23 julho, 2024

ALGODÃO ENGANADOR

Há já uns bons anos a viver numa casa cuja cozinha é toda branca, ainda hoje vacilo sobre a sua cor. Há dias em que gosto por assim realçar a mais pequena mancha de sujidade e poder logo limpar. Mas há outros em que, muito sinceramente, preferia que fosse outra a cor para passar despercebida alguma sujidade. É pena o mesmo critério não poder ser aplicado à natureza humana, a qual, algo paradoxalmente, aparece tantas vezes branca para assim poder disfarçar as suas horríveis, ou pelo menos desagradáveis, manchas de sujidade.

22 julho, 2024

GILDA

Ficou gravado na pedra o que disse Rita Hayworth a respeito de Gilda. Há duas versões, a verdadeira e a apócrifa, mas também pouco importa: «Every men I knew went to bed with Gilda and woke up with me» ou «They fell in love with Gilda and woke up with me». A frase ficou tão colada à actriz como a Estátua da Liberdade a Nova Iorque, a Torre Eiffel a Paris ou os pastéis de Belém a Lisboa, mas, vendo bem, não é isso que acontece com a maioria, tanto dos homens como das mulheres, nem que seja anos depois?

21 julho, 2024

PUT THE BLAME ON MAME


O homem, latino-americano, percebendo que eu tinha acabado de fotografar, tira a máscara e, educadamente, pergunta-me por que estava a fotografar aquele sítio. Educadamente, mas não sem aquele sorriso nos lábios de quem está a pensar «Por que raio está a tirar fotografias a esta porcaria de sítio em vez de todos aqueles glamorosos locais onde os turistas fazem as selfies?». E o que haveria eu de dizer a não ser o óbvio? Que gostava de fotografar sítios em ruínas, sítios que estiveram outrora cheios de vida, e que, entretanto, morreram para dar lugar a outros novos. Quanto ao verdadeiro motivo, nem eu saberia explicar e, muito provavelmente, nem ele iria perceber.

20 julho, 2024

O SINO

Uma pessoa pode caminhar de manhã bem cedo pelo mais belo cemitério do mundo, banhado por uma luz perfeita para fotografar os seus eternos residentes de pedra envolvidos por elegantes e sumptuosas árvores. Mas como fotografar o som de um sino que ecoa pelo absoluto silêncio da manhã como fizesse parte dele?

19 julho, 2024

APARÊNCIAS

A palavra aparência apresenta um duplo significado: tanto pode referir-se ao aspecto de uma coisa ou pessoa, como à sua falsidade, sendo extraordinária a facilidade com que aceitamos a ideia de que o que vemos poder desde logo ser falso. Não menos extraordinário é o modo como tantas vezes usamos a expressão "falsas aparências" sem darmos conta da redundância, mas que talvez se explique facilmente por estarmos tão habituados a acreditar na diferença entre as tais aparências falsas, as que os outros vêem, e daí dizer-se que as aparências iludem, e aparências verdadeiras, que são, obviamente, as nossas.

18 julho, 2024

ESPERANÇA DE VIDA

É muito bom passarmos a vida a adiar o que gostaríamos fazer. Aproximarmo-nos da morte, continuando a esperar é, seguramente, a melhor maneira de aumentar a esperança de vida. Uma pessoa morre, mas morre cheia de esperança de vida.

17 julho, 2024

HERMES

Ouvi alguém dizer: tenho a certeza absoluta de que é assim, mas posso estar enganado. Começou dogmaticamente, mas redimiu-se com o final. Mas como nas minhas aulas de Hermenêutica aprendi a separar o sentido lógico do sentido literal de um texto, sei bem o que, no fundo, ele quis mesmo dizer: posso estar enganado, mas tenho a certeza absoluta de que é assim. Bons tempos aqueles em que Hermes fazia a ligação entre homens e deuses, hoje, serve apenas para suscitar pessimismo entre os homens.

16 julho, 2024

VAI E VÊ

Um golo de Nico Williams pela Espanha, de Mpabbé pela França ou de Rafael Leão por Portugal, fazem mais contra o racismo do que dezenas de sermões, PowerPoints didácticos ou documentários nas aulas de Educação para a Cidadania.

15 julho, 2024

ITÁLIAS

Quando, fora de Portugal, incluindo Espanha, tentam adivinhar a minha nacionalidade, atiram quase sempre com o ser italiano. Sabendo eu da boa fama que têm os homens italianos, para além da surpresa que nunca me abandona, deveria sentir-me vaidoso, mas, tendo um espelho lá em casa, acabo sempre por ficar meio embaraçado. Ainda bem que ontem vi Chiellini  a transportar a taça do Europeu para o relvado, passando tudo a fazer sentido. Há a Itália de La Dolce Vita e dos anúncios do Martini, e a Itália do neo-realismo que marcou de tal modo a nossa memória colectiva que dela ainda não saiu.

10 julho, 2024

A TERCEIRA METAMORFOSE

Foi em Turim que o ardente vulcão em que se estava a transformar a cabeça de Nietzsche entrou em erupção para depois se extinguir de vez. Mas, antes disso, ironicamente, a temporada na cidade ia sendo marcada por dias de amena felicidade. Dormia bem, passaram-lhe as dores de cabeça e as náuseas, dava longos passeios pelas margens do rio, frequentava os cafés e livrarias da cidade, regalava-se com a comida, e havia um piano na residência onde estava alojado, mesmo ao lado da praça onde viria a ocorrer o célebre episódio com o cavalo. E os gelados, os gelados com os quais se regalava o filósofo. Antes da ardente erupção, o que mais gosto de imaginar é, sentada na pequena mas elegante sala do Fiorio (consta que eram os seus preferidos), uma criança grande toda ela concentrada na meticulosa mas alegre ciência de comer um gelado, fazendo coincidir o fim deste com o fim de si mesma.

09 julho, 2024

VÍRUS

Não sendo propriamente a pessoa mais arrumada do mundo, vou deixando acumular, perto da aparelhagem, os cd´s que vou ouvindo. O que fez com que, por mero acaso, aos Silêncios do trio de Carlos Barreto, que já lá estava há algum tempo, se viesse juntar um cd de Sofia Gubaidulina que apresenta uma série de composições intituladas Silêncio. Ouvem-se os respectivos silêncios, que nada têm que ver entre si e, apesar do prazer da música, uma nuvem de pessimismo paira dentro da minha cabeça. Se nem com o silêncio nos entendemos, com a linguagem, se exceptuarmos coisas como uma cadeira ser uma cadeira e uma lâmpada uma lâmpada, a confusão só pode ser maior.

08 julho, 2024

LÍNGUA

Há muitos anos que deixei de tomar café com açúcar e um único grão já provocaria hoje estragos nas minhas papilas gustativas como ervilha em cama de princesa. Também passei a comer iogurte natural sem açúcar mas, neste caso, sem perder a nostalgia do seu sabor quando a colher podia ficar em pé graças à quantidade de açúcar que nele deitava. Entretanto há coisas como iscas ou rins que sempre detestei e continuo ainda hoje a detestar. Como há outras como o chocolate de que sempre gostei e estou certo de que irei continuar a gostar. E pronto, eis a história da minha vida. Por muito que as nossas ideias, ideologias, idiossincrasias nos possam dar um rumo e convencerem-nos de que é graças a elas que temos um rumo, também no que somos, será sempre a língua, tal como a outra que, no meu caso, é a portuguesa, a determinar quando estamos em nossa casa ou, estranhos, num país cuja língua não percebemos de todo, ou balbuciamos, ou até podemos perceber quando ouvimos ou lemos, mas não falamos.

07 julho, 2024

TRADIÇÃO

Leio um livro, um texto literário, em versão bilingue. Só não passo o tempo a recorrer ao dicionário para saber o significado de inúmeras palavras traduzidas na minha própria língua porque basta olhar para a página esquerda e encontrar a vulgaríssima palavra original cujo significado qualquer inglês entende, e que usa no seu dia-a-dia desde criança. Uma tradução absurda, mas que acabo por compreender, se considerar, e ser professor ajuda bastante, que vivo num país, com o dom, tanto no discurso como na acção, de tornar complicado e ambíguo o que foi feito para ser simples e claro.

06 julho, 2024

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Consideraríamos absurdo um cego ter uma cor preferida, mas habituámo-nos bem à ideia de as pessoas terem opinião sobre tudo e um par de botas, e que alguns só por terem meio olho já possam ser reis.

05 julho, 2024

AUTIBIÓTICOS

As noções de placebo e de nocebo estão ligadas à Medicina e experiências farmacológicas, mas merecem também atenção no campo existencial. Muitas pessoas são felizes apenas por acreditarem que o que lhes acontece na vida as faz felizes. Muitas outras são infelizes por apenas acreditarem que o que lhes acontece na vida as faz infelizes. Depois, há as que são mesmo felizes e infelizes.

04 julho, 2024

SETE SÍLABAS


Nada se sabe de Luís Duarte a não ser, como dizia Alberto Caeiro sobre a sua biografia, haver duas datas na sua vida. Uma vida que há-de ser feita de milhares de partículas atómicas, mas perdendo toda a importância depois de limpas por estas sete sílabas que tornam a sua vida ainda mais simples que um haikai. Pode ter sido engenheiro, barbeiro, agente de seguros, rico, pobre, de esquerda, direita, católico, ateu, heterossexual, homossexual, bonito, feio, inteligente, néscio, gostar ou não de desporto, de ir ou não ao restaurante aos domingos, de fazer férias em paraísos tropicais ou ficar em casa, ser tímido, extrovertido, paciente ou impaciente. Como numa pintura de Klein ou de Rothko que só tem alguma coisa para que possa ser uma pintura, tudo isso se torna irrelevante e supérfluo face aos dois tempos verbais que surgem tão simetricamente entrelaçados como o preto e o branco da fotografia a preto e branco, ou nos pares Tristão e Isolda, Rómulo e Remo, Tom e Jerry, Laurel e Hardy, Simon e Garfunkel, Abel e Caim, Jekyll e Hyde, Bonny e Clyde. Tivesse ele amado mas não sido amado, ou sido amado mas sem amar como o trágico Narciso, e a sua vida já seria um círculo aberto, mal desenhado e cheio de arestas por limar. Mas assim, juntas, surgem, como na teologia cristã, com a força de duas hipóstases concentradas numa única essência amorosa e - porque não dizê-lo? - biográfica.  

