19 outubro, 2021

Calhando durante a caminhada passar pelo centro de inspecções dos automóveis lembrei-me de ser esta a altura da anual visita a tal inóspito lugar. Não seria isto digno de registo não fosse o alívio que senti por já estar dispensado de o fazer por me terem roubado o carro que, entretanto aparecido, foi para abate. Mas um alívio logo coberto por nuvens cinzentas porque à custa de ficar sem ele. Fiquei confuso, portanto. Mal isto aconteceu, em Agosto, fui a correr feito barata tonta procurar outro carro. Mas depois de ir a dois sítios sem ver nada que me interessasse resolvi deixar de o fazer. Até hoje. Claro que ir a pé para o trabalho e fazer as compras quase à porta de casa torna a vida mais fácil. Como ajuda o facto de não viver numa terra longe de tudo e sem transportes. Ou saber que já não tenho criancinhas que precisem de mim para as levar à natação ou trazer da explicação, embora as criancinhas pudessem fazer isso a pé como as criancinhas do tempo em que eu era criancinha. E que para além disso, andar a pé é um dos meus grandes prazeres. Enfim, tudo bons motivos para questionar a necessidade de ter carro. O meu filho ainda quis ajudar à festa ao dizer que não ter carro é até uma coisa muito hipster mas não querendo eu saber dos hipsters para nada, deixo de lado essa prerrogativa pós-moderna.

Há nesta minha actual condição um misto de exercício e capricho: sentir e perceber como é viver sem carro, um dos nossos bens mais preciosos, para muitos uma extensão da sua cara, o seu espelho, o seu estatuto, o seu poder, a sua capacidade de sedução. Dizia Barthes nas Mitologias, isto em 1957, que o carro é o objecto superlativo do nosso tempo, uma "deusa" que nos traz a "alquimia da velocidade" ou "a gula da condução", símbolo da promoção pequeno-burguesa. Claro que poderia ter ainda mais longe nos atributos mas como currículo já não está nada mal. Portanto: como é ser um português, europeu, ser humano que se preze, enfim, ser uma pessoa normal, sem carro? Tinha-me acontecido o mesmo quando há já muitos anos a minha televisão, que já era pequenininha e muito velhinha, estoirou. Acabou depois feita em bocados num palco durante uma peça de teatro, por um grupo de actores que fizeram o favor de a levarem, poupando-me o trabalho de ter de ser eu a desfazer-me dela. Até hoje não voltei a ter e sem quaisquer pruridos. Passar-se-á o mesmo com o automóvel? Eis chegado o momento "fecho éclair", do poema de António Gedeão sobre Filipe II, o homem que tinha tudo mas não fecho éclair ou, digo eu, automóvel. E daí? Não sentiu a sua falta como nós não sentimos a falta do que ainda não foi inventado nem nos passa pela cabeça que um dia o será. Acontece que tendo sido o carro inventado, com os inestimáveis benefícios que nos trouxe, parece absurdo, tendo condições para o fazer, não aproveitar. 

Epicuro, ajuda-me: há coisas que são necessárias e naturais (comer) e outras que não são necessárias nem naturais (fazer uma tatuagem). A grande dificuldade está no meio-termo, no que não é natural nem necessário mas que o hábito tornou natural e necessário. Por exemplo, ouvir ópera ou ir ao futebol. Pode-se viver sem ouvir ópera ou ir ao futebol, mas tendo-nos habituado a isso passa a ser considerado natural e necessário, podendo ser difícil abdicar deles. E, ao contrário dos animais, não fará parte da nossa essência criar necessidades? O que seria de nós sem elas? Nada de muito diferente de um ouriço-cacheiro. Com o carro pode acontecer o mesmo. O carro foi uma bela invenção. Um pássaro voa, um peixe nada, um cão ou um gato andam. E chega-lhes muito bem pois, sendo o que são e nada mais do que isso, vão onde têm de ir porque a natureza fez com que assim fosse. Graças ao carro podemos fazer coisas que sem ele não faríamos mas passámos a fazer, a gostar de fazer e a sentir necessidade de o fazer mesmo que não precisássemos de o fazer. Mas não é isso que distingue o homem do animal? O que é a cultura senão uma criação permanente de necessidades artificiais que se tornaram naturais? Por não ter carro, durante estes meses tive por várias vezes que fazer marcha-atrás em certos hábitos. Por exemplo, comprar gelados no Lidl. Eu posso ir a pé mas à distância que fica chegaria a casa com um sumo morno de gelado. Deixei portanto de comer gelados do Lidl, algo que não contribuiu especialmente para a minha infelicidade. Também o Jumbo costumava ter um gelado de gengibre que me deu muitas alegrias mas deixou de aparecer e embora com muita pena e saudades, a vida continuou.  Mas se é verdade que não posso comprar um apartamento de luxo em NY (vendo bem nem um T0 ranhoso no Bronx) como o ex-ministro Manuel Pinho ou não me daria grande jeito dar 5000 euros por uma garrafa de vinho no restaurante, por que não hei-de eu, um português normal do século XXI comprar gelados no Lidl, tendo a possibilidade de o fazer? Sem carro, não posso de repente decidir ir dar um mergulho a Castelo de Bode. Mas também que importância tem um mergulho em Castelo de Bode na minha vida? Eis pois a grande questão para ter ou não ter carro: que importância têm as coisas para mim? Que peso terá na vida não fazer certas coisas? Por ora, mesmo continuando a sair à rua de cabeça erguida e a não me sentir anormal por não ter carro, sei de antemão que se chegar o momento em que sentirei mesmo necessidade de o ter, rapidamente voltará a ser preenchido o espaço vazio lá em baixo na garagem,

18 outubro, 2021

Não estar preso a qualquer "ismo", sendo o marxismo apenas mais um, não significa que um filósofo chamado Marx, e ao dizer aqui filósofo é para ser levado à letra pois estou a pensar em quem escreveu os "Manuscritos de 1844" e não em quem começou a publicar "O Capital" em 1864, não possa ser útil em 2021. Digo isto por causa desta nova moda de nos locais de trabalho reduzirem as pessoas à condição de colaboradores. Claro que toda a gente deve ser colaboradora, como deve ser pontual, assídua e competente. Mas se não faz sentido tratar alguém por "Caro pontual", "Caro assíduo" ou "Caro competente", o mesmo deveria acontecer com "Caro colaborador". Mas então por que razão se tratam assim as pessoas sem que isso cause já grande estranheza, seja na pessoa de quem trata, seja na pessoa que é tratada? Eu já fui tratado por colaborador em vez de professor ou, vá, colega, e não sendo propriamente um latino inflamado que ferva em pouca água ou que padece de complexos persecutórios, senti-me insultado. Porque não estamos perante uma inocente e neutra adjectivação mas de uma reconfiguração ontológica de quem trabalha, de quem tem uma profissão, e o jovem Marx pode ajudar-nos a perceber isso graças ao conceito de alienação. 

Pese embora os tempos estarem mais propícios para ruidosos e alegres chilreios do que para maçadoras erudições, ajuda-nos bastante a origem da palavra alienação, seja a sua raiz latina (alius), remetendo para a ideia de "outro", "alteridade", "estar fora" (daí a figura do alienado na velha psiquiatria ou a alienação de um bem em termos jurídicos), sejam as duas palavras alemãs usadas por Marx, "Entfremdung", no sentido de estranho/estranhamento e "Entäusserung" mais no sentido de despossessamento. E isso tanto no sentido da nossa relação com o produto do nosso trabalho, como da relação com o próprio trabalho. Significa que em relação ao nosso trabalho estamos cada menos dentro dele para sermos alguém que vem de fora para um serviço que se presta enquanto se justifica. Por exemplo, uma escola tem professores e funcionários. Trabalham lá, fazem parte dela, ou antes, são parte dela e identificam-se com ela, ou antes, a escola identifica-se com eles. Se for um enfermeiro à minha escola falar sobre questões de saúde com os alunos ou uma cientista estiver a desenvolver um projecto com os professores de Biologia, estão a colaborar com a escola. Sim, são colaboradores. Mas quem já lá trabalha não está a colaborar, está a trabalhar. É trabalhador, funcionário, profissional, tendo a sua identidade bem definida. Transformar essa pessoa num colaborador significa roubar-lhe essa identidade, um despossessamento, tornando o seu trabalho cada vez mais exterior, mais fora de si (ou ele mais fora do trabalho) assim como o produto do seu trabalho sobre o qual tem cada vez menos poder e por isso sente cada vez menos como seu. Se pensarmos em tudo o resto que nos rodeia, já começo a sentir a presença do fantasma da velha psiquiatria, desta vez não para falar de hospitais de alienados mas da sociedade no seu todo, deixando apenas de fora uma minoria também cada vez mais fantasmagórica mas com cabeça, tronco e membros.

17 outubro, 2021



O filme é de 1970, devia por isso ter por isso 11 ou 12 anos. Nessa noite de uma terça-feira de Carnaval fui com os meus pais ao cinema, desta vez para ver mesmo o filme e não para andar a brincar sozinho pelo hall e corredores do cinema ou a conversar com os porteiros e os donos dos dois bares, o do 1º balcão e o da plateia, já que ao 2º balcão, o chamado galinheiro, nunca ia, só mesmo como local de passagem para ir até à cabine de projecção não só cuja enorme máquina me fascinava, como também o local, como se estivesse na nascente de um rio imponente. Sim, uma plateia e dois balcões, 999 lugares num cinema de província. O meu pai fazia parte da direção, estava todas as noites no cinema, excepto à segunda e quarta, únicos dias em que não havia. A minha mãe ia muitas vezes e eu para não ficar sozinho ia também, embora dos filmes o normal fosse só apanhar os sons que vinham lá de dentro pois eram quase todos para maiores de 17 anos. 17 anos, idade tabu, idade mágica, idade perigosa, idade iniciática, a fronteira entre poder e não poder ver um filme e sempre que conhecia a programação era logo para a idade que olhava, só depois para os filmes, para saber dos sábados e matinés de domingo em que poderia ir mesmo sem eles. Há muito que Rimbaud havia dito, e depois cantado pelo Ferré, que on est pas sérieux quand on a dix-sept ans, mas se na altura eu soubesse disso iria achar uma tremenda parvoíce pois era precisamente a idade em que já teria que se ser sério para se poder ver todos os filmes.

O filme seria certamente para maiores de 17 anos e, não sei porquê, talvez por ser dia de Carnaval e ninguém levasse a mal, nessa noite deixaram-me vê-lo. No final, à saída, a minha mãe indignada com o meu pai, o que lhe teria passado pela cabeça para escolher aquele filme num dia de Carnaval, como não lhe ocorreu que aquilo não era filme para eu poder ver, que eu não devia ter entrado e pronto, é do que me lembro. Não sei dizer se o meu pai, que era calado, continuou calado. Lembro-me, sim, de ter pesadelos, de durante muito tempo ter medo de apagar a luz, dormir sozinho, atravessar o corredor (que não era enorme mas era enorme) para ir à casa de banho, por vezes só de estar sozinho, mesmo durante o dia. 

