22 Maio, 2013

O PODER DA REALIDADE

Garry Winogrand | Coney Island [1952]

"When things move, I get interested" Garry Winogrand

Num excelente livro sobre Espinosa (Espinosa e os Signos), Deleuze apresenta o filósofo holandês como alguém que propõe um novo modelo: o corpo. "Não se sabe o que pode um corpo", eis a famosa frase da Ética, obra onde o corpo é pensado e valorizado como até ali não se tinha visto. E remata com Nietszche para mostrar todo um território que embora debaixo dos nossos olhos, está ainda por explorar e valorizar: "Espantamo-nos diante da consciência, mas o que é surpreendente é, acima de tudo, o corpo". E pronto, chega de citações pois tudo o que é demais parece mal nem eu quero parecer o eng. Sócrates numa devairada narrativa de citações.
Estive a rever as fotografias de Garry Winogrand e sem querer lembrei-me de Espinosa. Neste caso, não para dizer que "não se sabe o que pode um corpo" mas para dizer que "não se sabe o que pode a realidade". Winogrand é um fotógrafo da rua. Não da mesma rua, por exemplo, de Doisneau ou Elliot Erwitt, irmãos na construção de um humor e insólito encenados, não da mesma rua, por exemplo, de Lewis Hine ou Dorothea Lange, fotógrafos que, também na rua, vão à procura de um determinado tipo de actores sociais, ou até da mesma rua, por exemplo, de Cartier Bresson, Brassäi ou do nosso Gérard Castello Lopes, em cujas fotografias de rua encontramos, para além do "instante decisivo", uma indisfarçável depuração estética. É verdade que existe "instante decisivo" em Winogrand. Mas trata-se de um "instante decisivo"mais humilde, no sentido em que se dirige para um domínio ainda mais sub-atómico e invisível do real, um domínio que aparentemente não existe para ser visto.
Nós olhamos para fotografias como estas


e a reacção imediata poderá ser: "Caramba, mas que raio há aqui de tão especial e digno de ser visto?" Reacção normal uma vez que estamos apenas a ver o que já vimos, o que estamos habituados a ver, sendo por isso escandalosamente familiares. Dará até vontade de dizer a clássica frase quando se está perante a escanifobética simplicidade de muitas pinturas modernas: "Grande coisa, isto também eu fazia".
Porém, as coisas são um pouquinho mais complicadas. Se eu agora sair para as ruas de Torres Novas e começar a disparar a torto e direito, muito provavelmente o que disso irá sair será absolutamente desinteressante. Não basta tirar fotografias ao que aparece espontaneamente para que a fotografia se torne interessante. Para que tal aconteça, para que o "instante decisivo" aconteça, é preciso haver uma conjugação certa e única de elementos, ainda que simples e aparentemente desinteressantes.
Diz Winogrand que se interessa por tudo o que mexe. Mas há mexer e mexer. No seu caso, trata-se de registar momentos únicos no espaço e tempos certos, impedindo que fiquem submergidos pela espuma dos dias. O que pode a realidade? Nunca se sabe o que pode a realidade. Nós julgamos conhecer a realidade mas estamos já tão viciados nela que deixamos de a ver. E o que o fotógrafo faz é precisamente obrigar-nos a ver o que já deixámos de ver e a espantarmo-nos com o que pode a realidade, tal como Espinosa ou Nietzsche se espantavam com o que pode um corpo.

21 Maio, 2013

MALDITA CELULITE


Julia Margaret Cameron | Estudo Alegórico [1865]

Num anúncio a um creme vem a frase: "Adeus celulite! Olá corpinho." A brincar a brincar, a frase apresenta uma certa complexidade ontológica. Estará a celulite para o corpo como a cor para o carro ou o estar sentado para um ser humano? O carro é sempre carro independentemente de ser branco, azul ou cinzento. Um ser humano é sempre humano, esteja sentado, em pé, deitado ou de cócoras. A cor branca do carro ou o estar sentado são por isso acidentes. Se nós tivermos um carro branco e o pintarmos de cinzento, o carro continua a ser o mesmo. Não vamos dizer que temos outro carro só porque mudou a sua cor uma vez que não é a cor que dá identidade ao carro. Se assim fosse, diríamos que um carro branco e um frigorífico branco teriam a mesma identidade, ideia que seria naturalmente estúpida, e mesmo sabendo que estupidez é coisa que não falta por aí, ninguém iria cair nessa.
Ora, de acordo com a frase do anúncio, a celulite, embora estando no corpo, não faz parte do corpo, tal como fazem os ossos, os músculos ou a pele. Não concebemos um corpo humano sem ossos. É verdade que há animais que não têm ossos mas chamam-se borboletas, aranhas ou berbigões e não Manuel Germano. Por isso, jamais seria possível um anúncio que dissesse "Adeus ossos! Olá corpinho". Mas de acordo com a lógica do anúncio a celulite será qualquer coisa que esconde o corpo, que o dissimula e cujo desaparecimento permitirá mesmo uma aparição do corpo na sua autenticidade. Se dizer adeus à celulite permite dizer olá ao corpo, é porque ao contrário do corpo com celulite, que é um corpo inautêntico, o corpo sem celulite é o corpo, o verdadeiro, autêntico, genuíno, o corpo em sim mesmo.
Podemos colocar o mesmo problema num plano moral. Uma antropologia pessimista dirá que o mal faz parte da natureza humana. Está entranhado em nós como uma nódoa de azeite na toalha ou o erro na cabeça de Vítor Gaspar. Uma antropologia optimista, por sua vez, defende que o mal é um acidente, resultado de certas condições negativas, mas que sendo anulado fará emergir a nossa verdadeira natureza, o ser humano na sua autenticidade. O mal seria assim uma espécie de celulite da alma, uma coisa que está a mais e que só surgiu porque houve condições para isso. Neste sentido, acredita-se que um dia se possa dizer "Adeus mal! Olá ser humano".
Eu acho a ideia bonita. Só queria era saber onde se podem arranjar cremes para a alma. 

20 Maio, 2013

MINDBOAT


Se há dias me perguntassem se eu tinha visto o Lifeboat, eu teria respondido que sim. Sim, que vi, que conheço, que é integralmente passado num bote salva-vidas, à deriva no Pacífico, no qual vários homens e mulheres, sobreviventes de um naufrágio, vão manifestando as suas humanas naturezas. Mas 20 anos é muito tempo, a minha memória está muito longe de ser perfeita, e já nada mais saberia a seu respeito. Não me lembrava de nenhum rosto, de nenhum diálogo específico, de nenhuma situação concreta passada no filme. Nada, apenas uma névoa enorme.
Mas Lifeboat era um dos filmes que faziam parte do meu catálogo de filmes vistos, um filme alojado na minha consciência enquanto filme conhecido, num plano diferente, portanto, dos milhares de filmes que nunca vi e assumo ignorar. Filmes que estão fora da minha consciência, ainda que saiba os seus nomes e respectivas sinopses. Por exemplo, eu nunca vi um filme chamado American Pie mas sei que existe e basta uma rápida consulta para saber em que consiste. Mas não posso dizer que o conheço pois, ao contrário de Lifeboat, nunca o vi. 
Entretanto, voltei a rever o Lifeboat. E foi ao revê-lo que tive bem a noção do que pode ser a diferença entre a consciência e a ilusão da consciência, entre o saber e a ilusão do saber, entre ideias claras e distintas e ideias confusas ou obscuras, e o modo como tantas vezes nos enganamos a nós próprios e aos outros. Revi o filme, 97 minutos de filme. Agora sim, tenho na minha consciência as sequências do filme, como começa e como acaba, as personagens e os seus rostos ou até algumas vozes. Sei caracterizar cada uma delas, conheço as suas personalidades, as suas formas de estar na vida. Em suma, posso agora dizer não só que vi o filme mas que conheço o filme.
Porém, já antes dizia que o conhecia só porque o tinha visto. Mas será que conhecia? Não, o meu conhecimento dele estaria precisamente ao mesmo nível do meu conhecimento de American Pie, que nunca vi, mas cuja sinopse eu tinha lido. O que diria eu? Que conheço Lifeboat, porque vi. Que não conheço American Pie, porque nunca vi. Porém, o que eu teria para dizer sobre o primeiro estava precisamente no mesmo registo de consciência do segundo. Quem me ouvisse falar de ambos iria pensar que a minha relação com eles seria igual. O meu discurso a respeito de um seria idêntico ao meu discurso a respeito do outro.
Provavelmente é também isto que se passa com muitos dos nossos pensamentos. Pensamos sobre isto e aquilo, falamos sobre isto e aquilo que julgamos conhecer e dominar na nossa consciência. Porém, quantos desses pensamentos não se baseiam em ideias obscuras, esquemas mentais estereotipados, raciocínios ou ideias feitas mecanicamente desenvolvidas a partir de causas que acabamos por desconhecer? Porém, falamos, opinamos, discutimos, criticamos, avaliamos.  Quantas desses processos mentais não passarão de breves sinopses de verdades completamente fora do nosso alcance, sinopses que se formam nas nossas cabeças sem sabermos muito bem como e porquê?

