antes pelo facto de ajudar o cientista pisano a construir uma outra perfeição, num solo menos propício a inesperadas inclinações: a matematização dos fenómenos físicos, nomeadamente a relação entre a força e a velocidade, observada a partir da aceleração de um objecto em queda. Uma grande torre seria pois um bom lugar para as suas experiências, longe, portanto, da cómica identidade que haveria de se agarrar à sua pedra.

Os turistas vão à torre de Pisa por ser um sítio onde os turistas vão. Os turistas imitam-se, sendo tanto mais verdadeiros e eficazes quanto mais virem o que vêem os outros turistas. Sim, mas para além da alegria de poder estar a ver o que outros turistas vêem, o que se passará mesmo na consciência do turista diante da torre? Obviamente o efeito cómico da sua inclinação. Na base dessa sua comicidade não está apenas a fuga a uma ordem marcada pela previsibilidade, a tal previsibilidade que Galileu perseguia nas suas experiências. Estivesse em ruínas como as duas torres de Babel de Pieter Bruegel e fosse a inclinação apenas mais um elemento da sua decadência, seria bem diferente o seu impacto visual, adquirindo uma aura romântica e misteriosa em vez de um vulgar efeito cómico. Tal efeito resulta precisamente do facto de a torre estar inclinada sem perder as perfeitas gravitas e majestas projectadas pelo seu arquitecto. A mesma razão pela qual é cómico ver uma pessoa vulgar a escorregar numa casca de banana ou a entornar um copo de vinho na camisa, mas se for um executivo ou banqueiro de ar grave e impecavelmente vestido, mais cómico se torna. E a partir do momento em que tal acontece, o executivo torna-se um ser humano mais normal, desenvernizado, imperfeito, sujeito às naturais contingências das vidas comuns.

Não terá sido por acaso que Goya subtilmente inclinou Pedro Téllez Girón no célebre retrato onde surge junto da sua mulher e filhos. Convém lembrar que se trata um «Grande de Espanha», um insigne militar, o 9º duque de Osuna. Seria normal que uma figura desta importância surgisse de acordo com as clássicas convenções dos retratos de pessoas com este estatuto social. Uma convenção, sim, mas que pode ter a sua origem na natureza. Em 1872, Charles Darwin publicou o seu estudo The Expression of the Emotions in Man and Animals, estudo esse que ainda hoje serve de base a muitas investigações no âmbito da Etologia e Psicologia. Nesse livro, o eminente cientista britânico contraria a teoria do anatomista escocês Charles Bell, inspirada na Teologia Natural, segundo a qual Deus dotou o ser humano de certos músculos faciais para poder manifestar as suas emoções. Darwin, por sua vez, pretende provar que animais e seres humanos transmitem de igual modo emoções, sendo bastantes os casos de estudo comparativos. Mas não é apenas através do rosto que se torna possível tal comparação. Também a postura do corpo funciona naturalmente como meio de afirmação e engrandecimento, gerando uma aura de superioridade que permite impor respeito a quem o rodeia: erguer os ombros, esticar a coluna para ficar mais alto, levantar a cabeça, empinar o nariz. Eis por que reis e rainhas, nobres, ou qualquer outra figura cuja grandeza deve ficar imortalizada num retrato, surgem nessa posição.

Acontece ter sido Goya um grande amigo de Pedro Téllez Girón, não querendo o pintor escondê-lo sob a capa formal do duque de Osuna. Claro que tanto as cores do quadro como a graciosidade dos rostos lhe retiram o habitual tom austero com que pessoas desta condição social surgem nos retratos. Mas o punctum desta imagem, como diria Barthes, está todo ele na inclinação do duque. Porém, ao contrário do que se passa com a torre de Pisa, não se trata de criar um efeito cómico, ainda que a torre fosse construída com o objectivo de revelar uma nobreza de pedra do mesmo que um nobre surge socialmente como altiva torre de carne e osso, podendo gerar-se assim uma reacção semelhante face às respectivas inclinações. Há, todavia, uma grande diferença que o impede, e quem nos pode ajudar a explicá-la é um filósofo francês chamado Henri Bergson, num livro publicado em 1900, chamado O Riso- Ensaio sobre o Significado do Cómico. A chave está na diferença entre o voluntário e o involuntário. Diz ele que uma personagem é cómica na exacta medida em que se ignora a si própria. E quanto mais natural e espontânea for, mais cómica se torna. Há programas de televisão que mostram pessoas a serem apanhadas em situações caricatas que fazem rir os espectadores. Se os seus desastrados movimentos fossem voluntários, perderiam toda a graça. Sendo involuntários, apesar de, neste caso, e ao contrário da torre, estando as pessoas conscientes da sua condição, instalam um elemento de desordem, surpresa e imprevisibilidade no mundo que lhes confere a tão apreciada comicidade. É também isso que se passa com a torre de Pisa, distinguindo-a de alguns edifícios inclinados contemporâneos de criativos arquitectos, uma vez que para além da ausência de uma majestas original, foram intencionalmente projectados com essa inclinação para fins puramente estéticos.

O duque de Osuna surge ali inclinado, não por causa de problema nas costas, não por estar a ser puxado pela mão da filha ou ter sido pisado por alguém. Fosse isso e tornar-se-ia cómico e risível. O que Goya nos quer revelar com a graciosa e doce inclinação do duque é a sua humanidade, a sua imperfeição, a sua humildade doméstica, o extremoso pai que vive no mundo normal de homens, mulheres e crianças, e não numa espécie de Olimpo aristocrático onde as figuras importantes gostam de se exilar para se demarcarem do comum dos mortais, graças à sua rígida e altiva pureza. 

Foi também uma rígida pureza que perseguiu Kant ao formular a sua teoria moral. A sua perspectiva é claramente dualista. De um lado, a razão pura, fonte das acções genuinamente morais. Do outro, as inclinações, que podem ser emoções, sentimentos, interesses vários ligados a uma dimensão sensível da acção humana, isto é, mais próxima da animalidade. Para Kant, não há nada  de errado num pai tratar bem um filho porque gosta dele. Mas não se trata de uma acção com valor moral. Vendo bem, o que distingue um pai que cuida bem de um filho, de um animal que faz o mesmo em relação às suas crias? Não há nada de errado no amor, no prazer de amar, de cuidar, de tratar bem os outros. Mas não passam de humanas, demasiado humanas inclinações. O que Kant verdadeiramente procurava era uma moral com a mesma marmórea e vertical rigidez de uma torre medieval e imune a qualquer inclinação. O que importa aqui realçar é o facto de a inclinação mostrar o lado mais normal, espontâneo, afectivo, sentimental, emocional do ser humano, em contraste com uma vontade racional, mais idealizada do que concreta, tal como as pessoas importantes dos grandes retratos históricos imortalizados por pintores. Goya foi também um deles. Mas, no caso desta família, o seu desígnio é bem diferente, desidealizando o duque enquanto figura central, fazendo-o descair na direcção do grupo do qual deseja fazer parte. Este quadro bem se podia chamar A Inclinação. É assim que lhe chamo no meu íntimo desde que o conheço, e que faz com que seja tão especial. Estivesse o duque direito, em pose aristocrática, e seria aqui tão banal como qualquer uma das milhares de torres existentes no mundo que tiveram  o azar de não serem como a torre de Pisa.

