23 abril, 2026

MÍNIMOS

Aula de Psicologia em turma pré-universitária, ou seja, com idade para votar. Em cima da mesa o conceito de "ameaça do estereótipo", dando-se como referência a experiência de Kenneth Clark e Mamie Clark, nos anos 40, na qual se mostra a preferência de meninas negras por bonecas brancas, num claro processo de auto-depreciação. Patati patatá, digo que, provavelmente, entre as mulheres negras (e alguns homens)  que esticam o cabelo, haverá quem o faça para se aproximar do padrão visual de uma mulher branca, incorrendo no mesmo processo das meninas da experiência. Com a tonitruante veemência de um trovão, logo algumas alunas dizem que não, que as mulheres negras que esticam o cabelo o fazem por motivos meramente estéticos e não por qualquer referência às mulheres brancas. Admiti que tivessem razão, sei lá eu, mas não sem perguntar se conhecem alguma mulher negra que estique o cabelo e lhes tivesse dito porquê. Não conhecem. Confesso que a resposta me deu alguma alívio, não por me permitir confirmar qualquer certeza, mas por manter viva a minha dúvida, ou, dito de outro modo, a minha hipótese, aquilo a que Karl Popper chama de conjectura. E por falar em dúvida, apesar de não ter diminuído no que à possibilidade de haver mulheres que esticam o cabelo para se aproximarem das brancas, sou obrigado a admitir que aumentou ainda mais (e já não era pequena) quanto aos méritos de qualquer discussão e de que desta nasça a luz. Se fosse para conduzir um carro de noite nem força teria para acender os mínimos.