19 Maio, 2013

LA LA LA


Coisa estranha ver uma notícia como esta. Ter sido ontem o festival da Eurovisão e não saber de nada. Uma boa oportunidade para compreender como é implacável a história e em tão pouco tempo se muda de um mundo fechado para um universo infinito. 
Como explicar actualmente a um garoto que ouve música num pequeno gadget com centenas de canções misturadas e que tem 24 horas de MTV por dia e milhares de vídeos no youtube, a importância que tinha um programa como Quando o Telefone Toca, para o qual as pessoas telefonavam para ouvirem uma canção, nomeadamente, as que concorriam aos festivais? Como explicar o significado de comprar um single apenas para poder ouvir uma canção num gira-discos? Como explicar a recepção a Simone de Oliveira em Santa Apolónia como heroína nacional depois de ter ficado em penúltimo lugar com a sua Desfolhada, para compensar a tremenda injustiça da votação? E como explicar que as famílias se juntavam ao sábado à noite para assistirem aos festivais como hoje se juntam para ver uma final de futebol, roendo as unhas enquanto se ia ouvindo os 6 pontos dados pelo Reino Unido, os 4 do Luxemburgo ou que os nuestros hermanos fossem simpáticos com os vizinhos do lado, apesar dos Quarenta Conjurados?
Explicar, explica-se. Explica-se mas não se compreende. Ou melhor, compreende-se como se compreende um laço de vassalagem na Idade Média, uma revolução em Inglaterra no século XVII ou em França no século XVIII, o casamento no Antigo Regime ou a ascensão de Hitler ao poder. Quer dizer, não se compreende. Pensa-se que se compreende mas não se compreende.
Na canção que se pode ouvir em cima, a esforçada cantora espanhola da canção vencedora desse anos, cantarola a frase La La La 138 vezes. 138 vezes na canção. Mas milhares de vezes na rádio, nas bocas das pessoas cantarolando na rua, na cozinha, a conduzir o automóvel. Neste mundo fechado tudo era simples como um La La La repetido à exaustão. Um mundo ainda longe de um universo infinito cujo centro não está em parte alguma, onde não há centro nem periferia pois tudo está em tudo e tudo coexiste num mesmo labirinto sem que muitas vezes se cheguem a encontrar.

18 Maio, 2013

A MODERNIDADE

Bruce Mozert

Não há muitas coisas que me irritem. Mas há algumas. Uma delas é a ideia de "modernidade", ideia tão usada e abusada. Não é o facto de existirem coisas modernas. Vendo bem, são as coisas modernas que fazem a história e a história é uma coisa boa pois se não fosse ela ainda andávamos a esconder o fogo uns dos outros e a tocar tambores à sua volta, assim tipo jovens alternativos nos festivais de Verão.
Tales de Mileto, Aristóteles, Guilherme de Ockham, Roger Bacon, John Locke, Voltaire, Montesquieu, Marx ou Wittgenstein foram modernos. Hipátia de Alexandria, Hildegard von Bingen, Heloísa, Sofonisba Anguissola, Ana de Castro Osório, Rosa Parks ou Coco Chanel foram modernas. Giotto, Caravaggio, Monet e Picasso foram modernos. Dante, Cervantes ou Virginia Woolf foram modernos. Monteverdi e Stravinski foram modernos. Tanto as catedrais góticas como a torre Eiffel foram modernas.  Passar a ver a lua com um telescópio ou andar a cortar cabeças em França em 1792 foram coisas modernas. Se as coisas modernas fizessem barriga como a cerveja já a história teria uma pança como a de Pantagruel.
Ser moderno não é mais do que o modo como as coisas passam a ser em oposição àquilo que eram. Portanto, por razões óbvias, nada tem de irritante. Bem até pelo contrário quando se dá o caso, aliás frequente, de as coisas anteriores serem piores do que as novas. O que é irritante é termos cristalizado o conceito de moderno, dando-lhe um sentido contemporâneo, ou seja, fazendo com que a ideia de "modernidade" associada ao século XX acabasse por anular a naturalidade e espontaneidade de tudo o que foi, é e será moderno ao longo dos tempos. Ora, isto é de um tremendo narcisismo histórico. Como se o umbigo da história estivesse bem centrado no nosso tempo. O século XX esteve cheio de coisas modernas, todas elas, entretanto, envelhecidas ou já mortas.
Umas das vantagens de nos vermos em fotografias antigas é aprendermos a ver a efemeridade de tudo. Por exemplo, vermos agora as calças que vestíamos e os cortes de cabelo que usávamos em 1974, ou os enchumaços nos ombros que faziam as mulheres dos anos 80 parecerem gladiadores romanos, faz-nos muitas vezes sentir  ridículos e envergonhados com as tristes figuras que fazíamos. Mas na altura era tudo moderno, criando-se a ilusão de que o que éramos era como deveria ser e só poderia ser, anulando tudo o que tinha sido. Como se tudo começasse de novo e nada tivesse existido antes disso.
E o mesmo se passa com tudo. Psicanálise, marxismo, fenomenologia, existencialismo, estruturalismo, pós-modernismo, fenómenos sociais, tecnológicos económicos, políticos, revoluções, movimentos culturais, ícones, personalidades, eu sei lá, tudo e mais alguma coisa que fez a tão afamada modernidade contemporânea e deixou tanta gente excitada durante uns breves minutos históricos.
A história tem coisas imprevisíveis mas outras há que não falham. Uma delas é que tudo o que é novo irá um dia submergir. Excepto, talvez, a própria ideia de modernidade, que parece ter vindo para ficar, tornando-se uma obsessão futura. Nesse caso, paradoxalmente, a modernidade passará mesmo a existir. Como? Sendo moderno, estar obcecado pelo moderno. Ser moderno é ser moderno. Assusta-me dizer isto, mas talvez  Marinetti possa ter tido alguma razão.              

17 Maio, 2013

ADAGIO MA NON TROPPO

Nikolai Bakharev

Estava eu a escolher laranjas na secção de frutas do supermercado quando começa a sair dos altifalantes o Adagio for Strings do Samuel Barber. Neste caso, não para cordas mas para sintetizador. Sintetizador do qual emanava um efeito sonoro assim entre o gasoso e o pastoso. Não faço ideia do que possa ser um efeito sonoro entre o gasoso e o pastoso mas é a única coisa que me vem à cabeça para tentar explicar o que possa ser o Adagio for Strings expelido por um sintetizador.
De início, senti um certo desconforto com esta versão sintética ali perdida naquele também sintético mundo de detergentes, refrigerantes e pudins instantâneos. Depois, já mais conformado, comecei a pensar que os ouvidos não são todos iguais e que se os cães e os gatos se dão bem na terra, os peixes preferem a água e as aves dão-se bem pelo ar. Isto dito assim fica com um ar um bocadinho esotérico, por isso acho melhor explicar o significado deste meu tão profundo pensamento que mais parece um fragmento pré-socrático da dupla Diels/Kranz.
Há já uns bons anos fui com os meus filhos a Lisboa para ouverem (Olá, José Duarte) uma versão infantil da Flauta Mágica. A música era pavorosa, uma coisa assim também cheia de sintetizadores, e confesso que de belo canto nada ouvi, apenas umas vozes que tanto podiam estar a cantar aquilo como o Sobe Sobe, Balão Sobe. Mas era a música certa para os ouvidos certos. Impingir a verdadeira Flauta Mágica àquelas inocentes criaturas seria pior do que obrigá-las a trocar uma taça de Chocapic por uma sopa de espinafres.
Este ano eu estou a dar uma disciplina que é assim um cocktail de várias disciplinas. As últimas aulas foram dedicadas à família e resolvi passar um filme que pode servir como ponto de partida para analisar as relações familiares. O filme é mau. Não muito mau, mas mau. Mas os alunos gostaram bastante e contribuiu para os ajudar a perceber certas coisas. Ora, eu podia ter passado um dos vários filmes do Bergman que também podem servir de ponto de partida. Mas se é verdade que os filmes são feitos para as pessoas, há pessoas que não foram feitas para certos filmes. Por isso há que pensar no objecto certo para o sujeito certo.
Um supermercado não é o Grande Auditório da Gulbenkian e a maior parte das pessoas que vai aos supermercados nem faz ideia do que possa ser o Grande Auditório da Gulbenkian ou até sequer o Gulbenkian. Tenho a certeza de que para quem está habituado a elevados frémitos auditivos com o Tony Carreira ou a Céline Dion, ouvir uma versão plastificada do Adagio for Strings já será um momento de grande arrojo musical. Trata-se de uma tremenda impureza melómana? Trata-se. Mas o mundo é o que é, os ouvidos são o que são e as escravas trácias também têm direito aos seus grandes momentos de plástica erudição, algures perante uma embalagem de Tide, um gel de banho ou uns rissóis de camarão congelados.

16 Maio, 2013

SOPA IMAGINÁRIA

André Kertész

Duas pessoas vêem na televisão o meteorologista a dizer que nessa manhã está a chover na sua terra. Ambas vão à janela para confirmar, vendo, todavia, um belo dia de sol e céu azul. Uma, irá achar que foram os serviços da meteorologia que se enganaram. Acontece. A outra, pelo contrário, irá achar que os serviços da meteorologia estão certos e que a realidade é que se enganou. E apesar do sol e céu azul, sai à rua com chapéu de chuva.
Isto, dito assim, tem um ar caricatural com alguma parvoíce à mistura. Mas falando agora a sério apetece dizer que na vida quase sempre prevalece a segunda pessoa. A maior parte de nós forma uma estrutura mental que faz de base bem trituradinha. Atira-se depois um molho de ideias feitas, uns raminhos de preconceitos e meia dúzia de crenças e, depois de tudo bem cozido, fica a sopa prontinha para comer.
A realidade? Somos nós que decidimos, não o que é a realidade mas o que a realidade deve ser. Se metemos na cabeça que chove quem julga a realidade que é para me querer provar o contrário?

