Desde muito cedo que me habituei a não dar erros ortográficos e só muito raramente surge uma dúvida sobre como se escreve uma palavra. Agora, que estou no ocaso da vida, quando já devia viver sem sobressaltos, vai não vai lá tenho de ir ver como se escreve uma palavra. Eu tinha uma relação íntima com as palavras, tratava-as por tu, faziam parte de mim, ou eu parte delas, e era suposto que a nossa relação fosse até que a minha morte nos separasse. Não foi isso que aconteceu. Não foi para toda a vida e acabaram por ser as palavras que morreram para se transformar em detritos. Hoje calhou ser neo-realismo. Estava a escrevê-la e algo me disse que já não existiria, de modo que, como uma criancinha na escola, lá fui ver como raio se escreve. Uma humilhação, uma desfaçatez esmagada na minha cara como aqueles bolos cheios de chantilly nos filmes cómicos. Neorrealismo! É agora neorrealismo, um horror de palavra sem a elegância do hífen e com aquele duplo erre a arranhar-me os olhos e que só me lembra o ex-ministro Mira Amaral a falar com os comissuras da boca cheias de baba. Escrevo uma palavra nova, mas sem a alegria e entusiasmo com que se escreve uma palavra de uma língua que se está a aprender. Pelo contrário, neste caso, é com tristeza e frustração por estar a aprender Português, a minha pátria, como língua estrangeira, fazendo de mim um apátrida.