07 abril, 2016

PEQUENO ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Pieter Bruegel, O Velho | A Parábola dos Cegos, 1568

Não sigo aquele princípio hermenêutico segundo o qual é possível conhecer melhor um autor do que ele se conheceu a si próprio. Daí não ter a veleidade de conseguir compreender a fundo o que ousou dizer Samuel Johnson com «I never desire to converse with a man who has writen more than he has read». É verdade que a frase é clarinha como água, o que lá está é o que lá está e apenas isso. O meu problema é compreender, no século XXI, o que está a acontecer na cabeça de uma pessoa do século XVIII que escreve tal coisa, uma vez que ler e escrever no século XVIII não é o mesmo que ler e escrever no século XXI.

O que creio poder saber, é que aparecesse Samuel Johnson no século XXI, arriscar-se-ia a ficar calado. Nunca tanto se escreveu como no século XXI e através de tantos canais de comunicação, incluindo os mais chilreantes. Toda a gente escreve, até mesmo este blogger de triste figura. O problema de Johnson seria dar de caras com um tempo em que se escreve demais e se lê de menos. É verdade que, partindo do princípio que se alguém escreve é porque é lido, então, se se escreve muito, também se lê muito. Lê-se, portanto, muito e cada vez mais porque também se escreve cada vez mais. Isso, todavia, não resolve o problema de Johnson, pois quem lê, lê apenas o que escrevem pessoas que não lêem ou que também apenas lêem o que escrevem as outras pessoas que não lêem. O que talvez, e digo talvez pois não sigo aquele princípio segundo o qual é possível conhecer melhor um autor do que ele se conheceu a si próprio, levasse Johnson a concluir que numa época em que se publicam tantos e cada vez mais livros, incluindo os escritos por pessoas que não lêem, se devesse aproveitar para ler mais e escrever menos, evitando assim o claustrofóbico, concentracionário e distópico processo de, num circuito fechado, as pessoas que escrevem lerem apenas o que escrevem pessoas que não lêem. Cegos conduzindo cegos, diria Johnson do mesmo modo que, antes dele, Bruegel o fez com tintas e pincéis, arrisco eu dizer, apesar de não seguir o princípio segundo o qual é possível conhecer melhor um autor do que ele se conheceu a si próprio, embora nesse aspecto tenha a minha vida alegre e airosamente facilitada por viver num tempo em que não há nada para compreender uma vez que nada há para ser compreendido.

06 abril, 2016

SOL VERMELHO

William Klein | Cine Poster, Tóquio, 1961

Não compreendo como há quem ainda leve a sério frases como "Conhece-te a ti mesmo", "Sê tu próprio", "Sê aquilo que és". Uma romântica busca de uma autenticidade algures perdida num cantinho da alma humana, em oposição a formas de pensamento e de acção que soam artificiais e revelam o lado mais filistino da natureza humana. Tal busca de uma autenticidade perdida  não passa de uma ilusão. Mas pior do que uma ilusão é ser uma perigosa ilusão. 

Por um lado, que interesse haverá em pedir a um vulgar sacana que se "conheça a si mesmo" ou que seja "ele próprio"? O ideal seria mesmo que não fosse "ele próprio". O mundo está cheio de gente que não deveria ser "ela própria". Depois, ninguém conhece os seus limites ou a sua verdadeira natureza, e ainda bem que assim é. É verdade que o mal não está uniformemente distribuído pela humanidade. Mas também convém não esquecer que muitas pessoas se revelam melhores do que outras apenas porque não lhes foram dadas condições para poderem ser más. O desejo de pureza e autenticidade é uma caixa de Pandora que jamais deverá ser aberta. Será sempre preferível a ignorância acerca de nós mesmos e dos nossos actos, mantendo-nos imperfeitos e ignorantes a respeito dos nossos limites. Sabendo nós que tantas vezes a perfeição absoluta se aproxima perigosamente da imperfeição absoluta, é melhor contentarmo-nos com a tepidez de um Sol de Inverno do que desejarmos um Sol que nos pode cegar e queimar. É que para a alma humana nunca haverá protector solar.

05 abril, 2016

O VÉU DA IGNORÂNCIA

Dorothea Lange | Egipto, 1962

Volta e meia somos confrontados com o problema do vestuário, devido às diferenças entre a cultura ocidental e a muçulmana. Desta vez, por causa das hospedeiras da Air France serem obrigadas a usar véu e roupas largas, em Teerão. Para uns, será um sinal de respeito por uma cultura diferente. Outros vêem nisso uma humilhante cedência, contrapondo o facto de, na Europa, as muçulmanas serem livres de se vestir de acordo com a sua cultura. Logo, se uma mulher europeia é obrigada a usar véu em Teerão, uma muçulmana deverá tirá-lo em Londres, Paris ou Roma. Vou pedir ajuda a um filósofo inglês do século XVII chamado John Locke que, sob anonimato, escreve a sua famosa Carta sobre a Tolerância, num tempo em que católicos e protestantes se viam entre si como, em Raqqa ou Mossul, um fanático do DAESH vê um cristão. Nessa carta, joga com a noção de «coisa indiferente», de cujo contexto me desvio (ele fala de igrejas e seus diferentes rituais, eu de culturas) mas não da sua essência, e à qual recorro em busca de alguma luz para este problema. 

Em cada cultura há coisas indiferentes e outras que não o são. Cães, gatos, porcos, vacas, borregos são animais. Em Portugal é indiferente comer vaca, porco ou borrego mas repugnante a ideia de comer cão ou gato. E, havendo inúmeros matadouros onde os primeiros são diariamente mortos, será julgado criminalmente quem mate cães ou gatos. Não por serem menos animais do que os outros, ou seja, não se trata de um critério racional e objectivo, mas apenas porque isso fere a nossa sensibilidade cultural devido à relação afectiva que temos com eles. No Irão será indiferente comer vaca ou borrego. Mas já não o será comer porco, igualmente por razões culturais, neste caso, religiosas. Há sítios em África onde uma mulher pode ocupar o espaço público com o peito coberto ou descoberto. É indiferente. Já em Portugal é inaceitável a segunda situação, excepto na praia. Não é, pois, uma coisa indiferente. Se, em Portugal, uma dessas mulheres africanas for para a rua com o peito descoberto, será advertida pelas pessoas ou pela polícia. Ora, a mesma dualidade existe quando se pensa no papel do véu e do vestuário feminino na cultura ocidental ou na esmagadora maioria dos países muçulmanos. Em França, é indiferente uma mulher andar vestida desta ou daquela maneira, de cabeça descoberta, com gorro, boina, boné, chapéu, um lenço a cobrir a cabeça, ter o cabelo preto, vermelho lilás ou mesmo rapado. Já no Irão não é indiferente. Neste sentido, deve aceitar-se que, no Irão, uma mulher francesa possa ser obrigada a cobrir a cabeça pela mesma razão que, em França, uma mulher africana possa ser obrigada a cobrir o peito, não servindo o argumento de que na sua aldeia o faz. 

