Garry Winogrand | Coney Island [1952]
"When things move, I get interested" Garry Winogrand
Num excelente livro sobre Espinosa (Espinosa e os Signos), Deleuze apresenta o filósofo holandês como alguém que propõe um novo modelo: o corpo. "Não se sabe o que pode um corpo", eis a famosa frase da Ética, obra onde o corpo é pensado e valorizado como até ali não se tinha visto. E remata com Nietszche para mostrar todo um território que embora debaixo dos nossos olhos, está ainda por explorar e valorizar: "Espantamo-nos diante da consciência, mas o que é surpreendente é, acima de tudo, o corpo". E pronto, chega de citações pois tudo o que é demais parece mal nem eu quero parecer o eng. Sócrates numa devairada narrativa de citações.
Estive a rever as fotografias de Garry Winogrand e sem querer lembrei-me de Espinosa. Neste caso, não para dizer que "não se sabe o que pode um corpo" mas para dizer que "não se sabe o que pode a realidade". Winogrand é um fotógrafo da rua. Não da mesma rua, por exemplo, de Doisneau ou Elliot Erwitt, irmãos na construção de um humor e insólito encenados, não da mesma rua, por exemplo, de Lewis Hine ou Dorothea Lange, fotógrafos que, também na rua, vão à procura de um determinado tipo de actores sociais, ou até da mesma rua, por exemplo, de Cartier Bresson, Brassäi ou do nosso Gérard Castello Lopes, em cujas fotografias de rua encontramos, para além do "instante decisivo", uma indisfarçável depuração estética. É verdade que existe "instante decisivo" em Winogrand. Mas trata-se de um "instante decisivo"mais humilde, no sentido em que se dirige para um domínio ainda mais sub-atómico e invisível do real, um domínio que aparentemente não existe para ser visto.
Nós olhamos para fotografias como estas
Nós olhamos para fotografias como estas
e a reacção imediata poderá ser: "Caramba, mas que raio há aqui de tão especial e digno de ser visto?" Reacção normal uma vez que estamos apenas a ver o que já vimos, o que estamos habituados a ver, sendo por isso escandalosamente familiares. Dará até vontade de dizer a clássica frase quando se está perante a escanifobética simplicidade de muitas pinturas modernas: "Grande coisa, isto também eu fazia".
Porém, as coisas são um pouquinho mais complicadas. Se eu agora sair para as ruas de Torres Novas e começar a disparar a torto e direito, muito provavelmente o que disso irá sair será absolutamente desinteressante. Não basta tirar fotografias ao que aparece espontaneamente para que a fotografia se torne interessante. Para que tal aconteça, para que o "instante decisivo" aconteça, é preciso haver uma conjugação certa e única de elementos, ainda que simples e aparentemente desinteressantes.
Diz Winogrand que se interessa por tudo o que mexe. Mas há mexer e mexer. No seu caso, trata-se de registar momentos únicos no espaço e tempos certos, impedindo que fiquem submergidos pela espuma dos dias. O que pode a realidade? Nunca se sabe o que pode a realidade. Nós julgamos conhecer a realidade mas estamos já tão viciados nela que deixamos de a ver. E o que o fotógrafo faz é precisamente obrigar-nos a ver o que já deixámos de ver e a espantarmo-nos com o que pode a realidade, tal como Espinosa ou Nietzsche se espantavam com o que pode um corpo.

























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