Ennio Flaiano, guionista de Fellini e escritor, tem um conto chamado Um Marciano em Roma, que é sobre um marciano que aterra na Villa Borghese, provocando dias de loucura: domina todas as notícias, multidões querem aproximar-se dele, recebe convites para ir a todo o lado, toda a gente o quer conhecer. Dias depois, a atenção sobre ele diminui. Os dias passam, e levando a atenção com eles, até que já o iremos ver um dia a vaguear pela Via Veneto sem alguém dar por ele. Não me lembrei do conto por acaso, mas porque Iñigo Dominguez o vai buscar por recear que com a ida do Papa a Espanha aconteça o mesmo que ao marciano: chega, tem grande impacto, vai embora e dias depois tudo se desvanece. Certo. Mas, se virmos bem, não foi o que se passou também com o próprio cristianismo? A pergunta parece absurda por se tratar de uma religião com dois mil anos e que identifica culturalmente muitos milhões de seres humanos, da Nova Zelândia a Portugal, passando pelas Américas, grande parte da África e toda a Europa. Sim, mas eu disse cristianismo e o que temos talvez seja catolicismo, protestantismo ou ortodoxia a mais e cristianismo a menos. A Cristo, esse pobre diabo que morreu na cruz, dando depois origem a uns evangelhos parece ter acontecido o mesmo que ao pobre marciano em Roma.