26 abril, 2017

MIL IMAGENS

[Yad Vashem, Jerusalém]

Vai haver um dia em que já não estará viva uma única pessoa das que morreram em Auschwitz e que poderia ter tranquilamente morrido de velhice no sossego do lar ou de um hospital se não tivesse existido nazismo nem holocausto. Nesse dia, para o qual pouca falta, Auschwitz passará a ser um simples dado histórico, desligado do nosso tempo, entrando no enorme conjunto dos dados históricos dos quais há muito nos desligámos. O EL PAÍS de hoje junta um sobrevivente do bombardeamento de Guernica com descendentes de alemães que nele intervieram. Irá também haver um dia em que já não existirão pessoas que sofreram o bombardeamento nem descendentes directos dos seus responsáveis, apenas descendentes de descendentes de descendentes. Também nesse dia os fervores morais que ainda suscita, transformar-se-ão definitivamente numa página de um livro de história, nalguns casos, num parágrafo, com um bocado de sorte acompanhada de uma imagem com casas destruídas, noutros ainda, numa simples nota de rodapé.

Dirá o DN, também de hoje, que Guernica, o quadro pintado por Picasso, continua actual. Ao dizer-se isto, alimenta-se a ideia de que a arte salvará a realidade do esquecimento. Guernica, o bombardeamento, pode ter sido há 80 anos mas cá está o quadro, sempre vivo, pujante, brutal, para nos inquietar, interpelar, fazer lembrar o horror da guerra, de qualquer guerra. Claro que Guernica, o quadro, continua actual, como actual continuará qualquer obra de arte que expresse o que nunca deixará de ser actual, como é o caso da guerra, uma eterna campeã de actualidade. Mas isso não passa de uma ilusão. O mundo das imagens , seja na pintura, no cinema ou na fotografia, pode interpelar-nos moralmente, fazer o seu cívico trabalho mas isso está muito longe de apontar para a verdadeira essência trágica de certos acontecimentos sórdidos como foram  o holocausto nazi ou o bombardeamento da pequena cidade basca. Como diria Nietzsche em A Origem da Tragédia, «O artista plástico está mergulhado na pura contemplação da imagens. A própria imagem de Aquiles encolerizado é para ele [artista plástico] apenas uma imagem, cuja expressão de cólera ele frui com aquele prazer onírico na aparência - de tal como que, por meio deste espelho de aparência, ele está protegido contra a unificação e fusão com as suas figuras».

Daqui a 50 anos, o bombardeamento de Guernica terá sido há 130 anos. Daqui a 50 anos, o holocausto nazi terá sido também à volta disso. O horror do quadro, como o horror de alguns filmes ou documentários que vimos sobre o holocausto, será cada vez mais um horror apolíneo: depurado, distante, estilizado, pacificado, para ser contemplado por uma alma que está protegida da realidade, como acontece face a qualquer acontecimento trágico mais antigo. E quando isso acontece é como se o acontecimento propriamente dito não se distinguisse de uma das muitas ficções que lemos em romances ou vemos em filmes. E quando isso acontece, voltamos ao ponto inicial, aquele em que tudo pode de novo voltar a acontecer.

25 abril, 2017

NUNCA, SEMPRE OU ÀS VEZES

Gérard Castello Lopes | Portugal,1987

Lembro-me bem do tempo em que se discutia bastante se teria ou não valido a pena o 25 de Abril. O cómico da discussão, vista com os nossos olhos de hoje, é o seu carácter normativo, isto é, avaliar, não o que "é" mas o que "deve ser". Hoje, sabemos ter-se tratado de uma discussão inútil e disparatada. E sabemos, porque a história, tal como a natureza, é uma grande mestra. Ninguém imagina uma discussão para avaliar as leis da natureza, por exemplo, uns, dizendo que o Verão deveria ser antes que a Primavera, outros, defendendo que assim como está é que está bem, primeiro a Primavera e só depois o Verão. Ora, a discussão à volta do 25 de Abril era da mesma natureza, só que demasiado cedo para o percebermos.

O 25 de Abril não foi uma coisa que fizemos mas uma coisa que nos aconteceu. Nem sequer foram os capitães que o fizeram, mas a própria história. E uma coisa que aconteceu porque tinha de acontecer. Não se tratou de uma coisa contingente como Mota Pinto ter sido Primeiro-Ministro e Magalhães Mota não o ser ou Melo Antunes ter sido ministro dos Negócios Estrangeiros e Rosa Coutinho não o ser, mas uma coisa necessária, uma coisa que não poderia não acontecer. Porquê? Porque a história não permitiria que Portugal continuasse a ter, na Europa dos anos 70, 80 ou 90, um regime como aquele, assim como uma guerra colonial, completamente desfasada do Zeitgeist. O dia, esse sim, é que poderia ter sido diferente, e em vez de 25 de Abril de 1974 ter sido  a 29 de Junho de 1975 ou, vá, a 14 de Fevereiro de 1976. 

É verdade que história não tem leis como as da natureza. O 25 de Abril não é assim uma coisa como a lei da gravidade ou a fotossíntese mas também não anda muito longe disso. Há, na história, coisas que são impossíveis de acontecer, outras que acontecem mas poderiam não acontecer ou que não aconteceram mas poderiam ter acontecido e, finalmente, outras que teriam mesmo que acontecer. Por exemplo, seria impossível na Idade Média uma revolução comunista como a de Outubro de 1917, tão impossível como Giotto pintar como Picasso ou Hildegard von Bingen compor como Stravinsky. Não aconteceu, mas teria sido possível, embora necessariamente efémero, um regime comunista em Portugal, se Mário Soares tivesse perdido a sua batalha em 1975 e Kissinger o quisesse. Mas já seria impossível um regime comunista em Portugal depois da queda do Muro de Berlim. Tão impossível de acontecer como necessário de acontecer foi o 25 de Abril.

Nós não passamos de marionetas comandadas por forças que não dominamos nem dependem de nós, fios que nos obrigam a fazer certos movimentos e a impedir outros. Claro que marionetas conscientes do que estão a fazer, voluntariosas e cheias de objectivos pelos quais lutamos, assim também mais ou menos como uma pedra que cai, pensando que cai porque quer e porque é esse o seu objectivo. Há coisas que fazemos ou não fazemos, não porque queremos ou não fazer, mas porque somos obrigados a fazer ou impedidos de as fazer. E o 25 de Abril foi um desses momentos necessários da história cujas marionetas foram os capitães de Abril. Daí que, mais do querermos, devermos mesmo dizer "25 de Abril, sempre!", sejamos nós da esquerda mais romântica, da direita mais reaccionária ou tão indiferentes como um índio da Amazónia. "Sempre" porque "necessário". Um "sempre" ontológico e não um "sempre" psicológico ou ideológico. Daí não valer a pena gritar (pedir) que seja 25 de Abril sempre, como ainda fazem alguns. Porque será sempre 25 de Abril como há outras coisas que nunca chegaram ou chegarão a ser, felizmente nalguns casos, infelizmente noutros. Com o 25 de Abril não faz sentido dizer que, felizmente, aconteceu. O que podemos dizer, isso sim, é não ter, infelizmente, acontecido mais cedo.

24 abril, 2017

MILAGRES


Nunca acreditei em milagres mas gosto da sua poética, na literatura, na pintura, no cinema, na fotografia ou até mesmo na história. Enquanto adulto racional que faço questão de ser, posso achar patética a crença numa coisa tão irracional como é um milagre e ter dificuldade em compreender como podem adultos racionais acreditar. Mas isso não lhe retira o seu impacto poético. Nunca me esquecerei da minha professora primária a falar de Lázaro, o homem resgatado da morte graças a um milagre. Um nome que ainda hoje é para mim muito mais do que um simples nome: é o maravilhoso do milagre, o mysterium tremendum, num tempo mítico muito anterior ao nosso tempo cronológico e funcional. Eu não acredito que Jesus Cristo fosse um deus ou que tenha feito milagres, nomeadamente ter ressuscitado depois de morto. Mas acho a história bonita e merecendo-me todo o respeito, até porque, já que ficou para a história assumindo o estatuto de deus, tem todo o direito a esse privilégio, inacessível para o comum dos mortais.

Porém, e mesmo sabendo que o sobrenatural faz parte do código genético de qualquer religião, tenho dificuldade em compreender como pode ser a atribuição de milagres condição necessária para um ser humano aceder à santidade. Desta vez foi uma criança brasileira que, ficando em muito mau estado após uma queda, de repente ficou boa porque o pai invocou Nossa Senhora de Fátima mais as duas criancinhas da Cova da Iria que, graças a este milagre, irão ser canonizadas. Quem diz as crianças da Cova da Iria, diz também D. Nuno Álvares Pereira, também transformado em santo graças a uma cozinheira de Ourém que se curou graças a ele, depois de ter queimado um olho a fritar peixe. Ou madre Teresa de Calcutá, associada já depois de morta à cura milagrosa de um brasileiro com vários tumores cerebrais.

Nada tenho contra o facto de a igreja católica transformar pessoas normais em santos. Não tenho nem tenho de ter, até porque nem sou católico. Porém, e não é certamente o meu caso, existem no mundo pessoas excepcionalmente boas, pessoas de uma extrema doçura que dedicam as suas vidas aos outros, que se sacrificam pelos outros, que põem a felicidade dos outros acima dos seus próprios interesses, em suma, pessoas com uma conduta moral e social que as destaca das pessoas comuns, as quais podem ser boas mas nunca tão boas como aquelas. Ora, se isto não é ser santo, então não sei mesmo o que possa ser, e está mais do que visto que para a Igreja Católica não saberei mesmo. O milagre de haver pessoas assim, num mundo tão imperfeito como o nosso, não chegará para a igreja católica, comprazendo-se antes com todo este fogo-de-artifício sobrenatural que alimenta mais o instinto primário e popular de querer ser salvo das doenças e outros males (ou seja, pensar nos seus próprios interesses) em vez de se concentrar e enaltecer pessoas que deveriam ser eleitas como modelos e referências morais para toda a humanidade, que precisa delas como de pão para a boca.

