23 fevereiro, 2017

NOT SPOOK

Gordon Parks

Por mero e absoluto acaso, regresso ao preto e branco, embora noutro contexto. Tive de passar hoje pela Note para imprimir umas coisas. Encosto-me ao balcão, ficando entre dois homens que estão nas pontas, um dos quais preto. Como estavam ambos a tratar de umas encomendas, acabei por ser logo atendido. Diz-me o empregado que são 28 cêntimos. Eu pego na carteira, cheia de moedas pretas que andavam há dias a pesar-me, e preparo-me para dizer o que, há anos, digo sempre em situações semelhantes, com ar satisfeito: «Lá vou finalmente libertar-me das pretas». Há momentos em que sou lento quando deveria ser rápido, há momentos em que sou rápido quando deveria ser lento. Desta vez, tive o tempo de reacção certo para evitar a frase do costume. Senti alívio mas, depois, no caminho para casa, confesso que me inclinei para uma irritante auto-comiseração.

Se há coisa que detesto é o fascismo linguístico do politicamente correcto, tornando perturbadora esta minha cobarde deferência. Eu nasci e cresci num mundo de brancos e de pretos. O Eusébio é preto, o Humberto Coelho é branco. A nossa ministra da Justiça é preta, a nossa ministra da Administração Interna é branca. A Ella Fitzgerald é preta, a Ute Lemper é branca. Já o Nelson Évora nem é branco nem preto mas mulato. Ora, não há qualquer motivo para pensar que na minha referência às moedas pretas estivesse implícita qualquer referência a pessoas pretas das quais, neste caso, me pretenderia libertar. Enquanto processo mental, é completamente tortuoso e absurdo. Porém, tive medo que tal acontecesse, podendo criar uma situação embaraçosa, neste caso, ferir o meu vizinho de balcão, levá-lo a pensar que eu poderia ser um racista cínico a provocá-lo. Repito, reconheço a estupidez do raciocínio, a natureza ilógica e excessiva da minha auto-correcção.

Porém, e ainda a caminho de casa, acabei por entender o seu valor ético. Há um filósofo francês chamado Emmanuel Levinas (1906-1995) que, num livro chamado Totalidade e Contradição diz: «chama-se ética à impugnação da minha espontaneidade pela presença de Outrem». Eu não consigo entender quase nada do que ele escreve mas esta frase é de uma eficácia tremenda para explicar a minha auto-correcção. A minha habitual espontaneidade, no clássico momento de me libertar das moedas, foi impugnada pela presença daquele homem ali a meu lado. Fosse eu um Robinson Crusoe num balcão só para mim e a minha espontaneidade seria assumida sem freios. Mas a partir do momento em que estava ali aquele homem, teria de pensar no que poderia dizer que colidisse com ele. A minha inocência e consciência tranquila, neste caso, pouco valem, antes a sua consequência. Eu sei quem sou, o que digo e porque digo. Mas também sei que há pessoas que, não sendo como eu, podem dizer com outro sentido o que eu deixei de dizer por pensar que seria esse o sentido que o outro poderia pensar sobre o que eu estaria para dizer.

Fiz bem ou fiz mal? Devo manter a irritação por uma estúpida deferência e atrofia do politicamente correcto, ou ficar antes satisfeito comigo próprio por, apesar da consciência tranquila, ter jogado pelo seguro? Para responder, penso no que teria feito o professor Coleman Silk, do romance A Mancha Humana, de Philip Roth, se tivesse podido voltar atrás. Ter-se-ia novamente referido às alunas que não responderam à chamada como spooks, ou teria feito como eu, fechando-se em copas? Dizia James Madison, um dos Pais Fundadores, que se os homens fossem anjos não seriam precisos governos. Mutatis Mutandis, se os homens fossem anjos, eu não precisaria de refrear o meu velho clássico das moedas pretas. Como não são, temos de fazer connosco mesmos o que os governos fazem com a espontaneidade e liberdade com que as pessoas entram no mundo no dia em que nascem. 

20 fevereiro, 2017

A TROCA


Tenho um aluno que em vez de dizer filme ou fotografia a «preto e branco», diz filme ou fotografia a «branco e preto». Nas duas ou três vezes em que tal aconteceu, corrigi-o, com espírito de descontracção, diga-se, nada daquele ar de quem se prepararia para, noutros tempos, dar uma reguada. Agora, tratar-se-á mesmo de um erro que deve ser corrigido ou de uma simples e inócua troca sem motivos para reparo por parte de um professor? 

Há trocas que, por motivos de força ontológica, serão impensáveis. Diz-se que um carro é vermelho, nunca que o vermelho, neste caso, é um carro, uma vez que carro é substância e o vermelho um atributo. Noutro registo, desta vez para respeitar a relação lógica entre a parte e o todo, é forçoso dizer que o nariz faz parte da pessoa, nunca que a pessoa faz parte do nariz (tenho a consciência de que se desse como exemplo o sexo em vez do nariz, a coisa complicava-se). Passando da ontologia para um contexto mais pragmático, há trocas que podem ser consideradas legítimas face a grupos de palavras que se dizem em primeiro ou segundo lugar, de acordo com uma convenção. É normal começar um discurso por «Senhoras e senhores», mas não se pode criticar quem, por considerar tratar-se de um atavismo, veja tanta legitimidade num «Senhores e senhoras» como os que antes a vêem no clássico «Senhoras e senhores» por conservarem uma elegante e respeitosa deferência pelo sexo feminino.

Como enquadrar a questão do preto e branco nesta magna problemática de trocas ou baldrocas? Tratando-se de cores, nada melhor do que confrontá-la com outras situações que envolvam cores. O equipamento tradicional do Benfica consiste numa camisola encarnada e calções brancos. Será, assim, tão legítimo poder afirmar «a equipa branca» como afirmar «a equipa encarnada»? Não. A única opção válida é «equipa encarnada». Objectar-se-á com o facto de aqui não se aplicar o argumento da substância, nem o da «parte e do todo». Os calções são tão substância como a camisola, ambas parte de um equipamento no qual uma não existe sem a outra, sendo as cores vermelha e branca, atributos de iguais substâncias. Estão, por isso, também, num nível semelhante. Sim, é verdade. Mas aceitar este argumento levaria a aceitar a possibilidade de, na construção da identidade física de uma pessoa, colocar num mesmo nível o rosto e o umbigo ou o rosto e o cotovelo. O rosto, tal como um dedo, uma perna, um umbigo ou um cotovelo, é uma parte do corpo. Porém, e embora eu conheça algumas pessoas cujo umbigo ou cotovelo acabe por identificá-las melhor do que o rosto, é este que, por razões tanto morfológicas como psicológicas, confere verdadeiramente uma identidade pessoal e única a cada um de nós. Também a camisola tem uma importância visual e simbólica que não se compara à dos calções. É na camisola que está o emblema do clube, o número do jogador, no final do jogo, os jogadores trocam de camisolas, não de calções. Para além disso, tem-se (ou tinha-se) amor à camisola, não aos calções, e embora estes também acabem suados no final, diz-se «suar a camisola» e não os calções.

A coisa torna-se mais complexa se pensarmos em clubes como FC Porto ou o Sporting, aos quais nos referimos como «azul e branco» e «verde e branco». Será que podemos então trocar por «branco e azul» ou «branco e verde», uma vez que são ambas partes da mesma camisola, possuindo o mesmo estatuto ontológico? Não, pois a ontologia não explica tudo na vida. Ao contrário do Real Madrid, do Vitória de Guimarães ou do Farense, clubes que têm no branco a sua identidade, o seu «rosto cromático», já nas camisolas do FC Porto e do Sporting esse mesmo branco surge apenas como alicerce que suporta a identidade, tanto cromática como simbólica, do azul e do verde, o verdadeiro rosto cromático desses clubes. Há, neste caso, uma diferença clara entre sensação e percepção. Quando vemos as equipas no relvado ou num jogo de matraquilhos, os olhos tanto vêem o branco como o azul e o verde. Porém, no nosso cérebro, por razões culturais, tendemos a reforçar mais a presença do azul e do verde do que a do branco, não por se tratarem de cores com mais densidade.

Vejamos agora, finalmente, o problema do preto e branco ou branco e preto da fotografia ou do cinema. O sentido semântico do par «preto e branco», centra-se no facto de, enquanto par cromático autónomo, anular todo o restante espectro de cores. O estatuto das duas cores é, por isso, igual. No fundo, mais do que uma relação entre duas cores hierarquicamente distintas, como no caso das camisolas do FC Porto ou do Sporting, trata-se de uma correlação que torna indiferente a ordem da sua nomeação. Acontece aqui com o preto e o branco (ou o branco e o preto), o mesmo que com as frases «O João e a Joana são irmãos», «O João e a Joana combinaram jantar», que podem ser naturalmente transformadas em «A Joana e o João são irmãos» ou «A Joana e o João combinaram jantar» sem daí resultar mudança de sentido. O mesmo se passa com as proposições «x+y=y+x», 2x3=7-1» ou ainda «Inglaterra e Escócia fazem fronteira»=«Escócia e Inglaterra fazem fronteira». Em suma, dizer «branco e preto» é tão legítimo como dizer «preto e branco». Assunto arrumado?