Mas há que separar o trigo do joio, não metendo tudo no mesmo saco. Neste sentido, terei que dar razão a quem defende que os países ocidentais, sob a bonita capa do multiculturalismo, vão longe de mais na aceitação de valores que chocam a nossa sensibilidade. Repito: não aceitamos que a mulher africana ande na rua de peito descoberto porque fere o nosso pudor. Repito: não aceitamos que matem cães ou gatos porque fere a nossa sensibilidade. Ora, se nos países ocidentais são inaceitáveis práticas de discriminação de género, práticas que revelem uma posição subalterna da mulher face ao homem, por que razão devemos aceitá-lo só porque isso é normal noutra cultura? Cobrir a cabeça com um véu é uma imposição religiosa mas não anula a individualidade e dignidade da mulher. Ainda hoje, em Portugal, em certas zonas rurais, ao contrário dos viúvos, as viúvas cobrem a cabeça com um lenço. Discriminação? Talvez, mas dentro de limites razoáveis. Todavia, obrigar uma mulher a tapar o rosto será na nossa cultura uma forma abominável de discriminação e subjugação do mesmo modo que seria ver uma mulher andar na rua presa por uma trela. O grau de espectacularidade é diferente mas o princípio que lhe subjaz é o mesmo. O rosto é uma marca fundamental da nossa identidade e personalidade, é através do rosto que assumimos grande parte da nossa individualidade perante os outros, é através do rosto que vemos e somos vistos sem qualquer medo ou vergonha, é através do rosto que exprimimos as nossas emoções. Mostrar o rosto é uma afirmação da nossa liberdade, personalidade e individualidade no espaço público. Não por acaso existem expressões como «Não ter vergonha de dar a cara», «aparecer de cara lavada», «poder andar na rua de cabeça erguida», «dar de caras com alguém». É por isso chocante, para nós, ocidentais, que o rosto possa ser assumido publicamente por um homem no espaço público mas não por uma mulher. Aceito, pois, a proibição de prática tão repugnante nos países ocidentais, sendo condição necessária para poderem cá viver.

Em suma, não devemos julgar todas as práticas culturais como um todo mas perceber cada situação individualmente pelo seu menor ou maior grau de indiferença em função dos nossos valores culturais, que devem ser defendidos e protegidos de tudo o que os possa ameaçar. Continuar a insistir na questão do véu das europeias em países muçulmanos ou no véu das muçulmanas nos países ocidentais, no quadro de um abstracto choque de culturas, não passa de um tremendo erro.

04 abril, 2016

PANSEXUALIDADE

Philippine Schaefer

Deveras assustador este artigo do Público sobre as novas tendências da identidade sexual. Onde se fala, por exemplo, de um casal inglês que não revelou a ninguém o sexo do filho até este fazer 5 anos para não condicionar a sua identidade sexual em função de preconceitos e estereótipos sociais. Ou no «fosso do corredor azul e rosa», isto é, do problema de haver brinquedos para menina e brinquedos para menino ou até da ideia segundo a qual não se deve falar em buracos, antes orifícios, para evitar medos e desconfortos em relação ao corpo.

Problemas cuja gravidade e complexidade é inegável mas não insuperável. Talvez a via mais interessante, e absolutamente inclusiva, para superar estas dificuldades, seja a da pansexualidade. Mas a verdadeira, a genuína. Dei conta dela já faz tempo, por mero acaso, ao consultar a página da Wikipédia sobre a cineasta Raquel Freire, onde se informa ser a realizadora assumidamente pansexual. Entusiasmado com a versatilidade antropológica, ecológica e até metafísica do conceito, fui logo explorar o assunto mas rapidamente me desiludi com a sua redutora estreiteza. É verdade que uma pessoa pansexual é mais livre e vai mais longe do que a bissexual, ainda limitada por um opressivo esquema sexual binário, isto é, só gosta de homens e de mulheres, o que é manifestamente pobre e algo conservador. Já a pessoa pansexual não se contenta com uma monótona atracção por dois sexos apenas mas por todo o espectro sexual; homossexuais, heterossexuais, bissexuais, transgéneros e intersexos. A minha desilusão, confesso, é de certo modo romântica. Ao descobrir o conceito de pansexualidade, juro que pensei logo numa sexualidade espinosista, um panteísmo sexual, uma sexualidade telúrica, intimamente vinculada à blood-consciousness do D.H.Lawrence, uma perfeita e absoluta comunhão com a natureza, entre o corpo e os elementos primordiais da terra. Esta, sim, é a genuína, a verdadeira pansexualidade, que faz de toda a natureza um imenso objecto de desejo sexual, levando-nos a comungar sexualmente com tudo o que mexe e não mexe, ultrapassando assim as limitações da tradicional, pequeno-burguesa e reaccionária pansexualidade, apenas focada num miserável leque de cinco identidades sexuais, mais coisa menos coisa.

Quando eu era criança gostava muito de jogar ao berlinde no recreio da escola. Lembro-me de, a dada altura, passar a olhar com outros olhos para os buracos feitos na terra, perdão, para os orifícios, começando a sentir uns calores e uns tremores no corpo, esquecendo o berlinde para me concentrar apenas nos orifícios. Agora que penso nisso, creio poder dizer que já se trataria de uma minha pulsão pansenxual, um ígneo desejo de penetrar nas intimidades da terra. E na Primavera, tanto que eu gostava de meter umas ervinhas na boca e sentir o sabor da sua agreste seiva. E na praia, depois de uma bela banhoca, sentir por baixo uma rocha bem polida e quentinha, sendo afagado por cima pelo calor do Sol num verdadeiro ménage à trois cósmico. E por que razão, nunca, mas mesmo nunca, me canso de ir ali às grutas de Santo António, Alvados e Mira de Aire? Só pode ser explicado pela primitiva sensação de me deixar engolir pela própria Terra que tão amorosamente me acolhe no seu escuro e húmido silêncio. Isto, sim, é a verdadeira pansexualidade, E esta ligação entre o sexo e a natureza não é assim tão espúria quanto possa parecer. Os exemplos poderiam ser mais que muitos na história da literatura mas basta pensar no modo como Aristófanes, na sua famosa peça Lísistrata, substitui o verbo binein (fornicar) por vindimar, sachar, escavar, colher o figo, espremer a uva para com ela fazer bagaço. Em vez de dizer «dar um beijo», diz «entrelaçar o cesto». Os seios de uma dançarina nua são comparados a rábanos. Em A Paz, o mesmo Aristófanes faz chamar ao órgão masculino o grão de bico, o prego, o touro; os testículos são as folhas da figueira com dois frutos. A genitalia feminina, por sua vez, é a andorinha, o ouriço do mar, a cozinha, chamando orvalho e sumo às suas secreções. A cineasta que me perdoe a franqueza mas isto, sim, é a verdadeira pansexualidade, a fazer lembrar os belos cenários renascentistas e barrocos que tão bem exploram o clássico e paradisíaco universo de sátiros e ninfas em absoluta comunhão mística com a natureza em honra do deus Diónisos, com vinho vermelho, qual sangue da terra, escorrendo pelos queixos durante inebriantes cânticos e danças.