22 abril, 2017

EU SEM A MINHA CIRCUNSTÂNCIA




Não é difícil descrever a pintura de Antoine Watteau. Homem do seu espaço e do seu tempo, faz dela um mundo teatral cujos actores representam ambientes típicos da época: cenas de amor, galantes, idílicas, festivas, em luxuriantes jardins. Enfim, uma pintura hedonista que surge como um hino aos prazeres da vida e aos sentidos, em contraponto ao moralismo católico da Contra-Reforma.

Porém, se deixarmos as suas pinturas e entrarmos no mundo dos seus desenhos e esboços, tudo muda. É como se todas aquelas personagens saíssem entretanto do palco onde representam os seus papéis para entrarem no camarim para se desmaquilharem. Enquanto pisam o palco, percebemos que estão no século XVIII e não numa Florença renascentista, na tranquila e doméstica Holanda do século XVII, na impressionista Paris ou Londres do século XIX ou na decadente Viena ou Berlim do século XX. No camarim há apenas um ser humano, um ser humano entregue a si próprio, à sua própria e intransmissível identidade que, sendo de um espaço e de um tempo, a este resiste.

Há uma solidão na mulher do primeiro desenho que a afasta de todas as outras que, na sua pintura, representam diferentes tipos de cena. Ali está tão ensimesmada e afastada que deixa de fazer parte de qualquer espaço ou tempo. Uma imagem antiga mas ao mesmo tempo tão moderna que até poderia ser uma Edith Schiele de costas desenhada pelo seu amante. Apenas ela, e não solitariamente no jardim de um palácio, na sala ou num quarto desse mesmo palácio. Aí a sua solidão seria outra, uma solidão com pose, em grande estilo, uma solidão que nos interpelaria, dizendo "Olhem para mim, olhem para a minha solidão". Neste caso, ali de costas, ausente, nem sequer sabe que a olhamos e, nós, apesar de a vermos, não conseguimos identificá-la. Trata-se apenas de um corpo, um corpo que se debruça para um despojamento quase abstracto, longe de qualquer circunstância.

E que rosto é aquele, o da segunda mulher? De que século é aquele rosto? E o olhar? Aquele olhar não tem tempo, é um olhar que atravessa os séculos como Orlando. E o facto de ser um retrato e não uma pintura potencia ainda mais a intimidade da expressão e do olhar. Porque mesmo os retratos clássicos não estão livres de encenação, muita dela intelectualmente requintada, sem esquecer o contexto onde se insere a personagem e que lhe dá uma identidade histórica e social, a qual transcende a sua simples subjectividade e individualidade. Mas este desenho não é nada mais do que a representação pura de uma expressão e de um olhar. Uma expressão nua, de um olhar nu, sem apetrechos, sem um motivo, um ambiente, longe de uma pletórica narrativa povoada de personagens. O escritor Lobo Antunes costuma dizer que as suas crónicas estão para os seus romances como uma sonata para um sinfonia. Watteau, apesar da sua tão mundana pintura, era um homem frágil e distante. Não custa, pois, imaginar o grande sinfonista rococó, de lápis na mão, compondo melancolicamente estas sonatas visuais, longe de tudo e de todos, para serem vistas no silêncio da mais pura intemporalidade.

21 abril, 2017

O ARMAZÉM


O conceito de fim é um dos mais importantes da filosofia aristotélica. Para Aristóteles o fim de uma coisa é o seu maior bem. Uma cadeira tem um fim e é por causa desse fim que a procuramos. Se precisarmos de fritar um ovo a cadeira de nada nos serve. Uma cadeira serve para nos sentarmos e não para fritarmos ovos, limpar o pó, pintar, escrever ou pregar quadros numa parede. Até podemosubir para cima de uma para mudar uma lâmpada  mas não é certamente esse o seu maior bem. Vamos agora imaginar que as cadeiras tinham consciência de si. Graças à experiência, depois de verem as pessoas a sentarem-se nelas, iriam perceber o seu fim. Mas imaginemos uma cadeira acabada de fabricar e que fica esquecida num armazém. O que iria pensar de si ao olhar para si própria? Como poderia entender o seu fim se nem sequer sabe o que são pessoas ou o acto de sentar? 

Diz o mesmo Aristóteles que não faz sentido pensar «que um carpinteiro ou um sapateiro tenham uma função a exercer, mas que o homem não tem nenhuma e que a natureza o dispensou de qualquer obra». O que ele quer dizer é o seguinte: se o carpinteiro tem uma função, se o sapateiro tem uma função, por que não há-de ter o ser humano também uma função? Para Aristóteles, a natureza não brinca em serviço, um mundo fechado e ainda muito longe do universo infinito da ciência moderna que nasce algures pelo século XVII. Não é por acaso que na sua Física os corpos pesados estão em baixo e os corpos leves em cima, do mesmo modo que não é por acaso que os aristocratas estão em cima e os escravos em baixo.

Eu compreendo a preocupação do filósofo relativamente ao fim do homem. A chatice é que não podemos ver a vida como uma função como acontece com o sapateiro e o carpinteiro. Uma coisa é o ser humano enquanto carpinteiro, cabeleireira ou tratador de leões, outra é o ser humano enquanto ser humano. Eu sei o que devo fazer sempre que entro numa sala de aula para ensinar alguma coisa, como sei o que posso esperar da rapariga que me corta o cabelo ou do maquinista da CP. Mas o que tenho eu de fazer enquanto ser humano? Aristóteles, que era um homem simpático e bem disposto, achava que nós devemos é ser felizes. O grande problema é que para eu dar uma aula sobre Aristóteles tenho um programa e uma planificação. Para sermos felizes, pelo contrário, temos que jogar com a improvisação pois, que eu saiba, Aristóteles não escreveu nenhuma pauta para sabermos a música que devemos aprender a tocar. Daí a vida, neste aspecto, ser mais parecida com o jazz: muito improviso. Para uns será jazz mais clássico, para outros será mais free jazz. Nalguns casos o seu jazz é tão free que mais parece o Albert Ayler a tocar saxofone depois de ter bebido uma garrafa de uísque após duas noites sem dormir. O que eu queria mesmo era assim uma Arte da Fuga, de Bach, com a sua tão complexamente simples harmonia, dando-me bastante por satisfeito. Mas como isso não existe, não me livro de uma Fuga sem Arte. Que, em termos aristotélicos, equivale a uma fuga sem fim. Diz o George Steiner que We have no more beginnings. Fins, também não.

19 abril, 2017

A MARATONA

René Jacques

O que significa mesmo a expressão "No meu tempo"? "No meu tempo isto... No meu tempo aquilo"? Uma pessoa que invoca o "seu tempo" parece apresentar-se como um espectro que vai sobrevivendo num tempo que passou a pertencer a outros. Tal como uma alma penada que vive entre dois mundos, acredita que passou a viver num tempo aparente, pois o verdadeiro tempo foi aquele ao qual ficou eternamente presa e que já não existe. A pessoa, sim, existe, vive no mundo, ocupa-o espacialmente, mas a implacável passagem do tempo por ela transforma a sua existência, antes sólida, numa fragilidade gasosa e volátil. Observa o mundo, vive nele, participa dele mas, por outro lado, vai-lhe escapando, passando a vê-lo à distância. Isto pode ser explicado por associarmos a juventude à plenitude ontológica do indivíduo.

Quem diz "no meu tempo" vê o mundo mais ou menos como o primeiro atleta de uma estafeta 4x400. O atleta corre intensamente os "seus" 400 metros e quando chega ao fim, passa o testemunho a outro que começa a correr. Ora, tratando-se de uma equipa, o primeiro atleta continua a participar na prova. Mas já não participa activamente, o seu momento passou, fica apenas parado, esperando que a prova agora protagonizada por outros que lhe sucederam, chegue ao fim. Na vida real, isto acontece a partir do momento em que uma pessoa, atingindo uma idade avançada, presume que viu há muito o que a vida tem de mais importante: o futuro. O  "meu" tempo será o tempo em que se vê o tempo à nossa frente. Psicologicamente isto faz sentido. Mas ontologicamente não faz. Claro que o futuro aos sessenta ou setenta não é o futuro aos vinte ou trinta. Mas o tempo não nos conhece nem nos escolhe tal como nós, ilusoriamente, julgamos conhecê-lo e conquistá-lo para nós. Um dia é um dia, uma hora é uma hora, tenhamos vinte ou setenta anos de idade. E se numa estafeta há um atleta que tem de parar para outro avançar, na vida não tem de ser assim. O movimento de uns não tem de ser a estagnação de outros. A vida é uma pista onde todos correm ao mesmo tempo e na qual, enquanto a meta não é atingida, todos podem ganhar ou perder independentemente da idade. O chocolate comido por uma pessoa de setenta anos não é diferente do chocolate comido por uma outra de trinta anos. O tempo é, simultaneamente, de todos e de ninguém. Não se trata de uma estafeta em que o tempo de um não coincide com o tempo dos outros. Não, trata-se antes de uma maratona na qual todos correm ao mesmo tempo, apenas com a diferença de uns correrem mais depressa e outros mais devagar.

18 abril, 2017

TEMPO LIVRE



É bastante curioso o modo como o tempo condiciona a percepção de tantas coisas. Por exemplo, o facto de um videoclip musical ter quatro minutos, um anúncio publicitário durar cerca de um minuto e um filme entre os 90 e os 150 minutos.Quando se vai passar uma tarde a um museu a ideia é vê-lo todo ou quase todo, o que pode dar uma média de segundos por quadro, ou algo se for mais conhecido ou porque chamou a atenção. Ora, por que razão não se vai a um museu só para ver dois ou três quadros? Ou a um cinema para ver um filme que dure apenas 20 minutos? Isso não acontece porque não fomos habituados a ver uma pintura, ou uma fotografia como quem vê um filme, ou seja, estar duas horas a olhar para elas, ainda que tal se pudesse justificar, ou porque fomos educados a ver os filmes com base numa certa duração. Mas se podemos dar 7 euros por um pequeno livro que se lê num instante, por que razão não os podemos dar para ir a um cinema ver um filme de vinte minutos? Aliás, com a falta de tempo, isso até tornaria mais fácil uma ida ao cinema, ocupando uma menor parte do precioso tempo.

