06 janeiro, 2026

ACTIVIDADE PISCATÓRIA

Pieter Brugel, O Velho, Peixes Grandes Comem Os Peixes Pequenos [1556]

Há dois tipos de seres humanos: os que fazem pisca ao entrarem numa rotunda e os que não fazem pisca ao entrarem numa rotunda. Politicamente, os primeiros tendem a ser mais liberais, os segundos mais socialistas ou sociais-democratas. Como na gravura de Bruegel, uns acreditam que o mundo é um mar onde há peixes grandes e peixes pequenos, tendo os desejos e interesses dos primeiros total prioridade sobre os desejos e interesses dos segundos. Já outros acreditam que o mundo é mais um aquário onde peixes maiores e mais pequenos coexistem sem sobressaltos de maior porque os desejos e interesses de uns podem conciliar-se com os desejos e interesses de outros. Fossem peixes os condutores nas rotundas e não seria muito diferente.

05 janeiro, 2026

SLOG IN

Não gosto de slogans, deixam-me sempre algo assustado. Posso compreender o seu poder mobilizador, mas é precisamente esse poder que me assusta.

04 janeiro, 2026

PARE, ESCUTE E OLHE (E DEPOIS LOGO SE VÊ)

Há três tipos de seres humanos: os que param sempre no semáforo vermelho para peões mesmo que não haja carros a passar; os que atravessam, ainda que com carros a aproximarem-se, obrigando mesmo se for necessário os condutores a desviarem-se ou a reduzir a velocidade; e, por fim, os que param se houver carros a passar, mas que também prosseguem naturalmente o seu caminho se não os houver. Os últimos, com um bocado de sorte, tendem a ser os mais felizes.

03 janeiro, 2026

LEVANTA-TE E CAMINHA

Podemos dizer que conhecemos bem uma cidade a partir do momento em que deixamos de a ver, como uma criança que tudo observa enquanto gatinha, mas que quando aprende a andar apenas deseja seguir em frente.

26 dezembro, 2025

O TÚNEL

Calhou encontrar na rua uma rapariga do meu tempo, uma daquelas pessoas que se vêem de dez em dez anos ou mais, por virem à terra durante esta época natalícia. O grande clássico nestes encontros, após despachar as secções do trabalho, filhos, ou netos se houver, é a maléfica passagem do tempo sobre as nossas pessoas, concluindo ela com um suspiro e o amarelo sorriso da derrota que a velhice só traz chatices. Eu, com autoridade filosófica, neguei, lembrando uma qualidade trazida pela idade: a sabedoria. Os olhos dela abriram e o sorriso amarelo deu lugar a um sorriso mais animado: «-Sim, é isso, a sabedoria!». O que eu não quis explicar é o que traz essa sabedoria. Se fui eu a acender a luz ao fundo do túnel, também não iria ser eu a apagá-la.

25 dezembro, 2025

CAGE FRESCO

Acabo de eleger a mais sagrada, mágica e ansiolítica música para tão ansiogénica época do ano:  Os 4' 33´´, de John Cage. Mas numa versão mais extensa, de modo a coincidir em horas e dias com os que duram as rançosas músicas e canções de natal. Como se não bastasse o massacre, ontem à noite e hoje até foguetes ouvi, tão desnecessariamente ruidosos como as palmas que agora se ouvem nos funerais e no que já foram em tempos os minutos de silêncio nos estádios. Lufada de ar fresco precisa-se para a alma, começando desde logo pelos ouvidos.  

24 dezembro, 2025

LAVAGENS

Ontem lá resolvi fazer limpeza à casa, mas com preguiça para mudar de roupa. Razão pela qual vou dar comigo a esfregar furiosamente a banheira, tendo como roupa de trabalho uma camisola de gola alta de cachemira e calças de bombazina. A minha primeira reacção foi processar o chique de tal momento e o meu elevado nível de sofisticação. Mas sendo também possuidor de um razoável sentido da realidade, foi devaneio de pouca dura. Se é verdade que uma duquesa de avental continua a ser uma duquesa, um plebeu de cachemira continua a ser um plebeu. O saldo acabou por ser positivo. Lavei a casa de banho, sem fazer qualquer lavagem ao meu cérebro.

23 dezembro, 2025

ESPAÇO-TEMPO

Resolvi fazer o passeio do pós-almoço maior do que é costume, passando por sítios pouco habituais àquela hora. Vivo numa terra suficientemente pequena para não ser grande, ou suficientemente grande para não ser pequena, o que faz com que tanto passe a vida a encontrar pessoas conhecidas, como passe anos sem as encontrar. Neste caso, num curtíssimo espaço de tempo de uns 15 minutos, encontrei cinco ex-alunos em quatro diferentes momentos (duas ex-alunas vinham juntas) do passeio. Nada de estranho numa terra pequena onde passo a vida a encontrar ex-alunos. Extraordinário, sim, foi a primeira aluna desta série corresponder ao meu primeiro ano docente (1986), as duas últimas ao último (2024-25) e, entre elas, dois alunos distribuídos por períodos intermédios, um rapaz (agora pelos 50 anos) dos anos 90 e uma rapariga (agora na casa dos 40) já deste século. Usei a expressão "espaço de tempo" no habitual sentido de período de tempo. Mas, bem vistas as coisas, talvez não seja a expressão mais apropriada, antes espaço-tempo, Segundo os padrões clássicos espaço e tempo, embora relacionados; são categorias autónomas. Neste caso, porém, espaço e tempo formaram um misterioso todo que me deixou um rasto de melancolia reforçada pela chuva miúda que me acompanhou até casa, onde finalmente limpei as lentes dos óculos como quem esfrega os olhos.