Não. A referência "preto e branco" não representa apenas a junção de duas cores cuja ordem de nomeação pode ser arbitrária como acontece com dois números, dois nomes de pessoas ou de países. A referência "preto e branco" tem um sentido conceptual, referente a um conjunto de objectos fotográficos e cinematográficos que, por razões históricas ou estéticas, se apresentam com essas duas cores apenas. Se pensarmos no conceito de «ping-pong», facilmente percebemos que poderíamos trocar estas duas palavras que nem sequer têm valor semântico, dizendo «pong-ping». Qual o problema? Não podemos dizer «chuva de chapéu», em vez de «chapéu de chuva» ou «água de copo» em vez de «copo de água». Mas o que é um «ping»? E o que é um «pong»? Não exprimem uma relação entre dois objectos ou duas funções cuja troca levaria a uma perda de sentido. A própria expressão «trocas e baldrocas» aguentaria a sua transformação em «baldrocas e trocas» sem lhe retirar o sentido, pois, ao contrário dos exemplos anteriores, a sua ordem, tal como a de «jogar ao gato e ao rato» ou «lusco-fusco», é arbitrária (No Brasil diz-se Oriente Médio em vez de Médio Oriente). Trata-se porém, no caso do Ping-Pong de um nome de uma modalidade desportiva ou, nos outros, de expressões correntes, cujas ordens de nomeação apesar de convencionais, adquirem força de conceito identificador, tal como acontece com o duplo nome de uma pessoa. Se chamarmos João José ao José João, continuamos a invocar os seus dois nomes, continuam ambos a estar presentes. Porém, a pessoa a quem se referem deixou de ser invocada, perdeu-se como referência, chamando a uma pessoa o que é próprio de outra. Claro que com o «branco e preto» em vez de «preto e branco» não acontece esse problema, uma vez que não exprimem duas realidades distintas. Ainda assim, este último é o nome que se convencionou para um certo tipo de objecto artístico, implicado assim a sua troca a nomeação de algo que não existe. Posso, e devo, por isso, continuar a corrigir o meu aluno. Como corrigirei alguém que me diga que fui «Dar uma volta ao grande bilhar» para se referir ao que eu acabei de fazer.

18 fevereiro, 2017

O PROFESSOR DE HISTÓRIA

Arthur Leipzig | Chalk Games, 1950

Há dias, ao sair do prédio para a escola, tive a companhia do meu vizinho de cima, um garoto do 5º ano com quem havia apenas trocado alguns comentários futebolísticos (sei sempre quando o Sporting marca golo pelos gritos e tremores de terra vindos lá de cima) em duas ou três viagens de elevador. Como saímos juntos lá fomos então juntos a caminho da escola. 

Começámos, claro, com o Sporting, com o meu lado de sádico benfiquista a fazer das suas. Depois, como não poderia deixar de ser, passou-se para a escola. O costume: se gosta dela, da turma, disciplinas preferidas, chegando então a sua vez de me perguntar de que disciplina sou professor. Admito que algo infantilmente, em vez de lhe responder, peço-lhe para adivinhar. Pausa para pensar. Decide então que sou professor de História. Intrigado, mas também surpreendido pela pontaria quase certeira de um garoto que provavelmente nem sabe que há uma disciplina chamada Filosofia, nem conhece os meus interesses pessoais, pergunto-lhe porquê. Percebo que se esforça para tentar traduzir por palavras o que lhe vai no pensamento, até que responde: «Deve ser professor de História pois anda sempre a pé e com ar muito pensativo».

Isto foi há dias e há dias que isto não me tem saído da cabeça, nomeadamente nos meus percursos a pé entre casa e a escola, o que leva um garoto a presumir que serei professor de História, pretextando o facto de andar a pé e de ter, pelos vistos (meu deus, como isto é assustador), um ar muito pensativo. Enquanto ser racional que tenta penetrar nos circuitos mentais de outro ser racional, ainda avancei com a possibilidade de ele ter uma professora de História com ar pensativo e que ande sempre a pé, transformando-me assim, através de uma inferência indutiva baseada numa generalização pavloviana, num professor de História. Mas não. Há uma professora de História da minha escola que anda a pé mas porque mora mesmo ali ao lado. E quanto ao ar, todas têm, como toda a gente, o ar de quem pensa, o que é muito diferente de ter um ar pensativo. Pista anulada, portanto. A partir daqui, restou-me seguir, enquanto ser racional, os normais mecanismos racionais, sejam estes mais explícitos ou implícitos, de um ser igualmente racional ou que se prepara para o ser. Porém, e após muito esforço, nada consigo encontrar que me leve à relação entre a andar a pé e ter um ar pensativo e ser professor de História, o que pressupõe ainda haver razões para pensar que professores de Matemática, Inglês, Português, Geografia, Ciências ou Educação Visual não andam a pé nem têm um ar pensativo.

Em suma, desisti. Porém, não resisto a um certo pessimismo no que diz respeito a dois tipos de problemas. Um deles, o dos qualia, da subjectiva experiência mental de uma pessoa, seja de uma emoção ou de um simples cheiro ou sabor, a qual será sempre inacessível para outra pessoa. Neste caso, por muito que tente, não consigo ter a experiência mental da experiência mental de alguém que pensa ser eu professor de História só porque ando a pé e tenho um ar pensativo. Mas há muito que isto é óbvio para mim, sendo nós iludidos pela natureza esquemática e racional da linguagem, a qual sugere um entendimento claro entre as pessoas, só porque partilham um mesmo código com regras bem definidas.

O outro problema, e este sim, com mais achas para atear a fogueira do pessimismo, tem que ver com o modo como seres racionais constroem e associam aleatoriamente certas crenças que os levam a tomar certas decisões que, por sua vez, os levam a uma acção X em vez de uma acção Y ou Z. Decisões e acções que tanto podem ser as mais insignificantes do dia-a-dia, como a de comprar o iogurte A em vez do B, mas também as mais importantes e que mexem com aspectos cruciais da nossa vida, seja pessoal, seja colectiva, nomeadamente política. O misterioso fluxo argumentativo que levou este garoto a pensar que serei professor de História, pode não ser muito diferente do que leva milhões de pessoas a pensar que um dado político será o ideal para ocupar um cargo importante ou que uma dada resposta será a mais correcta e eficaz a uma pergunta colocada em referendo sobre a saída ou permanência de um país da União Europeia. Já disse que fui infantil ao ter feito a pergunta ao garoto em vez de ter logo respondido. Não escapo, portanto, desse registo. Mas tanto a minha pergunta como a resposta do garoto, faz-me lembrar o que dizia Platão sobre a fragilidade da democracia perante cidadãos cujos mecanismos racionais e argumentativos são muitas vezes obscuros e muitas vezes o resultado de desejos e crenças igualmente obscuros. Por vezes, sobretudo quando as condições são boas, acertam e fazem as sociedades funcionar. Porém, quando não é isso que acontece, resta-nos esperar que a sorte não seja demasiado madrasta até que tudo volte de novo à normalidade.

13 fevereiro, 2017

DONALD TRUMP E O GELO DA CONDESSA DE MORTSAUF

Alfonse Van Besten | Inverno em Brugges, descarregando um barco, 1912 [autocromo]

Há momentos na vida em que precisamos de um canalizador, profissão pela qual nutro uma enorme gratidão. É maravilhoso haver gente que goste e perceba de canalizações para, de rabo para o ar, andar de volta de um cano roto enquanto eu me sento no sofá com um romance de Balzac. Esta minha gratidão leva-me até às sábias palavras de Aristóteles quando invoca a natureza intrinsecamente política do ser humano. Ao contrário de um deus ou de um animal, que se bastam a si mesmos, nós fomos feitos para a polis, precisando dos outros para preencher a parte que nos falta. No caso do canalizador, a minha gratidão é ainda maior, pois preciso eu mais dele do que ele de um professor de Filosofia. Vendo bem, sou mesmo um felizardo pois preciso sempre eu mais dos outros do que eles, seja médico, cabeleireira, agricultor ou vendedor de electrodomésticos, de um professor de Filosofia.

Pode parecer algo exagerada uma semelhança entre canalizadores e políticos mas, do ponto de vista dos meus interesses, a lógica é a mesma. Uma casa tem de ser bem construída e com todos os componentes a funcionarem bem. Só assim se pode lá viver confortavelmente e sem grandes sobressaltos. Daí também a minha gratidão para com pedreiros, electricistas, afagadores, pintores ou carpinteiros que fazem as suas coisas enquanto eu ando a falar de teorias filosóficas em aulas onde aproveito para falar dos clássicos da literatura que leio no sofá enquanto o canalizador está de rabo para o ar.

O mesmo se passa com a sociedade e o Estado: precisam de funcionar bem para que a vida das pessoas, em todas as suas dimensões, possa decorrer com toda a normalidade, tendo que haver alguém que faça o serviço. Ora, dou mil graças a Deus por não ter de ser eu uma dessas pessoas. Tal como não me imagino canalizador de rabo para o ar, detestaria, ainda que de rabo sentado, ser ministro, secretário de estado, deputado, presidente de câmara, presidente de junta de freguesia ou membro da Assembleia Municipal de qualquer paróquia deste país onde iria discutir o alcatroamento de uma estrada entre duas aldeias em vez de estar sentado no meu sofá com um clássico da literatura. Atenção, não estou a tirar valor e dignidade à função. Louvemos tão insignes cidadãos que trocam um clássico da literatura pelo alcatroamento de uma estrada. Estou apenas a dizer que, como no caso do canalizador, se trata de um importante e nobre serviço que precisa de ser feito mas que dou graças por haver quem o queira fazer por mim, uma vez que existem cestos e cestos de coisas que me interessam mais do que a política. Claro que o simples facto de acompanhar a política está muito longe do penitente acção de fazer política. Mesmo assim, não troco as belas coisas que o mundo tem para oferecer por assuntos de natureza política, desde que esse mundo, mais à esquerda ou mais à direita, se vá equilibrando com alguma normalidade.

É por isso que entendo lindamente estas palavras de Daniel Dennett no The Guardian de ontem. Mais interessante se tornam ao cruzá-las com outras que li há dias, num clássico da literatura escrito por Balzac, chamado O Lírio do Vale. São palavras de Félix de Vandenesse à condessa Natália de Manerville, estando relacionadas com a sua estadia em casa da condessa de Mortsauf:

Quando desci para jantar, soube [Convém lembrar que, à época, não havia telejornais, a TSF ou o Sapo Notícias] do desastre de Waterloo, da fuga de Napoleão, da marcha dos aliados sobre Paris e do regresso provável dos Bourbons. Este acontecimentos, que para o conde eram tudo, não foram nada para nós. Queres saber, Natália, qual foi a maior notícia que recebi depois de ter acariciado as crianças? A grande novidade para nós foi: «Vai ter gelo!» A condessa tinha-se muitas vezes aborrecido no ano anterior por não ter água bastante fresca para mim, que, não tendo outra bebida, gostava dela gelada.