Em sentido contrário, também não estamos preparados para ver um filme de cinco horas num sábado à tarde mesmo que não se tenha mais nada de especial para fazer, pois torna-se demasiado longo para os nossos padrões. Quando eu era garoto e fiz a minha educação musical tive uma fase em que ouvi bastante Rock Progressivo. Hoje não tenho paciência para o ouvir mas reconheço a sua importância no modo como influenciou o meu sentido de duração musical que, mais tarde, viria a revelar-se importante na relação com outros géneros musicais, ajudando na altura a superar a minha habituação à lógica temporal do single, que era então o modelo prevalecente.

Kant fala do tempo como elemento meramente formal na nossa relação com os objectos sensíveis. Sim, claro que é formal. Porém, sendo formal, não consigo deixar de o sentir como uma coisa física, uma espécie de camisa de forças que se aperta ou alarga conforme as circunstâncias. Tal como uma dor de cabeça, que também não tem cor, cheiro, sabor ou textura, mas condiciona a nossa relação com um texto, um filme, uma pintura ou uma música, também o tempo, sendo formal, pode ser sentido por nós como realidade física constrigente e cuja dimensão pode ser regulada, alterada, corrigida, condicionando o prazer ou desprazer que sentimos perante um objecto que seja alvo da nossa percepção. Conseguir superar essa barreira do tempo, seja para mais, por exemplo, ver um filme longo, seja para menos, ir ao museu durante apenas 15 minutos para ver um quadro, aumentaria sem dúvida a nossa liberdade na relação que mantemos com as coisas, submetendo estas a uma estrutura rítmica que seja nossa e não àquela que nos querem impor.

17 abril, 2017

AS RÃS

Catalá Roca | Señoritas paseando por la Gran Vía

Falar de rabos pode parecer assunto de pouca elevação. Puro engano. A insuspeita história da filosofia é tão abrangente e versátil que nem os rabos ficaram de fora. Claro que ninguém imagina Platão, Descartes ou Kant a reverenciar conceptualmente a dimensão mais traseira do ser humano. Apenas um céptico o poderia ter feito de um modo mais desbocado, e se esse céptico for um homem chamado Montaigne lá no alto da sua girondina torre a assistir ao teatro das comédias humanas, já não surpreende então que nem os traseiros escapem. Alvejando aqueles que desejam elevar o ser humano a um nível que transcende a própria humanidade, diz ele com a sua jovial e inconfundível coloquialidade:

"Querem sair para fora deles mesmos e escapar ao homem. É loucura: em vez de se transformarem em anjos, eles transformam-se em bestas, em vez de se elevarem, afundam-se. Estes humores transcendentes assustam-me, tal como os lugares altaneiros e inacessíveis. [...] É uma absoluta perfeição, quase divina, saber usufruir lealmente do seu ser. Nós procuramos outras condições porque não entendemos o uso das nossas, e saímos para fora de nós por não sabermos o que aí há. Ainda que andássemos sobre andas, era com as nossas pernas que caminharíamos sobre andas; e mesmo que nos sentássemos no mais alto trono do mundo, seria sobre o nosso cu que nos sentaríamos [Et au plus enlevé trône du monde si ne sommes nous assis que sur notre cul]". Ensaios, III, capítulo 13.

O antigo presidente da Mairie de Bordéus não dá ponto sem nó, pois mesmo que aparente pairar apenas sobre a estratosférica dimensão antropológica ou ontológica da filosofia, à inócua bonomia do seu veneno não escapam as mais tangíveis realidades humanas em cujas imperfeições adora fazer pingar o corrosivo líquido. Por exemplo, quando noutras paragens dos seus Ensaios põe em causa a superioridade do ser humano face aos irracionais animais, ou a superioridade dos elegantes e afectados europeus face aos nus e selvagens índios da América do Sul. Ora, menos exemplar não será quando se trata de dissecar a superioridade moral, intelectual ou psicológica de certos humanos face a outros seres humanos, só porque mais social ou politicamente providos.

Como os chapéus, humores transcendentes há muitos, estando todavia muito longe de se esgotarem no místico anseio de elevar o homem àquilo que ele não pode ser, não tanto por não ter sido feito para o ser mas sobretudo porque foi feito para não o ser. Se há coisa que, para o filósofo, não somos nem podemos ser, é anjos. Não apenas porque, ao contrário, de serafins, arcanjos, querubins e potestades, fomos condenados às subterrâneas turbulências do sexo, mas também porque, estejamos sentados ou em pé, parados ou em movimento, a ler ou a dormir, a meditar dentro de um viçoso e bem lubrificado cérebro ou a enlouquecer numa desidratada mioleira que definha, ninguém o faz sem um traseiro pois em parte alguma do universo é suposto existir verso sem reverso. Somos todos iguais porque vamos todos um dia morrer, sejamos ricos ou pobres, inteligentes ou estúpidos, boas ou más pessoas, importantes ou invisíveis? Sem dúvida, vanitas vanitatum omnia vanitas. Mas somos todos iguais porque temos todos temos um rabo, e desse rabo não podemos passar ainda que nos sentemos no mais alto trono do mundo. Os reis têm um rabo, papas, cardeais e bispos rabo terão. Ao rabo também não escapam os mais nobres e os mais elegantes representantes da espécie humana e até os mais ínclitos pensadores o têm. Pode soar estranho, mas Platão, Descartes ou Kant tiveram os seus rabos e foi com esses rabos que tiveram de viver, embora, felizmente, não tenha sido pelos seus rabos que os seus dignos pensamentos saíram para ver a luz do dia, ao contrário do que acontece com tanta gente cujo pensamento só serve para obscurecer a luz do Sol e a pureza do ar com a ameaça da mais pestífera treva mental.

Há uma anedota inglesa que é mais ou menos assim «A guy walks into a bar with a frog on his head. The frog says to the barman: "How do I get this guy off my ass?» Anedota tão engraçada pode lembrar-nos de que, por muito importantes que nos sintamos, isso não chega para podermos estar livres do desprezo de uma rã cujo rabo se eleva acima da nossa cabeça. Rã essa, que do alto do seu rabo, até se podia chamar Rabelais.  

11 abril, 2017

O CALENDÁRIO



Estas duas gravuras do século XVI são irmãs siamesas. A primeira é de Richard Verstegan que, numa obra chamada O Teatro das Crueldades dos Heréticos do Nosso Tempo, deixa um registo da violência atroz dos protestantes sobre os católicos, neste caso, em Nîmes, e onde se poder ver um capitão protestante com um colar feito de orelhas de padres, um desses padres a quem foram cortadas as orelhas e o nariz, um padre morto e cujas entranhas vão ser misturadas com aveia para alimentar os cavalos. A segunda é de Jean Perrisin, que foi incumbido da mesma tarefa, apenas trocando a ordem das vítimas e algozes, vendo-se agora protestantes a serem massacrados por católicos.

Resolvi trazer estas gravuras, como poderia trazer uma outra relativa ao tristemente célebre massacre de Lisboa de 1506, por causa de uma questão que por aí anda a propósito do terrorismo islâmico: foi o Islão que se tornou violento ou antes a violência, latente ou manifesta, de muitos jovens muçulmanos, que se islamizou? Ora bem, o Islão não é violento nem se tornou violento. Dir-se-á haver passagens no Alcorão que tornam esta religião propícia à violência que tem deixado a sua marca de terror. Sim, há, só que influenciam tanto um agricultor marroquino, uma professora turca, um operário egípcio ou um comerciante sírio, como as passagens violentas do nosso Antigo Testamento um agricultor português, uma professora búlgara, um operário inglês ou um comerciante norueguês, todos eles cristãos. Uma religião é aquilo que as pessoas querem que seja e enquanto pessoas normais fazem dela uma experiência pessoal e social normal, pessoas com perfis desviantes, fazem dela uma experiência desviante sem que aquela tenha disso alguma culpa, tal como o futebol não a tem por haver hordas fanáticas que combatem em dia de Rio Tinto-Canelas, no estádio das Termópilas.

A violência é apenas uma entre muitas disposições naturais do ser humano e muitos são os seus rostos. Há a gratuita ou caprichosa enquanto desordem grave do foro psiquiátrico. Há uma violência momentânea que pode levar uma pessoa não violenta a sê-lo em circunstâncias excepcionais. Há pessoas intrinsecamente violentas e a quem basta um insignificante rastilho para o mostrar. Finalmente, existe uma violência motivada por causas, levando a que pessoas que podem não o ser nas suas vidas pessoais, sendo até dóceis e afectivas, e por crerem ferozmente numa causa pela qual desejam lutar, são capazes de todos os meios para atingir os seus fins. Falo de causas no seu sentido mais amplo, podendo incluir causas políticas, ideológicas, religiosas, ou até desportivas. Neste sentido, não há nenhuma causa que esteja imune a manifestações de violência, incluindo, como já vimos, o próprio cristianismo, uma religião do amor, da caridade, da compaixão.

O que está a acontecer com o terrorismo islâmico é uma mistura dos dois últimos tipos de violência, separadas ou associadas. Temos, por um lado, pessoas que não são pessoalmente violentas mas que, ao serviço de uma causa, se tornaram cirúrgica e racionalmente violentas, explicando a necessidade e bondade dessa violência com o rigor e clarividência argumentativa de um silogismo aristotélico. Fazem exactamente o mesmo que muitos católicos e protestantes do século XVI, revolucionários franceses do século XVIII, anarquistas do século XIX, ou já no século XX, patriotas sérvios, comunistas, republicanos e monárquicos portugueses, republicanos e falangistas espanhóis, nazis, revolucionários portugueses das FP-25, alemães da RAF, italianos das BV, independentistas bascos ou irlandeses. Por outro lado, temos pessoas que já por si são violentas, com um perfil de marginalidade e delinquência e que aplicam essa violência ao serviço de uma causa que veio dar um sentido metafísico e identitário às suas vidas, tantas vezes com grande falta dele.

