Não é por desleixo que este livro não está nas melhores condições. Na tarde do dia 25 de Abril de 1974, antes de Marcello Caetano se render, foram disparadas algumas balas sobre a fachada do quartel do Carmo e o livro foi apanhado por uma. Está ali em exposição, mesmo ao lado do sofá onde nesse dia Marcello esteve parte do tempo sentado, e de balas. Uma cicatriz é uma ferida que já não dói mas cuja memória fica para sempre preservada. O que são hoje a exposição da sala onde Marcello Caetano se rendeu junto de Spínola, das balas disparadas ou do sofá onde foi lutando consigo mesmo, senão cicatrizes de um dia de fortes emoções? E o que dizer deste volume? Aquele rasgão é uma cicatriz no corpo do que em tempos foi um ambicionado símbolo de sabedoria, estatuto e poder, mas que agora não passa de um trambolho cheio de pó, a ocupar espaço no lar. Ao contrário da sala (continua a haver salas), das balas (continua a haver balas), do sofá (continua a haver sofás) este volume leva-nos para uma mise en abyme: num dia revolucionário que forçou um antes e um depois na história, há um volume da Grande Enciclopédia que leva com uma bala que a inutiliza, ficando ali como peça de museu no próprio museu, quando a própria historia já se encarregou de a tornar também uma peça de museu. A peça de museu de uma peça de museu, num museu. Diante da sua crua realidade, o rasgão parece uma ferida, mas trata-se mesmo de uma cicatriz no corpo de uma enciclopédia, quando a própria ideia de enciclopédia foi sorrateiramente desaparecendo da história. Podemos lembrar-nos dela, mas sem sentirmos a dor da sua ausência.
