09 Fevereiro, 2012

CULPADO!


Trata-se de um cartaz de propaganda nazi, defendendo a eutanásia de pessoas deficientes. Está lá escrito o seguinte: "Esta pessoa, sofrendo de anomalias hereditárias, custa à comunidade 60 000 marcos. Compatriota, este dinheiro também é seu".
Quase sem darmos por isso, este cartaz ganhou uma preocupante actualidade em Portugal. Não, não há sinais de qualquer secreta agenda política para abater portugueses indesejáveis. Mas, de repente, parece que passámos todos a ser pessoas indesejáveis, pessoas que só servem para atrapalhar o eficaz funcionamento de uma máquina sagrada. De repente, um funcionário público passou a sentir culpa por receber o seu vencimento por um mês de trabalho pois é dinheiro que sai da máquina. De repente, um português passa a sentir-se culpado por adoecer, pois sempre que faz análises, uma ecografia ou é interndo num hospital está a extorquir dinheiro da máquina. Ou sente-se culpado por ter filhos a estudar, pois cada estudante custa anualmente X euros à máquina que se deseja implacável e bem oleada. Ou sente-se culpado por estar desempregado e, por causa disso, o estado tem que lhe matar a fome. Ou um idoso pensionista ou reformado, depois de uma vida  inteira a trabalhar,  que se sente culpado por estar dependente da piedade da vaca mecânica.
De repente, ser português passou a ser sinónimo de culpado. Porque, de repente, a ideia de sociedade deixou de existir, sendo transferida para a ideia de Estado. A máquina. A máquina que se quer sem mácula. O Estado existe em função da sociedade mas, de repente, a sociedade passou a ser um fardo insuportável para o Estado. O ideal seria mesmo existir um Estado sem sociedade. Um Estado sem escolas, hospitais, estradas, casas, famílias, pessoas, crianças e idosos isentos de taxas. Sei lá, não o Estado hegeliano mas o Estado como uma ideia platónica, uma simples forma, um esquema. E um Estado tanto mais perfeito quanto mais isento de vida concreta e humana.
Tivemos 2500 anos marcados por um modelo ao qual devemos quase tudo, como invoca aqui o Jorge. Talvez estejamos a abandonar esse modelo para entrarmos no modelo da contabilidade. A contabilidade é louvável e todos nós, nas nossas vidas domésticas, devemos ser contabilistas. Mas a contabilidade sem a política e a filosofia conduz a um pesadelo muito maior do que o do cartaz nazi. Desta vez não há 60 000 culpados. Somos todos culpados apenas porque existimos.

08 Fevereiro, 2012

CULTURA DA VERBORREIA

                                                                              Nadar

Há hoje cada vez mais garotos incapazes de estarem calados. E quanto mais novos, pior. Seja numa aula, seja a ver um filme, como ontem aconteceu durante uma aula de substituição. Se pusessem garotos a ver o Teorema de Pasolini, compreendia que depois de cinco minutos de filme reagissem como macacos a quem distribuíssem quilos de amendoins. Mas como explicar que, perante um normalíssimo filme de aventuras, os garotos não consigam estar calados? Esta é uma experiência cada vez mais comum no quotidiano de um professor. Os garotos não se calam, não se calam, não se calam. Chega a ser um pesadelo. Por que razão acontece cada vez mais este pesadelo? Uma explicação pode ser a incontinência verbal e comunicacional que infecta a vida quotidiana. Incontinência que se manifesta na ligação em tempo real entre o mundo mental e o mundo verbal: a pessoa pensa e tem de imediato comunicar o que pensa. Ou numa omnisciência comunicacional, por exemplo, o filho telefonar à mãe a dizer que está a chegar a casa....já dentro do prédio. Mas também na cultura do on line, seja no Facebook ou outras redes sociais ou no Messenger. Numa absoluta exteriorização do pensamento e de todo o universo mental do indivíduo. Penso, logo digo. Mas que também pode ser traduzido num "Digo, logo existo". Não existo porque penso, existo porque digo. Como se os mecanismos do pensamento e das emoções tenham de ser forçosamente legitimados e autenticados pela comunicação em tempo real. Se estou a ver um filme e penso qualquer coisa a respeito de uma cena tenho de o comunicar de imediato, impedindo-me, deste modo, de ver o filme calado. 
Hoje é apenas um pesadelo porque vivemos ainda numa fase de transformação. No futuro, pesadelo será estar calado. Já cá não estarei para ouvir.

07 Fevereiro, 2012

CASACOS DE LÃ, TOBLERONE, SINTRA COM NEVOEIRO, GOLOS DO CARDOZO, SEI LÁ

                             

Interessante esta ideia de descobrir os principais lamentos das pessoas na hora da morte. Contrariamente ao que possa parecer, não se trata de morbidez mas de um exercício interessante. Interessante, claro, para se fazer enquanto se está bem vivo. Epicuro dizia que não devemos ter medo da morte pois se pensamos nela é porque estamos vivos e morrer implica deixar de pensar nela. Portanto, nunca chegamos verdadeiramente a encontrarmo-nos com ela. Isto parece óbvio. O que já não parece tão óbvio é o nosso encontro com a vida. Não podemos estar mortos e pensar na morte porque um morto não pensa mas é perfeitamente possível estarmos vivos e não pensarmos na vida apesar de uma pessoa viva pensar. E a intensidade de uma pessoa viva a pensar na vida deve ser inversamente proporcional à (ausência) de intensidade de um morto a pensar na morte. Estar vivo é bom. Mas estar vivo não implica saber viver.

06 Fevereiro, 2012

CHUVA

                                                      Gustave Caillebotte | Rua de Paris, Dia Chuvoso

VÓINITSKI - Agora vai chover, e tudo na natureza se vai refrescar e suspirar de alívio. Eu é que não refresco com a tempestade. Como um duende doméstico, sufoca-me dia e noite a ideia de que a minha vida está irremediavelmente perdida. Tchékov, O Tio Vânia, Acto II

A natureza é desarmante, na sua radical simplicidade. O calor sufoca, abafa, seca, queima mas vem a chuva e, como diz, Vóinitski, tudo refresca e suspira de alívio. Tivesse a natureza consciência e sensibilidade e gostaria da chuva. E gostaria da chuva como um animal gosta de lamber uma ferida ou de matar a fome. A chuva, enquanto água sobre a pele da natureza, desinfecta, renova, faz regressar tudo de novo a uma liquidez inicial, a uma pureza que expele o mal. Como momento extremo desta catarse natural temos o bíblico dilúvio.
É pena no ser humano não existirem estes mecanismos naturais e automáticos como a chuva purificadora para libertar os Vóinitskis deste mundo. Não há, nem poderia haver. Porque no ser humano há inteligência a mais e pele a menos. Aliás, a chuva, na cidade, espaço humano por excelência, nunca é bem-vinda. Enquanto na natureza a chuva purifica, na cidade a chuva atrapalha a vida das pessoas e dos carros. Na cidade, andar à chuva incomoda como pensar. Na cidade, a chuva purificadora depara-se com resistências várias como o alcatrão que tapa a terra ou chapéus de chuva que tapam as pessoas para depois, desprezada e esquecida, ser subterraneamente escoada num   labiríntico sistema de esgotos. Daí que, na cidade, a chuva não faça respirar de alívio. O que faz suspirar de alívio é precisamente a ausência da chuva.
Daí também a inveja de Vóinitski face à natureza. A alma humana está revestida de demasiado alcatrão e os seus circuitos internos demasiado bloqueados por vários chapéus de chuva. Depois, toda a chuva purificadora se escoa num complexo e labiríntico sistema de esgostos mentais. Pensar não incomoda como andar à chuva. Andar à chuva deveria ser sempre um momento único e privilegiado para não pensar. E não pensar não deveria incomodar. A chuva quando cai não se incomoda, a natureza, quando recebe a chuva, também não se incomoda. A chuva é uma benção e, felizmente, a natureza não pensa para a poder receber de céu aberto. Para pensar, e pensar demais, já bastamos nós.

