22 fevereiro, 2026

VERGONHA

Já tinha conversado várias vezes com o senhor que vende livros em 2ª mão na estação rodoviária de Sete Rios. Recentemente, a propósito de roubar livros, quis contar uma história, tendo começado por "Quando estava a estudar aqui em Lisboa". Disse isso como quem diz "A primeira vez que fui ao Estádio da Luz" ou "Quando fui operado no Pulido Valente", e depois lá contei a história. A partir daí o senhor começou a tratar-me por doutor. O simples facto de ter contado uma história do meu tempo de estudante, metamorfoseou-me num doutor, o que me deixou bastante envergonhado. Eu não tenho vergonha de ter tirado um curso, na verdade, nem vergonha nem orgulho. Tanta vergonha ou orgulho como ter tirado o 5ºano dos liceus ou a 4ªclasse. A minha vergonha deve-se a ter sido repentinamente despossado de mim mesmo para me tornar num título diante de alguém sem título algum, quando antes apenas havia dois seres humanos. O próximo encontro já irá ser entre um doutor e um não doutor e irei sentir-me como se aparecesse na estação de Sete Rios com uma bata branca e um estetoscópio ao pescoço quando nem sequer é terça-feira de Carnaval.