15 Maio, 2013

NATURA DESNATURATA


A minha 4L morreu.
A minha 4L morreu e tornei-me um homem diferente. Eu sei que parece estúpido pois um carro não passa de um carro e eu nem sequer sou pessoa para ligar a carros, ainda para mais velhinho e cansado. Sempre vi os carros como meros meios de transporte que apenas servem para levar uma pessoa do sítio X para o sítio Y. Parece assim estúpida esta minha tristeza, não por perder um carro enquanto objecto útil, útil tal como são úteis uma ventoinha ou um berbequim, mas por ser a minha 4L. Logo eu, que nunca fui dado a fetichismos, do género de andar a lamber sapatos e a cheirar soutiens, ou sequer apanhado pelo fetichismo de qualquer mercadoria. Marx e Freud comigo não se safavam.
Por isso dediquei-me a reflectir sobre esta minha estranha reacção. Lá bem dentro do nevoeiro dos meus pensamentos lembrei-me que um dos textos das Mitologias, do Barthes, é sobre o o automóvel. Aquele em que ele diz que o automóvel é o equivalente das antigas catedrais góticas. Por isso fui relê-lo. Só que ele faz uma análise semiótica e sociológica do automóvel e isso nada tem que ver com a minha 4L. A minha 4L não é um carro, é a minha 4L.
O que acontece com a minha 4L é que ela sou eu. Não é uma criatura que me pertence tal como me pertence este teclado onde escrevo, ou o mundo é criatura de Deus. Deus fez o mundo mas Deus não é o mundo, criador e criatura são duas entidades separadas. A minha 4L não é uma criatura pois eu e ela formamos um todo, uma mesma substância em que eu sou o pensamento e ela a extensão. A minha 4L é um objecto, não tem consciência de si, nem sequer consciência do mundo. É um objecto inanimado. Mas um objecto inanimado que faz parte da minha identidade, ela sou eu mas sem saber que sou eu. Não tem consciência de si mas eu tenho consciência dela enquanto consciência de mim. Quando eu me penso, penso-me também através dela. Porque a minha 4L é muito mais do que um carro: é uma parte da minha vida, uma exteriorização de mim no espaço e no tempo, sendo eu também a minha 4L enquanto consciência dela em mim.
Foram 20 anos em que mais do que sermos um do outro fomos uma unidade. Eu posso vir a comprar um Mercedes classe C, um BMW série C, um Audi A6, quiçá, até um Fiat Uno de 1985 com 400 000 km. Mas, sendo meu, nunca será o meu carro mas a minha 4L porque não é um meu de posse mas um meu ontológico. Sei que hoje já sou uma pessoa diferente. É como se o Deus de Espinosa ficasse sozinho a olhar-se ao espelho. Não sei para onde vou, sei que não volto a andar nela. Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida. 

14 Maio, 2013

XAROPE PARA A FELICIDADE

Jane Bown

Soube de uma oficina de expressão dramática/teatro, destinada a crianças entre os 6 e os 12 anos. Até aqui tudo bem, acho a ideia gira. Mas o texto de apresentação é verdadeiramente assustador:

Esta oficina visa melhorar o nosso mundo de amanhã a partir dos mundos das nossas crianças de hoje.
Com esta oficina, pretende-se construir e desenvolver um espaço e um tempo em que cada criança possa explorar, criar e reinventar tudo o que constitui o mundo dentro e fora de si, para o conhecer melhor e dele melhor (usu)fruir.
A expressão dramática e o teatro serão ferramentas excepcionais neste processo. Através delas, as crianças adquirem maior sensibilidade pessoal, social e artística, melhor capacidade de comunicação e reflexão, abrindo assim caminhos que lhes permitirão tornar-se, no futuro, seres mais estruturados intelectual e emocionalmente, numa palavra, cada vez mais humanos, cada vez mais felizes.

Eis bem expressa a ideia de que a felicidade pode ser conquistada cientificamente, tecnicamente, graças a um conjunto de causas que conduzem mecanicamente a determinados efeitos. Eu acabo de ler isto e sou logo transportado para o século XVIII francês, para o século XIX positivista, para o século XX soviético, a leste, ou behaviorista, a ocidente. Como é possível continuar ainda a acreditar nesta mecânica da felicidade, como se a inteligência e a criatividade contribuíssem alguma coisa para nos tornarmos melhores, mais humanos e felizes?
O teatro e o cinema estão cheios de gente sacana e ordinária. Há montes de pintores, escultores, arquitectos, escritores, poetas sacanas e ordinários. Gente do piorio. Eu não estou a dizer que o são por serem actores, escritores ou pintores mas tão somente que ser actor, escritor ou pintor não é condição para se ser melhor nem pior pessoa.
Depois, a felicidade. Mas alguém é mais feliz por ser actor, pintor ou escritor, por ser criativo e ter muita imaginação? A história está cheia de gente inteligente, genial e criativa que se suicidou, que vive a anti-depressivos, que sofre de enormes angústias existenciais, de solidão existencial. Muitas vezes precisamente por serem mais inteligentes e criativos, vendo mais longe do que todos os outros e, por isso, vendo pior. O mundo está cheio de mecânicos de automóveis, agricultores, empregados de escritório e vendedores de Moulinex infinitamente mais bem dispostos e felizes, gente que nunca viu uma peça de Ionesco, que nunca leu Harold Pinter, nem faz a menor ideia de quem possa ser o Will Self.
Mas como se não bastasse o texto da apresentação, ainda temos uma lista com os principais (principais, ou seja, haverá ainda outros) objectivos da oficina. Respire fundo e prepare-se para o que vem a seguir.

     Estimular a consciência de si e do outro
     Estimular as relações interpessoais
     Incentivar a auto-estima, auto-valorização e confiança em si e no outro
    Educar para os valores da partilha, do respeito, da atenção para com o outro e da aceitação da diferença
     Fomentar a compreensão do mundo e do quotidiano da criança
     Desenvolver a capacidade de expressar, com autonomia, uma visão crítica do mundo
     Favorecer o pensamento crítico
     Potenciar um desenvolvimento emocional positivo, saudável e equilibrado
     Fomentar a cooperação na criatividade colectiva
     Potenciar a actividade espontânea da criança
     Estimular a capacidade de construção e criação artística sozinho e/ou em grupo
     Adquirir a consciência do corpo
     Desenvolver a expressão corporal como meio de comunicação
     Adquirir e desenvolver capacidades no domínio da expressão vocal, gestual e corporal
     Compreender jogos de comunicação verbal e não verbal
     Desenvolver a capacidade de expressão e comunicação verbal e não-verbal
    Contribuir para a apreciação criativa das possibilidades de utilização do corpo e da voz
    Estimular a imaginação, a criatividade e a capacidade de exploração de recursos (ser capaz de criar personagens, histórias ou jogos de imaginação)
    Desenvolver a capacidade de improviso
    Trabalhar a concentração e a capacidade de escuta
    Desenvolver o jogo simbólico
   Explorar a dimensão da palavra na sua vertente escrita, lida, falada e cantada
   Fomentar a capacidade de memorização
   Estimular a capacidade de observação
  Contribuir para o desenvolvimento de variadas capacidades cognitivas, estéticas e técnicas
  Promover o desenvolvimento global da criança (emocional, mental, social e artístico)

Parabéns, conseguiu chegar ao fim. É porque deve ser professor, habituado a estas listas incontinentes para justificar qualquer merdice que se faça. Eu poderia discutir, um a um, o interesse, a pertinência, a vantagem, a eficácia de montes destes objectivos. Acho apenas que seria mais verdadeiro e honesto explicar aos pais das criancinhas que esta oficina vale a pena só porque é giro, divertido e mais saudável do que passar os sábados fechado em casa a ver televisão ou a jogar PS. Mas, sim, é verdade, é pouco científico e não tem ar de ter sido pensado por psicólogos, pedagogos, psicopedagogos, pedopsiquiatras ou professores com formação na área das ciências da educação. Graças a estes, porém, seremos salvos e vamos ser todos muito felizes.

13 Maio, 2013

A IDADE DA RAZÃO

August Sander

Há muitos anos, andava eu na universidade e, devido às minhas leituras de então, György Lucácks era um nome bastante familiar para mim. Só que o homem era húngaro e eu não fazia a menor ideia da pronúncia correcta do nome. Um dia calhou um dos meus irmãos levar lá para casa um casal, ela alemã, ele húngaro. E eu, zás, aproveito logo para perguntar como se dizia, repetindo-o várias vezes para não me esquecer.
No início deste ano lectivo descubro que tenho um aluno romeno. Mais em jeito de brincadeira, pergunto-lhe como é que em romeno se pronuncia Ceausescu. O rapaz lá me disse, repetindo várias vezes para eu poder afinar o mais possível a minha dicção romena.
Mais recentemente, durante um jantar, aproveitei a presença de um holandês para me esclarecer uma velha dúvida: qual é a verdadeira pronúncia de Vermeer. E o holandês, desta vez um holandês, lá teve a paciência de repetir várias vezes para eu poder afinar o nome.
Entretanto, há dias, numa aula, quando me preparava para dizer Vermeer, quis aproveitar a lição holandesa do meu compagnon de table para, pela primeira vez, poder dizer Vermeer como deve ser. Porém, apesar de estar a pensar no pintor holandês, a minha cabeça mais parecia um quadro do Yves Klein, não fazendo já a menor ideia de como se diz o nome do pintor, como se nunca tivesse sabido. Depois, por causa disso, tentei também lembrar-me da pronúncia de Ceausescu. Nada, kaput, varreu-se-me por completo.
Porém, 30 anos depois, continuo perfeitamente a lembrar-me da pronúncia húngara de Lucácks que aprendi aos 20 anos. Como explicar este aparente absurdo? Apesar de, pelos vistos, me esforçar para não o ter, os dois recentes esquecimentos mostram que finalmente já tenho idade para ter juízo. Sou um homenzinho e não um jovenzinho armado aos cágados. E ser homem é também aprender a não ligar ao que não é verdadeiramente importante.

