Há muita coisa que deveríamos aprender com os animais. O meu gato tinha ainda poucos meses quando caiu da janela. Nunca mais para lá foi. Começou então a ir para o muro da varanda, sobretudo para observar os pássaros. Um dia dou pela falta dele e lá tive de o ir buscar à rua, vindo com o nariz machucado e a coxear de uma pata. Nunca mais subiu para o muro e a minha confiança é tal que posso ausentar-me durante muitos dias deixando a porta da varanda aberta. Eis um excelente exemplo do papel da memória num ser vivo. Porque nem sequer tem capacidade para isso, o gato não pensa nas quedas que deu, mas, sem dar conta disso, guarda algures esses factos para saber o que fazer ou não fazer. Uma sabedoria que nos falta. A memória não existe para nos virarmos para o passado, para vivermos no passado, para chafurdarmos no passado mas, registando o que de bom e mau aconteceu, aprendermos a viver no futuro. Uma espécie de indicativo do futuro para melhor soletrar o futuro do indicativo.