02 Fevereiro, 2012

SABEDORIA SEM GRALHAS

                                                                    Bert Teunissen

ÁSTROV- Não há nada de novo? 
VÓINITSKI- Nada. É tudo velho. Estou na mesma, ou talvez pior, porque fiquei preguiçoso, não faço nada, só resmungo como um velho caquético. A velha gralha, a minha maman, ainda balbucia alguma coisa sobre a emancipação feminina; olha para o túmulo com um olho, com o outro procura nos seus livros sábios a aurora da vida nova. Tchékov, O Tio Vânia, Acto I

Há duas possibilidades. Ou se desiste, como faz Vóinitski, ou não se desiste, como é o caso da sua mãe, ainda que um dos seus olhos não possa deixar de antever o fim do filme. Olhar o futuro como aurora de uma vida nova tem tanto de inevitável como de ilusório. Mas Vóinitski estará provavelmente errado quando fala depreciativamente em "balbuciar" a respeito dessas sabedoria. Talvez, quem sabe, seja mesmo essa a verdadeira sabedoria. Não a sabedoria da gralha, mas a sabedoria de quem desaprendeu. Quando a antiga gralha aprende sabiamente a balbuciar, embora percebendo, pelo canto do olho, o fim de tudo, percebe também que nunca é tarde demais para a sabedoria. Aprender a desaprender, pode ser para isso que servem os livros sábios. Para morrer feliz.

01 Fevereiro, 2012

BUÍÇA, O REGICIDA


                                                                              JRC                                                                     

Buíça. Chamava-se Buiça o homem que matou o rei D. Carlos naquela fatídica tarde de Fevereiro. Nome heróico para alguns, maldito, para outros. Para todos, ficou como Buíça, o regicida. Palavra feia que lembra pesticida, espermicida, fungicida. Compadre de Aquilino Ribeiro, frequentador do café Gelo, era um professor culto, um intelectual que acreditava na humanidade. Tornou-se regicida por imaginar a República como o início de uma sociedade justa. Era ainda um homem bom, delicado, sedutor. Tinha uma irmã jovem muito doente. Buíça visitava-a de propósito para pegar nela ao colo e levá-la a passear pelo campo e apanhar ar puro.Ainda hesitou bastante antes do regicídio. Viúvo, havia ficado com dois filhos pequenos que adorava: Elvira, uma menina de 9 anos e Manuel, um rapaz de 4 anos. Mas uma passagem do seu testamento, escrito 4 dias antes do regicídio, explica tudo. Vale a pena ler:
"Meus filhos ficam pobrissimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que soffrem. Peço que os eduquem nos principios da liberdade, egualdade e fraternidade que eu commungo e por causa dos quaes ficarão, porventura, orphãos".
Quatro dias depois, com 32 anos de idade, estava morto. Elvira e Manuel, órfãos de pai e de mãe.
A República não fez de Portugal uma sociedade livre e justa. Nem a primeira, e muito menos a segunda.Tornou-se mesmo, tal como Weimar em relação a Hitler, no ovo da serpente que gerou Salazar.
A História é uma coisa complicada. Muitas vezes, é escrita direita por linhas tortas, outras, torta por linhas direitas. A ilusão de Buíça é a ilusão de quem pensa que as acções individuais, livres e racionais, se podem sobrepor às enxurradas dos fluxos históricos. Como se a nossa pequena mão pudesse decidir a direcção do vento.
Não sei se Elvira e Manuel viveram muitos anos. Se viveram, viveram num Portugal obscuro, miserável, triste, isolado. Com a preciosa ajuda da carabina do pai. Não tivesse sido assim e talvez Portugal, com Luís Filipe ou D. Manuel II, reis constitucionais, inteligentes, cultos, cosmopolitas, "europeus", continuasse a aperfeiçoar a democracia nascida em 1822 como qualquer outra monarquia democrática da Europa que nunca tivesse chegado a conhecer tiranos como Estaline, Hitler, Mussolini, Hosha, Ceausescu ou Salazar.
Buíça, pai babado, teria continuado, como o pai de Ulisses, a ensinar os nomes das árvores a Elvira e Manuel, e estes teriam crescido num país muito diferente daquele que viriam a conhecer. Não sei teria sido assim. Poderia ter sido assim.
Não faço ideia do que terá passado pela cabeça de Buíça naquele instante supremo e único, antes de perder os sentidos, após o tiro fatal. Terá pensado em liberdade, igualdade, fraternidade?
Acho que teria morrido mais feliz se tivesse imaginado a sua jovem irmã levada nos seus braços, tendo pela frente um enorme prado verde e florido, numa manhã quente de sol, olhando os lírios do campo levemente ondulados por um vento brincalhão e cheio de alegria. Os lírios do campo não são monárquicos nem republicanos. Podemos olhar à vontade para eles e ver apenas lírios do campo levemente ondulados por um vento brincalhão e cheio de alegria.

A MORTE SAIU À RUA


Muito mais triste do que o 5 de Outubro é o 1 de Fevereiro. Seja república, seja monarquia, o sol continua a nascer todos os dias e, como diria o príncipe de Salina, são meros pormenores e irrelevâncias se vistos a partir de uma perspectiva astronómica. No dia 1 de Fevereiro morreram duas pessoas que não deveriam ter morrido. E com a morte não se brinca pois a morte também não brinca connosco.

31 Janeiro, 2012

PALAVRAS E SONS


Na sequência do que já havia feito durante a juventude em A Origem da Tragédia, anos mais tarde, na Gaia Ciência, Nietzsche faz uma comparação entre o teatro grego e a ópera moderna.
Diz ele que o cidadão de Atenas ia ao teatro para ouvir falar bem e que falar bem numa tragédia era mesmo o que mais importava a um escritor como Sófocles.
Por sua vez, em relação à ópera diz o seguinte: "Todos os grandes compositores de ópera se esforçam por impedir que entendamos as personagens. Uma palavra captada ocasionalmente pode vir em socorro do ouvinte desatento, mas, em geral, a situação deve esclarecer-se por si própria e as falas não interessam! É isto que todos eles pensam e, daqui, o modo como se divertem com as palavras. Talvez lhes tenha faltado a coragem para exprimirem completamente a pouca consideração que têm pelas palavras. Um pouco mais de atrevimento e Rossini teria posto as personagens a cantarem somente lá-lá-lá-lá-lá - e isto teria feito sentido. Não são «as palavras» mas os sons que conferem interesse às personagens da ópera! É essa a diferença, é essa a bela «falta de naturalidade» que leva as pessoas à ópera".
Não entendo este desdém de Nietzsche pela ópera tradicional, que, na sua juventude, quis ver ultrapassada pela ópera wagneriana enquanto expressão musical do arcaico espírito trágico. Há mais autenticidade e naturalidade na aparente vacuidade dos sons expelidos por personagens aparentemente sem densidade, do que na construção de um discurso que, apresentando como trunfo a sua beleza formal ou a sua profundidade psicológica ou filosófica, surge com a pretensão de atribuir inteligibilidade às coisas.
O caricato lá-lá-lá-lá-lá, modelado pelas vibrações e movimentos físicos e fisiológicos de um cantor, pode explicar bem melhor a essência de uma personagem ou a natureza de um estado de alma do que mil palavras que se vão montando num complexo puzzle mental. Não é verdade que o compositor de ópera se esforce para que não entendamos as personagens. Pelo contrário, reduzindo as personagens à primária de condição de quem emite sons, e, mais concretamente, sons musicais que debilitam o valor formal e conceptual dos signos, faz bem mais por elas do que muitos escritores.

30 Janeiro, 2012

ARS AMATORIA

                                                                     Edward Weston

Diz Aristóteles que ao médico ou ao militar não importa conhecer o bem em si para conhecerem e alcançarem o bem nas respectivas profissões. No caso concreto do médico nem sequer interessa saber o que é a saúde em geral mas apenas a saúde deste ou daquele ser humano numa determinada circunstância. Eis o mundo do particular e do concreto, tão distante do mundo da abstracção e das formas vazias. Claro que existe a saúde em geral, enquanto conceito. Sabemos o que é saúde e o que é a doença. Mas quando se trata de curar um aneurisma, uma pedra na vesícula ou uma dor de dentes, pensar na saúde em geral é absolutamente irrelevante.
Ora, passa-se o mesmo com a ideia de amor. As pessoas amam, tendo muitas vezes como base uma ideia prévia de amor. As pessoas amam a ideia de amor e, quando amam alguém em particular, amam-na em função dessa ideia de amor. Pensando com Aristóteles, isto parece um erro. O amor não deve ser encarado como uma ideia, um horizonte formal mas uma tarefa completamente inscrita no particular. O médico e o militar perseguem a ideia de bem, mas ser um bom médico não é o mesmo do que ser um bom militar. A ideia de bem é comum a ambos mas cada um deles deve ser bom à sua maneira: diferentes metas,  diferentes estratégias, diferentes linguagens. Salvar um ser humano à beira da morte, como faz o médico, não é o mesmo do que pensar na melhor maneira de matar seres humanos à beira da vida, como faz um militar. No entanto, o médico será tanto melhor quanto melhor souber salvar seres humanos, o militar será tanto melhor quanto melhor souber matar seres humanos.
Do mesmo modo, cada par amoroso deve encontrar o seu próprio bem, condição necessária para um amor saudável. O que acontece a quem ama, movido pela ideia de amor, é ficar muitas vezes sem saber como amar, tal como um médico ou um militar ficariam sem saber como agir se apenas movidos pela ideia geral de competência e eficácia. E médicos confundidos com militares ou militares confundidos com médicos não seria coisa bonita de se ver.

