22 março, 2017

O CHAPÉU

August Sander

Turma complicada. Informo de novo o aluno de que deve tirar o boné. Desta vez resolve questionar a ordem, alegando que um boné não perturba a aula. Bem vistas as coisas, tem razão. Se ele viesse com um apito, isso sim, faria diferença. Agora, um silencioso e discreto chapéu sobre uma cabeça é, de um ponto de vista objectivo, tão neutro ou indiferente como as paredes da sala de aula ou mais ainda do que as lâmpadas que por vezes se lembram de lançar um zumbido irritante. Porém, tivesse o aluno lido A Montanha Mágica, ir-se-ia lembrar da conversa em que Joachim Ziemsen fala ao primo daquele dia em que, no corredor do sanatório, se cruzou com três pessoas com o viático, as quais se dirigiam para o quarto de uma menina, dias antes cheia de vida, para lhe darem a extrema-unção. Um momento de forte perturbação para Joachim, ficando sem saber o que fazer uma vez que não levava o chapéu para o poder tirar. A única coisa que pôde fazer foi encostar-se à parede numa atitude conveniente. Perante o descrito, o primo invocou então a necessidade de usar chapéu, aproveitando para censurar o facto de naquele lugar ninguém o usar. E remata: deve-se usar chapéu para o poder tirar nas ocasiões oportunas. 

Há mil e uma coisas que distinguem os seres humanos dos animais. Os símbolos e os rituais, enquanto elementos que fazem parte de um código social, são das mais importantes pelo modo como fundam e preservam uma ordem social onde as crenças e as acções têm um significado moral e estético, em vez de se reduzirem a meros impulsos individuais, avulsos e desconexos. Se um jovem, quando está com os amigos, disser palavras que se convencionou serem asneiras, apesar de nada significarem, mas já não o fizer se for a passar uma senhora, mostra respeito. Se alguém se veste melhor para ser recebido pelo Presidente da República, está a mostrar respeito. Do mesmo modo, tirar o chapéu para cumprimentar um conhecido que passa na rua ou quando se entra num espaço que transcende os nossos mecanismos individuais mais espontâneos, mostra-se respeito. E mostrar respeito é uma forma de as pessoas se valorizarem mutuamente, ganhando visibilidade e protagonismo, independentemente da idade, do sexo, da classe social, da profissão. Ou de aceitar o facto de existirem valores que, ao serem respeitados por uma pessoa, faz com que esta seja digna deles, sendo por isso também respeitada.

Os códigos poderiam ser outros? Sim, sendo convenções, podiam. No caso do chapéu passa-se o mesmo. Mas foi este que se criou, levando então Hans Castorp, o primo, a dizer que só para poder tirá-lo quando for caso disso já faz sentido usá-lo. Acontece que o pragmatismo e utilitarismo moderno, com os seus sucessivos processos de dessimbolização e desritualização, deitam por terra essa ordem que Hans Castorp vê como necessária. A liberdade e a espontaneidade anómicas, em vez de reforçarem a visibilidade do indivíduo, tornam-o cada vez mais numa carta fora do precioso baralho que lhe confere um significado.

20 março, 2017

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA?



Por favor, desça um bocadinho a página até à fotografia mais abaixo. As duas senhoras que lá viu com ar de boas amigas são duas das pessoas que surgem na foto de cima, 40 anos antes: Elizabeth Eckford, a rapariga preta que surge em primeiro plano e Hazel Bryan, que vem logo atrás de si, esganiçada, a insultá-la, num dia em que nove pretos iriam pela primeira vez estudar numa escola reservada a brancos (toda a história, aqui).

Há uma passagem de Sobre a Liberdade, em que John Stuart Mill diz não ter valor um comportamento individual que se baseie nos costumes das outras pessoas, ainda que se tratem de bons costumes, pois quem faz uma coisa só porque os outros também a fazem, não chega a fazer uma verdadeira escolha à qual se possa reconhecer mérito pessoal. Diz ele, com a língua bem afiada, que tal pessoa precisa apenas de uma "faculdade simiesca da imitação". Muito antes dele, dizia Kant não ter valor moral o comportamento de uma mãe que trata bem do seu filho ou de alguém que goste de ajudar um amigo. São comportamentos socialmente desejáveis mas enquanto resultado de desejos e sentimentos espontâneos, não de uma orientação racional do indivíduo para fazer o bem quando teria condições para fazer o mal ou praticar uma acção moralmente neutra.

Fico por isso sem grande vontade de me comover com a fotografia lá de baixo, visto não saber o que está na base da conversão de Hazel Bryan; o reconhecimento de um erro passado graças a uma verdadeira conversão da sua consciência moral, ou apenas porque, em 1997, por força da mudança de costumes, já não faria sentido pensar o mesmo de há 40 anos. Ora, partindo das palavras do filósofo vitoriano, podemos pensar que Hazel Bryan é tão estúpida em não ser racista em 1997, como tê-lo sido em 1957. A estupidez é a incapacidade de perceber o que está mesmo à frente dos nossos olhos porque preferimos abdicar de pensar, depositando a nossa inteligência nas mãos de um conjunto de quadros mentais que aceitamos como verdadeiros e moralmente desejáveis, sem perdermos um minuto da nossa vida a pensar se o são e por que o são, ainda que o sejam. Hazel Bryan, em 1957, grita, insulta, ameaça Elizabeth de linchamento, porque acredita que não deveria esta entrar numa escola de brancos, crença e convicção tão forte como, em 1997, acreditar que já não faz sentido haver escolas para brancos e escolas para pretos (Dizendo o mesmo que Kant em relação à mãe que cuida bem do seu filho, ainda bem que assim é).

A crença em algo de falso e moralmente mau e que leva a comportamentos afins, como se vê na foto de cima, é estúpida e repugnante. O mesmo não acontece com uma crença verdadeira e moralmente boa mas só no que diz respeito à repugnância, pois já em relação à estupidez a questão é mais delicada. Ser estúpido é não se conseguir acreditar no que é bom e verdadeiro porque a tradição e o costume acreditam ser mau ou falso, mas também acreditar no que é bom e verdadeiro só porque a tradição e o costume assim o consideram. A estupidez, neste sentido, não escolhe classes sociais, habilitações literárias ou mesmo níveis de inteligência. Há gente culta, socialmente distinta e até inteligente que padece de uma confrangedora estupidez. Como há pessoas humildes e analfabetas que podem ser admiravelmente sensatas e racionais no modo como as suas crenças antecipam as que só chegarão mais tarde com um atraso que pode ser de décadas ou séculos, graças à mudança dos quadros mentais.

A estupidez não é uma fatalidade mesmo quando é social e politicamente promovida. No dia em que Elizabeth entrou no liceu sob uma chuva de gritos, insultos e ameaças, um repórter que ali se encontrava reconfortou-a. Uma mulher protegeu-a e ajudou-a a entrar no liceu. Também no tempo em que era normal a escravatura ou o massacre de índios, houve quem denunciasse tamanha indignidade. No tempo em que era normal matar pessoas só por serem de uma religião diferente, houve quem escrevesse contra isso. Ainda há dias, em Castanheira de Pêra, uma velhota de 84 anos dizia "É uma pouca vergonha. O rapaz fez mal a alguém? Tem a vida dele e qualquer um é livre", a respeito do rapaz discriminado na igreja por ser gay. Não é especialmente difícil não ser estúpido. Basta tentar perceber as coisas como elas são e lutar contra a estupidez que ameaça cada um de nós como uma sombra. E se descobrirmos que estamos a ser estúpidos, perceber que isso, sim, é um grito e insulto atirados para dentro de nós próprios e que nos deveria fazer corar de vergonha.


18 março, 2017

VANITAS COM AQUILES E TARTARUGA

Gerhard Richter | Caveira com Vela

Estou à janela da cozinha comendo uma pensativa maçã, enquanto sigo melancolicamente o vago movimento de uma rua de província. Entretanto, emerge no meu campo de visão um sujeito aqui da terra que anda sempre bèbedo. O meu olhar vadio passa então a seguir o aleatório movimento do bêbedo, como fazia em criança com o de moscas indolentes em opressivas tardes de Verão, qual existencialista perante a náusea de viver.

O homem, ora se inclina para a direita, ora se inclina para a esquerda, pára, abana, dá mais uns passos e percebo pelos movimentos do braço direito que, como é seu hábito, fala sozinho, embora com a convicção e o entusiasmo de quem faz um discurso solene para uma grande assembleia. De repente, em grande velocidade e grande estilo, com amaneirado equipamento desportivo, surge tammbém no meu campo de visão um homem a correr. Como as leis da Física continuam a ser o que sempre foram, o desportista ultrapassa o bêbedo para rapidamente desaparecer no fio do meu urbano horizonte. O bêbedo, esse, prossegue a sua tortuosa e errática odisseia, parando, cambaleando, dando mais uns passos, convicto do importante discurso etilicamente bafejado sobre o mais universal dos auditórios.

Porém, (e o que é a vida senão um labirinto de poréns?), como diria Zenão de Eleia, esse bom eleático e digno herdeiro do seu mestre, a tremenda dissonância entre os movimentos do desportista e os do bêbedo não passam de uma ilusão dos sentidos. A montante, lá bem a montante, por muito veloz que um corra com o seu equipamento colorido e o outro, meio andrajoso, vá cambaleando, irão para todo o sempre repousar lado a lado, quando ambos chegarem à grande meta.

16 março, 2017

O COMUNISTA DO 2º ESQUERDO E O NEO-NAZI DO 3ºDIREITO


[sobre a fotografia, ver aqui]

Há pessoas que precisam de algum tempo para finalmente perceberem que têm um problema, seja com o álcool, a droga, o Tony Carreira ou o jogo. Eu há muito que percebi ter um problema com o nazismo, uma obsessão que me persegue sem me largar, não só o original mas também as suas modernas variantes, assim como a razão para os seus populares sucessos. Nas aulas, sempre que preciso de falar na expressão política do Mal é o nazismo que vem à baila e como exemplos de figuras maléficas são sempre homens como Hitler, Himmler, Goebbels ou Mengele que me ocorre apresentar.