Para Félix, este é o seu momento Kafka que, no dia 2 de Agosto de 1914, escreve no diário «A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, natação.» Ou o seu momento Luís XVI que, no dia da tomada de Bastilha, também no seu diário, regista: «Rien». Pegando na entrevista, pode-se dizer que o tempo dedicado por Daniel Dennett ao estudo da consciência sem ter de estar preocupado com questões políticas, corresponde ao gelo da Condessa de Mortsauf.

O problema é que por muito aborrecido que seja o envolvimento com esse tipo de questões, o filósofo norte-americano é bem capaz de ter razão quando refere a necessidade de estar mais atento à política. O que fazer quando um perigoso canalizador, em vez de resolver o problema para que foi incumbido, põe ainda mais em risco a canalização lá de casa e, a fortiori, a tranquilidade doméstica? Nesse caso, apesar da natureza desinteressante do problema, faz sentido levantar o rabinho do sofá. Ora, com a política deve passar-se exactamente o mesmo para depois não termos de ouvir a voz cínica de Arnold Toynbee a sussurrar-nos ao ouvido: «O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam». O interesse de Félix pode estar todo centrado no gelo da Condessa de Mortsauf. Mas se o mundo aquecer demasiado, seja por causa de Napoleão, da marcha dos aliados sobre Paris ou do regresso dos Bourbons, não há gelo que resista. 

12 fevereiro, 2017

VENTOS E TEMPESTADES

Gustave le Gray | Farol e Molhe, 1857

A Novela do Curioso Impertinente ocupa vários capítulos do D. Quixote, podendo mesmo ser lida como um livro dentro do próprio livro, não estranhando por isso que, logo em 1608, tenha merecido, em França, a primeira publicação autónoma. Quem não tiver tempo, paciência ou simplesmente vontade de ler toda a obra, poderá ler esta novela sem que isso represente uma grande maçada. Situa-se entre os capítulos XXXIII e XXXV, da Quarta Parte, do Livro I, não chegando a 50 páginas da minha edição.

Anselmo, um nobre de Florença casado com Camila, a mulher mais virtuosa que se possa imaginar, e que tem a perfeita noção de estar casado com a mulher mais virtuosa que se pode imaginar, mesmo assim, sente alguma incerteza face a essa virtude, admitindo a possibilidade, ainda que vã, de não ser ela tão perfeita e absolutamente imune à fraqueza quanto se possa acreditar. Como podemos ter a certeza de ser essa virtude inabalável se nunca foi posta à prova? Propõe então um plano ao seu melhor e mais fraternal amigo, Lotário, com quem mantém a relação de amizade mais perfeita que se pode conceber: que ele se insinue a Camila a fim de tentar que esta caia em tentação, passe a cacofónica aliteração. O amigo, homem que mais nobre e honrado não poderia ser, e igualmente reconhecedor das perfeitas virtudes de Camila, com quem mantém uma relação de absoluto respeito fraternal, fica em estado de choque, horrorizado, ofendido e sem conseguir acreditar em tão absurda e inverosímil proposta. Profere então um discurso fortemente moralista no qual revela toda a sua indignação perante o plano do amigo. Porém, a forte amizade que o prende a Anselmo, leva-o a ceder, levando à prática o insane projecto de uma mente tão caprichosa. Numa primeira fase, ainda mente, dizendo a Anselmo que se insinuava perante Camila, quando, afinal, nada fazia. O impertinente marido, porém, escondendo-se para assistir à acção de Lotário, acaba por descobrir a louvável mentira. Descoberta esta, não desiste do seu plano, levando Lotário a dizer as seguintes palavras: «Desgraçado e imprudente que és, Anselmo! Que fazes tu? Que planeias? [...] Se a mina da sua honra (Camila), formosura, honestidade e recato te dá sem nenhuma preocupação toda a riqueza que tens e podes desejar,- para que queres aprofundar a terra e buscar novos veios de um novo e nunca visto tesouro, pondo-te em risco de tudo vir a baixo, pois, enfim, sustém-se sobre as débeis bases da sua fraca natureza? Olha que a quem busca o impossível é justo que o possível se lhe negue [...]». 

Mas em nome da amizade, e embora céptico, lá resolve avançar. Várias peripécias ocorrem nas quase 50 páginas da novela, as quais não importa agora referir. Apenas dizer que acaba em tragédia, depois de Camila, após várias e pressionantíssimas tentativas, ter finalmente vacilado. No final, Anselmo morre, estando junto ao seu corpo um texto por si escrito, no qual reza o seguinte: «Um estúpido e impertinente desejo tirou-me a vida. Se o conhecimento da minha morte chegar aos ouvidos de Camila, que ela saiba que lhe perdoo, porque não era obrigada a fazer milagres, nem eu precisava querer que os fizesse; e já que fui o fabricante da minha desonra, não há motivo...» E pronto, morreu.

Poderemos conjecturar várias leituras deste tão pungente episódio. Por exemplo, ver a curiosidade de Anselmo como herdeira da curiosidade que contaminou Adão e Eva, sendo também aquele expulso do seu paraíso, neste caso, conjugal. Não me parece, todavia, uma tese pertinente. A serpente é astuta mas Adão e Eva não passam de duas crianças crescidas. São homem e mulher feitos mas a sua consciência nada sabe do mundo, excepto que não podem comer de uma dada árvore, mas sem sequer saberem porquê. A partir daí foram simplesmente manipulados pela serpente, ficando divididos entre o que lhes disse esta e Deus. A serpente até foi sincera, dizendo que depois iriam abrir os olhos e ficar com a consciência do bem e do mal. Mas, como duas crianças, não poderiam perceber a complexidade teológica, ética e antropológica daquela conversa. Ora, Anselmo é um adulto feito e tem bem a consciência de onde se está a meter, sabendo que está a brincar com o fogo. Neste caso, a serpente será Anselmo mas, no fundo, presumindo que a experiência vai dar em nada, indo responder a inocente Camila com a força da sua natureza e carácter.

Há também a possibilidade de comparar o seu capricho com o de Ícaro, em virtude do seu desejo de ir para lá dos limites razoáveis. Mas olhemos bem para o que conta Ovídio. Dédalo, pai de Ìcaro, constrói o seu artefacto com um objectivo mais do que justificado: fugir da prisão. E já que não o pode fazer por terra, fá-lo-á pelo ar. Ícaro é apenas um garoto que,  já no ar, segue atrás do pai, fascinado com a sensação que o levará a perder o controle da situação, desrespeitando o que aquele lhe havia ensinado sobre o voo. A sua queda não é muito diferente dos casos de jovens que, mal se apanham com a carta de condução, resolvem fazer umas brincadeiras com o carro, tendo acidentes graves. Vão para lá dos limites? Sim, claro, mas trata-se apenas do resultado de uma juvenil irresponsabilidade, do deslumbramento perante uma experiência radical. Ícaro é apenas vítima da sua adrenalina, daí que toda a moral à volta desta história me pareça manifestamente exagerada, talvez na mesma linha de Pedro e o Lobo, nada que ver, portanto, com o tortuoso caso de Anselmo. 

Outra possível pista seria tratar-se de uma história que tem o ciúme como núcleo principal, como acontece com Otelo ou o Bentinho de Dom Casmurro, esse grande e delicioso livro da língua portuguesa, evitando falar no marido ciumento desse fabulosíssimo filme de Wilder que é Kiss me Stupid, o qual daria agora pano para mangas que não vou querer vestir. Mas Anselmo não é Otelo, nem Bentinho. O primeiro, manipulado pelo veneno de Iago, encontra razões para o seu ciúme, ainda que não sejam verdadeiras. O mesmo se passa com Bentinho, que parte de um indesmentível dado factual: a enorme parecença entre o seu filho e o seu melhor amigo. Anselmo, pelo contrário, não tem o mais pequeno motivo para sentir ciúmes, admitindo a sua própria estultícia quando, com sentimento de culpa e vergonha, se prepara para contar o seu plano ao amigo: «[...] não sei desde há quantos dias até hoje me angustia e me oprime um desejo tão estranho e tão fora do uso comum de outros, que estou assombrado comigo mesmo, e me culpo e censuro a mim próprio a sós, e procuro calar e encobrir tudo isto dos meus próprios pensamentos».

A minha leitura é outra, seguindo a pista que Cervantes coloca na boca de Lotário, já acima citada: a quem busca o impossível é justo que o possível se lhe negue.  O que faz Anselmo é brincar com o fogo, não o fogo que Prometeu roubou aos deuses para o dar aos seres humanos mas um fogo que apenas serve para destruir. E que fogo é esse? O desejo de virar as costas a uma aurea mediocritas que, dentro das possibilidades, limites, defeitos, e valor relativo e circunstancial de todo o bem humano, permite uma vida normal e feliz. E isso, em nome de quê? Do desejo de uma perfeição ainda maior, de objectivos ainda mais elevados, motivados por uma vã e caprichosa curiosidade face a níveis de perfeição ainda maiores. Camila é um exemplo supremo de virtude, merecendo todos os louvores e respeitos a si dirigidos. Mas é bom lembrar estas outras seguintes palavras de Lotário: «A mulher é um animal imperfeito, e não se lhe hão-de pôr obstáculos onde tropece e caia, mas tirar-lhos, e desimpedir-lhe o caminho de qualquer dificuldade, para que sem custo corra veloz para alcançar a perfeição que lhe falta, que consiste em ser virtuosa. [...] A mulher perfeita é como um espelho de vidro luzente e claro, mas que está sujeito a embaciar-se e escurecer com qualquer hálito que lhe toque. Deve usar-se com a mulher honesta o modo de proceder que se tem com as relíquias: adorá-las e não lhes tocar.»