29 Janeiro, 2012

REDENTORA INCONSCIÊNCIA



Foi por acidente que conheci a pintura de Carl Holsöe.
Foi por acidente que entrei na livraria onde, por acidente, calhou vir parar às minhas mãos um livro de pintura exclusivamente dedicado a interiores no qual se encontrava a reprodução de um quadro de um pintor dinamarquês de quem nunca tinha ouvido falar e que, por acidente, vi enquanto o folheava.
Não há qualquer anormalidade em não conhecer um pintor como Carl Holsöe. Não o conhecer não é a mesma coisa do que não conhecer Velasquez, Ticiano, Rembrandt ou Vermeer. E o que não conhecemos será sempre infinitamente maior do que o que não conhecemos. A minha questão não é essa. Simplesmente, não deixa de ser estranho pensar como vivemos sem conhecer o que depois de conhecermos consideramos ser imperdoável não conhecer. Não podemos lamentar não conhecermos o que não conhecemos. A inconsciência é, de facto, redentora ou pelo menos apaziguadora. O que não deixa de ser inquietante é pensar no que não conhecemos e que, se por acaso conhecêssemos, consideraríamos imperdoável não conhecermos.
Repito: o que não conhecemos é sempre infinitamente maior do que o que conhecemos. Que saibamos, pois, aproveitar bem o que conhecemos, e aproveitar bem a inconsciência do que não conhecemos. Felizmente, não é possível termos a consciência do que não temos consciência.

26 Janeiro, 2012

NORMALIDADE CONSENTIDA

                                                                  Henri Cartier-Bresson

A ideia de normalidade não é necessariamente boa. Direi mesmo que uma obsessiva preocupação com a normalidade me deixa apreensivo. Fará sentido desejar ser normal num mundo em que a esmagadora maioria das pessoas sofre de enxaquecas? A minoria que não sofre de enxaquecas deverá querer sofrer igualmente de enxaquecas, para sentir o confortável afago da normalidade? E se, ainda assim, não conseguir sofrer? Deverá padecer de um sentimento de culpa por isso? A enxaqueca, num mundo assim, poderá ser estatisticamente normal e o critério para saber o que é ou não é normal pode passar pela estatística. É normal fazer X, ou gostar de X, porque a maioria faz ou gosta de X.
Mas podemos pensar a ideia de normalidade por outra via: pensar no sentido de fazer X ou de gostar de X, perguntando, por exemplo, se faz sentido querer sofrer de enxaquecas ou gostar de enxaquecas, ou, pelo contrário, se faz sentido não querer sentir dor ou não gostar de sentir dor.
As duas vias não são incompatíveis. Há coisas que são estatisticamente normais e que serão estatisticamente normais muito provavelmente porque fará todo o sentido serem consideradas normais. Mas também haverá muita coisa estatisticamente normal que, muito provavelmente, de acordo com a segunda via, poderá ser considerada anormal.
Eu disse que a obsessão pela normalidade me deixa apreensivo mas eu próprio sou um tipo obcecado pela normalidade. Não pela estatística, que é coisa que sempre detestei. Obcecado pela normalidade, sim, mas no segundo sentido. Ser normal é o meu grande objectivo como pessoa. Mas também gosto de saber que tudo o que faço ou de que gosto, faz sentido. Depois, é só consentir.

25 Janeiro, 2012

THE RAIN IN SPAIN STAYS MAINLY IN THE PLAIN

                                                                   Henri Cartier-Bresson

Uma das coisas que mais me atraem na escola salazarista é a sua humildade. A escola salazarista não pretendia tornar os alunos inteligentes mas apenas ensinar a ler, escrever e contar, assim como um conjunto de conhecimentos básicos considerados essenciais. No entanto, e de um modo aparentemente paradoxal, a educação salazarista fazia bem mais pelas crianças e jovens do que a actual educação moderna e democrática, obcecada pela inteligência, pelas competências, pela autonomia e auto-estima dos alunos transformados em livres-pensadores de pacotilha. Vá-se lá saber como, nos decrépitos bancos da escola salazarista deram os primeiros passos todos aqueles que vieram a ser grandes professores, cientistas, médicos, engenheiros, arquitectos, advogados, historiadores, escritores e pintores.
A educação salazarista fazia dos alunos macaquinhos durante um período de desenvolvimento em que não passamos mesmo de uns macaquinhos. Eu próprio fui um desses macaquinhos durante 13 anos da minha existência e devo parte do que hoje sou (que, ainda assim, admito não ser grande coisa) a esses 13 anos em que fui obrigado a memorizar e mecanizar informação. Hoje já não serei tão macaquinho como fui outrora mas foi preciso sê-lo durante muito tempo para me dar ao luxo de poder deixar de o ser.
A insuportável e nefasta falta de humildade da educação democrática revela-se igualmente na ambição totalitária da linguagem, na obsessão pela perfeição científica das suas metas e no horror ao elitismo e à superioridade aristocrática. Já não se querem crianças simplesmente bem educadas mas republicanamente educadas para a cidadania. Os nobres e honrados trabalhos manuais transformaram-se em educação tecnológica, uma espécie de resíduo estalinista incubado no inconsciente colectivo de muitos pedagogos actuais, amantes de uma alucinada modernidade. Os professores transformaram-se em colaboradores de uma comunidade educativa, fruto de um plebeu horror à hierarquia, autoridade e hierática ordem, sempre a trabalhar como mesquinhas formigas, herdeiros perfumados e de cara lavada do velho operário vitoriano de Dickens. As bibliotecas deixaram de ser espaços sagrados para ler e para o silêncio, transformados em modernos centros de recursos para cultivar a ruidosa tagarelice da espontaneidade e prazer da cultura democrática, onde toda a gente tem direito à opinião, macaquinhos orgulhosos da sua vacuidade circense, numa idade em que já deviam ter deixado de o ser.

24 Janeiro, 2012

MÚSICA DE FUNDO

                                                              Thomas Dewing | The Musician

Um filme é para ser visto e não para ser ouvido. Daí dizermos que "vimos um filme" e não que "ouvimos um filme". Porém, e sem que muitas vezes dêmos conta disso, a música é um elemento fundamental de qualquer filme, diria mesmo, o que nos conduz à verdadeira essência do filme enquanto drama, comédia, terror, suspense ou aventura. Os nossos olhos fixam-se na sequência narrativa das imagens, atribuímos uma inteligibilidade ao filme a partir dessa sequência e respectivos sinais visuais mas é a música que verdadeiramente liga  o coração do espectador ao coração do próprio filme. A música funciona, neste sentido, como uma espécie de inconsciente do filme, uma textura invisível,  porque sonora, mas que explica todas as nossas emoções enquanto o vemos: medo, terror, alegria ou ternura. Em suma, vê-se o filme, sobre o qual discorremos racionalmente, mas é a música que verdadeiramente nos vai explicando o filme sem que disso dêmos conta.
Daí poder ser interessante fazer o seguinte exercício: cada pessoa conceber a sua vida como um  imaginário  filme no qual surge como personagem principal. Entretanto, para tentar perceber o que se passa em cada plano e sequência da sua vida, deverá imaginar a música que o realizador imaginário do seu filme irá escolher para acompanhar as imagens. Eis um bom exercício para podermos compreender o que as imagens de que são feitas as nossas vidas, na sua aparência e fragilidade, muitas vezes não conseguem mostrar. Bom filme!

