21 setembro, 2026

O DUELO

 


Seja na literatura, na pintura ou no cinema, a ideia de sinistro aparece associada à noite, ao Inverno, à tempestade, marcando desse modo o nosso imaginário a esse respeito. Pois, o meu imaginário é outro. Vivendo na parte do país que quase sempre vence o concurso de miss temperatura mais elevada de Verão, só de pensar no pio do mocho sobre um cipreste numa gélida noite de Inverno a minha alma fica hidratada. Quem iria entender-me bem é Anton Raphael Mengs que, ao serviço da corte de Madrid, pintou para os aposentos privados de Maria Luísa de Parma quatro quadros personificando quatro fases do dia. Pois, esqueçamos Gilles de Rais, Isabel Bathory, Iago, Lady Macbeth, Moriarty, Conde Drácula, monstro de Frankenstein, Norman Bates, Freddy Krueger, Jack Torrance e tantas outras figuras sinistras que eclipsam a luz do Sol e da Razão. Sinistro, mesmo sinistro, é Hélio, a personificação do Sol na mitologia grega, tal como surge aqui pintado pelo alemão para personificar o meio-dia, quem sabe se influenciado pelo tórrido clima de Madrid no Verão, o qual, ainda assim, não destrona o que me haveria de calhar na lotaria meteorológica. As manhãs e as noites ainda se aguentam, mas à medida que o Sol se vai erguendo e mantendo lá no alto nas horas seguintes é, sem tirar nem pôr, o que aqui se vê de modo tão realista. Como drones assassinos, ardentes setas de fogo acesas no Sol, são lançadas por um sádico titã aos pobres mortais que não se podem dar ao luxo de se abrigar enquanto não chega a antiquíssima, silenciosa e extática noite. Um sinistro duelo, não um duelo ao Sol, mas um Duelo com o Sol do qual é cada vez mais difícil escapar.

10 setembro, 2026

BALIR

Sou pago para ensinar filosofia, tenho por isso que tentar ensiná-la e até gosto de ensinar. Mas gosto ainda mais de ensinar palavras, dar a conhecê-las, torná-las acessíveis e familiares, explorar a sua etimologia, escrevê-las no quadro, dar exemplos práticos, levar um aluno a inventar uma frase para poder aplicá-la. Por cada palavra nova, imagino uma luz a acender-se nessa cave escura que é a cabeça de um ser humano desprovido de palavras e, pouco a pouco, a cave transformada numa cidade iluminada. Ensinar filosofia, como quase tudo na escola, é ensinar para esquecer. Ensinar palavras é  ensinar a não esquecer o que distingue um ser humano de um animal que bale, como o carneiro. Circe transforma os companheiros de Ulisses em porcos. O que temos agora é uma juventude baleada, não por balas, mas pela acção insidiosa de um sistema educativo que pouco estimula e exige, o qual, aliado a uma certa desordem natural das coisas, junta a falta de comida à falta da vontade de comer. O resultado está à vista.

09 setembro, 2026

JUSTIÇA DE SALOMÃO

Diz-se que quem cala consente. Eis um provérbio concentrado na consequência. Fosse na causa e seria quem cala não sente.

08 setembro, 2026

CEUTA

Há um ano e tal, andava pelas labirínticas e pobres ruas por detrás do souk de Tétouan, o único estrangeiro por ali, quando, num beco, três garotos que jogavam à bola vêm ter comigo falando berbere e percebo que perguntam de onde sou. Digo, e logo a reacção do costume, com grande algazarra: Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo. E eu, para não desfazer o encanto: Hakimi, Hakimi, Hakimi. E todos nós muito contentes com este empolgante encontro ecuménico entre duas civilizações. De seguida, como urgente coisa que tivesse para me dizer, um deles começa a pôr a mão um bom bocado acima da cabeça e fazendo os gestos de quem nada, enquanto vai dizendo qualquer coisa que soa a "Cepta, Cepta, Cepta". Não entendo e logo um outro começa a repetir tudo o que outro fazia e dizia. Acende-se então uma luz na cabeça com "Cepta" (Sebta), som que me ficou na memória quando, nos finais dos anos 70, passei um dia em Ceuta durante a viagem de finalistas a Torremolinos. Estavam pois eles a dizer que quando fossem maiores iriam nadar até Ceuta, certamente para depois passarem para a Europa de onde eu vinha. Talvez um ano e alguns meses tenham sido suficientes para aquelas duas cabeças chegarem à altura da mão, sendo eles dois dos milhares de marroquinos que nadaram recentemente até Ceuta. Ceuta que, para mim, continua a ser apenas a cidade onde fui passar um dia durante uma semana de praia, piscina, bares e discotecas. Ceuta vista da Europa não é a mesma vista de África.