22 dezembro, 2025

O TRIUNFO DOS PORCOS

Entro no Uber, digo "Boa noite" e informo o motorista, que já sabia chamar-se Ricardo, que iam ali dois Ricardos. Como bom brasileiro, faz logo uma grande festa, logo dizendo que é Ricardo José. Eu digo que sou José Ricardo (mais um motivo de festa) e diz ele que esteve para ser também José Ricardo em vez de Ricardo José. O que faz um nome! Um nome que nada significa, uma mera etiqueta que nada diz da pessoa, mas suficiente para desde logo criar um vínculo entre dois desconhecidos tão diferentes que poderiam não aguentar uma conversa para lá dos 15 minutos que durou a viagem. Mas uma reacção normal devido à coincidência. Mas o que dizer quando se cria esse vínculo entre duas pessoas que descobrem ser da mesma religião, partido, ideologia, ou mesmo nacionalidade? Será que, ao contrário de um nome que nada significa, podem partilhar uma identidade? Não. Trata-se apenas de um instinto atávico que faz as pessoas sentirem-se partes de uma mesma tribo, de um "nós" que as distingue dos "outros", mas que enquanto indivíduos podem nada ter que ver entre si. Vendo bem, indivíduos de diferentes religiões, partidos, ideologias ou culturas podem ter mais em comum entre si do que entre indivíduos dentro da mesma tribo. Mas os tempos não estão virados para entender isso, os tempos, como noutros tempos, estão mais propícios para porcos a grunhir e roncar alegremente na sua lama tribal.

18 dezembro, 2025

OS ROSTOS E AS MÁSCARAS

 

Joseph Scharl |Máscaras, 1931


Põe-se uma máscara para ocultar o rosto. Mas podem também os rostos esconder ou disfarçar as máscaras. Dizia Paul Klee, um dos meus pintores preferidos, que a arte não reproduz o visível, ela torna visível. Este quadro, embora muito diferente da obra do pintor suíço (apesar da nacionalidade alemã), pode ser disso um bom exemplo. Quem são estes mascarados de 1931? Pois, não faço ideia. Sei, sim, que podem ser universais, e que quando na galeria me aproximei deles logo identifiquei um vasto grupo de gente que, em 2025, ocupa o nosso espaço mediático e que são identificáveis pelo rosto que aí exibem. Porque estas máscaras, mais do que ocultar, revelam, explicam, ajudam a ver o que não é visível a olho nu. Conhecendo o carácter dessas pessoas, não são estas máscaras que se tornam estranhas e desfasadas da sua verdadeira identidade, mas o contrário: percebemos que os rostos com que nasceram são as verdadeiras máscaras que escondem as máscaras em que se tornaram.

17 dezembro, 2025

AÇÚCAR

Fosse a política matéria alimentar e o seu fim deveria ser uma sociedade que garantisse a carne, o peixe, os ovos, os legumes, os cereais, as leguminosas e a fruta, promovendo uma vida decente e digna que fizesse as pessoas verem-se como fins em vez de indesejáveis grãos de areia que atrapalham a engrenagem dessa grande máquina que é o Estado. Mas são as pessoas que deverão procurar a melhor maneira de chegar ao açúcar que dá sabor às suas vidas. A função do Estado não é fazer as pessoas felizes, apenas impedir que se sintam infelizes por faltar o que faz delas cidadãos dignos e decentes. Agora, como vai a vida ser adoçada, se através de rebuçados, bombons, chocolates, chupas, gelados, bolachas ou bolos, se o chocolate é mais doce ou amargo, se os bolos são de pastelaria normal ou conventual, ornamentados ou não, isso cabe a cada um descobrir. E isso não depende de governos melhores ou piores, de regimes, de sistemas políticos. Ninguém deve estar à espera que seja o Estado a adoçar-nos a boca. Já ficaremos contentes se não a amargar demasiado.

16 dezembro, 2025

AUFHEBUNG


Este cartaz está espalhado por muitas paragens de autocarro de Madrid. É como se de repente fosse levado para a Madrid de Corin Tellado. Acontece que a Espanha de hoje está muito distante da Espanha de Corin Tellado. Mas embora a Espanha de hoje esteja muito distante da Espanha de Corin Tellado, a Espanha de Corin Tellado teima em não estar muito distante da Espanha de hoje.

15 dezembro, 2025

O NOVO ADÃO

Adam Rainer não foi um homem qualquer. Foi, até hoje, o único caso conhecido de nanismo e gigantismo na mesma pessoa, tornando ainda mais impressionante o carácter premonitório do seu nome. Adão, o bíblico, é não apenas o primeiro homem, mas símbolo da humanidade. Tendo Adam Rainer conseguido ser tanto anão como gigante, reúne todas as condições para, doravante, passar a ser o seu mais expressivo e fiel símbolo. 