Haverá um antídoto para este tipo de violência? Há, e não passa por acabar com as religiões, as ideologias, os países, o desporto: uma disposição céptica em relação às suas próprias crenças. Ser céptico não significa duvidar de tudo, deixar de ter crenças, deixar de agir porque em nada se acredita. Um cepticismo moderado traduz-se numa modéstia militante que faz com que nada seja dado por garantido, onde as crenças existem mas mantendo-se sempre uma atitude prudente e provisória em relação a elas. Pode-se acreditar em X mas mantendo sempre aberta a possibilidade dessa crença deixar de o ser por podermos estar errados, dizendo "parece-me que" em vez de "Sei que". Ou ainda acreditar em X mas também não fazer de X uma questão de vida ou de morte, de tudo ou nada, dando-lhe apenas uma importância relativa, como diria um estóico romano como Séneca. Uma pessoa pode acreditar ser melhor a república ou a monarquia, um estado mais liberal ou um estado mais social, o catolicismo ou o protestantismo, ou até acreditar que o seu país é maravilhoso mas não ter de matar ou de morrer por causa disso pois a vida e outros valores estão acima disso.

Infelizmente, não se trata de um antídoto que possa ser receitado por um médico para ser tomado três vezes ao dia durante um mês para tornar a pessoa imune a uma violência associada a causas. Não podemos chegar agora ao Iraque, à Síria ou às periferias de grandes cidades europeias onde milhares de jovens estão disponíveis para matar, para fazer uma campanha de sensibilização céptica. O antídoto é sobretudo histórico e cultural. No mundo ocidental, a proclamada morte de Deus (sintomático este título na capa do Correio da Manhã de hoje:" SEMANA SANTA-Páscoa leva milhares a correr para as praias") e a relativização e desmistificação de grandes modelos ideológicos, sociais e políticos, tantas vezes criticadas por estarem na origem de uma falta de rumo e de sentido, têm sido um excelente antídoto. Se, entretanto, coisas horríveis de natureza social e política se fizeram no século XX, em países cristãos como a Alemanha, URSS, Angola, Moçambique, Chile, Argentina ou Bósnia, foi precisamente pelo poder de sedução de alguns desses modelos. Já a religião tornou-se um exemplo, ao que parece definitivo, de inoculação, no mundo ocidental. Estas duas gravuras, hoje, tornaram-se absurdas, porque entretanto as pessoas, deixaram de ser religiosas ou, não deixando de o ser, passaram a ver e a viver a religião de outra maneira, longe de qualquer experiência apocalíptica, escatológica, milenarista, monista, cuja lógica acabou por contaminar a política como nos já referidos exemplos.

O que está a acontecer entre nós, que vestimos a camisola do Ocidente, e alguns muçulmanos é um problema de calendário e de linguagem. Nós matámos Deus, ainda que sem tomarmos bem consciência disso, deixando de compreender e aceitar grande parte do que foi biblicamente revelado e institucionalmente imposto ao longo de séculos, enquanto eles ainda estão nestas gravuras do século XVI, motivados por uma revelação que os torna privilegiados aos olhos de Deus. Os homens que numa das imagens usam o colar de orelhas ou tiram as vísceras ao padre ou que na outra enforcam os seus irmãos em Cristo, são hoje muçulmanos fanatizados e terroristas que, radiantes, degolam os despedaçam cristãos. Para os ocidentais de raiz cristã, estas gravuras são incompreensíveis, mais parecendo vir de um bárbaro planeta descrito por Jonathan Swift a muitos anos-luz da Terra, povoado por bizarros yahoos. Já esses jovens violentos, vivem nesse planeta e falando a sua língua sem erros de dicção ou ortográficos.

Ora, enquanto assim for, estamos perante um problema sem solução. A única alternativa é mudar as folhas do calendário e levá-los a falar a língua que é falada pela esmagadora maioria da humanidade, que apenas deseja ter uma vida normal e decente, independentemente da religião ou do regime político ou constitucional em que se vive. Embora na altura talvez parecesse inverosímil, os franceses destas duas gravuras conseguiram virar a folha do calendário, tal como os lisboetas de 1506. Só que para tal ser possível ou pelo menos numa escala menos ameaçadora, seria necessário inoculá-los da violência latente da qual a maior parte das pessoas está protegida mas que afecta sobretudo pessoas que vivem em contextos social, económica e até urbanisticamente desfavoráveis, as incubadoras de onde sai grande parte da violência em qualquer parte do mundo. Não por acaso Lisboa é uma cidade mais complicada do que Berna e Caracas mais complicada do que Lisboa, e estou naturalmente a pensar em cristãos ou gente ocidentalizada, em países onde um agricultor normal, um operário normal, uma professora normal, um comerciante normal, não se distinguem de um normal agricultor marroquino, operário egípcio, professora turca ou comerciante sírio, muçulmanos que apenas desejam ter uma vida normal.

10 abril, 2017

A ROOM WITH A VIEW

Pieter Bruegel | O Velho, Parábola dos Cegos


Uma aluna minha, finalista, e o namorado, também finalista, partiram há dias para a sua viagem de finalistas. Os dois sozinhos para Itália. Chegada a Roma, dormir entretanto em Florença e regresso por Bolonha. Abençoados sejam estes pombinhos lá na cidade das flores. Antes preferem um quarto com vista do que um quarto de vista para coisa nenhuma.

09 abril, 2017

AO CUIDADO DO SR. JEROEN DIJSSELBLOEM


             
Alfredo Cunha

           
           Lá quando em mim perder a humanidade
           Mais um d′aquelles, que não fazem falta,
    Verbi-gratia — o theologo, o peralta,
                     Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:

Não quero funeral communidade,
     Que engrole sub-venites em voz alta;
   Pingados gatarrões, gente de malta,
    Eu tambem vos dispenso a caridade:

      Mas quando ferrugenta enchada idosa
      Sepulchro me cavar em ermo outeiro,
       Lavre-me este epitaphio mão piedosa:

  «Aqui dorme Bocage, o putanheiro: 
Passou vida folgada, e milagrosa;
          «Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.»

08 abril, 2017

MUITA VIDA NOS ANOS

Orlando | fotograma

Qualquer pessoa sabe que um dia passado a olhar para uma parede parece nunca mais chegar ao fim e que um outro em que se fazem muitas e variadas coisas passa rapidamente. Falamos, neste caso, de uma experiência do tempo a curto-prazo, por exemplo, um dia ou uma semana. Mas já vai ser o contrário se pensarmos na experiência do tempo a longo-prazo. Se a vida de uma pessoa for sempre igual, como se fosse passada diante de uma parede branca, um dia vai olhar para trás e descobrir, meio perplexa e assustada, que o raio do tempo passou com uma velocidade inacreditável, não percebendo como foi possível chegar aos 50 ou 70 anos sem dar por isso. Já uma pessoa que procura sempre fazer mais e novas coisas, nem que seja aprender alemão ou fazer um curso de pintura aos 70 anos, consegue fazer esticar o tempo e sentir que passou mais lentamente, ao contrário da pessoa para quem o tempo, na experiência a curto-prazo, passou velozmente por ter feito mais e novas coisas.

Isto sou eu a escrever mas apenas me limitei a resumir a reflexão do jovem Hans Castorp no capítulo Excurso sobre o sentido do tempo, do romance A Montanha Mágica. A ser verdade o que ele diz, e a experiência parece mostrar que assim é, então não faz sentido cantar "Muitas felicidades/Muitos anos de vida», no sempre excitante momento em que um aniversariante se prepara para soprar sobre as velas. O que se deveria cantar, neste caso, batendo fortemente as palmas e com um sorriso de esperança rasgado no rosto, é "Muitas felicidades, muita vida nos anos". 

07 abril, 2017

AVANT LA NET

Ramon Casas | Jovem Decadente, 1899

Há quem explique o facto de haver tanta gente com a necessidade de estar sempre ao telemóvel, conectado a uma rede social ou perante um televisor ligado, por uma moderna incapacidade de estar sozinho consigo mesmo. Há quase 50 anos, o famoso etólogo Konrad Lorenz já lamentava a neurastenia do homem moderno que o faz fugir da introspecção, tudo fazendo para não ter de pensar, nem que para isso tenha de estar perante um televisor a ver publicidade ou a ouvir um transístor numa floresta. Nem quero pensar no que diria se fosse hoje. Ainda assim, tenho as minhas dúvidas relativamente a um moderno retrocesso mental. O que separa o presente do passado talvez não seja uma diferença entre as pessoas de hoje e as de ontem mas apenas o facto destas ainda não terem telemóvel, um televisor em frente do sofá e acesso a redes sociais. O que nos distancia não é o que nós somos hoje, o que nos distancia é o que os de ontem ainda não conseguiram ser.  

06 abril, 2017

ESPETO DE PAU


René Magritte | La Réprodution Interdite

O homem? Bem, o homem conseguiu cultivar as terras, domesticar animais, construir diques, barragens, pontes, canais que ligam mares e oceanos que a geologia separou, cidades que parecem torres de babel, electrodomésticos, computadores, robots, produtos de beleza, roupas sofisticadas, meios de transporte que anulam distâncias, meios de comunicação que ligam pessoas nos antípodas em tempo real, vacinas e medicamentos que tornaram irrisórias doenças que antes aterrorizavam, instrumentos sofisticados que desvendam os segredos mais ocultos da natureza, ou prever o estado do tempo para sabermos se saímos de casa com ou sem chapéu-de-chuva. Mais coisa, menos coisa, é isto que diz o coro no início da tragédia Antígona, escrita por Sófocles há dois mil e tal anos. Daí esse mesmo coro reconhecer ainda que, apesar dos muitos prodígios que existem no mundo, nenhum é maior do que o homem. O termo grego usado para definir o homem é deinón. Eu não sei grego mas diz quem sabe que se trata de uma palavra de difícil tradução, que tanto pode significar algo que provoca admiração e fascínio, como temor, no sentido de algo que está fora do lugar, que é estranho, que foge à ordem e previsibilidade das coisas, implicando, por isso, uma desarmonia. A frase, concretamente, é a seguinte: "Há muitas coisas deinón, mas nenhuma delas é tão deinón quanto o ser humano".

