Há dias, pus os alunos a fazer uns exercícios de Lógica. Aquele tipo de aula em que o professor anda a circular pela sala para ir dando apoio. Ao passar num corredor entre duas filas de carteiras, vejo um papel escrito no chão. Baixo-me para o apanhar, pergunto a quem pertence e de imediato uma aluna responde que a si, recolhendo-o com ar satisfeito da minha mão, mas sem sequer para mim olhar. Uns dez minutos depois estou a ajudar uma aluna quando cai um telemóvel da carteira atrás da sua. Baixo-me para o apanhar e a aluna recolhe-o apenas abanando a cabeça de um modo discreto, isto, para falar de um modo eufemístico. Não sei dizer se estas duas situações em tão curto espaço de tempo terão relevância estatística ou se se tratou de mero acaso. Mas se pensar na quantidade de vezes em que dou prioridade ao passar numa porta ou agarro a porta, mantendo-a aberta para quem vem atrás de mim, sem observar qualquer reacção, na quantidade de vezes que digo «Bom dia» ou escrevo um mail de trabalho (enviar documentos e assim) sem obter resposta, estou então inclinado a pensar que se trata de uma tendência. O que me faz sentir, apesar de não passar de um vulgar plebeu, um aristocrata ou burguês do século XIX deambulando meio invisível pelas escadas rolantes de um moderno shopping center do século XXI.
16 novembro, 2025
15 novembro, 2025
O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL
«Acontece que admirei tanto as luvas em amarelo-canário de Alexander como o seu chapéu - olhando para esse homem ninguém pode duvidar que ele veio directamente de Paris e do sítio onde Paris é mais Paris.»
Há imensos de lugares em Paris, os quais, sendo Paris, não são onde Paris é mais Paris, sítios iguais aos de tantas outras cidades. Se uma pessoa fosse levada às cegas para várias cidades europeias, ou mesmo mundiais, e depois lhe pedissem para adivinhar onde está, não iria ser capaz, visto ser igual a tantas outras. Mas também há em cada cidade lugares onde logo a reconheceríamos, e nem sequer estou a pensar na Torre Eiffel ou no Big Ben. Com uma pessoa passa-se o mesmo. Sabemos que o João é homem, português, engenheiro, benfiquista e gosta de Bacalhau à Brás. Mas ser um homem em vez de uma mulher não é a coisa mais original. Ser português também não. E há milhares de engenheiros, benfiquistas e apreciadores de bacalhau. Onde o João é mais João é na individualidade que o distingue de todos os outros, um conjunto de experiências, características e memórias que são só suas, das quais pode ou não gostar. O mesmo se passa ainda com os países ou culturas. Não haverá um meio-termo entre um nacionalismo ou etnocentrismo serôdio e delirante, e um vazio universalismo que tende a menosprezar uma identidade cultural? Como o João, que não é superior ou inferior aos outros, é bom entender o que Portugal tem de mais Portugal ou o Ocidente de mais Ocidente. Um útil exercício para nos defendermos, não de inimigos que venham de fora para nos destruir, mas do radicalismo, tanto à direita como à esquerda, de quem já nasceu português ou europeu, o qual, como um tumor maligno, mina a coesão social.
14 novembro, 2025
NEWSPEAK
Dizia Fradique Mendes que Lisboa é uma cidade traduzida do francês em calão. Cento e tal anos depois, nem se dá ao trabalho de a traduzir do inglês.
13 novembro, 2025
DIÓSPIROS
Diferente sorte tiveram as palavras pudico e dióspiro. A primeira, sendo grave passou a ser dita como se fosse esdrúxula. Já a segunda, sendo esdrúxula, passou a ser dita como se fosse grave, isto, com claro benefício para a primeira e prejuízo para a segunda. As palavras esdrúxulas têm uma esdrúxula beleza e algumas bem a merecem, como é o caso de pudico. O pudor é uma das grandes conquistas da humanidade a qual, graças a ele, ganhou elegância, delicadeza e sobriedade nos gestos, no rosto, nas palavras ditas e sobretudo nas não ditas. Daí que uma pessoa com esse atributo mereça ser considerada púdica em vez de pudica, ainda que seja esta a correcta. O que raio aconteceu para os dióspiros terem passado a diospiros? Pensemos no ridículo de belas palavras como Diógenes, Andrómeda, Orígenes, Antígona, Penélope, Eutífrone, Eurídice, Édipo, Perséfone, Átila, diâmetro, triângulo, antílope ou ópera, tornadas graves. Um horror, uma degradação do original. Lembro-me da sensação de estranheza ao ver pela primeira vez a palavra asfódelo. Mas de imediato me rendi à sua beleza fonética. O que seria se, desgraçadamente, a palavra passasse a grave como aconteceu com o dióspiro? Um horror ainda pior. Mantendo-se fiel ao original, continua assim digna de uma pintura de Khnopff ou pré-rafaelita, de um parágrafo de Huysmans, de um verso de Baudelaire, Mallarmé ou Pessanha. Há gente que olha com indiferença, ou mesmo desprezo, para as palavras. O que conta é comer o fruto, querem lá saber como se chama. Não é assim, até por uma questão de respeito para com a dignidade da coisa. A Leonor de Camões, a Beatriz de Dante ou a Simonetta de Botticelli seriam as mesmas com outros nomes, sobretudo horríveis? Não. O que é belo e bom merece uma palavra bela e boa. O que não veio a acontecer com os nossos dióspiros, esse sumptuoso fruto descido ao nível da mais desdourada das vulgaridades.
12 novembro, 2025
CASTA DIVA
11 novembro, 2025
NA MELHOR PAISAGEM CAI A NÓDOA
Tenho em casa uma bela vista, uma paisagem rural com serra ao fundo. Amiúde me ponho à janela a contemplá-la enquanto bebo café ou chá, ou deixo derreter lentamente um pedaço de chocolate negro. Há dias, a magnífica vista passou a ficar conspurcada por um enorme cartaz no qual um emergente político lembra que os ciganos devem cumprir a lei. O cartaz é duplamente violento. Esteticamente, no modo como interfere na melancólica fruição da paisagem. Mas também por me lembrar, não que existem demagogos e charlatães, pois sempre os houve e haverá, mas a famosa de Kraus «o segredo do demagogo é fazer-se passar por tão estúpido quanto o seu auditório, para que este imagine ser tão esperto quanto ele». Ideia profundamente irritante, a de me saber rodeado de gente estúpida, pior ainda quando, no recato doméstico, uma pessoa se aproxima da janela para fruir de uma bela paisagem.
10 novembro, 2025
VENTURA, VENTURA, VENTURA
Ele adorava a América. Nos dias em que a ração era boa ele exclamava: América! Quando via um primeiro-tenente «fino», dizia: América! E como eu era bom atirador ele chamava aos meus tiros: América!