13 dezembro, 2025

UBER HITS

No comboio, vão duas raparigas sentadas à minha frente. Quase a chegarmos ao Oriente, pergunta uma delas: "Apanhamos um Uber ou o metro?". Foi uma epifania. Pela minha cabeça passou de repente a clássica cena de tantos filmes em que alguém corre para a beira do passeio, gritando "taxi, taxi, taxi", até aparecer um que pára e leva a pessoa. Tão clássica como o cigarro na boca de Humphrey Bogart ou Lauren Bacall. Nada contra o Uber, até porque também uso. A questão está no modo como se apanha um Uber, que não é igual ao modo como se apanha um táxi. Um táxi apanha-se como se apanha uma ave ou um peixe com a cana. Não se sabe quando se apanha, ou mesmo se se vai conseguir apanhar. Apanhar um táxi existe num romântico mundo feito espontaneidade, contingência e imprevisibilidade, de sorte ou azar. O Uber não. Pega-se no telefone e logo sabemos onde está o carro, tal como o carro sabe onde nós estamos, demorando 6 minutos, sabendo-se ainda o nome do motorista, a marca e matrícula do carro, e quanto se vai descontar no cartão de crédito. Apanhar um Uber, é então assim como apanhar o comboio das 17.53 ou apanhar o metro que sabemos que passa de 3 em 3 minutos, ou seja, uma realidade que podemos prever e controlar, na qual se apanha o que já está previamente apanhado. Ou como pegar no telefone para fazer uma transferência bancária ou pagar a conta da luz. O próprio nome Uber em vez de taxi representa a morte de um conceito e, como tantas vezes acontece com a linguagem, a um novo conceito corresponde uma nova realidade. Repito: uso e aprecio. Mas a epifania foi evidente e vi de novo mais um pouco do meu mundo a ficar para trás pelo anjo da história.

12 dezembro, 2025

ISTO NÃO É O BANGLADESH

Hoje, de manhã, o comboio chega ao Oriente, saindo a esmagadora maioria das pessoas que iam na carruagem. Indo junto à janela, tive que ficar a aguardar, pois apesar de já estar mesmo mesmo mesmo juntinho ao corredor, ninguém me dava passagem. Ninguém, salvo seja. Um rapaz, não sei dizer se indiano, paquistanês ou bengali, parou, fazendo o gesto para eu passar. Agradeci para finalmente descer o degrau e chegar a Lisboa.

10 dezembro, 2025

O ELMO DE MANBRINO

Porto, 2024
 
Os tempos não estão de feição para a esquerda mais à esquerda e não é difícil perceber porquê. Com toda a sinceridade, dá-me pena assistir à quixotesca decadência da esquerda num tempo que pede mais a pragmática ignorância de Sancho Pança. Sendo o quixotismo a doença infantil da esquerda, esta bem precisava do seu Cervantes para aprender a rir de si própria.

09 dezembro, 2025

CONTINENTE NEGRO

 


E por falar em anjos, prosseguem as dificuldades dos meus alunos com a sua existência. Diante desta imagem no enunciado de um teste, diz um aluno tratar-se de uma mulher com asas, incapaz de perceber  que se trata da representação de um anjo de acordo com a iconografia tradicional. No século XIX, bastava ver um ser vivo com dois braços, duas pernas, cabelos compridos e uma crinolina, para logo identificar um anjo que nem sequer precisava de se chamar Angélica. Hoje, chapa-se um anjo nos olhos de um pueril efebo e o que vê ele? Uma mulher com asas. Entre o desvario romântico do século XIX e o realismo grosseiro do século XXI, resiste a eterna pergunta: o que é uma mulher? Talvez nunca venhamos a sabê-lo e ainda bem que assim seja.

08 dezembro, 2025

ANUNCIAÇÕES

Ainda há pouco dias, numa aula dedicada a um assunto de natureza epistemológica, referi-me à Matemática como ciência imaculada. Perguntei se sabiam o que significa imaculado e obviamente que não, o mesmo se passando, a fortiori, com mácula. Para começo de explicação perguntei se sabiam o que é a Imaculada Conceição e também não, aliás, nem dela tinham sequer ouvido falar. E lá expliquei, tal como já expliquei tantas outras coisas que qualquer criança de outros tempos sabia desde a escola primária e da catequese. Não sendo eu dado a desvarios narcísicos, sinto-me cada vez mais um anjo Gabriel desdobrando-se em múltiplas anunciações diante de mentes em estado virginal. Que ao menos o feriadinho faça muito bom proveito.

04 dezembro, 2025

ISTO NÃO É A TURQUIA

É verdade que isto não é o Bangladesh, mas também não é a Turquia, outro país infestado de muçulmanos. Em Istambul não se compram bilhetes nos autocarros. Adquire-se um cartão numa máquina que se vai recarregando. Um dia, entro no autocarro, encosto o cartão para descontar a viagem e descubro que já não tenho saldo. Fico meio parvo a olhar para o motorista sem saber o que fazer e quando me preparo para sair para chamar um Uber, faz-me sinal para eu esperar. Vira-se para trás (o autocarro ia quase vazio) e aborda uma rapariga de hijab que logo se levanta para ir pagar a minha viagem com o seu cartão. Eu, gratíssimo com o que me estava a acontecer, puxo da carteira para lhe pagar. Recusou. Insisto, e ela sempre a recusar, até que desisto, meio embaraçado. Quando chego à minha paragem (ela ia continuar) aproximo-me dela para de novo agradecer, juntando assim o meu sorriso de ateu nascido num país cristão ao seu sorriso muçulmano bem destacado pelo hijabe. Não, isto não é a Turquia.

03 dezembro, 2025

WHY?

 

Este soldado, fotografado por Robert Capa, foi morto no dia 18 de Abril de 1945, em Leipzig. A fotografia não ficou célebre pela morte de Raymond Bowman, de 21 anos, apenas mais um entre milhões de mortos, tanto nesta guerra como noutras, que o tempo tornou soldados desconhecidos, mas por ser The Picture of the Last Man to Die, o soldado que morreu na praia. Não numa praia da Normandia ou outra qualquer, mas na praia do tempo, neste caso, o fim da guerra. E se houvesse uma fotografia do primeiro soldado a ter morrido na guerra, a qual, de certeza, não existe? Talvez uma Picture of the First Man to Die fosse ainda mais esclarecedora. Uma fotografia daquele que morre numa guerra que acaba de começar, sabendo-se de antemão que chegará o dia em que irá começar a acabar. E lembrei-me de um certo poster, famoso nos anos 70 do século passado, no qual se via um soldado a sucumbir e por cima dele a pergunta que eu mesmo faço.