Para entender esta duplicidade do ser humano é preciso acompanhar o que se passa na peça. Uma peça onde abundam palavras como "deliberação", "raciocínio" ou "conhecimento", mas onde o destino trágico bate à porta de cada uma das personagens, cada uma das quais com a sua visão do mundo e ordem de valores, que desabam como um castelo de cartas por causa de escolhas que pareciam ser as melhores. Em suma, lá fora, no mundo, na natureza, no universo, o homem lá vai a pouco e pouco resolvendo o que é preciso. Porém, ao entrar em si próprio, no seu próprio mundo, continua a confrontar-se com os problemas de sempre e para os quais parece não encontrar soluções. Perante esse prodígio, esse deinón que é o homem, dá vontade de dizer o provérbio "Em casa de ferreiro, espeto de pau". Por que razão é o homem tão bom a ordenar o mundo, a natureza, a resolver problemas práticos de ordem técnica, exibindo uma evolução estrondosa (deinón, por que não?) desde o tempo em que Sófocles escreveu a peça, mas quando chega a si próprio, quando se trata de conhecer, raciocinar ou deliberar em momentos onde entra o seu próprio destino, fica à mercê da tyché, isto é, da sorte, da fortuna, dos sortilégios do destino?

Tal acontece porque, ao contrário do que pode fazer com o seu corpo ou com a natureza, não existe uma tecnologia da deliberação e do raciocínio prático. A peça chama-se Antígona mas para Martha Nussbaum [A fragilidade da Bondade-Fortuna e Ética na Tragédia e na Filosofia Grega], o seu verdadeiro tema é «a falha de Creonte». Creonte vê o mundo com base em duas palavras: orthos (recto, que está na origem, por exemplo, de ortodoxia) e orthóo (rectificar). Simplificando: Creonte é um optimista, alguém que acredita na ordem, no poder da lei que imprime ordem e justiça no mundo, no poder do homem para tomar decisões de um modo lúcido e racional, que acredita na eliminação do acaso e da contingência na vida humana mas que, depois, já com o filho morto, resultado dessa sua procura da ordem e da justiça, é obrigado a dizer:

Ai!
Pecados de uma mente dementada,
fatais, obstinados!
Ó vós que vêdes ser da mesma raça
quem mata e quem morre!
Ai das minhas malditas decisões!
Ai, filho, com destino prematuro,
ai!ai!
morreste, partiste,
na juventude, por insensatez,
não tua, mas minha!
[Versão Maria Helena da Rocha Pereira]

Creonte, aquele que menos quer falhar, que em melhor posição está para não falhar, é quem mais falha, atingindo o cúmulo da insensatez, acabando a peça a assumir estar torto tudo o que tem nas mãos (o contrário de orthos, portanto), e pendendo sobre ele um insuportável futuro. O seu problema reside no facto de a sua razão prática não ser a razão de um engenheiro, de um arquitecto, de um médico, de um capitão de navio, uma razão com manual de instruções para resolver problemas. Creonte é apenas um homem que toma decisões erradas quando acredita tomar decisões certas, alguém cujos desejos, que lhe parecem bons e justos, conduzem a dramáticas situações fora de controle. Crente é rei, tem o poder de decisão, procura gerir bem os conflitos mas acaba por perceber que o conflito é parte da vida, sendo muitas vezes impermeável à razão. Creonte, qual ferreiro, com a sua tecnologia jurídica e política, governa bem a cidade mas, depois, quando se trata de se governar a si próprio, é o descalabro, com o seu espeto de pau. Pau que é feito da mesma madeira  de que fala Kant, muitos séculos depois, quando diz que "de um lenho tão retorcido, de que o homem é feito, nada de inteiramente direito se pode fazer".

04 abril, 2017

MORRER NA PRAIA


Esta fotografia não é de um moribundo qualquer mas de um dos mais míticos e poderosos políticos do século XIX. Eis Otto von Bismarck no seu leito de morte, em 1898. A fotografia foi feita secretamente por Max Priester e Willy Wilcke e publicada já depois da II Guerra Mundial. Por muito subjetiva que seja e que pressuponha uma construção do sujeito, há um dado que não pode ser desprezado em qualquer registo fotográfico: ser feito por uma máquina. Claro que o fotógrafo pode fazer com essa máquina o que bem entender, nomeadamente criar mistificações, ilusões, truncagens, construir personagens. Mas também e, neste caso, contrariamente ao que é habitual com a pintura de heróis e figuras importantes, destrui-las, através de um simples gesto mecânico.

Esta fotografia rouba-nos o mito Bismarck e, como troca, dá-nos o homem Bismarck. Hoje, os políticos gostam de fingir que são pessoas vulgares, apreciando coisas vulgares, fazendo coisas vulgares, dizendo coisas vulgares, como se fossem os nossos vizinhos do lado com quem se bebe uma imperial no café da esquina. Mas Bismarck não é desse tempo. Bismarck teria querido ficar eternamente Otto von Bismarck, um dos "grandes do mundo". Neste sentido, e ao contrário dos políticos actuais, que se aproveitam da fotografia para se enaltecerem vulgarizando-se, Bismarck é vítima da fotografia. Viveu e morreu no século XIX mas, com esta fotografia, azar dele, ao contrário de um D. João II, de um Carlos V, de uma Isabel I, de um Frederico, de uma Catarina, de um Napoleão, intrinsecamente protegidos de um qualquer intruso com uma máquina fotográfica escondida, fica para a eternidade como homem do século XX, morrendo vulgarmente num qualquer hospital como qualquer outro comum dos mortais. Foi mesmo por um triz. Uns anos antes e não teria descido aos vulgares olhares dos dois séculos seguintes. 

02 abril, 2017

O FRUTO PERMITIDO

Lucas Cranach

Contrariamente ao efabulado pela tradição, não há registo de maçã ou macieira na Queda Original. É longa a passagem onde se descreve a mais famosa queda da história, sobretudo nestes tempos em que mais de vinte centímetros de texto já provoca borbulhas no hemisfério esquerdo do cérebro, mas vale a pena uma ida com o cântaro à fonte para não ficarem dúvidas sobre a enigmática identidade do célebre (ou mediático, ou viral, como agora se diz) fruto do nosso genésico quintal:

A serpente, o mais estatuto de todos os animais que o Senhor Deus fizera, disse à mulher: 'É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvores do jardim?' A mulher respondeu-lhe:'Podemos comer o fruto das árvores do jardim, mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: 'Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis'. A serpente retorquiu à mulher: 'Não, não morrereis; mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal'.
Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto,  e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu, Então, abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo que estavam nus,  prenderam folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas como se fosse cinturões, à volta dos rins.
Nessa altura, aperceberam-se de que o Senhor Deus percorria o jardim pela frescura do entardecer, e o homem e a sua mulher logo se esconderam do Senhor Deus, por entre o arvoredo do jardim. Mas o Senhor chamou o homem e disse-lhe:'Onde estás?' Ele respondeu:'Ouvi o ruído dos Teus passos no jardim, e, cheio de medo, porque estou nu, escondi-me'. O Senhor Deus perguntou:'Quem te disse que estás nu? Comeste, porventura algum dos frutos da árvore da qual te proibi comer?' O homem respondeu:'A mulher, que trouxeste para junto de mim, ofereceu-me o fruto e eu comi-o'. O Senhor Deus perguntou à mulher:'Porque fizeste isso?'A mulher respondeu:'A serpente enganou-me e eu comi'.

A minha questão agora é a seguinte: por que não foi Deus claro e inequívoco na indicação da árvore, de modo a permitir à humanidade ficar com uma exacta noção do fruto que separa o caminho do bem e do mal? Pronto, se fosse uma maçã ficaria a maçã, se tivesse de ser a pêra, ou o figo (a rapidez com que se servem das suas folhas pode ser uma boa pista), ou a banana, ou o melão, ou o tomate, ou o pêssego, enfim, o doce e suculento dióspiro, era esse que ficava, ficando o assunto arrumado. Ora, Deus não foi claro, simplesmente porque não o quis ser.  No Decálogo, quando diz "Não Roubarás", isto é tão óbvio como dois mais dois serem quatro ou as galinhas porem ovos. Então por que motivo não se passou o mesmo com a árvore no meio do jardim? Sabemos que no meio está a virtude, o problema agora é saber o que está no meio. Dir-se-á que Deus foi caprichoso, nada, aliás, que surpreenda, vindo de Quem vem. Porém, fascinado que sou pelos mistérios e encantos da Teologia, arrisco dizer que há uma dupla intenção divina nesta ambiguidade, sendo uma delas teórica e a outra prática.

Comecemos pela teórica. Sendo certamente Deus um apaixonado pela Idade Média, alexandrina época na qual, sendo o seu centro, se sente verdadeiramente em casa, e que está para Ele como o Renascimento para as joviais ninfas ou o século XIX para poetas taciturnos e tuberculosos, estará já aqui a preparar a distinção entre o que virão a ser os futuros Trivium e Quadrivium, aos quais deve tanto a Cultura Ocidental, também a Sua preferida pois amor com amor se paga. Se quisermos ir mais longe, estará já mesmo a marcar a Sua posição no que virá a ser a diferença radical entre problemas filosóficos e problemas científicos. Sabemos que o limão e a laranja são citrinos, que a maçã tem 52 calorias por cada 100 gramas, que a banana é rica em potássio. Pronto, isto é científico, resultante de uma saber empírico e experimental. Agora, uma coisa é sabermos tudo o que há para saber sobre frutos, outra coisa é saber qual a árvore ou o fruto do bem e do mal. Claro que Deus não nos iria deixar perdidos num mar alto de ignorância e inconsciência, daí o Decálogo como exemplo de um bote de salvação. De qualquer modo, por muito elevado que seja o desenvolvimento tecnológico da humanidade, por muito sofisticadas que sejam as leis formuladas matematicamente, nunca teremos acesso experimental e empírico ao que verdadeiramente se passou naquele genésico mas também tão desfrutuoso dia.