Tendo ontem chegado já tarde à estação do Entroncamento tive de pegar um táxi convencional por a Uber já não fazer serviço a partir de certa hora. Entrei expectante sobre o tempo que iria demorar o taxista a dizer mal dos pretos, ciganos ou imigrantes em geral. Não disse, mas há que refrear o optimismo. Nem um minuto demorou para começar a falar mal do Entroncamento, isto é, do que deveria ter sido feito pela anterior câmara, mais isto e aquilo de errado nos últimos anos para, logo de seguida, desabafar três vezes que do que o Entroncamento precisa é de políticos que gostem de Portugal e dos portugueses. Achei estranho ele não ter dito políticos que gostem do Entroncamento e das pessoas do Entroncamento, mas logo pensando tratar-se de um taxista e, como se isso não bastasse, de um dos três concelhos de Portugal onde André Ventura foi eleito presidente de câmara, passou a fazer todo o sentido.
08 novembro, 2025
GOYA REVISITADO
07 novembro, 2025
CONTRA-ILUMINISMO NA ESCOLA PORTUGUESA
06 novembro, 2025
O TAMBOR
«As pessoas continuavam a chegar de Berlim e de outras cidades. Eram pessoas que falavam em voz alta, gritavam e mentiam aos berros para calar a voz da consciência.»
Dizia Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, mais conhecido por Barão de Itararé, que o tambor faz barulho mas é vazio por dentro. Ainda que fazendo a frase perder a graça, corrigiria a adversativa para a transformar em causal: o tambor faz barulho porque é vazio. E, já agora, quanto mais vazio mais barulho faz. O barulho é sem dúvida uma importante categoria política que revela uma enorme falta dela com o intuito de adormecer as consciências dos outros.
05 novembro, 2025
KITSCH NET
Diria que os repuxos em lagos estão para a natureza como os leões nos muros das casas do Portugal profundo para o gótico. Uma espécie de recriação fofinha da tempestade no mar apresentada por Kant como exemplo de sublime. Ideal, pois, para, em segurança, fazer mais umas selfies para o Instagram.
04 novembro, 2025
CHAPÉUS HÁ MUITOS
«Em toda a minha vida nunca vira um chapéu de feltro tão bonito, era uma maravilha, a cor clara, suave e terna do chapéu não se podia definir bem e, no meio, as dobras tinham sido cuidadosamente feitas. Se eu algum dia usasse este chapéu, sentiria repugnância em cumprimentar alguém, por isso perdoo a Alexander o facto de ele não cumprimentar as pessoas, só põe um dedo no chapéu, o dedo indicador, e faz continência como os militares quando correspondem aos cumprimentos de um cozinheiro militar.»
E quem diz o chapéu diz a cor da pele, a nacionalidade, o apelido, a profissão. Tudo chapéus que nos empossam de um estatuto que nos eleva tão acima do comum dos mortais que o corpo acaba por ignorá-los, obrigando apenas ao movimento de um dedo blasé. O mundo, na verdade, é um quartel, com os seus códigos bem estabelecidos e onde a farda anula o simples cidadão que, moral e humanamente, é apenas mais um, mas que dentro da sua consciência, e nem precisa de ser nas suas profundezas, consegue ser menos um.
03 novembro, 2025
S. TOMÉ 2.0
02 novembro, 2025
01 novembro, 2025
HALLOWEEN
O modo tão natural e sorrateiro que quase nem se deu por isso, como em tão pouco tempo passámos dos santos e bolinhos para as abóboras e bruxas, ou seja, de um imaginário cristão para um imaginário pagão, leva-me a desconfiar que talvez não tenha sido assim tão diferente a passagem do imaginário pagão para o imaginário cristão nos primeiros séculos do anterior milénio. A história é mesmo assim, não funciona por decreto (se bem que no caso da religião alguma dela tenha sido imposta aos respectivos povos), mas como um novo gás, invisível e inodoro, lentamente inalado, levando as pessoas a adormecerem com uma consciência para acordarem na manhã do dia seguinte já com outra.
31 outubro, 2025
A CONSCIÊNCIA COMO CIÊNCIA PERENE
30 outubro, 2025
MEIO CHEIO
29 outubro, 2025
ENTRONCAMENTO
Durante muito tempo usei o táxi convencional para me levar da estação do Entroncamento até à terra onde vivo. Entretanto, passei para o Uber, e o benefício, sendo também financeiro, é ainda maior ao nível da minha saúde mental. Em vez de massacrado com raivosos ou insidiosos discursos contra os imigrantes, como se fossem cartazes sonoros, passei a ser conduzido pelos próprios imigrantes, o que me permite viajar, seja envolvido num repousante silêncio, seja ir sabendo coisas sobre eles e os seus países de origem, como se nesses momentos estivesse no Bangladesh ou qualquer outro país onde não há o perigo de darmos de frente com certos portugueses.
28 outubro, 2025
A VERDADE A QUE TEMOS DIREITO
Dizer a verdade é um dever se as pessoas tiverem direito a ela, Benjamin Constant dixit. O povo tem assim os políticos que merece, digo eu.
27 outubro, 2025
O LORNHÃO
«A Senhora Bernheim olhou para Paul, durante uns minutos, através do lornhão. Ele sabia que isso significava a preparação da sua mãe para um «tema sério» e esperou.
-Agora estás com trinta anos, Paul - disse a Senhora Bernheim.
A menção dos seus trinta anos afectou-o dolorosamente, como se fossem um padecimento físico. Pois aí estavam, é claro, esses trinta anos, e ele a nada tinha conseguido chegar. (...)
- Nunca pensaste em casar? - perguntou a mãe, algo severa, continuando com o lornhão diante dos olhos.
- Onde é que há mulheres? - disse Paul.
- Há mulheres suficientes, meu menino, tens de olhar à tua volta.
Ela afastou outra vez o lornhão e deixou-o escorregar para a anca, como quem mete uma espada na bainha.»
26 outubro, 2025
INTRODUÇÃO À FILOSOFIA POLÍTICA
Mesmo à minha frente, um fedelho dos seus quinze anos atira um pacote de sumo para o chão, com a agravante de tal ocorrer perto de um caixote do lixo. Advertindo educadamente o garoto, dizendo que a rua é de todos e que todos deverão mantê-la limpa, esclareceu-me que isso era problema dele e fazia o que bem entendia. Entendimento esse que já fará dele mais um viril ultraliberal em potência para juntar ao rol dos ungidos, mais um daqueles indivíduos, portanto, que pensam que mais do que pertencerem a um Estado o que conta é o verdadeiro estado desses indivíduos.