Voltei a vê-lo agora, cerca de 50 anos depois. Vi-o porque há tempos vi um filme do Chabrol do qual gostei e fiquei com vontade de ver outro. Afinal, soube agora, o filme não era do Chabrol, fiz uma confusão qualquer, enfim, deve ser da idade. Mas pronto, vi-o, e este, sim, do Chabrol. Naquele tempo os filmes eram apenas filmes, no máximo filmes que tinham actores ou actrizes que já conhecia e de quem gostava e se mesmo com essa idade já tinha visto o Música no Coração várias vezes porque vinha cá todos os anos, salas cheias e por vezes com sessão extra, e mesmo com o disco em casa, em cuja capa aparecia a ficha técnica do filme, se me perguntassem quem era o Robert Wise, eu não faria a mais pequena ideia. Também não sabia quem era o Chabrol e que vivi dias aterrorizado por causa de um filme do Chabrol. A única referência que guardei, para além do nome do filme que cheirava a sangue, foi o nome do actor principal, não sei se inconscientemente, por prevenção. Revi então o filme, um filme de Claude Chabrol de 1970 com o Jean Yanne e a Stéphane Audran, eu por acaso até já tive um primo chamado Yanne que morreu num acidente de avião em Marrocos e eu nunca fui a Marrocos, só a Ceuta durante a viagem de finalistas no sul de Espanha, vi então o filme, gostei do que tinha que gostar, de não gostar do que não tinha que gostar. Não senti medo, nem durante nem depois, apaguei a luz sem problema e pesadelos tive um há dias, ia num comboio, senti um dedo a tocar-me nas costas, era o revisor feio e antipático a pedir-me o bilhete e eu sem bilhete, em pânico, a querer falar e a não conseguir dizer nada, ele feio e antipático a ficar ainda mais feio e antipático, felizmente acabou logo ali, mudei de sonho ou acordei, já não sei dizer, mas pronto, um pesadelo normal que nada tem que ver com o filme. On est pas sérieux quand on a soixante ans.

16 outubro, 2021

Soa estranha esta pergunta, pois dias de luz perfeita e exacta parecem ser os dias certos para atribuir beleza às coisas. Daí valer a pena questionar o que significa atribuir beleza a uma coisa. Imaginemos uns extra-terrestres num planeta árido, escuro e sem vida. Nós chegamos lá e falamos em elefantes, oceanos e sequóias e eles, claro, não percebem. Três desenhos seria uma grande ajuda (não há nada para desenhar e onde desenhar) mas só com palavras não irão entender. Entretanto, como no seu planeta existem coisas grandes e pequenas, explicamos que têm em comum o facto de serem grandes e isso ele sabe o que é. Mas continua a não saber nada pois "grande" ou "pequeno" não passam de forma vazias, simples nomes sem conteúdo.

O mesmo acontece quando atribuímos beleza a uma coisa. O que pode existir em comum entre um prelúdio de Chopin, um conjunto de ciprestes, um trecho de Proust sobre o Jardim das Tulherias, as ruínas de uma abadia irlandesa iluminada por um verde rutilante num dia de chuva miudinha e um Porsche 911? Nada, excepto serem belos. Acontece também ser aqui o belo uma forma tão vazia como a grandeza. Dizer de cada um deles que é belo é o mesmo que dizer nada. Não sou esquizofrénico mas agora oiço uma voz na minha cabeça a provocar-me: raios, ao invés do elefante ou oceano, os ciprestes estão chapados à nossa frente de modo a captarmos a sua beleza, certo? Não, errado, responde a minha voz à outra que teve a lata de se intrometer nos meus elevados pensamentos. O que vemos num cipreste? Cores, formas e texturas. E a beleza, onde está? No mesmo sítio onde está o "bom" de um pastel de nata: na nossa cabeça. O que temos na boca é um pedaço de massa folhada, farinha, nata, ovos, açúcar, limão e canela, não um pedaço de bom. Dizer que um pastel de nata é bom não tem então qualquer significado? Tem: significa que gosto do pastel de nata, que a ligação entre o pedaço de pastel de nata e a minha boca me dá uma sensação de prazer. Mas acaba por ser o mesmo que dizer "Uau! e como facilmente se percebe o pastel de nata não tem lá qualquer "Uau!" à nossa espera. Passa-se o mesmo com o belo. Acabamos de ouvir o prelúdio e dizemos "Uau!", vemos passar o Porsche e dizemos "Uau!" O que estamos nós a designar em ambos quando dizemos "Uau!"? Nada, apenas a emoção que sentimos diante do objecto, jamais o objecto em si.

Regresso então à pergunta de Caeiro. Negando o pensamento, os conceitos, a linguagem, concentrando nos sentidos toda a nossa relação com a realidade, o heterónimo de Pessoa parece fazer a apologia da superficialidade, da ligação a uma primeira camada de realidade que apenas exige olhos e ouvidos abertos. Bem, pode ser sim como pode ser não, depende do que se entende por superficialidade. O que ele quer dizer é que essa primeira camada de pura visibilidade ao ser atropelada pelo pensamento, pela reflexão, pela palavra, é também a  mais difícil de ver, escondida que está pelo pensamento e linguagem. E do mesmo modo que para chegarmos a um tesouro temos que escavar para retirar toda a terra que o esconde, também para podermos ver as coisas na sua mais suprema e nua realidade, teremos que retirar todo o pensamento de cima. Por isso, só um despojamento pré-reflexivo ou mesmo pré-nominal poderá evitar uma clausura da consciência no seu fáustico mundo interior, precisamente o que acontece ao pensarmos ou comunicarmos como é bela uma coisa pois é sobre nós que estamos a falar. Estar diante de uma coisa e pensar ou dizer que é bela reduz a linguagem a uma dimensão instrumental onde as palavras são ferramentas como também o são um saca-rolhas ou um alicate mas que neste caso apenas criam a ilusão de servirem para alguma coisa pois o que apenas fazem é apagar a luz perfeita e exacta para ensombrecer o mundo ali mesmo diante dos nossos olhos.

15 outubro, 2021

Como toda a gente, sou sensível a uma voz bonita. Sendo ainda do tempo dos Radio Days, a cacofonia vocal dos Parodiantes de Lisboa à hora de almoço foi alguns anos depois compensada com as vozes nocturnas do António Sérgio ou da Maria José Mauperrin que ouvia religiosamente enquanto entravam nos meus ouvidos como um triângulo de Toblerone a derreter-se na boca. E haverá alguém incapaz de reconhecer que a voz do John Gielgud no Livros de Prospero ou a do Jeremy Irons a ler Worsdworth ou Eliot conseguem o mesmo efeito de um Valium mas sem efeitos secundários, mesmo sem se entender uma palavra de Inglês? Ou que consiga apagar da sua memória as vibrações vocais de You know how to whistle, don´t you, Steve? Em sentido contrário, há também vozes que me deixam com vontade de transformar o meu cérebro numa câmara anecoica. Seria capaz de amar uma mulher feia pois, como diz o povo, que lá tem a sua sapiência, quem feio ama bonito lhe parece. O mesmo já não seria possível, de todo, com certas vozes que eu conheço, seria como alguém cheirar mal ou, pior ainda, acordar diariamente ao lado de uma feminista do Bloco de Esquerda. 

Tenho um aluno que não obstante a sua juvenil idade já tem uma belíssima voz de rádio ou para trailers de filmes: quente, grave e ao mesmo tempo aveludada. Há uns anos, uma aluna com uma voz rouca, fez-me passar a vida a dizer-lhe sempre que intervinha na aula de que é que estava à espera para começar a cantar jazz ou blues e ela, coitada, lá se ia rindo sem saber o que dizer. Há dias, depois de uma intervenção sua, e com aquele entusiasmo retórico de quem mostra não haver uma ponta de equívoco, lá disse ao meu aluno que tem uma belíssima voz e que um destes dias devia gravá-la para depois a vender em MP3 a pessoas que sofressem de insónias. Mas a amígdala bem instalada no meio do meu sistema límbico logo acendeu o alarme, avisando-me para ter cuidado e pensar bem no que me estava a meter. Não sou padre, nunca andei num seminário, nem tenho aquela vozinha aflautada que gosta de se enfiar nuns saiotes negros com umas faixas cor de rosa e cobertos com umas rendinhas brancas que me fazem lembrar as antigas e foleiras mesas de camilha. Mas dizer certas coisas, e neste caso a um inocente rapazinho, no ano da graça de 2021, em que há gente sempre acordada e que começa a sofrer de processos mentais alucinatórios e persecutórios como acontecia nas prisões da PIDE, Gestapo, KGB ou Stasi mas agora afectando os próprios agentes, nessas modernas salas de interrogatórios que são as sinistras redes sociais, é tão perigoso como em 2000, o ano em que Roth publicou A Mancha Humana. Também poderia dizer que publicou o livro em 2000 já presumindo o que poderia vir a ser perigoso em 2021. O que me deixa bastante triste porque não era neste tipo de mundo que imaginava vir um dia a morrer e os meus filhos a viver. 

14 outubro, 2021

Fi-lo em tempos mas há muitos anos que me faz impressão a ideia de levar um livro para a praia. Ou de estar a ler numa esplanada. Já passei tardes em Castelo de Bode sem alguma vez me arrepender de não ter levado um livro, pois a única coisa que me interessa é apanhar sol, nadar ou olhar. Quando viajo de comboio raramente leio se ainda for dia, só quando a noite transforma a janela num espelho e mesmo assim o mais certo é acabar a olhar para as pessoas como se acabado de chegar ao mundo e me dedicasse a descobrir a humanidade. Claro, cada um faz o que acha melhor mas mete-me impressão ver estrangeiros dentro de um comboio entretidos com um livro, um telemóvel ou um computador, num país onde apenas estão uns dias, com a paisagem, natural ou urbana, a passar-lhes ao lado através da janela pela primeira e última vez das suas vidas. Eu que já conheço certas paisagens de cor, continuo a olhar para elas como se ainda houvesse alguma coisa para descobrir. E há. Porque não é no mundo que as coisas se descobrem, nós é que nos descobrimos a descobrir o que há no mundo e em nós nunca há um fim para lá do qual já não há mais nada para descobrir. E mesmo enclausurado numa cápsula algures no vazio celeste, indo à janela, muitas vezes abandono a leitura para me perder na atmosfera gasosa do exterior ou a entreter-me com a paisagem miniatural a não sei quantos mil pés de distância.

No diário da sua viagem a Itália, já em Nápoles, no dia 9 de março de 1787, diz Goethe que «o lado agradável das viagens é que a novidade e a surpresa dão o aspecto de uma aventura até às coisas mais corriqueiras». E não é preciso ir para o Sri Lanka, para uma estepe siberiana ou para uma megametrópole oriental para que tal aconteça. Basta seguir a sugestão de Garrett, parando de viajar à roda do seu quarto para ir até à laranjeira que cresce na horta e ao mato que é de murta ou pelo menos até ao quintal. Basta pois sair do quarto para que o mundo nos surpreenda com os seus infinitos detalhes sempre renovados. Eu, que não sou nada mundano, não troco o mundo por um livro. E quanto mais belo é o pedaço de mundo à minha frente mais supérflua ou mesmo prejudicial se torna a sua presença. Não tenho nada contra a leitura. Pelo contrário, tenho bastante apreço por ela, sendo mesmo um dos meus grandes prazeres. Mas por muito importante ou até agradável que seja, passar uma tarde num Leroy Merlin a ver artigos de jardinagem não é a mesma coisa que passar a tarde no jardim. Sim, como diria Cândido, é preciso cuidar do jardim e acabo de reparar que cito três livros num curtíssimo espaço de texto. Mas para lá viver mesmo em vez de imaginar que lá se vive.