12 Maio, 2013

SALTAR À FOGUEIRA


Deus me livre de querer defender a censura seja lá do que for. É verdade que coisas como a democracia e a liberdade de imprensa me deixam menos excitado do que um bom gelado de baunilha e noz de macadâmia, mas longe de mim impedir a publicação do que vai nas cabeças das pessoas. Pronto, isto é o meu lado bonzinho a falar, o meu lado de cidadão respeitador de certos princípios filosóficos e constitucionais politicamente correctos.
Mas o Jekyll que há em mim também tem estados de alma dos quais não consegue fugir. E são precisamente essas emanações do lado mais cavernoso e obscuro do meu ser que me levam a pensar, sempre que entro numa livraria, que seria social, cultural e intelectualmente saudável e higiénico parar com a publicação de ficção durante pelo menos uns 10 anos.
Se há pessoas que sentem um incontrolável impulso para escrever como se padecessem de uma espécie de doença de Parkinson literária, acho muito bem que escrevam. A doença ainda não deve estar reconhecida mas acho bem que se apoiem esses doentes. Eu só não percebo é por que razão, em vez de guardarem na gaveta o que escrevem ou de mostrarem apenas a familiares, amigos e vizinhos, desejam publicar o que escrevem. Como se o mundo não tivesse já livros que cheguem, como se o mundo precisasse do que escrevem, como se o mundo estivesse ansioso à espera desses livros, como se o mundo perdesse alguma coisa se esses livros não fossem publicados. 
Há obras-primas da literatura, há bons livros, há livros razoáveis e há livros medíocres. Muito bem, nem toda a gente consegue ser genial. Mas por que razão se há-de publicar mais um livro e mais outro e mais outro e mais outro livro medíocre ou apenas razoável? E isto, quando já há milhares de livros igualmente razoáveis por ler, muitos deles de autores consagrados. Por que se há-de querer impor mais um livro ao mundo quando este mundo já está saturado de livros medíocres ou razoáveis ainda por ler? A não ser que quem publica tenha a veleidade de pensar que o seu livro é um bom livro ou uma obra-prima da literatura. Mas também se houver quem pense assim é porque, enquanto leitor, nem sequer faz ideia do que possa ser um bom livro ou uma obra-prima.
Provavelmente a chave para perceber tanto livro medíocre que empesta actualmente as livrarias está precisamente aí: no leitor. Leitores medíocres pedem livros medíocres escritos por escritores medíocres. E com isto volto ao que disse no início. Nada tenho contra a publicação de livros medíocres, não quero nada com censuras seja lá do que for. Mas também sou humano e sei bem o que me apetece fazer sempre que entro numa livraria.

09 Maio, 2013

FIAT LUX

Jacques Henri Lartigue

Muito interessante esta capa da revista Lux que saiu hoje. Alguém imagina, nos anos 60 ou 70, uma capa da Crónica Feminina na qual uma mulher expressasse o desejo de ter um casamento para toda a vida? Bastam duas capas de revista para compreender a diferença de mentalidades e de uma prática social como é o casamento num curto espaço de tempo. 
Eu bem sei por que razão acredito que podemos perceber melhor a história do século XIX através de  um romance como Guerra e Paz ou o início da I Guerra Mundial através de um romance como os Thibault. Sei-o do mesmo que sei que se um historiador em 2070 quiser compreender a evolução histórica entre 1960 e 2013, fá-lo-á melhor tendo à sua frente arquivos do Correio da Manhã ou da revista Lux em vez de gráficos, ainda que baseados em estudos empíricos, ou profundas análises históricas ou sociológicas da época a que se reporta tal pesquisa histórica. A vida é um romance e é nesse registo, seja mais real, seja mais ficcionado, que a vida será melhor entendida.

07 Maio, 2013

COLE PORTER EM TRÁS-OS-MONTES

George Dussaud | Le Couple qui Danse

Soubesse este homem falar inglês e poderia estar a dizer Let's do it
Why not? Lagartos do it, sapos do it, joaninhas do it, pulgas do it, galinhas do it, pássaros do it, chimpazés do it, cangurus do it, abelhas do it, alforrecas do it, as formigas do it, até o raio das traças do it, fora os finlandeses, os lituanos os letões e os holandeses na velha Amsterdão. Todos o fazem. Por que haveriam os humanos de ser diferentes? Ela, apesar de se desviar, também não parece propriamente chocada com o olhar e expressão vulpina do macho. Ri. Deve estar calor, deve ser Primavera ou Verão e a natureza no seu esplendor. 
A Inglaterra teve o seu sonho de uma noite de Verão com o vade de Stratford, a América teve a sua comédia sexual numa noite de verão com o judeu de Nova Iorque, a Suécia teve os seus sorrisos de uma noite de verão com o protestante que gostava de mulheres.
O cinema não abunda muito em Portugal mas esta fotografia de Dussaud acaba por colocar Trás-os-Montes na rota do amor. E apesar da América estar longe, muito longe desta aldeia transmontana, o som que mais se ouve aqui é o de alguém que canta, vindo do outro lado do Atlântico, Let's do it, let's fall in love.

06 Maio, 2013

REGRAS SEM JOGO

Bill Brandt

Vale a pena ver este golo do Moreirense. Claro que pelo golo em si, obra de arte de elevada fineza, mas também pela reacção do guarda-redes que sofreu o golo.
Um golo destes é um hino ao futebol e faz a alegria de quem gosta do desporto-rei. Mas ver a reacção do guarda-redes revela-se bastante pedagógico. Um guarda-redes é necessariamente alguém que aprecia futebol e que o vive com prazer e intensidade. Se este guarda-redes visse este belo golo a partir de uma posição neutra e imparcial, iria apreciá-lo tanto como qualquer outro adepto de bom futebol. Mas isso é impossível. Guarda-redes do Braga e avançado do Moreirense, sendo ambos apreciadores de futebol, encontram-se profundamente comprometidos numa situação de inexorável incompatibilidade na qual a alegria de um só pode existir à custa da tristeza do outro. O avançado ficou feliz por marcar, mas, por muito belo que seja o golo, leva o guarda-redes a um estado de tristeza, frustração, irritação, desespero. Se, pelo contrário, o guarda-redes defendesse, ficaria feliz e orgulhoso mas ter-se-ia perdido um dos melhores golos do campeonato.
Como superar este estado agónico? Não se supera. No desporto não há qualquer hipótese de o superar, daí a sua dimensão trágica. Um jogo de futebol não é uma realidade moral. Tem regras, claro, mas regras que, como no código da estrada, servem apenas para  lhe conferir alguma racionalidade e impedir o caos e a pura arbitrariedade. Mas não é uma realidade moral na qual os interesses de uns não devem ser satisfeitos à custa do prejuízo de outros. Bem, pelo contrário, como numa guerra, trata-se de uma espécie de contrato tácito entre dois inimigos que aceitam o facto de, no final, haver vencedores e vencidos.
E na sociedade, será também assim? Depende. Se encararmos as relações sociais e económicas como uma espécie de jogo no qual a vitória de uns implica a derrota de outros, então, neste caso, os conflitos sociais e económicos estarão no mesmo registo de um conflito entre um guarda-redes que defende e um avançado que marca. Ora, isso pode acontecer se retirarmos a moral da política e da economia e, como no futebol, limitarmos as relações sociais e económicas a um básico conjunto de regras que visam apenas impedir que a sociedade caia numa caótica situação de guerra, não de todos contra todos, mas de alguns contra muitos.
Isso, porém, não deve acontecer. Tal como Evangelho de S. Marcos se diz que o sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado, também a economia e a política existem  por causa do homem, não é o homem que existe para política e a economia, sobretudo uma economia de casino em que a vitória de uns é feita à custa da derrota de muitos. A política e a economia não devem ser vistas como um jogo sem regras, mas como actividades cujas regras impeçam a ideia de tudo isto se tornar um jogo.

03 Maio, 2013

VANITAS AMERICANA


É hábito dizer que, quando se fala de história, os americanos ficam sempre em desvantagem em relação aos europeus. Sim, onde estão os castelos americanos? Os senhores feudais americanos? As cantigas de amor e de amigo americanas? A música antiga americana? Os velhos filósofos americanos? Dewey? James? Pfff! 
O mesmo se passa com a arte. Há grandes pintores americanos mas ninguém os conhece, ninguém fala deles. Mas perante  uma fotografia como esta não podemos dizer que a América fica atrás da velha tradição das célebres vanitas europeias do século  XVII, por sua vez inspiradas no célebre verso do Eclesiastes "Vanitas vanitatum omnia vanitas". Não sei se somos filhos de Adão. Mas de Yorick somos certamente afilhados.

02 Maio, 2013

2 DE MAIO

Lewis Hine

Há uns anos visitei o cemitério de Highgate em Londres. Por lá dorme gente importante, sendo Karl Marx um dos mais conhecidos. Embora  a visita não tenha sido motivada por motivos reverenciais mas pelo muito estético prazer de passear num cemitério vitoriano, não pude evitar uma sensação estranha ao passar pelo seu túmulo.
Não foi só por estar perante alguém com quem passei meses da minha vida, a estudar as suas ideias e a escrever sobre elas. Estar perante Karl Marx num cemitério e, sobre o seu cadáver, ler a famosa frase "WORKERS OF ALL LANDS UNITE", escrita em 1848, sugeriu uma sensação de estar perante ideias mortas, ideias bem afastadas do rebuliço da vida moderna mesmo ali ao lado na grande cidade, jazendo sob um silêncio sepulcral e rodeadas de umbrosas áleas, húmidas heras, túmulos cobertos de musgo.
"TRABALHADORES DE TODO O MUNDO, UNI-VOS". O que pode querer hoje dizer esta frase escrita no Manifesto Comunista de 1848? A frase foi escrita tendo como expectativa uma revolução mundial, uma revolução socialista, operária, de operários dickensianos, miseráveis, analfabetos, quase marginais. Estes operários já não existem nem hoje faz sentido esperar uma revolução socialista e operária para voltar a repetir a URSS, a Roménia, a Bulgária, a Albânia ou a China.
Porém, há qualquer coisa que nos impele a pensar que Marx não está morto. Que Cristo, afinal, não morreu, Marx, afinal, não morreu e que nós também não nos sentimos lá muito bem. Sei lá, qualquer coisa que me diz que embora já não possamos ser marxistas também não podemos deixar Marx morrer definitivamente no meio daquelas belas heras vitorianas.
Daí eu achar que devemos adormecer no dia 1 de Maio para acordarmos, com espírito novo e revigorado, no dia 2 de Maio. Um 2 de Maio que nos dê uma nova linguagem, novos conceitos, novas acções, novas formas de luta e de protesto. Por muito valor científico, filosófico e político que tenha tido o Marx que repousa em Highgate, os seus conceitos, o seu mundo, os seus operários, os seus capitalistas, os seus políticos, já não são os nossos.
As belas e vetustas heras que o rodeiam em Highgate já não se compadecem com as novas eras que aí vêm. Hoje é dia 2 de Maio e é hoje, não ontem, dia 1 de Maio, que precisamos de compreender o que há para fazer.