A minha questão agora é a seguinte: porquê o nazismo e suas ilustres figuras, e nunca o comunismo? Por que razão nunca me lembro do comunismo? Sim, porquê? O comunismo fez mais vítimas do que o nazismo. O comunismo continuou a oprimir milhões de pessoas e a fazer milhões de vítimas já depois do nazismo ter sido enterrado, primeiro em Berlim e depois em Nuremberga. A ideologia comunista e seus derivados continua ainda a fazer as suas vítimas em países absurdos. A história do comunismo é protagonizada por figuras tão ou ainda mais sinistras e pérfidas do que as nazis. Enfim, eu próprio, numa idade e época em que a tentação seria grande e na qual tanta gente, hoje de direita, caiu, fui sempre imune a tal ideologia. Um dia, em plena adolescência, perante uma ficha de inscrição no partido posta à minha frente por um amigo, senti ser essa possibilidade tão tonta como a de me tornar Testemunha de Jeová ou sócio do Sporting. Creio, por isso, fazer todo o sentido responder à pergunta.

Os males realizados em nome de ambas não são meramente contingentes, resultantes de uma má interpretação e desvios de uma ideologia que foi adulterada e que, por isso, não deveria ser responsabilizada pelas suas perversões. Não, esses males estão geneticamente inscritos na própria ideologia, sendo uma consequência natural e previsível daquela. Mas uma coisa é a ideologia, outra o modo como é recebida pelas pessoas e os motivos da sua adesão. É neste aspecto que nazismo e comunismo divergem profundamente.

Ser comunista, acreditar no comunismo, não levanta o problema do mal nem nos remete para o lado mais obscuro e primitivo do ser humano. Ser comunista é apenas uma questão de estupidez. Como é possível ser comunista depois de o comunismo estar morto e enterrado, de se provar empiricamente que aquilo não prestava, sendo apenas um casmurro e tresloucado desvario que durou somente umas décadas mas deixando um currículo de milhões de mortos, brutal opressão, pobreza? Quem consegue hoje pensar na Roménia, na Albânia, na Bulgária, na RDA sem pensar numa exótica ideologia e prática que atrasou as vidas de milhões de pessoas inocentes? Se um comunista consegue é por ser estúpido. Porém, não sendo a estupidez a coisa mais exaltante do mundo, é uma das mais naturais e comuns no ser humano. Eu próprio, apesar de nunca ter caído na estupidez de ser comunista, sou bastante dado à estupidez, mas isso não me faz chegar ao espelho e ver uma pessoa pouco recomendável. Sou estúpido mas dentro dos limites do razoável, considerando a natureza imperfeita do ser humano. O mesmo acontece com um comunista: pode ser estúpido mas isso está longe de poder manchar a sua identidade. Eu nunca casei com uma comunista mas imagino-me perfeitamente a fazê-lo. Ou a ter filhos comunistas, sogros comunistas e cunhados comunistas. O mais que poderia acontecer seriam umas animadas discussões em jantares de família. O que leva muita gente a ser comunista é precisamente o que há de melhor e mais belo no ser humano. Portanto, se eu tiver um vizinho comunista, um colega comunista ou um amigo comunista, sei que a sua estupidez não lhes afecta o carácter, nem o seu valor pessoal e social. E sei ainda que a sua estupidez, junta com a estupidez de tantos outros comunistas, não constitui uma ameaça para a sociedade, uma vez que o comunismo deixou também há muito de o ser, uma demonstração de bom senso numa humanidade tão dada à falta dele.

Já com o nazismo será diferente. Eu seria incapaz de casar com uma neo-nazi. Detestaria ter filhos neo-nazis e não me imagino amigo de neo-nazis. E se tivesse vizinhos ou colegas neo-nazis a minha relação com eles seria de distância e desconfiança. Tal aconteceria uma vez que ser nazi não se trata de uma questão de estupidez. Trata-se antes de mobilizar no ser humano as forças mais obscuras da sua natureza, uma energia disruptiva suportada por valores e argumentos que, passados à prática, ameaçam a paz, o equilíbrio social e a decência humana. Mesmo uma pessoa que não é assumidamente neo-nazi, antes uma pessoa normal, com uma vida normal, assim como o vizinho a quem vamos bater à porta para pedir um raminho de salsa e que no-la dá simpaticamente sem o ar de quem tem vontade de nos mandar para a câmara de gás, pode ser infectada por essa energia, tornando-se potencialmente perigosa em circunstâncias que favoreçam a sua irrupção no palco social e político. Faz algum sentido pensar nos alemães dos anos 30 como um povo sádico e criminoso, apoiando um bando de inteligentes e eficazes psicopatas? Nada disso. A esmagadora maioria foi manipulada, explorando-se as suas fraquezas, abrindo feridas que nos fazem agir como animais que lutam pela sobrevivência. Uma ferida que eu diria antropológica, sempre em vias de ser aberta, a infectar e a fazer estragos na saúde social de um país. Ontem, a Alemanha e a Itália, amanhã, quem sabe, a Suécia, a França (que terá as suas manchas nos anos 40 do século passado), a Áustria, a Holanda, a Polónia ou a Hungria. Nunca nos devemos, por isso, distrair. Eu tento fazer a minha parte.

14 março, 2017

A ESTUFA




Tenho a impressão de que não há nada de filosoficamente tão radical como a dúvida cartesiana. Devastadora, arrasadora, uma paquidérmica dúvida nessa loja de frágeis porcelanas chamada realidade. Quem não foi nessa cantiga foi o nosso vizinho Miguel de Unamuno, que lhe chama «dúvida de estufa». Sim, académica, nascida em berço de oiro e muito bem tratadinha durante quentes e serenas cogitações em frente à lareira. Uma dúvida radical e hiperbólica, sim, mas que não compromete a pessoa verdadeiramente de carne e osso cuja vida é lá fora.

Desconfio por isso que Unamuno iria achar piada a esta rapariga, ferida durante as movimentações de Maio de 1968, em Paris, sendo transportada para o hospital. Vai para o hospital mas olhemos para a sua expressão concentrada e pose serena com dois dedos no queixo, perante o ar de normalidade e indiferença de quem por ali anda. Não fosse o envoltório dramático da imagem, e fixando-nos apenas na parte superior da rapariga, poderíamos dizer que está na primeira fila, não de um combate, mas de um dos Seminários de Lacan ou deitada num sofá a tentar decifrar uma qualquer obscura passagem, dessa obscura obra que é «Pour Marx», do obscuro Althusser. Se compararmos esta «foto de guerra», com aquelas que vemos todos os dias em muitas partes do mundo, diremos que se trata de uma fotografia tipicamente europeia. Esta rapariga, cujo início de vida coincide com o fim da II Guerra Mundial, numa França ou numa Europa Ocidental politicamente estáveis, liberais, e em franco desenvolvimento económico e social, ao contrário dos seus pais, avós, bisavós ou trisavós, cresceu numa estufa. Andou por Paris a manifestar-se, a gritar, a lutar, a partir a loiça, porém, tudo isso, numa confortável e aquecida estufa. Andou pelas ruas a fazê-lo com o mesmo espírito com que poderia estar numa cave de Saint-Germain-des-Prés a discutir marxismo, maoismo, trotskismo  ou a democracia burguesa com um reaccionário adepto de Aron.

Enquanto lá fora, noutras partes do mundo, o vento sopra mesmo gelado, a chuva molha e as pneumonias matam, na estufa, pelo contrário, o combate tem a mesma função do cogito: começar por provar que se existe. Depois dos gritos e das correrias de minutos antes, o que vemos no rosto desta rapariga é a expressão segura e tranquila de quem vai para o hospital ferido com o mesmo espírito de quem se sente preparado para ir defender uma tese universitária. A sua ida para o hospital no meio de enfermeiros e bombeiros é a prova de que seu espírito revolucionário, contestatário, lutador, libertador, não é só da boca para fora, do mesmo modo que uma pessoa pode julgar que sabe muito mas só perante um júri porá à prova esse saber. 

Uma associação entre Unamuno e Althusser é tão espúria e improvável como entre Martha Argerich e Keith Richards. Porém, se pensarmos na crítica do segundo às brincadeiras de Maio, nas quais não alinhou, fica-se com a ideia de que o primeiro, tendo a estufa cartesiana como referência, não deixaria de aplaudir:«Quando a revolta termina em derrota sem os trabalhadores serem massacrados, não é necessariamente bom para a classe trabalhadora, que fica sem mártires para chorar e comemorar». Esta rapariga, que não é trabalhadora na fábrica da Renault mas estudante, teria certamente admiração por Che Guevara, morto pouco tempo antes. As montanhas da Bolívia entre outros lugares exóticos da Terra, serão uma boa fábrica de mártires para serem chorados e comemorados. Na estufa, pelo contrário, a experiência revolucionária não passa de uma experiência de crescimento, como acontece com uma planta, entre um seminário de Lacan e um après-midi com um livro de Althusser nas mãos, para serem depois discutidos entre jazz e cigarros numa cave de Saint-Germain-des-Prés.