13 outubro, 2021

 Monday [14 September 1936]

Skelgill Farm, Newlands,
Keswick, Cumberland
Dear Elizabeth,

Being in a more equable & normal frame of mind, I can now describe our recent experiences here. Life is very pastoral. The country is beautiful but uneven & the long walks which plainly are intended to be taken on it, with no seats obtaining, terrify me. I cannot think, or speak, or therefore be happy while moving uphill. Not so Stephen. He confesses to a natural piety towards the land & is in that respect more religious than I, I suppose.

Diverte-me este início de uma carta de Isaiah Berlin, imaginando-o a fazer as figuras do  cientista do A Midsummer Night's Sex Comedy, ou do nosso Jacinto de A Cidade e as Serras, atrapalhado com os mosquitos, escorregando na erva, extenuado e ofegante através de árduos caminhos campestres. Há muita coisa em que o que eu penso bate certo com o que ele também pensa e que até me ajudou a pensar. Mas este pedaço de carta também me leva a pensar no que me separa dele. Berlin queixa-se à sua amiga de não conseguir pensar no campo. Eu, tal como um poeta também conhecido por guardar rebanhos, quando vou para o campo é precisamente para não pensar, ficando grato por consegui-lo.

11 outubro, 2021


A percepção tem as suas leis que, sem darmos por isso, interferem no modo como diante de uma imagem separamos a figura e o fundo, a visão central e a periférica, o motivo e o seu contexto. E muito antes da ciência as estudar já os artistas do Renascimento as exploravam para provocarem os efeitos visuais que desejavam. Olha-se para esta fotografia e o que logo se vê são os homens que a ocupam quase toda, sobrando apenas uma estreita faixa sobre as cabeças. Isto, porque os homens são a figura enquanto a faixa é apenas uma parte do fundo do qual sobressaem essas figuras. Depois sim, por mera curiosidade, talvez alguns prestem alguma atenção à faixa para tentar identificar o lugar onde se encontram. Comigo, porém, aconteceu uma coisa que depois me deixou perplexo: olho e a primeira coisa que vejo é essa faixa, só depois olho para os quatro homens que o meu cérebro resolveu atirar para segundo plano. Não se trata de uma disfunção, neste caso, neurológica. Terei várias mas desta estou safo. O que se passou é que, ao contrário daqueles homens para os quais lhes sou indiferente, aquela faixa conhece-me desde que nasci e logo que me viu chamou-me em voz alta como uma mãe chama um filho que anda a brincar na rua para ir almoçar. Pronto, não foi isso mas literariamente fica bem. Agora sim, o que se passou é que, ao contrário daqueles homens que me são indiferentes e que vi apenas algumas vezes, eu conheço aquela faixa desde que nasci e passei a minha vida a vê-la. E se já vivi em várias casas, todas diferentes umas das outras, esta faixa, embora diferente, continua a ser a mesma.

Paisagem e os quatro homens têm uma coisa em comum: vítimas do deus Tempo que consome tudo o que existe. Eu sei que atrás destes homens está um restaurante, uma barbearia, um consultório médico, uma farmácia, um cabeleireiro cuja rua vai dar a dois cafés. Já nada disso existe, desapareceu e o que agora lá existe, seja por causas naturais ou humanas, também irá um dia desaparecer do mesmo modo que desapareceu o que existia antes do que existe no tempo desta fotografia. O mesmo se passa com estes homens: estão ali, todos contentes, mas três deles já cá não estão e o que sobra também já não é bem o mesmo que ali está e um dia irá mesmo deixar de estar onde quer que seja. Daí esta fotografia ter qualquer coisa de barroca vanitas, seja pelos homens, seja também por aquele pedaço de cidade que ali está com a sua vida de outrora e que agora também já não existe. É por isso uma fotografia toda ela marcada pela presença do divino Tempo que, sôfrego e implacável, tudo devora, podendo, por isso, ser uma meditação sobre a morte que tudo submerge no seu infinito oceano.


A percepção tem as suas leis que, sem darmos por isso, interferem no modo como diante de uma imagem separamos a figura e o fundo, a visão central e a periférica, o motivo e o seu contexto. E muito antes da ciência as estudar já os artistas do Renascimento as exploravam para provocarem os efeitos visuais que desejavam. Olha-se para esta fotografia e o que logo se vê são os homens que a ocupam quase toda, sobrando apenas uma estreita faixa sobre as cabeças. Isto, porque os homens são a figura enquanto a faixa é apenas uma parte do fundo do qual sobressaem essas figuras. Depois sim, por mera curiosidade, talvez alguns prestem alguma atenção à faixa para tentar identificar o lugar onde se encontram. Comigo, porém, aconteceu uma coisa que depois me deixou perplexo: olho e a primeira coisa que vejo é essa faixa, só depois olho para os quatro homens que o meu cérebro resolveu atirar para segundo plano. Não se trata de uma disfunção, neste caso, neurológica. Terei várias mas desta estou safo. O que se passou é que, ao contrário daqueles homens para os quais lhes sou indiferente, aquela faixa conhece-me desde que nasci e logo que me viu chamou-me em voz alta como uma mãe chama um filho que anda a brincar na rua para ir almoçar. Pronto, não foi isso mas literariamente fica bem. Agora sim, o que se passou é que, ao contrário daqueles homens que me são indiferentes e que vi apenas algumas vezes, eu conheço aquela faixa desde que nasci e passei a minha vida a vê-la. E se já vivi em várias casas, todas diferentes umas das outras, esta faixa, embora diferente, continua a ser a mesma.

Paisagem e os quatro homens têm uma coisa em comum: filhos do deus Tempo que traz à luz do dia tudo o que existe. Eu sei que atrás destes homens está um restaurante, uma barbearia, um consultório médico, uma farmácia, um cabeleireiro cuja rua vai dar a dois cafés. Já nada disso existe, desapareceu e o que agora lá existe, seja por causas naturais ou humanas, também irá um dia desaparecer do mesmo modo que desapareceu o que existia antes do que existe no tempo desta fotografia. O mesmo se passa com estes homens: estão ali, todos contentes, mas três deles já cá não estão e o que sobra também já não é bem o mesmo que ali está e um dia irá mesmo deixar de estar onde quer que seja. Daí esta fotografia ter qualquer coisa de louvor à vida, seja pelos homens, seja por aquele pedaço de cidade, que poderiam nunca ter existido. Mas que existiram e através dos mais múltiplos, particulares e heterogéneos modos de uma única vida se exprimir. Existe um termo japonês, mono-no-aware, que traduz o sentimento perante a beleza das coisas efémeras. E que, provavelmente, quanto mais efémeras, mais belas. É por isso uma fotografia toda ela marcada pela presença do divino Tempo que, sôfrego e benevolente, tudo faz nascer, podendo, por isso, ser uma meditação sobre a vida da qual tudo emerge no seu infinito oceano.

10 outubro, 2021

Não sendo grande adepto dos dias disto e daquilo, o facto de hoje ser Dia Mundial da Saúde Mental fez saber que, por cá, chega-se a estar seis meses à espera de consulta, o que não augura nada de bom para quem tem a sua saúde em risco. Uma tristeza, um terrível drama para pessoas com graves, médios e pequenos problemas. Doença é doença e se também uma simples gripe não é um cancro, não é por isso que se fica sem ajuda médica num vulgar centro de saúde. E a doença mental, lidando com inimigos que não se vêem em análises ao sangue ou ecografias, faz doer, e muito. Não percebendo nada de Medicina, salvo o que toda a gente sabe sem precisar de ser médico, sei que a noção de doença pode nalguns casos variar por razões históricas, culturais ou mesmo ideológicas. Claro que isso acontecerá mais no campo da saúde mental do que da física. Mas tal ambiguidade pode ainda acontecer no modo como cada pessoa avalia o seu estado. Do mesmo modo que, fisicamente, diante dos mesmos sintomas, uma pessoa pode considerar-se doente e outra não, mentalmente poderá ser ainda mais dúbio. E se a doença mental é terrível, não menos terrível, podendo afectar todas as pessoas mas sobretudo jovens, é ver doença ou perturbação mental onde apenas existe normalidade (como também ver normalidade onde existe doença). Com a pressão do pensamento positivo, das boas energias, de uma alegria non stop e doses maciças de felicidade vendidas nas redes sociais, muitos, ao olharem para si, não encontrando as emoções, hábitos, gostos, interesses e comportamentos estereotipados que vêem nos palcos sociais, poderão descobrir patologias que não existem e por via de um imaginário sentimento de culpa, verem-se condenados a uma infelicidade que não teria de acontecer. Claro que sempre foi assim, sempre nos avaliámos por observação e comparação com os outros, havendo sempre quem não se sentisse normal só por ver no espelho coisas que não via nos outros. Mas com dinâmicas sociais cada vez mais virtuais e alimentadas por modelos também cada vez mais virtuais num permanente espectáculo em que todos querem ser actores principais, hoje o perigo é avassalador. Não será fácil, mesmo nada fácil, ser jovem hoje.

09 outubro, 2021

Como sempre, começo a leitura do Expresso por algumas crónicas. Hoje, a primeira foi do Pedro Mexia e pouco depois fui até à do Luís Pedro Nunes, que escreve muito melhor do que fala. O primeiro vai até ao filme Ma Nuit Chez Maud. O segundo aborda a sua primeira ida a Veneza, com menos turistas do que em tempos ainda recentes. Acontece que por mero acaso revi o filme de Rohmer há dois dias e também ainda muito recentemente uma familiar que começou a trabalhar muito perto de Veneza, me perguntava quando é que aparecia por lá. Eu nunca fui a Veneza e expliquei que se não fui até agora foi precisamente com medo dos turistas, tendo já pensado que a ir será sempre numa época mesmo muito baixa quando as pessoas andam azafamadas com outras coisas e a gastar dinheiro que não num Instagram veneziano. Até porque o meu imaginário veneziano não começou com o percurso do senhor Aschenbach numa Veneza ardente mas com um filme que vi em miúdo chamado Aquele Inverno em Veneza, tendo ficado fascinado com a imagem de uma cidade fria, nocturna, vazia e misteriosa. Tirando essa vaga memória, o filme estava completamente apagado na minha cabeça e lembrando-me dele há tempos fui ver a sinopse e o trailer, ficando então com a ideia de o filme ser, apesar dos seus dois grandes actores, uma valentíssima estopada de fugir a sete pés.