Claro que teria de haver uma consequência prática disto, a qual me parece óbvia. Costuma-se dizer que se dá com uma mão para se tirar com a outra. A lógica disto vai no sentido de começar pelo positivo para terminar com um oposto negativo. Já no caso bíblico parece-me acontecer o contrário. Deus, autoritário e assumindo uma veemente paternidade, começa por marcar o seu território, dizendo que esta coisa de ser homem não pode ser o mesmo que ser um cavalo, uma carpa, uma borboleta ou uma cegonha. Não, somos inteligentes e racionais, feitos à imagem e semelhança do Criador e já na altura almoços grátis era coisa que não havia. Eis, pois, o momento em que Deus nos tira a candura da inconsciência, a paradisíaca inocência, o prazer da acção pura. Há uma árvore, há um fruto proibido, temos, pois, de aprender a viver com isso e os nossos pais pagaram bem cara a tentação de serem tão livres como o cavalo, a carpa, a borboleta ou a cegonha. Porém, ao não ficar registado o nome do fruto, porque Deus não quis que ficasse registado, nós, os que já nascemos a leste do paraíso, e tirando aquilo que é mais óbvio como o "Não Matarás", ficaremos sempre na dúvida sobre o que é verdadeiramente bom ou mau. Sentiremos assim o peso da incerteza quando, de manhã, comermos um sumarento pêssego. Pensaremos "Será este o fruto e estarei a pecar?". Entretanto, à tarde, com a aveludada carne de um dióspiro a escorrer pelas comissuras labiais pensaremos "Ou será antes este?" Todavia, à noite, com a amanteigada consistência de uma banana a desfazer-se no calor da boca, a dúvida atingirá o seu ponto supremo e mais inquietante.

Em suma, perdemos a liberdade, a espontaneidade, a irresponsabilidade do animal. O fruto existe e por isso sabemos que não podemos arriscar tudo, comendo o que quisermos e a quantidade que quisermos. Há, pois, limites e precauções a tomar. Mas também sabemos que, não sendo clara a indicação do fruto, nada nos obriga a prescindir de qualquer um deles, sem termos de ficar presos à camisa de forças da culpa. Somos e não somos livres, somos e não somos racionais, somos e não somos totalmente conscientes do que fazemos, em simultâneo. Ser humano sempre foi assim e é assim que irá continuar a ser. Bom proveito.

01 abril, 2017

RISOTO DE VERDADES


Hoje é dia de pregar ludicamente mentiras para depois rirmos da credulidade, nossa e dos outros. Uma espécie de Carnaval epistémico que também ninguém leva a mal. No Carnaval, quando se pergunta a alguém se se mascara, uma resposta clássica é dizer que não, pois já é assim que se anda durante o ano. O mesmo se poderia dizer no que toca à relação entre o carnaval epistémico do 1 de Abril e a seriedade do resto do ano. Para quê pregar mentiras quando esta já é habitual? Como acontece com as máscaras fora da época carnavalesca, também as mentiras entre o dia 2 de Abril e 31 de Março são mais subtis e refinadas, muitas delas sendo mesmo pregadas com a voz esganiçada e tonitruante de uma varina para reforçar a competência e seriedade de quem as vende. Daí não devermos estar à espera do 1 de Abril para rir deste engraçado jogo entre a verdade e a mentira, mas aproveitar todos os outros dias para o fazer. Um excelente antídoto para nos protegermos das verdades que por delas não termos sabido rir irão depois fazer chorar. 

29 março, 2017

OS CORREDORES E AS PAREDES

Jean Luc Godard | Bande à Part

Até nem está no Louvre mas foi da figura de Cronos devorando os seus filhos numa parede do Prado, que me lembrei enquanto via Francofonia, filme/documentário de Sokurov sobre o museu parisiense. Sobre o Louvre em particular mas, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre o tempo e sobre a natureza de um museu, qualquer museu. 

Uma obra de arte revela factos e personagens que o tempo tornará espectrais. O que foi a Revolução Francesa? Um mundo ruidoso e virado ao contrário mas que hoje não passa de um simples nome para catalogar um conjunto de factos e quem os personificou. Quem foram Robespierre ou Napoleão, esse espírito do mundo que, Hegel, um filósofo da história, viu montado num cavalo mesmo por baixo da sua janela? Não só o espírito do mundo mas também senhor de meio mundo, um pequeno pedaço de homem mas um grande salto para a humanidade. Mas, depois, tudo morre, Robespierre, Napoleão, os seus mundos, para se desvanecer definitivamente na textura do mundo futuro, ficando apenas uma indirecta e vaga memória.

No centro do filme surgem dois homens de campos opostos mas unidos pelo amor à arte. De um lado, Jacques Jaujard, francês, director do Louvre, ex-combatente na I Guerra Mundial contra os alemães. Do outro, Franz Wolff Metternich, um aristocrata alemão formado em História de Arte, que combateu os franceses na I Guerra Mundial e que se encontra em Paris com o objectivo de, numa Europa onde a guerra vai crescendo, proteger as obras de arte naturalmente ameaçadas pelo brutal impacto das bombas. Mais até do que figuras centrais são figuras simbólicas no sentido verdadeiramente etimológico da palavra: unir duas partes que estão separadas. Jaujard e Metternich são dois homens de um mundo em convulsão, seres que habitam no tempo, um tempo que se faz e desfaz como se viesse do tear de Penélope. Mas também são dois homens que, enquanto amantes da arte, vivem num mundo inteligível, imutável, silencioso, impermeável às turbulências sociais e políticas da história.

Dentro do museu deixa de ser importante ser francês ou alemão, civil ou militar, invasor ou invadido. O que é ser francês ou alemão, civil ou militar, perante a expressão de La Gioconda, perante uma múmia egípcia, o Naufrágio da Medusa? Aliás, o que é ser mesmo Napoleão, o corso de carne e osso que marcou uma parte da história de França, e que surge como personagem no filme, passeando pelo museu, perante a sua coroação eternizada no quadro de Jacques-Louis David, ou perante os tesouros trazidos de países longínquos? Nada. O peso do mundo vai-se dissolvendo mas o museu permanece com as suas vozes silenciosas para quem as quiser, ou souber, escutar. Nós não vivemos a guerra franco-prussiana, quem a viveu não viveu as guerras napoleónicas que, por sua vez, não viveu a guerra dos Trinta Anos. O espaço e o tempo tornam os mundos distantes, o nosso do mundo de Bismarck, o deste do de Napoleão e por aí fora: Goethe, Rousseau, Frederico II, Catarina ou Francisco I. Cada um olha para o seu mundo mas ao suspenderem todos eles o olhar sobre La Gioconda, descobrem um mundo que é de todos e não é de ninguém, um mundo que se autonomizou, que conquistou o seu próprio sentido e conservado num silencioso aquário onde o relógio parou e, onde ao contrário dos luscos-fuscos da história, a luz é eterna, sendo, por isso, mais real, mais verdadeiro e mais absoluto do que aquele à saída do museu, com os seus dias sempre e fatalmente contados.

27 março, 2017

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE ESTAR


As coisas que já se disseram nas redes sociais sobre a indiferença desta mulher na ponte de Westminster logo depois do atentado. Indiferença que só pode ser explicada pela sua brutal insensibilidade e desprezo pelo sofrimento das vítimas. Muçulmana, claro, e na volta ainda se irá a rir por dentro por mais esta brincadeira. Podemos pensar que tão acalorada indignação tem por detrás a islamofóbica mãozinha do costume, aproveitando o facto de a mulher se ter posto a jeito para se poder anatematizar a ralé muçulmana e o seu desprezo por nós, cristãos. Porém, há que exercitar um pouco a memória e lembrar a célebre fotografia, vencedora do World Press Photo de 2007, na qual um grupo de jovens bonitos e elegantes dentro de um descapotável, passeia em Beirute, por entre os escombros, após um bombardeamento israelita. A reacção foi igual: que desplante, que desfaçatez, passear assim num cenário de destruição como se estivessem em Beverly Hills. Muito bem. Só que, neste caso, não se tratou de muçulmanos indiferentes às vítimas cristãs mas de muçulmanos entre muçulmanos. E se exercitarmos ainda mais a memória, podemos invocar a também célebre fotografia de Thomas Hoepker em 11/9: enquanto as Torres Gémeas vão ardendo, com a humanidade em directo a assistir em estado de choque, no outro lado do rio, junto à baía de Brooklyn, vários jovens conversam descontraidamente como se estivessem numa esplanada a beber umas cervejas. As coisas que na altura também se disseram sobre a falta de valores e egoísmo da juventude. Neste caso, cristãos, muito WASP até, assistindo à matança de cristãos, não muçulmanos. Em suma, para explicar as reacções à fotografia de Westminster, há que procurar uma resposta mais vasta do que a simples pista islamofóbica. 

A meu ver, todas estas respostas resultam de uma incapacidade moderna para ver a realidade tal como ela é. Já estamos de tal modo habituados a viver num mundo virtualmente condensado pelas televisões, Internet e redes sociais, onde apenas conta o que é mediaticamente visível e impactante, que ficamos cegos perante a microscópica normalidade ou vulgaridade das acções e gestos de que são feitas as nossas vidas quotidianas. A mulher desta fotografia, em pânico (confirmado depois pelo fotógrafo), comete o pecado de telefonar para dizer que está tudo bem consigo. Em Beirute, cometem o pecado de serem jovens e bonitos e bem vestidos, regressando ao bairro onde vivem, dando conta da sua destruição. Em Nova Iorque, aqueles jovens cometem o pecado de, tal como os anteriores, em vez de estarem cheios de sangue, aos gritos ou a socorrer pessoas feridas, viverem do outro lado do rio, assistindo, impotentes, à destruição das torres.

Mas isso os nossos olhos não vêem. Apenas os dramáticos 30 segundos ou minuto e meio da praxe que transformam a realidade num drama barroco, feito de dor, sofrimento, morte, o qual, depois pede de imediato o momento "Je suis Charlie", a pletórica comoção das vigilantes e reactivas redes sociais, sempre prontas para salvar o mundo com a sua moral feita de lágrimas, frases feitas e velas acesas. Depois do fascismo higiénico e do fascismo alimentar, somos igualmente ameaçados pelo fascismo dramático que ataca tudo o que é suspeito de anormalidade precisamente por ser normal. Esta mulher na ponte de Westminster deveria ter pensado nisso e esconder-se em qualquer lado para poder então telefonar. Os fascistas das redes sociais não dormem.

