11 maio, 2026

O ROSTO



             Henrique Pousão - Cabeça de Burro                                              Marques de Oliveira - Cabeça de Poveira
 
Para além de estarem próximas, no Soares dos Reis, estas duas pinturas estão ainda unidas pelos títulos, o que não deixa de fazer sentido: olhamos para a esquerda e vemos uma cabeça, olhamos para a direita e uma cabeça vemos. E uma cabeça é uma cabeça. Que Henrique Pousão tenha chamado ao seu quadro Cabeça de Burro parece-me normal. Ele pintou-o para vermos um burro e nós vemos um burro. Sendo Marques de Oliveira um naturalista, também me parece normal dar aquele título. O que se vê é a cabeça de uma rapariga, e de uma rapariga da Póvoa, não de uma de uma casa burguesa de Lisboa ou do Porto, vá, uma beta daquele tempo, ou da aristocracia rural, neste caso uma agro-beta. Mas por aqui se vê as limitações do programa naturalista para captar tipos sociais e do seu ímpeto pedagógico para tornar a realidade perceptível através de padrões. O que conseguiu ver Marques de Oliveira nesta rapariga depois de dias a olhar para ela? A cabeça de uma poveira. Eu vejo uma das mais belas e interessantes expressões da pintura portuguesa e que não a deixaria ficar mal vista em qualquer museu do mundo. Como facilmente se percebe pelo resultado, o pintor viu, claramente, com olhos de ver, o rosto da rapariga e sejamos justos, magistralmente pintada. Mas ao dar aquele título mostra-nos que nada viu, viu um rosto vestido, opaco, um retrato social. Fique ele com a cabeça da poveira, que eu cá fico com a rapariga e o seu rosto exposto na sua máxima nudez da qual um naturalista que cataloga e disseca nada entende.