Duas grandes coincidências, então: o filme e a primeira ida a Veneza, sem turistas. Mas não venho falar de coincidências. Como toda a gente, também as coleciono e tenho algumas absolutamente insólitas e demolidoras que tornam estas duas uma espécie de pãezinhos sem sal. O que agora me interessa é a ideia de começar a ler um jornal e a primeira coisa que leio é sobre um filme de 1969 muito marcado pela presença de um filósofo e matemático do século XVII ou sobre uma velha Veneza marcada pela pintura de Tintoretto e Ticiano, a música de Vivaldi ou de museus onde os turistas não entram porque não se pode tirar fotografias. E sim, claro, Thomas Mann e Visconti. O André Gide dizia que a coisa mais velha do mundo era o jornal do dia anterior. Toda a gente já sentiu o desconforto de estar perante um jornal a cujas notícias bastaram um ou dois dias para ficarem mortas e enterradas. Mas cá está. Acabar de receber um jornal fresquíssimo para ler ao pequeno-almoço com o dia ainda a querer clarear, para começar desta maneira, significa que, ao contrário das notícias, as coisas mais novas do mundo continuarão a ser sempre aquelas mais velhas que nunca morrem.

08 outubro, 2021


Pela maneira como estão aqui retratados, estes homens ficariam lindamente num museu de cera. James Tissot, pintor também com o seu quê de gosto ceráceo, consegue o quase impossível num tempo artisticamente tão criativo e exaltante: ser aborrecido, desinteressante e com um sentido estético que o tempo se encarregou de liquidar, fazendo com que muitos dos seus quadros pudessem fazer parte de uma galeria de horrores. Ainda assim, por meras razões históricas, consegue aqui um retrato de grupo que merece alguma atenção embora neste caso deseje apenas destacar aquele que tomei a liberdade de considerar o cavalheiro mais interessante do grupo, sentado no sofá à direita, em pose lânguida e contemplativa como se tivesse acabado de tomar ópio, absinto ou um poema de As Flores do Mal: o príncipe Edmond de Polignac. Sobre ele dizia Proust, que o conhecia bem, que era como «uma masmorra em desuso transformada em biblioteca». Fosse hoje, depois de olhar à sua volta e ver no que se transformaram parte dos Edmond de Polignac deste mundo, talvez se sentisse mais inclinado a ver uma «biblioteca em desuso transformada em masmorra».

07 outubro, 2021

COMPONENTE NÃO LECTIVA DO SERVIÇO DOCENTE

Consta que o criado do conde de Saint-Simon estava instruído para que todas as manhãs o acordasse solenemente com a seguinte frase: «Levez-vous, monsieur Le Comte, vous avez de grandes choses à faire.» Eu não teria pretensões a ser conde e muito menos duque. Já me bastaria ser visconde, barão ou mesmo, que se lixe, quero lá saber, baronete, só para poder ter acesso, como pequeno mas não pouco estimável luxo, a uma versão portuguesa do criado do senhor conde.


06 outubro, 2021

Tendo o azar de nascer com duas mãos esquerdas e a criatividade de um contabilista que acorda numa segunda feira de manhã com ressaca, jamais poderia ser artista. Com muita pena minha pois deve ser muito bom ser artista. Um dia tive uma ideia luminosa: se a fotografia é uma arte que apenas exige um olho aberto e um dedo para carregar num botão, para além, claro, de coisas para serem fotografadas, mandaria as minhas inatas limitações darem uma volta, abrindo assim o caminho para vir a ser o Cartier Bresson cá da terra. Algumas centenas de fotografias depois, a triste realidade: mais valia ter ficado quieto, tendo o putativo Cartier Bresson que esperar por uma futura reencarnação em que eu seja presenteado com uma genética mais artisticamente amigável, já nem digo para pintar mas só para ter melhor olho clínico e um dedo mais eficaz no momento certo.

Aquele botão da máquina fotográfica é o mesmo botão que muitos acreditam ser suficiente para fazer arte em geral. Basta ter duas mãos que "fazem coisas" e a obra nasce. Deixou de ser preciso saber desenhar, pintar, conhecer bem a história da arte e fazer o mesmo que muitos pintores mais tarde consagrados, os quais, apesar de ócios e boémias, passavam tardes no Louvre a humildemente ver e reproduzir obras de outros. Os que ainda começam a gatinhar, já nem precisam de amadurecer e saber esperar até que um dia venha à luz do dia um singelo trabalhinho que mereça ser mostrado a alguém que não lá de casa. Basta vestir roupa de artista, apresentar um corte de cabelo de artista, espetar na cara uma expressão de artista e derramar uma linguagem tão inteligente e sofisticada que permita dizer tudo para não dizer nada. 

E embora para se ser artista baste acordar um dia de manhã a sentir-se artista, também acaba por ser preciso fazer obras de arte, o que representa uma certa chatice para quem o génio artístico começa e acaba em frente ao espelho. Mas nada que não se resolva. Arranjam-se uns bocados de plástico, umas tábuas de madeira com pregos ferrugentos, despojos de electromésticos, pneus velhos, embalagens cujo destino seria o ecoponto e pronto. Alguns mais corajosos chegam mesmo a comprar telas, e óleos para acabarem por fazer o mesmo que um orangotango lobotomizado com um pincel na mão. Em suma, como se não bastasse ao mundo ter mais um artista, mais grave ainda, não foi também poupado a mais uma obra de arte de material que embora reciclável acaba desgraçadamente numa exposição.

05 outubro, 2021

Podemos discutir princípios e eu gosto de discutir princípios. Acontece que por vezes a história é um rio cuja corrente é demasiado forte para os frágeis braços dos princípios. Discuti-los, enquanto a história nos leva pela corrente, é ficarmos na ridícula posição dos dois jogadores de xadrez perdidos no seu jogo enquanto Constantinopla cai nas mãos dos turcos. Acima da verdade estão os deuses e o rio corre sem sabermos muito bem porquê e para quê, rumo a um oceano que o mais certo é nunca chegar sequer a aparecer.

Quis a história que alguns países existissem e outros deixassem de existir. Que alguns países permanecessem monárquicos, outros republicanos. Como quis a história que algumas cidades mudassem de país. A história quer, e o que a história quer tem muita força. Por princípio, sou republicano. Se agora chegasse de barco com mais 500 pessoas a uma ilha deserta para fundar um novo país, eu iria defender um sistema republicano. Mas isso faz com que eu agora vá ali a Espanha, ou a Inglaterra, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia ou Noruega, e tenha a distinta lata de andar a vender ideias republicanas? Eles lá na vida deles sossegados e eu a falar de princípios seria fazer a mesma figura ridícula de um bolchevique a vender o seu peixe numa comunidade mórmon numa cidadezinha do Utah.

Quis a história que Portugal viesse a ser uma república. Ideias republicanas ao longo da história foram quase sempre bastante generosas e sinal de modernidade. Em Portugal foi uma catástrofe. Não foi tudo mau (há algum sítio onde o seja? Até o Chile de Pinochet teve coisas boas) mas ninguém me tira da cabeça que o Estado Novo foi uma consequência natural da grande bagunçada que foi a nossa triste I República. Especular pouco vale, diria mesmo que nada vale, mas tivesse D. Manuel II continuado rei no dia 6 de Outubro de manhã e muito provavelmente o dr. Salazar não teria sido quem foi, ou melhor, teria sido quem foi mas não teria sido o mesmo para nós.

Daí, Lídia, que enlaçar ou desenlaçar as mãos não passe de um inocente jogo de xadrez onde tanto faz ganhar como perder e os turcos que se danem. O melhor mesmo é ir vivendo sem amores, nem ódios, nem paixões que levantem vozes estridentes, e ficar na margem, vendo a corrente do rio, sem precisarmos de procurar a Ave de Minerva, cujas asas são tão pesadas que nunca chegarão a levantar voo. Sermões? São para os peixes e, mesmo assim, arrastados pela corrente, limitam-se a apanhar uns sons dispersos e inconsequentes, vindos de púlpitos que rapidamente se esvaziam. 

01 outubro, 2021

Houve um tempo em que milhares de jovens saíam das suas aldeias, vilas e cidades para, com malas escuras e pesadas, rumarem aos quartéis. Hoje, milhares de jovens saem das suas aldeias, vilas e cidades para, com malas coloridas e rodinhas, rumarem às universidades. O incorrigível optimista que há em mim consegue ver aqui um enorme progresso civilizacional. O cínico de serviço residente no outro hemisfério da minha alma  dirá que sim, as rodinhas nas malas representam um grande progresso civilizacional. Entretanto, o meu verdadeiro eu, o de carne e osso, apanhado entre aqueles dois mundos, tem uma visão mais eclética: ainda sendo dos que souberam o que custa carregar uma mala pesada sem rodinhas, também sei que entrar e sair de uma universidade não é o mesmo que entrar e sair de um quartel, sabendo nós para que serve uma universidade e para que serve um quartel e que um mundo povoado de universidades não pode ser o mesmo que outro povoado de quartéis. Mas também sei que, ao fim e ao cabo, os seus destinos possam acabar por vir a ser iguais. Por isso, e lembrando o optimismo cosmopolita de Zweig na Viena de 1914 mergulhada nas confortáveis águas tépidas da cultura, filosofia e ciência, parece-me mais prudente não pensar em progressos, retrocessos ou estagnações. Apenas que a natureza humana é sempre a mesma e que, tal como a natureza propriamente dita, tem a sua meteorologia que flui sob a batuta das quatro estações. E que também muitas vezes surpreende as previsões dos meteorologistas. 

30 setembro, 2021

«Devemos libertar-nos da prisão dos negócios quotidianos e da política». Sentenças Vaticanas

Obrigado, Epicuro, tão velhinho que tu és mas ainda com a lucidez suficiente para me fazeres perceber que em Portugal, país que nem sabias que viria a existir, é um tremendo problema haver tanta gente que não consegue ser, neste caso literalmente, presa, para se poder libertar da tão tentadora prisão dos negócios quotidianos. Nem quero pensar na quantidade de pessoas, diria mesmo multidões, que num Portugal epicurista iria bater à porta da prisão, implorando protecção de si próprios.

29 setembro, 2021

Perante uma ópera de Wagner o cidadão comum sente-se um anão sem gigantes para cujos ombros possa trepar. É tudo grandioso, esmagador, sobre-humano. Assistimos mas não é nada connosco. Pode, todavia, ser salvo pela ópera italiana. Deixa de se sentir o sobrenatural peso de Wotan ou Brünhild  para se projectar em Mimi, Rodolfo, Musetta, Pinkerton, Falstaff, Rosina ou Almaviva. O amor, o ódio, o ciúme, a traição, a ambição, a cupidez, a estupidez não são aqui mais do que uma esteticização musical, literária e visual das nossas vidas comuns. Uma vitória moral para quem ambiciona o anel dos Nibelungos mas acaba com o anel de Giges, só que no dedo de Midas e para transformar tudo em latão. Contrariamente ao que possa parecer, não se trata de um lamento. É que mais vale uma vida de latão na mão do que não sei quantas entidades mitológicas voando sobre as nossas cabeças.  