23 Janeiro, 2012

LINHAS TORTAS

                                                                    Jacques Henri Lartigue

"Diz-se que o sr. Dias vai mandar  construir um palacete  no Porto, onde tenciona fixar a sua residência. Damos os parabéns à cidade invicta por tão valiosa aquisição."  Camilo Castelo Branco, O Que Fazem Mulheres

Trata-se isto de um excerto de uma notícia de jornal ficcionada por Camilo na qual se informam os leitores do casamento do sr. João José Dias com a exª senhora Ludovina da Glória Pimenta, da sua lua de mel na quinta em Celorico da Beira, propriedade do noivo e, como já vimos, da construção do palacete onde irão residir. João José, enquanto figura, é absolutamente ridicularizado pelo escritor. Um novo rico que fez fortuna no Brasil, comprando posteriormente o título de barão, e homem que, para além de fisicamente repugnante, não passa de um pacóvio ignorante e eloquente exemplo do mais bacoco provincianismo. Ludovina, por sua vez, é uma menina sedenta de bailes, passeios, vestidos, vida social iluminada pela chama do glamour.
Eis, pois, o palacete, como expressão natural da glória social, da vaidade, do orgulho, construído com dinheiro proveniente de um trabalho que não poderia ser mais adverso à sensibilidade estética dos poetas, pintores, escultores, músicos, dinheiro ganho, moeda a moeda, à custa da ambição individual e em nome do mais vil materialismo económico.
Claro que João José e Ludovina são personagens saídas da pena de Camilo. Mas os palacetes que ainda existem hoje por esse país fora são absolutamente reais e resultam muitas vezes de histórias e casamentos como o de João  José e Ludovina ou de histórias nas quais as motivações humanas não andam longe das do ridículo casal. Ora é precisamente aqui que vamos encontrar mais uma tremenda ironia histórica. Hoje, são sobretudo esses palacetes que dão beleza às cidades e não os horríveis prédios modernos construídos para armazenar as classes médias que foram emergindo ao longo do século XX. São esses palacetes construídos por ricos pacóvios e mulheres vaidosas que constituem actualmente o mais valorizado património urbano das cidades. São esses palacetes que inebriam os estetas da contemporaneidade e todos aqueles intelectualmente mais profundos que desprezam as classes empresariais e o dinheiro ganho à custa de um empreendedorismo motivado pela ambição e o desejo de riqueza. São esses palacetes que alimentam românticas lutas protagonizadas por muitas pessoas de esquerda e que abominam o grande capital e uma mórbida avidez pelo vil metal, em defesa do património, da identidade, da história, dos valores estéticos.
Eis, portanto, como na origem da identidade, da história, dos valores estéticos, iremos encontrar subterraneamente a estupidez e ambição de João José ou a vaidade e exibicionismo de Ludovina. Na história haverá pouca coisa linear. A história está muito longe de ser uma aberta e rectilínea alameda onde poderíamos caminhar calmamente de olhos fechados sem nos perdermos. A história, pelo contrário, é uma espécie de bairro medieval feito de linhas tortas. Esse é precisamente um dos seus grandes encantos.

22 Janeiro, 2012

BOOK-OFF

                                                                  Eugeny Kozhevnikov

Hoje de manhã comprei dois livros na Book-it. Quando chego ao balcão para os pagar, a menina, com ar experiente e pose de automática rotina, pergunta-me se são para oferta. Uma andorinha esvoaçando não basta para explicar a primavera e é verdade que a sociologia precisa tanto de estatística como a inteligência de córtex cerebral. Mas não consigo deixar de pensar que, em Portugal, os livros serão mais coisa de oferecer do que de ler.

21 Janeiro, 2012

DOS CONSERVADORES

                                                                 Lucas Cranach | Sansão e Dalila


Há tempos, numa aula, não havia um único aluno que tivesse alguma vez ouvido falar em Sansão e Dalila. Fiquei perplexo. Apesar de nunca ter frequentado a catequese, passei a instrução primária a ouvir histórias bíblicas contadas pela minha catolicíssima e reaccionaríssima professora. Mas isso era num tempo em que as professoras primárias sabiam mais de histórias bíblicas do que de teorias pedagógicas, psicológicas, psicopedagógicas e psicossociais, engolidas à pressa numa qualquer escola superior de educação.
Aos 20 anos, nos meus velhos tempos de ateísmo e anti-clericalismo exacerbado, seria capaz de achar piada à ideia de uma orgia romana iluminada por archotes feitos de folhas da Bíblia a arder. Hoje, confesso, imagino-me mais facilmente a dar aulas de catequese no salão paroquial cá da terra. Sou tão ateu como antes. Mas aprendi a dar valor ao que é eterno e a desvalorizar o lixo que sobra de alimentos cujo prazo de validade será sempre reduzido.

20 Janeiro, 2012

PARA ALÉM DE WATERLOO


Voltei a ler Camilo. Ler Camilo, com a imprescindível ajuda do dicionário, é uma festa da língua portuguesa, uma homenagem à vernacular elegância desta língua agora tão escorraçada, um português que tem tanto de satírico,  mordaz e inteligente como de subterrâneo, granítico e nocturno. Se Eça é o Chiado e uma ainda hoje vislumbrada mediterrânica brancura lisboeta, Camilo é a alma de um Portugal morto e jazendo, envolvido por húmidas heras, nas  umbrosas ruínas de um século XIX neto de um atávico avô que teima em resistir. Se em Eça já se sente o cheiro do gás, em Camilo, os olhos ainda ardem, fatigados pela bruxuleante luz de uma pobre candeia que não consegue iludir a escuridão da noite antiga, vinda do fundo dos tempos. Mas não é isso que me traz agora aqui.
Eu e o meu amigo Jorge temos, há muito, um velho contencioso. Eu sou mais dado ao fresco nevoeiro que envolve os verdes campos da velha Albion, cuja lisura é, aqui ou ali, interrompida por um velho palácio, rodeados de belos lagos e árvores centenárias. E como isto está tudo ligado, estou muito longe de me sentir indiferente ao aristocrático cabotinismo de um Churchill nascido em berço de oiro no palácio de Blenheim, onde já tive o prazer de comer uns belos scones bem molhadinhos por um chá apaziguador em dia de melancólica chuva miudinha. Enfim, sou um pobre professor sem ter onde cair morto mas devo ter sido aristocrata noutra vida ou, quem sabe, um simples pajem isabelino.
Ele, o Jorge, por sua vez, é mais dado aos encantadores eflúvios do Sena, mais atraído pelo urbano burburinho de Saint Germain e por esplanadas outrora frequentadas por revolucionários que fizeram da língua francesa uma espécie de orwelliana Novilíngua, tão afastada já das centenárias LibertésEgalités e Fraternités que tantas cabeças ajeitaram nas revolucionárias guilhotinas de um filme de terror. Enfim, eu gosto da quente e confortável lareira, iluminando a suave penumbra de um  pub algures perdido numa obscura aldeia igualmente perdida no mapa, ele prefere o iluminismo do boulevard, abertas e longas avenidas rumo a um futuro radioso.
Mas nada como um bom pedaço de uma tão portuguesa prosa camiliana para fazermos as pazes:

«Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a sem-cerimónia dum visitante habitual, beijando-a ao estilo da França, coisa que ele vira fazer a quatro ou cinco viajantes distintos do Porto, que tinham conhecido, em Paris, a «mesa-redonda» dos hotéis onde estiveram».

E logo a seguir:

«Aí vão à pressa dois traços deste Ricardo de Sá. É um bacharel formado em direito, filho doutro bacharel que faz requerimentos, enquanto o filho, reservado para a magistratura, destino em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra inglesa, e timbra em comprar no Moré os mais anilados enveloppes, e o melhor papel-cetim de fímbria doirada»*.

Eis,  pois, a França e a Inglaterra de mãos dadas graças a  um bacharel  português, igualmente seduzido pelos dois lados do Canal da Mancha. Talvez Agostinho da Silva razão com a história do luso universalismo e ecumenismo do V Império.

 * O Que Fazem Mulheres

19 Janeiro, 2012

REPOUSO E MOVIMENTO

                                                                     John Chillingworth

A felicidade tem muito que ver, claro, com a sorte, mas também com uma certa perícia no modo como se gerem as leis do movimento, isto é, a ideia de que um corpo permanece no estado em que se encontra a não ser que alguma coisa o altere, e, no caso de não se alterarem as condições, um corpo em movimento irá continuar sempre em movimento. 
Ora o que torna muitas vezes as pessoas infelizes é a maneira como gerem a sua relação com o repouso e o movimento: procuram o movimento quando deveriam procurar o repouso, procuram o repouso quando deveriam procurar o movimento. Quanto à felicidade é precisamente o contrário: procurar o movimento quando é o movimento que se exige, o repouso quando repousar é preciso.