13 março, 2017

O VERDADEIRO ARTISTA

[All About Eve]

«Entrevistador: Dois anos antes, és eleito pelos próprios árbitros espanhóis o melhor piscinero da Liga.
Paulo Futre: Tem de ser com drama, senão… Eu, pelo menos, fazia isso. Atirava-me com estilo. Tem de ser. Só assim é que os árbitros caem na fita. Havia árbitros que me conheciam de ginjeira, sabiam da minha queda para o mergulho, e, mesmo assim, apitavam penáltis que não eram.» [Observador]

«Mais fácil achou um prudente que seria acender dentro do mar uma fogueira que espertar, em um peito vil, fervores de nobreza. Contudo, ninguém me estranhe chamar nobre à arte cujos professores, por leis divinas e humanas, são tidos por infames. Essa é a valentia desta arte - como a dos alquimistas, que se gabam que sabem fazer oiro de enxofre - que de gente vil faz fidalgos, porque aonde luz o oiro não há vileza.» A Arte de Furtar, Anónimo


Alguns mordazes textos de Eça de Queirós, de âmbito mais social e político, são hoje bastante populares pela sua tão grande quanto triste actualidade, servindo para mostrar como certas coisas pouco mudaram. Felizmente (ou antes, infelizmente) há outros textos menos conhecidos, alguns bem mais antigos, cuja actualidade está também para durar. Um deles foi dado à luz do dia três séculos antes de o pequeno José Maria a ter visto pela primeira vez. Chama-se a A Arte de Furtar, uma pérola do nosso barroco. Arte de furtar porque furtar só pode mesmo ser uma arte se atendermos ao desafogo com que é exercida. Na verdade, para se conseguirem sucessivos proveitos à custa dos prejuízos alheios, exige-se o dom de aplicar certas regras e preceitos, o qual não está ao alcance do comum dos mortais. Ora, vários séculos depois, Portugal, para além de país de poetas, continua a revelar-se um fértil solo para verdadeiros cultores dessa arte, vil segundo a moral mas que, a jusante, os enobrece, tanto no bolso como na boa fama. E por que lhes chamo eu «verdadeiros artistas» em vez de simplesmente «artistas»? Porque se para enganar, iludir, roubar, espoliar, prejudicar os outros em proveito próprio é preciso ser artista, mais artístico ainda será fazê-lo com orgulho e vaidade, e necessidade de possuir um palco para nele exibir a sua arte, a qual o faz ser digno de inveja.

O futebolista Paulo Futre é um bom exemplo de «verdadeiro artista». Não satisfeito por somente enganar os árbitros para roubar os seus adversários, ainda se compraz ufanamente com a sua arte. Acontece, infelizmente, não ser caso único em Portugal. Em Portugal rouba quem pode e se não se rouba é porque não se pode. Sobretudo o Estado, o que significa roubar, com arte, claro, não o que é apenas de alguns, mas o que a todos pertence e, supostamente, para seu proveito. Portugal não será caso único na Europa, uma vez que a expulsão do Paraíso não deixou nenhum canto da Terra imune. Mas também em mais nenhum lado da parte mais civilizada da Europa se vê tanta pública descontracção no artista que, sem grandes pudores, exibe o produto da sua obra sob o brilho dos holofotes, assim como a impotente inveja de quem, sentado na obscura plateia, não foi bafejado pelos genéticos dons da arte. Espectáculo moralmente indecoroso mas que só acontece, tal como nos penálties de Futre, por uma putativa ingenuidade, problemas oftalmológicos ou, quiçá, irresponsável conivência dos árbitros, que têm por obrigação aplicar as leis que, apenas no papel, têm a mesma eficácia da comida num prato sem chegar à boca do faminto. Como diria o artista de quem se fala em A Arte de Furtar, «Con arte y con engaño, vivo la mitad del año; y con engño y arte vivo la  otra parte». Grandes são os frutos destes furtos, bem poderia dizer o grande Futre.

12 março, 2017

O URSO E A ARARA

Elliott Erwtt

Lembro-me de um diz Miguel Portas dizer, em entrevista, que quando discutia política com o irmão não procurava convencê-lo do erro das suas ideias, do mesmo modo que este também não procurava convencê-lo do erro das suas. E rematava: não vale a pena. Que não vale a pena discutir e tentar convencer quem pensa de maneira diferente não é novidade nenhuma. O que me interessa aqui é a noção de erro quando associada às ideias de outra pessoa que pensa de um modo diferente e, à luz do que é a filosofia política, saber se faz algum sentido falar em ideias certas ou erradas.

Obviamente que para Miguel Portas as suas ideias estavam certas e as de Paulo Portas estavam erradas. Porém, não faz sentido falar aqui em ideias certas ou erradas mas apenas em incompatíveis concepções de vida, de mundo, de sociedade que não podem estar certas nem erradas. Existe erro quando um juízo não corresponde a uma realidade objectiva. É errado dizer que a capital de Espanha é Valência, que Sampaio da Nóvoa é Presidente da República ou que Donald Trump é mulato. Mas onde estaria o erro de Miguel ou o erro de Paulo? Por que razão estariam errados? Imaginemos um urso polar a discutir com uma arara sobre o melhor sítio para viver. O urso polar diz que deve ser frio e cheio de gelo. A arara, contesta, dizendo que deve ser quente e húmido. Tudo certo até aqui. Mas como pode o urso polar dizer que a arara está errada por não pensar como ele? E como pode a arara dizer a mesma coisa? Têm ideias opostas, mas a verdade de um não implica o erro do outro como acontece com afirmações contraditórias cujo valor de verdade é incompatível. As afirmações "A Holanda faz fronteira com a Bélgica" e "A Holanda não faz fronteira com a Bélgica" não podem ser simultaneamente verdadeiras ou falsas, pois a verdade de uma implica a falsidade da outra.

A filosofia política, pelo contrário, é uma arena de muitos interesses e conflitos que jamais poderão ser resolvidos a partir de uma objectividade formal (lógica ou matemática) ou empírica. Por exemplo, se há quem deseje uma sociedade cujo valor mais importante é a igualdade, haverá também quem deseje uma sociedade onde prevaleça a liberdade. Como resolver isto? Não se pode. Porque se tratam de valores não só incompatíveis mas também incomensuráveis. O gelo é desejável para um animal que foi feito para o desejar porque é ali que encontra o seu alimento e as condições para poder ser feliz. O calor e a humidade, ou seja, o oposto, são desejáveis para quem os deseja precisamente pelas mesmas razões que levam o outro a desejar o oposto do que este deseja. Sempre assim foi e assim será sempre. Por isso a história nunca acabará, nunca haverá aquilo a que se convencionou chamar«o fim da história». A não ser que um dia tenhamos um mundo só de Miguéis ou só de Paulos. Houve quem já o tentasse mas não correu bem.

10 março, 2017

ANIMULA, VAGULA, BLANDULA

Jacques Henri Lartigue, 1930

É minha aluna desde o ano passado. Uma boa aluna, diga-se. Responsável, trabalhadora, sempre atenta nas aulas mas também muito calada e tímida. Por vezes, lá sorri com uma ou outra piada minha, mas de um modo muito discreto e despercebido. Na última aula, para ensinar a teoria falsificacionista de Karl Popper, precisei de explicar o conceito de «demarcação». Confirmando eu o esperadíssimo facto de não saberem o significado da palavra, comecei por explicá-la no seu sentido mais corrente. Para exemplificar, sugeri a ideia de um político que declara demarcar-se da posição do seu partido face a um dado assunto. 

Um ano e vários meses depois da minha primeira aula com esta turma, foram já muitas as palavras da nossa língua cujo significado desbravei, mas também etimologias, algumas delas bem curiosas, palavras gregas, expressões latinas, ou até desmontando, em virtude da sua riqueza, palavras alemãs como «Erfahrung». Apesar de me pagarem para ensinar Filosofia, sei também que bem cedo a irão esquecer, compensando isso com a possibilidade de ensinar esta gente a falar e a entender o que lê ou ouve.

Durante todo esse tempo, nunca a minha aluna esboçou a mais pequena reacção, fosse com assuntos da Filosofia, fosse com curiosidades semânticas ou o que mais quer que fosse. Desta vez, todavia, a história foi bem diferente. Há momentos em que lamento não ser escritor para poder descrever certas vivências, sendo uma delas a sua impetuosa reacção ao descobrir o significado de «demarcação». Definitivamente, faltam-me as palavras para traduzir o seu riso aberto de criança que retira uma bela e enorme boneca após desembrulhar uma caixa, o gracioso saltinho dado pelo seu corpo movido pela emoção, o brilho colorido da sua voz ao dizer, de um modo bem audível «Ai que giro!» Tudo por causa da palavra «demarcação». Pelo menos para mim, a alma humana será sempre um mistério por resolver.   

08 março, 2017

DIAS FELIZES



«Eu nunca me cansarei de repetir: a única razão de ser do romance é dizer aquilo que só o romance pode dizer.» Milan Kundera, A Arte do Romance

Florença, século XIV. A peste invade a cidade, tornando o seu ambiente irrespirável, não só pela doença mas também social e moralmente. Vai daí, sete nobre damas e três jovens de elevada condição, encontrando-se na igreja de Santa Maria Novella, resolvem ir passar uns dias no campo em busca de jovialidade, paz e harmonia, impossíveis na infecta cidade. Como diz Pampinea: viver sem ralações, não procurando outra coisa senão dias felizes. E é já nesse cenário campestre que a mesma Pampinea apresenta a sugestão de, diariamente, ao final de cada tarde, cada um contar uma história, tratando com total liberdade o assunto que mais lhe agradar. Nasce assim o Decameron, com as suas cem histórias (10 pessoas x 10 dias), obra que inscreveu Boccaccio no panteão da literatura. Este processo do domínio da ficção faz lembrar um outro, desta vez real, que está na origem do Frankenstein. Um grupo de amigos, gente como Lord Byron e Percy Shelley, passa o Verão numa casa junto a lago suíço. O tempo está mau, sempre a chover, obrigando o pessoal a ficar fechado em casa. Durante esses dias era costume contarem histórias de fantasmas (estamos no século XIX), tendo Byron proposto que cada um deles criasse a sua história, o que levou, dias depois, a jovem Mary a apresentar o seu Frankenstein.

Decameron é uma grande obra da cultura italiana e universal. Dir-se-á ainda que moderna pelo modo como expressa o espírito laico de uma burguesia comercial que irá ajudar na derrocada do pacato mundo medieval. Porém, mais do que isso, do que uma obra literária como a Ilíada, Antígona, A Divina Comédia, o Fausto, Os Maias ou um qualquer livro de Valter Hugo Mãe, podemos ver na origem e essência do Decameron a origem e essência da própria literatura. Poderia cair na tentação de encontrar esse estatuto no modo como Sherazade desenvolve as suas mil e uma histórias. Mas não. Não  podemos ver na literatura uma subtil estratégia de sobrevivência, que dura enquanto a foice da morte pairar sobre a cabeça de quem cria. E que tal o Quixote, plenamente mergulhado nos seus livros de ficção que transformaram a sua própria vida numa ficção? Também não. A literatura não é uma ilha utópica para onde se vai viver, antes um livre exercício imaginativo que não obriga o leitor a perder o mundo como sua referência empírica. Não, é no Decameron que irei mesmo votar. E justifico o meu voto com as palavras com que o próprio Boccaccio, no final da obra, se dirige às leitoras, para explicar o seu sentido. 