02 dezembro, 2025

ICEBERG

Uso bastante o advérbio "porventura", tanto na escrita como na oralidade, mas estou seriamente a ponderar deixar de o usar. Como um pequeno bloco de gelo separado do principal, não vá o prefixo transformar-se numa preposição. 

27 novembro, 2025

MEIO INVISÍVEL

Os que vêem o copo meio cheio e os que vêem o copo meio vazio, partilham, sem saberem, uma coisa em comum: não ver um copo que está objectivamente a meio. O que não deixa de ser normal, pois, como nos aviões, o lugar do meio é desconfortável, nomeadamente no que diz respeito às virtudes, embora seja lá que ela se encontra.

26 novembro, 2025

PENSAMENTO MÁGICO

«Christoph Kolumbus era o barbeiro de Bloomfield. Fazia parte da bagagem de Bloomfield e aparecia sempre, no final, como reforço. Era uma pessoa conversadora e de nacionalidade alemã. O seu pai era admirador do grande Colombo e, por isso, batizou o filho com o nome do navegador. Mas o filho, com o grande nome de um homem célebre, era barbeiro.»

Quisesse Alonso Quijano ser apenas ele próprio em vez de D. Quixote e passaria despercebido pelo mundo. Ser pobre e vulgar não é risível. O que torna Quixote risível é a ilusão ou delírio sobre a sua identidade. O mesmo efeito cómico consegue Roth numa única linha. O que torna esta passagem letal não é o pai atribuir ao filho o nome Colombo. É ele ser barbeiro e parte da bagagem de um homem importante. A moral da história é fácil: ridicularizar o pensamento mágico. Neste caso, envolvendo a magia do nome. Mudando de cenário, podemos ainda ver o pensamento mágico como um imaginário elevador identitário. Ainda com o nome como recurso, quem diz Colombo diz Salvador ou Benedita para se transformarem num verdadeiro "Salvador" e numa verdadeira "Benedita". Mas também ir, no Verão, às praias dos ricos, para viver a ilusão de ser rico. Ou alguém que, não sendo rico, consegue ter dinheiro para frequentar os restaurantes dos ricos, comprar as marcas de roupa dos ricos, ou mesmo os carros dos ricos. Ou um jovem urbano acreditar que é artista só porque através das roupas, cabelo e óculos compõe artisticamente um ar de artista, tal como em tempos se acreditava que bastaria entrar num café com um livro debaixo do braço para se transformar num intelectual. Quixotes não faltam. E só não são risíveis, estando, ao contrário do original, protegidos dos olhares alheios, porque num mundo de Quixotes é tão cego o que vê como o que é visto. 

25 novembro, 2025

UN ANGE EST PASSÉ

 


Num teste sobre David Hume coloquei quatro imagens no enunciado: uma gaivota, o Taj Mahal, o teorema de Pitágoras e esta que aqui se vê. Não um, não dois, mas três alunos chamaram-me para perguntar o significado desta imagem. Expliquei, não se fez silêncio, mas não sem sentir um anjo a passar bem fundo na minha alma.

24 novembro, 2025

EM SURDINA

Na sexta-feira fiz três exames auditivos para me provarem o que há muito sabia: preciso de aparelho. Mas fatalidade que tenho vindo a rejeitar, uma clara escapadela ao choque da minha obsolescência e decrepitude. Eu sei, recusar o aparelho para fingir contornar o inexorável coloca-me no mesmo nível daqueles velhos com perucas ridículas, ou que pintam o cabelo de um preto tão carregado que transforma a cabeça numa estrada alcatroada, ou aquelas velhas que borram a cara com cremes, rimel e um baton tão forte que mais parecem saídas de uma pintura expressionista. Mas hoje voltei a ter o meu choque de realidade logo na primeira aula. Aluno: "Stor, o que significa............?" Eu: "Caramba, no 11ºano e não sabe o que significa indiferença?!" Aluno: "não, ...............?". Eu:" Indiferente!? Vai dar no mesmo, indiferença ou indiferente, qual é a diferença". Aluno: "Não, stor, ........................?". Lá tive que recorrer à estratégia habitual, aproximando-se do aluno. Eu: "Pode então repetir?" Aluno: "Inferência". Eu: "Ahhhh, inferência!". E pronto, eis o miserável pântano no qual me vou enterrando cada vez mais mais. Mas quero lá saber, continuarei a resistir enquanto puder. Há um romance de David Lodge cuja personagem principal sofre de surdez, sendo esse, aliás, o tema central do romance. Já o li há uns anos, mas lembro-me bem de ele dizer que, ao contrário da cegueira, a surdez é risível, produzindo efeitos cómicos. Quero lá saber, insisto. Sei pelo menos que a minha resistência, sendo meramente mental e não física, livra-me da triste figura dos velhos de peruca ou cabeça alcatroada, ou das velhas que parecem saídas de uma pintura expressionista.

22 novembro, 2025

TECNOFEUDALISMO

Atravessei ontem de comboio uma extensa porção de Ribatejo rumo à estação do Oriente. Esta é a época do ano em que está mais bonito, mais verde sob uma luz coada, muita água devido às recentes chuvadas. Como não poderia deixar de ser, aproveito os lugares livres à janela para os olhos fazerem da viagem não só um  meio, mas um fim em si mesmo, como no poema de Kavafis. Já depois de Santarém vejo um grupo de pessoas a trabalhar no campo, embora sem perceber o quê. Uma visão impressionista, sei apenas que, ali juntas e pelas posturas, estariam a trabalhar. Isto foi poucas horas depois de ter lido, lá pelas cinco da manhã, ao acordar, uma entrevista de Varoufakis, devido ao seu recente livro. Talvez por isso, e pelo que já me tinha apercebido à minha volta, olho, como num jogo de ténis, para as pessoas a trabalhar naquela arcaica paisagem e para o interior do comboio onde ia toda a gente de olhos pregados no telefone, excepto uma senhora a dormir o sono dos justos. Desta vez a viagem não foi apenas uma viagem no espaço, mas também no tempo, unindo num mesmo pontinho cronológico o passado e o presente.