25 outubro, 2025
CONVULSÕES
«Sobre dois estrados situados frente a frente, os músicos desencadeavam-se. Não deixavam que surgisse uma pausa. Quando um tímido silêncio começava a desabrochar, após uma banda ter acabado um tango, a outra banda caía com um jazz em cima do minuto silencioso e esmagava-o entre o tambor e o saxofone. Os pares dançavam incansavelmente.» Joseph Roth, Direita e Esquerda
No famoso livro «O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu», do não menos famoso neurologista Oliver Sacks, são apresentadas duas mulheres idosas que têm em comum ouvir ininterruptamente música dentro das suas cabeças como se tivessem um rádio lá dentro, chegando a ter dificuldade em perceber o que lhes diziam devido ao barulho. Ambas as mulheres foram vítimas de convulsões lobo-temporais, uma devido a uma trombose numa zona do lobo temporal direito, a outra por causa de um raro fenómeno epiléptico. Sem epilepsias e tromboses, o mesmo se passa hoje com o mundo da informação no qual, como servos voluntários, nos vamos despenhando, mentalmente esmagados pelos factos, sejam estes megafactos, minifactos, microfactos ou pseudofactos, um mundo de permanente ruído, sem silêncio, descanso, beleza, lugar para a imaginação ou devaneio, para o prazer de retirar a ficha da tomada eléctrica que nos liga ao mundo onde nos calhou viver. Tal como naquele casino entre o tambor e o saxofone, nós, entre o rato e o comando, vamos sendo convulsivamente informados até adormecermos de vez.
24 outubro, 2025
MEIO CAMINHO ANDADO
«Os nossos negócios são assim», disse Glanz. «O Böhlaug é um rico de coração pequeno. Veja como são as coisas, senhor Dan, as pessoas não têm mau coração, têm-no é pequeno, é um coração onde além da mulher e do filho não cabe mais nada.»
É caso para lembrar aquela divertida ideia de que, moralmente, só há dois tipos de pessoas: as más e as muito más, sendo as más aquelas que habitualmente consideramos boas. E que são, felizmente, a maioria. Aliás, a língua portuguesa tem uma expressão feliz, «Até nem é má pessoa», a qual indica quem não tem força suficiente para ser bom nem fraqueza em demasia para ser mau. Como o peão que fica parado a meio da rua, tão longe do passeio donde partiu como do que deseja alcançar. Não ser má pessoa é assim uma maneira simpática e indulgente de ser boa pessoa. O comentário de Glanz vai noutra direcção, mas só aparentemente. É verdade que apresenta um padrão quantitativo que justifica a dificuldade de sermos melhores com a pequenez do nosso músculo cardíaco. Fosse maior e seríamos melhores pessoas. Mas que de um modo realista também nos situa no nosso lugar natural, redimindo-nos do egoísmo, da indiferença face ao sofrimento alheio, da ausência de compaixão, apresentando a dificuldade em sermos melhores quase no mesmo plano da impossibilidade de estarmos em dois lugares ao mesmo tempo. E quem dá o que pode a mais não é obrigado.
23 outubro, 2025
MÁSCARAS
22 outubro, 2025
NUDEZ
«Chegou novamente o tempo dos emigrantes. Eles vinham em grupos, alguns sozinhos. Eram trazidos por caudais de água como alguns peixes em certas épocas do ano. Os emigrantes vão na enxurrada para o Ocidente, levados pelo destino. [...] Conhecem países estrangeiros e outras vidas e, da mesma maneira que eu, já despiram muita vida.»
Seria difícil aqui não pensar na queirosiana «nudez crua da verdade» sob «o mando diáfano da fantasia». Apresentar a vida como coisa que se despe remete, nalguns casos, para um strip-tease existencial, quando é a própria vida que se vai despindo diante de uns desprevenidos olhos que nada podem fazer a não ser assistir ao espectáculo. Já noutros, será a própria pessoa, com as suas inquietas e habilidosas mãos, que vai desvelando a nudez, tirando peça de roupa aqui, peça de roupa ali. Claro que as surpresas podem ser mais, ou menos, agradáveis e, muitas vezes, o que se esconde sob a roupa não é coisa bonita de se ver, como, de resto, mostra a história e as vidas de tanta gente. Tanta gente que nasce, vive e morre, e o que lhes ficou da vida foi uma nudez escondida por grossos e opacos mantos de uma fantasia que, não raras vezes, deixa também imenso a desejar.
21 outubro, 2025
FORA DE SERVIÇO
«Os seus olhos oblíquos focavam-se nas casas, nas tabuletas das firmas, nas montras das lojas, nas árvores à beira da rua, nos veículos e quiosques que, com o encerramento dominical, se assemelhavam a capelas desconsagradas e furtadas ao serviço religioso.»
Estranha-se, mas veja-se como um escritor austríaco de origem judaica, ainda para mais vindo da longínqua Galícia Oriental, ajuda a explicar, em 1929, por que razão, quase cem anos depois, os portugueses são maioritariamente contra o encerramento do comércio ao domingo. O que já não se estranhará é o facto de num povo tão religioso como o português se tratar de uma explicação religiosa. Haverá coisa mais desconsoladora para uma pessoa religiosa do que estar profanamente ante um templo desconsagrado?
20 outubro, 2025
AS VOZES NO SILÊNCIO
«O mais agradável tempo de Primavera e uma fertilidade luxuriante espalhavam sobre todo o vale a sensação de uma paz revigorante, que o desastrado guia me estragava com a sua erudição, sempre a contar como Aníbal travou aqui uma batalha e todos os incríveis feitos de guerra que tiveram lugar neste vale. Com modos pouco corteses, admoestei-o por estar a lembrar-nos esses fantasmas do passado. E fiz-lhe ver que já nos chegava saber que de tempos a tempos as colheitas eram arrasadas, se não sempre por elefantes, pelo menos por cavalos e homens. Se ao menos não nos assustassem a imaginação e o seu sonho de paz com essas pelejas revisitadas»
Estamos tão habituados que já nem reparamos no que perdemos quando vemos um filme legendado. Por muito treinados que estejamos, é impossível não sacrificar o que se vê para dar atenção ao que se diz. O mesmo vale para uma visita guiada, sendo muitas delas, infelizmente, obrigatórias, impedindo a pessoa de deambular livremente por um lugar, conduzida apenas pelos seus olhos. Não quero dizer com isto que não se aprendam coisas interessantes com o guia. Aprendem, e até se devem aprender. O que não é possível é ver, tal como deve ser visto, enquanto se aprende. São dois movimentos distintos, os dos olhos e o da mente, que se podem completar, mas não em simultâneo. Vê-se primeiro para aprender depois, ou aprende-se primeiro para ver depois, exercício hoje cada vez mais acessível, graças aos meios técnicos de que dispomos. A melhor experiência que tive no que a esta conjugação diz respeito foi na maravilhosa Cappella degli Scrovegni, em Pádua, para ver os frescos de Giotto. Só há visita por grupos (com marcação), com uma duração de 40 minutos. As pessoas entram para uma sala na qual se sentam a assistir a um vídeo de 20 minutos sobre a capela. Depois, entram nesta, ficando entregues a si próprios durante mais 20 minutos para ver o que quiserem e o tempo que quiserem, folheando com os olhos os vários capítulos desse grandioso e colorido livro de pedra que tanto dá que pensar. Mas em silêncio, tal como o vate alemão também gostaria de estar, sem ter que apanhar com Aníbal e respectivo elefante a ressoar dentro da sua cabeça.