01 Maio, 2013

NO FIM ERA O CINEMA


Há muito que alimento uma birra de estimação com a arte moderna, birra que, na minha adiantada idade, já não é passível de redenção. Despacho Serralves em cinco minutos e o Reina Sofia em dez, cinco dos quais na loja dos recuerdos.
Mas também percebo que a arte não poderia continuar a ser o que já foi. Bruegel, Ticiano, Rembrandt, Velasquez, Vermeer, Turner, Monet ou Van Gogh foram Bruegel, Ticiano, Rembrandt, Velasquez, Vermeer, Turner, Monet e Van Gogh, e se alguém hoje pintasse como eles teria a inútil veleidade de pintar o que já havia sido pintado. Portanto, não há volta a dar. É como querer ser adulto, continuando a ser criança. Não dá.
Mas o meu século XX foi salvo por uma invenção do século XIX: o cinema. O cinema é a grande arte do século XX. A Grécia deixou-nos a escultura e a arquitectura, a Idade Média deixou-nos a pintura, o Renascimento deixou-nos a polifonia. Não, o século XX não irá deixar o ready made, a instalação, o happening, as lixeiras feitas de cacos e quinquilharias que poluem os museus contemporâneos. O século XX irá deixar o cinema.
O cinema é pintura em movimento. Enquanto arte da imagem há uma essência pictórica no cinema. Essência pictórica que o obriga a um compromisso com o real que os desvarios contemporâneos quebraram. O cinema inventa mas não  pode inventar demasiado. Steven Spielberg criou o ET? E daí? O Renascimento não está todo povoado de sátiros, arcanjos e santos a esvoaçarem rumo ao céu? Mas a imaginação tem limites, tanto na pintura como no cinema. O criador sonha, seja pintor ou cineasta, mas o sonho tem uma natureza apolínea, o sonho é feito de imagem, de histórias, de ambientes que, por muita grande que seja a sua força onírica, estão sempre ancorados no porto da realidade. Um centauro e uma sereia não existem. Mas existem homens, mulheres, cavalos e peixes.
O cinema, portanto, será necessariamente clássico ou então não será. Mas sendo imagem em movimento e sendo imagem misturada com engenharia, engenharia mecânica, engenharia da cor, engenharia do som, o cinema irá muito para lá da pintura. O cinema, poderei assim dizê-lo, salvou a pintura da sua morte. Todo o cinema, claro. Em todo o cinema há luz, cor, ambientes e qualquer coisa para contar, seja natural, seja artificial. Mesmo nos filmes maus e péssimos do mesmo modo que também nas más e péssimas pinturas. Por que carga de água não pode o cinema ter também o seu menino da lágrima?
Mas há filmes onde isso se nota ainda mais do que noutros. É o caso de Fausto, na versão de Alexander Sokurov. Ver um filme como este é ver o cinema como pura herança da pintura, não só como pintura em movimento mas com a cor da pintura, a luz da pintura, a plástica da pintura, a riqueza metafórica da pintura. E como qualquer boa pintura que se preze, para ser visto no seu lugar natural: o cinema. Que, na verdade, é cada vez mais um museu.

29 Abril, 2013

A CAVE

Mary Ellen Bartley

Podemos escolher duas vias opostas para reflectir sobre questões morais: ir das ideias para a vida ou da vida para as ideias. A diferença está bem ilustrada por Rafael na Escola de Atenas, onde surgem lado a lado Platão e Aristóteles: o primeiro com o dedo elegantemente apontado para o alto, enquanto o segundo, com a mão bem aberta, estica o braço para a frente como se quisesse agarrar a realidade.
John Kekes, considera que o pensamento filosófico sobre questões morais tende a seguir a primeira via, pecando por ser demasiado geral e abstracto. Daí preferir recorrer à literatura e a várias biografias para melhor discutir e reflectir sobre o que pode ser uma vida boa. Diz ele que uma leitura inteligente e reflexiva sobre certas personagens e vidas reais, tanto felizes como infelizes, permite jogar com diferentes formas de vida, gratificantes ou frustrantes. É como conversar com uma pessoa mais velha que viveu certas experiências e com cujos erros e virtudes podemos aprender.
Ora, eu entendo o quanto estimulante pode ser este diálogo imaginário com certas personagens. Imagino-me perfeitamente a tomar chá com Emma Bovary, a comer um javali com Macbeth, a dar um passeio a pé com Julien Sorel ou, tipo repórter do Expresso, a desembarcar na ilha de Robinson Crusoe para ir com ele à pesca enquanto vamos conversando sobre a vida.
Porém, ser estimulante é uma coisa, poder ser benéfico, outra. A inclinação do nosso dedo para cima é quase inevitável por muito que estiquemos o braço para a frente para orientar os nossos passos. Por muito concretas que sejam as suas vidas, as vidas dos outros, os grandes exemplos, sejam bons ou maus, convertem-se necessariamente em ideias abstractas.
A consciência de que fumar faz mal está longe de ser suficiente para conseguir deixar de fumar. A consciência de que peixe cozido com legumes é saudável não chega para o comer em vez de um suculento bife de carne vermelha com batatas fritas. A consciência teórica e reflexiva do que é uma vida boa ou uma vida má, a consciência de um erro grave ou de uma qualidade admirável, podem ajudar a melhor iluminar o caminho.
De Platão aos positivistas do século XIX, passando pelos franceses e ingleses do século XVIII, a história das ideias está cheia de luzes que iluminam as cabeças, algumas delas mais parecendo um fogo de artifício para festejar verdades absolutas. O problema é que não é a consciência e a inteligência que comandam a vida mas a vontade. E a vontade nem está lá em cima, para onde aponta o dedo de Platão, nem está à frente dos olhos de Aristóteles. A vontade é uma espécie de cave húmida e escura na qual nunca sabemos o que podemos encontrar.

27 Abril, 2013

MEIO CHEIO

Ed van der Elsken

Dizia o velho Montaigne que a nossa maior derrota íntima é compararmos o que somos com o que poderíamos ser. Eu, que apesar de céptico tenho de vez em quando uns laivos de optimismo, acredito, pelo contrário, que essa bem poderá ser a nossa maior vitória.

25 Abril, 2013

25 DE ABRIL SEMPRE!

  Alfred Eisenstaedt

A esquerda romântica e a direita mais revanchista, ou mesmo pessoas sem qualquer interesse por política, ainda gostam de perder tempo a discutir se valeu ou não a pena o 25 de Abril. Trata-se, porém, de uma discussão absolutamente inútil e de quem não tem mais nada em que pensar.
O 25 de Abril foi mais uma coisa que nos aconteceu do que uma coisa que fizemos. Não estou a ser cínico ou a tentar armar-me em parvo. Sinto uma enorme gratidão pelos capitães de Abril: há jovens que não morreram, ficaram deficientes ou traumatizados porque já não chegaram a ir para África, pessoas que deixaram de ser torturadas ou de ter medo de falar e escrever, porque os heróis de Abril pegaram em armas para mandar embora toda aquela caquética brigada do reumático que nos fez, e muito, atrasar a vida.
Mas não foram os capitães que fizeram o 25 de Abril. Foi a História que fez o 25 de Abril. Uma coisa que aconteceu porque tinha de acontecer. Não se tratou de uma coisa contingente como Mota Pinto ter sido Primeiro-Ministro ou Melo Antunes, dos Negócios Estrangeiros, mas uma coisa necessária, uma coisa que não pode não acontecer. Portugal jamais poderia continuar a ter, na Europa dos anos 70, 80 ou 90, um regime fascista e uma guerra colonial. Claro que houve depois disso a Guerra das Malvinas mas isso não passou da continuação de um jogo de futebol por outros meios. Qualquer coisa que durou 90 minutos mais os descontos. E precisamente para Portugal não ter o que não podia ter, teria forçosamente que haver o 25 de Abril, embora pudesse ter sido, vá, a 29 de Junho de 1975 ou, sei lá, a 14 de Fevereiro de 1976. 
A história não tem leis como as da natureza. O 25 de Abril não é assim uma coisa como a lei da gravidade ou a fotossíntese. Mas há na história coisas que não são meramente possíveis. São absolutamente necessárias ou impossíveis de acontecer. Por exemplo, seria impossível na Idade Média uma revolução comunista como a de Outubro de 1917. Como seria impossível a pintura de Picasso ou a música de Stravinsky. Teria sido possível, embora efémero, um regime comunista em Portugal se Mário Soares tivesse perdido a sua batalha em 1975. Mas já seria impossível depois da queda do Muro de Berlim. Tão impossível como necessário foi o 25 de Abril.
Nós não passamos de marionetas comandadas por forças que não dominamos nem dependem de nós. Claro que marionetas conscientes do que estão a fazer, voluntariosas e cheias de objectivos pelos quais lutamos. Mas marionetas manobradas por fios invisíveis que nos obrigam ou impedem de fazer certas coisas. Há coisas que fazemos ou não fazemos, não porque queremos ou não fazer, mas porque somos obrigados a fazer ou impedidos de as fazer. E o 25 de Abril foi um desses momentos necessários da história cujas marionetas, neste caso, foram os bravos capitães de Abril.
Daí devermos dizer mesmo: "25 de Abril, sempre!", sejamos da esquerda romântica ou da direita mais reaccionária. "Sempre" porque "necessário". Um "sempre" ontológico e não um "sempre" psicológico ou ideológico. Daí não valer a pena gritar (pedir) que seja 25 de Abril sempre. Porque será sempre 25 de Abril como há outras coisas que nunca chegaram ou chegarão a ser.

