31 julho, 2026

QUERO, LOGO EXISTO



 

Mas como assim, meter povos e corpos no mesmo saco? O que tem o povo maubere, palestiniano ou curdo que ver com a inveja que o Zezinho sente das maminhas e pipi da Zezinha, ou com a inveja que sente a Zezinha do pirilau e peito chato do Zezinho? E que coisa é essa de um corpo se autodeterminar? Os povos, comunidades cujos membros são dotados de consciência e vontade, podem autodeterminar-se. Mas um corpo?  Sim, é verdade Espinosa dizer que "Não se sabe o que pode um corpo", e a ciência tem vindo a confirmar o seu poder. E sim, é verdade que o corpo se autodetermina, muito nele acontece sem o cogito ter voto na matéria: temperatura, pressão arterial, batimentos cardíacos, digestão, e muito, muito mais. O cérebro entra na equação, mas o cérebro também é matéria. Tudo isso é indiscutivelmente verdade. Acontece que a autodeterminação aqui exigida na rua não é somática, mas política, lembrando-me o referendo do aborto, quando se dizia, ou escrevia na pele, "Na minha barriga mando eu", como se dispuséssemos tão livremente de  um feto como de fazer uma tatuagem, pregar um piercing ou atirar comida ultraprocessada para dentro da barriga que é, repito, nossa e de mais ninguém. Este desejo de ver o corpo autodeterminar-se não é mais do que o sentido manifesto de um latente desejo de poder do cogito para se autodeterminar livremente, embora superiorizando a vontade face ao pensamento. Neste caso específico, apenas mais uma acha para a fogueira em que a humanidade, tal como a conhecemos, vai assando em lume brando, num apoteótico festim da vontade romântica, que tem tanto de ingénuo como de perigoso.