21 novembro, 2025

ÁGORA AGORA

Numa certa rua de uma pequena cidade, que é a minha, por meríssima coincidência, encontraram-se três professores de Filosofia. A professora e um dos professores encontraram-se e ficaram à conversa. Logo depois aparece o outro, que era eu, formando-se um trio. Se naquele momento estivéssemos a ser observados (mas não escutados) por um extraterrestre com bons conhecimentos de história humana embora péssimo a Geografia, e também com uma péssima noção do tempo devido a padrões temporais muito diferentes dos nossos, iria muito provavelmente concluir que estávamos na Grécia Antiga. 

19 novembro, 2025

TAMPÕES


«Conheço Taddeus Montag, o amigo de Zwonimir, pintor de tabuletas, mas que no fundo é caricaturista. É meu vizinho, mora no quarto 705. Já estou aqui há meia dúzia de semanas e, ao meu lado, Taddeus Montag passa fome e nunca grita. As pessoas são mudas, mais mudas que os peixes [...].»

Houve um tempo em que era S. António a dar sermão aos peixes. Resultado de um processo evolutivo socialmente modificado, o que vemos hoje são bem nutridas petingas em solo firme e de cujas potentes goelas são expectorados estrepitosos e desconchavados sermões, enquanto os velhos Santo Antónios deste mundo, lutando contra as ondas, deixaram de se ouvir. Entretanto, tampões nos ouvidos aconselham-se, e não é por causa da água.

18 novembro, 2025

SONATA EUROPEIA


Ao contrário de Ulisses, tenho alguma dificuldade com os nomes das árvores. Daí não saber o nome das que povoam a minha rua e que agora a pintam de amarelo e de várias tonalidades de vermelho, nas copas e no passeio. É nesta época do ano que ao sair de casa ou a chegar me sinto verdadeiramente na Europa. Um sentimento espúrio, devo reconhecer, pois não é só na Europa que existem árvores assim, e porque também a Europa sofre com temperaturas escaldantes no Verão, incluindo no seu coração, que ficou politicamente conhecido como Mittereuropa. A Europa tem as quatro estações, calor e frio,  luxúria solar e penumbra, azul e cinzento. E foi mesmo durante o Verão que duas guerras mundiais, embora bastante europeias, tiveram o seu início. Em suma, racionalmente, não há nada que obrigue a ligar a Europa ao Outono. Mas é assim que a minha livre imaginação funciona, desejar que a Europa seja um continente outonal, a estação em que melhor reconheço as cidades europeias onde a sua história foi sendo feita. O que não falta na sua história são ribombantes momentos a fazer lembrar certas passagens de Wagner. Mas o que sobretudo consigo ver na Europa, o continente onde a história tem mais peso, é um longo e contínuo adagio através do qual um fogo, como archê heraclitiana, vai fazendo e desfazendo tudo o que nela emerge. A Europa é um continente de nascimentos mas, até mesmo por isso, é por excelência o continente das melancólicas despedidas.















Budapeste 2025

17 novembro, 2025

MUROS


Numa exposição de arte contemporânea, nada me levou a tirar o telefone do bolso para memória futura, o habitual neste tipo de exposições. Uma excepção: este breve texto logo à entrada. A minha primeira impressão, e que logo me levou a fotografá-lo para não esquecer, foi a da sua enorme beleza. Impressão que mantenho meses depois e a qual não quero justificar pois a beleza não carece de justificação. Porém, se quisermos desconstruir o texto, resolvermos ir até ao subterrâneo húmus que fez medrar a flor, poderemos dar com um sentido latente cuja carga patológica se sobrepõe à sua força poética. A patologia de quem, descobrindo-se apenas rodeado de silêncio, chilreios ou zumbidos, de flores, árvores e cheiros bons, continua a sentir dentro da sua cabeça o peso esmagador dos muros dos quais pensara ter-se libertado.

16 novembro, 2025

O FANTASMA DE CANTERVILLE

James Tissot, O Círculo da Rua Royale [1868]

Há dias, pus os alunos a fazer uns exercícios de Lógica. Aquele tipo de aula em que o professor anda a circular pela sala para ir dando apoio. Ao passar num corredor entre duas filas de carteiras, vejo um papel escrito no chão. Baixo-me para o apanhar, pergunto a quem pertence e de imediato uma aluna responde que a si, recolhendo-o com ar satisfeito da minha mão, mas sem sequer para mim olhar. Uns dez minutos depois estou a ajudar uma aluna quando cai um telemóvel da carteira atrás da sua. Baixo-me para o apanhar e a aluna recolhe-o apenas abanando a cabeça de um modo discreto, isto, para falar de um modo eufemístico. Não sei dizer se estas duas situações em tão curto espaço de tempo terão relevância estatística ou se se tratou de mero acaso. Mas se pensar na quantidade de vezes em que dou prioridade ao passar numa porta ou agarro a porta, mantendo-a aberta para quem vem atrás de mim, sem observar qualquer reacção, na quantidade de vezes que digo «Bom dia» ou escrevo um mail de trabalho (enviar documentos e assim) sem obter resposta, estou então inclinado a pensar que se trata de uma tendência. O que me faz sentir, apesar de não passar de um vulgar plebeu, um aristocrata ou burguês do século XIX deambulando meio invisível pelas escadas rolantes de um moderno shopping center do século XXI.

