Calhou estar em Madrid no fim-de-semana em que a Espanha venceu o último campeonato da Europa. Tinha acabado de ver uma exposição na Fundação Mapfre e, ao passar pela Cibeles a caminho de já não não sei o quê, vou dar com os primeiros adeptos que se começaram a juntar para receberem os heróis ao início da noite. Eis o contexto da fotografia. A minha questão é a seguinte: que tipo de pessoa será a que tem coragem de dizer àquela criança e ao irmão que não têm tanta razão como os outros cujas mães não cobrem a cabeça, para estarem ali? Provavelmente nasceram em Espanha e falarão melhor castelhano do que árabe ou berbere, frequentaram escolas espanholas, vêem desenhos animados em castelhano, sonham em castelhano e imaginam o seu futuro em Espanha por terem tanto lá nascido como aqueles cujas mães não cobrem a cabeça. Será que é por não ser cristão? Venha então alguém dizer-me que, por não ser cristão, tenho menos razões para festejar um golo do João Neves ou do Rafael Leão. E o mesmo a um espanhol que festeja um golo do Yamal. Será por não terem sangue limpo, como se dizia no tempo da Inquisição ou nazismo? Mas o que será um puro espanhol? O subtipo de um conceito associado a cavalos ou charutos? Não vemos os rostos daqueles dois miúdos levados por uma mãe que, num dia terrível de calor, está ali com os filhos para receberem a Selecção. Sem rostos, como calhou ficarem, não passam de abstracções, estatística, percentagem. Mas têm um rosto e, mesmo assim, diante deles, espanhóis haverá que continuam a vê-los como menos espanhóis e a fazer-lhes dar conta disso, sem darem conta, porém, de que serão eles os menos dignos de um país com uma matriz cristã da qual cinicamente se orgulham, mas também da qual nada entendem nem querem entender.