19 outubro, 2025
OSTINATO RIGORE
«Henry Bloomfield observa tudo com rigor, os seus olhos decoram o mundo» Joseph Roth, Hotel Savoy
Um quase berbicacho: os seus olhos decoram o mundo no sentido de o memorizar ou decoram o mundo no sentido de o embelezar? Quase berbicacho pois bem sei que surge no primeiro sentido. Aqui, nem sequer importa como está no original alemão, há, sim, que aproveitar esta feliz homonímia que pode suscitar confusão, ao contrário de outras como o canto da ave ou o canto da sala, ainda que o senhor Houaiss me explique que decorar (memorização) vem do latim cor, cordis, pondo o coração como sede da memória, e decorar (ornamentação), deve-se a decus, oris, ornato, enfeite. Portanto, raízes bem diferentes que dão origem a sentidos diferentes.
Acontece que os dois olhares, o que decora para memorizar e o que decora para embelezar, podem ser aglutinados, mesmo que o desígnio estético do segundo possa não existir no olhar neutro e frio de quem memoriza como quem lida com símbolos químicos ou capitais de países. Acontece que estes são entidades mentais, o que não acontece com uma sala ou uma paisagem. Quem usa clinicamente o olhar para memorizar uma sala ou uma paisagem, fá-lo com o mesmo olhar atento e estudioso de quem ornamenta uma sala, ou percebe o que há de ornamental numa paisagem. Um olhar preso a todos os pormenores particulares ou combinatórios do que há diante dos olhos. Quando, no olhar da arquitectura, acaba a técnica para dar lugar à estética, ou vice-versa? A língua alemã tem poderes fantásticos para se poder brincar com as palavras, não sendo isso razão para esquecermos os da nossa.
18 outubro, 2025
CORREDORES
Cada um aplica os critérios que bem entender, incluindo os mais complexos e sofisticados. Já o meu critério para avaliar o quanto gosto de um quadro é muito básico e devidamente adequado à minha básica natureza: quanto maior a dificuldade em sair da sua frente pendurado na parede do museu, maior é a minha forte adesão, ou para usar um termo mais radical, aderência, ao quadro. E quando por fim arredo pé, é afastando-me devagarinho, chegando nalguns casos a virar várias vezes a cabeça, como aqueles amantes que após se despedirem à saída de um café se vão beijando com os olhos até a esquina da rua os separar de vez. Com os livros acontece o mesmo. Um enorme pudor em voltar a pô-los na estante, uma inexorável pulsão para de novo folheá-los, seja para reler passagens do que é pecado ser lido apenas uma vez, seja pela pedrinha preciosa que pode ter escapado enquanto remexia o tesouro. Não dramático, apenas levemente melancólico, é saber que enquanto o livro continua na estante à distância de um braço, os quadros que vejo pela última ficam apenas guardados nos corredores de um museu imaginário que percorro levado por alguma memória e bastante esquecimento.
09 agosto, 2024
GATOS
Já adultas poderão ter cães ou gatos conforme as preferências. Mas para benefício da sua formação moral, uma criança deveria ter apenas gatos. Enquanto o fiel amigo é reverente, submisso, adulador, dependente e incondicional, o gato é distante, ensismesmado, livre e caprichoso, preparando a criança para aprender a persuadir, negociar (ceder), compreender a sua relativa posição no mundo e limitações da sua vontade e poder. Crescer com um gato é o melhor antídoto para o egocentrismo e a prepotência, um estímulo à delicadeza e subtileza dos gestos e da linguagem.
08 agosto, 2024
VOX POPULI
Analistas, jornalistas e intelectuais em geral, talvez não saibam, nem isso desejam, que ao chamarem, depreciativamente, populistas a certos partidos e políticos, é o povo (populus) que acabam por mais menosprezar ou mesmo insultar. Isto, a fazer fé no grande Karl Kraus, que dizia que o segredo do demagogo (e esses políticos e partidos são os que mais, e até algo cientificamente, abusam da demagogia) é fazer-se passar por tão estúpido quanto o povo para que este se julgue tão inteligente quanto ele.
07 agosto, 2024
PRESENÇA
Diz Brigge que tem 28 anos e que praticamente ainda nada aconteceu. Pobre coitado, dirão uns, a quem muito aconteceu. Felizardo, dirão outros, a quem muito também aconteceu. E daí?, dirá talvez a maioria. Seguindo o poeta Manuel António Pina, as vidas dessas pessoas passaram e elas não estavam lá. No passado domingo, dois casais e três crianças faziam um piquenique à sombra de uma árvore no jardim.
06 agosto, 2024
BACHAREL
Diz-se ser a música de Bach a que mais se aproximaria da de Deus se Lhe desse para ser compositor. Sim, mas só no caso de ser o Deus de Espinosa. Fosse o de Moisés, Abraão e David, com a sua manifesta falta de jeito para a Geometria, não passaria do bacharelato, ficando bem mais próximo da bipolaridade romântica do século XIX e, no caso de se virar para a ópera, alternando entre as exaltações de Siegfried e as lágrimas de Mimi.
05 agosto, 2024
REFUGIADOS
04 agosto, 2024
EXECUÇÃO
03 agosto, 2024
COSMOPOLITISMO
02 agosto, 2024
INCOMENSURABILIDADE
Não sei o que é pior: um mau perfume, uma voz irritante, ou uma melancia farinhenta.
01 agosto, 2024
CABOS
Crianças e jovens aprendem nas aulas de História que existe um cabo que começou por ser das Tormentas para passar a ser da Boa Esperança. Já na vida aprendem quase sempre o contrário, e não é apenas com o cabo dos trabalhos.
31 julho, 2024
HOMEM SEM QUALIDADES
Andando pelas ruas no meio de cada vez mais pessoas cada vez mais tatuadas, sinto-me cada vez mais um transparente fantasma que vê mas sem ser visto. Não podendo tatuar-me devido a problemas de pele, uma boa possibilidade seria sair à rua de fato completo, chapéu, bengala com uma pega de marfim, e um monóculo no olho fazendo pendant com um bigode Arte Nova e, cereja por cima de uma sachertorte, de braço dado com uma mulher com a etérea mas forte presença de uma cariátide, como se acabadinho de chegar do império austro-húngaro.
30 julho, 2024
RESSENTIMENTO
Começo a ficar cansado de homossexuais orgulhosos por serem homossexuais, negros orgulhosos por serem negros, mulheres orgulhosas por serem mulheres, admitindo que tal cansaço se deva a um certo ressentimento por ser homem, branco e heterossexual, ficando assim sem motivos para me poder orgulhar.