07 setembro, 2026

A TERCEIRA MÃO

Fico sempre algo sensibilizado quando vejo um casal de velhos a caminhar de mão dada. É como se tivessem três mãos. As duas que cada um tem mais uma terceira que se forma resultante da junção das duas que se entrelaçam, duas mãos que se tornam uma só mão. Terceira mão que é uma expressão física do que Martin Buber chama o "entre", um espaço que não é um "eu" nem um "tu", mas um espaço de ligação entre um "eu" e um "tu". Na verdade, terceira mão que existe em qualquer idade sempre que duas mãos se procuram. Mas com uma diferença: fortes e lisas, procuram-se porque sabem que vão viver, fracas e engelhadas, porque sabem que vão morrer. 

05 setembro, 2026

ESPÍRITO DO TEMPO

É conhecida a versatilidade filosófica da língua alemã, mas não os seus limites, que em certas circunstâncias podem ser ultrapassados pela da língua portuguesa. Quando se fala em Zeitgeist, espírito do tempo, tempo aqui só mesmo no sentido cronológico, pois, tal como na língua inglesa, a palavra não serve para tempo no sentido meteorológico. Já connosco é possível juntar os dois sentidos numa palavra, sendo inegável a sua força conceptual. Nietzsche fala em ventos vindos do futuro; Benjamin fala de uma tempestade que impede o anjo da história de fechar as asas; no PÚBLICO de hoje, Pacheco Pereira escreve uma crónica intitulada O Ar do Tempo, enquanto uma notícia refere que, segundo Milei, "sopram ventos de mudança favoráveis" à soberania argentina das Falkland. Não despicienda é ainda outra notícia esta de natureza propriamente meteorológica: "Os ventos trocaram a temperatura da água do mar entre Norte e Sul este Verão." Poderá parecer que na sequência do anteriormente invocado, as referências ao Norte e ao Sul terão um significado geopolítico. Não têm, só mesmo que ver com as diferenças da temperatura da água do mar em Esposende ou Lagos. Ainda assim, talvez a história tenha mesmo mais que ver com ventos e marés do que com lógica e livre-arbítrio como base de uma racionalidade da acção humana. Talvez na história, como na natureza, o que tem de ser tenha também muita força quando a água arrefece onde já foi tépida e aquece onde já foi fria. 

04 setembro, 2026

BATEM BATEM LEVEMENTE

Há mil trilhos que ainda não foram percorridos, mil formas de saúde e ilhas ocultas da vida. O homem e a terra do homem e não estão esgotados, nem descobertos. 
Velai e escutai, ó solitários! Vindos do futuro, chegam-nos ventos que batem as asas em segredo e a ouvidos delicados anuncia-se uma boa nova.
Vós, os solitários de hoje, os que viveis retirados, sereis, um dia, um povo. De vós, que vos elegestes a vós próprios, há-de surgir um povo eleito - e dele, o super-homem.
Na verdade, a terra ainda há-de tornar-se um lugar de cura! E já um aroma novo paira em seu redor, um aroma salutar...e uma esperança nova.                         
                                                                            Nietzsche, Assim Falava Zaratustra

Se aos 20 anos lia "mil formas de saúde" e pensava em "mil formas de saúde", penso agora em "mil formas de doença". Se então exaltava com as "ilhas ocultas da vida" agora assusto-me, e o mesmo com os "ventos que batem as asas em segredo". O que mudou entre 1980 e 2026? O peso de 45 anos em cima dos meus pueris 20 anos? Não, nunca fui de especiais ilusões, também não sou de desilusões, até porque a vida nem me foi madrasta. Foi então o peso desses anos, não em mim, mas no mundo que vai de 1980 a 2026, onde tanto tem vindo a acontecer, incluindo o inimaginável? É verdade que 46 anos na história do mundo é uma insignificância, mas a questão é que não passaram 46 anos. 1980 foi no século passado, melhor, foi no milénio passado e, neste caso, não se trata de uma mera formalidade do calendário. Não, entre o mundo de 1980 e o de 2026 não há um intervalo de 46 anos, há mesmo um intervalo milenar, e os que agora envelhecem são pequenos Janus que, com o mesmo cérebro, têm dois rostos ante duas realidades separadas por séculos. Sejamos justos, o mundo mudou para melhor em muita coisa. Mas as "ilhas ocultas da vida" e esses "ventos que batem as asas" (o anjo da história?) em segredos mal guardados e espalhando o seu novo aroma acridoce não auguram nada de bom.