Diz-lhes que escreveu para ser lido por pessoas ociosas e necessitadas de ocupar o tempo. Duas coisas a este respeito. Primeira: através de um subtil jogo de espelhos, faz das palavras de Pampinea ao propor a sequência de contos, as suas palavras. Ou, se quisermos, faz das suas palavras, as palavras de Pampinea. Quer dizer, o motivo para Boccaccio escrever o livro é o mesmo invocado por Pampinea para contar as histórias do livro escrito por Boccaccio: o ócio e a necessidade de ocupar o tempo. O que nos leva de imediato ao segundo aspecto: a desmistificação da literatura como exercício de escrita, retirando-lhe seriedade e peso institucional associados a outro tipo de textos. Por exemplo, à Filosofia: «Os memoriais convêm de preferência aos estudantes, que trabalham, não para passar o tempo, mas para o empregar judiciosamente; vós senhoras, não tendes que fazer, visto terdes todo que não dedicais aos prazeres do amor. Pensei que nenhuma das vossas irmãs frequenta Atenas, Bolonha ou Paris para aí estudar. É necessário pois falar-vos de mais maneira mais explícita do que àqueles cujos espíritos a escolástica aguçou». A literatura não é, pois, dirigida a eruditos espíritos mais treinados no rigor da Dialéctica, da Gramática ou da Retórica. A literatura serve antes para divertir, sentindo-se ele tão leve ao escrevê-la que parece flutuar na água «como nozes de gralha». Mas não é só na Filosofia que o peso do pensamento austero que ele deseja evitar se faz sentir. Também na religião. Ouçamo-lo de novo: «Pensei que este tom divertido conviria a pequenas obras, escritas para combater o humor sombrio nas mulheres. Se as minhas leitoras rirem demasiado, as lamentações de Jeremias, a paixão do Salvador, as lamentações de Madalena, porão fim a essa alegria». Compreendemos, pois, que tanto as ousadias criativas da literatura podem ser apresentadas como contraponto da gravitas religiosa, como esta surgir também como contraponto das primeiras, gerando um equilíbrio de humores. Mas em territórios diferentes, parece evidente.

Em suma, a literatura ocupa o seu próprio e inconfundível lugar na vida do espírito. Não com a veleidade de surgir como uma via «séria» ou intelectualmente depurada rumo a uma verdade, seja esta filosófica, científica ou religiosa mas com o objectivo de criar mundos ficcionais para ajudar a viver melhor no mundo real. Isso, porém, não demite a literatura de perseguir fins mais elevados. Basta ler o Decameron para o compreender. Lá, vamos encontrar crítica social, religiosa, moral. O que a afasta de outros planos não são os conteúdos, é a forma, assim como o espírito de quem escreve e o espírito de quem lê. Podemos aprender com os romances mas não é para aprender que os lemos. Podemos fazer Filosofia com os romances mas não é para fazer Filosofia que os lemos. Podemos fazer crítica social com os romances mas não é para fazer crítica social que os lemos. Lemos romances, contos, enfim, histórias, porque dão prazer, mais um prazer que perseguimos na vida no meio de tantos outros. O mesmo prazer que perseguiram aqueles dez amigos na sua villa florentina em ociosos finais de tarde.

05 março, 2017

PUREZA E PERIGO

Jacob Riis | Bandit's Roost, NY, antes de 1890

«A protecção contra a tirania da magistratura não chega: também é necessária protecção contra a tirania da opinião e do sentimento dominantes; contra a tendência da sociedade para impor, por outros meios que não as punições civis, as suas próprias ideias e práticas como regras de conduta àqueles que não as seguem, e para restringir o desenvolvimento -e, se possível, impedir a formação- de qualquer individualidade que não esteja em harmonia com os seus costumes, e para forçar todas as personalidades a modelarem-se à imagem da sociedade». John Stuart Mill, Sobre a Liberdade.


Toda a gente sabe das chatices pelas quais Flaubert teve de passar por causa da Bovary, essa pute que lhe haveria de sobreviver, como lamentou ele no leito de morte. Eu resolvi ir mais longe e ler o discurso acusatório de Ernest Pinard, o advogado imperial em representação do Ministério Público. O problema, diz ele, não são só as ofensas à religião e à moral pública. O problema é mesmo o próprio romance. Ter Flaubert, esse perigoso naturalista, pensado no romance, escrito o romance e, a fortiori, supremo sacrilégio, publicado o romance, afrontando os olhos sensíveis e imaculados de vulneráveis leitores e, sobretudo, leitoras. Para Pinard, mais grave que a própria queda de Bovary é o autor ter revelado a «poesia do adultério», sugerir a mera possibilidade do adultério, mesmo sabendo nós que o destino de Ema nada teve que ver com os seus sonhos de jovem provinciana arrebatada com os encantos de um amor apimentado com o brilho dos candelabros da grande urbe e da joie de vivre. O adultério existia? Sim, uma inevitabilidade social como a da queda dos graves na Física. Mas jamais invocá-lo, agredir as imaculadas consciências, fazendo-lhes lembrar a sua existência, não vão as palavras roubar às almas a cândida e segura inconsciência de quem deseja viver num mundo sem dialéctica negação.

Hoje, temos as sensíveis redes sociais para substituir o imperial tribunal do século XIX, sempre vigilantes e reactivas ante tudo o que mexa. Ao contrário delas, a última coisa que me interessa é o que pensa ou deixa de pensar o cantor João Braga. Quero lá, pois, saber se o homem é racista ou homofóbico. Sei, isso sim, que há coisas que são estúpidas mas não repugnantes, coisas repugnantes que não são estúpidas, mas que tanto o racismo como a homofobia são estúpidos e repugnantes. Porém, quem é racista ou homofóbico, tem todo o direito a sê-lo e a manifestar os seus sentimentos e crenças, desde que as suas palavras sejam apenas a expressão de uma opinião, nunca um incentivo para comportamentos violentos. E se uma pessoa, seja ou não racista ou homofóbica, acredita que, actualmente, em certos meios, ser preto ou gay, pode ser uma vantagem, tem todo o direito a acreditar nisso e a assumir publicamente que acredita nisso, independentemente de ter ou não razão. Do mesmo modo, se uma organização católica espanhola acredita ser a transexualidade contra-natura tem todo o direito a acreditar nisso e a manifestá-lo publicamente num autocarro pelas ruas de Madrid em vez de ser proibida por um juiz.

Crenças sobre questões raciais ou sexuais não são arbitrárias como as do mero gosto. Enquanto as primeiras podem ser verdadeiras ou falsas, as segundas são explicadas pelos caprichos da mais pura subjectividade. Não é mais verdadeiro ou falso uma pessoa gostar mais de pastéis de nata do que outra de bolos de arroz, ou vice-versa; ou gostar mais de Bach do que dos fados de João Braga, ou vice-versa. Mas é impossível tanto dizer que há raças superiores e inferiores como dizer que não há raças superiores e inferiores, desprezando a verdade ou falsidade como critério de avaliação desses juízos.O mesmo se passa em relação à homossexualidade: tanto dizer que é algo normal como uma aberração da natureza, aceitando a legitimidade epistémica de ambos. Em ambos os casos a verdade existe e importa, e onde uns terão razão os outros deixarão naturalmente de a ter. Ou como será ainda verdadeiro ou falso dizer que comer pastéis de nata é mais ou menos saudável do que bolos de arroz (Nutricionismo dixit), ou verdadeiras ou falsas descrições sobre a música de Bach ou os fados e guitarradas de João Braga (Musicologia dixit).

Porém, todos nós temos direito às nossas crenças, independentemente de serem verdadeiras ou falsas e obrigar uma pessoa a calá-as ou renunciá-las significa interferir no que há de mais íntimo, privado, livre, na sua consciência, sabendo-se mesmo que muitas das nossas crenças são falsas. No século XVII, o filósofo John Locke, num texto epistolar sobre a liberdade religiosa, dizia não fazer sentido obrigar uma pessoa a desejar e conseguir acreditar num Deus no qual não deseja nem consegue acreditar mas no qual outros desejam e conseguem acreditar, em detrimento de um Deus no qual deseja e consegue acreditar mas outros não acreditam nem o desejam. Ora, o mesmo se passa com o cantor João Braga. Neste caso não se trata de se ser católico ou protestante mas em poder ser racista e homofóbico porque acredita em certas ideias e sente em função delas (eu diria antes que terá as suas ideias porque sente certas coisas mas isso é outra conversa), ou acreditar que ser preto ou homossexual é vantajoso em certos meios. Esta crença está no mesmo padrão da muito comum crença de que os políticos são todos uns oportunistas, que o presidente do Sporting é psicopata ou que os jornais desportivos apresentam um nível intelectual adequado a cérebros reptilianos. Não importa aqui discutir a maior verdade ou falsidade destas crenças. Cada uma vale o que vale. Importa, sim, perceber que, na forma, estão no mesmo plano da crença de João Braga, a qual, por isso, tal como as outras, tem todo o direito de se manifestar. As modernas redes sociais, tal como a mais puritana sociedade francesa do século XIX, bem gostariam de viver num mundo sem mácula nem contradição, o qual nunca existiu nem existirá. Deveriam aprender, de uma vez por todas, a aceitá-lo, sem  a reacção de uma virgem cuja honra foi difamada. Diz o povo, com a sua elegante e poética sabedoria, que há quem emprenhe pelos ouvidos. Touché, pobre Gustavo.

03 março, 2017

UM TÁXI COR DE NAUFRÁGIO


Disse-me o aluno que foi passar as férias de Carnaval à Irlanda. Perguntei se tinha sido só Dublin ou mais do que isso. Mais do que isso, correu o país todo, de lés a lés, e tira o telemóvel para me mostrar fotografias. Pergunto do que gostou mais. Do museu do Titanic, respondeu ele. «-Stôr, é espectacular», rematou, antes de sairmos da sala e nos despedirmos. 