29 julho, 2024
28 julho, 2024
27 julho, 2024
A PRAIA
Vi uma interessante fotografia [David Goldblatt] do tempo do Apartheid, na África do Sul. Estamos diante de uma praia, havendo uma placa a indicar que o lado direito é para uso exclusivo dos brancos, e uma outra a indicar que o lado esquerdo se destina a todas as outras raças. Até aqui nada de anormal, digamos assim. Porém, fica-se a saber pela ficha técnica fixada ao lado da fotografia que se os os brancos quisessem podiam entrar na praia das outras raças, e faziam-no quando se tratava de levar os cães a fazer as suas necessidades. Não me surpreende que pessoas de outras outras raças se sentissem contentes e orgulhosas ao verem brancos na sua praia, ainda que por breves instantes. Não o digo por saber que fosse assim, mas por saber que ainda hoje, e não raras vezes, é assim.
26 julho, 2024
LINHAS VERMELHAS
25 julho, 2024
VÃ GLÓRIA DE ENSINAR
Há anos, na aula de apresentação de Psicologia, inquirindo os alunos sobre a razão que os levou a escolher a disciplina, respondeu um deles que foi para ali para tentar compreender a estupidez humana. Curiosidade nobre e nada desprovida de interesse, a qual pode ser satisfeita pela natureza empírica desta ciência. Anos depois, acredito que bem mais importante do que as causas, será desmontar a própria natureza da estupidez, assim como as suas consequências, que podem fazer do estúpido uma vítima de si mesmo, mas pronto, isso é lá com ele, mas, pior, tornar os outros vítimas da sua estupidez. E isso não é tarefa da Psicologia mas da Filosofia, dando por mim, ainda que com descarados desvios do programa que sou pago para leccionar, cada vez mais empenhado nessa tarefa, mesmo com a consciência de se tratar de uma inglória luta contra um Golias cada vez mais difícil de derrotar, o que poderá também ser uma eloquente prova da minha própria e nada pequena estupidez.
24 julho, 2024
O AFIA-LÁPIS
23 julho, 2024
ALGODÃO ENGANADOR
Há já uns bons anos a viver numa casa cuja cozinha é toda branca, ainda hoje vacilo sobre a sua cor. Há dias em que gosto por assim realçar a mais pequena mancha de sujidade e poder logo limpar. Mas há outros em que, muito sinceramente, preferia que fosse outra a cor para passar despercebida alguma sujidade. É pena o mesmo critério não poder ser aplicado à natureza humana, a qual, algo paradoxalmente, aparece tantas vezes branca para assim poder disfarçar as suas horríveis, ou pelo menos desagradáveis, manchas de sujidade.
22 julho, 2024
GILDA
Ficou gravado na pedra o que disse Rita Hayworth a respeito de Gilda. Há duas versões, a verdadeira e a apócrifa, mas também pouco importa: «Every men I knew went to bed with Gilda and woke up with me» ou «They fell in love with Gilda and woke up with me». A frase ficou tão colada à actriz como a Estátua da Liberdade a Nova Iorque, a Torre Eiffel a Paris ou os pastéis de Belém a Lisboa, mas, vendo bem, não é isso que acontece com a maioria, tanto dos homens como das mulheres, nem que seja anos depois?
21 julho, 2024
PUT THE BLAME ON MAME
20 julho, 2024
O SINO
Uma pessoa pode caminhar de manhã bem cedo pelo mais belo cemitério do mundo, banhado por uma luz perfeita para fotografar os seus eternos residentes de pedra envolvidos por elegantes e sumptuosas árvores. Mas como fotografar o som de um sino que ecoa pelo absoluto silêncio da manhã como fizesse parte dele?
19 julho, 2024
APARÊNCIAS
A palavra aparência apresenta um duplo significado: tanto pode referir-se ao aspecto de uma coisa ou pessoa, como à sua falsidade, sendo extraordinária a facilidade com que aceitamos a ideia de que o que vemos poder desde logo ser falso. Não menos extraordinário é o modo como tantas vezes usamos a expressão "falsas aparências" sem darmos conta da redundância, mas que talvez se explique facilmente por estarmos tão habituados a acreditar na diferença entre as tais aparências falsas, as que os outros vêem, e daí dizer-se que as aparências iludem, e aparências verdadeiras, que são, obviamente, as nossas.
18 julho, 2024
ESPERANÇA DE VIDA
É muito bom passarmos a vida a adiar o que gostaríamos fazer. Aproximarmo-nos da morte, continuando a esperar é, seguramente, a melhor maneira de aumentar a esperança de vida. Uma pessoa morre, mas morre cheia de esperança de vida.
17 julho, 2024
HERMES
16 julho, 2024
VAI E VÊ
Um golo de Nico Williams pela Espanha, de Mpabbé pela França ou de Rafael Leão por Portugal, fazem mais contra o racismo do que dezenas de sermões, PowerPoints didácticos ou documentários nas aulas de Educação para a Cidadania.
15 julho, 2024
ITÁLIAS
Quando, fora de Portugal, incluindo Espanha, tentam adivinhar a minha nacionalidade, atiram quase sempre com o ser italiano. Sabendo eu da boa fama que têm os homens italianos, para além da surpresa que nunca me abandona, deveria sentir-me vaidoso, mas, tendo um espelho lá em casa, acabo sempre por ficar meio embaraçado. Ainda bem que ontem vi Chiellini a transportar a taça do Europeu para o relvado, passando tudo a fazer sentido. Há a Itália de La Dolce Vita e dos anúncios do Martini, e a Itália do neo-realismo que marcou de tal modo a nossa memória colectiva que dela ainda não saiu.
10 julho, 2024
A TERCEIRA METAMORFOSE
Foi em Turim que o ardente vulcão em que se estava a transformar a cabeça de Nietzsche entrou em erupção para depois se extinguir de vez. Mas, antes disso, ironicamente, a temporada na cidade ia sendo marcada por dias de amena felicidade. Dormia bem, passaram-lhe as dores de cabeça e as náuseas, dava longos passeios pelas margens do rio, frequentava os cafés e livrarias da cidade, regalava-se com a comida, e havia um piano na residência onde estava alojado, mesmo ao lado da praça onde viria a ocorrer o célebre episódio com o cavalo. E os gelados, os gelados com os quais se regalava o filósofo. Antes da ardente erupção, o que mais gosto de imaginar é, sentada na pequena mas elegante sala do Fiorio (consta que eram os seus preferidos), uma criança grande toda ela concentrada na meticulosa mas alegre ciência de comer um gelado, fazendo coincidir o fim deste com o fim de si mesma.