15 novembro, 2025

O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL

«Acontece que admirei tanto as luvas em amarelo-canário de Alexander como o seu chapéu - olhando para esse homem ninguém pode duvidar que ele veio directamente de Paris e do sítio onde Paris é mais Paris.» 

Há imensos de lugares em Paris, os quais, sendo Paris, não são onde Paris é mais Paris, sítios iguais aos de tantas outras cidades. Se uma pessoa fosse levada às cegas para várias cidades europeias, ou mesmo mundiais, e depois lhe pedissem para adivinhar onde está, não iria ser capaz, visto ser igual a tantas outras. Mas também há em cada cidade lugares onde logo a reconheceríamos, e nem sequer estou a pensar na Torre Eiffel ou no Big Ben. Com uma pessoa passa-se o mesmo. Sabemos que o João é homem, português, engenheiro, benfiquista e gosta de Bacalhau à Brás. Mas ser um homem em vez de uma mulher não é a coisa mais original. Ser português também não. E há milhares de engenheiros, benfiquistas e apreciadores de bacalhau. Onde o João é mais João é na individualidade que o distingue de todos os outros, um conjunto de experiências, características e memórias que são só suas, das quais pode ou não gostar. O mesmo se passa ainda com os países ou culturas. Não haverá um meio-termo entre um nacionalismo ou etnocentrismo serôdio e delirante, e um vazio universalismo que tende a menosprezar uma identidade cultural? Como o João, que não é superior ou inferior aos outros, é bom entender o que Portugal tem de mais Portugal ou o Ocidente de mais Ocidente. Um útil exercício para nos defendermos, não de inimigos que venham de fora para nos destruir, mas do radicalismo, tanto à direita como à esquerda, de quem já nasceu português ou europeu, o qual, como um tumor maligno, mina a coesão social.

14 novembro, 2025

NEWSPEAK

Dizia Fradique Mendes que Lisboa é uma cidade traduzida do francês em calão. Cento e tal anos depois, nem se dá ao trabalho de a traduzir do inglês.

13 novembro, 2025

DIÓSPIROS

Diferente sorte tiveram as palavras pudico e dióspiro. A primeira, sendo grave passou a ser dita como se fosse esdrúxula. Já a segunda, sendo esdrúxula, passou a ser dita como se fosse grave, isto, com claro benefício para a primeira e prejuízo para a segunda. As palavras esdrúxulas têm uma esdrúxula beleza e algumas bem a merecem, como é o caso de pudico. O pudor é uma das grandes conquistas da humanidade a qual, graças a ele, ganhou elegância, delicadeza e sobriedade nos gestos, no rosto, nas palavras ditas e sobretudo nas não ditas. Daí que uma pessoa com esse atributo mereça ser considerada púdica em vez de pudica, ainda que seja esta a correcta. O que raio aconteceu para os dióspiros terem passado a diospiros? Pensemos no ridículo de belas palavras como Diógenes, Andrómeda, Orígenes, Antígona, Penélope, Eutífrone, Eurídice, Édipo, Perséfone, Átila, diâmetro, triângulo, antílope ou ópera, tornadas graves. Um horror, uma degradação do original. Lembro-me da sensação de estranheza ao ver pela primeira vez a palavra asfódelo. Mas de imediato me rendi à sua beleza fonética. O que seria se, desgraçadamente, a palavra passasse a grave como aconteceu com o dióspiro? Um horror ainda pior. Mantendo-se fiel ao original, continua assim digna de uma pintura de Khnopff ou pré-rafaelita, de um parágrafo de Huysmans, de um verso de Baudelaire, Mallarmé ou Pessanha. Há gente que olha com indiferença, ou mesmo desprezo, para as palavras. O que conta é comer o fruto, querem lá saber como se chama. Não é assim, até por uma questão de respeito para com a dignidade da coisa. A Leonor de Camões, a Beatriz de Dante ou a Simonetta de Botticelli seriam as mesmas com outros nomes, sobretudo horríveis? Não. O que é belo e bom merece uma palavra bela e boa. O que não veio a acontecer com os nossos dióspiros, esse sumptuoso fruto descido ao nível da mais desdourada das vulgaridades.  

12 novembro, 2025

CASTA DIVA



Bem sei que uma alegoria não serve para ser interpretada à letra (ou imagem). O que lá está não é bem o que lá está, mas um modo de facilitar a compreensão de uma ideia muitas vezes complexa. Quase sempre resulta, mas há situações em que pode complicar. Creio ser o caso desta Alegoria da Castidade, de Hans Memling [1475] na qual a castidade surge ferreamente protegida. Fosse eu e faria exactamente o inverso. Em vez de fazer depender a castidade de dois ferozes leões, um denso rochedo rodeado de água e elevado face ao nível do solo e do afastamento da cidade, poria, como aconteceu a Lady Godiva, a mulher nua na praça central da cidade diante dos olhares lúbricos da nobreza, clero e povo. Porque a verdadeira castidade está na consciência e quando esta está limpa bem se podem dispensar os leões, rochas, água e o afastamento dos homens.