27 setembro, 2021

COMO NUMA PINTURA DE CHAGALL


Será possível representar em cinema os amantes alados de Chagall? É. Fá-lo Louis Malle com o filme Les Amants. Claro que os amantes do filme não andam por aí a voar, o que seria ridículo, mas voar no amor, sendo este do domínio da res cogitans e não da res extensa, não é para ser entendido literalmente mas interiormente. Já vi alguns filmes na vida mas não me lembro de ver um coup de foudre tão religioso como o de Jeanne e Bernard. Assim como no Evangelho de Lucas quando o anjo Gabriel entra em casa de Maria anunciando-lhe a sua gravidez e esta aceita como quem vai mexer a sopa que está ao lume. Ou como no Evangelho de Mateus quando José, coitado, anda a pensar no que aconteceu a Maria e depois sonha com o anjo que lhe explica o milagre e quando acorda recebe a mulher como se acabasse de vir da horta. Ou quando, ainda em Mateus, Jesus chama Simão e Pedro que lançavam as redes ao mar e estes vão como se estivessem toda a vida à espera desse momento. Todas estas adesões (e aqui não sei mesmo se devo dizer adesão ou aderência) são do domínio do sobrenatural porque a voz que os chama também o é. Vão porque têm de ir ainda que sem saber porquê, sem razão ou explicação. É também a intromissão do sagrado, do sobrenatural, na mais profana realidade quotidiana, que vemos com os amantes alados de Chagall. O pintor capta o momento em que já voam ou começam a levitar, mas momentos antes estariam a viver as suas vidas normais nos espaços profanos da pequena aldeia ou da sala para de repente a leveza se sobrepor ao peso e à gravidade do mundo que os prende ao solo. Pessoas normais, num quotidiano normal mas que se vêem a voar com a mesma naturalidade com que no Evangelho se aceita o milagre.

No filme também ocorre um milagre no modo como Jeanne e Bernard se ligam, numa absoluta inversão (ou conversão) de uma ordem instituída. Jeanne é casada com Henri, homem muito bem instalado na vida mas que lhe dá um casamento aborrecido numa bela casa na província (poderia ser o "homem casado" de Kierkegaard, o oposto de D. Juan) mas também é amante de Raoul, homem rico, bonito e elegante, que lhe dá a joie de vivre que lhe falta no casamento. Portanto, é casada, tendo uma vida materialmente confortável e, para dar cor e ritmo à sua vida, o amante perfeito. Depois, Jeanne e Bernard, que se conheceram numa circunstância acidental que não deveria ter qualquer consequência, nada têm que ver um com o outro. Mas, depois de um jantar em que à volta da mesa estão também o marido e o amante, Jeanne e Bernard aproximam-se de um modo que só o sobrenatural pode explicar. Sem que nada o fizesse prever num mundo racional de causas e efeitos, Jeanne e Bernard caem nos braços um do outro, para um voo que dura até ao final do filme. Poder-se-á dizer que cada história de amor no cinema terá o seu voo, sendo este apenas mais um. Sim, voa-se muito nas histórias de amor mas este voo é diferente pelo súbito credo quia absurdum que os lança para o ar.  E é precisamente isto que acontece no filme com os novos amantes que, presos ao chão, e sem que nada o possa explicar, dele se libertam com a naturalidade do um pescador no Evangelho que muda o seu caminho sem saber porquê. 

O realizador também não quer explicar (se o fizesse estragaria o filme), eu também não, mas não deixa de transparecer uma ruptura entre a normalidade social do marido/amante e o insólito de quem entra na sua vida como um anjo pela janela. Marido e amante podem ser o oposto um do outro mas enquanto dois lados da mesma moeda. Se o casamento enquanto instituição tem as suas convenções também a figura do/a amante não é destituído de códigos e de uma ordem previsível, neste caso, oposta. Jeanne tem com o seu amante, homem com tudo para ser o amante perfeito, a relação que se espera entre uma mulher e o seu amante perfeito. Creio que foi isto que Jeanne terá compreendido e recusado. Não quer ser Bovary mas também recusa ser Madame Pompadour, a maitresse en titre. Fartou-se da perfeição do amante como se fartou da imperfeição do marido. Voara com o amante, sim, mas em círculo num aviãozinho na feira para aonde foram divertir-se até se fartarem e irem para casa. E é também do aviãozinho às voltinhas, apesar do momento festivo e amorosamente empolgante, que ela se vai afastar sem que para isso tivesse de deliberar na hora da conversão. Quando Saul cai do cavalo para ser Paulo também não deliberou. Seguiu apenas o seu caminho para Damasco mas agora voando como os amantes de Chagall.

Bernard entra na sua vida apenas como um rapaz simples, simpático e que a fez rir. Não sendo nada é tudo o que Jeanne deseja. Depois daquele jantar, Jeanne, em vez de ir dormir para no dia seguinte ir pescar com os outros, segue antes para Damasco levada pela leveza de Bernard, desafiando assim o peso das suas relações profanas. Escapando ao seu destino, Jeanne, como S. Paulo, cai para se libertar do peso do mundo, para ascender ao reino do amor. Uma ascendente arte da fuga face às estratégias e deliberações do mundo real onde vive, durante meia hora de poesia e encantamento como poucas vezes se viu em cinema.

26 setembro, 2021

Seja qual for eleição, nunca voto em quem julgo ser o melhor mas o menos pior. Não se trata de um atestado de incompetência aos políticos, apenas ter consciência de a realidade ser muito difícil de gerir, forçando assim quem governa a errar. Mas, já agora, o menos possível. Ser político não é como ser um engenheiro que faz uma ponte ou um cirurgião, que sabem bem o que podem ou não fazer. Um político faz muitas vezes o que não devia e outras tantas não faz o que devia. Daí o Mencken, sempre engraçado, dizer que todos os partidos dedicam a sua energia a mostrar que os outros partidos não têm competência para governar e... todos eles têm razão. Talvez por isso eu já tenha votado em todos os partidos menos nestes agora que ainda usam fraldas. É também por isso que gosto de eleições autárquicas pois havendo três boletins, tenho a feliz possibilidade de votar em três partidos, distribuindo o mal pelas aldeias.

Para afagar este meu pluralismo radical, o que nesta minha ida à urna começou por parecer um desagradável incidente, foi transformado pelo meu optimismo num feliz sinal do destino. Ao entrar no edifício para votar, ponho a máscara e logo os meus óculos ficam horrivelmente embaciados, deixando-me mergulhado num cerrado nevoeiro em pleno filme do Antonioni. Tiro os óculos e é assim que me dirijo à cabine pois de outro modo não saberia como lá chegar. Ainda sem óculos mas já de esferográfica na mão, olho para os boletins para perceber que assim também não via nada, voltando então a pôr os óculos apenas para continuar a não ver, ficando assim tristemente entre Cila e Caríbdis. Foi pois com estas deploráveis condições técnicas que exerci o meu dever cívico, vindo de lá sem ter a certeza se votei em quem queria. Mas pronto, aqui é que está o busílis da questão. Se errei foi para votar em alguém que simplesmente também vai errar e a verdade é que com mais erro ou menos erro, a realidade lá vai seguindo o seu rumo e se nenhum dos candidatos é nosso salvador também não há de haver no meio daquela gente assim um tão mau que nos condene ao Inferno.

25 setembro, 2021

Para explicar uma coisa na aula, pergunto aos alunos com quem iria o Benfica jogar nesta jornada. Ninguém sabia. Uma surpresa, com tantos rapazes na turma. Céptico, perguntei então se por acaso alguém sabia com quem jogaria o Sporting. Seguiu-se apenas o tempo necessário para duas raparigas pensarem e dizerem que era contra o Marítimo. Ora, esta situação merece alguma sociologia. Se esta pergunta tivesse sido feita, vá, nos anos 70 ou 80 do século passado, não faltariam rapazes a atropelarem-se para ver quem dizia primeiro. Um ou outro mais dado à parvoíce seria até capaz de começar a cantar "Benfica, Benfica, Benfica", até eu dizer para se calar. E o mais certo seria haver mesmo alguns sábios que saberiam todos os jogos, enquanto raparigas talvez nenhuma. Eu sei que isto é apenas um pequeno conjunto de garotos e que não é com isto que se faz Sociologia. Eu apenas disse que merece alguma sociologia. E é sempre bom lembrá-lo pois o que não falta são pessoas a quererem fazer Sociologia com o que têm em casa, mais a vizinha do lado ou o marido da prima.

Não sendo sociólogo, não me cabe responder o que foi acontecendo na sociedade portuguesa para que num dia de setembro de 2021 fossem duas raparigas a responder a uma pergunta sobre futebol. Já agora, tenho um filho que não sabe o nome de um único jogador do Benfica ou do Sporting ou quem é o campeão nacional. Sim, não se faz Sociologia com um filho mas é só para juntar à festa. A única coisa que me interessa nesta situação é o facto de não se ter aqui chegado por pressão legislativa, por campanhas de sensibilização pela igualdade, por uma disciplina de Cidadania e Desenvolvimento ou pelo crescente pesadelo de uma qualquer ideologia woke, promoção histérica e ostensiva da Virtude e Prevenção do Vício embora ainda sem ministério, uma cultura do cancelamento. Apesar da Sociologia, as vidas das pessoas não decorrem, felizmente, no interior de uma máquina cujo funcionamento dependa de botões que se ligam ou desligam consoante as nossas crenças e desejos. Os processos históricos, os comportamentos das pessoas, as continuidades e rupturas sociais são, também felizmente, muito mais complexos e subtis, complexidade e subtileza que escasseiam em tantas cabeças que do lado de fora exibem um ar urbano, cool, alternativo mas dentro das quais o que se deve ouvir ainda é a voz de Savonarola a ecoar fanaticamente pelas praças de Florença. 

24 setembro, 2021

Haverá alguém que se sinta tentado a votar num partido por andar uma caravana a bombardear a população com buzinadelas, mais uma voz expelida por um altifalante adquirido no Inferno e ainda com o Coro dos Escravos em versão estridente, fazendo-nos sentir no lugar deles por sofrermos tamanha agrura? Se calhar há. O que não é se calhar, mas com toda a certeza, é que se um dia houver uma campanha eleitoral em que um partido se limite a fazer circular um só veículo que vá abençoando as ruas da minha terra com as Variações Goldberg, que foi o que deixei de conseguir ouvir no fatídico momento da diabólica caravana, é pois nesse partido que eu irei votar. Porque nesse dia, já sem os meus ouvidos acorrentados e condenados a trabalhos auditivos forçados, poderei sentir então o meu pensamento a ir com asas douradas em vez de escuras e apodrecidas pelo chinfrim eleitoral. 

23 setembro, 2021

Se uma pessoa não sabe onde vive o João e alguém lhe diz que "vive em Lisboa", está a aumentar o seu conhecimento, no caso, claro, de isso ser verdadeiro. Como aumenta se lhe disserem que "O João não vive em Lisboa", vivendo ele em Setúbal. Neste caso, pode não ficar a saber onde vive o João mas pelo menos sabe que não vive em Lisboa. Sendo as proposições "O João vive em Lisboa" e "O João não vive em Lisboa" contraditórias, a verdade ou falsidade de uma implica respectivamente a falsidade ou a verdade da outra, sendo a realidade a "decidir" qual a verdadeira e a falsa, do mesmo modo que é a realidade que "decide" se Marcelo Rebelo de Sousa é ou não presidente em 2021 ou se as Canárias têm ou não vulcões.