25 fevereiro, 2017

FLOR SEM TEMPO

Charles Corbet | Natureza morta com jarra e flores, c.1910 [autocromo]

Como diria Enesidemo de Cnossos, esse velho céptico, um perfume causa muito prazer através do olfacto mas o seu sabor é horrível, não se podendo beber. O facto de haver uma parte da flor que corresponde ao aroma, não significa que a flor, como um todo, se confunda com essa parte. Basta uma experiência instintiva, animal mesmo, para evitar que caíamos, neste caso, na muito habitual falácia da composição, aquela que nos faz tomar o todo pela parte. Fossem as coisas mais complexas assim tão intuitivamente compreendidas, desmontando-se o todo em partes em vez de montar as partes em todos, e passariam a ser bem mais simples. Como ensinam os gestaltistas, a mente humana tem uma disposição natural para a ordem, a arrumação, a composição, a totalidade. É assim com a percepção visual ou auditiva mas também o será no modo como tentamos interpretar as mais diversas realidades. É isso que nos eleva, esse impulso para a abstracção, para totalidades que encerram tantas vezes contradições internas, essa pureza conceptual da qual foi expulsa a negatividade? Sim, pode ser. Mas também é isso que tantas vezes nos submete à imperiosa força do erro que, depois de um olfacto deleitado, provoca amargos de boca.

23 fevereiro, 2017

NOT SPOOK

Gordon Parks

Por mero e absoluto acaso, regresso ao preto e branco, embora noutro contexto. Tive de passar hoje pela Note para imprimir umas coisas. Encosto-me ao balcão, ficando entre dois homens que estão nas pontas, um dos quais preto. Como estavam ambos a tratar de umas encomendas, acabei por ser logo atendido. Diz-me o empregado que são 28 cêntimos. Eu pego na carteira, cheia de moedas pretas que andavam há dias a pesar-me, e preparo-me para dizer o que, há anos, digo sempre em situações semelhantes, com ar satisfeito: «Lá vou finalmente libertar-me das pretas». Há momentos em que sou lento quando deveria ser rápido, há momentos em que sou rápido quando deveria ser lento. Desta vez, tive o tempo de reacção certo para evitar a frase do costume. Senti alívio mas, depois, no caminho para casa, confesso que me inclinei para uma irritante auto-comiseração.

Se há coisa que detesto é o fascismo linguístico do politicamente correcto, tornando perturbadora esta minha cobarde deferência. Eu nasci e cresci num mundo de brancos e de pretos. O Eusébio é preto, o Humberto Coelho é branco. A nossa ministra da Justiça é preta, a nossa ministra da Administração Interna é branca. A Ella Fitzgerald é preta, a Ute Lemper é branca. Já o Nelson Évora nem é branco nem preto mas mulato. Ora, não há qualquer motivo para pensar que na minha referência às moedas pretas estivesse implícita qualquer referência a pessoas pretas das quais, neste caso, me pretenderia libertar. Enquanto processo mental, é completamente tortuoso e absurdo. Porém, tive medo que tal acontecesse, podendo criar uma situação embaraçosa, neste caso, ferir o meu vizinho de balcão, levá-lo a pensar que eu poderia ser um racista cínico a provocá-lo. Repito, reconheço a estupidez do raciocínio, a natureza ilógica e excessiva da minha auto-correcção.

Porém, e ainda a caminho de casa, acabei por entender o seu valor ético. Há um filósofo francês chamado Emmanuel Levinas (1906-1995) que, num livro chamado Totalidade e Contradição diz: «chama-se ética à impugnação da minha espontaneidade pela presença de Outrem». Eu não consigo entender quase nada do que ele escreve mas esta frase é de uma eficácia tremenda para explicar a minha auto-correcção. A minha habitual espontaneidade, no clássico momento de me libertar das moedas, foi impugnada pela presença daquele homem ali a meu lado. Fosse eu um Robinson Crusoe num balcão só para mim e a minha espontaneidade seria assumida sem freios. Mas a partir do momento em que estava ali aquele homem, teria de pensar no que poderia dizer que colidisse com ele. A minha inocência e consciência tranquila, neste caso, pouco valem, antes a sua consequência. Eu sei quem sou, o que digo e porque digo. Mas também sei que há pessoas que, não sendo como eu, podem dizer com outro sentido o que eu deixei de dizer por pensar que seria esse o sentido que o outro poderia pensar sobre o que eu estaria para dizer.

Fiz bem ou fiz mal? Devo manter a irritação por uma estúpida deferência e atrofia do politicamente correcto, ou ficar antes satisfeito comigo próprio por, apesar da consciência tranquila, ter jogado pelo seguro? Para responder, penso no que teria feito o professor Coleman Silk, do romance A Mancha Humana, de Philip Roth, se tivesse podido voltar atrás. Ter-se-ia novamente referido às alunas que não responderam à chamada como spooks, ou teria feito como eu, fechando-se em copas? Dizia James Madison, um dos Pais Fundadores, que se os homens fossem anjos não seriam precisos governos. Mutatis Mutandis, se os homens fossem anjos, eu não precisaria de refrear o meu velho clássico das moedas pretas. Como não são, temos de fazer connosco mesmos o que os governos fazem com a espontaneidade e liberdade com que as pessoas entram no mundo no dia em que nascem. 

20 fevereiro, 2017

A TROCA


Tenho um aluno que em vez de dizer filme ou fotografia a «preto e branco», diz filme ou fotografia a «branco e preto». Nas duas ou três vezes em que tal aconteceu, corrigi-o, com espírito de descontracção, diga-se, nada daquele ar de quem se prepararia para, noutros tempos, dar uma reguada. Agora, tratar-se-á mesmo de um erro que deve ser corrigido ou de uma simples e inócua troca sem motivos para reparo por parte de um professor? 

Há trocas que, por motivos de força ontológica, serão impensáveis. Diz-se que um carro é vermelho, nunca que o vermelho, neste caso, é um carro, uma vez que carro é substância e o vermelho um atributo. Noutro registo, desta vez para respeitar a relação lógica entre a parte e o todo, é forçoso dizer que o nariz faz parte da pessoa, nunca que a pessoa faz parte do nariz (tenho a consciência de que se desse como exemplo o sexo em vez do nariz, a coisa complicava-se). Passando da ontologia para um contexto mais pragmático, há trocas que podem ser consideradas legítimas face a grupos de palavras que se dizem em primeiro ou segundo lugar, de acordo com uma convenção. É normal começar um discurso por «Senhoras e senhores», mas não se pode criticar quem, por considerar tratar-se de um atavismo, veja tanta legitimidade num «Senhores e senhoras» como os que antes a vêem no clássico «Senhoras e senhores» por conservarem uma elegante e respeitosa deferência pelo sexo feminino.

Como enquadrar a questão do preto e branco nesta magna problemática de trocas ou baldrocas? Tratando-se de cores, nada melhor do que confrontá-la com outras situações que envolvam cores. O equipamento tradicional do Benfica consiste numa camisola encarnada e calções brancos. Será, assim, tão legítimo poder afirmar «a equipa branca» como afirmar «a equipa encarnada»? Não. A única opção válida é «equipa encarnada». Objectar-se-á com o facto de aqui não se aplicar o argumento da substância, nem o da «parte e do todo». Os calções são tão substância como a camisola, ambas parte de um equipamento no qual uma não existe sem a outra, sendo as cores vermelha e branca, atributos de iguais substâncias. Estão, por isso, também, num nível semelhante. Sim, é verdade. Mas aceitar este argumento levaria a aceitar a possibilidade de, na construção da identidade física de uma pessoa, colocar num mesmo nível o rosto e o umbigo ou o rosto e o cotovelo. O rosto, tal como um dedo, uma perna, um umbigo ou um cotovelo, é uma parte do corpo. Porém, e embora eu conheça algumas pessoas cujo umbigo ou cotovelo acabe por identificá-las melhor do que o rosto, é este que, por razões tanto morfológicas como psicológicas, confere verdadeiramente uma identidade pessoal e única a cada um de nós. Também a camisola tem uma importância visual e simbólica que não se compara à dos calções. É na camisola que está o emblema do clube, o número do jogador, no final do jogo, os jogadores trocam de camisolas, não de calções. Para além disso, tem-se (ou tinha-se) amor à camisola, não aos calções, e embora estes também acabem suados no final, diz-se «suar a camisola» e não os calções.

A coisa torna-se mais complexa se pensarmos em clubes como FC Porto ou o Sporting, aos quais nos referimos como «azul e branco» e «verde e branco». Será que podemos então trocar por «branco e azul» ou «branco e verde», uma vez que são ambas partes da mesma camisola, possuindo o mesmo estatuto ontológico? Não, pois a ontologia não explica tudo na vida. Ao contrário do Real Madrid, do Vitória de Guimarães ou do Farense, clubes que têm no branco a sua identidade, o seu «rosto cromático», já nas camisolas do FC Porto e do Sporting esse mesmo branco surge apenas como alicerce que suporta a identidade, tanto cromática como simbólica, do azul e do verde, o verdadeiro rosto cromático desses clubes. Há, neste caso, uma diferença clara entre sensação e percepção. Quando vemos as equipas no relvado ou num jogo de matraquilhos, os olhos tanto vêem o branco como o azul e o verde. Porém, no nosso cérebro, por razões culturais, tendemos a reforçar mais a presença do azul e do verde do que a do branco, não por se tratarem de cores com mais densidade.

Vejamos agora, finalmente, o problema do preto e branco ou branco e preto da fotografia ou do cinema. O sentido semântico do par «preto e branco», centra-se no facto de, enquanto par cromático autónomo, anular todo o restante espectro de cores. O estatuto das duas cores é, por isso, igual. No fundo, mais do que uma relação entre duas cores hierarquicamente distintas, como no caso das camisolas do FC Porto ou do Sporting, trata-se de uma correlação que torna indiferente a ordem da sua nomeação. Acontece aqui com o preto e o branco (ou o branco e o preto), o mesmo que com as frases «O João e a Joana são irmãos», «O João e a Joana combinaram jantar», que podem ser naturalmente transformadas em «A Joana e o João são irmãos» ou «A Joana e o João combinaram jantar» sem daí resultar mudança de sentido. O mesmo se passa com as proposições «x+y=y+x», 2x3=7-1» ou ainda «Inglaterra e Escócia fazem fronteira»=«Escócia e Inglaterra fazem fronteira». Em suma, dizer «branco e preto» é tão legítimo como dizer «preto e branco». Assunto arrumado?

