Manhã cedo, ia a passar, e ao parar para apreciar casa e jardim, não resisto a um momento de suspensão da realidade: no silêncio da rua, ou acompanhado pelo chilreio das aves, imaginar um som de piano a vir do interior, com as paragens, hesitações e repetições de quem dá os primeiros passos no teclado. Mas impossível suspensão quando não há um único, ainda que breve momento, sem carros a passar, sempre, sempre a passar, prendendo-me, com as suas algemas visuais e sonoras, às duras grades da realidade. Os tempos não estão propícios para devaneios.
