Se aos 20 anos lia "mil formas de saúde" e pensava em "mil formas de saúde", penso agora em "mil formas de doença". Se então exaltava com as "ilhas ocultas da vida" agora assusto-me, e o mesmo com os "ventos que batem as asas em segredo". O que mudou entre 1980 e 2026? O peso de 45 anos em cima dos meus pueris 20 anos? Não, nunca fui de especiais ilusões, também não sou de desilusões, até porque a vida nem me foi madrasta. Foi então o peso desses anos, não em mim, mas no mundo que vai de 1980 a 2026, onde tanto tem vindo a acontecer, incluindo o inimaginável? É verdade que 46 anos na história do mundo é uma insignificância, mas a questão é que não passaram 46 anos. 1980 foi no século passado, melhor, foi no milénio passado e, neste caso, não se trata de uma mera formalidade do calendário. Não, entre o mundo de 1980 e o de 2026 não há um intervalo de 46 anos, há mesmo um intervalo milenar, e os que agora envelhecem são pequenos Janus que, com o mesmo cérebro, têm dois rostos ante duas realidades separadas por séculos. Sejamos justos, o mundo mudou para melhor em muita coisa. Mas as "ilhas ocultas da vida" e esses "ventos que batem as asas" (o anjo da história?) em segredos mal guardados e espalhando o seu novo aroma acridoce não auguram nada de bom.
04 setembro, 2026
BATEM BATEM LEVEMENTE
Há mil trilhos que ainda não foram percorridos, mil formas de saúde e ilhas ocultas da vida. O homem e a terra do homem e não estão esgotados, nem descobertos.
Velai e escutai, ó solitários! Vindos do futuro, chegam-nos ventos que batem as asas em segredo e a ouvidos delicados anuncia-se uma boa nova.
Vós, os solitários de hoje, os que viveis retirados, sereis, um dia, um povo. De vós, que vos elegestes a vós próprios, há-de surgir um povo eleito - e dele, o super-homem.
Na verdade, a terra ainda há-de tornar-se um lugar de cura! E já um aroma novo paira em seu redor, um aroma salutar...e uma esperança nova.
Nietzsche, Assim Falava Zaratustra