Não. A referência "preto e branco" não representa apenas a junção de duas cores cuja ordem de nomeação pode ser arbitrária como acontece com dois números, dois nomes de pessoas ou de países. A referência "preto e branco" tem um sentido conceptual, referente a um conjunto de objectos fotográficos e cinematográficos que, por razões históricas ou estéticas, se apresentam com essas duas cores apenas. Se pensarmos no conceito de «ping-pong», facilmente percebemos que poderíamos trocar estas duas palavras que nem sequer têm valor semântico, dizendo «pong-ping». Qual o problema? Não podemos dizer «chuva de chapéu», em vez de «chapéu de chuva» ou «água de copo» em vez de «copo de água». Mas o que é um «ping»? E o que é um «pong»? Não exprimem uma relação entre dois objectos ou duas funções cuja troca levaria a uma perda de sentido. A própria expressão «trocas e baldrocas» aguentaria a sua transformação em «baldrocas e trocas» sem lhe retirar o sentido, pois, ao contrário dos exemplos anteriores, a sua ordem, tal como a de «jogar ao gato e ao rato» ou «lusco-fusco», é arbitrária (No Brasil diz-se Oriente Médio em vez de Médio Oriente). Trata-se porém, no caso do Ping-Pong de um nome de uma modalidade desportiva ou, nos outros, de expressões correntes, cujas ordens de nomeação apesar de convencionais, adquirem força de conceito identificador, tal como acontece com o duplo nome de uma pessoa. Se chamarmos João José ao José João, continuamos a invocar os seus dois nomes, continuam ambos a estar presentes. Porém, a pessoa a quem se referem deixou de ser invocada, perdeu-se como referência, chamando a uma pessoa o que é próprio de outra. Claro que com o «branco e preto» em vez de «preto e branco» não acontece esse problema, uma vez que não exprimem duas realidades distintas. Ainda assim, este último é o nome que se convencionou para um certo tipo de objecto artístico, implicado assim a sua troca a nomeação de algo que não existe. Posso, e devo, por isso, continuar a corrigir o meu aluno. Como corrigirei alguém que me diga que fui «Dar uma volta ao grande bilhar» para se referir ao que eu acabei de fazer.

18 fevereiro, 2017

O PROFESSOR DE HISTÓRIA

Arthur Leipzig | Chalk Games, 1950

Há dias, ao sair do prédio para a escola, tive a companhia do meu vizinho de cima, um garoto do 5º ano com quem havia apenas trocado alguns comentários futebolísticos (sei sempre quando o Sporting marca golo pelos gritos e tremores de terra vindos lá de cima) em duas ou três viagens de elevador. Como saímos juntos lá fomos então juntos a caminho da escola. 

Começámos, claro, com o Sporting, com o meu lado de sádico benfiquista a fazer das suas. Depois, como não poderia deixar de ser, passou-se para a escola. O costume: se gosta dela, da turma, disciplinas preferidas, chegando então a sua vez de me perguntar de que disciplina sou professor. Admito que algo infantilmente, em vez de lhe responder, peço-lhe para adivinhar. Pausa para pensar. Decide então que sou professor de História. Intrigado, mas também surpreendido pela pontaria quase certeira de um garoto que provavelmente nem sabe que há uma disciplina chamada Filosofia, nem conhece os meus interesses pessoais, pergunto-lhe porquê. Percebo que se esforça para tentar traduzir por palavras o que lhe vai no pensamento, até que responde: «Deve ser professor de História pois anda sempre a pé e com ar muito pensativo».

Isto foi há dias e há dias que isto não me tem saído da cabeça, nomeadamente nos meus percursos a pé entre casa e a escola, o que leva um garoto a presumir que serei professor de História, pretextando o facto de andar a pé e de ter, pelos vistos (meu deus, como isto é assustador), um ar muito pensativo. Enquanto ser racional que tenta penetrar nos circuitos mentais de outro ser racional, ainda avancei com a possibilidade de ele ter uma professora de História com ar pensativo e que ande sempre a pé, transformando-me assim, através de uma inferência indutiva baseada numa generalização pavloviana, num professor de História. Mas não. Há uma professora de História da minha escola que anda a pé mas porque mora mesmo ali ao lado. E quanto ao ar, todas têm, como toda a gente, o ar de quem pensa, o que é muito diferente de ter um ar pensativo. Pista anulada, portanto. A partir daqui, restou-me seguir, enquanto ser racional, os normais mecanismos racionais, sejam estes mais explícitos ou implícitos, de um ser igualmente racional ou que se prepara para o ser. Porém, e após muito esforço, nada consigo encontrar que me leve à relação entre a andar a pé e ter um ar pensativo e ser professor de História, o que pressupõe ainda haver razões para pensar que professores de Matemática, Inglês, Português, Geografia, Ciências ou Educação Visual não andam a pé nem têm um ar pensativo.

Em suma, desisti. Porém, não resisto a um certo pessimismo no que diz respeito a dois tipos de problemas. Um deles, o dos qualia, da subjectiva experiência mental de uma pessoa, seja de uma emoção ou de um simples cheiro ou sabor, a qual será sempre inacessível para outra pessoa. Neste caso, por muito que tente, não consigo ter a experiência mental da experiência mental de alguém que pensa ser eu professor de História só porque ando a pé e tenho um ar pensativo. Mas há muito que isto é óbvio para mim, sendo nós iludidos pela natureza esquemática e racional da linguagem, a qual sugere um entendimento claro entre as pessoas, só porque partilham um mesmo código com regras bem definidas.

O outro problema, e este sim, com mais achas para atear a fogueira do pessimismo, tem que ver com o modo como seres racionais constroem e associam aleatoriamente certas crenças que os levam a tomar certas decisões que, por sua vez, os levam a uma acção X em vez de uma acção Y ou Z. Decisões e acções que tanto podem ser as mais insignificantes do dia-a-dia, como a de comprar o iogurte A em vez do B, mas também as mais importantes e que mexem com aspectos cruciais da nossa vida, seja pessoal, seja colectiva, nomeadamente política. O misterioso fluxo argumentativo que levou este garoto a pensar que serei professor de História, pode não ser muito diferente do que leva milhões de pessoas a pensar que um dado político será o ideal para ocupar um cargo importante ou que uma dada resposta será a mais correcta e eficaz a uma pergunta colocada em referendo sobre a saída ou permanência de um país da União Europeia. Já disse que fui infantil ao ter feito a pergunta ao garoto em vez de ter logo respondido. Não escapo, portanto, desse registo. Mas tanto a minha pergunta como a resposta do garoto, faz-me lembrar o que dizia Platão sobre a fragilidade da democracia perante cidadãos cujos mecanismos racionais e argumentativos são muitas vezes obscuros e muitas vezes o resultado de desejos e crenças igualmente obscuros. Por vezes, sobretudo quando as condições são boas, acertam e fazem as sociedades funcionar. Porém, quando não é isso que acontece, resta-nos esperar que a sorte não seja demasiado madrasta até que tudo volte de novo à normalidade.

13 fevereiro, 2017

DONALD TRUMP E O GELO DA CONDESSA DE MORTSAUF

Alfonse Van Besten | Inverno em Brugges, descarregando um barco, 1912 [autocromo]

Há momentos na vida em que precisamos de um canalizador, profissão pela qual nutro uma enorme gratidão. É maravilhoso haver gente que goste e perceba de canalizações para, de rabo para o ar, andar de volta de um cano roto enquanto eu me sento no sofá com um romance de Balzac. Esta minha gratidão leva-me até às sábias palavras de Aristóteles quando invoca a natureza intrinsecamente política do ser humano. Ao contrário de um deus ou de um animal, que se bastam a si mesmos, nós fomos feitos para a polis, precisando dos outros para preencher a parte que nos falta. No caso do canalizador, a minha gratidão é ainda maior, pois preciso eu mais dele do que ele de um professor de Filosofia. Vendo bem, sou mesmo um felizardo pois preciso sempre eu mais dos outros do que eles, seja médico, cabeleireira, agricultor ou vendedor de electrodomésticos, de um professor de Filosofia.

Pode parecer algo exagerada uma semelhança entre canalizadores e políticos mas, do ponto de vista dos meus interesses, a lógica é a mesma. Uma casa tem de ser bem construída e com todos os componentes a funcionarem bem. Só assim se pode lá viver confortavelmente e sem grandes sobressaltos. Daí também a minha gratidão para com pedreiros, electricistas, afagadores, pintores ou carpinteiros que fazem as suas coisas enquanto eu ando a falar de teorias filosóficas em aulas onde aproveito para falar dos clássicos da literatura que leio no sofá enquanto o canalizador está de rabo para o ar.

O mesmo se passa com a sociedade e o Estado: precisam de funcionar bem para que a vida das pessoas, em todas as suas dimensões, possa decorrer com toda a normalidade, tendo que haver alguém que faça o serviço. Ora, dou mil graças a Deus por não ter de ser eu uma dessas pessoas. Tal como não me imagino canalizador de rabo para o ar, detestaria, ainda que de rabo sentado, ser ministro, secretário de estado, deputado, presidente de câmara, presidente de junta de freguesia ou membro da Assembleia Municipal de qualquer paróquia deste país onde iria discutir o alcatroamento de uma estrada entre duas aldeias em vez de estar sentado no meu sofá com um clássico da literatura. Atenção, não estou a tirar valor e dignidade à função. Louvemos tão insignes cidadãos que trocam um clássico da literatura pelo alcatroamento de uma estrada. Estou apenas a dizer que, como no caso do canalizador, se trata de um importante e nobre serviço que precisa de ser feito mas que dou graças por haver quem o queira fazer por mim, uma vez que existem cestos e cestos de coisas que me interessam mais do que a política. Claro que o simples facto de acompanhar a política está muito longe do penitente acção de fazer política. Mesmo assim, não troco as belas coisas que o mundo tem para oferecer por assuntos de natureza política, desde que esse mundo, mais à esquerda ou mais à direita, se vá equilibrando com alguma normalidade.

