25 dezembro, 2023

CALENDIÁRIO


Diz ela que tem vinte e dois anos e muitos meses. Faz sentido, pois não é o mesmo que ter só vinte e dois anos. Muitos meses são muitos meses e muita coisa acontece neles. E há quem viva mais num mês do que outros em anos. Teria assim o seu interesse marcarmos a idade por meses em vez de anos, unidades de tempo bem distintas, percebendo-se melhor como a ampulheta nos vai fazendo a folha. O ideal seria mesmo em dias. O problema é a sua grande quantidade massificar o tempo, perdendo-se com isso a importância de cada dia ["-Tás velho, pá, que idade tens? - Calma aí, ainda só tenho vinte e dois mil seiscentos e oitenta e três dias", mais parecendo um número da lotaria]. Daí o melhor seria até nem haver uma consciência do tempo e da idade que se tem, se faltam muitos ou poucos dias, ou meses, para o último grão da ampulheta nos defenestrar. Tal como com os alunos cujo professor não marca os dias dos testes, obrigando-os assim a estarem sempre preparados para a aula seguinte, talvez também olhássemos para os nossos dias, meses e anos com outra sabedoria.