24 Abril, 2013

O MILAGRE

Lyonel Feininger

De vez em quando oiço a expressão "É um bocado impossível". Explico então que o impossível não tem grau. Não há coisas mais impossíveis e coisas menos impossíveis. O possível, sim, tem graus. A possibilidade de amanhã estar um dia de Sol em Lisboa é maior do que a possibilidade de ocorrer um terramoto, ainda que possa ocorrer mesmo um terramoto e até estar um dia chuvoso e cinzento. Porém, o impossível é simplesmente impossível, excepto para os queques revolucionários de 68. Estarmos em dois sítios ao mesmo tempo é tão simplesmente impossível como uma pessoa que se atirou de uma ponte decidir parar a meio da queda.
Daí eu levantar as orelhas ao ler esta notícia. O que significa um "milagre quase impossível"? Nada, pois  a impossibilidade de um milagre não é relativa mas absoluta. O milagre é o que é impossível por razões naturais embora possível por intervenção sobrenatural. Ora, não é isso que se passa com o próximo jogo entre o Barcelona e o Bayern. Não foi um milagre os alemães terem ganho 4-0. Foi uma vitória anormal mas tão anormal quanto possível. E se o Barcelona vier a ganhar 5-0 na segunda mão, tratar-se-á de um resultado tão anormal como o anterior mas também tão possível quanto esse. Dai não se tratar de um quase milagre mas apenas de uma coisa possível, explicada através de causas naturais inerentes ao próprio jogo.
Milagre, sim, e de uma dimensão verdadeiramente bíblica, seria Portugal vir um dia a ser bem governado; seria Portugal ter políticos conscientes e responsáveis cujas acções tivessem como objectivo servir o país e não interesses pessoais, partidários, económicos e financeiros; seria Portugal poder vir a ser um país mais justo; seria a corrupção em Portugal tornar-se residual e uma vergonha no caso de ser descoberta em vez de motivo de orgulho e inveja.
E milagre pois não será de modo algum através de causas naturais que tal pode vir um dia a acontecer. Só mesmo por intervenção sobrenatural. Mas se eu já sou céptico em relação ao natural o que não hei-de ser então em relação ao sobrenatural? Até fico com vontade de falar como os adolescentes e dizer que se trata de qualquer coisa de muito impossível. Bem podemos esperar sentados. 

23 Abril, 2013

BÜCHERWALD


               Holland House Library, Londres, 1940

Comemorar o dia mundial do livro tem, hoje, qualquer de melancólico, a melancolia própria do sentido do fim e da perda. Mesmo que ainda se faça festa, havendo alegria e foguetes no ar, o livro, num futuro próximo, será um objecto apenas destinado a uma elite que conseguirá manter a capacidade de ler. Ler, ler verdadeiramente, e não passear os olhos por informação dispersa através de um monitor, será um dia como é hoje apreciar ópera barroca ou o teatro de Shakespeare. Uma excentricidade que, se hoje ainda merece uma mistura de respeito e indiferença, no futuro estará sujeita aos risos escarninhos de escravas trácias.

22 Abril, 2013

A ESPUMA SEM DIAS

    Lucien Clergue | O Nascimento de Afrodite, 1959

O sagrado e o profano são duas das principais categorias da consciência religiosa. Uma consciência mergulhada num espaço profano, num tempo profano e em referências profanas, mas cujo sentido depende de uma dimensão sagrada e transcendente. Mas também é possível não ser religioso e valorizar a experiência, seja estética, ética ou poética, de diversos imaginários míticos, mitológicos ou literários.
É o meu caso, daí a minha antipatia por esta fotografia de Lucien Clergue. Não pelo fotógrafo, de quem conheço  excelentes trabalhos, mas por esta fotografia. Tal antipatia nada tem que ver com aspectos formais de natureza estética, mas com o kitsch que resulta da naturalização de uma referência sagrada: o nascimento de Afrodite. Não tivesse título e já seria diferente, concentrada apenas nos seus elementos formais. Mas ao assumir mimeticamente o que relata Hesíodo na sua Teogonia, como se estivesse, in illo tempore, na qualidade de repórter, registando o nascimento da deusa, o fotógrafo acaba por anular a margem de segurança que deve proteger o sagrado de uma contaminação profana.
Pode-se dizer por isso que grande parte da pintura renascentista ou barroca é kitsch, uma vez que vive da representação de um imaginário pagão ou judaico-cristão? Não, porque a pintura não é fotografia. Auxiliando-me, cinicamente, é verdade, de Platão (República), posso dizer que a pintura apresenta mais o estatuto de "cópia de uma cópia" do que a fotografia. Só que enquanto para Platão se trata de um estatuto mais degradante, pois estando o filósofo preocupado com a verdade de uma ideia objectiva, quanto mais "cópia de uma cópia" for, mais aumenta o seu nível de aparência e afastamento da verdade, o que me interessa é uma imagem com uma margem de segurança face ao modelo original, neste caso, um episódio mítico, protegendo assim o seu valor poético e imaginário. Ou seja, quanto "mais cópia de uma cópia" se apresentar, mais elevado será o seu valor poético. Eu não desejo expulsar os poetas por mentirem e se afastarem da realidade. Pretendo, sim, proteger os poetas da realidade e quanto mais dela se afastarem e mentirem, melhor. E mesmo que o impacto "fotográfico" de uma imagem pintada seja maior para um homem do Renascimento do que para um homem contemporâneo, haverá sempre uma descontinuidade entre o artifício de imagem pintada e a objectividade do referente por ela invocado, o que não acontece na fotografia. Por outro lado, convém também não esquecer que para a consciência judaico-cristã os episódios retratados não são de carácter mítico mas verdadeiros, ocorridos num espaço e tempo concretos, ainda que in illo tempore.
Daí a pintura estar, à partida, mais protegida do kitsch. Esta fotografia carece claramente dessa protecção, até porque feita para que a sua fotográfica força poética coincida com a força poética do mito. Porém, naturalizando o mito, exibindo explicitamente a ligação intrínseca entre o corpo da deusa e a espuma que a envolve, acaba por profanizá-lo. A pior coisa que lhe podia acontecer.

21 Abril, 2013

PUM!

Jacques Henri Lartigue

Soube por acaso que o dia 20 de Abril já foi o dia do turista e por falar em turismo lembrei-me de Susan Sontag. Num dos seus Ensaios sobre Fotografia faz uma associação entre turismo e fotografia, vendo a viagem como uma estratégia para o turista acumular  fotografias. A fotografia torna-se assim um privilegiado meio de acesso à experiência: "uma fotografia não é apenas o resultado de um encontro entre o fotógrafo e um acontecimento; fotografar é em si mesmo um acontecimento".
Mas um acontecimento que é uma forma de não intervenção. E dá dois exemplos interessantes. Primeiro, os fotojornalistas que, em contextos humanamente dramáticos, se encontram a fazer fotografias para captar o momento, em vez de intervirem para ajudar as pessoas cujo momento está a ser captado por eles. Segundo, o que acontece na Janela Indiscreta: a relação do protagonista com o acontecimento só é possível porque está preso a uma cadeira de rodas, obrigando-o a olhar, um olhar que só é possível por não poder intervir na acção. O que se passa na relação do turista com a realidade que procura fotografar desde que sai do hotel, passa também por aqui. Eis a frase certa: "Quem intervém não pode registar; quem regista não pode intervir".
Há tempos fui, pela segunda vez, à casa de Camilo e Ana Plácido. Eu adoro Camilo e  ainda por cima andei a ler a correspondência dele com o Visconde de Ouguela, na qual há tantas referências à vida naquela casa amaldiçoada. Tal como da primeira vez, a visita era guiada. Eu ia com uma máquina fotográfica ao pescoço, doidinho para tirar umas fotografias mas, por causa do meu sentido de pudor, até porque se trata de um espaço intimista e não um enorme palácio onde nos tornamos quase invisíveis, não tive coragem de andar a fotografar enquanto a senhora falava.
Entretanto, a visita acaba e eu, assim meio envergonhado, pergunto se podia voltar atrás só para tirar meia dúzia de fotografiazinhas. Isso implicaria eu andar sozinho lá pela casa e confesso que esperava ouvir uma tampa. Mas a senhora disse que sim, pedindo-me apenas para ser rápido pois precisava de ir almoçar para receber um grupo com o qual já tinha hora marcada.
Claro, claro, minha senhora, por quem é, e, inesperadamente, penso na possibilidade de estar prestes a viver um milagre: eu, só eu, absolutamente sozinho no quarto de Camilo, no quarto de Ana Plácido, na sala onde passavam os serões, em frente à secretária onde escrevia de pé, da cadeira onde disparou o tiro fatal, da estante com o seus livros, enfim, perante as janelas pelas quais espreitava para, desesperado, ver o Jorge a emburrecer (refere-se assim ao filho numa das cartas). Eu, sem guia, sem turistas, apenas eu com um silêncio de século XIX, como se fosse fazer uma viagem no tempo e a qualquer momento Camilo, Ana Plácido ou o Jorge com uma fisga na mão pudessem surgir de qualquer porta.
Só que o milagre não existiu. Com a senhora à minha espera para ir almoçar, e detestando eu fazer esperar as pessoas, andei numa desvairada correria a disparar sobre tudo o que era sítio, mal tendo tempo para respirar. Quem me visse pensaria que iria apanhar um comboio, tal era a velocidade, a brusquidão de movimentos, aquele olhar rápido e tenso de quem está a ver uma partida de ténis na bancada central.
Na mesma manhã, percorro duas vezes a casa de Camilo e Ana Plácido. E em ambas as vezes com a sensação de que não estive naquela casa, ou de que não vi bem aquela casa. Na primeira, parecia estar numa aula de história. Na segunda, senti-me uma espécie de turista que é largado no centro de Florença e a quem lhe dão apenas uma tarde para ver a cidade. Mas que em vez de a ver, se limita a disparar sobre ela. 