Esta história tem como alvo a fraqueza e fragilidade de uma mulher que, não fossem os experimentalismos ousados e desnecessários de um caprichoso e insolente marido, levaria uma vida absolutamente normal, orientada por valores sãos e virtuosos. Mas o que é verdade para Camila será extensivo à humanidade. O ser humano é o animal perfeito, o espelho de vidro luzente, a relíquia de que fala o sábio Lotário, se de cujo caminho se retirarem obstáculos em vez de lá colocá-los sem que disso haja necessidade. Coloque-se um ser humano normal perante situações normais e normal será a sua vida. Se, porém, lhe apresentarem a possibilidade de fazer emergir forças, desejos, pulsões que, como acontece no caso anterior, estão adormecidos nos mais remotos circuitos da alma humana, então a caixa de Pandora abrir-se-á, fazendo com que a humanidade enfrente o mesmo triste e miserável destino de Anselmo, que tinha a mulher perfeita, o amigo perfeito, a vida perfeita, dentro do que é humanamente concebível e razoável como sendo perfeito. Depois de tanto vento já semeado em tanta história atrás de si, grande experiência tem a humanidade para já o ter aprendido sem ser sequer necessária uma revisão da matéria dada.

10 fevereiro, 2017

PALIMPSESTO

Paul Sano | Duplo Retrato da sr. Corbet, 1912 [aurocromo]

Diz o jornalista António Caeiro sobre a China, onde viveu e sobre a qual escreveu, que lá o passado é sempre imprevisível. É uma boa piada. Mas se diz a Lógica que o que é verdade para o todo também o é para as partes, aqui, é caso para dizer que o que é válido para a parte também o será para o todo. Ou seja, o passado é coisa intrinsecamente imprevisível e não é preciso ser psicanalista para o saber. O passado é sempre uma coisa futura. Será sempre aquilo que a memória, no futuro, consegue fazer e a respeito dele. Daqui a alguns anos, pode acontecer que umas escavações venham alterar a nossa percepção da vida doméstica na Roma antiga, ou que a futura descoberta de um esqueleto altere o que sabemos, ou julgamos saber, do Paleolítico.

O passado é feito do que já sabemos mas também do que já não sabemos, do que ainda não sabemos ou até mesmo do que nunca chegaremos sequer a saber. E o que julgamos saber será sempre uma parte do que há para saber, uma ignorância sobre o que ainda há para saber ou uma distorção do que seria suposto saber. Enquanto houver futuro, o passado nunca será uma casa fechada, sem portas e janelas, onde já ninguém pode entrar. Será sempre um palimpsesto arquitectónico, como aqueles mosteiros ou conventos medievais, aumentados, ao longo de novas épocas, com outros estilos e funções. Camada sobre camada, cada uma apagando ou modificando a outra. E quanto mais se escava maior a consciência do que ainda haverá para escavar.

09 fevereiro, 2017

OVO KINDER


Dizia Kierkegaard que a multidão não tem mãos. Quando uma multidão comete um crime, não são indivíduos que o cometem mas a multidão em cuja massa compacta desaparecem as mãos. É verdade que a multidão que se vê nesta fotografia, sendo pequena, permite distinguir os rostos individuais que dela fazem parte. Mas isso não anula as mãos, homogéneas e uniformes, a erguerem-se na mesma direcção, sejam as de crianças ou de adultos. O facto de serem mãos de crianças e de adultos pode levar-nos a pensar em dois diferentes níveis de consciência, dois grupos distintos, o das crianças e o dos adultos, presumindo-se que as emoções, motivos e crenças que levam as primeiras a erguerem as mãos, são muito diferentes das emoções, motivos e crenças que levam os primeiros. As crianças estão ali como marionetas, sem saberem muito bem porquê, talvez por mera imitação e contagiadas pelo entusiasmo dos adultos, enquanto adultos erguem as mãos pela sua própria vontade autónoma, livre-arbítrio e um considerável nível de consciência política.

Nada mais falso. Quando se trata de crenças políticas, por muito adultos que sejam os indivíduos, os seus desejos, emoções, crenças, estão muito longe dos níveis de racionalidade que se exigem a um médico quando faz a avaliação de uma doença ou a um engenheiro que precisa de saber como fazer uma ponte que não venha um dia a cair. A política é uma actividade complexa e com um elevado grau de racionalidade mas a relação das multidões com a política explica-se pelos mecanismos mais elementares do comportamento e processos mentais do ser humano. Por que riem aquelas mulheres e homens? Por que riem aquelas crianças? O que sentem uns e outros? Por que erguem as mãos daquela maneira perante a presença de um líder, de um slogan, de um cântico? Certamente que são movidos por forças muito semelhantes. E, a haver semelhanças, não serão as crianças a aproximarem-se dos adultos mas os adultos a aproximarem-se das crianças. E no caso desta fotografia é desconcertante e bizarro o modo como o ovo da serpente pode começar por parecer um ovo kinder que chega alegremente à mão erguida de uma criança.

08 fevereiro, 2017

AGORAFOBIA


A doença da Inglaterra vitoriana era a claustrofobia - havia uma sensação de sufoco e os melhores e mais dotados homens deste período, Mill e Carlyle, Nietzsche e Ibsen, homens tanto de esquerda como de direita - reclamavam mais ar e mais luz. A grande neurose da nossa época é a agorafobia; os homens vivem assustados com a ameaça de desintegração e de uma excessiva falta de direcção: exigem, como os desgovernados homens do estado de natureza de que fala Hobbes, paredes para conter o tumultuoso oceano, ordem, segurança, organização, uma reconhecida autoridade, e estão alarmados com a perspectiva de uma excessiva liberdade que os deixe num vasto e hostil vaccum, um deserto sem estradas, marcos ou metas. Isaiah Berlin, John Stuart Mill and the Ends of Life


Não falta graça e criatividade a esta «capa». Trata-se, porém, de um equívoco. Visitar a famosa distopia orwelliana (para os mais renitentes à leitura haverá o excelente filme de Michael Radford, com o recentemente falecido John Hurt num dos seus grandes papéis) é ter a experiência de uma sociedade claustrofóbica, suportada por uma linguagem e um sentido único, que formatam as consciências numa só direcção, de acordo com o que o Partido determina ser a verdade. Hoje, padecemos cada vez mais de um problema de agorafobia, o facto de vivermos numa enorme arena onde existe um excesso de linguagem, a possibilidade de tudo dizer, criticar, afirmar, onde emerge cada vez mais um politeísmo de valores, discursos, ideias, projectos, sentidos. A sociedade aberta combateu tanto, e bem, diga-se, os seus totalitários inimigos, que acabou ela própria por ficar refém dos seus múltiplos braços e olhos, como se de uma sincrética estatueta antiga se tratasse. Por princípio, é preferível uma sociedade com múltiplos braços e olhos, a uma sociedade ciclópica, governada por um cérebro limitado e mesquinho. Por princípio, insisto, e quando um contexto social e económico favorável permite o luxo de podermos assumir a nossa racionalidade tanto nos aspectos mais básicos e ínfimos da vida, como nos mais complexos de um ponto de vista político e moral. Quando isso falha, ou se revela em crise, a bela estatueta dos múltiplos olhos e braços transforma-se numa cacofónica torre de Babel impedida de prosseguir o seu natural caminho rumo a uma paz celestial, perpétua, como gostaria Kant de a ver.

Antes da democracia, a democracia era o objectivo, como se fosse, por si só, o grande desígnio da humanidade. Ora, que valor tem, hoje, para nós, a democracia? Em Reflexões sobre a Revolução na Europa, Sir Ralf Dahrendorf diz que as sociedades abertas são sociedades frias e que a democracia não passa de uma forma de governo, não «um banho a vapor de sentimentos populares». Ora, há décadas que, no mundo ocidental, democracia se confunde com política normal. Um regime que ninguém quer dispensar mas que também não cria especial empatia. Desejamo-la e lutamos por ela se não a tivermos, porém, se a tivermos deixa de ser um objecto de desejo. A democracia é como o velho candeeiro da sala: está lá, faz-nos falta mas nem damos por ele, apenas por o que é iluminado por ele.

A que se refere Berlin quando fala em desintegração, numa excessiva liberdade, em hostil vaccum, deserto sem estradas, marcos ou metas? Não está a diabolizar a democracia. Apenas tem a consciência de que sendo o sistema que mais promove a liberdade e  o pluralismo, pode levar a um sentimento de orfandade colectiva e ideológica, devido à ausência de projectos «quentes» e colectivos que mobilizem ou envolvam activamente as pessoas, anichadas que estão nos seus projectos e metas individuais sem fim. Daí a agorafobia que, de certo modo, não deixa de ser contraditória. As pessoas usam e abusam da liberdade, aproveitam-se dela para chafurdarem nos seus próprios vómitos mentais mas também acabam por ser vítimas da vastidão desse espaço vazio que é a liberdade e dos excessos que dela decorrem, nomeadamente na linguagem, através da qual emergem depois falsos e perigosos profetas com calorosos e patrióticos projectos que dão um sentido aos seus desejos. Entre o Mein Kampf ou o Livro Vermelho e a incontinente verborreia do twitter, das redes sociais, dos comentários grotescos que poluem o espaço social, ou da contra-informação que tem o mesmo peso da informação, venha o diabo e escolha.  

06 fevereiro, 2017

SIM, EU SEI, QUE TUDO SÃO RECORDAÇÕES

Alfonse Van Besten | Nero Tocando Harpa, 1912 [autocromo]

Trinta e tal anos depois, revi, finalmente, O Meu Tio da América, um daqueles filmes que sempre fiz questão de voltar a ver, até para perceber se o impacto seria o mesmo que nos meus vinte anos. Mas não é do filme enquanto objecto cinematográfico que venho falar, assunto de outro campeonato no qual não irei agora entrar. O que me traz aqui é a estranheza de ver um filme que é do meu tempo, cujas acções decorrem num tempo em que já sou adulto, tendo vivido aqueles carros, roupas, penteados, decorações, ambientes e insignificantes detalhes da vida material, como sendo meus, no meio dos quais vivi sem qualquer distância entre mim e mim, mas que, ao mesmo tempo, a partir de uma contemplativa janela, vejo num espaço/tempo onde já não estou, apesar de ainda lá estar, pois nunca deixaremos de estar onde alguma vez estivemos.

