Há musicais em cartaz durante anos. Quem vai assistir três ou quatro anos depois da estreia sabe isso, mas logo o esquece quando, já sentado e com as luzes da ribalta a iluminar o palco, sente que o espectáculo foi feito para quem está ali naquela noite, esquecendo que milhares já o viram antes e milhares o irão ver depois. Houvesse alguém que, com um olhar clínico, fosse assistir todas as noites ao longo dos anos, iria observar subtis diferenças num guião que se repete ao longo dos anos ou mudanças nos protagonistas que se iam revezando. Orlando poderia ser essa pessoa, mas Orlando nunca existiu a não ser na imaginação de Virginia Woolf. Nós somos apenas os que vão assistir apenas uma noite. Eis a nossa relação com a História e a parte dela que nos calhou.