03 julho, 2024

CAMUFLAGEM

As cidades europeias estão de tal modo grafitadas e os europeus tatuados, que é como se as cidades estivessem tatuadas e os europeus grafitados, apresentando as cidades um vistoso corpo de europeu e os europeus uma vistosa parede de cidade.

02 julho, 2024

ENTRE ESTANTES

Entro no supermercado e logo a seguir a uns expositores com detergentes, cadeiras de praia e pacotes de pão bimbo, dou com uma pequena feira do livro, saindo minutos depois com um romance de Dostoievski com 40% de desconto, bem acompanhado de batatas, lata de grão, fatias de queijo flamengo e areia para o gato. Será degradante ou antes uma alegria dar com Dostoievski onde é habitual ver bolachas ou pacotes de sumo? Adaptemos o Teste de Turing à situação: diante da minha estante, peço que identifiquem os livros comprados em livrarias, os livros comprados no supermercado e os que vieram pelo correio. Como não vão conseguir, concluo que é indiferente o sítio onde se compram. Isto, se pensarmos no livro. Outra coisa é o acto de comprar o livro. É bem melhor comer uns belos filetes de pescada com salada russa num belo restaurante do que num vulgar e sem graça nenhuma, ou chegarem a casa trazidos numa mota. Mas se os filetes forem mesmo bons e a pessoa estiver só focada neles, ao contrário do puritano que não abdica de um belo restaurante, come-os nas mais diversas circunstâncias. Também é muito mais interessante comprar um livro no seu lugar natural, que é a livraria, a qual, quanto mais bonita for, mais o dignifica, embora em muitas os livros já tenham passado para segundo plano. Mas se no supermercado aparecer um bom livro à frente, não há como não o comprar. Depois, como na física aristotélica, cada coisa encontrará em casa o seu lugar natural: batatas na cozinha e Dostoievski na estante, bem acompanhado por ele próprio e os seus colegas russos.

01 julho, 2024

CONSONÂNCIA COGNITIVA

Retiro o que disse. Dizia eu que quanto mais descontraído, seguro e confiante alguém estiver com o que é, mais descontraído, seguro e confiante estará para, sem medo ou sem vergonha, se relacionar com o que não é ou mesmo com o contrário do que é. E disse-o porque embalado por padrões mentais de bom senso e normalidade que, por manifesta ingenuidade, tendo a associar ao ser humano em geral. Mas o que dizer de um racista, de um xenófobo ou de um pró-fascista, tão seguros, confiantes e descontraídos por serem o que são? E, pelos vistos, é para aí que o mundo caminha. Ora, se a Psicologia é uma ciência, e se a ciência incide sobre padrões, regularidades e previsibilidades, ainda que, como diria David Hume, contingentes, então é caso para dizer que quanto mais descontraído, seguro e confiante alguém estiver com o que é, menos descontraído, seguro e confiante estará para ter medo e vergonha de se relacionar com o que não é, e mais ainda com o contrário do que é.

30 junho, 2024

À PROVA DE BALA

 


O STOP é um antigo centro comercial onde, depois de encerrado, ensaiaram algumas bandas que vieram a ser conhecidas, sendo agora um espaço decrépito onde ensaiam bandas ainda não conhecidas ou que jamais virão a sê-lo. O que aqui temos à frente é algo de básico da psicologia humana e cujo benefício moral e social não deve ser desprezado: quanto mais descontraído, seguro e confiante alguém estiver com o que é, mais descontraído, seguro e confiante estará para, sem medo ou sem vergonha, se relacionar com o que não é ou mesmo com o contrário do que é.  

28 junho, 2024

JE NE SAIS QUOI

Na minha escola há o hábito de ler um texto no início de cada conselho de turma, quase sempre um poema. Esta semana, poucos dias depois de uma ex-aluna me ter dito que estava aware de uma determinada situação, uma colega escolheu duas passagens da Antígona, o que muito me alegrou, por não ter de ouvir mais um poema e por ser um dos meus textos preferidos, mas informando que iria lê-las em Inglês. A professora, que não é de Inglês, é uma jovem, tão jovem que, no dia em que chegou à escola, ao entrar num pavilhão para dar aula, a funcionária começou a ralhar com ela por os alunos só poderem entrar depois dos professores. Começa a ser cada vez mais habitual ver jovens, os poucos que lêem, lendo em Inglês, ou a misturarem palavras inglesas com portuguesas. Apesar do sinal de cosmopolitismo, provando que já não somos os bárbaros lusitanos de Tácito, foi maior o meu prazer ao receber de um jovem (também anglófilo) uma caixinha de chocolates. Pelos chocolates, claro, mas por estar escrito na caixa a palavra "Merci", que, por ser francesa, aparenta cada vez mais o raro estatuto e arcaico sabor de uma palavra grega ou latina. Gosto muito de Inglaterra, ouvi muita, e continuo a ouvir, música anglo-saxónica, ainda hoje, apesar de não ter lareira, não me sai da cabeça "Home, home again/I like to be here when I can/And when I come home, cold and tired/it's good to warm my bones beside the fire", gosto de scones com manteiga no Inverno, do mundo de Beatrix Potter, de ouvir as vozes do Jeremy Irons ou do John Gielgud a falar aquela língua, das capas dos Genesis, e tenho um gato cujo nome pedi emprestado a Virginia Woolf. Mas foi o Francês a minha primeira língua, foi pela música francesa e o cinema francês que comecei, fiz o meu curso a ler Francês, aprendi primeiro a andar sozinho em Paris do que em Lisboa, cidade onde fui muito feliz na infância e adolescência, e tive como primeira paixão uma francesa, mais velha do que eu no alto dos seus 12 anos. Mesmo não sendo verdade que não há amor como o primeiro, o mesmo não se pode dizer de um país e ainda hoje não consigo subir ou descer os Campos Elíseos sem ser alegremente assaltado pelo Joe Dassin, tão alegre como na primeira vez em que olhava para todo o lado na esperança de que por ali passasse a Françoise Hardy.

27 junho, 2024

A ESPERTEZA ENQUANTO CATEGORIA FILOSÓFICA




Como são possíveis os juízos sintéticos a priori? Eis um daqueles problemas filosóficos em que só a pergunta já põe uma pessoa a bocejar e a pedir desculpa por ter de ir comprar cebolas para o jantar. Muito mais engraçado é saber se, tal como a digestão, que se explica apenas pelo funcionamento do aparelho digestivo, também a nossa vida mental pode ser reduzida a essa viscosa e nojenta massa cinzenta, bem arrumadinha na caixa craniana e que pesa pouco mais que um pacote de arroz, mesmo envolvendo processos mentais tão nobres e elevados como visões místicas ou decidir o que se vai comer ao jantar. O problema é contemporâneo e ainda mais desafiante graças às neurociências, mas já tem longas barbas como as dos filósofos gregos que a ele também se dedicaram, assim como muitos outros, com barba ou sem ela e até com um elegante bigode francês, como Descartes. Alma, espírito, mente, daimon, cogito, intelecto, razão, são tudo noções que servem para defender uma vida que não passa só pelo corpo, ou mesmo uma vida para além desta vida na qual um dia deixamos o corpo a fazer tijolo enquanto a alma levita como um balão do S. João mas sem o fogo que tantas vezes a fez arder enquanto submetida ao vil império dos sentidos. Como é fácil de ver, trata-se de uma matéria que envolve questões de natureza antropológica, epistemológica e moral (e religiosa) que ainda hoje continuam a alimentar a filosofia, essa área do saber com tantas perguntas e ainda mais respostas. Respostas que, também aqui, pelos vistos, continuam a ser oferecidas à humanidade que por engano entra numa livraria em vez de uma loja de fatos de banho ou de produtos gourmet. Somos muito mais do que o nosso cérebro revela através de uma tomografia? Claro que somos. Mas deixemo-nos de velhas e bafientas noções como alma, espírito ou mente. O que nos torna superiores aos animais ou alguns de nós superiores a outros que apesar de terem uma alma esquecem-se demasiadas vezes dela, é a esperteza. Se o cérebro serve para explicar a normal e previsível vida de um ser humano, é na esperteza que encontra a sua liberdade e salvação.

26 junho, 2024

PAPELARIA

Mais em terras pequenas do que nas grandes cidades, e talvez por falta de leitores suficientes, a ideia de livraria estava, e ainda está, quase sempre associada à ideia de papelaria, havendo nelas uma distinção entre a secção de livros e a de objectos de papel, em maior quantidade, como cadernos ou folhas de cartolina. Já em Lisboa ou no Porto havia grandes e boas livrarias (muitas delas já fecharam) como em Paris ou Londres, onde o livro era rei. Não um livro qualquer, embora também os houvesse, mas sobretudo o livro que está para a livraria como o bom perfume para a perfumaria ou um certo bolo especial para a pastelaria. Esta distinção entre livraria e livraria/papelaria é assim uma coisa do género do que distingue uma bela imperial de um panaché ou um bom perfume francês de uma simples água de colónia. Todavia, ao entrar hoje no espaço que, talvez por pudor, ainda se chama livraria, fica-se com a sensação de estar a entrar sobretudo numa papelaria, um espaço rodeado de papel por todo o lado, incluindo livros que, sendo papel com letras, pouca diferença fazem de papel sem letras, como é o caso dos guardanapos ou lenços para assoar o nariz, os quais, apesar de ainda não se venderem em livrarias, já ocupam os escaparates das lojas de museus de pintura cheios de povo ávido por ter um contacto mais orgânico com as obras de arte do que com olhos, havendo assim, quem sabe, a possibilidade de um dia virem também a aparecer folhas de livros para limpar a boca do molho do bife ou assoar o nariz. Se dantes um livro era um objecto feito de papel, no qual as letras eram a substância e o papel um mero acidente, hoje, um livro é substancialmente um pedaço de papel que por acaso também pode apresentar letras, mesmo que não se perceba bem o que possam lá estar a fazer.

