Antes de começar a aula vem uma aluna ter comigo toda contente para me dizer que, por sugestão de um amigo, vai começar a ler Os Irmãos Karamazov, fazendo ainda, com o entusiasmo ao rubro, uma referência ao episódio do Grande Inquisidor. De imediato, os tortuosos e labirínticos corredores da alma fizeram-me pensar nos Beatles. Sim, os Beatles. Bem sei que associar o escritor russo aos The Fab Four é como pensar numa bela história de amor entre os deputados Filipe Melo e Isabel Mendes Lopes. Mas, seguindo a via hermenêutica que leva um psicanalista a decifrar um sonho esquisito, também rapidamente desvendei o mistério. Já sabia ser a aluna fã dos Beatles, e o que me ocorreu foi de certeza o seguinte. No tempo em que os Beatles estavam no auge as estantes de famílias de classe média eram assiduamente frequentadas pelos clássicos portugueses, franceses, americanos e russos, sendo Dostoievski presença inevitável, nas suas traduções do francês. Cá está: quando a rapariga vem ter comigo reajo com surpresa (Irmãos Karamazov?!), mas tendo logo a involuntária capacidade para lhe atribuir normalidade, concebendo um mundo possível, mas que já foi real, em que uma pessoa ouve Beatles e lê os Karamazov, ou vice-versa. Tudo certo, portanto, basta, como Alice, escorregar por um poço escuro onde tudo se mistura sem as leis que alimentam o pensamento c científico e racional.