22 abril, 2026

MIL IMAGENS

Estou a corrigir um teste sobre filosofia da arte. Numa das versões apresento o retrato de Hegel pintado por Jakob Schlesinger, "Construção Magnética", do Malevitch e uma fotografia que mostra uma pessoa a observar "Comedian", de Maurizio Cattelan. Na outra, surge "O Rapaz do Alaúde", de Caravaggio, "A Fonte" de Marcel Duchamp e uma fotografia do Banco Hipotecário, em Buenos Aires. Embora normal e previsível, é interessante ver vários alunos a referirem-se a tudo isto como imagens. Não está errado: o teste tem texto e imagem. O que se torna interessante é distinguir o que se passa na cabeça de um velho como eu e na cabeça de um jovem. São tudo imagens, mas eu continuo a ver uma pintura, uma escultura, uma fotografia, um fotograma ou um edifício com interesse arquitectónico porque tenho a consciência da especificidade formal e material de cada uma, coisas como a natureza bidimensional da pintura e tridimensional da escultura, ou de uma fotografia não ser pintada e uma pintura não resultar de um clique numa máquina. Já para um jovem que contacta mais com imagens do que com o mundo real dos museus e exposições, do cinema ou da própria rua como espaço de exposição arquitectónica, tudo é imagem e nada mais que imagem: uma pintura é uma imagem, uma escultura é uma imagem, uma fotografia é uma imagem, um edifício é uma imagem. Claro que sabe a diferença entre tudo isso, era o que mais faltava. Mas acaba tudo por ficar diluído no vago e sincrético conceito de imagem. Penso em Platão quando diz que uma árvore é uma cópia imperfeita da ideia de árvore, sendo a sombra da árvore uma cópia da cópia. A analogia aqui não funciona, mas diria que os nossos jovens, no seu mundo de imagens, vivem num mundo que copia, imperfeitamente, diga-se, o mundo real. Por isso, daqui a alguns dias, irei levá-los a Lisboa para verem quadros a sério em vez de imagens.