26 maio, 2026

A VERDADE A QUE TEMOS DIREITO

Defendia Kant que em nenhuma circunstância se deve mentir. Benjamin Constant dizia que não é bem assim. Dizer a verdade é um dever se as pessoas tiverem direito a ela. Se um assassino pergunta a alguém onde está a sua futura vítima, não tem o direito de saber e não merece saber. Dei comigo a adaptar este divertido arrufo filosófico à relação entre políticos e o povo, ciclicamente conhecido por eleitorado. Os políticos mentem. Seja por astúcia premeditada, seja por entusiasmo paternalista de quem olha para o povo como um filho que deseja ver feliz. Mas pronto, mentem. A minha questão consiste em saber se têm ou não o direito de mentir. Na minha opinião, têm. E têm pois a esmagadora maioria das pessoas a quem se dirige os políticos não tem o direito à verdade. O jogo entre políticos e eleitorado não é marcado por critérios de verdade mas de ilusão. A relação entre políticos e eleitores não resulta de um contrato racional entre agentes racionais mas de uma relação entre actores e público que se deleitam com o jogo de ilusões que se estabelece entre eles. O homo politicus, tanto o que elege (homo stultus), como o que é eleito (homo loquens), é sobretudo um homo ludens. Pronto, os políticos manipulam pessoas que aceitam ser manipuladas, mentem a pessoas que aceitam ser enganadas numa certa suspensão da descrença transferida do cinema ou da literatura para a política  Quem explica isso bem é um conhecido filósofo chamado Platão. Para ele, os políticos infantilizam pessoas que se deixam infantilizar, dizendo-lhes o que elas gostam de ouvir independentemente do valor de verdade do que estão a ouvir. É por isso que o deprimente espectáculo eleitoral das campanhas eleitorais, em vez de nos fazer chorar, deve fazer rir. Tanto políticos como o povo a quem se dirigem são risíveis. O pior vem apenas depois e há que aproveitar enquanto não vem.