Com um filme histórico, na sua verdadeira acepção, tal não acontece, pois a distância entre nós e o seu tempo é demasiado grande para podermos lá estar. Seja um filme passado na Roma Antiga ou, já bem mais perto de nós, um Western de John Ford, uma série inglesa cuja acção decorre numa Londres vitoriana ou, mais perto ainda, na Alemanha dos anos 30. É por isso que este autocromo de 1912 não pode deixar de ter um efeito cómico em virtude da absoluta artificialidade da representação. Com O Meu Tio da América é diferente: está já demasiado afastado para eu lá estar mas também demasiado perto para eu já lá não estar. Num dos mais clássicos e fundadores textos da cultura ocidental, o Fédon, cujo assunto principal é a defesa da tese da imortalidade da alma, há uma passagem onde Sócrates fala de almas que pairam à volta das sepulturas sem conseguirem partir para o mundo a que pertencem depois da morte física. Tal acontece devido à forte ligação que, em vida, tiveram com o corpo, do qual agora mostram dificuldade em se libertar, donde a natureza espectral dessas almas. De certo modo, é também esta a minha relação com o filme: espectral. É um mundo onde vivi mas do qual já saí, um mundo que já vejo a partir de fora, enquanto cogito cartesiano que observa e deseja compreender essa coisa extensa, fora de mim, mas da qual retenho uma memória em virtude de uma ténue ligação a ele, qualquer coisa como a glândula pineal de que fala Descartes, que permite uma ligação entre o cogito enquanto coisa que pensa e o corpo enquanto coisa física, extensa e, por isso, exterior.

Imaginemos agora uma pessoa imortal, que vai atravessando, consciente e lúcida, a história, desde os primórdios até à actualidade, tal como eu atravessei algumas décadas de vida, e que faz com que eu tenha hoje a referida experiência do filme. Por exemplo, o/a Orlando, de Virginia Woolf. Como seria a memória dessa pessoa que viveu na Grécia Antiga, que estava em Roma durante a queda do Império, que viveu num feudal castelo medieval francês, que esteve em Florença no tempo dos Médici, e por aí fora, vivendo, in situ et tempore, inúmeras invenções, descobertas, crises, avanços, fomes, doenças, revoluções, guerras, ascensões e quedas de tiranos, de heróis, de imperadores, reis ou presidentes, de regimes, de instituições, de reinos, países, culturas milenares, até ontem, dia 5 de Fevereiro de 2017, o dia em que vi o filme O Meu Tio da América, 30 e tal depois de o ter visto a primeira vez?

O mais provável seria a sua memória de todos esses acontecimentos ser da mesma natureza da minha perante o filme. Ao contrário do que se passa com as pessoas fotografadas no autocromo de Van Besten ou comigo quando vejo um filme de romanos ou passado na Londres vitoriana, a sua memória de todos os acontecimentos passados seria, não apenas arqueológica ou histórica, enquanto posse de um conjunto de informações sobre factos exteriores, mas uma memória que reitera, vivifica, de certo modo, ressuscita para o presente um mundo que passou, tal como eu, ao ver o filme, associo o eu que sou agora ao eu que fui noutro tempo. A história terá assim, para ele, um sentido completamente diferente do que tem para nós. Enquanto para nós a história não passa de uma contínua aprendizagem, e nada mais do que isso, para ele é muito mais do que isso: um contínuo processo de reminisciência de coisas vividas noutros mundos, noutras vidas, e para quem, como diria Platão, aprender não será partir de uma tabula rasa, mas simplesmente recordar.

No caso deste novo/a Orlando, podemos dizer, como na célebre e romântica canção, que recordar é viver. Mas, também, agora mais platonicamente, que viver é recordar. Evitar-se-ia assim o facto de os despojos da história estarem, mudos e quedos, nas profundezas do oceano, e que vemos, depois, apenas com a mesma, ainda que fascinada, curiosidade científica com que um biólogo marinho explora a vida subaquática, inacessível à superfície. Como diria Platão, o nosso corpo e os seus falíveis sentidos tornam apenas possível a consciência do lado superfícial da vida e, por isso, a ilusão de ser apenas real o que os nossos olhos conseguem ver.

04 fevereiro, 2017

ESTA NOITE SONHEI COM BRUEGEL


Presumo ser a família Bruegel a mais conhecida de toda a história da pintura. Os mais distraídos, perante a profusão desse nome espalhado por inúmeros museus, julgarão tratar-se de um único pintor. Mas não. Há o pai, Pieter e, de facto, o mais importante e conhecido. Pieter teve dois filhos, igualmente pintores: Pieter e Jan. Para evitar confusões entre pai e filho, ficou um deles conhecido por Pieter Bruegel, o Velho e o outro por Pieter Bruegel, o Jovem. Entretanto, como Jan teve um filho com o mesmo nome, e também pintor como o pai, o tio e o avô, ficou conhecido como Jan Bruegel, o Jovem, enquanto o pai ficou para a história como sendo Jan Bruegel, o Velho.

Mera coincidência envolvendo os nomes, quanto ao estilo e aos temas seguidos, podemos formar duas equipas: de um lado os dois Pieter, do outro, os dois Jan. O Pieter mais novo pouco tem de original, tendo-se limitado em grande medida a reproduzir [com bastante qualidade, de resto] alguns dos temas perseguidos pelo pai. Já os Jan exploraram outro caminho. O pai ficou sobretudo conhecido pelas suas alegorias sobre os cinco sentidos, que podem ser vistas aqui bem perto de nós, em Madrid, assim como pelos seus arranjos florais. Porém, este quadro que aqui vemos, A Festa dos Macacos, bem poderia ter sido pintado pelo pai, homem dado a outro tipo de alegorias bem mais complexas de um ponto de vista social, político e religioso. Ele próprio tem um pequeno mas nem por isso menos enigmático quadro, representando dois macacos, acorrentados numa janela com vista para a cidade de Antuérpia.

Estão bem estudadas as semelhanças entre as expressões emocionais nos seres humanos e animais. Darwin fê-lo ainda no século XIX, mais recentemente, vale a pena salientar um fascinante livro de Eibl Eibesfeldt, etólogo austríaco, discípulo de Konrad Lorenz, chamado Amor e Ódio. São, na verdade, impressionantes tais semelhanças, não só ao nível das expressões mas também do corpo. Ainda assim,  teremos de concluir, por razões óbvias e inerentes às características corticais e neurológicas de ambos, que o processo mental por detrás da expressão emocional de um animal jamais coincidirá com o processo mental de um ser humano.

Lembro-me de ser garoto e estar no Zoo, fascinado, a observar macacos, fascínio que ainda se mantém sempre que calha poder observar os nossos parentes primatas. Hoje percebo que tem que ver com uma semelhança entre os rostos e expressões de macacos, enquanto seres humanos que não chegaram a sê-lo e os rostos e expressões de seres humanos enquanto macacos que deixaram de o ser. O que dá origem a uma grande ambiguidade. Chega mesmo a impressionar a natureza antromórfica das suas expressões, ajudada, é certo pela natureza dos seus rostos. Os desenhos animados estão cheios de animais antropomorfizados, do Pato Donald e Calimero ao rato Mickey e Speedy Gonzalez, passando pelos três porquinhos e o lobo mau. Trata-se, porém, do resultado de uma forte imaginação e criatividade sem grande correspondência com a realidade.

Já com os macacos é diferente, sendo essa a razão por que esta festa pintada por um dos Bruegel não pode deixar de me interpelar. Trata-se, de facto, de uma festa e uma festa no seu sentido verdadeiramente humano. Quer dizer, não se trata apenas de uma palavra para exprimir o que poderia ser um grupo de macacos, dentro de uma jaula ou na selva, contentes e aos pulos numa orgia de bananas e amendoins. A festa é no interior de um palácio, o qual contém elementos decorativos humanos, inserindo num contexto urbano humano. Alguns dos macacos praticam actos exclusivamente humanos como jogar às cartas, a dinheiro, andar com um bule na mão ou estar vestido. Ora, é esta ambiguidade entre o mundo animal e o mundo humano que torna o quadro assustador. Porquê? Porque vemos ali macacos mas também vemos ali seres humanos. Arriscando entrar um pouco mais no espírito do pintor que é, neste quadro, tão filho do seu pai, direi mesmo que vemos ali seres humanos embora disfarçados de macacos. Assusta, porque é este, muitas vezes, demasiadas vezes até, o estado em que a humanidade se encontra, simbolicamente retratado numa festa. Numa festa, as nossas emoções, impulsos e comportamentos mais básicos podem sofrer um desvio face às normais sociais, tornando possível o que é interdito num contexto social normal. Apesar disso, tais emoções, impulsos e comportamentos são regulados por um quadro cognitivo e social que submete o indivíduo a certas regras que impõem limites e restrições, sendo consensualmente aceites por todos os que nela participam. Por muito carnavalesca que possa ser, existe uma ordem que faz com que todos estejam protegidos por expectativas morais e sociais, por uma consciência do bem e do mal, do justo e do injusto, do que é humanamente aceitável ou inaceitável.

Mas olhando para estes macacos, o que podemos esperar deles? Alguém consegue prever os gestos, os movimentos, os actos de cada um deles? Alguém mete as mãos no lume pelo comportamento de algum? Algum ser humano se sentiria tranquilo ali no meio de todos aqueles macacos? Certamente que não. A festa existe mas num ambiente de total descontrolo, sem nada que se consiga prever. Presumimos que pode estar tudo bem entre eles mas também podemos presumir que, de repente, sem se saber muito bem como e porquê, pode passar a estar tudo mal e com consequências imprevisíveis. É por isso que este quadro, no fundo, para além da sua graciosidade, do seu aspecto mais pitoresco e divertido, pode representar um verdadeiro pesadelo. Porque também é precisamente isso que se passa com os seres humanos.