18 Janeiro, 2012

MUNDO DE PAPEL


Em 1915, um grupo de jovens toma chá, ou o pequeno-almoço, num daqueles raros dias ingleses em que o ar se torna livre para nele se poder estar. O ar deve estar, pois, ameno, e tendo como música de fundo o verde chilrear dos pássaros. A rapariga do fundo ri. Dá para entender ser ela que fala enquanto os outros a ouvem atentamente. Não há grande entusiasmo mas vislumbra-se uma serenidade primaveril.
Há, porém, duas marcas terríveis nesta foto, como se fossem duas profecias pairando sobre as suas cabeças. Por um lado, a desfocagem das árvores (árvores que, na realidade, naquele espaço e naquele tempo, não estão desfocadas), dando à cena um sentimento de vertigem e perdição. Por outro, as mesmas árvores desfocadas que começam a surgir corroídas pelo envelhecimento da própria fotografia, vítima da implacável ferocidade do tempo. Como se esta fotografia tivesse ao mesmo tempo a pretensão de registar o momento para a eternidade mas, sendo de papel, não nos deixasse esquecer o carácter efémero de toda a experiência humana. Tão frágil e delicada como uma árvore.

17 Janeiro, 2012

VERDADEIRAS CORES

                                                                         Erno Vadas

Durante a aula falou-se de cores. O que é o vermelho, o verde ou o azul? Como definir "vermelho", "verde"  ou "azul"? Como explicar a um cego, que nunca viu cores, a diferença entre o vermelho, verde e azul? Pronto, esse tipo de coisas. Entretanto, veio à baila a identidade do preto e do branco. Uns, diziam que o branco é a ausência de cor e o preto a mistura de todas as cores. Outros, que não, que é precisamente o contrário: o preto é a ausência de cor e o branco a mistura de todas as cores.
O que me interessa agora é apenas salientar o espantoso facto de, contrariamente ao que acontece com todas as cores intermédias, o preto e o branco, sendo cores radicalmente opostas, poderem ambas encaixar em definições igualmente opostas, ou seja, tanto na "ausência de cor" como na "mistura de todas as cores". No fundo, e contrariamente ao que se passa com as cores intermédias, há aqui uma promiscuidade entre o tudo e o nada, uma possível confusão entre uma coisa e o seu contrário.
É por isso que, apesar de gostar muito de fotografia a preto e branco, prefiro muito mais um mundo de múltiplas cores, de múltiplos matizes, um mundo de cores claras, de cores escuras e de cores intermédias, um mundo de cores quentes e de cores frias, um mundo de cores suaves e de cores fortes. Reduzir o mundo ao preto e ao branco é quase sempre um sinal de perigo, de ameaça, de uma percepção do que parece  evidente mas que é marcado pelo tom excessivo do tudo ou nada. Um mundo a preto e branco será sempre um mundo de perigos, arbitrariedades e que esconde a esplendorosa, exuberante e maravilhosamente  ambígua pluralidade do mundo e da vida. 

16 Janeiro, 2012

DECORAR

                                                                  Gertrude Käsebier

Alucinados com o pensamento livre, seduzidos pela reflexão, problematização, inquirição, discussão, pelo cacofónico folclore do debate, fascinados pela liberdade da subjectividade e da opinião, desprezámos o decorar, o saber de cor, o saber pelo coração. Deixámos de decorar poemas para passarmos a analisar poemas porque a análise é um fim em sim mesmo, um ideal de vida, um sinal de inteligência, e a inteligência, como toda a gente sabe, é uma coisa muitíssimo importante.
Decorar um poema é engolir um poema, absorvê-lo na pele para depois sair ao ritmo das mecânicas batidelas do coração. Não se trata de conhecer um poema porque o poema faz pensar e reflectir mas conhecer um poema como se conhece um filho ou um sabor na boca. Nem é saber porque se gosta, uma vez que gostar é como um rio que flui para o mar sem saber porquê.
Reflectir, problematizar, inquirir, discutir, analisar, não é intrinsecamente mau. Nós somos máquinas pensantes e não podemos deixar de pensar. Mas pensar será sempre o resultado visível de uma falha, de uma ignorância assumida. Pensar é uma espécie de gaguejar, um tropeçar mental. Quem pensa sente a cabeça aos solavancos, desejando, por isso, atingir um resultado para poder finalmente não pensar mais nisso. Pensar é  pensar numa resposta para depois sentir o luxo de não voltar a fazer a pergunta. Mas como as respostas nem sempre existem como num manual de instruções de um electrodoméstico, os solavancos, os tremores, os espasmos, nunca chegam a parar.
O ideal seria pensar como quem soletra um  poema decorado ou quem reza  uma oração decorada, mas isso não é possível. Não se pode pode decorar e pensar ao mesmo tempo. Mas também não é preciso passar do tudo ao nada. Deveríamos pensar quando é preciso pensar (como quem consulta o manual de instruções de um electrodoméstico) mas decorar quando se trata de decorar.
Muita coisa há na vida que não é preciso saber porquê. Basta decorá-las. No coração, claro.

15 Janeiro, 2012

GONÇALO M. TAVARES - UMA VIAGEM À ÍNDIA (XIII)


É que se a ligação entre os homens fosse perfeita
não teria existido a necessidade de inventar a linguagem.
Falar é a maneira mais civilizada de marcar
uma distância de segurança; os animais rosnam
entre si, os homens elaboram sobre
o clima e citam autores clássicos. Mas ambas as
acções têm o mesmo efeito.

Canto VI, 32

12 Janeiro, 2012

NO PRINCÍPIO ERA O TEMPO

                                                                  Julia Margaret Cameron

Há insectos que só vivem 24 ou 48 horas. Nascem, vivem e morrem em 24 ou 48 horas, o seu ciclo de vida é de 24 ou 48 horas. As tartarugas gigantes das ilhas Galápagos, por sua vez, vivem em média mais de 150 anos e os elefantes 100 anos. Outros animais vivem 3, 10 ou 30 anos. O homem contemporâneo, em média, morre algures entre os 70 e 80 anos. Pensar nisto é mais importante do que pode parecer à primeira vista. Eu imagino a vida como um filme onde fazemos de nós próprios. E há filmes para todos os gostos e feitios: dramas, comédias, tragédias, filmes de terror, policiais. De momento, não é isto que me interessa mas apenas a duração do filme.
Não pensando agora no cinema clássico, os filmes de 3 ou mais horas não são habitualmente filmes de acção pura e dura. Um filme de acção pura e dura que durasse esse tempo seria profundamente cansativo e desgastante. Os filmes longos têm uma respiração própria, diálogos que vão para além da espuma que rapidamente se dissolve nas frases, com momentos de instropecção, com planos longos, momentos de silêncio. Na literatura passa-se o mesmo. Guerra e Paz tem momentos de acção alucinantes mas, depois, tem páginas e páginas de filosofia pura e dura. Também no Quixote vamos encontrar histórias dentro da própria história, todas elas com um sentido moral ou psicologicamente penetrante, que cortam a continuidade da acção em terras de Castilla la Mancha, cujo centro é o próprio cavaleiro da triste figura.
Isto faz-me perguntar o seguinte: que significa viver 70 ou 80 anos? É muito tempo ou pouco tempo? Ora bem, não vivemos tanto como a tartaruga gigante ou o elefante mas, comparada com as vidas da esmagadora maioria dos seres vivos, é uma vida longa. Talvez isto possa significar que não podemos viver a nossa vida como se de um filme de acção se tratasse. Eu entendo que um insecto seja frenético, ande sempre a esvoaçar. Entendo que um rato, nos seus dois anos de vida, não possa estar muito tempo parado. Mas um ser vivo que vive 70 ou 80 anos, não precisa, nem pode estar sempre em movimento. Neste sentido devemos tomar como exemplo a tartaruga ou o elefante. Uma vida humana, pela sua duração, precisa de pausas, de momentos mortos, de silêncios. A vida humana não é uma vida de acção mas uma vida com acções. São coisas completamente diferentes.
Eu vejo à minha volta pessoas que parecem uns insectos tresloucados, pessoas que vivem como se as suas vidas decorressem num espaço de 24 horas.  Mas irão viver 70 ou 80 anos. É como imaginar uma cabeça de tartaruga num corpo de insecto.

