Descia airosamente a íngreme escadaria de uma rua enquanto outros em esforço a subiam. De repente, apercebo-me da minha enorme vantagem em relação a eles: como é bom descer, como é árduo subir. Mas logo refreei a minha soberba ao pensar que haveria de as subir, enquanto quem subia também noutras ocasiões as descerá e até pode dar-se o caso de nos cruzarmos em situação inversa. Parece-me justo que assim seja. Em ladeiras ou escadarias, todos nós, sem excepção, umas vezes descemos, outras vezes subimos. É a ordem natural das coisas. Já na escadaria social não é assim. Sim, há quem tanto possa descer como subir e até há quem nunca suba ou desça ao longo de uma vida tão plana como a Baixa Pombalina. Mas há quem nasça só para descer escadas, como há quem nasça só para arduamente as subir. E isso não é nada bonito de se ver.