Percebe-se pois que seja este o caminho a defender por todos aqueles que vivem obcecados com a sensível questão da identidade sexual e da exclusão. Mais inclusivo do que isto é impossível. Deixa de haver homens e mulheres, heterossexuais, homossexuais, bissexuais e tudo o mais, seres humanos e animais, seres animados e animados, sexualidade humana e vegetal. Tudo isso acaba. Como nas Metamorfoses de Ovídio, tudo muda, tudo se transforma em tudo, tudo se associa, tudo casa com tudo, tudo está em tudo sem excepções. Chegou pois o momento de desenvolver, por decreto-lei, claro, como tanto gostam os amantes da liberdade sexual, uma verdadeira educação para a pansexualidade, a qual marque o fim de todas as diferenças, de todas as hierarquias, de todas as subjugações e exlusões, enfim, de todas as identidades mórbidas e castradoras.


Rita Lino

03 abril, 2016

PARÁBOLA DOMINICAL

Stanley Kubrick |The Shining [fotograma]

Ainda que algo desarrumada, costumo ter a casa razoavelmente limpa. Enfim, o habitual: chão aspirado, madeiras sem grandes vestígios de pó, cozinha e casa de banho com uma aceitável dignidade. Hoje, porém, durante uma simples e dominical limpeza de rotina, fui inexplicavelmente possuído por uma espécie de daimon socrático mas de cariz higiénico, arrastando-me para uma terrível escalada de limpeza, sobretudo na cozinha, como nunca acontecera antes. Armado com o CIF mais um pacote daqueles toalhetes húmidos com lixívia, ataquei implacavelmente tudo o que via e não via mas fiz questão de passar a ver: cantos dos rodapés dos armários, as saliências formadas pelas almofadas das suas portas, as partes exteriores interiores e exteriores das gavetas, juntas dos azulejos, os cantos e recantos mais recônditos do frigorífico, incluindo a borracha na parte superior da porta, o forno, botões da placa do fogão retirados para limpar a superfície escondida por eles, com uma minúcia de psicopata esfreguei todas as saliências do escorredor da louça e até com uma faca esfreguei todas as ranhuras do espremedor de laranjas que uso diariamente para fazer o sumo do pequeno-almoço. Quanto mais procurava mais encontrava, até que cheguei a um ponto em que tive de dar um murro na minha consciência e parar com esta quase bíblica sanha purificadora. Percebi, com dramática lucidez, que se quisermos procurar sujidade iremos sempre encontrá-la, seja à nossa frente, seja nos lugares mais inobserváveis de um labirinto sem princípio nem fim. A partir daqui há duas vias bem distintas: viver em busca de uma sujidade que nunca terá fim, ou viver de modo a aceitá-la embora sem permitir que nos esmague. É caso para lembrar o célebre aforismo 146 de Para Além do Bem e do Mal: «Quem luta com monstros deve ver se, ao fazê-lo, não se torna também um monstro. E quando olhas durante muito tempo para um abismo, também o abismo olha para dentro de ti». E nunca esquecer que, por muito árduo que sejam certos momentos e exijam a nossa atenção e vigilância, tudo na vida deve ter o seu domingo para podermos repousar.

02 abril, 2016

A ÁRVORE DE PASCAL


Uta Barth | Sem Título, 1979-82

- Eu sou um merda!- Gritara Paulo, sem largar o meu rosto.
- Merda sou eu! - Gritara o Tiago. 
- Merda sou eu! - Insistira Paulo.
- Sabe o que eu sou? Um fracasso. Pronto.
- Merda sou eu!
- Eu sou um merda fracassado. Sou mais merda que você.
Paulo largara meu rosto e agarrara a cabeça de Tiago.
- Eu sou mais merda do que vocês todos!
- Porquê?
- Porque eu era melhor do que vocês todos. Eu era o melhor de todos! Para vocês chegarem a merda, não precisou muito. Eu, sim, tive que cair. Eu é que sou mais merda. Luís Fernando Veríssimo, O Clube dos Anjos

A vaidade e a humildade surgem habitualmente como sentimentos opostos. A primeira, revelando uma pessoa que vive com um espelho numa mão e um megafone na outra, chamando a atenção sobre si. Já a humildade e a modéstia parecem mostrar uma espécie de descentração do sujeito ou pelo menos uma discreta presença de si no mundo, desejando apagar a luz dos holofotes que sobre ela podem incidir. Todavia, parece haver também no excesso de humildade ou de modéstia uma valorização de si próprio e uma auto-centração que se aproximam da vaidade e do orgulho, embora por via da negação. No excerto de O Clube dos Anjos acima apresentado, ao querer cada um dos três amigos assumir uma menor importância face aos outros, acabam quase paradoxalmente por dar uma excessiva importância a si próprios.

O §397 dos Pensamentos, de Pascal, caminha na mesma direcção: «A grandeza do homem é grande porque ele se reconhece miserável. Uma árvore não se reconhece miserável. É portanto ser miserável reconhecer-se miserável; mas é ser-se grande reconhecer que se é miserável», indo ao encontro do que aqui me traz. Apenas para evitar confusões e não por considerar que as palavras estejam necessariamente erradas, vale a pena procurar uma palavra alternativa a humildade e modéstia. Eu gosto muito da palavra inglesa «self-effacing». Por exemplo, Isaiah Berlin usa-a para caracterizar o escritor russo Turgueniev, em contraste com Tolstoi e Dostoievski. Por que é Turgueniev self-effaced, tanto enquanto homem como escritor? Pelo seu espírito auto-crítico, por não querer comprometer o leitor com o seu ponto de vista, por não pregar, desejar converter, nunca assumir uma posição demasiado assertiva face às coisas que, aliás, levou-o a ser acusado de «escapismo» face ao mundo. Turgueniev não era propriamente humilde e modesto no sentido habitual, apenas alguém que não dá especial importância a si mesmo e às suas ideias ou que não se impõe demasiado ao mundo, ainda que por via de uma «negação de si» cujos casos mais extremos remetem para uma penitência e humilhação, sendo a religião um campo fértil no que a isso diz respeito. 