Se entretanto disser "O João vive em Lisboa ou o João não vive em Lisboa" descobrimos um enormíssimo ponto a seu favor: aconteça o que acontecer, viva o João onde viver, Lisboa, Oslo, Kiev, Pequim ou debaixo de um vulcão, está logicamente impossibilitado de ser falso. É como se houvesse um botão que fechasse a frase sobre si própria, bloqueando qualquer hipótese de falsidade, deixando-nos assim de tal modo seguros quanto a tão absoluta verdade que ficamos dispensados de olhar para a realidade para que esta nos diga se é verdadeiro ou se é falso. Excelente, não é? Não, não vale nada e pode ir directamente para o lixo, uma vez que devido à sua vacuidade nada ficamos a saber, o que já não acontece com "O João vive em Lisboa" ou "O João não vive em Lisboa". Ficamos exactamente na mesma, como se diz em bom Português mas também em bom Grego uma vez que a este tipo de proposições foi dado o nome de "tautologia", cujo significado na língua de Péricles é mesmo esse. 

Torna-se agora engraçado ver como o vazio de uma proposição pela sua impossibilidade lógica de ser falsa pode ser transferido para o interior da cabeça de certos seres humanos. Isto é, a Lógica sendo substituída pela Psicopatologia. Pessoas há para quem certas verdades são tão óbvias como a água ser molhada e o cimento ser sólido, que bloqueiam qualquer possibilidade de instalar a falsidade nos seus juízos, permitindo que venham um dia a reconhecer que estavam erradas. Como na tautologia, há um botão que premido impede a consciência da falsidade, sendo o vazio de uma proposição tautológica substituído pelo vazio da cabeça que faz assim chocalhar com estridências as ideias que vão saindo de rajada como numa câmara de ar que se furou. 

22 setembro, 2021

Até ao antigo 5ºano dos liceus, a única disciplina de que gostava era Educação Física, sobretudo quando era para jogar à bola e assim dedicar-me a uma das três áreas em que revelava alguma competência (As outras eram jogar às caricas e infernizar a vida aos professores). A única coisa de que me lembro de aprender sem dificuldade e até com um certo gosto foi a divisão das palavras em homófonas, homófonas, homónimas e antónimas. Graças a isso pude pela primeira vez sentir o que acontecia nas cabeças dos bons alunos que entendiam Física e Matemática com  a mesma facilidade com que eu lia o Tio Patinhas, passavam as aulas a levantar o braço, a pedirem para ir ao quadro, a ficarem todos contentes quando recebiam os testes e apaparicados pelos professores que eu alegremente infernizava, antes de ser posto na rua com falta disciplinar.

Lembrei-me agora disto por causa dos diferentes sentidos de "a moral" e de "o moral". O primeiro, relativo a princípios, regras, interditos, valores, acções, o segundo, para exprimir aspectos de natureza emocional que envolvem motivação, entusiasmo, alegria. Apesar da sua diferença consigo entender o bondoso processo que as associa, isto é, respeitar "a moral" e graças a isso elevar "o moral" (um santo que o diga), associação impossível entre o "canto" da sala e o "canto" do pássaro. Seja como for, tendo o mesmo som e grafia mas significados diferentes nunca serão palavras sinónimas mas homónimas. Mas sendo a realidade que manda e a natureza humana o que é, também consigo vê-las como antónimas. Na verdade, não serão raras as vezes em que quanto mais forte for "a moral" mais fraco ficará "o moral" e em que "o moral" mais elevado fará com que "a moral" se ressinta, não apenas enquanto presente do conjuntivo do verbo ressentir, mas para ressentimento de muitos.

21 setembro, 2021

Longe de mim forçar uma moralista linha de separação entre prazeres físicos e prazeres espirituais. Ambos com pontos a favor mas também a desfavor se levados a extremos. E vou esquecer a linha ténue que por vezes os separa. Um dos pontos a favor dos prazeres espirituais é a sua capacidade de gerar mais prazeres espirituais. Eu posso sentir um enorme prazer com um biscoito de manteiga a derreter-se suavemente na minha boca mas esse prazer acaba no momento em que o seu sabor se desvanece. Mas graças à versatilidade dos prazeres espirituais, é possível ir tecendo uma rede na qual diferentes e afastados pontos poderão interligar-se numa perfeita e inesgotável harmonia. Há tempos, com O Homem do Casaco Vermelho de Julian Barnes na mãos, cheguei a um compositor completamente desconhecido para mim chamado Reynaldo Hahn. Fui saber quem foi e como gosto de história também gostei de conhecer esse pedaço de vida há muito diluído pelo tempo. Mas foi sobretudo a procurar a sua música que acabei por me transformar num pescador de pérolas, descobrindo nada mais nem menos do que isto (E já agora, Theophile de Viau, poeta do século XVII cuja existência também estava para a minha consciência como esta para mim antes de eu existir).  E agora vou comer uns biscoitinhos de manteiga, que o pequeno-almoço há muito que já lá vai.


20 setembro, 2021

Na sua viagem a Itália, Goethe começa naturalmente pelo norte e pouco depois está em Verona onde vai encontrar uns baixos-relevos tumulares que lhe deixam uma forte impressão, dizendo mesmo que «o vento que sopra dos túmulos dos antigos vem carregado de bons odores, como se soprasse de um roseiral». O que atrai o escritor nestes baixos-relevos é a sua simplicidade, o facto de exprimir a vida quotidiana das pessoas captadas na sua espontaneidade e naturalidade, o calor humano que brota dessas pedras tornando eterna a existência daquelas pessoas. Muito mais tarde, já em Nápoles, referindo-se a Homero, exprime também a sua admiração pela sua poesia, graças ainda à naturalidade, autenticidade e pureza das suas descrições, mesmo que perante os mais estranhos acontecimentos e se há coisa que não falta em Homero são estranhos acontecimentos. Vale a pena ver o que ele diz ao comparar a época clássica com a sua:

Eles representam a existência, nós geralmente o efeito; eles descrevem o terrível, nós descrevemos de forma terrível; eles o agradável, nós de forma agradável, etc. É daqui que vem todo o excesso, todo o maneirismo, a falsa graciosidade, o barroquismo. Pois quando se trabalha o efeito e para o efeito, pensamos que nada chega para o tornar perceptível.

Quando se trabalha o efeito e para o efeito, pensamos que nada chega para o tornar perceptível. É impressionante como uma frase dita em 1787 ajuda a explicar muito do nosso tempo: a arte contemporânea com obras e instalações cada vez mais estapafúrdias, a televisão, em busca do drama, da emoção, das lágrimas ou então da alegria tresloucada, a política cada vez mais transformada em espectáculo estridente, as redes sociais também sempre em busca de estados de alma, da comoção, da indignação, da revolta, do viral que dá a volta ao mundo em poucos minutos. E quanto mais nos habituamos a um efeito mais o efeito terá de ser aumentado para ser perceptível. O neobarroquismo e o neomaneirismo do século XXI faz o barroco e o maneirismo parecerem tão simples, autênticos e espontâneos como a arte clássica para o escritor alemão.

19 setembro, 2021

  O conde pintado por Giovanni Boldini

Foi Julian Barnes quem me apresentou o conde Robert de Montesquiou-Fezensac num livro chamado O Homem do Casaco Vermelho. Não que seja ele o homem do casaco vermelho e, apesar do título, o livro também não é especificamente sobre o homem que foi mesmo pintado de casaco vermelho por John Singer Sargent, de seu nome Samuel Pozzi, distinto médico parisiense. Pozzi é apenas a pedra de toque para entrarmos num certo meio parisiense, aristocrático, intelectual, boémio, artístico, dos finais do século XIX e início do século XX. Palco onde surge o conde, não apenas como escritor ou mecenas mas como o dandy por excelência, embora bem acompanhado por (quem mais poderia ser?) Oscar Wilde.

O conde foi profusamente retratado, quer em pintura, quer em fotografia. Qual é a novidade? Absolutamente nenhuma. O retrato não é assunto menor na história da pintura e da fotografia, milhares de pessoas foram retratadas por se julgarem dignas disso: reis, aristocratas, burgueses, políticos, filósofos, artistas, intelectuais e por aí fora, incluindo muitas vezes os seus familiares apenas por serem familiares. Apesar da sua irrelevância pessoal, mendigos, bêbedos, loucos, artesãos, camponeses ou simplesmente gente comum, entrou também na história da pintura mas para retratar tipos sociais e psicológicos ou cenas do quotidiano, em quadros que não raras vezes procuram o pitoresco, o cómico ou até mesmo o sórdido. O meu Bruegel é apenas um exemplo entre muitos. 

Uma grande diferença no que aos socialmente superiores diz respeito está na pose, na exibição ostensiva da sua majestade, sendo o retrato um natural prolongamento das suas vidas em que as atitudes eram estudadas com rigor, sujeitas a códigos apertados para não trair os seus elevados estatutos com uma descontração mais própria de gente vulgar. Obviamente que um dandy puro e duro como o conde teria de ser retratado em plena conformidade com a sua importância.


O conde fotografado por Nadar

A evolução social e mais ainda a evolução tecnológica conseguiram um feito que, apesar de ter sido historicamente cozinhado em fogo lento, não deixa de ser surpreendente: oferecer de mão beijada à vulgaridade, a pose do dandismo de oitocentos. Num mundo cada vez mais cheio de gente, diz Ortega que a multidão se instalou na plateia da sociedade. Não, não foi na plateia mas subindo directamente para o palco, construindo a sua própria importância sem ser tida nem achada. Onde concordo com ele é quando diz que «as massas exercitam hoje um reportório vital que coincide em grande parte com o que dantes parecia exclusivamente reservado às minorias; as massas tornaram-se indóceis face às minorias; não lhes obedecem, não as seguem, não as respeitam, antes pelo contrário, deixam-nas de lado e põem-se no lugar delas» [A rebelião das Massas].

Ortega diz isto nos anos 20 do século passado. Muitas décadas antes do Facebook, do Instagram, dos telemóveis com centenas de fotografias com que cada um, e apenas pelo facto de existir e respirar, se julga digno de impor a sua vulgaridade ao mundo e, pior ainda, tantas vezes com a pose e as expressões afectadas de um dandy do século XIX quando, no fundo, a terem de estar nalgum lado seria nalguns quadros de Bruegel.