26 março, 2017

O CEMITÉRIO



Uma pessoa olha para esta fotografia e não pode logo deixar de pensar «Bolas, pois é, o jeito que daria a uma Europa tão desvairada, o velho idealismo em que nos uníamos contra o 'Turco', os infiéis, os inimigos da fé, fossem árabes ou Hunos, em redor de um projecto comum: o cristianismo». Os cérebros podem andar meio secos mas é claro que não passa pela cabeça de ninguém um quixotesco regresso a uma Europa medieval. Mas, caramba, esta fotografia não deixa de me interpelar. Repare-se bem. Líderes europeus que falam diferentes línguas, uns do norte, outros do sul, outros do leste e outros do oeste, todos eles maquinistas que conduzem comboios com velocidades bem distintas. Uns vivem no bem bom dos copos, das mulheres e das praias, pago por outros que só sabem trabalhar e passar o resto do tempo em casa, junto da família, rezando durante os longos e frios serões do norte. Uns são mais liberais, outros mais social-democratas e até há extremistas infiltrados, à esquerda, como na Grécia, à direita, como na Hungria ou na Polónia. Uns têm eixos políticos entre si, fazendo parte de clubes elitistas dentro da própria união enquanto outros se sentem os patinhos feios que não são convidados para os chás das 5. Mas depois olhamos para o centro, bem para o centro, e o que vemos? Naquele capela de tanta simbólica importância, e no meio de tanta roupa escura a fazer lembrar zelosos e competentes funcionários de uma agência funerária, uma figura branca, quase angélica, o bispo dessa velha Roma cujo sopro espalhou uma cultura comum por todo um continente, uma língua comum, um livro comum, levando tanta daquela gente a unir-se para ir combater em Jerusalém ou em Lepanto em nome de um ideal e de uma fé comum.

Mas não nos deixemos iludir. Nem Hollande ou a senhora Merkel são Henrique IV a caminho de Canossa nem o bom Franciso é um Gregório VII excitado por vê-los ajoelhados a seus pés. E até porque nem Gregório VII ou qualquer outro papa que fosse, alguma vez conseguiu unir verdadeiramente uma Europa que sempre foi mais de famílias, de dinastias, de reinos, enfim, de interesses privados, do que propriamente cristã. Nada melhor do que Richelieu e a sua raison d'état para compreender o velho espírito europeu, sempre tão alegremente posto à prova em campos de batalha que vão de Aljubarrota e Estalinegrado, passando por Trafalgar, Austerlitz, a lama das Ardenas, aproveitando-se finalmente ter o soldado soviético a colocar a bandeirinha no Reichstag para ir à casa de banho fazer um xixi e fumar um cigarrinho.


Como explicar a velha Europa cristã a totós não é um exercício fácil, talvez seja interessante recorrer ao Portugal-Hungria de ontem. Estádio da luz quase cheio, bandeirinhas na mão, hino nacional cantado, toda a gente em delírio com as fintas e os golos de Cristiano, aliás, nome que até vem a calhar. Mas, depois, cá fora, todos regressam para os seus interesses privados e nada de grandes misturas, uns ricos, outros pobres, uns corruptos, roubando o dinheiro que é de todos, outros recebendo subsídio de desemprego com dinheiro dos impostos de outros. Ah, e uns são do Benfica, outros do Sporting, outros ainda do Porto, havendo cada vez menos do Belenenses ou da Académica. É isto um drama? Pode ser mas deveríamos estar habituados. Foi nesta Europa que sempre vivemos e é nesta Europa que sempre iremos viver, esteja esta mais unida ou desunida do que agora. Como diria Paul Hazard, a consciência europeia é uma consciência de crise e estar em situação crítica está-lhe na massa do sangue. Ainda assim, vale a pena recordar o que diz Ivan nos Irmãos Karamazov, a caminho da Europa: «Sei que me desloco para um cemitério, mas é o mais agradável de todos os cemitérios». Podemos ter lado a lado campas rasas e sumptuosos jazigos românticos. Mas enquanto estiverem todos entretidos com o chilrear dos passarinhos e o rumorejar das árvores abanadas por um cálida brisa de fim de tarde, nós, os vivos e que só queremos uma vida normal, podemos dormir descansados.

25 março, 2017

OS PRAZERES E AS NOITES

Charles Corbet | Melancholia, c.1910 [autocromo]

O que significa uma pessoa acordar de manhã e dizer que passou bem a noite? Significa que dormiu bem. Mas parece ser um estranho passar bem. Passar bem implica um prazer e sentir prazer implica ter consciência dele, logo, uma pessoa não pode ter prazer em dormir, pois para ter prazer em dormir deveria ter a consciência de estar a dormir, o que é impossível. Acontece com o dormir o mesmo que dizia Epicuro a respeito da morte: se dormimos não estamos conscientes, se estamos conscientes, não dormimos.

A ideia parece ser então dizer que se passou bem a noite, não por ter havido prazer em dormir mas por se ter estado o mais inconsciente possível e durante o mais tempo possível. Ora, isto dá uma imensa liberdade a quem deseja dormir bem, pois o objectivo supremo passa por se libertar completamente dos conteúdos do mundo. O seu bem-estar, o seu "passar bem" não está dependente do mundo e do que este tem para oferecer, mas antes do que o mundo deixa de lhe oferecer enquanto mergulha na escuridão da sua inconsciência. Dormir bem é, por isso, uma expressão de liberdade. A pessoa passou bem a noite porque a atravessou livremente, regressando de um paraíso inconsciente e perfeito na sua total ausência de lucidez. A vida ideal seria mesmo estar a dormir e acordado ao mesmo tempo, ter um olho sorvendo o mundo enquanto o outro tranquilamente o apaga. 

22 março, 2017

O CHAPÉU

August Sander

Turma complicada. Informo de novo o aluno de que deve tirar o boné. Desta vez resolve questionar a ordem, alegando que um boné não perturba a aula. Bem vistas as coisas, tem razão. Se ele viesse com um apito, isso sim, faria diferença. Agora, um silencioso e discreto chapéu sobre uma cabeça é, de um ponto de vista objectivo, tão neutro ou indiferente como as paredes da sala de aula ou mais ainda do que as lâmpadas que por vezes se lembram de lançar um zumbido irritante. Porém, tivesse o aluno lido A Montanha Mágica, ir-se-ia lembrar da conversa em que Joachim Ziemsen fala ao primo daquele dia em que, no corredor do sanatório, se cruzou com três pessoas com o viático, as quais se dirigiam para o quarto de uma menina, dias antes cheia de vida, para lhe darem a extrema-unção. Um momento de forte perturbação para Joachim, ficando sem saber o que fazer uma vez que não levava o chapéu para o poder tirar. A única coisa que pôde fazer foi encostar-se à parede numa atitude conveniente. Perante o descrito, o primo invocou então a necessidade de usar chapéu, aproveitando para censurar o facto de naquele lugar ninguém o usar. E remata: deve-se usar chapéu para o poder tirar nas ocasiões oportunas. 

Há mil e uma coisas que distinguem os seres humanos dos animais. Os símbolos e os rituais, enquanto elementos que fazem parte de um código social, são das mais importantes pelo modo como fundam e preservam uma ordem social onde as crenças e as acções têm um significado moral e estético, em vez de se reduzirem a meros impulsos individuais, avulsos e desconexos. Se um jovem, quando está com os amigos, disser palavras que se convencionou serem asneiras, apesar de nada significarem, mas já não o fizer se for a passar uma senhora, mostra respeito. Se alguém se veste melhor para ser recebido pelo Presidente da República, está a mostrar respeito. Do mesmo modo, tirar o chapéu para cumprimentar um conhecido que passa na rua ou quando se entra num espaço que transcende os nossos mecanismos individuais mais espontâneos, mostra-se respeito. E mostrar respeito é uma forma de as pessoas se valorizarem mutuamente, ganhando visibilidade e protagonismo, independentemente da idade, do sexo, da classe social, da profissão. Ou de aceitar o facto de existirem valores que, ao serem respeitados por uma pessoa, faz com que esta seja digna deles, sendo por isso também respeitada.

Os códigos poderiam ser outros? Sim, sendo convenções, podiam. No caso do chapéu passa-se o mesmo. Mas foi este que se criou, levando então Hans Castorp, o primo, a dizer que só para poder tirá-lo quando for caso disso já faz sentido usá-lo. Acontece que o pragmatismo e utilitarismo moderno, com os seus sucessivos processos de dessimbolização e desritualização, deitam por terra essa ordem que Hans Castorp vê como necessária. A liberdade e a espontaneidade anómicas, em vez de reforçarem a visibilidade do indivíduo, tornam-o cada vez mais numa carta fora do precioso baralho que lhe confere um significado.

20 março, 2017

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA?



Por favor, desça um bocadinho a página até à fotografia mais abaixo. As duas senhoras que lá viu com ar de boas amigas são duas das pessoas que surgem na foto de cima, 40 anos antes: Elizabeth Eckford, a rapariga preta que surge em primeiro plano e Hazel Bryan, que vem logo atrás de si, esganiçada, a insultá-la, num dia em que nove pretos iriam pela primeira vez estudar numa escola reservada a brancos (toda a história, aqui).

Há uma passagem de Sobre a Liberdade, em que John Stuart Mill diz não ter valor um comportamento individual que se baseie nos costumes das outras pessoas, ainda que se tratem de bons costumes, pois quem faz uma coisa só porque os outros também a fazem, não chega a fazer uma verdadeira escolha à qual se possa reconhecer mérito pessoal. Diz ele, com a língua bem afiada, que tal pessoa precisa apenas de uma "faculdade simiesca da imitação". Muito antes dele, dizia Kant não ter valor moral o comportamento de uma mãe que trata bem do seu filho ou de alguém que goste de ajudar um amigo. São comportamentos socialmente desejáveis mas enquanto resultado de desejos e sentimentos espontâneos, não de uma orientação racional do indivíduo para fazer o bem quando teria condições para fazer o mal ou praticar uma acção moralmente neutra.

Fico por isso sem grande vontade de me comover com a fotografia lá de baixo, visto não saber o que está na base da conversão de Hazel Bryan; o reconhecimento de um erro passado graças a uma verdadeira conversão da sua consciência moral, ou apenas porque, em 1997, por força da mudança de costumes, já não faria sentido pensar o mesmo de há 40 anos. Ora, partindo das palavras do filósofo vitoriano, podemos pensar que Hazel Bryan é tão estúpida em não ser racista em 1997, como tê-lo sido em 1957. A estupidez é a incapacidade de perceber o que está mesmo à frente dos nossos olhos porque preferimos abdicar de pensar, depositando a nossa inteligência nas mãos de um conjunto de quadros mentais que aceitamos como verdadeiros e moralmente desejáveis, sem perdermos um minuto da nossa vida a pensar se o são e por que o são, ainda que o sejam. Hazel Bryan, em 1957, grita, insulta, ameaça Elizabeth de linchamento, porque acredita que não deveria esta entrar numa escola de brancos, crença e convicção tão forte como, em 1997, acreditar que já não faz sentido haver escolas para brancos e escolas para pretos (Dizendo o mesmo que Kant em relação à mãe que cuida bem do seu filho, ainda bem que assim é).