Parece-me que «auto-desprendimento» pode ser uma boa tradução de «self-effacing». Ao contrário da humildade e da modéstia, que impõem uma assertiva e activa negação de si mesmo, o auto-desprendimento caracteriza-se por deixar de presumir o olhar e juízos alheios. Pensemos em Robinson Crusoe. Ele pode ficar contente ou feliz com os seus feitos na ilha, ou até mesmo orgulhoso, dizendo alegremente e em voz alta: «-Fogo, como fui capaz de fazer isto?!». Mas sem a presença de outros não há lugar para qualquer tipo de vaidade ou humildade. Ninguém sozinho é vaidoso ou humilde. Uma pessoa sozinha, como Robinson, faz o que tem a fazer, sem ter de se levar demasiado a sério ou demasiado a brincar. Nem sequer precisa de se desmistificar pois não há lugar para mistificações como no caso dos três amigos brasileiros. Nós respiramos sem repararmos nisso. O auto-desprendimento, volta e meia, será fazer, pensar, dizer, viver com a mesma naturalidade e espontaneidade de quem respira. Já tanto o vaidoso como o humilde, ainda que por caminhos distintos, estão demasiado concentrados na sua respiração. Ao contrário da árvore de Pascal, que apenas respira.

01 abril, 2016

CULPAS SOLTEIRAS E CASADAS

Carl Dreyer | O Dia da Ira

Eu tive um professor de Filosofia Medieval, o padre Cerqueira, que, perante uma sala de gente maioritariamente esquerdista, ateia e com fortes sintomas alérgicos a tudo o que fosse pólen católico, dizia, com um sorriso irónico no rosto, que era mais fácil encontrar uma Bíblia na mesinha de cabeceira de um protestante do que na de um católico. Gostava de voltar atrás no tempo para entender melhor o que quereria dizer ele com isso mas não pude deixar de pensar nisso depois de ter visto seguidos (por mero acaso) dois filmes «protestantes»: A Fonte da Virgem, de Ingmar Bergman e O Dia da Ira, de Carl Dreyer (uma obra-prima que, estupidamente, nunca tinha visto e que entrou direitinho na minha lista dos melhores filmes).

Basta conhecer a origem e evolução da Reforma nas duas diferentes formas para compreender o seu maior fundamentalismo face à chocante superficialidade e degenerescência católica de então. Mas nada melhor que a história da arte, da pintura à literatura passando pelo cinema, para melhor entrarmos numa alma protestante, sendo estes dois filmes disso um bom exemplo. Claro que a «culpa» não é propriedade privada dos protestantes. A «culpa» é antes de mais uma questão humana, podendo ser entendida tanto num quadro antropológico como num quadro psicológico ou psicanalítico. Daí o cinema ou a literatura universal estarem repletos de histórias onde a questão da culpa tem um valor central. Mas também é verdade que não existe propriamente um cinema católico do mesmo modo que existe um «cinema protestante», que, por isso, lhe dá um sentido e envolvimento completamente diferentes. Deixa de ser uma problema apenas humano ou psicológico, para passar a ser um sobretudo um problema protestante, assumido por realizadores vinculados a uma forte identidade cultural.

A Fonte da Virgem é um filme de 1960 passado numa sueca Idade Média. O Dia da Ira é um filme de 1943 cuja acção decorre no século XVII, na Dinamarca. Dir-se-á que tudo isso é história, e que, com toda a pertinência, em países protestantes como a Suécia, Dinamarca ou Holanda, faz-se sentir hoje muito menos o peso da religião no quotidiano dos seus habitantes do que em países como Portugal, Espanha ou Itália. Claro que esse menor peso deveu-se inicialmente a questões de natureza teológica as quais fazem com que hoje não exista nesses países, para além da complexa identidade romana da Igreja Católica,  o culto dos santos, procissões, festividades populares em honra de certas figuras, o culto mariano. Ou a própria confissão com o objectivo de redimir a pessoa dos seus pecados, por vezes tão facilmente despachados com três Pais Nossos e dois Avés Marias. Mas talvez seja interessante perceber o putativo impacto da interiorização cultural da culpa na alma protestante no quotidiano desses países, reflectindo-se tanto nas questões mais importantes da vida política como nos mais insignificantes gestos do dia-a-dia, ao invés do que acontece em países católicos, onde há uma relação mais tortuosa com a culpa e onde tantas vezes morre solteira. 

Ao contrário do que dizia o meu professor de Filosofia Medieval, se calhar não vai ser fácil encontrar um dinamarquês ou um sueco com uma Bíblia na sua mesinha de cabeceira. Mas que importância têm isso? O que mais conta não é o que está ou deixa de estar na mesa de cabeceira mas o que se transmite e aprende ainda que já nem se saiba bem de onde vem e porquê. 

31 março, 2016

CINISMO

Mark Hanauer | Charles Bukowski, 1981

Costuma-se dizer que com a idade as pessoas vão ficando mais cínicas. Pode ser. Porém, filosoficamente falando, o verdadeiro cinismo só é alcançado quando a vontade de ladrar for superior à vontade de falar. E isso não é para todos.

30 março, 2016

O RISO DE SILENO

Cima da Conegliano | Sátiros, c.1505-10

O momento mais dramático de um filme tão claustrofóbico como O Ovo da Serpente, é ver um desesperado padre pedir a sua redenção a uma artista de bordel que vai em busca da sua. Mais do que dramático, surge como aquele elevado momento da lucidez trágica que torna irrisórios todos os pensamentos e acções dos seres humanos. Recuando agora, e bastante, no espaço e no tempo, vamos encontrar Lazarilho de Tormes como aquela que será porventura a mais representativa obra da literatura picaresca espanhola dos séculos XVI e XVII. Já na segunda parte da obra, Lázaro, o nosso pícaro herói, ou melhor, anti-herói, embarca a caminho do norte de África para combater os mouros. Entretanto, é apanhado por uma tempestade a qual é descrita da seguinte maneira:

«A terra desapareceu dos nossos olhos e o mar embraveceu com um vento contrário que levantava as velas até às nuvens; a tempestade crescia e a esperança minguava; os marinheiros e os pilotos desenganaram-nos. Os gemidos e os choros eram tão vivos que mais parecia estarmos em sermão da Paixão. Com o grande burburinho não se ouviam as ordens do comandante; corriam uns para um lado, corriam uns para o outro. Andávamos malucos. Todos se confessavam à pressa a quem estava mais perto e houve um que se confessou a uma rameira, e ela deu-lhe a absolvição tão bem como se exercesse há cem anos o ofício».

Tal como na música, onde tanto podemos ouvir uma marcha fúnebre como uma marcha nupcial, um Adagio como um Presto, e cujos impactos estético e psicológicos são completamente distintos, também o objectivo do realizador sueco com o seu filme nada tem que ver com o do espanhol que escreveu o Lazarilho. O primeiro quer chocar, impressionar, dar murros no estômago, enlanguescer os ânimos optimistas do ser humano; o segundo, pelo contrário, foi escrito para converter a dor em riso e tornar burlescos os mais dramáticos registos da vida humana. Neste caso, se doer o estômago não é por causa de murros mas de tanto rir. 