18 setembro, 2021

Reciprocamente apresentados professor e alunos, passo ao ataque, pedindo-lhes que me dessem exemplos de questões para as quais não fosse possível haver uma explicação científica. Pouco depois começam os braços a levantar-se. Uma aluna fala na existência ou não de extraterrestres. Discordei, explicando por que considero ser uma questão passível de explicação científica. Uma segunda aluna disse não ser possível explicar cientificamente tudo o que se passa dentro da cabeça de um ser humano. Discordei, explicando de novo porquê. Depois um aluno sugeriu que a ciência não tem capacidade para explicar por que razão certas pessoas gostam de uma coisa e outras detestam, dando o exemplo dos brócolos (pedi que levantasse o braço quem gostasse de brócolos e foi com espanto que percebi que mais de metade gosta). Informando ser esse um assunto ao qual iremos voltar quando tratarmos o livre-arbítrio, voltei a discordar, explicando de novo a possibilidade de uma resposta científica para a questão apresentada. Por fim, uma aluna referiu-se ao sentido da vida, saber por que razão estamos aqui (e não como), enquanto problema sem resposta científica. Aliviado por não pensarem que tenho mau feitio e que estava ali só para os contrariar (não conhecem o elenchos socrático), coisa desagradável numa primeira aula de Filosofia, concordei, exultante. Sim, completamente de acordo, não é, de todo, questão passível de obter uma resposta científica mas para ser tratada filosoficamente. Eis a Filosofia a fazer a sua entrada triunfal na sua primeira aula. A máscara não me deixou ver a expressão do seu rosto mas de certeza que ficou contente. Acontece que para além da máscara no meu rosto, tinha  ainda uma outra no pensamento. Exultei com a resposta, sim, mas o que eu não disse foi que para além de não ter explicação científica, o problema do sentido da vida não tem ele próprio sentido nenhum. É bom acreditar aos 15 anos que vale a pena pensar no sentido da vida por acreditar ter a vida um sentido. Tem muitos anos à sua frente para descobrir o contrário. 

17 setembro, 2021

A diferença entre erotismo e pornografia não é de grau, como por exemplo comparar os diferentes níveis de perigosidade de um doberman e de um labrador, mas de natureza, comparar o nível de consciência de um cão e de um ser humano. Há uma dimensão estética e até moral no erotismo que a pornografia jamais conhecerá do mesmo modo que a experiência de um cão, por muito perspicaz e sensível que este seja, também nunca poderá reproduzir a de um ser humano.

Li o Crime do Padre Amaro na juventude e foram duas passagens deste livro que desde então se tornaram para mim a grande referência literária no que ao erotismo diz respeito. Não foi quando Amaro, percebendo a porta do quarto dela entreaberta ia resvalar para dentro olhares gulosos, como para perspectivas de um paraíso: um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficara sobre o baú, eram como revelações da sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo pálido. Diria mesmo que considero este pedaço de prosa bastante piroso. Nem é quando Amaro, numa mesa rodeado de várias pessoas, vai falando de Lisboa, enquanto Amélia enlevada, escutava-o com os cotovelos sobre a mesa, roendo vagarosamente a ponta do palito. Não, o que guardei como expressão maior da subtileza erótica é Amaro estar a ler na cama e sentir por vezes o ranger da cama de Amélia, cujo quarto fica por cima do seu ou quando escutava com o coração aos saltos, imóvel e ansioso, os ruídos que ela fazia em cima ao despir-se palrando ainda com a mãe. O estar a palrar com a mãe não me parece de pouca importância.

Agora que o reli, e o leitor que relê não é o mesmo que leu décadas atrás, descobri passagens, cuja dimensão erótica quase certo me passou despercebida. Não sei se tem que ver com um aumento de perspicácia trazido pela idade a qual permite abrir os olhos para níveis cada vez mais depurados e subtis de sensualidade, ou antes, o que será mais provável, um primeiro sinal de arteriosclerose. Espinosa acertou onde Descartes falhou: o poder do corpo sobre a alma é muito maior do que possamos (ainda hoje) imaginar. 
Três momentos:

Amélia gostava de ensopar o miolo do pão no molho do guisado: a mãe dizia-lhe sempre:
- Embirro que faças isso diante do senhor pároco.
E ele então rindo:
-Pois olhe, também eu gosto. Simpatia! Magnetismo!
E molhavam ambos o pão, e sem razão davam grandes risadas.

Um outro momento de intensa carga erótica é quando Amaro dá a ler a Amélia os Cânticos a Jesus, obra que faz o Cântico dos Cânticos parecer a Anita de Férias com os Avós. Um livro onde Jesus é invocado do seguinte modo: «Oh! Vem, amado do meu coração, corpo adorável, minha alma impaciente quere-te! Amo-te com paixão e desespero! Abrasa-me! Queima-me»! Vem! Esmaga-me! Possui-me!» Sim, é forte, mas muito mais o que daí se segue:

Começara então a recomendar-lhe a leitura dos Cânticos a Jesus.
-Verá, é muito bonito, de muita devoção! - disse ele, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto da costura.
Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava pálida, com as olheiras até ao meio da face. Queixou-se de insónia, de palpitações.
- E então, gostou dos «Cânticos»?
- Muito. Orações lindas! - Respondeu.

O cesto da costura, não me parece ser aqui de pouca importância. Uma última passagem:

Às vezes Amélia pousava a costura e tomava o gato no colo; Amaro chegava-se, corria a mão pela espinha do «Maltês», que se arredondava, fazendo um ronrom de gozo.
- Gostas? - dizia ela ao gato, um pouco corada, com os olhos muito ternos.
E a voz de Amaro murmurava, perturbada:
-Bichaninho gato! Bichaninho gato!

Presumo que, por este meu grau cada vez maior de depuração erótica, não faltarão muitos anos para que considere como esplendor do erotismo duas cândidas alminhas, vestidas com alvíssimas túnicas, castamente bailando no céu.

16 setembro, 2021

«O sentimento excessivo da dignidade pessoal leva ao amor exagerado da independência civil. Cada um se torna por este modo o seu próprio dono, o seu chefe, o seu Rei, o seu Deus. É a anarquia». Eça de Queiroz, O Conde de Abranhos

Todo O Conde de Abranhos está escrito para ridicularizar a triste figura do autor desta frase cujo contexto é o desejo de Alípio Severo Abranhos reduzir o estudante a alguém que deve depender absolutamente do lente, «de se curvar servilmente diante da sua austera figura, formando o espírito no salutar respeito da autoridade». Em suma, a educação consiste em «curvar-se, solicitar, sorrir, obedecer, lisonjear, suplicar, depender", para assim se construir uma «imperecível harmonia social». Suprema ironia é podermos extrair a frase deste datadíssimo contexto novecentista para a chapar na nossa cara, num tempo em que um sentimento excessivo da dignidade pessoal, o amor exagerado da independência civil que faz com que cada um se sinta cada vez mais o seu próprio dono, o seu próprio chefe, o seu rei, e em não propriamente raros casos mais delirantes, o seu próprio Deus, se vai espalhando como um sorrateiro gás insonoro e inodoro que, lentamente, vai debilitando uma harmonia social que, mostra a história, é por natureza perecível.


15 setembro, 2021

Saio da cama e com algum suspense vou até à janela para saber se estava a chover. Tinha decidido que, no caso de não estar, forçar-me-ia a fazer a habitual caminhada matinal, uma vez que acordei sem vontade de o fazer, mas, não estando, já me sentiria com essa obrigação. Daí que no caminho até à janela estivesse a torcer para que chovesse e assim ter o prazer de não cumprir um dever, mesmo sabendo que a minha consciência estava a varrer para debaixo do seu enormíssimo tapete o facto de ter impermeáveis e boas sapatilhas para andar à chuva. Ora, Isto faz naturalmente pensar no livre-arbítrio como uma grande chatice que nos havia de calhar em sorte. Abençoada chuva que me livrou do peso da culpa. 

S. Tomás de Aquino falava em três coisas necessárias para a salvação do homem: saber no que devemos acreditar, saber o que devemos desejar, saber o que devemos fazer, três regalias apenas acessíveis a seres racionais. Pode parecer fácil mas não é, e fica ainda pior quando fazemos o que não desejamos ou não fazemos o que desejamos, muitas vezes porque também temos a cabeça baralhada sobre o que devemos acreditar. Mas temos de acreditar e neste momento está a dar-me para acreditar que se criaturas não dotadas de razão como as árvores, as águas de um rio ou as pedras tivessem consciência de si próprias seriam os seres mais felizes do mundo, pensando o que Deus, todo ufano, pensa de si mesmo, no Êxodo: "Eu Sou aquele que Sou". Um maravilhoso círculo perfeito, sem arestas nem vértices, limpinho, limpinho, como diria um filósofo contemporâneo, embora para muitos tanta lisura possa ser enjoativa. Mas perante o meu grande consolo diante da chuva que caía impenitente sobre o asfalto, sou levado a considerar que Jesus era mesmo bem capaz de ter razão ao dizer que bem-aventurados são os pobres de espírito, sendo para eles que o reino dos céus escancara aquela famosa porta que é tão estreita para a maioria, incluindo as pessoas magrinhas já que o corpo nem sempre reflecte os pesados e obscuros movimentos da alma. Ou, como dizia outro filósofo um pouco menos contemporâneo, quisesse Deus que o homem fosse feliz e não lhe teria dado a inteligência.

14 setembro, 2021

Transformando-se de repente em coro grego, sempre que diante da morte de alguém importante se vem para o espaço público gemer e bater com as mãos no peito, para rematar com o inevitável RIP a boiar num poça salgada de lágrimas, mais do que de uma homenagem, vergando-se perante a sua memória, trata-se de estar empoleirada à janela e com um espelho na mão para se auto-homenagear, com a vantagem acrescida de sentir prazer com a dor.

13 setembro, 2021


«E que faz o santo na floresta?», perguntou Zaratustra.
O santo respondeu:
«Faço canções e canto-as. E quando faço canções, rio, choro e murmuro; portanto, louvo a Deus que é o meu Deus. Mas que nos trazes tu de presente?»
Quando Zaratustra ouviu estas palavras, despediu-se do santo e disse:
«Que teria eu para vos dar?! Mas deixai-me ir embora depressa, para que vos não tire nada!»
E assim se separaram um do outro, o velho e o homem feito, rindo, tal como riem dois garotos. Mas quando Zaratustra se encontrou só, falou assim no seu íntimo:
«Será, então, possível? Este velho santo ainda nada ouviu dizer, na sua floresta, de que Deus morreu


Numa daquelas festas de final de ano no infantário, observando um grupo de crianças que jogavam à apanhada, apercebi-me de uma, mais pequenina, que, embora entusiasmada e acreditando participar na brincadeira, encontrava-se completamente desfasada do grupo. Ninguém queria saber dela para nada, ignorando a sua presença, não no sentido físico (estava tão visível quanto os outros) mas enquanto par, neste caso, companheiro de brincadeira. Um pouco como aquela piada em que há uma pessoa que namora mas a pessoa com quem ela pensa namorar não faz a menor ideia do namoro. 

Lembrei-me deste já distante episódio por causa de Salah Abdeslam, o único terrorista sobrevivente dos atentados de Paris, ao revelar há dias diante dos juízes que não há outro Deus senão Alá. Ao dizê-lo, o jovem Salah encontra-se na mesma situação daquela criança pequenina. Ele pode ser um terrorista mas até um terrorista pode ser ingénuo. Ao dizer que não há outro Deus senão Alá, julga estar a ofender os cristãos que o ouvem, como se essas palavras soassem nos seus ouvidos como um terrível sacrilégio. Isso acontece porque acredita participar num apocalíptico jogo entre cristãos e muçulmanos cujo objectivo é ajudar cada parte a fazer vencer o seu Deus num tempo final.

Acontece ser o tempo, a história, uma das grandes fronteiras que separa as consciências humanas e o tempo do jovem Salah já está muito longe do nosso. Tivessem as suas palavras sido proferidas há 150 anos e talvez ainda fosse a tempo de fazer soar alguma coisa nas consciências dos franceses ou cristãos em geral. É sempre bom lembrar os milhões de europeus mortos, torturados, exilados, por questões religiosas, realidade hoje, já agora felizmente, impensável. Hoje apenas queremos que os Salah deste mundo nos deixem em paz para continuarmos a viver alegremente as nossas vidas e que o Deus deles lhes faça muito bom proveito, muito boa tarde e até à próxima.

