03 setembro, 2026

ANDAR

 54.

            para sentir esta frescura

                              tive de andar trezentos quilómetros

        por debaixo dos céus


  85.

            olhar as primeiras flores

        dá à minha existência

             mais setenta e cinco anos


                                                          Matsuo Bashô, O Eremita Viajante 


Embora afastados, estes dois haikus estão intimamente ligados. Ambos referem quantidades, e embora uma seja relativa ao espaço e a outra ao tempo, é uma diferença que os une. Teve o poeta de andar trezentos quilómetros para sentir a frescura que jamais sentiria se não os andasse. Ainda que fossem duzentos e noventa e nove seria o mesmo que nada ter andado pois só mesmo ao quilómetro trezentos a poderia sentir. Não o diz, mas depreende-se pelo segundo haiku que sentir essa frescura deu mais anos à sua existência. Podemos ter assim uma interessante escala para medir os anos de vida de uma pessoa, habitualmente contados a partir da sua data de nascimento, pessoa que, se morreu oitenta anos depois de ter nascido, viveu ou existiu oitenta anos. Ora, de acordo com o poeta, uma pessoa nascida oitenta anos antes pode, se pouco andou, ter morrido com apenas três anos de existência, enquanto uma pessoa que morre trinta anos anos depois de ter nascido pode ter existido duzentos anos. Basta ter ou não ter andado para sentir um certo tipo de frescura, basta ter ou não ter andado para ver as primeiras flores. Sim, a esperança de vida está a aumentar. Mas talvez os anos de existência estejam a diminuir mesmo para quem vá morrer mais de cem anos depois de ter nascido.