19 junho, 2026

O MEU NOME É ALGUÉM


 

Comprei no ano passado os dois volumes do Diário Íntimo, de Amiel, por dois euros. Como não gosto de más edições, sobretudo no que à tradução diz respeito, e sendo esta de 1944, fiquei de pé atrás ainda que o preço dispensasse grandes exigências. Abro-o para saber que a tradução é de uma Teresa Leitão de Barros, pessoa de quem nunca ouvira falar. Mas não posso dizer que tenha ficado na mesma pois logo no meu espírito se acendeu uma luz de confiança. Deixa cá ver, com este nome, só pode ser filha do Leitão de Barros, e, sendo filha de um importante realizador de cinema, não é uma pessoa qualquer. E foi com base neste pressuposto que comprei. Mas vale a pena questionar: que nexo causal haverá entre ser realizador de cinema e o domínio do Francês e Português de uma filha? Nenhum. Porém, quis acreditar que sim: sendo filha de alguém, uma «fidalga», Teresa Leitão de Barros só pode ter tido uma boa educação e formação, e isto numa época em que a língua francesa era dominante. Fui assim levado a concluir que só pode ser alguém que sabe ler e escrever, criteriosa, exigente, honesta com os leitores e que domina as duas línguas. Ao contrário de D. João de Portugal no Frei Luís de Sousa, que está ali de carne e osso mas é ninguém, Teresa Leitão de Barros, que não passa de um nome, logo adquire o estatuto de alguém, sendo assim surpreendido com esta extraordinária descoberta de um obscuro cantinho medieval da minha cabeça de século XXI. Entretanto, estava-se mesmo a ver, não resisti depois a procurar.