No primeiro ano da faculdade morei alguns meses na Duque de Loulé, onde apanhava, creio que o 32, que me deixava à porta da faculdade. E da Lisboa situada entre o ponto de partida e o ponto de chegada era apenas essa obstinada linha que eu conhecia de olhos praticamente fechados: Duque de Loulé, praça José Fontana, Casal Ribeiro, Saldanha, Av. da República, Entrecampos, Campo Grande e Cidade Universitária. E vice-versa. Saía de manhã com o objectivo de chegar à faculdade e depois à tarde com o objectivo de chegar a casa. Há dias, após passar a noite entre o Saldanha e o Arco do Cego, resolvi na manhã seguinte explorar aquele pedaço de cidade até à Culturgest: rectas e perpendiculares por onde nunca tinha passado antes, tal e qual um estrangeiro na cidade sem saber bem por onde anda. E eis que neste pedaço vagarosamente saboreado descubro vários pontos de interesse, tendo mesmo como cereja em cima do bolo uns magníficos biscoitos de limão que comprei numa pequena e velha padaria na Defensores de Chaves, tão despercebida que por ela não dará um apressado transeunte, biscoitos que só há pouco acabaram e muito consolo me deram. Sei pela geografia ser esta a Lisboa onde vivi durante meses, mas também me diz a consciência e a memória ser uma Lisboa onde nunca tinha estado porque a minha verdadeira Lisboa foi transformada numa pobre linha com um ponto de partida e um ponto de chegada, a qual me tornou tão limitado como os limites do meu percurso. Durante meses soube apenas uma coisa, importante, mas apenas uma coisa: chegar à faculdade e chegar a casa. E lá ia e vinha eu, todos os dias, sempre as mesmas ruas, as mesmas casas, as mesmas lojas passando velozmente pelo vidro do autocarro. Desta vez, levado pelos meus passos perdidos numa flânerie sem eira nem beira, fiquei a saber várias coisas, todas elas sem princípio nem fim porque valiosas por si mesmas e não setas na direcção de um alvo. Sei mais, e variadas coisas, o meu mundo expandiu-se, e isso é bom. E os biscoitos também eram mesmo muito bons. Irei lá voltar, voltar onde nunca me havia ocorrido passar porque fechado no meu pequeno mundo.