11 novembro, 2025

NA MELHOR PAISAGEM CAI A NÓDOA

Tenho em casa uma bela vista, uma paisagem rural com serra ao fundo. Amiúde me ponho à janela a contemplá-la enquanto bebo café ou chá, ou deixo derreter lentamente um pedaço de chocolate negro. Há dias, a magnífica vista passou a ficar conspurcada por um enorme cartaz no qual um emergente político lembra que os ciganos devem cumprir a lei. O cartaz é duplamente violento. Esteticamente, no modo como interfere na melancólica fruição da paisagem. Mas também por me lembrar, não que existem demagogos e charlatães, pois sempre os houve e haverá, mas a famosa de Kraus «o segredo do demagogo é fazer-se passar por tão estúpido quanto o seu auditório, para que este imagine ser tão esperto quanto ele». Ideia profundamente irritante, a de me saber rodeado de gente estúpida, pior ainda quando, no recato doméstico, uma pessoa se aproxima da janela para fruir de uma bela paisagem.  

10 novembro, 2025

VENTURA, VENTURA, VENTURA

Ele adorava a América. Nos dias em que a ração era boa ele exclamava: América! Quando via um primeiro-tenente «fino», dizia: América! E como eu era bom atirador ele chamava aos meus tiros: América!

Tendo ontem chegado já tarde à estação do Entroncamento tive de pegar um táxi convencional por a Uber já não fazer serviço a partir de certa hora. Entrei expectante sobre o tempo que iria demorar o taxista a dizer mal dos pretos, ciganos ou imigrantes em geral. Não disse, mas há que refrear o optimismo. Nem um minuto demorou para começar a falar mal do Entroncamento, isto é, do que deveria ter sido feito pela anterior câmara, mais isto e aquilo de errado nos últimos anos para, logo de seguida, desabafar três vezes que do que o Entroncamento precisa é de políticos que gostem de Portugal e dos portugueses. Achei estranho ele não ter dito políticos que gostem do Entroncamento e das pessoas do Entroncamento, mas logo pensando tratar-se de um taxista e, como se isso não bastasse, de um dos três concelhos de Portugal onde André Ventura foi eleito presidente de câmara, passou a fazer todo o sentido.

08 novembro, 2025

GOYA REVISITADO


O sono da razão produz os seus monstros? Produz. Como o sono dos sentimentos associado ao excesso de luz também produz os seus. Porém, verdade seja dita, também pode produzir os seus anjos, como se pode constatar nesta fotografia de Robert Capa*. É de 1940, no México, e trata-se do regresso a casa de dois políticos regionais após uma ida à capital. Pois bem, alguém imagina dois políticos tão despidos dos seus habituais papéis para assumirem este íntimo, e até comovente, envolvimento físico entre ambos? Só o sono, o adormecimento, o desvanecimento da razão o poderia conseguir. Estes homens estão mergulhados nas trevas do sono com o benéfico efeito que podemos ver. Mas há a luz do dia à sua volta e, fosse de noite, certamente não iria deixar de haver uma luz de presença. E é assim que deve ser.

*A má qualidade da reprodução deve-se à má qualidade do meu telefone.

07 novembro, 2025

CONTRA-ILUMINISMO NA ESCOLA PORTUGUESA


A luta entre a luz e as trevas é eterna. Mais perto de nós, o momento mais significativo dessa luta foi a reacção contra-iluminista ao iluminismo do século XVIII. Ao que parece, as luzes da razão preparam-se para passar de novo um mau bocado, estando o palco da história a ser ocupado pela estupidez,  boçalidade e irracionalidade. Grave, muito grave, é ver a própria escola cúmplice deste processo. Daí custar a engolir ver todos os dias estes autocolantes junto ao bengaleiro nas salas de aula onde trabalho. Como é possível dizer a um jovem que a sua atitude conta, convidando-o a poupar luz? Como se não bastassem já as redes sociais, fora o resto.

06 novembro, 2025

O TAMBOR


«As pessoas continuavam a chegar  de Berlim e de outras cidades. Eram pessoas que falavam em voz alta, gritavam e mentiam aos berros para calar a voz da consciência.»

Dizia Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, mais conhecido por Barão de Itararé, que o tambor faz barulho mas é vazio por dentro. Ainda que fazendo a frase perder a graça, corrigiria a adversativa para a transformar em causal: o tambor faz barulho porque é vazio. E, já agora, quanto mais vazio mais barulho faz. O barulho é sem dúvida uma importante categoria política que revela uma enorme falta dela com o intuito de adormecer as consciências dos outros.

05 novembro, 2025

KITSCH NET

Diria que os repuxos em lagos estão para a natureza como os leões nos muros das casas do Portugal profundo para o gótico. Uma espécie de recriação fofinha da tempestade no mar apresentada por Kant como exemplo de sublime. Ideal, pois, para, em segurança, fazer mais umas selfies para o Instagram.

04 novembro, 2025

CHAPÉUS HÁ MUITOS


«Em toda a minha vida nunca vira um chapéu de feltro tão bonito, era uma maravilha, a cor clara, suave e terna do chapéu não se podia definir bem e, no meio, as dobras tinham sido cuidadosamente feitas. Se eu algum dia usasse este chapéu, sentiria repugnância em cumprimentar alguém, por isso perdoo a Alexander o facto de ele não cumprimentar as pessoas, só põe um dedo no chapéu, o dedo indicador, e faz continência como os militares quando correspondem aos cumprimentos de um cozinheiro militar.»

E quem diz o chapéu diz a cor da pele, a nacionalidade, o apelido, a profissão. Tudo chapéus que nos empossam de um estatuto que nos eleva tão acima do comum dos mortais que o corpo acaba por ignorá-los, obrigando apenas ao movimento de um dedo blasé. O mundo, na verdade, é um quartel, com os seus códigos bem estabelecidos e onde a farda anula o simples cidadão que, moral e humanamente, é apenas mais um, mas que dentro da sua consciência, e nem precisa de ser nas suas profundezas, consegue ser menos um. 