12 setembro, 2021

Uma das características da moda é a sua convencionalidade. Outono/Inverno e eis esta cor ou aquele efeito no vestuário arbitrariamente escolhidos por anónimas cabeças com poder para influenciar. Com a linguagem pode acontecer o mesmo mas por vezes não é assim tão simples, sendo a expressão "Orientação sexual" um bom exemplo disso. Fosse uma mera convenção ou moda e também se falaria em orientação religiosa, ideológica ou clubística. Mas não, diz-se apenas que uma pessoa é católica, protestante, calvinista, muçulmana, liberal, socialista, conservadora, radical, que é do Benfica, Sporting ou Porto. O que estará então na origem da expressão «orientação sexual», cada vez mais usada no jargão nacional? Duas pistas embora relacionadas. 

Por um lado, o facto de a expressão ser quase sempre usada por associação à homossexualidade (a heterossexualidade só passou a fazer sentido desde que a homossexualidade se tornou assunto relevante) será uma forma de libertar a identidade sexual de uma histórica e pesada diferença entre uma desejável normalidade genética ou hormonal e de uma vergonhosa anormalidade genética ou hormonal, resultando assim a identidade, não de uma involuntária determinação mas de uma livre orientação, conscientemente desejada e assumida. No fundo, uma variante do esplendor libertista de "No meu corpo mando eu" em vez da chatice de ser o corpo a mandar em mim, sendo-se por isso vítima de um destino sexual para o qual não se foi tido nem achado mas que apesar disso não evita o sentimento de culpa e o desejo de ter nascido de acordo com os padrões sociais vigentes.

Mas a vulgarização da expressão poderá ser ainda sintoma de de um niilismo sexual, epílogo de um caquético modelo binário «homem/mulher», «masculino/feminino», cujos pólos coincidiam. Incentivar a ideia de uma orientação sexual não passa assim de uma mera formação reactiva (o mecanismo de defesa que leva o psicopata a exibir uma enorme simpatia e preocupação com os outros ou o pirómano a mostrar-se como valente bombeiro), neste caso, para enfatizar o contrário de uma realidade social e cultural que se pretende disfarçar: uma desorientação sexual. 

11 setembro, 2021

A mulher dá milho às galinhas. Fossem estas dotadas de um córtex mais generoso e talvez pudessem sentir gratidão face à maternal acção da mulher que, como sua deusa protectora e benfazeja, lhes dá de mão beijada o milho seu de cada dia. Poderíamos cair na tentação de uma analogia com a nossa vida, que também nos dá tanto para depois mais cedo mais ou tarde nos sacrificar. Todavia, o sacrifício da galinha, epílogo da sua existência faz bem mais sentido do que o nosso dentro de uma ordem ou desordem que transcende a nossa capacidade de compreensão e domínio. Enquanto a morte da galinha a leva até ao prato da mulher que a engordou, a nossa, por muito basta que tenha sido a vida, engordando-nos com experiência, prazer ou felicidade, não serve absolutamente para nada. Apenas para confirmar que não passa de uma breve interrupção entre dois nadas.

10 setembro, 2021

Costumo perguntar aos meus alunos se imaginam mais facilmente um possível mundo de matemáticos cegos ou um possível mundo de biólogos cegos. O primeiro, claro. Mas não deixa de ser interessante imaginar um mundo de botânicos cegos e assim dar uma resposta afirmativa a Arthur Schnitzler quando pergunta se existirá um ouvido suficientemente sensível para escutar o suspiro das rosas que murcham.


09 setembro, 2021

Se disser que existem pessoas que gostam de simplificar e outras de complicar, a diferente carga semântica destes dois verbos poderá dar a entender a atribuição de um juízo de valor a esta dicotomia, ficando as primeiras claramente beneficiadas. Mas não é bem assim. Usando uma imagem já popular, serão ambas ouriços, pessoas que se limitam a saber apenas uma coisa: simplificar ou complicar. Acontece haver pedaços da realidade e da vida diante dos quais será importante ou mesmo necessário complicar, e foi isso que ao longo da história fizeram cientistas, filósofos, escritores e artistas em geral ou pessoas comuns que se dispuseram a pensar sobre as coisas, enquanto outros nos imploram uma rigorosa dieta mental, para assim, em nosso benefício, conseguirmos ver o que está mesmo diante dos nossos olhos. Em suma, o juízo de valor deverá ser procurado noutra dicotomia: de um lado, pessoas que simplificam quando é preciso simplificar e complicam quando é preciso complicar, do outro, pessoas que complicam quando deveriam simplificar e simplificam quando o importante seria complicar.


08 setembro, 2021

SEM TÍTULO

Quando Ruskin propõe a publicação de uma obra cujo título iria ser «Turner and the Ancients», esta foi rejeitada pelo editor por considerar Turner um pintor pouco apelativo. O jovem escritor, longe ainda de vir a ser o bispo da ideologia vitoriana, tentou uma outra editora, que aceitou publicar mas na condição de ficar «Modern Painters: Their Superiority in the Art of Landscape Painting to all the Ancient Masters, proved by Examples of the True, the Beautiful and the Intellectual, from the Works of Modern Artists, especially from those of J.M.W. Turner, Esq, R A». Uf! E assim foi publicada embora mais tarde, ultrapassado este início algo atribulado, acabasse por ficar simplesmente, e para todo o sempre, «Modern Painters».

Este episódio, na verdade irrelevantíssimo e cujo conhecimento em nada contribui para a felicidade de um ser humano, revela todavia um razoável interesse antropológico. Digamos que há dois tipos de seres humanos: os que se limitam a olhar para a vida como «Modern Painters» e os que precisam de a descobrir enquanto «Modern Painters: Their Superiority in the Art of Landscape Painting to all the Ancient Masters, proved by Examples of the True, the Beautiful and the Intellectual, from the Works of Modern Artists, especially from those of J.M.W. Turner, Esq, R A».

Sendo os segundos claramente maioritários, seria impossível daí não advir enormes consequências para a humanidade e a vida em geral.

15 abril, 2021

O PIANO SEM MESTRE


Paul Wittgenstein, irmão do filósofo, perdeu o braço direito durante a I guerra. Tragédia maior na vida de um pianista. Mas foi para ele que, entre outros, músicos como Ravel, Hindemith ou Britten, escreveram composições para serem tocadas apenas com a mão esquerda. Eu poderia extrair desta história uma bonita moral. Uma bonita moral como incentivo à "resiliência", ao "mindfulness", ao "pensamento positivo", ao "coaching", tudo isto ungido com lindas frases como "Por cada porta que se fecha há uma janela que se abre!" ou, ainda mais sublimemente (atribuída a Fernando Pessoa), "Pedras no caminho? Um dia vou construir um castelo", e outras do mesmo calibre poético ou espiritual. Mas não extraio. Só ficarei convencido no dia em que grandes músicos se sentarem ao piano para comporem peças para serem tocadas sem mãos.

14 abril, 2021

OS DADOS ESTÃO LANÇADOS


Tendo-lhe sido pedido um daqueles conselhos para a vida, Grouxo Marx, perante tão séria e profunda questão, só poderia dar uma resposta marxista, embora, imagino, com sussurrante gravitas para poder torná-la ainda mais dramaticamente marxista: «Examina sempre os dados». Eis um bom conselho para quem (no fundo, todos nós, herdeiros da Revolução Científica, do Iluminismo e do Positivismo) 2500 anos depois ainda não entenderam o célebre fragmento em que Heraclito, com a obscura clareza que o caracterizava, explica que «o tempo é uma criança jogando ao gamão, o reino de uma criança». [fr.52]

13 abril, 2021

o meu metro quadrado

A minha sala tem duas janelas que dão para uma rua com prédios e, noutra parede, uma porta envidraçada que dá para uma outra rua também com prédios. Falta de prédios não é coisa que se faça sentir por aqui. Porém, há um ponto, cirurgicamente localizado na minha sala, que faz com que através da porta envidraçada me seja dada uma paisagem deslumbrante. Num primeiro plano, um campo verdíssimo, muitas vezes com ovelhas a pastar, salpicado de algumas casas rurais. Num segundo, pequenas camadas de colinas vagamente arborizadas até chegarmos, já bem ao longe, ao branco de uma aldeia, pois a esta distância, é mais a aldeia a estar no branco do que o branco na aldeia. E então, depois, como pano de fundo de toda esta representação campestre, impõem-se, majestáticas, as quase femininas curvas da serra de Aire por baixo de um enorme céu. São vários os matizes de verde que tenho pela frente, os quais vão discretamente mudando com as variações da luz e demais condições meteorológicas. Neste preciso momento, graças à pouca luz de um dia nublado, tenho um verde europeu, rutilante, mas também manchas de um verde mais mediterrânico, coados por uma neblina matinal que dá à paisagem um encanto quase feérico. A serra, essa, cobre-se por vezes de um nevoeiro que lhe faz perder momentaneamente a nudez, parecendo um espectro mais pressentido do que visto. Quando falo no ponto cirúrgico da minha sala é para ser mesmo levado à letra, como se o espaço tivesse de ser delimitado pelo rigor de um bisturi pois um pequeno desvio leva-me de novo aos prédios de uma das ruas. 

Foi fazendo a minha pessoal Conferência de Berlim, ou como um colono acabado de chegar ao Oeste, que um dia resolvi, com regra e esquadro, aqui marcar o território em que trabalho ou mais recentemente dou aulas (estou a falar ou a ouvir alunos e a olhar para a paisagem), leio jornais e muitas vezes sem ser jornais, faço as minhas pesquisas na Internet, incluindo as mais deambulatórias, tendo sempre este cenário, seja como visão central, seja como visão periférica. Por vezes vejo títulos sobre preços do m2 em diferentes cidades ou em diferentes zonas da mesma cidade. O m2 em Paris, Londres, Lisboa, Porto, Braga ou Aveiro, o m2 no Parque das Nações ou em Carnide. Na minha terra acontece o mesmo. Mas, para mim, tudo isso não passa de filistina informação, embora importante para muita gente que deseja vender, comprar ou alugar. Eu não sei quanto vale o m2 no sítio onde moro nem o m2 da casa onde moro. Independentemente da localização, das assoalhadas, das funcionalidades, da presença ou ausência de despensa, garagem, varandas, casa de banho interior ou sem ser interior, o meu metro quadrado é o metro quadrado onde vivo quando estou em casa no qual uma cadeira exerce a sua força de gravidade que me leva para o seu centro. Se de repente um mago agora transformasse esta minha humilde casa em Chambord ou Blenheim Palace, continuando a dar-me esta vista, eu iria continuar a habitar este meu metro quadrado. Este meu metro quadrado é o o rio da minha aldeia. O Tejo, o Danúbio, o Tamisa, o Sena, o Pó, todos esse rios com tantos quilómetros e que buscam enormes oceanos, são meros afluentes do meu metro quadrado.