09 julho, 2024
VÍRUS
08 julho, 2024
LÍNGUA
Há muitos anos que deixei de tomar café com açúcar e um único grão já provocaria hoje estragos nas minhas papilas gustativas como ervilha em cama de princesa. Também passei a comer iogurte natural sem açúcar mas, neste caso, sem perder a nostalgia do seu sabor quando a colher podia ficar em pé graças à quantidade de açúcar que nele deitava. Entretanto há coisas como iscas ou rins que sempre detestei e continuo ainda hoje a detestar. Como há outras como o chocolate de que sempre gostei e estou certo de que irei continuar a gostar. E pronto, eis a história da minha vida. Por muito que as nossas ideias, ideologias, idiossincrasias nos possam dar um rumo e convencerem-nos de que é graças a elas que temos um rumo, também no que somos, será sempre a língua, tal como a outra que, no meu caso, é a portuguesa, a determinar quando estamos em nossa casa ou, estranhos, num país cuja língua não percebemos de todo, ou balbuciamos, ou até podemos perceber quando ouvimos ou lemos, mas não falamos.
07 julho, 2024
TRADIÇÃO
Leio um livro, um texto literário, em versão bilingue. Só não passo o tempo a recorrer ao dicionário para saber o significado de inúmeras palavras traduzidas na minha própria língua porque basta olhar para a página esquerda e encontrar a vulgaríssima palavra original cujo significado qualquer inglês entende, e que usa no seu dia-a-dia desde criança. Uma tradução absurda, mas que acabo por compreender, se considerar, e ser professor ajuda bastante, que vivo num país, com o dom, tanto no discurso como na acção, de tornar complicado e ambíguo o que foi feito para ser simples e claro.
06 julho, 2024
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Consideraríamos absurdo um cego ter uma cor preferida, mas habituámo-nos bem à ideia de as pessoas terem opinião sobre tudo e um par de botas, e que alguns só por terem meio olho já possam ser reis.
05 julho, 2024
AUTIBIÓTICOS
04 julho, 2024
SETE SÍLABAS
03 julho, 2024
CAMUFLAGEM
02 julho, 2024
ENTRE ESTANTES
Entro no supermercado e logo a seguir a uns expositores com detergentes, cadeiras de praia e pacotes de pão bimbo, dou com uma pequena feira do livro, saindo minutos depois com um romance de Dostoievski com 40% de desconto, bem acompanhado de batatas, lata de grão, fatias de queijo flamengo e areia para o gato. Será degradante ou antes uma alegria dar com Dostoievski onde é habitual ver bolachas ou pacotes de sumo? Adaptemos o Teste de Turing à situação: diante da minha estante, peço que identifiquem os livros comprados em livrarias, os livros comprados no supermercado e os que vieram pelo correio. Como não vão conseguir, concluo que é indiferente o sítio onde se compram. Isto, se pensarmos no livro. Outra coisa é o acto de comprar o livro. É bem melhor comer uns belos filetes de pescada com salada russa num belo restaurante do que num vulgar e sem graça nenhuma, ou chegarem a casa trazidos numa mota. Mas se os filetes forem mesmo bons e a pessoa estiver só focada neles, ao contrário do puritano que não abdica de um belo restaurante, come-os nas mais diversas circunstâncias. Também é muito mais interessante comprar um livro no seu lugar natural, que é a livraria, a qual, quanto mais bonita for, mais o dignifica, embora em muitas os livros já tenham passado para segundo plano. Mas se no supermercado aparecer um bom livro à frente, não há como não o comprar. Depois, como na física aristotélica, cada coisa encontrará em casa o seu lugar natural: batatas na cozinha e Dostoievski na estante, bem acompanhado por ele próprio e os seus colegas russos.
01 julho, 2024
CONSONÂNCIA COGNITIVA
Retiro o que disse. Dizia eu que quanto mais descontraído, seguro e confiante alguém estiver com o que é, mais descontraído, seguro e confiante estará para, sem medo ou sem vergonha, se relacionar com o que não é ou mesmo com o contrário do que é. E disse-o porque embalado por padrões mentais de bom senso e normalidade que, por manifesta ingenuidade, tendo a associar ao ser humano em geral. Mas o que dizer de um racista, de um xenófobo ou de um pró-fascista, tão seguros, confiantes e descontraídos por serem o que são? E, pelos vistos, é para aí que o mundo caminha. Ora, se a Psicologia é uma ciência, e se a ciência incide sobre padrões, regularidades e previsibilidades, ainda que, como diria David Hume, contingentes, então é caso para dizer que quanto mais descontraído, seguro e confiante alguém estiver com o que é, menos descontraído, seguro e confiante estará para ter medo e vergonha de se relacionar com o que não é, e mais ainda com o contrário do que é.
30 junho, 2024
À PROVA DE BALA
O STOP é um antigo centro comercial onde, depois de encerrado, ensaiaram algumas bandas que vieram a ser conhecidas, sendo agora um espaço decrépito onde ensaiam bandas ainda não conhecidas ou que jamais virão a sê-lo. O que aqui temos à frente é algo de básico da psicologia humana e cujo benefício moral e social não deve ser desprezado: quanto mais descontraído, seguro e confiante alguém estiver com o que é, mais descontraído, seguro e confiante estará para, sem medo ou sem vergonha, se relacionar com o que não é ou mesmo com o contrário do que é.
29 junho, 2024
28 junho, 2024
JE NE SAIS QUOI
Na minha escola há o hábito de ler um texto no início de cada conselho de turma, quase sempre um poema. Esta semana, poucos dias depois de uma ex-aluna me ter dito que estava aware de uma determinada situação, uma colega escolheu duas passagens da Antígona, o que muito me alegrou, por não ter de ouvir mais um poema e por ser um dos meus textos preferidos, mas informando que iria lê-las em Inglês. A professora, que não é de Inglês, é uma jovem, tão jovem que, no dia em que chegou à escola, ao entrar num pavilhão para dar aula, a funcionária começou a ralhar com ela por os alunos só poderem entrar depois dos professores. Começa a ser cada vez mais habitual ver jovens, os poucos que lêem, lendo em Inglês, ou a misturarem palavras inglesas com portuguesas. Apesar do sinal de cosmopolitismo, provando que já não somos os bárbaros lusitanos de Tácito, foi maior o meu prazer ao receber de um jovem (também anglófilo) uma caixinha de chocolates. Pelos chocolates, claro, mas por estar escrito na caixa a palavra "Merci", que, por ser francesa, aparenta cada vez mais o raro estatuto e arcaico sabor de uma palavra grega ou latina. Gosto muito de Inglaterra, ouvi muita, e continuo a ouvir, música anglo-saxónica, ainda hoje, apesar de não ter lareira, não me sai da cabeça "Home, home again/I like to be here when I can/And when I come home, cold and tired/it's good to warm my bones beside the fire", gosto de scones com manteiga no Inverno, do mundo de Beatrix Potter, de ouvir as vozes do Jeremy Irons ou do John Gielgud a falar aquela língua, das capas dos Genesis, e tenho um gato cujo nome pedi emprestado a Virginia Woolf. Mas foi o Francês a minha primeira língua, foi pela música francesa e o cinema francês que comecei, fiz o meu curso a ler Francês, aprendi primeiro a andar sozinho em Paris do que em Lisboa, cidade onde fui muito feliz na infância e adolescência, e tive como primeira paixão uma francesa, mais velha do que eu no alto dos seus 12 anos. Mesmo não sendo verdade que não há amor como o primeiro, o mesmo não se pode dizer de um país e ainda hoje não consigo subir ou descer os Campos Elíseos sem ser alegremente assaltado pelo Joe Dassin, tão alegre como na primeira vez em que olhava para todo o lado na esperança de que por ali passasse a Françoise Hardy.