11 Janeiro, 2012

IMUNIDADE



«Escrevia livros tristes para pessoas alegres», dizia Nabokov a respeito de Tchekov. O humor, por essência, é ácido, cáustico, desmistificador, destruidor. Rir é anular a aparente seriedade ou normalidade das coisas, é fazer estalar o verniz que esconde umas unhas doentes ou que disfarça mesmo a ausência de unhas. Rir é despir, desmaquilhar, desligar repentinamente a música de fundo que dá ambiente onde o ambiente pura e simplesmente não existe.
O humor tchekoviano não é assim. Um humor lúcido, claro, pois todo o humor é feito de lucidez, mas, em vez de uma lucidez destruidora, vamos encontrar uma lucidez feita de melancólica bonomia perante a falha, o limite, a presença da ausência, o irónico desencontro com a felicidade. É, por isso, um humor pudico e que olha com respeito para o que é risível pois o que faz rir coincide com o que faz chorar.
Neste sentido é um humor saudável. Nabokov tem toda a razão ao dizer também que só as pessoas alegres conseguem perceber a tristeza dos seus livros. Porque se trata de uma alegria contida, de uma alegria serena perante a iminência da falha, muito diferente, portanto, da alegria do indigente.
Os tristes livros para pessoas alegres de Tchekov fez-me lembrar o facto de um realizador como Woody Allen ter feito um filme profundamente angustiante e dramático como Intimidade (sem esquecer Matchpoint) ou de um realizador como Bergman ter feito um filme cómico como Sorrisos de uma Noite de Verão.
Não será para todos a capacidade de conter a depressiva tristeza com uma lúcida alegria mas também a de conter a torrencial alegria com uma lúcida tristeza. Enfim, a lucidez, tout court, será sempre um díficil e arriscado dom apenas ao alcance de quem olha para vida como um corpo auto-imune.

10 Janeiro, 2012

TERRA DE NINGUÉM

                                    Margaret Bourke-White | Hats in the Garment District, New York [1930]

Tchekov, um homem que constrói três escolas nos arredores de Moscovo para filhos de camponeses, tratando ele, directamente, de todos os processos, que cria um serviço de bombeiros, uma clínica de doenças de pele, um museu de Belas-Artes, que se bate, em Moscovo, pela primeira Casa do Povo, com sala de leitura, biblioteca, um auditório e um teatro, que funda a primeira estação biológica da Crimeia, um homem que, enquanto médico, dá consultas gratuitas aos mais pobres, um homem que planta árvores para as ver crescer e, para além disso, é um dos grandes nomes da literatura universal, escreve, numa carta a Górki:  «Se cada qual, no seu lote de terra, fizesse tudo o que pudesse, que  maravilhosa seria a nossa terra!»
Chega a impressionar a ingenuidade do grande escritor russo. «Se cada qual fizer tudo o que puder?». Acontece que há homens que quanto menos fizerem o que podem fazer no seu lote de terra, tanto melhor para a terra. Quanto mais fizerem, pior, quanto menos fizerem, melhor. Diria mesmo que a terra só teria a ganhar se não tivessem nascido. Porém, a partir do momento em que nascem, queira Deus que ouçamos falar  deles o menos possível. O escritor que me perdoe a possível insolência, mas apenas peço que seja ínfimo o seu lote de terra e esta tão infértil como um bloco de cimento. 

09 Janeiro, 2012

O DESPREZO


Bogart está calmamente sentado perante o tabuleiro de xadrez, aparentemente alheado do que se passa à sua sua volta. Entretanto, Peter Lorre, com o habitual arzinho de réptil nojento, senta-se na sua mesa e começa a puxar conversa. Bogie não lhe liga nenhuma, expelindo apenas uns monossílabos de circunstância. Passado algum tempo, e apercebendo-se da sua insignificância, Lorre não resiste e acaba por perguntar: "Você despreza-me, não despreza?". A resposta de Bogie é magistral: "Se pensasse em si, desprezava-o".
É muito violento ser desprezado por alguém. As pessoas gostam de ser amadas, admiradas, desejadas, elogiadas. Porém, desprezar alguém tem qualquer de paradoxal. Desprezar uma pessoa pressupõe uma dependência face a essa pessoa, tal como o amor ou a paixão. A pessoa que odeia outra está tão dependente dela como se a amasse. Odiar visceralmente alguém significa pensar nessa pessoa de uma tal maneira que acabamos por instalá-la bem dentro da nossa vida e consciência. A pessoa que odiamos está tão dentro de nós como aquela que amamos. E quanto mais a odiamos mais dependentes estamos dela. Com o desprezo passa-se o mesmo. Desprezar alguém pressupõe uma consciência da existência da pessoa que desprezamos, isto é, pensar na pessoa que desprezamos. E pensar numa pessoa é viver com essa pessoa, é fazê-la entrar dentro da nossa vida.
Por isso, a resposta de Bogie é ainda mais violenta. Bogie não despreza o abjecto Lorre porque nem sequer se dá ao trabalho de pensar nele. Se pensasse, desprezá-lo-ia, mas nem sequer perde tempo a pensar nele.  Afirmar que o despreza, representaria um elogio para o desprezado, estaria a valorizar a sua existência. Quando um judeu sente desprezo pela figura de Hitler, isso significa que Hitler é uma figura importante para ele. Para um racista que sente desprezo por pretos, os pretos ocupam na sua consciência um lugar importante.
É neste sentido que o ódio e o desprezo têm tanto de auto-destrutivo como o amor e a amizade têm de  auto-construtivo. Adormecer a pensar em alguém significa adormecer com essa pessoa. Acordar a pensar em alguém significa acordar com essa pessoa. Conduzir, estando a pensar em alguém, significa viajar com essa pessoa. Almoçar, pensando em alguém, significa almoçar com essa pessoa. Passear a pé, pensando em alguém, significa passear a pé, tendo como companhia essa pessoa.
Reservemos esses momentos para as pessoas de quem gostamos ou amamos e não para aquelas que sobre  as quais pensamos ter razões para desprezar. A vida é demasiado curta e não há tempo a perder.

08 Janeiro, 2012

DIAS DE LUZ PERFEITA E EXACTA

Clarence White | Mãe e Filho

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das coisas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

Alberto Caeiro, Poema XXVI


Em dias de luz perfeita e exacta, a linguagem é uma doença, o vírus vindo do espaço, de que falava William S. Burroughs. Um vírus que se instala e reproduz no cérebro para depois se instalar no mundo, não para nos aproximar mas para nos afastar cada vez mais dele. Como um martelo, um alicate ou um abre-latas, a linguagem não passa de uma ferramenta. Vale o que vale. Eu preciso de uma ferramenta para resolver problemas, para encontrar soluções mas, em dias de luz perfeita e exacta, recorrer à linguagem e aos conceitos é como entrar numa loja de ferragens em vez de passear num jardim.
O que significa dizer que uma coisa é bela? O que é a beleza? Dirá Platão que uma coisa é bela, seja uma paisagem, um fruto, uma mulher ou um edifício porque, enquanto vãs e frágeis realidades sensíveis, participam da ideia de beleza. Ideia de beleza que é una, ou seja, não há várias ideias de beleza. Há uma ideia de beleza como há uma ideia de "número" ou de "triângulo".
Muito bem. Mas o que há de comum entre a serra de Sintra, um quadro de Vermeer, uma mulher, uma abadia em ruínas, o segundo andamento do concerto para piano de Ravel ou uma laranja numa fruteira com mar ao fundo? O que há de comum entre a essência vegetal de uma árvore e a essência musical de uma sonata? O que há de comum entre o rosto de uma mulher e um destroço de pedras condenadas pelo peso dos séculos? O que há de comum entre o mar e um insecto que trepa uma flor? Nada. No entanto, reduzimos tudo à categoria de beleza. Mas o que é beleza? Que cor tem a beleza? Que cheiro tem a beleza? Que forma tem a beleza?
Desde Platão que confundimos a estética com a epistemologia. Mas em dias de luz perfeita e exacta, confundir a estética com a epistemologia significa transformar a nossa alma no gabinete de Fausto, feito de ferramentas e de sombras que infectam os dias.
Nada como arejar as casas, sobretudo em dias de luz perfeita e exacta, para combater os vírus que nos põem doentes.