A crença em algo de falso e moralmente mau e que leva a comportamentos afins, como se vê na foto de cima, é estúpida e repugnante. O mesmo não acontece com uma crença verdadeira e moralmente boa mas só no que diz respeito à repugnância, pois já em relação à estupidez a questão é mais delicada. Ser estúpido é não se conseguir acreditar no que é bom e verdadeiro porque a tradição e o costume acreditam ser mau ou falso, mas também acreditar no que é bom e verdadeiro só porque a tradição e o costume assim o consideram. A estupidez, neste sentido, não escolhe classes sociais, habilitações literárias ou mesmo níveis de inteligência. Há gente culta, socialmente distinta e até inteligente que padece de uma confrangedora estupidez. Como há pessoas humildes e analfabetas que podem ser admiravelmente sensatas e racionais no modo como as suas crenças antecipam as que só chegarão mais tarde com um atraso que pode ser de décadas ou séculos, graças à mudança dos quadros mentais.

A estupidez não é uma fatalidade mesmo quando é social e politicamente promovida. No dia em que Elizabeth entrou no liceu sob uma chuva de gritos, insultos e ameaças, um repórter que ali se encontrava reconfortou-a. Uma mulher protegeu-a e ajudou-a a entrar no liceu. Também no tempo em que era normal a escravatura ou o massacre de índios, houve quem denunciasse tamanha indignidade. No tempo em que era normal matar pessoas só por serem de uma religião diferente, houve quem escrevesse contra isso. Ainda há dias, em Castanheira de Pêra, uma velhota de 84 anos dizia "É uma pouca vergonha. O rapaz fez mal a alguém? Tem a vida dele e qualquer um é livre", a respeito do rapaz discriminado na igreja por ser gay. Não é especialmente difícil não ser estúpido. Basta tentar perceber as coisas como elas são e lutar contra a estupidez que ameaça cada um de nós como uma sombra. E se descobrirmos que estamos a ser estúpidos, perceber que isso, sim, é um grito e insulto atirados para dentro de nós próprios e que nos deveria fazer corar de vergonha.


18 março, 2017

VANITAS COM AQUILES E TARTARUGA

Gerhard Richter | Caveira com Vela

Estou à janela da cozinha comendo uma pensativa maçã, enquanto sigo melancolicamente o vago movimento de uma rua de província. Entretanto, emerge no meu campo de visão um sujeito aqui da terra que anda sempre bèbedo. O meu olhar vadio passa então a seguir o aleatório movimento do bêbedo, como fazia em criança com o de moscas indolentes em opressivas tardes de Verão, qual existencialista perante a náusea de viver.

O homem, ora se inclina para a direita, ora se inclina para a esquerda, pára, abana, dá mais uns passos e percebo pelos movimentos do braço direito que, como é seu hábito, fala sozinho, embora com a convicção e o entusiasmo de quem faz um discurso solene para uma grande assembleia. De repente, em grande velocidade e grande estilo, com amaneirado equipamento desportivo, surge tammbém no meu campo de visão um homem a correr. Como as leis da Física continuam a ser o que sempre foram, o desportista ultrapassa o bêbedo para rapidamente desaparecer no fio do meu urbano horizonte. O bêbedo, esse, prossegue a sua tortuosa e errática odisseia, parando, cambaleando, dando mais uns passos, convicto do importante discurso etilicamente bafejado sobre o mais universal dos auditórios.

Porém, (e o que é a vida senão um labirinto de poréns?), como diria Zenão de Eleia, esse bom eleático e digno herdeiro do seu mestre, a tremenda dissonância entre os movimentos do desportista e os do bêbedo não passam de uma ilusão dos sentidos. A montante, lá bem a montante, por muito veloz que um corra com o seu equipamento colorido e o outro, meio andrajoso, vá cambaleando, irão para todo o sempre repousar lado a lado, quando ambos chegarem à grande meta.

16 março, 2017

O COMUNISTA DO 2º ESQUERDO E O NEO-NAZI DO 3ºDIREITO


[sobre a fotografia, ver aqui]

Há pessoas que precisam de algum tempo para finalmente perceberem que têm um problema, seja com o álcool, a droga, o Tony Carreira ou o jogo. Eu há muito que percebi ter um problema com o nazismo, uma obsessão que me persegue sem me largar, não só o original mas também as suas modernas variantes, assim como a razão para os seus populares sucessos. Nas aulas, sempre que preciso de falar na expressão política do Mal é o nazismo que vem à baila e como exemplos de figuras maléficas são sempre homens como Hitler, Himmler, Goebbels ou Mengele que me ocorre apresentar.

A minha questão agora é a seguinte: porquê o nazismo e suas ilustres figuras, e nunca o comunismo? Por que razão nunca me lembro do comunismo? Sim, porquê? O comunismo fez mais vítimas do que o nazismo. O comunismo continuou a oprimir milhões de pessoas e a fazer milhões de vítimas já depois do nazismo ter sido enterrado, primeiro em Berlim e depois em Nuremberga. A ideologia comunista e seus derivados continua ainda a fazer as suas vítimas em países absurdos. A história do comunismo é protagonizada por figuras tão ou ainda mais sinistras e pérfidas do que as nazis. Enfim, eu próprio, numa idade e época em que a tentação seria grande e na qual tanta gente, hoje de direita, caiu, fui sempre imune a tal ideologia. Um dia, em plena adolescência, perante uma ficha de inscrição no partido posta à minha frente por um amigo, senti ser essa possibilidade tão tonta como a de me tornar Testemunha de Jeová ou sócio do Sporting. Creio, por isso, fazer todo o sentido responder à pergunta.

Os males realizados em nome de ambas não são meramente contingentes, resultantes de uma má interpretação e desvios de uma ideologia que foi adulterada e que, por isso, não deveria ser responsabilizada pelas suas perversões. Não, esses males estão geneticamente inscritos na própria ideologia, sendo uma consequência natural e previsível daquela. Mas uma coisa é a ideologia, outra o modo como é recebida pelas pessoas e os motivos da sua adesão. É neste aspecto que nazismo e comunismo divergem profundamente.

Ser comunista, acreditar no comunismo, não levanta o problema do mal nem nos remete para o lado mais obscuro e primitivo do ser humano. Ser comunista é apenas uma questão de estupidez. Como é possível ser comunista depois de o comunismo estar morto e enterrado, de se provar empiricamente que aquilo não prestava, sendo apenas um casmurro e tresloucado desvario que durou somente umas décadas mas deixando um currículo de milhões de mortos, brutal opressão, pobreza? Quem consegue hoje pensar na Roménia, na Albânia, na Bulgária, na RDA sem pensar numa exótica ideologia e prática que atrasou as vidas de milhões de pessoas inocentes? Se um comunista consegue é por ser estúpido. Porém, não sendo a estupidez a coisa mais exaltante do mundo, é uma das mais naturais e comuns no ser humano. Eu próprio, apesar de nunca ter caído na estupidez de ser comunista, sou bastante dado à estupidez, mas isso não me faz chegar ao espelho e ver uma pessoa pouco recomendável. Sou estúpido mas dentro dos limites do razoável, considerando a natureza imperfeita do ser humano. O mesmo acontece com um comunista: pode ser estúpido mas isso está longe de poder manchar a sua identidade. Eu nunca casei com uma comunista mas imagino-me perfeitamente a fazê-lo. Ou a ter filhos comunistas, sogros comunistas e cunhados comunistas. O mais que poderia acontecer seriam umas animadas discussões em jantares de família. O que leva muita gente a ser comunista é precisamente o que há de melhor e mais belo no ser humano. Portanto, se eu tiver um vizinho comunista, um colega comunista ou um amigo comunista, sei que a sua estupidez não lhes afecta o carácter, nem o seu valor pessoal e social. E sei ainda que a sua estupidez, junta com a estupidez de tantos outros comunistas, não constitui uma ameaça para a sociedade, uma vez que o comunismo deixou também há muito de o ser, uma demonstração de bom senso numa humanidade tão dada à falta dele.

Já com o nazismo será diferente. Eu seria incapaz de casar com uma neo-nazi. Detestaria ter filhos neo-nazis e não me imagino amigo de neo-nazis. E se tivesse vizinhos ou colegas neo-nazis a minha relação com eles seria de distância e desconfiança. Tal aconteceria uma vez que ser nazi não se trata de uma questão de estupidez. Trata-se antes de mobilizar no ser humano as forças mais obscuras da sua natureza, uma energia disruptiva suportada por valores e argumentos que, passados à prática, ameaçam a paz, o equilíbrio social e a decência humana. Mesmo uma pessoa que não é assumidamente neo-nazi, antes uma pessoa normal, com uma vida normal, assim como o vizinho a quem vamos bater à porta para pedir um raminho de salsa e que no-la dá simpaticamente sem o ar de quem tem vontade de nos mandar para a câmara de gás, pode ser infectada por essa energia, tornando-se potencialmente perigosa em circunstâncias que favoreçam a sua irrupção no palco social e político. Faz algum sentido pensar nos alemães dos anos 30 como um povo sádico e criminoso, apoiando um bando de inteligentes e eficazes psicopatas? Nada disso. A esmagadora maioria foi manipulada, explorando-se as suas fraquezas, abrindo feridas que nos fazem agir como animais que lutam pela sobrevivência. Uma ferida que eu diria antropológica, sempre em vias de ser aberta, a infectar e a fazer estragos na saúde social de um país. Ontem, a Alemanha e a Itália, amanhã, quem sabe, a Suécia, a França (que terá as suas manchas nos anos 40 do século passado), a Áustria, a Holanda, a Polónia ou a Hungria. Nunca nos devemos, por isso, distrair. Eu tento fazer a minha parte.