03 setembro, 2026

ANDAR

 54.

            para sentir esta frescura

                              tive de andar trezentos quilómetros

        por debaixo dos céus


  85.

            olhar as primeiras flores

        dá à minha existência

             mais setenta e cinco anos


                                                          Matsuo Bashô, O Eremita Viajante 


Embora afastados, estes dois haikus estão intimamente ligados. Ambos referem quantidades, e embora uma seja relativa ao espaço e a outra ao tempo, é uma diferença que os une. Teve o poeta de andar trezentos quilómetros para sentir a frescura que jamais sentiria se não os andasse. Ainda que fossem duzentos e noventa e nove seria o mesmo que nada ter andado pois só mesmo ao quilómetro trezentos a poderia sentir. Não o diz, mas depreende-se pelo segundo haiku que sentir essa frescura deu mais anos à sua existência. Podemos ter assim uma interessante escala para medir os anos de vida de uma pessoa, habitualmente contados a partir da sua data de nascimento, pessoa que, se morreu oitenta anos depois de ter nascido, viveu ou existiu oitenta anos. Ora, de acordo com o poeta, uma pessoa nascida oitenta anos antes pode, se pouco andou, ter morrido com apenas três anos de existência, enquanto uma pessoa que morre trinta anos anos depois de ter nascido pode ter existido duzentos anos. Basta ter ou não ter andado para sentir um certo tipo de frescura, basta ter ou não ter andado para ver as primeiras flores. Sim, a esperança de vida está a aumentar. Mas talvez os anos de existência estejam a diminuir mesmo para quem vá morrer mais de cem anos depois de ter nascido. 

02 setembro, 2026

ENTRE QUATRO PAREDES

Há diferença entre passar os dias fechado diante de um telemóvel ou computador, e a ler bons romances ou a ver bons filmes? Há, mas não muita. 

01 setembro, 2026

O CÁGADO E O CUCO

As expressões armar aos cágados e armar aos cucos são semelhantes. Mas qual a semelhança entre um cágado e um cuco? Talvez a expressão armar aos cágados tenha sido inventada por um cuco e a expressão armar aos cucos inventada por um cágado. Cágado que diante de um cuco só pode ver um cuco, cuco que diante de um cágado só pode ver um cágado.  Mas também cágado que diante de um espelho jamais conseguirá ver um cuco, cuco que diante do mesmo espelho jamais conseguirá ver um cágado, impedindo assim o cágado de entender que se pode armar aos cucos, e o cuco entender que se pode armar aos cágados.

25 agosto, 2026

RAKHMETOV

 


Esquecer a estética? Até Kant, que era Kant, o que não é coisa pouca, dá valor à experiência do belo como expressão do bem moral, salvando a ínfima criatura que somos nós de ser esmagada pelo luminoso peso das estrelas no eterno breu do universo. Alguém quis brincar aos Savonarolas deste mundo, mas traído pelo acto falhado que mora ao lado. Kant até podia dispensar a música (pior para ele) mas tapar os olhos é coisa que nunca faria, assustado que ficaria com a vacuidade de uma cabeça sem sentidos. Porque um espaço sem sentidos é mesmo um espaço sem sentido. Podemos ser um lenho retorcido que jamais se endireita, mas salvos por uma beleza da qual foge o pobre anacoreta como o diabo da cruz.

24 agosto, 2026

ANOITECIMENTOS

                                                                          [...]

                                                  Há um tempo para o anoitecer sob a luz das estrelas,

                                                  Um tempo para o anoitecer sob a luz do candeeiro

                                                  (A noite com o álbum das fotografias).

                                                                           [...]

                                                                                                             T. S. Eliot, East Coker

23 agosto, 2026

MÃOS LIMPAS

Ainda no século XIX, o cirurgião Charles Meigs considerava ultrajante um homem com a sua posição social ter que lavar as mãos antes de operar. "Os médicos são cavalheiros e as mãos dos cavalheiros estão limpas", esclarece ele num artigo de 1855. Se pensarmos que só em 1861 Ignaz Semmelweis explicou que lavar as mãos antes de um parto evitaria as mortes das mães, até se pode desculpar a ignorância científica do cirurgião norte-americano. Mas a minha ideia não é a ignorância científica de um cirurgião do século XIX. É a perenidade de uma frase que ultrapassa, e muito, o campo da Medicina.

22 agosto, 2026

IMAGINE


Confesso que como professor que quase todos os anos tem de ir ao castigo, até apraz o imaginativo exercício. Outra coisa é ter vontade de acender o ondulante isqueiro para iluminar a noite escura logo que soam os primeiros acordes do John Lennon a cantar. Como é que uma coisa tão sólida e rija como um Bloco tão facilmente se transforma em fofos flocos de algodão doce?