Dizia Marx, em O 18 de Brumário de Luis Bonaparte, que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como comédia. Olhando para o filme e para o livro vemos uma coisa diferente: o mesmo acontecimento poder ser em simultâneo tragédia e comédia sem necessitar de qualquer tempo de espera, dependendo apenas da percepção que se tem da realidade. Talvez isto ajude a explicar por que razão Sileno, fiel seguidor do deus Diónisos era ao mesmo tempo o mais bêbedo e lúcido de todos os sátiros.

29 março, 2016

HORA SEM MUDANÇA

Béla Tarr | O Cavalo de Turim [fotograma]


Há um filme no qual uma freira cheia de certezas começa a chorar quando finalmente chegou a sua dramática hora de duvidar. Eu, criatura cheia de dúvidas, iria chorar se chegasse a minha dramática hora de ter certezas. Muito antes disso chegará o dia ao fim e a luz apagar-se-á. Da verdade estarei sempre a salvo.



28 março, 2016

ENTRADAS SEM SAÍDA

Postal alemão, 1902

Anteontem fui almoçar fora com a minha filha. Quando veio a conta, vejo que se esqueceram de incluir as entradas. Fechei-me em copas e lá vim todo contente por este raro momento de sorte caído em cima da mesa como pingo de mel na língua. Tratando-se de um acto mais estúpido e infantil do que imoral, não tendo matado ou ferido alguém, fosse física ou moralmente, e dele não tendo tirado grande proveito à custa de um grave prejuízo de outrem, a esta hora já deveria estar arrumado na gaveta moral da minha consciência. Mas aí é que está! É precisamente pela sua estupidez e infantilidade que devo tentar percebê-lo no meio de tanta tralha que por lá se encontra.

Assaltar um banco, roubar um livro numa livraria, tirar a carteira do bolso de alguém no metro, são actos imorais mas não são actos estúpidos ou infantis. Quem o faz, sabe bem por que o faz e o que beneficia com eles. Até se pode considerar, por isso, serem actos de grande esperteza. E o mesmo pode acontecer com um homicídio, com o acto de raptar raparigas na Síria para as ter como escravas sexuais ou até fazer-se explodir perto de um parque infantil em Lahore. São actos moralmente abomináveis mas que de estupidez nada têm se pensarmos nas suas possíveis vantagens (materiais, físicas ou psicológicas) para pessoas sem qualquer tipo de pruridos morais. Mas que ganhei eu por nada ter dito ao empregado, e não pagar o que seria justo pagar, de acordo com o (tácito) contrato estabelecido entre mim e o dono do restaurante no momento em que me sento numa das suas mesas para almoçar? Não foi por trinta moedas de prata como as de Judas que traí os meus princípios morais mas por meia pataca. Dois dias depois não sinto que tenha ganho ou deixado de perder alguma coisa por tão irrisória quantia que se confunde com a irrisória gorjeta que deixei.

Esta minha bagatela fez-me então lembrar o tempo em que Santo Agostinho ainda não era santo mas um jovem dado à parvoíce como facilmente se depreende no episódio recordado nas Confissões em que, aos dezasseis anos, roubou umas pêras na árvore do vizinho. Pêras que tinha em abundância na sua própria casa e que logo deitou, com desprezo, aos porcos. Ou seja, tal como eu, também nada ganhou com o seu pecadilho. Não quero com isto comparar-me ao bispo de Hipona. Primeiro, porque nunca serei santo, depois, porque uma coisa é roubar pêras ao vizinho quando se é um fedelho, outra coisa o meu infantil contentamento quando já tenho idade para ter juízo. Mas há uma coisa que une os nossos actos: o prazer do ilícito e uma certa sensação de omnipotência, ainda que gratuita. Não se trata aqui tanto de uma banalidade do mal mas do mal da banalidade, a aceitação de um mal que, pela sua natureza simples, infantil, inócua, arrisca-se a ser aceite sem grandes filtros morais.

Agostinho tornou-se santo e quanto a mim estou certo de que não me irei tornar um daqueles perigosos criminosos que começaram com pequenas picuinhices a feijões para depois chegarem à fase dos gratos actos. Enfim, que começam por fumar um cigarrito ou outro, só por graça, para acabarem a fumar dois maços por dia. Tenho a perfeita noção da linha que separa uma simples e espontânea parvoíce de uma grave imoralidade. Mas, mais do que no grau, importa pensar na natureza da acção. E quer-me parecer que o acontece com as mais graves acções é o que acontece com as pequenas. Dizia Emmanuel Levinas que a ética é a impugnação da minha espontaneidade pela presença do outro. O meu mal à mesa do restaurante foi não ter impugnado o meu espontâneo prazer, dando-me uma voluptuosa sensação de liberdade e de alegre arbitrariedade. Mas o que se passa com alguém que, tendo igualmente como eu a consciência do mal, desde um administrador que destrói a sua empresa ou um político que lesa o Estado, a alguém que assalta uma casa, um violador ou um carteirista no metro, será essa mesma sensação de infantil espontaneidade que, ao contrário de Agostinho, assim como, felizmente, da esmagadora maioria das pessoas que não são santas, não é vencida ou sequer refreada. Neste caso, a banalidade do mal e o mal da banalidade, confundem-se mesmo, e fumar dois maços por dia em adulto e um cigarrito no despertar da adolescência, são mesmo as duas faces de uma moeda. Que pode começar por ser de meia pataca nas entradas de um restaurante.

27 março, 2016

DOMINGO DE PÁSCOA


Heinrich Kühn, 1912-15

Podiam algumas centenas de milhares de seres humanos amontoados naquele pequeno espaço mutilar a terra sobre a qual se juntavam, podiam esmagar o solo com blocos de pedra para que nada germinasse, podiam arrancar as ervas que começavam a nascer, podiam encher a atmosfera com o fumo do petróleo e do carvão, podiam derrubar as árvores, afugentar os animais, amedrontar as aves, mas a Primavera, mesmo na cidade, seria sempre a Primavera”.

Tolstoi começa assim o romance «Ressurreição», louvando a cíclica generosidade da Primavera. Não é por acaso que a Páscoa ocorre na Primavera. O mais importante da Páscoa não é a crucificação de Cristo mas a sua ressurreição. É por isso que a Páscoa é mais bonita do que o Natal. Numa altura do ano em que a natureza está meio adormecida, o Natal celebra o nascimento de alguém que vai um dia morrer, enquanto a Páscoa celebra a morte de alguém que vai renascer, vindo mesmo a calhar ser na Primavera. Estando a natureza ausente e indisponível, o Inverno puxa para a interioridade. A neve, o nevoeiro, a neblina, a chuva, a ausência do sol, formam uma burqa que, como numa mulher muçulmana, faz a natureza esquecer-se de si própria e afastá-la dos olhares humanos. Cristo sofrendo na cruz também lembra a severa austeridade do Inverno. Compreende-se bem porquê. Nos momentos de dor, o mundo deixa de existir. Quem é fustigado pela dor física deixa de olhar para o mundo para olhar apenas para si próprio, concentrando-se os sentidos nos movimentos internos do seu sofrimento. Para quem sofre não há calor nem frio, a beleza da música é transformada em ruído, a exuberância dos aromas é esmagada pelo peso da dor. Para quem sofre só existe o «si» diluído na sua própria dor.