25 junho, 2024

UTOPIA

Quem não é do Porto ou nunca foi ao S. João, não consegue entender o seu alcance, o mais próximo que estive de uma experiência utópica. Daria para escrever um pequeno estudo sobre isso, mas como mais de dez linhas já desmoralizam um leitor, fico-me pelos martelos. Tal como o futebol pode ser uma sublimação das velhas guerras tribais, julgava serem os martelos um modo socialmente aceitável e até divertido de descarregar a natural agressividade do animal que também somos. Não é. Os martelos são uma comovente manifestação de amizade e amor universal. Aparecesse Cristo na noite de S. João, como em Sevilha nos Irmãos Karamazov, e ele próprio andaria a martelar toda a noite e fazendo a multiplicação dos martelos em vez de pães e peixe, neste caso, sardinhas. E o mesmo com S. Paulo, Thomas Müntzer, Joaquim de Fiore, Rousseau, Marx, Cabet ou Kropotkin, todos devidadmente martelando e martelados sem parar, na noite de S. João. Madrugador que sou, na manhã seguinte, acabada a festa, fui dar com uma cidade transformada numa lixeira e cheia de cantos e recantos com um cheiro insuportável. Muito, mas muito trabalho mesmo para os homens do lixo, tendo em mãos a tarefa de limpar todos os estragos da festa, ajudando a regressar uma bem menos feliz, mas mais habitável cidade. A mesma tarefa de políticos que tiveram a nobre e difícil missão de fazer esquecer lixeiras sociais e políticas resultantes do desejo de transformar o homem no que ele não é. O S. João, felizmente, não é uma utopia, mas uma sublimação da utopia, como também o lixo da manhã seguinte não passa de uma apenas desagradável sublimação das lixeiras da história deixadas por desvarios utópicos. Assim sendo, foi muito bonita a festa, pá, e até para o ano.

24 junho, 2024

FLORZINHAS

O Ípsilon traz um artigo sobre Carlos Portugal, antigo cantor de música de intervenção. Não o conhecia e não precisei de muito para perceber que a sua música não me interessa. Mas não pude deixar de levantar as orelhas com uma frase sua: "O homem é ele e as suas circunstâncias, portanto, se um tipo tem uma vida rica, canta as florzinhas e esse tipo de coisas". Isto para ele poder dizer que se um tipo for pobre, o que lhe aconteceu na vida, a sua circunstância impedi-lo-á de cantar florzinhas, levando-o naturalmente a focar-se nos problemas, coisa que ele fez com a sua música. Pois eu acho o contrário: é por se ser pobre que ainda faz mais falta o luxo de cantar as florzinhas facilmente cantadas por quem tem uma vida rica. E que quanto mais pobre se é mais falta fazem as florzinhas, fugindo assim à dupla condenação de ser pobre e de não poder cantar florzinhas. Basta pensar em tantos pintores, escritores ou músicos que viveram pobres ou chegaram a viver pobres, mas que se dedicaram a abrir as janelas para delas verem florzinhas e deixarem entrar o seu aroma pela casa dentro, em vez de janelas fechadas cujos vidros lhes devolvessem o reflexo das suas vidas.  Como alguém dizia, se uma pessoa passar demasiado tempo a olhar para o abismo, o abismo passa também a olhar para ela.

22 junho, 2024

O TERMÓMETRO

Dei ontem um apoio de preparação para exame a três alunas. Após duas intensas horas de trabalho, ficámos um bocadinho à conversa no decorrer da qual uma aluna me pergunta se já sou avô, pergunta que já vai sendo recorrente. Isto, poucos meses depois de, pela primeira vez, alguém me ceder o lugar num autocarro. Não, não sou avô, a não ser de um cão, e graças a Deus ainda tenho pernas que me deixam andar mais de 30 km num dia ou resistir aos tremeliques de um autocarro. Pronto, não consigo ver-me velho. Mas só me pode estar a acontecer o que acontece na meteorologia com a diferença entre temperatura e sensação térmica. Poderei sentir calor, mas embora não dê por isso, os dias hão-de estar mais curtos, a luz mais cinzenta e as árvores despidas de folhas, para já não falar no termómetro como prova definitiva de que só posso mesmo estar no Inverno.

21 junho, 2024

A PROMOÇÃO

Há dias, diante da secção de Jazz da minha estante de cd's, indo atrás dos meus olhos para decidir o que ouvir enquanto passasse a ferro, fui dar com uma caixa com quatro cd's de cuja existência não fazia a mais pequena ideia. Nem da caixa, nem do músico, que nada me dizia, nenhuma memória da compra. O que deve ter acontecido foi comprá-la às cegas para aproveitar o seu preço em promoção e, ao chegar a casa, arrumá-la na prateleira onde ficou para ali esquecida. Tenho de confessar que foi uma agradável surpresa, assim como quando se descobre dinheiro no bolso de um casaco que não se veste há anos, acabando de ganhar uma caixa de cd's que não ganhei, do mesmo modo que se me fosse roubada também não seria um roubo pois não se fica sem o que não se sabe que se tem. Claro que foi logo um daqueles quatro cd's que fui ouvir e não posso dizer que não tenha gostado. Gostei, embora não tenha gostado muito, o que tirou algum entusiasmo ao ganho. Tendo tantos cd's dos quais gosto muito, o mais provável é nunca mais voltar a ouvir esta caixa que irá para ali ficar de novo esquecida, mesmo com três cd's por ouvir. O que não deixa de ser preocupante, sobretudo por pensar que apesar de estar para aqui a falar de cd's, isto é mais sobre nós próprios, que passamos a vida a ser despromovidos com tanta coisa que nos aparece em promoção, e não estou a pensar necessariamente em coisas compradas. Maravilhosos tempos aqueles em que me custava tanto juntar duzentos escudos para comprar um disco que me iria fazer tão feliz.

20 junho, 2024

IMITAÇÃO DA IMITAÇÃO DE CRISTO

«Que sejas sempre um estranho e um hóspede nesta terra»

Nunca acabar de dizer o que tem para dizer é, segundo Italo Calvino, um dos critérios para se considerar um livro um clássico. Mas o que chamar a um livro, o qual, ainda que de modo acidental, não só não acabou de dizer o que tinha para dizer, mas que dirá ainda mais a quem o ler séculos depois do que quando foi escrito? Não sei dizer o que passaria pela cabeça de um leitor do século XV diante de A Imitação de Cristo, do monge alemão Tomás de Kempis. Do que já não tenho a menor dúvida é sobre o que deverá passar, e não há mesmo como não passar, pela de um leitor do século XXI.

19 junho, 2024

O ESTÁDIO PRÉ-OPERATÓRIO COMO ESTÁDIO SUPERIOR DO SENSÓRIO-MOTOR


Jamais poderia ser comunista pelas mesmas razões que jamais poderia ser fascista. Aborrece-me, sobretudo, a ideia do Estado poder entrar na minha vida bem para lá do que considero razoável. Ainda assim, sei distinguir um comunista de um fascista. Jamais deixaria de gostar ou ser amigo de um comunista só por ser comunista, o que fica bem mais difícil com um fascista. E apesar de considerar o comunismo deplorável, cultivo mesmo uma certa indulgência paternalista face à infantil disposição mental de muitos comunistas. Não só por acreditaram no Pai Natal, mas também pelo modo como sobrepõem o princípio do prazer ao princípio da realidade. Disposição infantil essa que pude recentemente confirmar com esta faixa. Uma das característica do estádio pré-operatório (3,4, 5 anos de idade) é o egocentrismo. Não o dos adultos, mas um egocentrismo cognitivo que leva as crianças a perceber a realidade a partir do seu eu. Por que razão existe a noite? Para a criança dormir. A criança não vai para a cama por ser de noite, é de noite por serem horas da criança ir para a cama. O mesmo que se lê nesta frase. Em vez de pedirem, o que pareceria razoável, para dar força à CDU para melhor defender o SNS, o que se pede é defender o SNS para dar força à CDU, como se o mundo girasse à volta da CDU. Um desvario lógico, é verdade, mas que até compreendo e aceito, como tanta coisa que compreendemos e aceitamos vinda de uma criança, neste caso, reforçado por saber que quando se está à beira de definhar, o centro de gravidade do pensamento fica reduzido à luta pela sobrevivência.

18 junho, 2024

SELVAGENS E SENTIMENTAIS

Há muito BCBG que, conseguindo fazer e discutir política com algum civismo, já com o futebol transforma-se, como diria Javier Marías, fervoroso adepto do Real Madrid, em selvagem e sentimental. Temos de admitir que tais 90 minutos de selvajaria e sentimentalismo não trazem grandes males ao mundo. Outra coisa são aqueles que, não sendo BCBG, orgulham-se de ser o contrário disso, mostrando afincadamente o que são e alimentando o prazer de o ser, e que no desgraçado momento em que resolvem interessar-se por política continuam a ser tão selvagens e sentimentais como num estádio de futebol, ou quando o discutem em cafés que parecem tabernas. As claques no futebol podem ser medonhas, mas são os jogadores que decidem quem são os vencedores e vencidos, enquanto na política e, mais concretamente, em democracia, são as claques partidárias, o que é ainda mais medonho. Na política, associar sentimentos ao que há de mais selvagem no ser humano é meio caminho andado para ficarmos todos a perder, mesmo os que ganharam.

17 junho, 2024

A LOJA DE ANTIGUIDADES

Mal escrevo a palavra "inteirado" reparo que escrevo a palavra "inteirado", surpreendido pela presença de um fantasma dentro de mim, cuja voz ainda se faz ouvir mas de uma etérea transparência prestes a desfazer-se. No dia anterior a tê-la escrito, recebi a visita de uma antiga aluna que desde então não via, e que resolveu presentear-me com um bolo mas logo me perguntando com ar preocupado se sou vegan porque o bolo tinha (tinha, que aqui é literal) ovos. Quando lemos uma narrativa antiga temos a tendência para a assimilar aos nossos quadros mentais, seja Homero a contar as aventuras de Ulisses, o percurso sentimental de Anna Karenina ou a Lisboa de Eça. Há encenadores que gostam de pegar em peças de teatro antigas e trazê-las para a actualidade, o que para muitos é duvidoso, sobretudo pela traição ao texto original. Mas é isso que fazemos mentalmente quando lemos um texto antigo, transformando Ulisses, Anna Karenina ou Carlos da Maia, em pessoas como nós, exceptuando o historiador enquanto historiador que, esse sim, de lupa na mão, gosta de procurar o que o tempo mudou. Foi também isso que me aconteceu nas duas situações: ver-me de lupa na mão a descobrir pequenas mutações da realidade das quais nem sempre nos apercebemos no dia-a-dia. Quantos jovens de 18 anos, esses que já não sabem interpretar a expressão "Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal", dirão hoje, ou alguma vez na vida, a palavra "inteirado"? Entretanto, quem, há décadas, ao oferecer um bolo, iria perguntar se a pessoa é vegan, pergunta que, hoje, na cabeça de uma jovem que nem tem trinta anos tem, se tornou banal? A História é feita de períodos, que são enormes fatias de tempo como o Antigo Egipto, a Idade Média, o Renascimento ou o século XX. Isso mesmo: o século XX. "- O que andas a dar em História? - O século XX". Digamos que essas são as montras iluminadas da loja. Mas, lá dentro, no recôndito armazém, bem fechadas e envoltas em escuridão e teias de aranha, estão milhares de caixas cheias de destroços que nunca chegar sequer a passar pela montra, embora tenha havido um tempo em que fizeram parte da vida das pessoas, mas também da qual saíram sem se dar por isso.

