Soube que uma amiga de uma amiga espanhola do meu filho morreu no trágico acidente ferroviário de ontem, em Espanha. Tinha 27 anos, a idade do meu filho. Sabia que morreram 40 pessoas até ao momento, as pessoas do costume, simplesmente pessoas. É muito estranho. Eu sou apenas a pessoa que tem um filho que tem uma amiga que tem uma amiga que morreu no acidente. Uma mera abstracção sem rosto, sem nome, sem biografia. Não conheço, portanto, a rapariga que morreu, mas chocou-me mais a sua morte do que as outras 39. A aritmética pode ser exacta, mas apenas no mundo ideal dos números. Todos os mortos em acidentes são iguais abstracções, mas umas são mais iguais do que outras.