29 maio, 2026

ENTRE OS RIOS

Saio todos os dias de casa à mesma hora para fazer a pé o percurso que me leva a estar dez minutos depois no local de trabalho. Há dias, tendo que imprimir umas coisas, saí de casa quinze minutos antes. O suficiente para que tudo fosse diferente. No prédio, ao contrário do habitual, o elevador indicava não estar no -1 que dá acesso à garagem. Na rua, as pessoas com quem me cruzo ou que vão na mesma direcção eram outras, assim como os carros. Certamente as pessoas e os carros que passam àquela hora, e se em vez de ir quinze minutos mais cedo fosse quinze minutos mais tarde também já iriam ser outros, os que veria todos os dias se fosse a minha habitual hora de sair. Como ontem, eis de novo a história. Neste caso, o pedaço dela que nos calhou, a mim e aos que vejo na rua, ainda que em direcções diferentes. Eis de novo a história, e dizendo o mesmo que disse ontem, mudando só a perspectiva. Ontem, pensava no mundo de Parménides, no que não muda num mundo em mudança, desta vez em Heraclito, num mundo em que ao pormos o pé no rio já não o molhamos com a água que passou antes. Já a ponte, essa, está sempre lá, aparentemente rija. Mas pode ser que também um dia a ponte caia, e já sem um Parménides e um Heraclito para reflectir sobre isso.