19 Abril, 2013

LEITE FRIO COM GROSELHA


Experimentei um novo amaciador para o cabelo. Apesar de estar numa banheira, num ápice, dou comigo deitado na cama de uma clínica onde fui operado à garganta quando tinha 5 ou 6 anos. Na minha cabeça, o cheiro do amaciador de imediato se transformou no cheiro do leite frio com groselha que as enfermeiras me davam para cicatrizar a garganta. Nunca mais voltei a bebê-lo. Mas o cheiro do amaciador fez-me regressar esses dias longínquos. Agora que voltei a recordar essa experiência, não é das dores, da sala de operações ou de me porem uma máscara na cara para me anestesiar que me lembro. Lembro-me disso mas, graças ao cheiro do amaciador, do que me recordo melhor é do sabor do leite com groselha e, graças ao facto de estar num quarto individual, da minha mãe a dormir num divã ao lado.
As referências hospitalares não acabam aqui. Pouco antes disto me acontecer, calhou reler um livro que li há 26 anos: Um Homem Sorri à Morte, de José Rodrigues Miguéis. O livro, autobiográfico, fala da sua terrível experiência num hospital de Nova Iorque, na sequência de uma doença bastante grave. Acontece que eu próprio li esse livro numa cama do hospital Pulido Valente, onde fui operado devido a um pneumotórax espontâneo. Ao relê-lo agora, acabei também por, involuntariamente, reviver esses dias numa cama de hospital.
A experiência clínica pela qual passa o escritor é tremenda. Não só pela doença propriamente dita, dores e limitações físicas, mas também pelo desconforto metafísico de quem passa pela terrível experiência de passear ao lado da morte. Recorda, porém, o modo afável e humano como foi tratado, atenuando bastante a situação-limite de quem faz tão mórbido passeio.
Ora, eu percebo a sua experiência porque foi também essa a minha experiência hospitalar. Tenho 25 anos, casado há pouco tempo e, fresco que nem uma alface, preparo-me para ir dar aulas. Sem saber porquê vejo-me no dia seguinte com dores insuportáveis numa cama de hospital, com um tubo enfiado no pulmão. Dias depois, dou comigo dentro de uma ambulância a ser transferido para Lisboa, onde irei ser operado. Dias depois, passo por um pós-operatório tramado, sem me poder mexer, cheio de dores e com três tubos enfiados num pulmão. No entanto, recordo também com agrado o modo como fui tratado em ambos os hospitais, tanto por enfermeiras como médicos, o que me ajudou bastante a suportar esses dias de solidão e desespero perante a doença, a dor  e a consciência aguda da minha absoluta finitude.
Acredito que a nossa relação com o Estado deve ser parecida com experiências hospitalares como estas que agora recordo. O Estado não existe para nos fazer felizes mas para ajudar a evitar a infelicidade. Estados que pretendem interferir na felicidade das pessoas são os totalitários cujos governantes se apresentam como pais e cujos cidadãos são os filhos. Pais que, com os seus ideólogos oficiais, sabem o que faz o povo feliz, do que precisa o povo para ser feliz e o que deve o povo fazer ou não fazer para ser feliz. E se o povo quiser ser feliz de um modo que não coincida com o dos governantes e ideólogos oficiais, será castigado por isso. Quando Nicolae e Elena Ceausescu estavam a ser julgados pelo tribunal revolucionário que os condenou à morte, dizia ela aos militares que não poderiam tratá-la daquele modo pois era como uma mãe para eles, uma mãe a ser traída pelos seus próprios filhos.
Outra coisa é um Estado que, não pretendendo interferir nas concepções individuais de felicidade dos seus cidadãos, deve, no entanto, fazer tudo o que está ao seu alcance para dar a mão a todos aqueles que, por esta ou aquela razão, se encontram numa situação de maior fragilidade. Seja através de um bom Serviço Nacional de Saúde, seja através de uma educação de qualidade para todos independentemente da classe social, seja através de apoios sociais a quem deles precise e mereça. O Estado não pode resolver angústias pessoais e metafísicas. Mas há sofrimentos e angústias perante as quais o Estado deve exibir o seu poder protector, permitindo que não apenas os mais ricos possam pagar certos confortos e seguranças.
O que está a acontecer em Portugal neste momento, e quem sabe se não será o futuro próximo da Europa, é a existência de um Estado que, com a desculpa do défice e dos compromissos financeiros, deixou de se preocupar com os seus cidadãos. Um Estado para quem os cidadãos que deveria proteger não passam de empecilhos, peças a mais que, por causa das suas doenças, das suas educações, dos seus empregos, das suas reformas, transtornam e atrapalham o equilíbrio financeiro da nação. Viver em Portugal é, neste momento, como estar doente no hospital e ser ignorado pelos médicos e enfermeiros. Ser português é como ser um doente acamado com os médicos e administradores em redor da sua cama a insultá-lo por ter adoecido.
O Estado português não deve sustentar os seus cidadãos, não deve desperdiçar dinheiro com os seus cidadãos, não deve andar com os seus cidadãos ao colo. Mas também não pode ignorar, desprezar, escorraçar os seus cidadãos. Seria bom ver o Estado como uma pessoa, ainda que abstracta, que nos trata bem e que nos dá leite com groselha para ajudar a cicatrizar as feridas que por vezes não podemos evitar, e não como um abutre sinistro a sobrevoar-nos em círculos apenas com ganas de nos autopsiar.

17 Abril, 2013

CERA NOS OUVIDOS

  Edouard Boubat |Rémi Écoutant la Mer

É difícil imaginar uma pessoa que não goste de música, mesmo que essa pessoa se chame Cavaco Silva ou Vítor Gaspar. Música é um conjunto harmonioso de sons que provocam uma imediata e espontânea sensação de prazer a quem os ouve. E ouvir música não dá trabalho, não implica esforço ou aprendizagem. Não é o prazer de quem venceu vários obstáculos. Música e sistema nervoso de um ser humano dão-se tão bem quanto a flor e a abelha, é assim e pronto. Um bebé ou uma criança gostam naturalmente de música como gostam de ver coloridos desenhos animados à sua frente e nós, adultos, gostamos de música com a mesma naturalidade com que uma criança gosta de ver coloridos desenhos animados à sua frente. Em suma, bastam apenas três condições para se gostar de música: ser um ser humano, estar vivo e não ser surdo.
Mas uma coisa é gostar de música, outra coisa é ser melómano. Há dias, numa aula, passei a Marcha Turca. Eu só via sorrisos na cara e cabeças a abanar. Todos gostaram, todos sentiram prazer em estar a ouvir aquela música. Eu diria que é impossível não gostar da Marcha Turca, incluindo Cavaco Silva e Vítor Gaspar. Mas uma coisa é gostar da Marcha Turca apenas porque somos humanos, estamos vivos, não somos surdos, e por mero acaso vem-nos parar aos ouvidos, outra coisa é procurar activamente a Marcha Turca, comprar a Marcha Turca para intencionalmente a ouvirmos porque é isso que desejamos ouvir ou até procurar conhecer melhor o compositor e o contexto histórico e artístico desta composição.
A vida também é um bocadinho assim. Há os que vivem e os que procuram viver. Todos nós gostamos de viver, embora uns mais do que outros. Se não gostássemos de viver, incluindo os que gostam menos, deixaríamos de viver, do mesmo modo que não desejamos comer uma coisa da qual não gostamos. Algumas pessoas deixam intencionalmente de viver, suicidando-se. Mas se o fazem é precisamente porque não conseguem gostar de viver e não suportam a ideia de viver sem conseguirem gostar de viver, precisamente porque gostariam de gostar de viver.
Mas uma coisa é viver porque para isso basta existir e respirar, outra coisa é procurar a vida como quem procura uma coisa valiosa. Muitas pessoas vivem do primeiro modo, o modo como imagino Cavaco Silva ou Vítor Gaspar a ouvirem a Marcha Turca. Ou como a pessoa que ouve música no carro quando se engarrafa diariamente no trânsito porque isso a distrai e ajuda a passar o tempo.
Melómana é o que toda a gente deveria tentar ser em relação à vida. Passar a ouvi-la de outra maneira, procurar intencionalmente ouvi-la e saber coisas importantes a seu respeito para poder ouvi-la ainda melhor.
Infelizmente, a cera nos ouvidos forma-se muito facilmente e não é fácil de tirar.

