27 fevereiro, 2026

MEFISTO

Há coincidências inquietantes. Ontem, no PÚBLICO, um artigo sobre Nick Land, o sinistro autor de The Dark Enlightenment. Mas entretanto ando a ler Mefisto, polémico romance de Klaus Mann (1936) que, enquanto roman à clef, lhe trouxe grandes dissabores, e hoje de manhã, ao iniciar o capítulo VII (O Pacto com o Diabo), vou dar com seguinte passagem: 

«Deus desviou a sua face desta terra [...]Esta terra está suja, e ninguém sabe quando poderá voltar a ficar limpa. [...] A mentira torpe arroga-se o poder nesta terra. Berra nas assembleias, berra aos microfones, nas colunas dos jornais, nos écrans dos cinemas. [...] Os cavaleiros do Apocalipse estão a caminho, ficaram por aqui e instauraram um regime hediondo. A partir daqui, pretendem conquistar o mundo: pois é essa a sua intenção. Querem reinar sobre as terras e sobre os mares também. Por toda a parte, a sua figura monstruosa deverá ser venerada e adorada. A sua fealdade deverá ser admirada como modelo de nova beleza. Estão decididos a abater-se sobre o mundo com a sua guerra, para depois o poderem humilhar e perverter. Os senhores do Mal viajam pelas suas novas províncias - em grandes automóveis, em aviões ou em comboios especiais. Viajam por todo o lado sem parar. Em todas as praças de mercado, papagueiam as suas mentiras. Onde quer que eles, ou os seus vis acólitos, apareçam, a luz da razão extingue-se e as trevas caem.»

Quando Mann publica o romance em 1936, sendo esta passagem relativa aos acontecimentos de 1933, não podia saber dos anos seguintes. O venenoso cocktail que originou a sucessão de acontecimentos entre os anos 20 e 40 teve como ingredientes uma ideologia sinistra, um populista dirigindo um partido que usou descaradamente a mentira, o uso eficaz das tecnologias de então sobre um povo vulnerável. Em 1936, Mann tinha a consciência do Mal e dos seus perigos, mas sem poder ter ainda uma noção clara de todas as suas consequências. 90 anos depois, nós, felizes e contentes nas nossas "democracias de Weimar", diante dos nossos computadores ou telemóveis, também não.