03 fevereiro, 2017

O CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS

Joseph Losey | The Servant

Invoco a bela alma de Hegel até à minha mesa de pé de galo. Lembrava o filósofo alemão que ninguém é herói para o seu criado de quarto. Entretanto, os tempos mudaram. Os heróis passaram a ser os próprios criados de quarto.

31 janeiro, 2017

PARTOS

Luis Ramón Marín

Hoje, numa aula sobre Descartes, por uma razão que não vem agora ao caso, usei a expressão «A montanha pariu um rato». Por incrível que pareça, nenhum aluno a conhecia. Inquiri-os a respeito do seu possível significado e deparei com uma turma em silêncio. Lá o expliquei, assim como a circunstância que me levou a dizê-la, passando então a fazer o sentido que lhes escapara. Entretanto, horas depois, ao ter dado com esta entrevista, fui levado a concluir que tão pertinente como a existência de montanhas que parem silenciosamente ratos, será a existência, e cada vez mais, de ratos que guincham estrindentemente para darem a ideia de que parem montanhas.

28 janeiro, 2017

A BATATA

Tod Papageorge | Studio 54

Saio da escola e passo pelo Modelo para comprar uma batata. Na caixa, a rapariga mete-se comigo, gracejando e dizendo que nunca tinha visto ninguém passar só com uma batata. Ela foi simpática e eu, simpático, disse que só precisava de uma batata. Depois, já com a mochila da escola e a batata a caminho de casa, pensei que o seu riso de escrava trácia pode ajudar a perceber por que se tem olhos e ouvidos para conseguir aguentar um telejornal do princípio ao fim mas não ser capaz de se iluminar com um haikai na escuridão da noite.

27 janeiro, 2017

ENTRE O BAR E A SALA DE PROFESSORES


Quando ao percorrermos uma escola, vamos dar cada vez mais com os miúdos sempre de telemóvel na mão, mesmo não estando a ser utilizado, seja na bicha do refeitório, a entrarem ou a saírem do autocarro, quando estão simplesmente a conversar uns com os outros durante os intervalos ou numa palestra, isso pode querer dizer que o telemóvel tende a ser parte do próprio corpo, movida por nervos, músculos ou tendões. Ao contrário das pernas, um elevador é um meio de locomoção artificial. Mas ninguém concebe um prédio com 5 andares sem elevador, fazendo com que se torne um meio natural de locomoção, tão natural que até mesmo quem more no 1º andar o chama para uma descida de 3 segundos. Com os telemóveis pode estar a acontecer o mesmo: a ideia de já não se conceber os movimentos e disposições do corpo sem ele. Talvez, no futuro, a ideia de poder estar sem o telemóvel na mão seja tão impossível como a de construir uma torre sem elevadores ou, indo ainda mais longe, tão socialmente perturbadora como a de estar nu no meio da rua. 

É engraçado observar previsões antigas sobre tempos futuros. Ganha a tendência para imaginar sociedades em completa ruptura com o que se concebe como sendo humano segundo os padrões da época em que é feita a previsão. De acordo com muitas delas, hoje, em 2017, já não seríamos humanos mas pós-humanos, tão estranhos como se viéssemos de outro planeta. Se fizéssemos agora uma viagem no tempo, indo parar à primeira metade do século XIX, e descrevêssemos àquela gente o que somos e fazemos como consequência da evolução tecnológica, provavelmente não iriam acreditar em quase nada. E, se acreditassem, talvez nos apalpassem para confirmar que ainda éramos humanos como eles.

Olhando agora para estes garotos sempre de telemóvel na mão, percebemos que esta metamorfose orgânica da máquina, entre outras dependências face à tecnologia, pode vir a ter um impacto cognitivo, social, civilizacional e até antropológico que não ocorre com dispositivos, até tecnologicamente sofisticados, como um pacemaker ou uma prótese que substitui uma mão ou uma perna, os quais, apesar da sua fusão orgânica, se limitam a exercer funções mecânicas com base numa lógica utilitária. Em suma, será desta que iremos finalmente caminhar para a pós-humanidade?

Cabe agora perguntar se não estarei a ser tão ingénuo como todos aqueles que fizeram previsões no passado, continuando a imaginar uma ruptura que, na verdade, nunca chega a ocorrer. Por causa disto, lembrei-me de um dos meus livros preferidos, o Frankenstein, de Mary Shelley. O ser monstruoso criado pelo bom e generoso dr Frankenstein não passa de um amontoado artificial de próteses. Isso exteriormente. Lá dentro, não deixa de ser um herói romântico. A sua sensibilidade, a sua raiva, o seu desespero, a sua revolta, o seu sofrimento, a sua infelicidade e até o seu amor que desde cedo se manifesta, tudo isso é humano, demasiado humano. Criado em laboratório, supremo artifício, produto da mais sofisticada técnica e ciência, o monstro de Frankenstein tem tudo o que faz com que um ser humano o seja, fazendo com que a sua pós-humanidade seja apenas aparente.

Nós, imaginados como pós-humanos por gerações anteriores, continuamos a ser tão humanos como a humanidade que surge nas obras de Homero, na poesia de Píndaro, nas tragédias de Sófocles e Ésquilo, no teatro de Shakespeare ou Molière, na poesia de Camões, nos romances de Camilo ou nos clássicos russos. Somos social, técnica e cientificamente muito diferentes, vivendo rodeado de próteses por todo o lado? Sem dúvida. Mas, ser humano, ao contrário do animal, é ser naturalmente artificial, inventor, criatura prometeica (O Frankenstein tem como subtítulo O Moderno Prometeu). Assim sendo, viver com um telemóvel na mão não é prenúncio de uma pós-humanidade que emerge mas apenas mais uma faceta de uma humanidade sempre a reinventar-se. Mesmo que um dia deixemos de nos entusiasmar com as aventuras de Ulisses, de sofrer com o destino de Antígona, de rir com as personagens de Molière ou Sterne, de sentir as dores de Anna Karenina ou de Teresa e Simão Botelho porque, pura e simplesmente, deixámos de ler, enquanto sentirmos o que sente o monstro de Frankenstein continuaremos a ser humanos. Se tal deixar de acontecer, então, sim, nós humanos desde imemoriais tempos, faremos parte de um passado que terá deixado de existir.

26 janeiro, 2017

A PRAIA



Diz Tony Judt, que era um homem de esquerda, no seu Tratado sobre os Nossos Actuais Descontentamentos [ill fares the land] que "O que uniu a geração de 60 não foi o interesse de todos, mas as necessidades e direitos de cada um». Geração que perdeu «todo o sentido da partilha de propostas», esvaziando «o consenso implícito das décadas do pós-guerra», e que o narcisismo dos movimentos estudantis e a cultura popular dos anos 60 aumentou a «primazia do interesse privado».

De certo modo, este culto do narcisismo individual e do interesse privado em detrimento da partilha de propostas e do interesse de todos, alimentado à esquerda, não está longe do modelo capitalista contra o qual os próprios estudantes se revoltaram. O prazer imediato? Desejar o impossível? O culto do eu e dos seus instintos privados? O fim dos sacrifícios, das limitações impostas pela conciliação entre o interesse individual e o interesse de todos? A esquerda, que agora se manifesta, com tiques totalitários, de resto, contra a democrática eleição de Trump, não navega em águas muito diferentes das dos working class heroes e WASP's de classe média alta ou baixa que elegeram o actual presidente dos EUA com o objectivo de revolucionar o status quo elitista que tem governado a América, ou do europeu comum que se sente atraído pelos libidinosos devaneios da extrema-direita. No fundo, tanto a América que querem ver grande de novo através da varinha de condão de Trump, como o grande Estado socialista ou fascista onde os interesses de todos coincidem com os interesses de cada um, não são mais do que a expressão de desejos privados travestidos de públicas virtudes, como diria qualquer cínico, fosse este o original grego, um francês do século XVII como La Rochefoucauld ou um alemão do século XIX como Nietzsche.

Ser realista é pedir o impossível, como se dizia nas ruas de Paris em 1968, de acordo com o princípio do prazer e dos nossos desejos? Isto é música para os vampiros do grande capital, cuja ideologia não é de esquerda. Acontece que a ideologia de 60 também não o era, apenas o seu berrante guarda-roupa retórico, ainda que disfarçado por um sóbrio casacão de ciência marxista. Quando se age para revolucionar o mundo, seja a revolução de esquerda ou de direita, e sempre em nome do povo, normalmente são os mais fracos e vulneráveis desse mundo que perdem.

25 janeiro, 2017

LE SILENCE DE LA MÈRE

Mark Rothko

Tornou-se moda, sempre que se faz um minuto de silêncio para homenagear alguém que acaba de morrer, atravessá-lo, ou suportá-lo, com o ruído das palmas. Entendo a ideia. É bonito bater as palmas a alguém que acaba de morrer. Mas um minuto de silêncio é um minuto de silêncio, não um minuto a bater palmas. Bem que se podiam bater as palmas depois de um minuto de silêncio em que é suposto estar em silêncio, como se fazia antigamente. Que dificuldade terão as pessoas com o silêncio? Será assim tão ensurdecedor? Será medo de ficarem presas nele como se fosse uma carapaça de vidro que provoca uma claustrofobia existencial? Será porque leva àquele embaraçoso momento em que se fica sem jeito depois de passar um anjo? Será porque já não se consegue viver sem som ou ruído, estar sempre com um telemóvel encostado ao ouvido, com o som da televisão a ocupar os sofás e as cadeiras vazias à volta da mesa, as lojas sempre com música ou até passear com phones nos ouvidos, transformando o mundo num videoclip sem fim? Talvez aconteça apenas que a dificuldade de uma pessoa perante o silêncio, seja o medo de, durante aquele longo minuto, se desvanecer nas águas profundas de um indiferenciado e amorfo silêncio amniótico. O mais parecido que há com o que nos espera depois do momento fatal, mas já sem águas por rebentar, apenas um infinito vácuo, como diria Pascal. Talvez a voz apaziguadora e reconfortante do ruído das quentes palmas perante o silêncio da morte, seja, afinal de contas, o silêncio da mãe que chega à cama e salva a criança dos seus mais nocturnos medos e angústias.