16 junho, 2024

TETRAPHARMAKON


Mesmo em frente a estes painéis está um McDonald's. Do outro lado da rotunda um Burger King e, em frente a este, um KFC. Entretanto, como se pode ver, não muito longe dali iremos encontrar uma Pizza Hut. Haver por isso uma Farmácia da Terra a escassas centenas de metros destes painéis, surge assim como uma espécie de salvação. Não é só o facto de haver qualquer coisa que nos ligue à Terra, e Terra, aqui, tanto no habitual sentido de ter os pés assentes na Terra (em vez da Lua, ou, neste caso, nos Estados Unidos, ou seja em toda a parte, o que significa parte nenhuma), como no sentido de terra, a minha terra, e não a do tio Sam, a qual acaba por ser cada vez mais todas as terras. Também o facto de ser uma farmácia tem qualquer coisa de providencial: para além de uma dimensão estética, trata-se ainda de uma questão terapêutica. Há mais de dois milénios, o filósofo Epicuro, logo ele que também apreciava a ligação à terra, apresentou o seu tetrapharmakon, quatro remédios para quatro males. O mundo, entretanto, mudou, e até bastante, mas passasse o filósofo grego nesta rotunda, ficando inteirado do que está a acontecer ali à sua volta, iria claramente entender que, afinal, o seu pensamento, ao contrário do mundo, continua igual a si próprio como resistência aos malefícios daquele.

15 junho, 2024

A SAÍDA

A recente morte de Françoise Hardy (também tinha coisas para dizer sobre ela), que há anos reclamava perante o Estado francês o direito a uma morte clinicamente assistida, levantou de novo o problema da eutanásia. Não percebo como em Itália, em virtude da sua língua, a eutanásia também ainda não foi legalizada, considerando que "Uscita" é "Saída", palavra que está por todo o lado (supermercados, lojas, estações), e sendo "Matar" "Uccidere". Palavras que, sendo graficamente parecidas, foneticamente ainda ficam mais devido à semelhança do som X. Em Português, esta última surge com uma carga fonética e semântica tremenda. Basta pensar em abrir o Correio da Manhã e dar com "Homem mata mulher em Oliveira de Azeméis com várias facadas", ou em "Matadouro Municipal" para se ficar horrorizado. Já agora, não percebo como o politicamente correcto acabou com os cegos, os contínuos e os velhos, mas ainda não o fez com "Matadouro". Já em Italiano, basta pensar nas duas palavras para ficar óbvia a sua perfeita conjugação no momento em que o médico se aproxima do doente para o ajudar a sair do seu sofrimento. "Uccide" assim com a mesma naturalidade com que o segurança de um centro comercial ajuda uma pessoa com um repentino ataque de claustrofobia a encontrar a "Uscita", fazendo assim coincidir a possibilidade de, finalmente, respirar fundo ou deixar de respirar.

14 junho, 2024

LUGARES COMUNS


As pessoas que gostam de pensar e agir em contraciclo com o mundo, gostam também de acreditar que, estando elas certas e o mundo errado, se transmitirem bem a sua mensagem o mundo irá reconhecer de que lado está a verdade e então o que era visto como normal passará a ser encarado como anormal, e o que era visto como anormal será o novo normal. Que o digam certos partidos de esquerda, os quais, apesar do seu residual eleitorado, nunca deixam de acreditar que estão no caminho certo, continuando a privilegiar o mundo com a sua clarividência moral e ideológica. A ingenuidade deste cartaz, ligado a uma igreja, é disso um bom exemplo, querendo convencer as pessoas a fugir dos lugares comuns, quando o que as pessoas mais procuram é o conforto dos lugares comuns, tentando perceber como são os outros para que depois os outros possam vê-las como mais um dos seus. Eis a comunidade no seu comum esplendor, na qual se vai facilmente entrando e da qual se torna depois difícil sair. Se há indiferença face à diferença é por ser a melhor defesa face à ameaça de uma ausência de indiferença dos outros face ao que seria a nossa diferença se deixássemos de ser indiferentes ao que é indiferente para os outros.

13 junho, 2024

PLATONISMO PARA O POVO


Eis o que pode ser um pesadelo para uma feminista: uma pessoa dizer que tem de ir ao médico ou a um advogado, apesar de chegar a um centro de saúde e o mais certo é dar com uma médica, ou de haver tantas advogadas como advogados. Mas convém desdramatizar: não, pensar em ir ao médico não é pensar num homem que seja médico, atirando as mulheres para empregadas de limpeza e manicures. Se alguém disser que precisa de um pedreiro, aqui sim, há uma coincidência entre a masculinização do nome e da pessoa. Ontologicamente falando, ser homem não implica ser pedreiro, mas, socialmente falando, ser pedreiro implica ser homem. Embora o masculino "médico" possa ser explicado por vir de um tempo em que não havia médicas, tornou-se numa espécie de ideia platónica, uma pura forma desmaterializada e assexuada que faz com que pensar em médico não implique pensar num homem que seja médico. Eloquente exemplo é esta informação. Trata-se de um sítio onde nunca trabalhou um homem. É verdade que não ficaria bem dizer "As cabeleireiras estarão encerradas de 9 a 12 de junho" pois faria pensar no encerramento das duas profissionais que lá trabalham, em vez do salão. Mas também soaria mal "A cabeleireira estará encerrada". Porque sexualizaria o nome, remetendo para um tempo, pelo menos na província (apesar de na minha terra, nos anos 70, entre dezenas de cabeleireiras, haver dois cabeleireiros), em que a profissão estava para as mulheres como pedreiro para os homens. Ou seja, continuaríamos a pensar que uma mulher estaria encerrada. "Cabeleireiro", pelo contrário, tal como médico ou advogado, surge como ideia platónica, um anjo assexuado, um modo neutro de invocar uma profissão, tal como dizer que se gosta de cães ou de gatos não implica que sejam machos em vez de fêmeas. Ao contrário do que acreditam muitas feministas, que, como no 1984, de Orwell, desejam impor uma formatação do pensamento através de uma formatação da linguagem,  o pensamento transcende a linguagem, a qual não passa de uma ferramenta que utilizamos de forma aberta e criativa e tantas vezes liberta de grilhões gramaticais. Platão poderia desprezar o povo, mas o povo, sem o saber, está muito longe de desprezar Platão.

12 junho, 2024

LUZ DE INVERNO



Libertemos então a pessoa destes grilhões que são as marcas: a marca da camisa, a marca do relógio, a marca do telefone, a marca da cozinha, a marca do carro. Liberta deste obsceno mercado das marcas, fica assim tão desmarcada como no dia em que veio ao mundo. Mas como por vezes no futebol ou no basquetebol, continua a ser-lhe feita uma marcação cerrada que faz dela um composto de marcas com diferentes valores no mercado: profissão, sexo, nacionalidade, cor da pele, idade, beleza, número de seguidores na rede social, quem são os amigos, até mesmo o nome próprio, para além do apelido, que lhe põem à nascença. A pessoa pode estar nuazinha como no dia em que veio ao mundo, mas toda ela são logotipos colados à pele. Quando explico a terceira fórmula do imperativo categórico de Kant, costumo perguntar quanto vale uma vida humana: quinhentos, mil, um milhão de euros? A ideia é concluir que, ao contrário de um lápis ou um frigorífico, não tem preço. O que não impede que no exercício de certas funções a pessoa que é professor ganhe X e a pessoa que limpa a sala de aula ganhe Y, ou que Mbappé valha mais milhões de euros do que João Félix. Mas enquanto pessoas, em vez de lápis e frigoríficos, valem o mesmo, tendo as suas vidas igual importância. Os alunos ouvem, acreditam e aceitam. Mas a Filosofia é uma cápsula de cujas teorias se pode dizer o mesmo que dizia o marquês (grande marca) de Maricá acerca dos conselhos dos velhos: iluminam mas não aquecem. O mesmo se diga do velho projecto iluminista.

11 junho, 2024

NO BANCO DE TRÁS

Há quem seja pago para cortar o cabelo, para desenhar edifícios, para montar circuitos eléctricos, para conduzir comboios, para gerir empresas, para colar tijolos ou para tratar da saúde das pessoas. Eu sou pago para falar e há décadas que falo, muito, imenso, resmas e resmas de palavras, uma torneira avariada da qual não pára de pingar palavras para cima de alunos, colegas, funcionários e pais dos alunos. Um pesadelo, uma condenação, um suplício que me transforma num Sísifo com uma saca de 50 quilos de palavras às costas. Daí os fim-de-semana serem pequenos oásis de silêncio em que acordo sem pensar no que vou ter que dizer. Daí também ver a reforma que se aproxima como uma utopia silenciosa, um luxo mutista com uma torneira ainda na parede, mas já sem canalização ligada à rede pública das palavras, uma saca vazia, resmas e resmas, mas de um branco imaculado. É por isso que desde que passei a andar de táxi que vejo neste um espaço perfeito de comunicação. Como os taxistas gostam de se fazer ouvir e dispensam bem o que os outros têm para dizer, limito-me a ir no banco de trás a ser levado para o meu destino com alguém que fala, e eu calado apenas fingindo que estou muito interessado no que estou a ouvir, ligando o piloto automático para dizer "Sim...Claro...Pois é...". Depois, é só estacionar à minha porta para ser devolvido ao silêncio que vou treinando enquanto não chega o absoluto e definitivo silêncio da reforma.

