17 junho, 2026

OMNÍVORO

Há tempos, numa cidade europeia, por sugestão de alguém que a conhece bem, fui almoçar a um restaurante vegan. Não por ser vegan, mas omnívoro e apreciar comer bem e barato, mesmo sem perceber o que estou a comer. Onde vou dar com uma fauna alternativa, que se esforça para provar que é mesmo alternativa e que traça uma linha para separar quem não o é. Não sendo eu jovem e alternativo, senti-me ali na mesinha como um náufrago num daqueles ilhéus só com um coqueiro e, apesar de ser de carne e osso em vez de um pedaço de seitan, rodeado por tubarões veganos de olhos afiados. Pior me senti, como se estivesse a ser convidado para entrar num vagão a caminho de Auschwitz, quando vejo uma enorme faixa dizendo "Tourists, go home". Percebendo que para além de não alternativo, acabara de ser agraciado com o estatuto de judeu num comício em Nuremberga, não preciso de especiais dotes literários para explicar o alívio que senti ao sair dali, deixando de ser uma nódoa naquele imaculado lugar de pureza anti-sistema. Eu que passo a vida a abominar cheganos de extrema-direita acabara de ser abominado por veganos de extrema-esquerda. Valha-me isso, saiu reforçada a minha tendência para ser omnívoro.