21 agosto, 2026

CEGUES, SURDES E INFELIZMENTE NÃO MUDES


Diz-se que as ideologias cegam e a metáfora é boa. Um cego é alguém que faz sobrepor o livre conteúdo da sua mente ao que está diante dos seus olhos. O elefante para o cego não é o elefante à sua frente mas o elefante que livremente concebe na sua cabeça. O que também fazem as ideologias. Mas a metáfora do entupimento também é de aproveitar. A ideologia entope a cabeça de tal modo que fica incapaz de absorver outros elementos que a enriqueçam, sofistiquem, pluralizem, complexifiquem. Um cano entupido é o cabo dos trabalhos e o mesmo com uma cabeça entupida, bastando olhar para a história, e para o presente, para constatar os seus efeitos nocivos. Assinale-se, entretanto, o mérito do sagaz desentupidor que logo tentou acudir à desvairada cabeça que ali colou o papel. Mas desconfio que o telefone não irá tocar. Quanto mais entupida estiver a cabeça menor a capacidade para se aperceber do entupimento, ficando assim protegida de qualquer confronto com a realidade. 

20 agosto, 2026

RONALDITE

Outro clássico é, ao saberem que sou português, atirarem-me logo com o Cristiano Ronaldo. Uma praga, uma ronaldite aguda para a qual começa a ficar difícil desenhar o meu social sorriso de boa educação por uma satisfação que não sinto. Eu não gosto do Cristiano Ronaldo. Ser bom jogador ou trazer alegrias à pátria não é condição nem necessária nem suficiente para gostar dele, do mesmo modo que ser inovador também não o é para gostar de Musk, ser bom escritor para gostar de Pound ou ser bom orador ou esperto que nem um alho condição para gostar de André Ventura. O homem tem tudo o que eu não gosto, a começar no mau gosto e pirosice pegada que o dinheiro nunca irá corrigir, para acabar em quase tudo o resto. Entretanto, alguns, mal acabam de nomear a criatura, dizem logo que preferem o Messi. Uns dizem-no com ar de desafio e provocação, outros algo timidamente com algum receio de me melindrar. É então que aproveito para, aqui sim, com um sorriso de desenhador profissional e voz de quem não pode desprezar a ocasião: «Também eu!»  Mas nunca sem ficar depois com a sensação de que, podendo ser aquela pessoa daquelas que cantam o hino de olhos fechados e a mão no peito, olhará para mim como um traidor da pátria. Ufa, ainda bem que o homem está para pendurar as botas, libertando a pátria do seu simbólico patrocínio.

19 agosto, 2026

CLASSIX NOUVEAUX

Voltaram a dar-me o lugar no metro, o que, juntamente com autocarros e salas de espera, já se vai tornando um clássico desde há algum tempo a esta parte. Como durante muitos anos não fui velho, não ser velho tornou-se um clássico. Agora que sou velho, ser velho é que passou a sê-lo. Razão tem Italo Calvino em Porquê Ler os Clássicos?, quando diz que «um clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem a dizer.»  A única diferença é que, no meu caso, virada a última página, já não voltarei a sair da estante, entrando na categoria dos desclassificados.

18 agosto, 2026

O PÓ CÁ DE CASA

A Casa do Pó é o titulo de um romance com enorme sucesso nos anos 80 do século passado, bastante lido, mesmo por quem não o leu, e que entretanto, se evaporou, como tantos outros livros bastante lidos mesmo por quem não os leu. Hoje já ninguém o lê, mas sem dúvida que continua a ser um título bonito e poético mesmo para quem não o leu, como é o meu caso. Casa do Pó! A vontade que dá nela entrar, de perscrutar os seus silêncios, de devanear ante os seus mistérios, de lentamente a desvendar para entretanto nos irmos surpreendendo sob as camadas de pó que a enobrecem e embelezam. Eis o contributo do meu cérebro ao acordar perante a necessidade de limpar o pó à minha, depois de vários, demasiados, dias a acumulá-lo. O seu contributo para, como defende Wilde, poder ser a vida a imitar a arte em vez do contrário. E movido por este abúlico e decadente torpor continuarei sentado, pelo menos enquanto o feitiço durar.   

17 agosto, 2026

ALDEIA DA ROUPA SUJA

Ainda a propósito de ouvir conversas alheias, prática que não pratico, mas que por vezes é impossível evitar, ao subir a Sá da Bandeira, passo por um carro parado cujo condutor fala ao telemóvel com o vidro aberto, tendo-o ouvido dizer «Pá, lá na aldeia até o ar tem vitaminas!» Apetece perguntar, ao jeito de Zaratustra após encontrar o santo na floresta: «Será, então, possível? Este jovem ainda nada ouviu dizer, na sua cidade, da aldeia global?» 

16 agosto, 2026

CONVERSA INACABADA

Há dias, num matinal passeio pelo Prado do Repouso, reparo numa mulher, diante de uma campa, a falar sozinha. Vou-me aproximando, ainda a tempo de a ouvir dizer "Volto para a semana, está bem?". Afinal, não estava a falar sozinha. E fui-me afastando, gostando e não gostando de pensar que pudesse ser o único momento do dia em que iria falar com alguém.