10 junho, 2024

A COLMEIA

Devido à hora tardia a que ia chegar, não sabia se ainda iria haver algum táxi na estação. Felizmente havia um, o do costume um pouco antes daquela hora. Foi a terceira vez com este taxista, a quem já não foi sequer preciso indicar o destino da viagem. Como quase todos os taxistas, fala pelos cotovelos, incluindo sobre a sua vida pessoal, o que já me levou a conhecer a sua vida profissional, da mulher e da filha, o facto de ter um outro emprego, sendo taxista só nas horas vagas, sobretudo de noite, para ganhar mais uns trocos, ainda que, graças a Deus, deles não precise. Enfim, gosta de dinheiro, não me sendo difícil imaginá-lo, ao fim do dia, a contar as notas com a mesma volúpia de um ilusionista ao passar o baralho de cartas entre os dedos. Devo pois ao seu exacerbado culto do dinheiro poder assim chegar à estação àquela hora tardia e ter um táxi transformado numa colmeia com rodas para me levar a casa. Abençoados vícios privados que possibilitam tais públicas virtudes.

09 junho, 2024

ELEGIA DE DOMINGO

Andando nos últimos dias com a cabeça centrada noutras tarefas, foi já muito perto do momento de votar que fui surpreendido pelo problema de saber em quem iria votar. Saí de casa determinado para o fazer, mas era na lista das compras que ia mentalmente ocupado uma vez que iria passar depois pelo supermercado. Surpreendido e, entretanto, preocupado pelo buraco eleitoral em que me vi, quis pensar em que partido tinha votado nas recentes eleições. Havia esquecido. Mas lá consegui lembrar-me, e, diga-se, com enorme alívio por encontrar essa bengala para me ajudar a decidir. Mas foi em vão, pois, logo de seguida, resolvi votar noutro partido, e até bastante diferente. A memória é sem dúvida a dimensão que tem mais peso na consolidação da nossa identidade, decisões e acções. Contudo, de um ponto de vista político, é esta falta de ligação que me torna completamente livre e independente. Para as empresas de sondagens, o pior dos pesadelos seria ter de lidar com um eleitorado assim. Em vez de multidões e de massas tão previsíveis como as quatro estações, apenas criaturas, vendo, com todos os seus olhos, o Aberto. 

04 junho, 2024

OS FARÓIS




É precisa uma elevada dose de boa vontade e liberdade poética para se afirmar que, aqui ou ali, a poesia esteve na rua, boa vontade e liberdade poética inspiradas no célebre cartaz de Maria Helena Vieira da Silva. Nem a poesia esteve alguma vez na rua, nem foi sequer feita para andar na rua. O mais que pode acontecer é calhar a rua passar pela casa da poesia, mas cujas portadas estão sempre meio fechadas para poder preservar o silêncio e a sombra no seu interior. A rua é a rua e a poesia é a poesia. A primeira é de todos, incluindo os poetas, que também pelas ruas andam, mas na casa da poesia só entram alguns, sobretudo os poetas. Já a maioria vê a poesia como os faróis de um carro que, ao entrar ou sair de um parque de estacionamento, ficam, por instantes, de frente para o poema, mas sem o ver. 

03 junho, 2024

NIOBE

Montaigne não gosta da tristeza e muito menos de que seja revelada de modo exuberante. Lembrando um verso de Petrarca, "quem pode dizer como arde, é em fogo pouco", alega que a força de uma dor, para ser extrema, deve afligir a alma por dentro e impedir a sua liberdade de acção. E dá vários exemplos de figuras que ficaram impassíveis diante de perdas terríveis: Psaménito, ao ver a filha como escrava e o filho conduzido à morte ou Charles de Guise ao saber da morte de dois irmãos. Não menos exemplar é o facto de Timante, depois de pintar diversas expressões de dor consoante o grau de sofrimento de várias pessoas face ao sacrifício de Ifigénia, ao chegar a vez  de pintar o pai cobriu-lhe o rosto por já não haver expressão possível. Para dar ainda mais consistência à sua tese, Montaigne refere também o caso de Niobe que, "petrificada de dor" depois de perder sete filhos e sete filhas, se transforma em pedra. Com isto veio-me à cabeça o final de O Padrinho III quando, à saída da ópera, Michael Corleone, ao ver a filha morta, fica congelado como no Grito de Munch, engolindo toda a dor para dentro do infinito buraco vazio em que se transformou. Fui rever a cena para confirmar se entraria no padrão de Montaigne. Não entra, pois logo de seguida solta um daqueles gritos que se ouvem em todo o universo e não no silêncio de uma pintura (embora também se possa dizer que a intenção de Munch era a de que aquele grito se ouvisse em todo o universo). Será Corleone um fraco ou um pai que arde em fogo pouco por mostrar que arde diante da morte da filha? Montaigne faz um bocado de batota com o episódio de Niobe, não contando toda a história. Conta Ovídio, nas Metamorfoses, que depois de ter sido levado para o cimo do monte o bloco de mármore que foi um dia o corpo de Niobe, dele nunca mais deixou de jorrar água.  

02 junho, 2024

O VOLANTE





Vou no lugar dela, todo contente a conduzir, e, no lugar dele, vai a minha mulher. E esta, que é rica, diz-me: «Não gosto de te ver trabalhar, podias gozar uma vida confortável, como tantos homens com a tua posição». De imediato travaria, encostava o carro à berma, abraçava-a e beijava-a enquanto dizia que a adorava e como me compreendia tão bem. Sei que muitos homens, sobretudo os que precisam de trabalhar porque disso precisam para construírem a sua identidade e a sua emancipação, iriam criticar-me pela minha perda de independência e subjugação à mulher. Isso, porque incapazes de entender que é precisamente quando não trabalho que emergem toda a minha identidade, emancipação e independência, as quais não precisam do dinheiro que iria ganhar e do que é preciso fazer de todos os dias, com o suor no rosto, para o ganhar. 

01 junho, 2024

DA BOCA PARA DENTRO

Ia a caminho do pavilhão para dar aula e, pelo modo como a ex-aluna me chamou e pediu para esperar, percebi que teria de ser qualquer coisa de muito especial. Tinha acabado de comprar os poemas de Petrarca e eu, certamente com cara de parvo, sem perceber o que tinha isso que ver comigo, ainda para mais fazendo-a correr atrás de mim para mo dizer. Lembrou-me então que, há dois anos e tal, na aula de apresentação, quando chegou a vez dela, invoquei a musa de Petrarca. Associação que por graça me ocorreu fazer mas que ela não viria a esquecer. Uma pessoa abre a boca para uma espirituosa insignificância e não lhe passa pela cabeça as suas possíveis consequências, nem que cheguem dois anos e tal depois. Talvez os nossos destinos sejam muito mais marcados por insignificâncias do que podemos supor.

30 maio, 2024

CORPO DE DEUS

O catolicismo é um tortuoso subproduto teológico do Cristianismo, talvez com o intuito de superar tanto a inocência do Velho Testamento como a inocência dos Evangelhos. Dá mesmo ideia de que o grande objectivo dos primeiros concílios e dos posteriores doutores, fosse superar o estádio pré-operatório de uma criança de 5 anos e que está presente em inúmeras passagens bíblicas para assim lhe dar uma solenidade de adulto capaz de elaborar complexos pensamentos. O exercício tornou-se tão tortuoso, tão tortuoso, tão tortuoso, com tanta cambalhota e mortal à retaguarda, que acabaria por atribuir um corpo a Deus, anulando assim o carácter irrepresentável do Deus de Moisés, Abraão e Jacob, fraqueza igualmente infantil como a de uma criança que tropeça. Mas em boa hora o fizeram, pois graças a isso não fui hoje trabalhar, beneficiando do facto de mesmo os pensamentos mais fora da graça de Deus poderem ser benéficos para aquela parte da humanidade que resolveu acreditar nas tortuosas elaborações dos primeiros concílios (e de tantos outros), e dos muitos doutores que deixaram a marca da sua profunda sapiência pelo tempo fora, ao contrário dos católicos, que não fazendo a menor ideia do que possa ser o corpo de Deus, estão sobretudo preocupados com os seus, sobretudo agora, prestes a começar a época balnear.

29 maio, 2024

LOGRADOURO

Mais do que ter razões que a própria razão desconhece, diria antes que a semântica tem desrazões que a própria vida acaba por reconhecer. Basta pensar no verbo lograr e no substantivo logro. A vida é um enorme logradouro onde cabe tudo e o seu contrário.

27 maio, 2024

CLUBE DOS POETAS MORTOS

Levei uma turma a ver a colecção da Fundação Gulbenkian. Para além de fotografar três objectos de todo o museu que representassem três das cinco teorias sobre a definição de arte e justificando-o, cada aluno teria que escolher o seu preferido e explicar porquê. Um aluno escolheu O Inverno, de Jean François Millet, havendo uma parte da sua justificação que me fez levantar as orelhas: " (...) estive mais de 5 minutos a olhar para a beleza desta pintura e é sinceramente uma pintura demasiado simples para ter estado tanto tempo a olhar para ela mas achei que era demasiado bonita para não a ter escolhido". Este comentário é extraordinário e tem tanto de humilde como de ingénuo. A inveja que eu tenho por já não ter 17 anos para poder escrever assim. Um adulto jamais escreveria isto, a não ser que seja poeta ou louco, o que vai quase dar no mesmo, e não sou uma coisa nem outra, a outra, pelo menos por enquanto. Ou acharia o quadro demasiado simples e não voltaria a pensar nele, ou, por gostar muito e estar cinco minutos a olhar para ele, não admitiria ser uma "pintura demasiado simples". Este rapaz apresenta ainda vestígios de pensamento infantil, considerando-se isto um elogio por se tratar do pensamento mais livre e descomplexado que pode haver, sem medo de incoerência, neste caso, não poder deixar de olhar para o que não foi feito para ser olhado, e viver bem com isso. Talvez isto ajude a explicar por que viria a desiludir-me com certas coisas que me marcaram em jovem: ter a cabeça cheia de entulho, de teorias, de complexidade, mas também uma preocupação com a ordem argumentativa, perdendo assim a abertura para o que é simples. Se lá voltar daqui a uns anos, o mais certo é este rapaz, entretanto homem, ficar perplexo por ter um dia escolhido esta pintura como obra preferida de todo o museu em vez de um tapete ou peça de mobiliário, como de resto alguns colegas que, tão jovens quanto ele, foi já o que escolheram. Bem-vindo ao clube.