07 Janeiro, 2012

NEM OFICIAIS NEM CAVALHEIROS


Entre um homem e uma mulher nunca poderá existir aquilo a que se convencionou chamar um "acordo de cavalheiros". E não o digo por causa da etimologia, pela ligação de cavalheiro a "cavaleiro" ou "cavalaria", a um ideal de nobreza cuja base é essencialmente masculina. Portanto, se afirmo não ser tal acordo possível, nada tem que ver com a essência masculina de um "cavalheiro" em oposição à essência feminina de "dama". 
O que é um "acordo de cavalheiros"? Trata-se de um acordo no qual, por motivo de honra, educação ou  probidade moral, dois homens se submetem a um código por ambos aceite e partilhado. No fundo, trata-se de um sistema, como a língua ou outra estrutura afim, no qual as vontades individuais se diluem. Nós não falamos português porque desejamos ou decidimos falar português, nós falamos português porque não nos imaginamos a falar outra língua devido ao modo como essa língua está impregnada no nosso "código genético". Do mesmo modo, dois cavalheiros, em virtude da sua educação, do seu carácter, da sua elevação moral, decidem chegar a acordo sobre um determinado assunto, sem necessitarem de papéis, formalizações jurídicas, testemunhas. 
Ora, entre um homem e uma mulher nunca tal poderá acontecer. Não significa isto que não possa haver acordos entre homens e mulheres. Claro que pode, homens e mulheres passam as suas vidas a chegarem a acordo entre si. Acontece, porém, que nunca poderá ser um acordo de cavalheiros. Porquê? Porque num acordo entre um homem e uma mulher nunca haverá a diluição dos seus eus num sistema global que os transcende. Os eus masculinos diluem-se nesse sistema. O eu masculino e o eu feminino, por sua vez, quando frente a frente, serão sempre irredutíveis a qualquer sistema. Um homem, perante uma mulher, será sempre um homem perante uma mulher, uma mulher, perante um homem, será sempre uma mulher perante um homem. Num acordo de cavalheiros, contrariamente ao que se pode julgar, a masculinidade é relegada para segundo plano, sendo substituída pelo ideal de "cavalheirismo". Um cavalheiro é um homem mas um homem não tem de ser necessariamente um cavalheiro. Quando um homem se torna cavalheiro e chega a acordo com outro cavalheiro, o "cavalheirismo" do acordo a que ambos chegam, sobrepõe-se à natural masculinidade de ambos, como se fosse uma segunda natureza.
Entre um homem e uma mulher nunca tal acontecerá. Estaremos sempre no domínio das vontades individuais, da conflitualidade inerente ao dualismo dos géneros e, contrariamente à previsibilidade e mecanicismo do sistema, estaremos inevitavelmente no domínio da imprevisibilidade, do capricho, das arbitrárias  e obscuras movimentações da biologia.

06 Janeiro, 2012

GONÇALO M. TAVARES - UMA VIAGEM À ÍNDIA (XII)


Bloom fala, escreve, ouve, é um facto,
mas tem também dois olhinhos:
gosta de ver uma mulher que se despe,
um homem que salta, o animal que corre com medo,
a trovoada e a chuva forte (quando as vê dentro de casa),
gosta, enfim, de estar vivo,
desde que, claro, o próprio corpo, esse estúpido,
não o moleste.

Canto V, 100

05 Janeiro, 2012

AQUILES SEM TARTARUGA


A relação entre a velocidade e a abertura é um dos elementos básicos da fotografia. É com base nessa relação que tanto é possível fabricar corpos arrastados no espaço (por exemplo, o rasto fantasmagórico de uma pessoa em movimento ou, de noite, os faróis de um carro numa linha contínua) como, em sentido contrário, congelar um corpo em movimento.
Nascido em 1903, Harold Edgerton foi o grande pioneiro desta última técnica, graças ao uso da luz estroboscópica. São célebres as suas imagens de uma bala congelada no ar no momento em que atravessa uma maçã ou uma gota de leite a salpicar quando bate no fundo. Em 1987, três anos antes de morrer, a National Geographic dedica-lhe um artigo: "The man who made time stand still".
Eu fico fascinado com esta imagem da bala parada e da explosão da maçã. E não penso especialmente no seu belíssimo efeito estético. Refiro-me exactamente à possibilidade de assistirmos a um fenómeno físico imperceptível a olho nu devido a condicionalismos de natureza temporal: a velocidade.
Mas o que é fascinante na percepção que temos de uma maçã rasgada por uma bala, assim como da bala que rasga a maçã, tornar-se-ia um pesadelo se pudéssemos congelar mentalmente os fenómenos dos quais são feitas as nossas vidas. As nossas vidas são feitas de construções mas também de destroços, explosões, desperdícios, vácuos, pequenos nadas. Se pudéssemos assistir, mentalmente, a tudo isso, a vida seria insuportável.
Em 1963, Andy Warhol realiza um filme (Sleep) que consiste apenas em filmar o seu amigo John Giorno enquanto dorme. Uma sequência de 5 horas e 20 minutos em que apenas se vê um homem a dormir. Nada em Warhol me fascina e ainda menos este filme. Mas se nós víssemos a vida nesta escala microscópica, passo a passo, milímetro a milímetro, átomo a átomo, não só não seria fascinante como também distópico. Um horror, portanto. E um horror porque, na vida, os vazios são tão importante como a plenitude, os espaços em branco tão importantes como os espaços ocupados, os silêncios tão importantes como os sons, os esquecimentos tão importantes como as memórias, a velocidade artificial das coisas tão importante como a verdadeira escala temporal em que elas acontecem.
Felizmente, não temos a capacidade mental de uma máquina fotográfica. Uma imperfeição que, como tantas imperfeições humanas, é um verdadeiro luxo.

04 Janeiro, 2012

GONÇALO M. TAVARES - UMA VIAGEM À ÍNDIA (XI)


As árvores, por exemplo, toleram bem o tédio:
praticamente nada acontece no reino vegetal de uma floresta,
e não é por essa razão que as exaltações guerreiras
se multiplicam. O homem
-  disse o velho - deveria aprender a imitar
o ímpeto lento das árvores
que sem serem vistas e jamais parando, sobem sempre.

Canto VI, 49

PARÁBOLA ESPECIALMENTE INDICADA PARA UM NOVO ANO QUE COMEÇA E MAIS OS QUE HÃO-DE VIR


                                                                    Henri Cartier-Bresson

Toda a gente se lembra. Depois de uma má campanha na fase de apuramento, a Dinamarca falha a qualicação para a fase final do campeonato da Europa de 92. Entretanto, devido a sanções políticas por causa da guerra, a selecção apurada, a Jugoslávia, ficou impedida de participar no torneio, tendo então a Dinamarca sido repescada à pressa.
Os jogadores preparavam-se para gozar férias. O treinador viria a confessar que, no momento em que soube do imprevisto apuramento, andava ocupado com a remodelação da cozinha lá de casa. Michael Laudrup, a vedeta da equipa, em rota de colisão com o treinador, decidira abandonar a equipa. E contrariamente aos longos e tecnicamente preparados estágios das outras equipas, tiveram apenas duas semanas de preparação.
Foram campeões europeus, tendo, na final, derrotado a poderosa Alemanha por 2-0, depois de terem eliminado a poderosa Holanda nas meias-finais. Uma lição.

31 Dezembro, 2011

O TEMPO REENCONTRADO

                                                         William Henry Fox Talbot | Auto-Retrato

«Reform, reform, reform. Aren't things bad enough already?» Foi este desabafo de um dos duques de Wellington que enviei aos meus amigos e outras pessoas mais chegadas no tradicional mail de votos de um bom ano. Ironia das ironias, trata-se de uma frase conservadora com um conteúdo profundamente revolucionário, contrariamente a outras frases revolucionárias que, hoje, se tornaram escandalosa e repugnantemente conservadoras. Na 11º tese sobre Feuerbach, lamentava o revolucionário Karl Marx que, até ali, os filósofos se tinham apenas limitado a interpretar o mundo mas o que verdadeiramente importava era transformá-lo. Esta frase tão revolucionária, hoje, tornou-se um pesadelo. Apetece dizer que o mundo hoje está tão transformado que, o que verdadeiramente importa é pará-lo para o poder interpretar.
É neste sentido que a frase em cima apresentada contém, nos nossos dias, e neste simbólico momento de entrada num novo ano, um valor inestimável, devendo estar sempre presente nas consciências de todos. Seja na política, na economia, no trabalho, e em particular na escola (a minha área) mas também nas nossas vidas pessoais, no modo como pensamos o mundo. 
Existe hoje um ímpeto transformador que, visto por si mesmo, não traz nada de bom. Transformar por transformar não tem qualquer valor. A modernidade só pela vaidade da modernidade é absolutamente vazia. Há coisas  boas que se conservaram durante séculos ou anos e que, hoje, facilmente são postas em causa. Coisas que se conquistaram e conservaram precisamente porque são boas. A felicidade não é boa por nós gostarmos dela. Pelo contrário, gostamos dela precisamente porque é boa. Seria bom ter sempre isso presente e, como Aristóteles, há muitos e muitos séculos atrás, continuarmos a reflectir sobre ela em vez de nos enterrarmos cada vez mais no que dá cabo dela. Como lembra o escritor Gonçalo M. Tavares, parafraseando Hans Christian Andersen, pede-se às pessoas para rezarem e estas apenas sabem cantar a tabuada.
Bom 2011, ups, enganei-me, bom 2012.

