«O primeiro mês da minha viagem foi todo em perpétuo mobile: cinematográfico. Admirado estou de que tão rápidas e numerosas mutações me não aborreçam». Carta de Manuel Teixeira Gomes a Columbano Bordalo Pinheiro (Argel, 20-01-1926)
Associamos aborrecimento a lentidão, por isso os filmes de Manoel de Oliveira (ou como se dizia no meu tempo, o "cinema francês") são considerados aborrecidos. Daí ser contraintuitiva esta admiração de Teixeira Gomes por não se sentir aborrecido com a rapidez, não incomodado com uma sucessão de imagens que impossibilita a fixação numa delas, ao contrário da fotografia e pintura. Como qualquer viajante pré-turismo de massas (a viagem de Goethe por Itália é um bom exemplo), Teixeira Gomes observa, estuda, pensa (muitos desenham), melancoliza, divaga, sendo bastante aborrecida qualquer abrupta interrupção. O que acontecerá então na sua cabeça (e não na de Goethe) para já não se sentir aborrecido com isso? A chave pode estar em três recentes inovações que mudaram a percepção: comboio, carro, cinema. Não é só na relação com o tempo, não só na relação com o espaço, é também na ligação entre os dois. Teixeira Gomes nasce em 1860, é por isso um homem do século XIX (o primeiro percurso entre Lisboa e o Carregado foi quatro anos antes), mas em 1926 revela já pertencer ao século XX. E quando diz "cinematográfico" não o diz da mesma maneira que nós dizemos: está ainda a tentar interiorizar uma ideia que para nós há muito se tornou automática porque nascidos com ela. Talvez a sua admiração com esta mobilidade cinematográfica corresponda ao que para a minha geração foi a Internet e agora a A.I. Por fim, não posso deixar de me sentir intrigado com o efeito desta frase na cabeça do destinatário, pintor de sombrios bastidores dos quais o tempo parece ter fugido. Uma cabeça que provavelmente ficou retida no século XIX. Por variadas razões, também por vezes sinto que a minha ficou no século XX.
