23 fevereiro, 2026

UMA FRASE É UMA FRASE E A SUA CIRCUNSTÂNCIA

 

  Rua de Madrid

Isaiah Berlin teve o cuidado de mostrar como Kant ou Hume, filósofos tão insuspeitos de pactuarem com projectos irracionais e iliberais, sem terem qualquer culpa e responsabilidade acabaram por inspirar tais projectos. Daí que esta simpática e pedagógica frase de Ortega, lida hoje, não deixe de provocar alguma apreensão. Porquê? Porque vivemos num tempo em que a verdade, reduzida a pós, vagueia pelas ruas da amargura: movida por estados de alma, pelo modo como cada indivíduo se sente empoderado (estou a gozar, certo?) para acreditar e pensar no que lhe dá na real gana, por uma tonitruante frase valer mais do que todo um livro ou mesmo artigo de jornal, por uma artificial fluidez na demarcação entre ciência e pseudociência, pelo autoconvencimento, arrogância e prepotência do indivíduo ou da tribo sobrepostas à verdade objetiva, pelas percepções que anulam os factos. Uma coisa é levar o escravo a descobrir a verdade como faz Sócrates no Ménon. Outra é quando os Sócrates passam a habitar o reino das sombras, deixando toda a luz, não já do Sol mas dos holofotes, para os escravos, entregues a quem os quer tornar ainda mais escravos.