A ressurreição de Cristo não significa outra coisa senão um processo de alguém que morreu para a ilusão da individualidade para ressurgir conciliado com a totalidade da vida. Com a sua morte na cruz enquanto homem, deixou de ter um corpo, uma voz, uma subjectividade delimitada pelas fronteiras materiais do espaço e do tempo, para se tornar ele próprio num Deus. Deus que nunca terá deixado de ser mas que era facilmente iludido pelos contornos humanos do corpo e de uma identidade comum ao comum de mortais como Marcos, Lucas, Mateus ou João. Ainda não consegui compreender o fascínio de alguns cientistas pela descoberta do verdadeiro rosto de Cristo. Parece não perceberem que descobrir o verdadeiro rosto de Cristo, significa matar Cristo outra vez, remetendo-o novamente para os domínios da temporalidade e de uma vulgar identidade genética. A sua ressurreição representa o início da Primavera após uma crucificação em pleno Inverno. E a Primavera é de todas as estações aquela onde a exuberância sinfónica da natureza mais se faz sentir, ao rebentar todo o seu esplendor dionisíaco que supera a finita individualidade de cada ser. Na Primavera, a individualidade de cada ser, seja de uma planta, de um insecto, do sol, do mar, de uma criança, é radicalmente anulada por uma espécie de orquestra onde a parte só faz sentido em função do todo, de unidade primordial, de unidade cósmica, de harmonia universal que funde numa mesma dimensão o uno e o múltiplo, em que a orquestra se sobrepõe à soma de todos os instrumentos.

A Primavera representa, assim, para cada indivíduo, o esquecimento de si, a sua dissolução enquanto indivíduo, para se ganhar novamente a si mesmo num plano mais elevado, no qual, embora perca a sua consistência civil e social, acaba por conquistar uma justificação divina. Certezinha absoluta de que foi isso que Cristo começou a compreender quando, na cruz, mal fechou os olhos para nascer. E mesmo que os cientistas consigam, um dia, reconstituir o verdadeiro rosto de Cristo, os nervos, os músculos e o sangue da sua alma serão sempre inacessíveis à estreiteza racional do ser humano. Tal como a Primavera que, apesar de hoje não estar propriamente nos seus mais exuberantes dias, não tarda a dar mais um arzinho da sua Graça. 

26 março, 2016

LIGAÇÕES PERIGOSAS

Martin Chambi | Cuzco, Peru, 1930

Se um jovem da nobreza rouba umas jóias, o acto é atribuído a uma cleptomania e fala-se dele com um filosófico sorriso, sem que passe pela cabeça de ninguém enviá-lo para uma casa de correcção, como se faria com uma criança esfarrapada que tivesse roubado uns nabos. George Eliot, Middlemarch

Isto foi escrito em pleno século XIX e deste então o mundo mudou e mais ainda mudou desde que Camões cegou de um olho, o qual lhe fez muita falta, pois compreende-se melhor o mundo com os dois olhos do que apenas com um, ainda que se sendo rei em terra de cegos. Ao contrário do que versejou o poeta, se se mudam os tempos nem sempre as vontades lhes fazem a vontade, assim como o ser e a confiança, sem esquecer ainda o facto de as qualidades e os defeitos dificilmente serem novos. Ainda assim, como diria o outro, é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Isto está tudo ligado, é o que é.

25 março, 2016

BIBLIOTOCA


No meu tempo de estudante havia, no Campo Grande, uma excelente livraria, a Universitária, cuja dona, uma simpática, elegante e bem educada senhora, já de uma certa idade, tratava os clientes com grande deferência. A livraria tinha uma fisionomia que permitia levar facilmente livros sem pagar, havendo uma fiel legião de estudantes de Filosofia que alegremente o fazia. Nunca fui capaz de o fazer mesmo em circunstâncias em que havia condições para tal sem ser apanhado. Enfim, ainda tentei mas não consegui, fruto de uma pesada consciência e de considerar isso um acto condenável. Hoje, porém, acho bonita a ideia de alguém com pouco dinheiro roubar um livro, ideia só possível, é certo, pelo facto de não ser eu o dono da livraria.  Mas pronto, numa época em que já não se lêem livros (não falo em não comprar) e em que perderam a sua importância simbólica e cultural, consigo ver qualquer coisa de romântico no acto de roubar um livro. Se roubar uma coisa implica dar-lhe importância, alguém que se arrisca a passar pela vergonha de ser apanhado a roubar, não lâminas de barbear, um secador de cabelo ou uma camisa, mas um livro, merece o meu respeito e admiração.

Tal como a ideia de roubar livros, também esta fotografia me leva a uma mistura de sentimentos. Por um lado, sinto uma enorme repugnância pelo que de sinistro representa. Mas, por outro, ver um livro apresentado com tanto poder e orgulho, ao mesmo nível de uma arma, remete para um tempo em que também, e não necessariamente por más razões, os livros tinham na Europa um valor central na destruição e construção de mundos. Heinrich Heine, o poeta alemão que trocou o seu país pela França, exortou os franceses a não subestimarem o poder das ideias, ideias que, muitas vezes escritas em livros de um pueril inocência metafísica a montante podem, a jusante, ter consequências imprevisíveis. Daí ele dizer que na fronteira entre dois países, o que de mais importante uma pessoa leva ao atravessá-la não pode ser controlado: as suas ideias.

Não foi assim há tanto tempo que na Europa se olhava para os livros dessa maneira, um hábito vindo de tempos imemoriais, com altos e baixos conforme os países e épocas, mas atravessando toda a história. Daí a censura e perseguição de pessoas, uns por escreverem, outros por lerem, muitos desses livros, tal como ainda acontece com Os Versículos Satânicos no mundo islâmico. Hoje, porém, cada vez mais ultrapassado por formas chilreantes ou visuais de divulgar ideias, ou que apenas vagamente podemos considerar ideias, dificilmente o livro voltará a possuir tão elevado estatuto, não só simbólico como efectivo. Não estou com isto a querer exprimir comoção por ver a mão direita de um demente exibir todo o poder e horríveis consequências daquele livro. Mas a imagem nua e crua não deixa de me provocar uma inquietante estranheza. Por um lado, pela bela homenagem que é prestada ao objecto enquanto tal, ainda que por um fanático que não o merece. Mas também, e por contraste, pela sua melancólica ausência num mundo onde as palavras se assemelham cada vez mais à espuma dos dias nos quais desaguam para logo desaparecerem sem rasto. E ficando cada vez mais guardados para as cada vez menos toupeiras que os conseguem ler, longe das luzes da ribalta, qual versão moderna dos velhos ratos de biblioteca   

24 março, 2016

FAMOSOS E POPULARES


Alfredo Cunha, Lisboa, 1975

Faz todo o sentido este puxão de orelhas e os exemplos apresentados são certeiros e bastante elucidativos. Só que enquanto Aires Almeida aborda a questão apenas de um ponto de vista ontológico ou gramatical, a palavra «popular» merece-me um maior destaque pelo que de socialmente envolve no mundo actual. De facto, é frequente ouvir ou ler em órgãos de comunicação social «populares» isto ou «populares» aquilo. Ora, de onde surgirá tal categoria? 

