É conhecida a versatilidade filosófica da língua alemã, mas não os seus limites, que em certas circunstâncias podem ser ultrapassados pela da língua portuguesa. Quando se fala em Zeitgeist, espírito do tempo, tempo aqui só mesmo no sentido cronológico, pois, tal como na língua inglesa, a palavra não serve para tempo no sentido meteorológico. Já connosco é possível juntar os dois sentidos numa palavra, sendo inegável a sua força conceptual. Nietzsche fala em ventos vindos do futuro; Benjamin fala de uma tempestade que impede o anjo da história de fechar as asas; no PÚBLICO de hoje, Pacheco Pereira escreve uma crónica intitulada O Ar do Tempo, enquanto uma notícia refere que, segundo Milei, "sopram ventos de mudança favoráveis" à soberania argentina das Falkland. Não despicienda é ainda outra notícia esta de natureza propriamente meteorológica: "Os ventos trocaram a temperatura da água do mar entre Norte e Sul este Verão." Poderá parecer que na sequência do anteriormente invocado, as referências ao Norte e ao Sul terão um significado geopolítico. Não têm, só mesmo que ver com as diferenças da temperatura da água do mar em Esposende ou Lagos. Ainda assim, talvez a história tenha mesmo mais que ver com ventos e marés do que com lógica e livre-arbítrio como base de uma racionalidade da acção humana. Talvez na história, como na natureza, o que tem de ser tenha também muita força quando a água arrefece onde já foi tépida e aquece onde já foi fria.