13 outubro, 2026

O ESQUECIMENTO

Não tenho redes sociais, daí não precisar de tirar fotografias para mostrar onde fui muito feliz no cada vez mais disputado, palpitante e exigente campeonato da felicidade. Mas não sou imune à fotografite, se gosto muito de um sítio, saco da máquina ou do telefone e lá vai. Há dias, saltitando pelo espaço virtual, fui dar com um sítio que me ofereceu uma das mais assombrosas experiências de um lugar. Que não fotografei, e só reparei nisso quando já lá não estava. Esqueci-me. E sei porque me esqueci: porque não estive lá como espectador, mas como personagem de um filme que bem poderia ser de Tarkovski. O Google mostra imagens deste lugar para quem as quiser ver, mas jamais imagens daquela única e irrepetível experiência que dele tive, assim como a fotografia de uma pessoa que se ama, vista por muitos, não é o seu verdadeiro rosto. A sua ausência, o esquecimento dela, foi a melhor homenagem que prestei a um lugar em vez de uma fotografia, por muito boa que fosse, enquanto reflexo da minha consciência e vontade, esquecendo-me mesmo de mim próprio até virar as costas, ainda que atordoado, como quem se vira na cama para abandonar o sonho e acordar.