26 maio, 2024

ETERNO RETORNO

Três regressos, concentrados em poucas centenas de metros, numa cidade a acordar e ainda não violentada pelo barulho e fumo dos carros. Os jacarandás, incendiando o ar e o chão, o cheiro das tílias exacerbado pela humidade da noite que ainda resiste, e os agapantos, com todo o peso do seu significante, soando ao mais antigo da Grécia Antiga. O que se pode perder na vida por acordar e ficar em casa fechado a ler um livro ou as notícias dos jornais, sempre iguais apesar de sempre diferentes. Antes o que é sempre igual e que desejamos que continue sempre igual, nem que seja concentrado em poucas centenas de metros.

25 maio, 2024

MEINE MESSE


Não surpreende a estremada ligação de políticos nacionalistas, xenófobos, ideólogos do ódio, para além de primários e boçais, à Bíblia e ao Cristianismo. De Trump a Bolsonaro, passando por Putin ou Orban. Ou Maximilian Krah. Porque passa uma imagem de intrepidez moral num mundo meio perdido e sem valores [a luta contra o aborto enquanto obra do Diabo chega a dar uma aura de santidade], porque são dois mil anos de cultura judaico-cristã que dão baile às profanas e seculares ideologias que alimentam os partidos do "sistema", e sendo a fé bem mais fidelizável do que a racionalidade política que muda com a direcção do vento. Mas também porque o que haverá de melhor para disfarçar a profunda identidade anti-cristã e anti-humanista desses políticos, do que uma Bíblia que assenta na mão como uma luva e uma febril invocação de Deus que quase nos leva às lágrimas? Paris valeu bem uma missa para Henrique IV, mas agora é pelo mundo inteiro. A luta continua.

24 maio, 2024

UMA BOA TARDE

Dirijo-me para o centro da sala de aula e digo: "Boa tarde a todos". Mas reparando que dizia isto diante de um auditório maioritariamente feminino, o remoto sociólogo que há em mim resolveu sentir o pulso da turma face aos novos tempos. Apresentei então aos alunos três cumprimentos possíveis, pedindo-lhes para votar no que considerariam mais correcto: "Bom dia a todos e todas"; "Bom dia a todes"; "Bom dia a todos". Sendo uma turma já pré-universitária, considerando que ninguém votou na primeira opção, e que na segunda apenas dois rapazes, mas só por piada, sou levado a acreditar que, apesar de haver dias em que nos quer fazer crer o contrário, o mundo ainda não está perdido.

23 maio, 2024

NEUROCIÊNCIAS AO PEQUENO-ALMOÇO

Por distracção, deixei queimar uma parte dos flocos de aveia com o leite. Salvou-se grande parte, mas outra ficou colada, formando no fundo do tacho uma pasta viscosa e nojenta. Para não riscar o tacho com palha de aço ou não deixar a pasta entranhada no esfregão, decidi removê-la com os dedos. Fi-lo, mas com uma sensação de nojo e repugnância, o que não deixa de ser estúpido por se tratar dos mesmos flocos de aveia com leite que tinha acabado de comer com prazer. Eis uma dissonância entre duas partes do meu cérebro, uma que me explica tratar-se de uma coisa não nojenta, mas outra levada pelo péssimo aspecto da pasta, talvez influenciada por aquilo a que os neurocientistas chamam de "marcador somático". Engraçado é também poder acontecer o contrário, sendo a vida bastante pródiga em tal facto: ser levado pela visão de uma coisa atraente, mas que, pela sua natureza, e para nos proteger, deveria incutir um estado de nojo e repulsa como sinal de alerta. Daqui podem decorrer duas leituras, optimista para uns, pessimista para outros. A optimista: talvez o córtex visual do nosso cérebro continue a ter mais peso do que o córtex pré-frontal. Pessimista: talvez o córtex visual do nosso cérebro continue a ter mais peso do que o córtex pré-frontal.

22 maio, 2024

O SAGRADO E O PROFANO

Como o Natal e a Páscoa para quem é religioso, tenho a época das nêsperas, morangos, cerejas e pêssegos, a época do melão, melancia, figos e uvas, e depois a época das romãs, dióspiros e figos secos com nozes. Não me queixo do resto do ano, bem pelo contrário, ao longo do qual vou comendo maçãs, laranjas, ananás ou pêras. Mas, também como na religião, não passa de uma profana linha contínua entre tempos sagrados.

21 maio, 2024

PISTAS

Um dia estava sentado no meu sofá de leitura quando descubro uma máquina de lavar roupa. Nada de surpreendente se pensar que a sala dá para a cozinha, onde sempre esteve a máquina. Mas nunca até àquele dia me tinha apercebido do quanto é horrível estar a ler numa sala com livros, discos e quadros, com vista para uma máquina de lavar na cozinha. Qual é a diferença entre ter uma máquina na sala ou estar na sala a ver a máquina? Quando não passa pela cabeça de ninguém ter uma máquina ou um frigorífico na sala. Foi assim uma espécie de revelação, um estalo que me despertou para uma distópica e horrenda realidade. Daí que sempre que agora me sento para ler, fecho a porta e deixa de haver cozinha. O que se passa com cidades cheias de carros não anda longe de máquinas de lavar em salas. O que são os carros senão electrodomésticos andantes invadindo o espaço visual e sonoro das cidades? Claro que estamos habituados, até porque vivemos em cidades com ruas largas para carros e passeios estreitos para pessoas, que cada vez os usam menos. E se uma cidade for feia, carros e cidade até parecem feitos um para o outro, não se dando por eles. Mas quanto mais bonita e elegante for a cidade, mais os carros a desfiguram, mais se nota o absurdo destes ruidosos mecanismos na paisagem, seja estacionados, destruindo belos cenários de natureza espacial, arquitectónica ou vegetal, seja a circularem de um lado para o outro, fazendo barulho e deitando fumo pelo escape. Em casa ainda é possível fechar a porta da sala para não ver a máquina. Já com os carros a única porta que se pode fechar é a da rua, quando entramos em casa. Mas a mesma porta que somos obrigados a abrir sempre que precisamos de ir para a rua, ou antes, para a pista, e respectivas garagens ao ar livre espalhadas pelas cidades.

20 maio, 2024

A CRIANÇA NO TEMPO

Durante a caminhada matinal passo por uma estrada na qual, apesar de pouco passar das sete, vou dar com uma multidão de carros e camiões nos seus galopantes e ruidosos movimentos. Ia eu neste martírio civilizacional quando sou de rompante assaltado por uma memória da escola primária: a professora a dizer que tínhamos pêlos no nariz para nos protegerem das impurezas do ar. Não se trata de madalenas e chás, antes de uma livre associação (ainda que com substância causal) entre dois pontos separados no tempo por um escuro hiato de mais de cinco décadas. Não é surpreendente tal associação em particular. O mesmo não posso dizer da quantidade avassaladora de microscópicas recordações deste género que cada vez mais vêm ter comigo, algumas delas de uma tremenda infimidade e irrelevância. Talvez a velhice seja mesmo assim, ir lentamente regressando ao que nos fez levantar as orelhas para, baixando-as agora, fechar o ciclo. Externamente posso parecer o avô da criança que um dia fui. Mas talvez Freud tenha mesmo razão ao dizer que a criança é o pai do adulto.

19 maio, 2024

O TRIUNFO DO BARROCO

Entro na igreja, aprecio o todo, seguindo depois pelo corredor central rumo ao altar para ver o quadro. Já próximo deste, passo por uma jovem de cabelo verde sentada do lado direito que assistia, no telemóvel, a um vídeo sobre técnicas de maquilhagem. Fosse uma igreja protestante e eis o que poderia ser uma estratégia para combater o tédio ou para evitar o interioríssimo silêncio da consciência. Tratando-se de uma igreja orgulhosamente barroca, vejo antes uma expressão performativa em perfeita harmonia com todo aquele esplendor. 

18 maio, 2024

BACTÉRIAS

O fascismo e o comunismo foram dois compagnons de route do século XX que, apesar de semelhantes em muitos aspectos, estão marcados por uma diferença radical. O comunismo foi um projecto intelectual saído do papel, sendo uma clara negação da natureza humana. Mudando o que há para mudar, o mesmo tipo de mundo de papel de que falava Galileu a respeito dos que alimentavam uma visão medieval do universo. Daí estarmos livres do comunismo, porque, tal como o feudalismo, se tratou de uma moda, com o que há de convencional e passageiro em todas as modas. O fascismo também teve os seus intelectuais, mas é muito mais simples, ou seja, bem mais complexo, do que o comunismo. O fascismo não foi, nem nunca será uma questão de convenção e de moda, sendo antes uma das possíveis expressões da natureza humana, tal como a democracia liberal também o é, sendo todavia áreas tão diferentes dessa natureza como o ego e o id para os psicanalistas. Expressões que, como as do rosto quando estamos alegres ou tristes, calmos ou tensos, vão e voltam ao ritmo dos cíclicos caprichos da natureza humana. Se face ao comunismo a história nos deixou bem vacinados, já diante do fascismo nunca poderá a medicina descansar. Como os monstrinhos do célebre desenho de Goya, sempre ávidos para esvoaçar, há bactérias que são, sempre foram, resistentes, e por muito bons que sejam os antibióticos nem sempre estão preparados para lhes dar resposta.

17 maio, 2024

GESTOS

Tendo atingido o limite da paciência, resolvo acenar à empregada do restaurante, apontando para o pulso esquerdo. Ela percebeu logo, dando a entender que iria à cozinha para ver o que se passava. Um dia, este meu gesto irá desaparecer. São raros os miúdos que usam relógio, mas ainda vêem pessoas com relógio. Quando morrerem as pessoas que ainda usam relógio, e depois as que não usaram, mas viram usar, iremos então ter uma geração sem qualquer contacto com relógios e para a qual o meu gesto não teria qualquer significado. Temos um contacto diário com um património antigo. Passeamos por castelos medievais, palácios renascentistas e igrejas barrocas, lemos obras literárias com milhares de anos, ouvimos música com trezentos anos. Coisas de mundos que morreram mas que continuam a fazer parte do nosso. Mas o que fazer com os gestos? Que movimento ou instituto de defesa do património protege os gestos? O gesto do dedo da mão direita no pulso esquerdo não era possível antes da invenção do relógio de pulso, como não vai ser possível após o relógio de pulso. Um gesto, pois, que nasceu, viveu e vai morrer. Dizem que o gesto é tudo. Sim, é, explica muito bem o que não se consegue ou pode com as palavras. Mas o que diz o Livro do Eclesiastes em relação à vida em geral pode ser extensivo, em particular, aos gestos. Bem mais que o homem, pois se uns vão morrendo, também há outros que vão nascendo, o gesto é o mais evanescente e frágil bem de todo o património, ausente de museus, livrarias, salas de concerto, monumentos. Um património que se esvai por completo no nada tal como o breve instante que dura, por exemplo, numa mesa de restaurante por causa de um almoço que nunca mais vem.

