Anna Berent, O Despertar da Primavera, 1929, Museu Nacional de Varsóvia
Com algumas excepções, não gosto de pintura simbolista, fazendo mesmo parte das minhas raivinhas de estimação. Ainda assim, embora nunca tivesse este Despertar da Primavera na minha sala, não deixo de simpatizar com ele. É como as pessoas com quem falamos uns minutos no supermercado mas jamais convidaríamos para jantar. Não fere os olhos e o seu conteúdo é interessante para um português. A estação a que por cá chamamos Inverno, não é bem Inverno. Sim, arrefece, pode chover mais, há sítios onde neva um pouco, mas não passa de um jovem e empertigado Outono armado em adulto. Porque temos Sol e céu azul todo o ano, não há grande diferença entre o verde do Inverno e do Verão, o frio pouco baixa dos 0º. Basta ler o início do romance Ressurreição, de Tolstoi, para saber o que é, para um russo, a Primavera que emerge do longo Inverno e que um português terá dificuldade em entender. Sim, percebo que estamos na Primavera: dias mais quentes e maiores, as cerejas, o perfume das tílias quando vou de manhã trabalhar, bálsamo para o nariz e alma, a luminosidade cromática dos jacarandás, bálsamo para os olhos. Mas nada que ver com a Primavera onde a natureza e a luz do Sol hibernam durante meses, começa a anoitecer após o almoço, o céu apresenta uma interminável cor de chumbo e o frio faz sentir com mais intensidade a poética do lar, sobretudo quando a neve apaga os vestígios e distracções do mundo (Bachelard-Poética do Espaço). Eis pois a renascida Primavera da pintora polaca, após longamente definhar numa mortalha, pois a órbita da Terra não pára, tornando-se de novo uma jovem bela e sadia, como, imagino, a de Botticelli. Entretanto, ser este imaginário primaveril marcado pela presença feminina, também já pouco simbolicamente nos diz e haveria muito para dizer. Insisto, não teria este quadro na minha sala, mas gostei de o encontrar como algumas pessoas no supermercado para dois dedos de conversa.
