Imaginemos uma pessoa que em vez de ler um romance (Os Irmãos Karamazov, Os Maias), lê apenas uma folha que o resume, o suficiente para saber o mais importante dele e discuti-lo com outras pessoas. Sacrilégio, indigência intelectual, desonestidade consigo e com quem discute o livro, dir-se-á. Mas se virmos bem, qual é a nossa relação com os livros tempos depois de os lermos? A mesma de quem apenas leu o resumo, esquecendo os seus elementos secundários, que são quase todos. A única diferença é que quem não leu o livro não chegou a conhecê-los, quem o leu voltará a não conhecê-los porque os esqueceu. Porquê então ler livros e não resumos? Lêem-se livros porque é um processo auto-justificativo, um fim em si mesmo, como ir à praia, comer um gelado ou conversar. Porque se gosta, porque dá prazer, porque ajuda a atravessar os dias. Também esquecemos grande parte do que fazemos na vida, uma pessoa com 80 anos viveu 29 200 dias cheios de milhares e milhares de microacontecimentos que vai esquecendo. O que fica então? O resumo, mas o resumo de um enorme livro que foi escrevendo ao longo da vida. A esperança da vida está a aumentar, mas receio que esteja também a aumentar o número de jovens que quando chegar aos 100 anos de idade nem um resumo terão no bolso para com eles arder no crematório. Eis uma conclusão kitsch, pirosa até, mas com algum efeito retórico: a esperança de vida aumenta, mas vida sem esperança também.