- Agora, vai tomar um cálice de xerez e comer um bolo.
- Não gosto muito de xerez - explicou ela -, mas tomaria talvez outra coisa.
- Xerez não lhe agrada? Outra coisa? Que há-de ser? Que há aí, Thomas?
- Porto, curaçau...
- Prefiro curaçau... - Disse Gudrun, olhando confiadamente para Crich.
D. H. Lawrence, Mulheres Apaixonadas
Hoje, no obituário de Carlo Ginzburg, António Guerreiro vai ao último livro do historiador italiano para lembrar a sua definição de nacionalismo: saber que se pertence a um país por só o nosso ter a capacidade de nos envergonhar. Faz bastante sentido, mas é apenas mais uma pista entre outras. Li o artigo ainda o Sol dormia, mas foi já na sala cheia de luz que li a passagem em cima. Quando vejo Gudrun preferir curaçau em vez de Porto, senti uma pontinha de ciúme e irritação, reacção cuja primitiva irracionalidade revela uma bem mais eloquente e visceral ligação a um país. Enquanto português, posso sentir vergonha pela exibição da selecção ou por ver imigrantes a irem embora por se sentirem rejeitados, o que não me acontece, enquanto homem, com tantos comportamentos da humanidade. Mas estar diante de alguém que não existe e sentir-me ligeiramente incomodado só porque preteriu uma bebida produzida no norte do meu país como se fosse eu a ser preterido aqui no centro, dificilmente haverá maior sentimento de pertença a um país.