26 março, 2026

O MUSEU IMAGINÁRIO

A aula era sobre filosofia da arte e, na sequência do que estava a explicar, ocorreu-me dizer que tinha ido no fim-de-semana a Madrid para ver uma exposição que jamais poderia perder, embora já a tivesse visto em 2008, em Londres. Dir-se-á que soa a snobismo e presunção, mas os alunos, os quais, com três excepções, nunca entraram num museu para ver pintura, ficaram a saber que existe um mundo, não só possível mas real, onde pessoas atravessam países só para ver uma exposição de pintura. Há mais de 30 anos vi, na RTP2, uma entrevista de Manuel de Brito na qual dizia que se deslocou a Oslo só para ver o Munch, que não apreciava pelo que conhecia dos livros, pondo-se então a caminho para tirar a prova dos nove diante dos quadros. Na altura, em que tudo era bem mais longe e mais caro do que agora, achei aquilo de um enorme snobismo e presunção. Mas, nesse tempo em que a pintura ainda pouco me dizia, talvez me tenha marcado o facto de existir um mundo não só possível, mas real, em que pessoas atravessam países só para ver uma exposição de pintura. Já agora, isto foi num tempo em que, como ainda hoje, pessoas atravessam países só para verem um jogo de futebol, regressando a casa logo de seguida, sem que se veja nisso qualquer snobismo e presunção. Acabei por vir a fazer o mesmo que fazia Manuel de Brito, o que me leva também a imaginar um mundo possível, e de preferência real, em que ex-alunos, ao irem a uma cidade onde há museus, ou ao passarem à porta de um deles, sabendo haver um mundo real em que existem pessoas que atravessam países só para ver pintura, pensem em aproveitar o museu diante de si e acabem por entrar. E mesmo, quem sabe, apreciar.