No comboio, vão duas raparigas sentadas à minha frente. Quase a chegarmos ao Oriente, pergunta uma delas: "Apanhamos um Uber ou o metro?". Foi uma epifania. Pela minha cabeça passou de repente a clássica cena de tantos filmes em que alguém corre para a beira do passeio, gritando "taxi, taxi, taxi", até aparecer um que pára e leva a pessoa. Tão clássica como o cigarro na boca de Humphrey Bogart ou Lauren Bacall. Nada contra o Uber, até porque também uso. A questão está no modo como se apanha um Uber, que não é igual ao modo como se apanha um táxi. Um táxi apanha-se como se apanha uma ave ou um peixe com a cana. Não se sabe quando se apanha, ou mesmo se se vai conseguir apanhar. Apanhar um táxi existe num romântico mundo feito espontaneidade, contingência e imprevisibilidade, de sorte ou azar. O Uber não. Pega-se no telefone e logo sabemos onde está o carro, tal como o carro sabe onde nós estamos, demorando 6 minutos, sabendo-se ainda o nome do motorista, a marca e matrícula do carro, e quanto se vai descontar no cartão de crédito. Apanhar um Uber, é então assim como apanhar o comboio das 17.53 ou apanhar o metro que sabemos que passa de 3 em 3 minutos, ou seja, uma realidade que podemos prever e controlar, na qual se apanha o que já está previamente apanhado. Ou como pegar no telefone para fazer uma transferência bancária ou pagar a conta da luz. O próprio nome Uber em vez de taxi representa a morte de um conceito e, como tantas vezes acontece com a linguagem, a um novo conceito corresponde uma nova realidade. Repito: uso e aprecio. Mas a epifania foi evidente e vi de novo mais um pouco do meu mundo a ficar para trás pelo anjo da história.