A noção de agradável, que partilhamos com os animais, é um parente pobre da estética, ao invés dos sentimentos de belo e de sublime. Na política, é mesmo uma inexistência. Mas não devia. Ao contrário do fascismo e do comunismo que apostam no sublime (categoria estética), ao contrário de certas utopias que são belas (e o belo é uma categoria estética), a democracia não é bela e muito menos sublime. Diria que a democracia é um regime simplesmente agradável: sabe bem, gostamos dela, mas sem entusiasmar. Tem o impacto de uma boa maçã, não o de um gelado italiano com um fresquíssimo chantilly ou uma de uma bela chanfana. Qualificar a democracia de regime agradável parece ser coisa pouca ou até despropositada, mas não. É como aquelas coisas pelas quais nem damos no dia-a-dia, mas cuja falta sentimos quando não temos. Daí não poder dizer que agradável, apesar de bom, seja uma força da democracia do mesmo modo que ninguém sai de casa ansioso porque lhe faltam maçãs (embora gostemos de as ter à disposição), quando é capaz de andar muitos quilómetros para ir à Bairrada comer leitão. Podemos dizer, sim, e isso é um problema, e nada pequeno, que ser apenas agradável é a grande fraqueza da democracia.