27 junho, 2024
A ESPERTEZA ENQUANTO CATEGORIA FILOSÓFICA
Como são possíveis os juízos sintéticos a priori? Eis um daqueles problemas filosóficos em que só a pergunta já põe uma pessoa a bocejar e a pedir desculpa por ter de ir comprar cebolas para o jantar. Muito mais engraçado é saber se, tal como a digestão, que se explica apenas pelo funcionamento do aparelho digestivo, também a nossa vida mental pode ser reduzida a essa viscosa e nojenta massa cinzenta, bem arrumadinha na caixa craniana e que pesa pouco mais que um pacote de arroz, mesmo envolvendo processos mentais tão nobres e elevados como visões místicas ou decidir o que se vai comer ao jantar. O problema é contemporâneo e ainda mais desafiante graças às neurociências, mas já tem longas barbas como as dos filósofos gregos que a ele também se dedicaram, assim como muitos outros, com barba ou sem ela e até com um elegante bigode francês, como Descartes. Alma, espírito, mente, daimon, cogito, intelecto, razão, são tudo noções que servem para defender uma vida que não passa só pelo corpo, ou mesmo uma vida para além desta vida na qual um dia deixamos o corpo a fazer tijolo enquanto a alma levita como um balão do S. João mas sem o fogo que tantas vezes a fez arder enquanto submetida ao vil império dos sentidos. Como é fácil de ver, trata-se de uma matéria que envolve questões de natureza antropológica, epistemológica e moral (e religiosa) que ainda hoje continuam a alimentar a filosofia, essa área do saber com tantas perguntas e ainda mais respostas. Respostas que, também aqui, pelos vistos, continuam a ser oferecidas à humanidade que por engano entra numa livraria em vez de uma loja de fatos de banho ou de produtos gourmet. Somos muito mais do que o nosso cérebro revela através de uma tomografia? Claro que somos. Mas deixemo-nos de velhas e bafientas noções como alma, espírito ou mente. O que nos torna superiores aos animais ou alguns de nós superiores a outros que apesar de terem uma alma esquecem-se demasiadas vezes dela, é a esperteza. Se o cérebro serve para explicar a normal e previsível vida de um ser humano, é na esperteza que encontra a sua liberdade e salvação.
26 junho, 2024
PAPELARIA
Mais em terras pequenas do que nas grandes cidades, e talvez por falta de leitores suficientes, a ideia de livraria estava, e ainda está, quase sempre associada à ideia de papelaria, havendo nelas uma distinção entre a secção de livros e a de objectos de papel, em maior quantidade, como cadernos ou folhas de cartolina. Já em Lisboa ou no Porto havia grandes e boas livrarias (muitas delas já fecharam) como em Paris ou Londres, onde o livro era rei. Não um livro qualquer, embora também os houvesse, mas sobretudo o livro que está para a livraria como o bom perfume para a perfumaria ou um certo bolo especial para a pastelaria. Esta distinção entre livraria e livraria/papelaria é assim uma coisa do género do que distingue uma bela imperial de um panaché ou um bom perfume francês de uma simples água de colónia. Todavia, ao entrar hoje no espaço que, talvez por pudor, ainda se chama livraria, fica-se com a sensação de estar a entrar sobretudo numa papelaria, um espaço rodeado de papel por todo o lado, incluindo livros que, sendo papel com letras, pouca diferença fazem de papel sem letras, como é o caso dos guardanapos ou lenços para assoar o nariz, os quais, apesar de ainda não se venderem em livrarias, já ocupam os escaparates das lojas de museus de pintura cheios de povo ávido por ter um contacto mais orgânico com as obras de arte do que com olhos, havendo assim, quem sabe, a possibilidade de um dia virem também a aparecer folhas de livros para limpar a boca do molho do bife ou assoar o nariz. Se dantes um livro era um objecto feito de papel, no qual as letras eram a substância e o papel um mero acidente, hoje, um livro é substancialmente um pedaço de papel que por acaso também pode apresentar letras, mesmo que não se perceba bem o que possam lá estar a fazer.
25 junho, 2024
UTOPIA
Quem não é do Porto ou nunca foi ao S. João, não consegue entender o seu alcance, o mais próximo que estive de uma experiência utópica. Daria para escrever um pequeno estudo sobre isso, mas como mais de dez linhas já desmoralizam um leitor, fico-me pelos martelos. Tal como o futebol pode ser uma sublimação das velhas guerras tribais, julgava serem os martelos um modo socialmente aceitável e até divertido de descarregar a natural agressividade do animal que também somos. Não é. Os martelos são uma comovente manifestação de amizade e amor universal. Aparecesse Cristo na noite de S. João, como em Sevilha nos Irmãos Karamazov, e ele próprio andaria a martelar toda a noite e fazendo a multiplicação dos martelos em vez de pães e peixe, neste caso, sardinhas. E o mesmo com S. Paulo, Thomas Müntzer, Joaquim de Fiore, Rousseau, Marx, Cabet ou Kropotkin, todos devidadmente martelando e martelados sem parar, na noite de S. João. Madrugador que sou, na manhã seguinte, acabada a festa, fui dar com uma cidade transformada numa lixeira e cheia de cantos e recantos com um cheiro insuportável. Muito, mas muito trabalho mesmo para os homens do lixo, tendo em mãos a tarefa de limpar todos os estragos da festa, ajudando a regressar uma bem menos feliz, mas mais habitável cidade. A mesma tarefa de políticos que tiveram a nobre e difícil missão de fazer esquecer lixeiras sociais e políticas resultantes do desejo de transformar o homem no que ele não é. O S. João, felizmente, não é uma utopia, mas uma sublimação da utopia, como também o lixo da manhã seguinte não passa de uma apenas desagradável sublimação das lixeiras da história deixadas por desvarios utópicos. Assim sendo, foi muito bonita a festa, pá, e até para o ano.
24 junho, 2024
FLORZINHAS
O Ípsilon traz um artigo sobre Carlos Portugal, antigo cantor de música de intervenção. Não o conhecia e não precisei de muito para perceber que a sua música não me interessa. Mas não pude deixar de levantar as orelhas com uma frase sua: "O homem é ele e as suas circunstâncias, portanto, se um tipo tem uma vida rica, canta as florzinhas e esse tipo de coisas". Isto para ele poder dizer que se um tipo for pobre, o que lhe aconteceu na vida, a sua circunstância impedi-lo-á de cantar florzinhas, levando-o naturalmente a focar-se nos problemas, coisa que ele fez com a sua música. Pois eu acho o contrário: é por se ser pobre que ainda faz mais falta o luxo de cantar as florzinhas facilmente cantadas por quem tem uma vida rica. E que quanto mais pobre se é mais falta fazem as florzinhas, fugindo assim à dupla condenação de ser pobre e de não poder cantar florzinhas. Basta pensar em tantos pintores, escritores ou músicos que viveram pobres ou chegaram a viver pobres, mas que se dedicaram a abrir as janelas para delas verem florzinhas e deixarem entrar o seu aroma pela casa dentro, em vez de janelas fechadas cujos vidros lhes devolvessem o reflexo das suas vidas. Como alguém dizia, se uma pessoa passar demasiado tempo a olhar para o abismo, o abismo passa também a olhar para ela.