O espaço público é cada vez mais protagonizado por «figuras públicas» e «famosos», venham eles da política, da televisão, do espectáculo, das artes. Trata-se de pessoas que se destacam por estarem associadas a um espaço específico e com uma função facilmente identificada: um programa, telenovelas, a Assembleia da República, o desporto, um palco, um reality show ou apenas porque aparecem, são vistas e respiram publicamente numa revista. Já os «populares» são todos aqueles que surgem acidentalmente numa notícia que expira em segundos, relegando as suas voláteis personagens para o anonimato do qual por mero acaso (normalmente dramas ou «tragédias», termo igualmente idolatrado pelos jornalistas) saíram.

Todas elas são pessoas mas não pessoas iguais. Tal como na antigas pólis grega em que havia os «cidadãos» e os «outros», agora, num mundo virtual que ganhou vida própria, vamos encontrar «figuras públicas, famosos» e os «populares». Podia ser tentado a recorrer à etimologia para associar «popular» a «povo», aos mais pobres, às pessoas no nível mais baixo da pirâmide social. Fazê-lo seria apenas parcialmente correcto. Correcto, porque ninguém imagina a reportagem de um acidente na Quinta da Marinha, onde a intervenção de alguns dos seus residentes, mesmo anónimos, iria merecer o epíteto de «populares». Na esmagadora maioria dos casos os populares são efectivamente pessoas humildes ou perto disso. Só que no espaço virtual a que me refiro existe uma espécie de aristocracia que não depende apenas do dinheiro de um estatuto social «natural». Um tipo pobre que fica famoso graças a um reality show, a uma canção, ao futebol ou por saber dizer umas piadolas em público, deixa imediatamente de ser «popular» para passar a ser «figura pública», «famoso», fazendo parte, por inerência, da aristocracia virtual.

Em A Genealogia da Moral, explica Nietzsche que na velha Grécia, os aristocratas, os nobres, para além de ser os melhores (aríston em grego significa melhor), e ao contrário da gente vulgar, consideram-se «esthlos», os verídicos, «um indivíduo que é», que possui realidade. Ora, é precisamente isto que hoje separa «figuras públicas» e «populares». Os primeiros existem substancialmente, têm densidade social e ontológica, enquanto os segundos, existem acidentalmente, e aparecem, mesmo falando para um microfone, apenas para dar um envolvimento mais dramático à notícia que logo se esfuma. Os novos nobres, tal como os antigos de que fala Nietzsche, continuam a afirmar-se pela aventura, a caça, a guerra, a dança, os jogos. A diferença é que a sua génese e legitimação deixou de ser apenas social ou pelo nascimento, o sangue, para passar a ser pela natureza espontânea do mundo virtual.

23 março, 2016

POEIRA COMO NÓS

August Sander

Por motivos óbvios, não se deve ser juiz em causa própria. Quando se trata de julgar ou avaliar, a imparcialidade é uma condição fundamental. Daí um dirigente desportivo não poder arbitrar um jogo do seu clube ou um magistrado julgar um familiar próximo. Ora, os impulsos antropocêntricos do ser humano padecem de uma clara falta de imparcialidade. Como levar a sério a bíblica consideração de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, vindo isto de seres humanos? Ou que a alma humana tem uma estrutura trinitária que reproduz a trindade divina, sendo Agostinho de Hipona, um homem? Como levar a sério o orgulho humanista que atribui ao ser humano uma posição privilegiada no universo?

Este egocentrismo filosófico lembra aquelas crianças de 4 anos que explicam a existência da noite pelo facto de terem que ir para a cama dormir. Daí a vetusta perspicácia de Xenófanes de Cólofon ao dizer que os mortais imaginam que os deuses foram gerados e que têm vestuário e fala e corpos iguais aos seus (Clemente de Alexandria, Stromateis, Fragmento 14). Mas mais interessante é quando compara os seres humanos aos animais. Diz ele que se os bois e os cavalos e os leões tivessem mãos e fossem capazes de, tal como os homens, representar os seus deuses, desenhariam bois, cavalos e leões em vez de figuras antropomórficas. Ao antropomorfizar os deuses, os seres humanos elevam-se a si mesmos pois criam uma familiaridade entre ambos que deixa de fora as outras espécies. A ideia de Xenófanes é que esse processo resulta de uma falta de imparcialidade e do facto de sermos a única espécie com capacidade de representar deuses. Mas o facto de termos essa capacidade não significa que os deuses sejam como nós os representamos. Sonhar também não significa considerar verdadeiros os conteúdos dos nossos sonhos, tal como pensarmos numa coisa não significa que seja real.

Estava eu a lavar a loiça do almoço quando dou por mim a pensar como olharia a natureza para todas as suas criaturas se, agora de repente, ganhasse consciência, inteligência, sentimentos, emoções. Será que iria gostar mais dos seres humanos do que de um animal ou de uma árvore? Ou achá-los mais importantes e superiores. Se sim, porquê? Por serem mais inteligentes e racionais do que os outros? Mas não aconteceria o mesmo que acontece com os pais que têm vários filhos, sendo uns mais inteligentes, tendo estudado mais ou tendo uma carreira mais prestigiada do que os outros? Porventura um pai gosta mais de um filho ou acha-o mais importante do que os irmãos só porque tirou um curso de engenharia civil e consegue construir grandes obras enquanto os outros têm profissões mais simples e humildes?  Claro que não, e se assim for é um pai perverso e frívolo. Não me choca pensar que a natureza sentisse orgulho e uma admiração especial pelos seres humanos, por aquilo que realizaram ao longo dos séculos e que mais nenhuma espécie poderia conseguir: grandes obras, invenções, sistemas jurídicos e filosóficos, teorias científicas, avanços técnicos, grandes obras de arte, formas de organização social e política. Mas isso não significa que olhasse para os outros animais e para as árvores e os visse como menos seus. O homem pode fazer coisas mais importantes, mas isso não faz de nós mais importantes. Não somos nem mais nem menos do que os outros, apenas diferentes. Nascemos, comemos, bebemos, defecamos, respiramos, reproduzimo-nos e morremos como os outros. E, tal como eles, não passamos de insignificante poeira perdida na escura e infinita imensidão do espaço cósmico.