É por isso que entendo lindamente estas palavras de Daniel Dennett no The Guardian de ontem. Mais interessante se tornam ao cruzá-las com outras que li há dias, num clássico da literatura escrito por Balzac, chamado O Lírio do Vale. São palavras de Félix de Vandenesse à condessa Natália de Manerville, estando relacionadas com a sua estadia em casa da condessa de Mortsauf:

Quando desci para jantar, soube [Convém lembrar que, à época, não havia telejornais, a TSF ou o Sapo Notícias] do desastre de Waterloo, da fuga de Napoleão, da marcha dos aliados sobre Paris e do regresso provável dos Bourbons. Este acontecimentos, que para o conde eram tudo, não foram nada para nós. Queres saber, Natália, qual foi a maior notícia que recebi depois de ter acariciado as crianças? A grande novidade para nós foi: «Vai ter gelo!» A condessa tinha-se muitas vezes aborrecido no ano anterior por não ter água bastante fresca para mim, que, não tendo outra bebida, gostava dela gelada.

Para Félix, este é o seu momento Kafka que, no dia 2 de Agosto de 1914, escreve no diário «A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, natação.» Ou o seu momento Luís XVI que, no dia da tomada de Bastilha, também no seu diário, regista: «Rien». Pegando na entrevista, pode-se dizer que o tempo dedicado por Daniel Dennett ao estudo da consciência sem ter de estar preocupado com questões políticas, corresponde ao gelo da Condessa de Mortsauf.

O problema é que por muito aborrecido que seja o envolvimento com esse tipo de questões, o filósofo norte-americano é bem capaz de ter razão quando refere a necessidade de estar mais atento à política. O que fazer quando um perigoso canalizador, em vez de resolver o problema para que foi incumbido, põe ainda mais em risco a canalização lá de casa e, a fortiori, a tranquilidade doméstica? Nesse caso, apesar da natureza desinteressante do problema, faz sentido levantar o rabinho do sofá. Ora, com a política deve passar-se exactamente o mesmo para depois não termos de ouvir a voz cínica de Arnold Toynbee a sussurrar-nos ao ouvido: «O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam». O interesse de Félix pode estar todo centrado no gelo da Condessa de Mortsauf. Mas se o mundo aquecer demasiado, seja por causa de Napoleão, da marcha dos aliados sobre Paris ou do regresso dos Bourbons, não há gelo que resista. 

12 fevereiro, 2017

VENTOS E TEMPESTADES

Gustave le Gray | Farol e Molhe, 1857

A Novela do Curioso Impertinente ocupa vários capítulos do D. Quixote, podendo mesmo ser lida como um livro dentro do próprio livro, não estranhando por isso que, logo em 1608, tenha merecido, em França, a primeira publicação autónoma. Quem não tiver tempo, paciência ou simplesmente vontade de ler toda a obra, poderá ler esta novela sem que isso represente uma grande maçada. Situa-se entre os capítulos XXXIII e XXXV, da Quarta Parte, do Livro I, não chegando a 50 páginas da minha edição.

Anselmo, um nobre de Florença casado com Camila, a mulher mais virtuosa que se possa imaginar, e que tem a perfeita noção de estar casado com a mulher mais virtuosa que se pode imaginar, mesmo assim, sente alguma incerteza face a essa virtude, admitindo a possibilidade, ainda que vã, de não ser ela tão perfeita e absolutamente imune à fraqueza quanto se possa acreditar. Como podemos ter a certeza de ser essa virtude inabalável se nunca foi posta à prova? Propõe então um plano ao seu melhor e mais fraternal amigo, Lotário, com quem mantém a relação de amizade mais perfeita que se pode conceber: que ele se insinue a Camila a fim de tentar que esta caia em tentação, passe a cacofónica aliteração. O amigo, homem que mais nobre e honrado não poderia ser, e igualmente reconhecedor das perfeitas virtudes de Camila, com quem mantém uma relação de absoluto respeito fraternal, fica em estado de choque, horrorizado, ofendido e sem conseguir acreditar em tão absurda e inverosímil proposta. Profere então um discurso fortemente moralista no qual revela toda a sua indignação perante o plano do amigo. Porém, a forte amizade que o prende a Anselmo, leva-o a ceder, levando à prática o insane projecto de uma mente tão caprichosa. Numa primeira fase, ainda mente, dizendo a Anselmo que se insinuava perante Camila, quando, afinal, nada fazia. O impertinente marido, porém, escondendo-se para assistir à acção de Lotário, acaba por descobrir a louvável mentira. Descoberta esta, não desiste do seu plano, levando Lotário a dizer as seguintes palavras: «Desgraçado e imprudente que és, Anselmo! Que fazes tu? Que planeias? [...] Se a mina da sua honra (Camila), formosura, honestidade e recato te dá sem nenhuma preocupação toda a riqueza que tens e podes desejar,- para que queres aprofundar a terra e buscar novos veios de um novo e nunca visto tesouro, pondo-te em risco de tudo vir a baixo, pois, enfim, sustém-se sobre as débeis bases da sua fraca natureza? Olha que a quem busca o impossível é justo que o possível se lhe negue [...]». 

Mas em nome da amizade, e embora céptico, lá resolve avançar. Várias peripécias ocorrem nas quase 50 páginas da novela, as quais não importa agora referir. Apenas dizer que acaba em tragédia, depois de Camila, após várias e pressionantíssimas tentativas, ter finalmente vacilado. No final, Anselmo morre, estando junto ao seu corpo um texto por si escrito, no qual reza o seguinte: «Um estúpido e impertinente desejo tirou-me a vida. Se o conhecimento da minha morte chegar aos ouvidos de Camila, que ela saiba que lhe perdoo, porque não era obrigada a fazer milagres, nem eu precisava querer que os fizesse; e já que fui o fabricante da minha desonra, não há motivo...» E pronto, morreu.

Poderemos conjecturar várias leituras deste tão pungente episódio. Por exemplo, ver a curiosidade de Anselmo como herdeira da curiosidade que contaminou Adão e Eva, sendo também aquele expulso do seu paraíso, neste caso, conjugal. Não me parece, todavia, uma tese pertinente. A serpente é astuta mas Adão e Eva não passam de duas crianças crescidas. São homem e mulher feitos mas a sua consciência nada sabe do mundo, excepto que não podem comer de uma dada árvore, mas sem sequer saberem porquê. A partir daí foram simplesmente manipulados pela serpente, ficando divididos entre o que lhes disse esta e Deus. A serpente até foi sincera, dizendo que depois iriam abrir os olhos e ficar com a consciência do bem e do mal. Mas, como duas crianças, não poderiam perceber a complexidade teológica, ética e antropológica daquela conversa. Ora, Anselmo é um adulto feito e tem bem a consciência de onde se está a meter, sabendo que está a brincar com o fogo. Neste caso, a serpente será Anselmo mas, no fundo, presumindo que a experiência vai dar em nada, indo responder a inocente Camila com a força da sua natureza e carácter.

Há também a possibilidade de comparar o seu capricho com o de Ícaro, em virtude do seu desejo de ir para lá dos limites razoáveis. Mas olhemos bem para o que conta Ovídio. Dédalo, pai de Ìcaro, constrói o seu artefacto com um objectivo mais do que justificado: fugir da prisão. E já que não o pode fazer por terra, fá-lo-á pelo ar. Ícaro é apenas um garoto que,  já no ar, segue atrás do pai, fascinado com a sensação que o levará a perder o controle da situação, desrespeitando o que aquele lhe havia ensinado sobre o voo. A sua queda não é muito diferente dos casos de jovens que, mal se apanham com a carta de condução, resolvem fazer umas brincadeiras com o carro, tendo acidentes graves. Vão para lá dos limites? Sim, claro, mas trata-se apenas do resultado de uma juvenil irresponsabilidade, do deslumbramento perante uma experiência radical. Ícaro é apenas vítima da sua adrenalina, daí que toda a moral à volta desta história me pareça manifestamente exagerada, talvez na mesma linha de Pedro e o Lobo, nada que ver, portanto, com o tortuoso caso de Anselmo. 

Outra possível pista seria tratar-se de uma história que tem o ciúme como núcleo principal, como acontece com Otelo ou o Bentinho de Dom Casmurro, esse grande e delicioso livro da língua portuguesa, evitando falar no marido ciumento desse fabulosíssimo filme de Wilder que é Kiss me Stupid, o qual daria agora pano para mangas que não vou querer vestir. Mas Anselmo não é Otelo, nem Bentinho. O primeiro, manipulado pelo veneno de Iago, encontra razões para o seu ciúme, ainda que não sejam verdadeiras. O mesmo se passa com Bentinho, que parte de um indesmentível dado factual: a enorme parecença entre o seu filho e o seu melhor amigo. Anselmo, pelo contrário, não tem o mais pequeno motivo para sentir ciúmes, admitindo a sua própria estultícia quando, com sentimento de culpa e vergonha, se prepara para contar o seu plano ao amigo: «[...] não sei desde há quantos dias até hoje me angustia e me oprime um desejo tão estranho e tão fora do uso comum de outros, que estou assombrado comigo mesmo, e me culpo e censuro a mim próprio a sós, e procuro calar e encobrir tudo isto dos meus próprios pensamentos».