24 janeiro, 2017

QUE SAIS-JE?

[Google imagens]

Como se não bastasse a praga de não se conseguir começar uma frase sem o imperial: «É assim:», enfaticamente proferido de 30 em 30 segundos, parece que agora não se consegue acabá-las sem um dogmático «... certo?». É tanto «É assim:» e tanto «...certo?», tanto «É assim:» e tanto «...certo?», tanto «É assim:» e tanto «...certo?» a inundar-me os ouvidos, que acabo por nem me concentrar no que escorre entre o princípio e o fim de cada frase. Não sei se é pelas generosas doses de cepticismo que fui ingerindo ao longo da vida, fechando-me numa torre onde fui aprendendo desaprendendo e desaprendendo aprendendo, a mim, muito sinceramente, o que me dava vontade seria começar as frases a assumir a possibilidade de poder não ser bem assim para depois acabá-las a pedir para me lembrarem de que posso estar errado.

20 janeiro, 2017

ACHTUNG BABY


Tantos anos depois do fim da II Guerra Mundial continuam a surgir notícias como esta. Para aqueles que têm uma visão pessimista da história é caso para dizer que mesmo em tempo de paz a guerra continua a perseguir-nos como marca indelével, ainda que numa cosmopolita capital europeia. Já os intrinsecamente pessimistas poderão dizer que se trata de uma eloquente metáfora da própria vida, como se tivesse saído da boca de um satiríssimo Sileno.

19 janeiro, 2017

PALIMPSESTOS DE PEDRA



«À porta, Franz ordenou ao cocheiro que estivesse pronto às oito horas. Queria que Albert visse o Coliseu ao luar, tal como lhe mostrara S. Pedro à luz do dia. [...] 
Franz encontrara um meio termo para que Albert chegasse ao Coliseu sem passar diante de nenhuma ruína antiga e, consequentemente, sem que as preparações globais roubassem ao colosso um único côvado das suas gigantescas proporções». Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo


A recente vaga de terramotos em Itália fez-me pensar na possibilidade de um deles arrasar por completo o Coliseu de Roma e, fosse esse o caso, como deveria ser a sua reconstrução. Não sendo o actual Coliseu o original e voltando-se a um ponto de partida, seria tentador voltar a dar-lhe a sua verdadeira identidade, repondo uma verdade que foi destruída pela inclemência do tempo e da natureza. Se a Notre Dame continua a ser a Notre Dame e o Mosteiro de Alcobaça a ser o Mosteiro de Alcobaça, e sendo isso uma feliz constatação, voltaríamos a ter o que o Coliseu nunca deveria ter deixado de ser e que só deixou devido a contingências ou acidentes que seria bom não terem ocorrido. E falar do Coliseu de Roma é o mesmo falar das ruínas do convento do Carmo, em Lisboa, ou da Vénus de Milo. que é tão bela como o binómio de Newton.

Acontece que, ao contrário da Notre Dame ou do Mosteiro de Alcobaça, o Coliseu, como o Convento do Carmo ou a Vénus de Milo, transformou-se nas suas próprias ruínas, das quais passou a depender a sua identidade, para nós, mais verdadeira do que a original. O Coliseu que hoje existe é o mesmo Coliseu que foi visitado por Goethe, Nietzsche, Overbeck, Keats, Stendhal, Shelley, Burckhardt, Hawthorne, Poe, Zola, Liszt, Wagner, Byron, James, Thomas Mann, Stephen Zweig, Dumas, Hofmann, Baudelaire, Schopenhauer, Mendelsohn e tutti quanti da intelectualidade e cultura europeia. Mais: visitado por toda a aristocracia e burguesia que fizeram o mundo moderno, durante o seu grand ou petit tour. Reconstruir o Coliseu de acordo com a sua identidade original, seria destruir o que a natureza e a história reconstruíram de um modo natural e espontâneo, tal como o fizeram com uma abadia inglesa, um castelo escocês ou uma igreja medieval nos montes Nuba do Sudão. Reconstruir o Coliseu original teria um interesse informativo, permitindo aceder de um modo factual e objectivo à sua original identidade. Seria como ver a maqueta do edifício original. Já reconstruir as ruínas do Coliseu seria ter de volta o Coliseu do qual a história se apropriou romanticamente. Eu não sei o que estará Goethe a pensar nesta pintura. Provavelmente sentirá o mesmo fascínio e encanto que sente Isabel Archer no romance de James, que sente Franz, no romance de Dumas, quando defende que deve ser visto ao luar, ou qualquer visitante que, desviando-se da furiosa turba das selfies, se fascina com o sublime encanto das ruínas que transcende a bela mas racional construção original.

A este respeito, é interessante lembrar a revolta de Almeida Garrett durante a sua famosa Viagem fora do seu quarto, perante a desgraçada ruína das próprias ruínas que deveriam estar protegidas da intervenção humana:

«Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e poética das nossas crónicas está escrita. [...] Mas esta Nínive não foi destruída, esta Pompeia não foi submersa por nenhuma catástrofe grandiosa. O povo de cuja história ela é o livro ainda existe; mas esse povo caiu em infância, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios e bonecas, fez carapuças com elas. 
Não se descreve por outro modo o que esta gente chamada governo, chamada administração, está fazendo e deixando fazer há mais de um século em Santarém. 
As ruínas do tempo são tristes, mas belas, as que as revoluções trazem ficam marcadas com o cunho solene da história. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorância, os mesquinhos consertos da arte parasita, esses profanam, tiram todo o prestígio»

As ruínas do tempo são tristes mas belas, e é assim, triste e melancolicamente belas, que devem ficar. Ao contrário do que se passa com edifícios, ou até cidades como Varsóvia, que foram integralmente reconstruídos depois de serem integralmente destruídos quando estavam inteiros. Neste caso, trata-se de repor uma verdade perdida, a única que conheceram. Não me chocaria ver, por exemplo, fosse isso possível, o que não é verdade, repostos palacetes lindíssimos que foram destruídos durante a abecassização de Lisboa, passando-se o mesmo com outras cidades, onde os vícios privados, a estupidez ou a simples ignorância, destruíram públicas virtudes arquitectónicas como é o caso da igreja de Santa Maria em Torres Novas, que, já que não foi preservada ou reconstruída depois de destruída, poderia ao menos ser hoje uma bela ruína, mais um belo palimpsesto desenhado pelo tempo ou pela natureza, coisa rara em Portugal.  E o que o tempo e a natureza desenharam para o futuro, deve o futuro continuar a respeitar.

15 janeiro, 2017

O OVO DA SERPENTE



Franz Gall foi um médico alemão do XIX para quem a cartografia do cérebro era tão exacta como um mapa da Europa com os seus países bem identificados. Desenvolveu então uma teoria segundo a qual através da palpação das saliências da cabeça seria possível aferir o carácter e personalidade de uma pessoa. Do mesmo modo que olhando para o mapa da Europa podemos localizar os diferentes países, também apalpando a cabeça de uma pessoa poderíamos dizer se é corajosa, alegre ou benevolente. Conta-se que, um dia, num daqueles eventos sociais tão novecencistas, tendo-lhe pedido para avaliar o carácter de um homem através da palpação da sua cabeça, concluiu, depois de atenta e cientificamente a apalpar, que seria uma pessoa com um péssimo carácter e outros atributos pouco abonatórios. Só depois soube que se tratava de um general com um elevadíssimo estatuto social.

Pois eu acho o seguinte. Tivesse Franz Gall vivido no século XX e nem precisava de apalpar a cabeça de Ingmar Bergman para conhecer os conteúdos mentais do realizador no momento em que esta fotografia foi tirada. Bastaria observá-la, como eu faço agora, para ter a certeza de que foi no preciso momento em que na cabeça do génio sueco começaram a surgir as ideias para o seu Ovo da Serpente.

11 janeiro, 2017

A PELE DE CHAGRIN

Antonio de Pereda | Vanitas-O Sonho do Cavaleiro

Há um mundo que morre sempre que morre uma pessoa. Por isso, quanto mais uma pessoa viver, mais mundo morrerá.  Pelo contrário, se for uma pessoa com pouco mundo, será pouco o mundo que morre quando a pessoa morrer. Quase dá vontade de desejar que haja pouco mundo durante a vida para que não se tenha de lamentar a morte de tanto mundo. Felizmente, não faltam candidatos.

08 janeiro, 2017

A ASTÚCIA DA RAZÃO


Há duas ou três semanas, numa disciplina dos cursos profissionais chamada Área de Integração, dando uma aula sobre a União Europeia, perguntei aos alunos se, vendo o telejornal, faziam alguma ideia do que era o Parlamento Europeu, o Conselho Europeu ou a Comissão Europeia. Pronto, uns sim, outros não. Entretanto, há uma aluna que, meio irritada, diz que os telejornais agora só falavam daquele velho que estava doente. Não disse mas pensei, no quanto injusto e ingrato é para um homem como Mário Soares ter dedicado a sua vida a lutar pela liberdade, por uma sociedade mais justa e um Portugal mais europeu, para no final da sua vida ser reduzido à condição de velho cujo estado de saúde aborrece jovens, como é o caso desta rapariga que, graças a Mário Soares, tem uma vida melhor do que a que tiveram os seus pais na mesma idade e muito mais ainda do que a tiveram os avós.

Pode ser injusto e ingrato, sim, mas Mário Soares, onde quer que esteja agora, não se ralará nada com isso. E não se ralará porque ele foi o que quis ser, independentemente do que beneficiámos com isso. Poderia ter sido um advogado de sucesso, com uma vida material confortável, fazendo o que lhe daria mais prazer. Mas não. Lutou, esteve preso, exilado, dedicou décadas da sua vida ao interesse público quando poderia estar apenas centrado nos seus interesses privados. Acontece que para Mário Soares, o animal político, o homem que com Afonso Costa e Salazar forma o trio mais importante da política portuguesa de todo o século XX, o Eusébio, o Joaquim Agostinho, o Carlos Lopes, a Rosa Mota ou o Livramento da política portuguesa, o interesse privado coincide inteiramente com o interesse público. Sendo rico, poder-se-ia dizer que não precisava da política para nada. Precisava, porque respirava, política, transpirava política, os seus batimentos cardíacos eram políticos, transformava em política tudo o que comia ou bebia, nutrindo-lhe o sangue e o espírito.