23 junho, 2024
22 junho, 2024
O TERMÓMETRO
Dei ontem um apoio de preparação para exame a três alunas. Após duas intensas horas de trabalho, ficámos um bocadinho à conversa no decorrer da qual uma aluna me pergunta se já sou avô, pergunta que já vai sendo recorrente. Isto, poucos meses depois de, pela primeira vez, alguém me ceder o lugar num autocarro. Não, não sou avô, a não ser de um cão, e graças a Deus ainda tenho pernas que me deixam andar mais de 30 km num dia ou resistir aos tremeliques de um autocarro. Pronto, não consigo ver-me velho. Mas só me pode estar a acontecer o que acontece na meteorologia com a diferença entre temperatura e sensação térmica. Poderei sentir calor, mas embora não dê por isso, os dias hão-de estar mais curtos, a luz mais cinzenta e as árvores despidas de folhas, para já não falar no termómetro como prova definitiva de que só posso mesmo estar no Inverno.
21 junho, 2024
A PROMOÇÃO
Há dias, diante da secção de Jazz da minha estante de cd's, indo atrás dos meus olhos para decidir o que ouvir enquanto passasse a ferro, fui dar com uma caixa com quatro cd's de cuja existência não fazia a mais pequena ideia. Nem da caixa, nem do músico, que nada me dizia, nenhuma memória da compra. O que deve ter acontecido foi comprá-la às cegas para aproveitar o seu preço em promoção e, ao chegar a casa, arrumá-la na prateleira onde ficou para ali esquecida. Tenho de confessar que foi uma agradável surpresa, assim como quando se descobre dinheiro no bolso de um casaco que não se veste há anos, acabando de ganhar uma caixa de cd's que não ganhei, do mesmo modo que se me fosse roubada também não seria um roubo pois não se fica sem o que não se sabe que se tem. Claro que foi logo um daqueles quatro cd's que fui ouvir e não posso dizer que não tenha gostado. Gostei, embora não tenha gostado muito, o que tirou algum entusiasmo ao ganho. Tendo tantos cd's dos quais gosto muito, o mais provável é nunca mais voltar a ouvir esta caixa que irá para ali ficar de novo esquecida, mesmo com três cd's por ouvir. O que não deixa de ser preocupante, sobretudo por pensar que apesar de estar para aqui a falar de cd's, isto é mais sobre nós próprios, que passamos a vida a ser despromovidos com tanta coisa que nos aparece em promoção, e não estou a pensar necessariamente em coisas compradas. Maravilhosos tempos aqueles em que me custava tanto juntar duzentos escudos para comprar um disco que me iria fazer tão feliz.
20 junho, 2024
IMITAÇÃO DA IMITAÇÃO DE CRISTO
«Que sejas sempre um estranho e um hóspede nesta terra»
Nunca acabar de dizer o que tem para dizer é, segundo Italo Calvino, um dos critérios para se considerar um livro um clássico. Mas o que chamar a um livro, o qual, ainda que de modo acidental, não só não acabou de dizer o que tinha para dizer, mas que dirá ainda mais a quem o ler séculos depois do que quando foi escrito? Não sei dizer o que passaria pela cabeça de um leitor do século XV diante de A Imitação de Cristo, do monge alemão Tomás de Kempis. Do que já não tenho a menor dúvida é sobre o que deverá passar, e não há mesmo como não passar, pela de um leitor do século XXI.
19 junho, 2024
O ESTÁDIO PRÉ-OPERATÓRIO COMO ESTÁDIO SUPERIOR DO SENSÓRIO-MOTOR
Jamais poderia ser comunista pelas mesmas razões que jamais poderia ser fascista. Aborrece-me, sobretudo, a ideia do Estado poder entrar na minha vida bem para lá do que considero razoável. Ainda assim, sei distinguir um comunista de um fascista. Jamais deixaria de gostar ou ser amigo de um comunista só por ser comunista, o que fica bem mais difícil com um fascista. E apesar de considerar o comunismo deplorável, cultivo mesmo uma certa indulgência paternalista face à infantil disposição mental de muitos comunistas. Não só por acreditaram no Pai Natal, mas também pelo modo como sobrepõem o princípio do prazer ao princípio da realidade. Disposição infantil essa que pude recentemente confirmar com esta faixa. Uma das característica do estádio pré-operatório (3,4, 5 anos de idade) é o egocentrismo. Não o dos adultos, mas um egocentrismo cognitivo que leva as crianças a perceber a realidade a partir do seu eu. Por que razão existe a noite? Para a criança dormir. A criança não vai para a cama por ser de noite, é de noite por serem horas da criança ir para a cama. O mesmo que se lê nesta frase. Em vez de pedirem, o que pareceria razoável, para dar força à CDU para melhor defender o SNS, o que se pede é defender o SNS para dar força à CDU, como se o mundo girasse à volta da CDU. Um desvario lógico, é verdade, mas que até compreendo e aceito, como tanta coisa que compreendemos e aceitamos vinda de uma criança, neste caso, reforçado por saber que quando se está à beira de definhar, o centro de gravidade do pensamento fica reduzido à luta pela sobrevivência.
18 junho, 2024
SELVAGENS E SENTIMENTAIS
Há muito BCBG que, conseguindo fazer e discutir política com algum civismo, já com o futebol transforma-se, como diria Javier Marías, fervoroso adepto do Real Madrid, em selvagem e sentimental. Temos de admitir que tais 90 minutos de selvajaria e sentimentalismo não trazem grandes males ao mundo. Outra coisa são aqueles que, não sendo BCBG, orgulham-se de ser o contrário disso, mostrando afincadamente o que são e alimentando o prazer de o ser, e que no desgraçado momento em que resolvem interessar-se por política continuam a ser tão selvagens e sentimentais como num estádio de futebol, ou quando o discutem em cafés que parecem tabernas. As claques no futebol podem ser medonhas, mas são os jogadores que decidem quem são os vencedores e vencidos, enquanto na política e, mais concretamente, em democracia, são as claques partidárias, o que é ainda mais medonho. Na política, associar sentimentos ao que há de mais selvagem no ser humano é meio caminho andado para ficarmos todos a perder, mesmo os que ganharam.


