16 maio, 2024

CONTRABAIXO

Faz já algum tempo que é no som do contrabaixo que me concentro cada vez mais. No tradicional trio formado por piano, bateria e contrabaixo, o primeiro pode estar a solar, brilhar, ter o holofote apontado para si, mas mas é ao ritmo do último que me deixo levar. Mesmo numa formação maior, com saxofone ou trompete, cujas sonoridades mais densas ocupam mais o espaço auditivo, forço a minha concentração para para não perder, não de vista, mas de audição, o som do contrabaixo. Andasse eu num psicanalista, de certeza que não iria deixar passar isto em branco. 

15 maio, 2024

CORTE EPISTEMOLÓGICO

Na aula estava em jogo a possível incompatibilidade entre a existência de um Deus sumamente bom e omnipotente, e a existência do mal. Entretanto, em jeito de brincadeira, pergunto como considerariam uma natureza humana que não contemplasse o mal. Mais do que uma negação do mal radical, o mal como impossibilidade antropológica, isto dito, claro, numa linguagem que entendessem. Logo um aluno alega que isso iria tirar milhares de postos de trabalho: polícias, militares, advogados, juízes, etc. E com as devidas repercussões no PIB, afectando gravemente a economia. Vários alunos corroboraram a posição do colega, não havendo quem levantasse o dedo para mostrar simpatia pela benevolente ideia por mim sugerida. Trata-se de uma turma de Economia, da qual irão sair futuros economistas e gestores. Mal sabem eles, incluindo os mais à direita, que os há, e com uma convicção da qual me apercebi o ano passado quando se discutiu o problema da distribuição da riqueza, que, de certo modo, são todos herdeiros de Marx. Aquele célebre alemão que até 1844 se dedicou à Filosofia para depois escrever O Capital, desistindo assim de interpretar o mundo para apenas o transformar. O que, diga-se em abono da verdade, não parou de acontecer até agora, embora só Deus que para além de sumamente bom e omnipotente, é também omnisciente, saiba que mais transformações estarão para vir.

14 maio, 2024

O TÁXIMETRO NÃO ENGANA



Apanhar um táxi no Entroncamento passou a ser uma experiência frequente desde que me roubaram o carro. Um destes dias começo a activar o cronómetro só para saber quanto tempo, em média, é preciso esperar até o taxista começar a dizer mal dos pretos e ciganos. Ontem, nem tínhamos ainda saído do Entroncamento e já o sermão começava. Não me preocupa o facto de os taxistas serem racistas, xenófobos e votarem no Chega. Que lhes faça bom proveito. O que preocupa, porque sintomático, é o seu à-vontade e desfaçatez diante de um desconhecido. Eles não sabem quem eu sou, se sou casado com uma negra, se adoptei uma criança negra, se tenho amigos negros, quais as minhas idiossincrasias ou a minha sensibilidade em relação a taxistas racistas e xenófobos. Entro no carro e logo me elege como um dos seus, um cúmplice para partilhar a sua raiva e ódio. Uma desfaçatez que só é possível por acreditar que o seu normal é o novo normal, que ambos fazemos parte de uma mesma dinâmica social, do mesmo lado certo de uma nação dividida entre "nós" e "eles", os intrusos que não merecem a nossa realidade e da qual devem ser excluídos. Em que momentos da história é possível encontrar tal entusiasmo, energia, confiança, ligação do indivíduo à massa que grita em uníssono as verdades que conduzem a imparável marcha do verdadeiro povo rumo a um destino justo, livre de inimigos e obstáculos? Em períodos revolucionários ou pré-revolucionários. Os mesmos que a história nos ensinou a temer.   

09 maio, 2024

MELANCOLIA PÓS-PLATÓNICA

Exceptuando vedetas que ainda não se sentem suficientemente vedetas, só vejo tatuagens em gente pobre.  Os ricos não precisam pois não há melhor e mais colorida tatuagem do que o dinheiro e o que o dinheiro pode comprar para se sentirem vedetas. A quem não o tem, resta-lhe o corpo com que veio ao mundo e do qual um dia se irá separar juntamente com as suas tatuagens já deformadas pelas rugas, mas entretanto também já escondidas pela roupa da Primark. 

08 maio, 2024

PENSAMENTO ATONAL

Foi um processo natural e espontâneo, sem ponta de intenção. Até que começo a aperceber-me de que sempre que me sento na sala para corrigir testes, é de música contemporânea que me faço acompanhar. Não sou adepto de ouvir música para atingir certos fins para além dos da própria música. Porém, tal como o café e o pastel de nata, a marmelada e a noz ou o caldo verde e o chouriço,  os testes e a música parecem exigir-se mutuamente numa combinação perfeita. Como poderia hoje um pintor continuar a pintar como Ingres? Ou, depois de Loos, um arquitecto do século XX desenhar edifícios como no século anterior? Ou um coreógrafo desenhar os movimentos originais do Quebra-Nozes? Enfim, como poderia hoje um músico sentar-se ao piano para compor e dos seus dedos voltarem a sair os sons de Schubert ou de Brahms? Sentado, calmamente a trabalhar, entregue de alma e o coração à minha tarefa, oiço música e sinto que está tudo certo.

07 maio, 2024

FORA DE SÉRIE

A última série que me lembro de seguir foi o Twin Peaks, já lá vão mais de 30 anos. Há dias, a filha, que sabe da minha falta de interesse por séries, atirou o barro à parede, sugerindo que seria bem capaz de gostar do último Ripley, pondo-me à frente três vistosas cenouras que podiam fazer-me mexer: a fotografia, Itália e arte. As minhas orelhas, que já estavam a meio devido a outras entusiasmadas opiniões, levantaram-se de vez, lá resolvendo então experimentar. Mas não foi uma experiência, antes uma infatigável maratona que só me fez parar no oitavo e último episódio, como um daqueles chocolates que não me deixam descansar enquanto não chego ao fim. É verdade que há coisas na história que me fizeram franzir o sobrolho, mas também tudo se perdoa quando as soberbas fotografia e realização flirtam com a perfeição. Olhos cheios e devidamente saciados, sei que já não irei voltar a dizer que a última série que vi foi há mais de 30 anos. Apenas mais uma entre tantas outras coisas que já não irei voltar a dizer. 

06 maio, 2024

PORTO, MAIO, 2024

Durante as minhas campestres caminhadas, ou ao passar por aldeias e casais, sou por vezes assaltado por cães que descarregam sobre mim uma raiva que acumularam ao longo de milhões de anos. Embora nunca tenha sido mordido, continuo a gelar e a estremecer de medo. Medo que acumulei ao longo de milhões de anos. Podemos ter saído das cavernas, mas as cavernas nunca saíram de nós. Ao já ter passado por pessoas com ar ameaçador em sítios onde senti bem o peso da minha fraqueza, não reajo de modo tão primitivo como diante de um cão. Talvez por saber, mesmo não consciente nisso, que o cérebro de um cão é mais primário do que o de uma pessoa, conseguindo assim perceber melhor o que pode estar a acontecer na cabeça de uma pessoa do que na de um cão. Enquanto o cão é puro instinto, uma pessoa pensa, fala e talvez dê para negociar: "Leva lá o telemóvel mais os 20 euros que tenho na carteira, mas não me faças mal". Com o cão que sai do portão com ar de querer desfazer-me já não posso fazer isso. Mas não será isto uma ilusão, e uma ilusão que nos pode sair cara? O cérebro de uma pessoa é mais complexo do que o cérebro de um cão. O problema é tal complexidade não estar necessariamente ligada às melhores intenções. É que se o medo em nós tem milhares de anos, também a raiva, como no cão, está há milhões de anos acumulada, querendo isto dizer que a junção da complexidade de certos cérebros com os instintos mais primários devia também ser motivo para nos fazer gelar e tremer de medo. Podemos ter saído das cavernas, mas as cavernas nunca saíram de nós, tendo a humanidade já tido tempo para saber, e neste caso muito menos do que milhões de anos, que se relaxarmos em demasia arriscamo-nos a ser mordidos. 

05 maio, 2024

SINAIS DE FOGO

Uma relativa desilusão. É para muitos o melhor, ou dos melhores, romance português do século XX. Consigo percebo porquê, o que ajuda a tornar a desilusão apenas relativa, mas desilusão também por causa disso, uma vez que só há desilusão se houver ilusão, e as referências que tinha a isso me levaram. Exceptuando certas passagens ali ou acolá, o que é pouco num livro com centenas de páginas, não me dá o que espero da literatura: o que só a literatura me pode dar. Como espero da música ou da pintura o que só cada uma me pode dar. O meu interesse pela literatura é inversamente proporcional à possibilidade de ser convertida em filme. O que me acontece neste livro é sentir-me arrastado por um incontinente fluxo narrativo que me faz sentir diante de um daqueles filmes baseados em livros que parecem ter sido escritos para se converterem em filmes.

04 maio, 2024

AMOR INTELLECTUALIS DEI



Diz ele que os poemas são sempre tristes porque saem da alma, e a alma é triste porque sabe mais do que a mente. Diz isso porque nunca leu Espinosa e pelo modo como responde ela também não. Se o fizessem perceberiam melhor como cada um deles é infeliz à sua maneira, ao contrário das pessoas felizes que talvez o sejam todas de modo idêntico.

03 maio, 2024

BUZINADELAS

Vou na rua e vejo duas pessoas a discutir. Ou melhor, dois condutores, cada um no seu carro, mandando buzinadelas um ao outro. Ora buzinava um, ora buzinava outro outro, ora com sons mais longos, ora com sons mais curtos. Um insólito diálogo, mas também é verdade que já assisti a conversas e discussões nas quais as palavras têm o mesmo valor das buzinadelas. Se virmos bem, nem certos discursos políticos escapam. As palavras servem apenas para disfarçar a natureza buzinológica do discurso, dando-lhe uma aparência racional, pois o que conta mesmo é buzinar. Entretanto, se pensarmos na crescente pobreza da linguagem que assola cada vez mais adultos, mas sobretudo os jovens, talvez o diálogo entre os dois automobilistas seja uma antevisão do modo como a humanidade irá, num futuro que não prevejo longínquo, dialogar.