03 novembro, 2025

S. TOMÉ 2.0

Caravaggio | A Incredulidade de S. Tomé [1601]

Ver para crer? Não, e o nosso tempo empenha-se cada vez mais em mostrar que não. Não se trata de acreditar no que vemos, mas vermos no que acreditamos.

01 novembro, 2025

HALLOWEEN

Velázquez | Cristo Crucificado [1632]

O modo tão natural e sorrateiro que quase nem se deu por isso, como em tão pouco tempo passámos dos santos e bolinhos para as abóboras e bruxas, ou seja, de um imaginário cristão para um imaginário pagão, leva-me a desconfiar que talvez não tenha sido assim tão diferente a passagem do imaginário pagão para o imaginário cristão nos primeiros séculos do anterior milénio. A história é mesmo assim, não funciona por decreto (se bem que no caso da religião alguma dela tenha sido imposta aos respectivos povos), mas como um novo gás, invisível e inodoro, lentamente inalado, levando as pessoas a adormecerem com uma consciência para acordarem na manhã do dia seguinte já com outra. 

31 outubro, 2025

A CONSCIÊNCIA COMO CIÊNCIA PERENE


Quase tão inevitável como uma borracha cair para o chão se a largarmos foi ao ver a capa da revista Visão lembrar-me das fotografias de August Sander. Ele foi mais do que isso, mas o que tornou célebre foi a série de retratos de vários tipos sociais alemães ao longo do primeiro quartel do século passado. Embora vejamos pessoas, não foram pessoas que fotografou, mas grupos sociais: cozinheiro, polícia, professor ou agricultor. O mesmo se passa com estes jovens de um desses colégios nos quais a mensalidade pode chegar aos 2000 euros. O que sobretudo me instiga são, tanto as de ontem como de hoje, as suas consciências no momento da pose. Que certamente lhes dizem que não estão a ser fotografados porque, enquanto responsáveis pelos seus actos, se destacaram nalguma coisa que tivessem feito. No caso dos dois jovens, coisas como ganhar uma medalha desportiva, serem os alunos com melhor média a nível nacional, músicos, escritores, actores ou fazerem parte de uma organização com relevante intervenção cívica. Sabem as suas consciências que só são fotografados por serem ricos, ainda que nada tenham feito para isso, e que apenas o são porque assim nasceram, tão natural como a cor dos olhos ou do cabelo. O vestuário, decoração, contextos podem mudar, mas as consciências não mudam. As destes dois jovens não serão diferentes das dos privilegiados jovens de Sandel, ou do nobre que passava a cavalo por entre o miserável povo. O que também explica podermos continuar a ler obras do século XVI ou do século V a. C., percebendo claramente o significado do que dizem ou mostram.

30 outubro, 2025

MEIO CHEIO

Vivemos tempos propícios para lembrar aquela velha ideia de que a história não se repete, mas às vezes rima. Embora não altere a quantidade de água no copo, prefiro, em vez disso, pensar que a história às vezes rima, mas não se repete.

29 outubro, 2025

ENTRONCAMENTO




Durante muito tempo usei o táxi convencional para me levar da estação do Entroncamento até à terra onde vivo. Entretanto, passei para o Uber, e o benefício, sendo também financeiro, é ainda maior ao nível da minha saúde mental. Em vez de massacrado com raivosos ou insidiosos discursos contra os imigrantes, como se fossem cartazes sonoros, passei a ser conduzido pelos próprios imigrantes, o que me permite viajar, seja envolvido num repousante silêncio, seja ir sabendo coisas sobre eles e os seus países de origem, como se nesses momentos estivesse no Bangladesh ou qualquer outro país onde não há o perigo de darmos de frente com certos portugueses.

28 outubro, 2025

A VERDADE A QUE TEMOS DIREITO

Dizer a verdade é um dever se as pessoas tiverem direito a ela, Benjamin Constant dixit. O povo tem assim os políticos que merece, digo eu.

27 outubro, 2025

O LORNHÃO

 


«A Senhora Bernheim olhou para Paul, durante uns minutos, através do lornhão. Ele sabia que isso significava  a preparação da sua mãe para um «tema sério» e esperou.

-Agora estás com trinta anos, Paul - disse a Senhora Bernheim.

A menção dos seus trinta anos afectou-o dolorosamente, como se fossem um padecimento físico. Pois aí estavam, é claro, esses trinta anos, e ele a nada tinha conseguido chegar. (...)

- Nunca pensaste em casar? - perguntou a mãe, algo severa, continuando com o lornhão diante dos olhos.

- Onde é que há mulheres? - disse Paul.

- Há mulheres suficientes, meu menino, tens de olhar à tua volta.

Ela afastou outra vez o lornhão e deixou-o escorregar para a anca, como quem mete uma espada na bainha.»



A filosofia tem fama de difícil, embora popularizada com frases que brilham como néon: "Penso, logo existo", "Só sei que nada sei", ou ainda "O inferno são os outros", a qual, vinda da literatura (Huis Clos), tem a devida justificação filosófica em O Ser e o Nada. A senhora Bernheim com o seu lornhão é disso bom exemplo. Como bem poderia dizer Sartre, a senhora Bernheim olha com os olhos, mas com o  lornhão impõe ao filho o seu olhar. Um olhar que faz o filho ser olhado como uma pessoa apanhada a espreitar pelo buraco da fechadura. O seu eu inclina-se todo para fora, mas logo que o seu olhar é olhado por outro olhar, é obrigado a confrontar-se consigo próprio, revelando toda a sua vulnerabilidade. Este curto, embora tenso diálogo, é todo ele marcado pela implacável presença do lornhão: antes, durante e depois do discurso. Consigo perceber o alívio de Paul no momento em que a mãe larga o lornhão. Só que a espada já havia desferido o seu vulnífico golpe.