Cristiano Ronaldo é um jogador que já deu muitas alegrias aos portugueses. Mas ele não se tornou jogador para dar alegrias aos portugueses. Ele tornou-se jogador porque era o que lhe interessaria, o melhor para si, o que lhe daria mais prazer. Eu, enquanto professor, ajudo a formar alunos, havendo mesmo alguns que me vêm dizer que os marquei. Mas eu não quis ser professor para formar alunos ou para marcar quem quer que seja. Eu resolvi ser professor porque achei que seria melhor para mim do que ser advogado, gerente de um hotel ou dono de um restaurante. A humanidade deve muito a Bill Gates mas não foi para que a humanidade lhe devesse alguma coisa que se tornou no que é. Há situações em que o interesse privado e os interesse público estão em conflito. Outras há que o interesse privado e o público se encontram desligados. Outras há, felizmente, em que se encontram, fazendo a felicidade de um mas também da maioria.

Ao estar a centrar-me no seu interesse privado, não estou a ser frio e cínico com Mário Soares. Seria mesmo o último político com quem seria capaz de o ser, ainda para mais um dia depois da sua morte. Bem pelo contrário, até tenho razões para uma hagiográfica despedida. Estive na Fonte Luminosa com 14 anos, mesmo atrás de Natália Correia que fumava imponente a sua não menos imponente cigarrilha, depois da camioneta que nos levou de Torres Novas ter sido várias vezes bloqueada, indo depois, a partir da portagem, onde as camionetas já não passavam mesmo, no carro de um desconhecido que, tal como tantos outros voluntários, fazia o transporte entre os dois pontos da cidade. Meses antes, numa noite fria de Janeiro, ainda sem auto-estrada, fomos de propósito de Torres Novas a Lisboa para o comício contra a Unicidade Sindical, onde Soares e Zenha, empolgaram um Pavilhão dos Desportos a abarrotar. Fui sempre soarista, votei sempre nele, gostava tanto das suas qualidades como dos seus defeitos, e até tenho duas histórias muito pessoais relacionadas com ele que fazem parte do meu muito meu património. 

Seria incapaz de ser cínico com o político português que mais admiro e que mais seguiria, não direi incondicionalmente mas assumindo mais o risco. Lembrar Soares mais como homem feliz do que como um político de sucesso, pensar mais nele a fazer política como quem dorme a sesta, lê e escreve, come ou fuma um charuto, do que em alguém que se sacrificou pelos outros, que lutou pelos outros, e que viveu para beneficiar o país, talvez seja uma defesa perante a ingratidão de muitos, não tanto dos jovens como a minha aluna, que já nasceu num Portugal pós-Soares, mas daqueles que nunca foram capazes de reconhecer a absoluta importância de um príncipe sempre maior do que o seu país. 

07 janeiro, 2017

A DIVINA INVEJA DO PÉNIS



Coisa estranha a cabeça de uma pessoa. Só isso explica o facto deste artigo do padre, teólogo e filósofo Anselmo Borges ter-me levado até ao jardim do Éden, de Jacob de Backer, meio abandonado e esquecido numa remota arrecadação da minha memória. O que podemos observar neste quadro, passível de ser transformado num verdadeiro tratado de Teologia? Antes de mais, casais, casais e mais casais. O quadro é um hino às múltiplas figurações da vida, à pletórica e exuberante diversidade da vida, representando, enfim, uma vitória do múltiplo sobre o uno. Porém, entre tantos casais há um outro cujo destaque sugere tratar-se do casal dos casais com base numa visão antropomórfica dos vitais elementos masculino e feminino: Adão e Eva.

O primeiro homem e a primeira mulher surgem aqui em dois momentos temporalmente distintos. Mais ao fundo, vê-se o momento da sua criação, com Eva a ser retirada da costela de um Adão já feito carne. Mais próximo, o momento da sua expulsão do paraíso. A expressão de Deus aqui é deveras interessante. Se é normal a sua solícita pose no momento da criação, própria de um obstetra que desempenha com brio a sua função, já o seu ar sereno no momento em que os expulsa do jardim que lhes foi oferecido como lar não nos pode deixar indiferentes. Está muito longe de um Pai Tirano, de ser o Deus maldisposto e rabugento que, tempos depois, desce ao monte Sinai, no meio de chamas, trovões e relâmpagos, ameaçando de morte quem se aproximar dele, e que passa a vida a maçar as pessoas com dilúvios, pragas ou a destruir cidades. O ambiente é primaveril, nada de trovões e ígneas aparições. Deus está calmo, não grita, apresentando mesmo aquele ar complacente e comprometido de quem não consegue esconder alguma vergonha e embaraço pelo que está a fazer. Faz lembrar aqueles árbitros simpáticos que ao mostrarem um cartão amarelo ou vermelho, explicam com elegância e pedagogia o motivo da sua grave mas inevitável decisão.

Como explicar o seu humor benévolo num momento tão dramático como este? Provavelmente terá que ver com um sentimento de duplicidade face ao humano. Num mundo de casais, cosmicamente governado pelo masculino e feminino, há um ser que, apesar de absoluto, transcendente, omnisciente, omnipotente, não tem par: Ele. Um Deus que, perante o esplendor da sua sexuada criação, se descobre triste, só, desamparado. Pior ainda quando, ao adquirirem o conhecimento, Adão e Eva ganham uma consciência de si, do mundo, assim como da própria solidão do Deus que os criou. Os animais, na sua alegre e pastoral inconsciência, continuam sem ter noção de quem os criou, assim como das suas próprias criaturas. Mas Adão e Eva, com o conhecimento extraído da mais famosa árvore de sempre, saíram dessa inconsciente condição em que Deus gostava de os ver. E isso Ele não pode ter perdoado. O jogo tinha regras e eles não as respeitaram: cartão vermelho, portanto. Viver no paraíso e, ao mesmo tempo, ter a consciência do paraíso, será demasiado humilhante para um Deus que criou esse paraíso mas, depois, ao contrário do que se passa nos Olimpos grego e romano, falta-lhe uma deusa ou até mesmo uma simples mortal como Dánae ou Europa para amar, de maneira a que não fique a perder face à sua criação, que não caia na aviltante situação do criador que é ultrapassado pela sua criatura. Sim, cria o homem à sua imagem e semelhança, percebendo depois rapidamente que lhe falta o que qualquer homem possui para dar vida à própria vida: o amor, o sexo. Ele, Deus, apesar de popularmente representado como figura masculina, não tem sexo, sentindo-se naturalmente uma espécie de eunuco cósmico. Cria o homem à sua imagem e semelhança, ficando, ao contrário do que acontece perante um casal de periquitos, peixes ou crocodilos, orgulhoso com isso, vê-se ao espelho através das suas mais predilectas criaturas, mas é nesse momento que percebe o miserável estado de solidão cósmica em que se encontra. Num paraíso de periquitos, peixes e crocodilos em constante processo de acasalamento, sentir-se-ia tranquilo. Já ver no paraíso um homem e uma mulher que fornicam, que gostam de fornicar e, como se isso não bastasse, tendo a consciência de que fornicam, será insustentável para um Deus que se sente mais humano por criar o humano mas a quem lhe falta esse pequeno grande pormenor que o poria no mesmo plano do humano. E nestas coisas da Teologia, o tamanho tem mesmo que importar. Trata-se, pois de um Deus que, sem abandonar o seu divino estatuto, sente ao mesmo tempo um complexo de inferioridade e vergonha perante a fálica natureza humana. Enfim, sente-se comprometido. Expulsa-os, sim, mas sentindo-se ao mesmo tempo culpado, inseguro e consciente do seu estado. Expulsa-os, sim, mas percebendo que tal expulsão contribui ainda mais para essa terrível consciência.

Estamos assim perante uma interessante pista teológica para tentar perceber a necessidade sentida por Deus de passar de verbo a carne, através do filho. Os psicanalistas falam da inveja do pénis a propósito das mulheres. Deus encarnado talvez não seja outra coisa senão o desejo de superar um divino complexo de castração. Pronto, do que vem depois temos uma ideia, graças aos Evangelhos. O que Deus encarnado andou durante os seus 33 anos a fazer, nomeadamente no que a tentações diz respeito, como usou ou não os seus mais primários atributos humanos, se teve ou não filhos, ainda hoje dá água pela barba de muitos especuladores, não teológicos, pois esses não têm dúvidas, mas de escritores e cineastas. Talvez seja ainda esta mesma pista que nos pode levar ao enigma do escândalo da cruz de que fala um famoso teólogo dinamarquês chamado Kierkegaard (não vale a pena tentar dizer o nome pois é impronunciável, soa a qualquer coisa como Kiarkegô): um Deus espetado na cruz, risível, humilhado, reduzido ao grau mais aviltante da humanidade. Como é possível este caminho? Começar como Deus todo poderoso, criando o homem e a mulher, para vir acabar, ele mesmo homem, espetado numa cruz. Porquê a Sua tentação de ser homem, mortal, de ser carne, a mesma carne feita a partir do barro? Talvez a resposta esteja mesmo na Sua expressão neste quadro flamengo, perante duas humanas criaturas ainda com restos de maçã entre os dentes. 

06 janeiro, 2017

A LUPA

Walker Evans

Que se fará dos homens que desprezam as coisas pequenas e não acreditam nas grandes? Pascal, Pensamentos §193

Entendo a preocupação do pensador francês (que, por razões óbvias, não leu Nietzsche nem Dostoievski) mas, felizmente, não é problema do nosso tempo. Podemos já não acreditar nas coisas grandes, mas estamos ainda muito longe de desprezar as pequenas que, de resto, graças a lupas que por aí há hoje para dar e vender, acabam igualmente por adquirir um tamanho invejável.