18 abril, 2026

NA CAMA COM

A falácia da falsa causa, o "Post hoc ergo propter hoc", que gosto de pôr os alunos, como na escola primária, a rapidamente soletrar pela sua engraçada sonoridade, consiste em ver A como causa de B só porque lhe antecedeu: entrar com o pé direito na sala do exame e acreditar ser essa a razão por tirar boa nota. Outra coisa é confundir causa e efeito. Já ouvi diversas vezes que há padres que têm problemas com a sexualidade por serem padres. Eu digo sempre que talvez seja o contrário: não têm problemas sexuais por serem padres, talvez sejam padres por terem  problemas sexuais. Há dias, num museu etnográfico, vi um quarto de uma casa rural do século XVIII, ficando impressionado com a estreiteza da cama. Será que isso pode explicar o facto de naquele tempo as pessoas terem muitos filhos e hoje, sendo as camas de casal cada vez mais largas, terem cada cada vez menos? Haverá algum relação causal entre o tamanho da cama e a taxa de natalidade? Não. Mas também não deve haver fumo sem fogo. O que pode acontecer é a maior largueza das camas traduzir o facto do casal representar cada vez mais uma ligação entre dois indivíduos cientes de uma autonomia e espaço individual que se sobrepõem ao natural e atávico desejo, e obrigação, de ter filhos. Claro que até podem convergir todas as noites para o meio da cama, mas isso não equivale ao tempo em que uma amálgama indistinta de dois corpos estava condenada a um aquecimento mútuo, com as dramáticas consequências que daí poderiam advir 9 meses depois, o que hoje não aconteceria graças aos contraceptivos modernos. Em suma, não havendo hoje os perigos da aproximação nocturna, nunca como agora houve tanta necessidade, como os animais, de marcar território, o que acaba por ter consequências na taxa de natalidade.