14 Abril, 2013

JOHANNES HEINEKEN


     Bruce Davidson | Teenager Combing Her Hair in Cigarette Machine Mirror, 1959

Durante uma aula projectei, lado a lado, um quadro de Vermeer e outro de Pollock. Instantes depois os alunos manifestaram o seu maior agrado relativamente ao segundo e indiferença face ao primeiro. Eu, que  não trocaria um único Vermeer por toda a obra do alcoólico e desvairado americano, fico sempre desolado com esta reacção. Mas também tenho que perceber que essa unanimidade no juízo de gosto dos adolescentes deve ter uma explicação. Talvez a resposta seja a mesma que explica também o facto desses mesmos adolescentes gostarem mais de cerveja do que vinho.
Vou então seguir esta pista, apesar de não perceber nada de vinhos, não fazer tenção de perceber e muito menos de fingir que percebo para me armar ao pingarelho. Gosto, e até consigo gostar bastante de vinho, mas reduzo-o apenas a três categorias: gosto, não gosto, não gosto nem deixo de gostar. Mas chega bem para o que me interessa. 
A cerveja tanto pode ser apreciada por um jovem como por um adulto. Eu sou adulto e, como quase todos os adultos, gosto de cerveja. Mas um adolescente está muito mais vocacionado para gostar mais exclusivamente de cerveja, contrariamente a um adulto que tanto pode gostar de cerveja como de vinho. A cerveja refresca, tem borbulhas e possui um sabor mais linear, que lhe permite bastar-se mais a si própria. O vinho, pelo contrário, não refresca (não por acaso os jovens, bebendo vinho, preferem o branco ao tinto), não tem borbulhas e a sua apreciação exige uma maior maturidade sensorial no plano gustativo e olfactivo.  Daí que, por muito que ponhamos jovens a beber excelentes vinhos, irão sempre preferir a cerveja, mesmo que um paciente e didáctico enólogo lhe explique as razões, gustativas e olfactivas, para deles retirar prazer.
O enólogo explica mas o jovem, sentindo o vinho na sua boca, não compreende. É verdade que um adolescente é por natureza imaturo mas a sua incompreensão não resulta de uma imaturidade cognitiva. O mesmo adolescente que não consegue gostar de vinho é o mesmo que consegue compreender e aplicar complexas operações matemáticas, o imperativo categórico ou a diferença entre as concepções naturalista e contratualista do Estado.
A incapacidade do adolescente em gostar do vinho, ou a não gostar tanto do vinho como de cerveja, não  pode também ser explicada pela ausência daquele gosto rígido e estruturante que explica o facto de ao longo da vida gostarmos muito de certas coisas e detestarmos outras, uma vez que muitos desses adolescentes que não gostam de vinho e adoram cerveja, irão, anos mais tarde, passar finalmente a gostar de vinho.
Em suma: não se trata de uma incapacidade explicada por uma imaturidade cognitiva, nem de uma intrínseca incapacidade de gostar, mas apenas de uma simples imaturidade do gosto, a mesma imaturidade que faz com que anos antes, de babete ao pescoço, não gostem de sopa. O jovem consegue percebe as razões claras e objectivas que "obrigam" a gostar de vinho mas, por outro lado, sente-se incapaz de gostar.
A relação do jovem com o vinho e a cerveja não me parece ser muito diferente do que se passa perante os quadros de Vermeer e de Pollock. Por muito que se lhe explique, no caso do primeiro, a harmonia da composição, a conjugação das cores, a organização do espaço, o trabalho de luz ou a sua simples atmosfera, ele só consegue ver um banal retrato do interior de uma casa holandesa do século XVII. Pode gostar de ver como retrato, neste caso, misturando uma certa curiosidade histórica com uma curiosidade pós-moderna de observar o espaço privado alheio, nada tendo que ver com uma experiência estética e, muito menos ainda, esteticamente depurada.
Perante o quadro de Pollock tudo será diferente. A disrupção cromática, o efeito caótico e arbitrário das linhas e manchas, o desafio da abstracção associado ao prazer de estar perante uma "coisa moderna", permite uma experiência mais fácil e imediata. Não é apenas por ser "coisa moderna" até porque habitualmente os jovens reagem mal perante quadros como A Mulher que Chora ou As Meninas de Avignon. Pollock é moderno mas um moderno completamente livre, isento daquele esforço que é necessário para conseguir apreciar uma deformação formal do figurativo. Um moderno figurativo torna-se difícil precisamente pela confusão que provoca, no sentido de gosto do jovem, a mistura de elementos figurativos e formais, ficando sem perceber o que há ali verdadeiramente para apreciar. Por um lado, vê um rosto feminino ou várias mulheres em pose mas cheias de "ruído", perdendo o seu valor retratista. Por outro lado, falta-lhe a capacidade para depurar as referências figurativas, concentrando-se sobretudo nos aspectos formais dos quadros. No caso de Pollock é completamente diferente: vê-se e gosta-se como quem sorve uma imperial em 10 segundos. Podem vir um dia a gostar também de Vermeer, mas as suas papilas gustativas estéticas precisam de tempo para amadurecer.

03 Abril, 2013

O SILÊNCIO DO INOCENTE

        Alfred Eisenstaedt

Onde alguns vêem motivo de escárnio, outros vêem motivo de piedade e compaixão. Ora, é piedade e compaixão o que verdadeiramente sinto perante este pobre repórter. Tomo mesmo a liberdade de o eleger como mártir, herói e símbolo oprimido da mais pura e eloquente vacuidade jornalística.
Queixava-se Orson Welles da concorrência feita pelo jornalismo ao cinema, não só como meio de entretenimento popular mas também de ficção. Para ele, o cinema serve-se da ficção para entreter as pessoas, enquanto o jornalismo deve limitar-se a relatar ou comentar os factos. Mas uma coisa é relatar ou comentar os factos, outra é alimentar-se dos factos. Chamava a isso "jornalismo depravado", o jornalismo que se alimenta de tal modo dos factos que acaba por recriá-los, inventá-los, torturá-los até à medula, focá-los tanto até entrarmos no campo da sua invisibilidade, fazendo assim com que não-factos, não-acontecimentos, factos nulos ou vazios povoem cabeças já meio esvaziadas pelas sombrias contingências da vida. É como através de uma máquina fotográfica aproximar de tal modo um rosto, obrigando a ver poros inúteis em vez de um rosto com uma identidade e um sentido.
Este repórter é um herói pois, ainda que involuntariamente, teve a digna capacidade de não dizer o que não existe para ser dito. Ao contrário de tantos outros colegas seus que, como incontinentes máquinas falantes, se esvaem em intermináveis discursos sobre coisa nenhuma, este homem, com os seus silêncios e infantil atrapalhação, consegue, como se fosse ele próprio uma pintura expressionista, revelar o que está mesmo chapado à frente dos olhos mas que cada vez menos pessoas conseguem ver: o nada.
A existência de um discurso ou de linguagem não implica a existência de realidade a que supostamente se refere esse discurso ou linguagem e o actual jornalismo depravado é disso uma bela prova. O cinema, esse sim, é a prova do contrário.  

02 Abril, 2013

MARIA DO CARMO SEABRA

Bertil Nilsson

Pedro Lomba, no Público de hoje: 

«Quando Cavaco Silva escreveu e compendiou as reformas da década em que foi primeiro-ministro, inaugurou um estilo. Todos os primeiros-ministros desde essa data se proclamaram grandes reformistas. Falar de reformas entrou no léxico vulgar dos políticos de qualquer governo. Mesmo quando só há dinheiro gasto e nenhuma reforma. Isto recomendaria talvez, como alguns dizem, que os nossos políticos pensassem duas vezes antes de entrarem em reformite aguda. Às vezes é melhor não mexer, não fazer e não estragar».

Eu li isto e lembrei-me das sábias palavras de um dos duques de Wellington, ainda no século XIX: «Reform, reform, reform. Aren't things bad enough already?» 
Se por acaso me puser a pensar no melhor ministro da Educação que já conhecei enquanto professor, o nome que me vem à cabeça lembra o de um fantasma: Maria do Carmo Seabra. Ao contrário de nomes sonantes, Roberto Carneiro, Maria de Lurdes Rodrigues, João de Deus Pinheiro, Marçal Grilo ou Manuela Ferreira Leite, temos que fazer algum esforço para nos lembramos que tivemos uma ministra da Educação chamada Maria do Carmo Seabra. É normal. Foi ministra durante apenas oito singelos meses. E o que fez ela? Nada. Exactamente: nada. Dizer isto será uma ofensa à sua memória? Pelo contrário, é a melhor homenagem que lhe posso hoje aqui prestar. As saudades que eu tenho desta ministra com mãos de fada, que nunca usou e abusou das suas mãos para deixar a sua marca, o seu peso, o seu cheiro sobre as nossas cabeças cada vez mais cansadas e vazias.

01 Abril, 2013

1 DE ABRIL

      Francesca Woodman

Suponhamos que hoje, depois de ter olhado pela janela e ver o sol a bater, afirmei "Está sol em Torres Novas". E que amanhã, ao ver a chuva a bater na janela, afirmarei " Está a chover em Torres Novas". Se assim for, eu estou a afirmar duas verdades objectivas. E estaria a mentir objectivamente se, pelo telefone, dissesse a alguém em Moscovo que está sol em Torres Novas, estando a chover, ou a quem diria estar a chover, estando um dia de sol.
Mesmo que o juízo "Está a chover em Torres Novas" seja objectivamente verdadeiro, não é, todavia, necessariamente verdadeiro. É contingentemente verdadeiro ou contingentemente falso, tanto pode ser como não ser objectivamente verdadeiro. Diferente, portanto, de juízos que são necessariamente verdadeiros como "Nenhum solteiro é casado". Mas o juízo "Está a chover em Torres Novas" não é necessariamente verdadeiro nem necessariamente falso. Tem dias. O que faz chover ou fazer sol são certas condições que podem ou não ocorrer. Repito, o juízo "Está a chover em Torres Novas" é objectivamente verdadeiro se estiver a chover em Torres Novas. Mas se 15 dias depois eu voltar a dizer "Está a chover em Torres Novas", estando desta vez um sol radioso, o que era um juízo objectivamente verdadeiro tornou-se, com toda a naturalidade, objectivamente falso.
Por isso, temos verdades objectivas que passam a ser falsidades objectivas e falsidades objectivas que passam a ser verdades objectivas. Se, estando a chover, eu disser "Está um sol radioso em Torres Novas", estou a mentir. Mas, se 15 dias depois, eu voltar a dizer precisamente a mesma coisa, passarei a falar verdade, sendo o contrário igualmente válido. Imaginemos que me fizeram uma lobotomia e que só sou capaz de acreditar e de dizer "Está um sol radioso em Torres Novas". Imaginemos outra pessoa a quem também fizeram uma lobotomia mas que só é capaz de acreditar e de dizer "Está a chover em Torres Novas". Estas pessoas nem são mentirosas quando dizem uma falsidade nem são sinceras quando dizem a verdade. Acreditam no que conseguem acreditar, e o que faz com que digam verdades ou falsidades, não é a objectividade da sua crença mas a objectividade de factos que não dependem absolutamente nada dessa crença. As suas verdades e falsidades não são objectivas nem necessárias mas aleatórias, estando reféns do seu confronto com os dados da realidade que se apresentam sempre e necessariamente contingentes.
É por isso que, pensando em tantas coisas que acreditamos serem verdadeiras ou serem falsas, sou levado a acreditar que o dia 1 de Abril pode ser qualquer dia do ano, ainda que sem termos consciência disso. Não somos mentirosos compulsivos. Somos apenas involuntariamente esmagados pelo peso fatal da realidade.