02 maio, 2024

SEM SEDE MAS COM MUITA SEDE

Gosto de acentos. Dão identidade e personalidade a uma língua, gostando de os ver mesmo em línguas das quais não entendo uma palavra.  Daí ser contra as palavras homógrafas que tantos acentos nos roubam. "Sede do Mal" é o título português de um filme de Orson Welles. O título original não ajuda, mas também não é preciso conhecê-lo para pronunciar "sede" no sentido de beber. É uma questão de probabilidade ou por ser mais intuitivo para título de filme. Mas, em abstracto, poder-se-ia chamar "A sede do Mal", no sentido de espaço, lugar, a um documentário sobre Auschwitz, a batalha de Estalinegrado, os Autos de fé da Inquisição ou Wiriamu. Podia e até soaria bem. Apenas um senão: ser demasiado redutor. Existem infinitas sedes do mal, não "a" sede do mal. Quando se pensa no mal absoluto são exemplos como aqueles que vêm à tona. Acontece, porém, que mesmo o mal absoluto está em todo o lado, em todos os cantos e recantos do mundo, em infinitas sedes onde almas sequiosas matam a sede dele e que, pela sua frequência e banalidade, não têm direito a filme ou documentário, ocupando apenas metade da página interior de um jornal.   

29 abril, 2024

IMPLANTES

Não me surpreende que a chamada inteligência artificial se vá tornando cada vez mais parecida com a natural e esta com a artificial. Já faltou mais tempo para que o famoso teste de Turing se venha a tornar de muito fácil resolução: quanto mais sofisticada for a resposta, maior a probabilidade de ser dada por uma máquina, quanto mais básica e balbuciante, como nos primórdios da I.A., mais própria de um ser humano. Serei pessimista, mas tenho razões para isso: trabalho numa escola. Mas não só: também leio jornais. Ainda hoje, no PÚBLICO, o economista liberal Ricardo Arroja, lamentando os problemas com que se deparam os jovens devido aos eternos problemas da economia portuguesa, não deixa de apresentar o actual ensino em Portugal como parte do problema. Porquê? Porque «não revela a mínima sensibilidade pelas ciências de dados (programação)», as quais terão hoje a mesma importância que o Excel para a sua geração. Juízo sofisticado, muito aproximado do que viria da I.A. Ao invés do clássico «É a economia, estúpido!», ainda demasiado humano para uma máquina, trata-se de um «Ser estúpido para salvar a economia». Desígnio pouco simpático, mas vital e bastante arrojado para as futuras gerações. Como bem sabe o povo, ao que é de dados não se olha os dentes, e o pior que pode acontecer é acabarmos todos desdentados. Nada que não se consiga resolver com os novos implantes que já se anunciam. E aí então talvez consigamos ficar mais parecidos com a I.A., tornando o teste de Turing mais difícil. «É a dialéctica, estúpido!»

26 abril, 2024

O CAVALEIRO IMPERTINENTE

Imagine-se alguém não ouvir música porque embora reconheça a qualidade de compositores como Bach ou Schubert, crê que poderia ter havido ainda melhores. Que não está para ver futebol porque mesmo podendo ver vídeos com o Brasil de Pelé, a Holanda de Cruijff ou a Argentina de Maradona, não existe o jogador perfeito ou a equipa perfeita. Pessoas então que recusariam andar de burro por acreditarem que seria em cima de um cavalo, e não um cavalo qualquer, que deveriam fazê-lo, para o qual nunca subiram mas também do qual não querem descer. Não existem pessoas assim face à música ou ao futebol mas se existissem não viriam grandes males ao mundo por ficarem apenas elas a perder. Já na política não é assim. E neste caso, como tudo o que se passa na polis, será sempre a polis que ficará a perder. E por vezes bastante, como aliás mostra a história, a qual nunca se repete mas por vezes rima.

25 abril, 2024

25 DE ABRIL SEMPRE


No dia 25 de Abril, quinta-feira, não fui à escola. Longe de imaginar que, 50 anos depois, de novo quinta-feira, voltaria a não ir à escola. Durante estes 50 anos fiz coisas e aconteceram-me outras, mas não dei pelo tempo passar como naqueles longos e suaves dias em que não vamos à escola.

24 abril, 2024

JANUS EM ABRIL

Faz-me sempre alguma impressão ler ou ouvir dizer "Cumprir Abril", que "Abril ainda está por cumprir", ou "Traição ao espírito de Abril". Nada disso faz sentido.  O 25 de Abril serviu apenas para acabar com o 24 de abril, e acabou. O que já não é coisa pouca, sendo por isso um dia de belas memórias que cumpre preservar. Tudo o que veio depois, de bom e de mau, nada teve que ver com o 25 de Abril, mas com o 26 de Abril. Podemos assim reduzir os últimos 100 anos da nossa História a três datas simbólicas: 48 anos de 24 de Abril, 50 anos de 26 de Abril, e um dia, um dia apenas de 25 de Abril. Um dia que pode ter sido inicial inteiro e limpo, mas que por ter sido também um dia final, preservará eternamente a sua inteireza e imaculada limpidez porque acima da queda no tempo cuja substância passámos a habitar livremente no dia 26 de Abril, depois de ter sido bonita a festa, pá.

23 abril, 2024

METALEPSE

Fosse Velasquez homem do nosso tempo e talvez Las Meninas recebesse antes o título de Auto-Retrato. Ou, vá, Auto-Retrato com Família Real, pelo pedigree da coisa, exorbitando assim o estatuto social do pintor, ao qual, de resto, não era indiferente. À luz dos nossos mundanos olhos tão prestados à mediania, mais do que auto-retrato, bem poderia tratar-se de uma selfie. E uma selfie diariamente sujeitada a dezenas de selfies, irónica condição que acrescenta ainda mais complexidade performativa à composição original, sendo a sala do Prado, com os seus figurantes, uma natural extensão do Palácio Real e dos seus figurantes. 

22 abril, 2024

RUA

Bem no início dos anos 80 do século passado, na esplanada da Pastelaria Suíça, eu e uma amiga divertimo-nos imenso a observar quem passava para ir sugerindo quem seria de esquerda e de direita. Isto, num tempo em que as gavetas semióticas facilitavam bastante tal tarefa. É verdade que a semiótica será hoje mais complexa, mas de uma coisa estou seguro: meia-hora a andar pelas ruas é tempo suficiente para perceber o sucesso do Chega nas recentes eleições.

25 dezembro, 2023

CALENDIÁRIO


Diz ela que tem vinte e dois anos e muitos meses. Faz sentido, pois não é o mesmo que ter só vinte e dois anos. Muitos meses são muitos meses e muita coisa acontece neles. E há quem viva mais num mês do que outros em anos. Teria assim o seu interesse marcarmos a idade por meses em vez de anos, unidades de tempo bem distintas, percebendo-se melhor como a ampulheta nos vai fazendo a folha. O ideal seria mesmo em dias. O problema é a sua grande quantidade massificar o tempo, perdendo-se com isso a importância de cada dia ["-Tás velho, pá, que idade tens? - Calma aí, ainda só tenho vinte e dois mil seiscentos e oitenta e três dias", mais parecendo um número da lotaria]. Daí o melhor seria até nem haver uma consciência do tempo e da idade que se tem, se faltam muitos ou poucos dias, ou meses, para o último grão da ampulheta nos defenestrar. Tal como com os alunos cujo professor não marca os dias dos testes, obrigando-os assim a estarem sempre preparados para a aula seguinte, talvez também olhássemos para os nossos dias, meses e anos com outra sabedoria.

24 dezembro, 2023

PRIVADAS VIRTUDES


O mesmo se passa com as qualidades ou virtudes. Há quem tenha imensas, mas sendo pouco praticante. Não praticar por não praticar, antes os vícios. Será mais de enaltecer quem é bem sucedido por não fazer o que deseja porque não deve, do que ser bem sucedido por não fazer o que deveria desejar.

23 dezembro, 2023

NATAL É QUANDO UM GATO QUISER

Boas festas, boas festas, boas festas, boas festas, boas festas. Ao contrário do de Cheshire, o meu gato, rebaptizado Orlando porque veio na condição de gata até alguém descobrir que afinal era um gato, não fala. Mas eloquência natalícia não lhe falta para expressar o desejo de boas festas várias vezes ao dia ao longo do ano. 

22 dezembro, 2023

CARTÃO DE NATAL

Museu do Louvre, 41 x 34 cm [1640]

Este quadro, atribuído a Rembrandt ou ao seu estúdio, não tem um mas três títulos: tanto pode ser Sagrada Família com Santa Ana, como O Ofício do Carpinteiro ou Família Holandesa num Interior. Motivo para serem dois quadros diferentes. O seu centro de gravidade está na mulher que amamenta o bebé, não só pela posição que ocupa no espaço, mas também por ser para lá que são levados os olhos através do calor da luz. Saber ainda, pelo título, que se trata de uma mãe que amamenta o filho de um deus, ele mesmo também um deus, como não se cansaram de mostrar os velhos Padres da Igreja e os teólogos medievais, coloca o espectador em pleno território sagrado. Mas se passarmos a ver uma simples família holandesa, ou O Ofício do Carpinteiro é este, cujo rosto nem sequer vemos, que conquista o centro. Rembrandt, ou um seu aluno, estaria então a mostrar uma simples cena da vida quotidiana na oficina de um carpinteiro que trabalha enquanto a sua mulher amamenta o seu filho, um cenário cuja beleza e tranquilidade provoca um enaltecimento profano. É uma mulher e uma criança, e basta, e nem o carpinteiro precisa de ser S. José para conquistar a virtude doméstica de quem trabalha na oficina para sustentar a família. Para se perceber que a morte da religião está longe de representar a morte da beleza, da interioridade, da espiritualidade, da humanidade, é nos interiores holandeses que devemos pensar, ainda que Rembrandt não seja, tecnicamente, um pintor de género, como vieram  a ser todos aqueles que fizeram desse período um dos mais belos da história da pintura. Tão bonito, ou mesmo mais bonito do que ver a mãe de Jesus a amamentar, é ver uma mulher a amamentar, ainda que a humilde mulher de um carpinteiro. Embora prefira a segunda versão, há uma vez no ano, esta, em que gosto de o ver com os olhos da primeira. Uma coisa é não poder escapar ao seu destino, outra, bem mais simpática e amigável, é não querer escapar ao seu destino.