Para grande surpresa minha, numa turma ninguém sabia quem era Amy Winehouse, o nome que me veio à cabeça como exemplo de coisas, como peças de roupa, que por terem pertencido a certas pessoas, passam a valer muito dinheiro. Este desconhecimento por parte dos alunos mereceu-me duas reacções internas: uma melancólica e outra cínica. A melancólica, por em tão pouco tempo uma vedeta pop global ser exilada para o sótão da história, levada pelas frenéticas asas do respectivo anjo. A outra, mais optimista (o cinismo tem sempre qualquer coisa de optimismo), foi pensar na virtude da ignorância, que tem o mérito de fazer com que um trapo velho não passe disso mesmo, um trapo velho, com o valor de um trapo velho. Ambos os estados permitem-me recorrer a Paul Célan para sugerir estar a cantora já carregada com «cinzas de significados esgotados». Mas se calhar não é só o que passou a ser ignorado que está carregado com cinzas de significados esgotados. Talvez a história não passe mesmo de um esgoto por onde tudo se esvai, esgotando o seu significado, ainda que para sempre lembrado no eterno futuro.