A minha leitura é outra, seguindo a pista que Cervantes coloca na boca de Lotário, já acima citada: a quem busca o impossível é justo que o possível se lhe negue.  O que faz Anselmo é brincar com o fogo, não o fogo que Prometeu roubou aos deuses para o dar aos seres humanos mas um fogo que apenas serve para destruir. E que fogo é esse? O desejo de virar as costas a uma aurea mediocritas que, dentro das possibilidades, limites, defeitos, e valor relativo e circunstancial de todo o bem humano, permite uma vida normal e feliz. E isso, em nome de quê? Do desejo de uma perfeição ainda maior, de objectivos ainda mais elevados, motivados por uma vã e caprichosa curiosidade face a níveis de perfeição ainda maiores. Camila é um exemplo supremo de virtude, merecendo todos os louvores e respeitos a si dirigidos. Mas é bom lembrar estas outras seguintes palavras de Lotário: «A mulher é um animal imperfeito, e não se lhe hão-de pôr obstáculos onde tropece e caia, mas tirar-lhos, e desimpedir-lhe o caminho de qualquer dificuldade, para que sem custo corra veloz para alcançar a perfeição que lhe falta, que consiste em ser virtuosa. [...] A mulher perfeita é como um espelho de vidro luzente e claro, mas que está sujeito a embaciar-se e escurecer com qualquer hálito que lhe toque. Deve usar-se com a mulher honesta o modo de proceder que se tem com as relíquias: adorá-las e não lhes tocar.»

Esta história tem como alvo a fraqueza e fragilidade de uma mulher que, não fossem os experimentalismos ousados e desnecessários de um caprichoso e insolente marido, levaria uma vida absolutamente normal, orientada por valores sãos e virtuosos. Mas o que é verdade para Camila será extensivo à humanidade. O ser humano é o animal perfeito, o espelho de vidro luzente, a relíquia de que fala o sábio Lotário, se de cujo caminho se retirarem obstáculos em vez de lá colocá-los sem que disso haja necessidade. Coloque-se um ser humano normal perante situações normais e normal será a sua vida. Se, porém, lhe apresentarem a possibilidade de fazer emergir forças, desejos, pulsões que, como acontece no caso anterior, estão adormecidos nos mais remotos circuitos da alma humana, então a caixa de Pandora abrir-se-á, fazendo com que a humanidade enfrente o mesmo triste e miserável destino de Anselmo, que tinha a mulher perfeita, o amigo perfeito, a vida perfeita, dentro do que é humanamente concebível e razoável como sendo perfeito. Depois de tanto vento já semeado em tanta história atrás de si, grande experiência tem a humanidade para já o ter aprendido sem ser sequer necessária uma revisão da matéria dada.

10 fevereiro, 2017

PALIMPSESTO

Paul Sano | Duplo Retrato da sr. Corbet, 1912 [aurocromo]

Diz o jornalista António Caeiro sobre a China, onde viveu e sobre a qual escreveu, que lá o passado é sempre imprevisível. É uma boa piada. Mas se diz a Lógica que o que é verdade para o todo também o é para as partes, aqui, é caso para dizer que o que é válido para a parte também o será para o todo. Ou seja, o passado é coisa intrinsecamente imprevisível e não é preciso ser psicanalista para o saber. O passado é sempre uma coisa futura. Será sempre aquilo que a memória, no futuro, consegue fazer e a respeito dele. Daqui a alguns anos, pode acontecer que umas escavações venham alterar a nossa percepção da vida doméstica na Roma antiga, ou que a futura descoberta de um esqueleto altere o que sabemos, ou julgamos saber, do Paleolítico.

O passado é feito do que já sabemos mas também do que já não sabemos, do que ainda não sabemos ou até mesmo do que nunca chegaremos sequer a saber. E o que julgamos saber será sempre uma parte do que há para saber, uma ignorância sobre o que ainda há para saber ou uma distorção do que seria suposto saber. Enquanto houver futuro, o passado nunca será uma casa fechada, sem portas e janelas, onde já ninguém pode entrar. Será sempre um palimpsesto arquitectónico, como aqueles mosteiros ou conventos medievais, aumentados, ao longo de novas épocas, com outros estilos e funções. Camada sobre camada, cada uma apagando ou modificando a outra. E quanto mais se escava maior a consciência do que ainda haverá para escavar.

09 fevereiro, 2017

OVO KINDER


Dizia Kierkegaard que a multidão não tem mãos. Quando uma multidão comete um crime, não são indivíduos que o cometem mas a multidão em cuja massa compacta desaparecem as mãos. É verdade que a multidão que se vê nesta fotografia, sendo pequena, permite distinguir os rostos individuais que dela fazem parte. Mas isso não anula as mãos, homogéneas e uniformes, a erguerem-se na mesma direcção, sejam as de crianças ou de adultos. O facto de serem mãos de crianças e de adultos pode levar-nos a pensar em dois diferentes níveis de consciência, dois grupos distintos, o das crianças e o dos adultos, presumindo-se que as emoções, motivos e crenças que levam as primeiras a erguerem as mãos, são muito diferentes das emoções, motivos e crenças que levam os primeiros. As crianças estão ali como marionetas, sem saberem muito bem porquê, talvez por mera imitação e contagiadas pelo entusiasmo dos adultos, enquanto adultos erguem as mãos pela sua própria vontade autónoma, livre-arbítrio e um considerável nível de consciência política.

Nada mais falso. Quando se trata de crenças políticas, por muito adultos que sejam os indivíduos, os seus desejos, emoções, crenças, estão muito longe dos níveis de racionalidade que se exigem a um médico quando faz a avaliação de uma doença ou a um engenheiro que precisa de saber como fazer uma ponte que não venha um dia a cair. A política é uma actividade complexa e com um elevado grau de racionalidade mas a relação das multidões com a política explica-se pelos mecanismos mais elementares do comportamento e processos mentais do ser humano. Por que riem aquelas mulheres e homens? Por que riem aquelas crianças? O que sentem uns e outros? Por que erguem as mãos daquela maneira perante a presença de um líder, de um slogan, de um cântico? Certamente que são movidos por forças muito semelhantes. E, a haver semelhanças, não serão as crianças a aproximarem-se dos adultos mas os adultos a aproximarem-se das crianças. E no caso desta fotografia é desconcertante e bizarro o modo como o ovo da serpente pode começar por parecer um ovo kinder que chega alegremente à mão erguida de uma criança.

08 fevereiro, 2017

AGORAFOBIA


A doença da Inglaterra vitoriana era a claustrofobia - havia uma sensação de sufoco e os melhores e mais dotados homens deste período, Mill e Carlyle, Nietzsche e Ibsen, homens tanto de esquerda como de direita - reclamavam mais ar e mais luz. A grande neurose da nossa época é a agorafobia; os homens vivem assustados com a ameaça de desintegração e de uma excessiva falta de direcção: exigem, como os desgovernados homens do estado de natureza de que fala Hobbes, paredes para conter o tumultuoso oceano, ordem, segurança, organização, uma reconhecida autoridade, e estão alarmados com a perspectiva de uma excessiva liberdade que os deixe num vasto e hostil vaccum, um deserto sem estradas, marcos ou metas. Isaiah Berlin, John Stuart Mill and the Ends of Life


Não falta graça e criatividade a esta «capa». Trata-se, porém, de um equívoco. Visitar a famosa distopia orwelliana (para os mais renitentes à leitura haverá o excelente filme de Michael Radford, com o recentemente falecido John Hurt num dos seus grandes papéis) é ter a experiência de uma sociedade claustrofóbica, suportada por uma linguagem e um sentido único, que formatam as consciências numa só direcção, de acordo com o que o Partido determina ser a verdade. Hoje, padecemos cada vez mais de um problema de agorafobia, o facto de vivermos numa enorme arena onde existe um excesso de linguagem, a possibilidade de tudo dizer, criticar, afirmar, onde emerge cada vez mais um politeísmo de valores, discursos, ideias, projectos, sentidos. A sociedade aberta combateu tanto, e bem, diga-se, os seus totalitários inimigos, que acabou ela própria por ficar refém dos seus múltiplos braços e olhos, como se de uma sincrética estatueta antiga se tratasse. Por princípio, é preferível uma sociedade com múltiplos braços e olhos, a uma sociedade ciclópica, governada por um cérebro limitado e mesquinho. Por princípio, insisto, e quando um contexto social e económico favorável permite o luxo de podermos assumir a nossa racionalidade tanto nos aspectos mais básicos e ínfimos da vida, como nos mais complexos de um ponto de vista político e moral. Quando isso falha, ou se revela em crise, a bela estatueta dos múltiplos olhos e braços transforma-se numa cacofónica torre de Babel impedida de prosseguir o seu natural caminho rumo a uma paz celestial, perpétua, como gostaria Kant de a ver.

Antes da democracia, a democracia era o objectivo, como se fosse, por si só, o grande desígnio da humanidade. Ora, que valor tem, hoje, para nós, a democracia? Em Reflexões sobre a Revolução na Europa, Sir Ralf Dahrendorf diz que as sociedades abertas são sociedades frias e que a democracia não passa de uma forma de governo, não «um banho a vapor de sentimentos populares». Ora, há décadas que, no mundo ocidental, democracia se confunde com política normal. Um regime que ninguém quer dispensar mas que também não cria especial empatia. Desejamo-la e lutamos por ela se não a tivermos, porém, se a tivermos deixa de ser um objecto de desejo. A democracia é como o velho candeeiro da sala: está lá, faz-nos falta mas nem damos por ele, apenas por o que é iluminado por ele.

A que se refere Berlin quando fala em desintegração, numa excessiva liberdade, em hostil vaccum, deserto sem estradas, marcos ou metas? Não está a diabolizar a democracia. Apenas tem a consciência de que sendo o sistema que mais promove a liberdade e  o pluralismo, pode levar a um sentimento de orfandade colectiva e ideológica, devido à ausência de projectos «quentes» e colectivos que mobilizem ou envolvam activamente as pessoas, anichadas que estão nos seus projectos e metas individuais sem fim. Daí a agorafobia que, de certo modo, não deixa de ser contraditória. As pessoas usam e abusam da liberdade, aproveitam-se dela para chafurdarem nos seus próprios vómitos mentais mas também acabam por ser vítimas da vastidão desse espaço vazio que é a liberdade e dos excessos que dela decorrem, nomeadamente na linguagem, através da qual emergem depois falsos e perigosos profetas com calorosos e patrióticos projectos que dão um sentido aos seus desejos. Entre o Mein Kampf ou o Livro Vermelho e a incontinente verborreia do twitter, das redes sociais, dos comentários grotescos que poluem o espaço social, ou da contra-informação que tem o mesmo peso da informação, venha o diabo e escolha.