30 Dezembro, 2011

NARCISISMO MATINAL

                                                                           Caravaggio

Pessoas há que têm dificuldade em enfrentar o espelho matinal com o rosto ainda com restos de sono. Lembro-me de, numa entrevista, António Lobo Antunes dizer que o pai tirava os óculos para fazer a barba para não ver nitidamente o rosto deformado por horas de sono, apenas o branco puro e imaculado do creme de barbear.
Podemos ver um anti-Narciso em todo aquele que recusa ver o seu rosto no espelho matinal. Narciso é precisamente aquele que adora contemplar-se, alheando-se da contemplação de todos os outros rostos. Mas é exactamente o contrário. Recusar-se a enfrentar o seu próprio rosto continua a ser um acto de enorme narcisismo. Só recusa ver o seu rosto aquele que quer muito ver o seu rosto mas sabe que não vai encontrar o rosto que desejaria. Amar-se a si mesmo não é mais narcisismo do que sofrer por não poder amar uma parte de si que não existe.

29 Dezembro, 2011

DE OLHOS BEM FECHADOS

                                                                      Julia Margaret Cameron

Houve tempos em que para mim era importante saber se uma pessoa era de esquerda ou de direita, se era religiosa ou ateia, se lia Marx ou Corin Tellado, se era apreciadora de arte holandesa ou de telenovelas mexicanas, se era egiptólogo ou costureirinha da sé. Nos meus 20, 30 ou 40 anos, acreditava serem  importante critérios para, como animais que farejam mais do que pensam, nos podermos orientar em relação aos outros.
Hoje, aos 50 anos, já nada disso me interessa. A verdade de uma pessoa começa no momento em que fecha os olhos para adormecer. Nós somos o que dormimos. Ou, como diria o bardo inglês, somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos.
O sono não tem ideologia, religião, mentalidade, moral ou profissão. Acordar é apenas regressar diariamente ao palco onde, como actores cómicos ou dramáticos, conhecemos de cor o papel que iremos desempenhar. 

28 Dezembro, 2011

PIERRE MENARD REVISITADO

      

Ontem, depois de 11 meses sem saber dele, voltei a encontrar o D. Quixote que, neste caso, não andava perdido pelos campos de Castilla La Mancha mas, algures, numa qualquer arca perdida em Torres Novas. Isto, dito, assim, pode não querer dizer nada mas quer dizer muito e irei explicar porquê.
Muito antes de ter lido o D. Quixote eu fiz várias tentativas para o ler sem nunca chegar a consegui-lo. Tentei uma versão e não consegui, tentei outra versão e também não consegui. Até que compro uma outra edição, aliás, simples e barata, com tradução e notas de José Bento. Comecei a ler e já não consegui parar, tendo, no fim, tomado a decisão de ser aquele o livro da minha vida.
Ora, eu tenho o hábito de sublinhar os livros, incluindo romances. Acontece que, como não poderia deixar de ser, eu tenho o Quixote bastante sublinhado, relendo muitas vezes essas inúmeras passagens, coisa tão importante como tomar um bom banho de mar, fazer uma caminhada bem cedo de madrugada ou comer chocolate. Uma coisa muito física, quase vital.
Apesar de continuarem em minha posse as outras duas edições, cheguei a ponderar comprar de novo a edição perdida. Mas não era o livro que eu queria. O que eu queria era o livro sublinhado por mim. É o mesmo livro mas não é o mesmo livro. Há uma enorme diferença entre o livro virgem e o livro sublinhado por mim. O livro virgem é o livro escrito por Cervantes e publicado em 1605 (primeira parte) e 1615 (segunda parte). O livro sublinhado, por sua vez, é o livro escrito com a mão de Cervantes e escrito com os meus olhos.
Se eu fosse um Orlando ao contrário e, em vez de caminhar imortalmente do passado para o futuro, caminhasse do futuro para o passado, podendo reprotagonizar a escrita de um livro para ser lido no futuro, teria parado no momento em que Cervantes se prepararia para escrever o Quixote. Compreender que o Quixote é o livro da minha vida significa igualmente compreender que o Quixote é o livro em que absolutamente coincidem a cabeça do escritor e a cabeça do leitor que sou eu, o livro cujo momento de leitura coincide absolutamente com o momento da escrita. E, como diria Pierre Menard a Borges «antes de tudo um livro agradável» e não «uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão e talvez a pior». Ou seja, o livro em estado de puro no atelier  mental do pintor, tal como um quadro de Velasquez acabado de pintar na caótica e suja oficina do pintor.
Tê-lo reencontrado foi como ter reecontrado um livro escrito por mim. Dito de outra maneira: foi como ter reencontrado uma parte de mim, algures perdida por aí. Não a glória, claro está, apenas uma parte agradável de mim, aquela de que sempre gostei e continuarei eternamente a procurar.

27 Dezembro, 2011

NIETZSCHE C'EST MOI


O Passado Remoto é uma belíssima autobiografia de Giovanni Papini que começa da seguinte maneira:
«Este livro não é nem pretende ser uma autobiografia. Aqueles que se põem a contar a sua vida de fio a pavio, desde os primeiros passos, julgam-se personagens muito importantes na cena do mundo e, ao mesmo tempo, dão já por encerrada e concluída a sua obra. Não tenho nem esta modéstia nem aquela pretensão. Este livro, muito pelo contrário, é um livro de recordações pessoais, mas onde a primeira pessoa comparece, por simples necessidade de narração, somente para apresentar as figuras e os factos das terceiras pessoas. É, pois, uma recolha de testemunhos: testemunhos sobre certos acontecimentos ou figuras que observei nos mais verdes anos da minha vida e, principalmente, testemunhos sobre homens que conheci. Uns e outros propõem-se contribuir para o conhecimento dos diversos aspectos, humores, gostos, pensamentos e costumes de um período (1885-1914) que, hoje, depois das guerras e das revoluções que têm alterado a feição da Europa, bem pode chamar-se "remoto". Se em algumas destas recordações apareço como protagonista ou quase protagonista, mantém-se todavia firme o propósito de revelar certos motivos ou tonalidades daquela época distante».

Chega a ser perturbadora esta espécie de modéstia ou ingenuidade em alguém que pretende descrever descentradamente um período histórico do qual fez parte. Entendo esta quase vergonha em se assumir como protagonista mas é um processo inevitável em qualquer descrição do mundo que não se apresente formal e tecnicamente como científica. Porque o mundo e, particularmente, a história, por muito objectivamente que o queiramos descrever, é sempre engolido pelo protagonismo de quem o descreve. O mundo, na cabeça de um vulgar e anónimo soldado russo em Borodino, está todo ele na cabeça desse soldado russo. Neste sentido, cada ser humano funciona como uma espécie de escafandro ao contrário: o nosso equipamento mental não serve para impedir o mundo de entrar em nós mas precisamente para impedir que o mundo saia de nós depois de nele ter entrado.
É sintomático o modo como Papini inicia a sua (supostamente falsa) autobiografia. Faz uma longa viagem até à sua infância, até um remoto dia de sol de Inverno na sua Florença natal, durante um passeio levado pela mão da sua mãe. Entretanto, em frente a um hotel da cidade, passam por ele dois estrangeiros, tendo um deles, homem com "ar grave e um pouco triste", parado para acariciar, com afectuosa delicadeza, os seus caracóis loiros. Assume o escritor: «Por muito tempo ficou em mim a estranha imagem daquele homem de grandes bigodes, que me tinha olhado e afagado, tanto mais que semelhantes gestos de admiração me eram dirigidos quase sempre por mulheres». Esse homem era Friederich Nietzsche que, viria o escritor italiano, anos depois, a confirmar, tinha sido convidado pelo director desse hotel para passar uns dias em Florença.
Neste capítulo, Papini fala sobre Nietzsche ou fala sobre si próprio? Claro que é sobre si próprio. Nietzsche, aqui, é obviamente ele próprio. E é sempre ele próprio mesmo quando fala do exército italiano, de Roma, de Marinetti, do olhar de Lenine ou do regicidio. Papini, o escritor da História de Cristo, foi afagado pelo escritor do Anticristo. Tudo o que nós escrevemos, escrevemos, porque fomos afagados pelo mundo que nos fez como somos para, dentro do nosso escafandro, nunca mais lá regressarmos.

GONÇALO M. TAVARES - UMA VIAGEM À ÍNDIA (X)


Mas nesta oportunidade falemos ainda dos Deuses
ou do Destino.
É evidente que as formigas trabalham mais
que os Deuses:
senão qual a utilidade de ser coisa divina?
Quem acreditaria em milagres, se um Deus,
mesmo que mal colocado na hierarquia,
trabalhasse das nove às cinco?
Decididamente, os Deuses já começam a vida
inertes e preguiçosos.

Canto II, 23