Não é um moribundo qualquer, mas um dos mais míticos e poderosos políticos do século XIX. Eis Otto von Bismarck no seu leito de morte, secretamente fotografado por Max Priester e Willy Wilcke. Veja-se o poder de uma máquina que, ao invés das exaltantes pinturas de heróis e figuras de relevo, consegue destruir uma personagem, roubando-nos o mito Bismarck para nos dar em troca o homem Bismarck no apogeu da sua decadência. Hoje, os políticos gostam de se fazer passar por pessoas vulgares que apreciam coisas vulgares, fazem coisas vulgares e dizem coisas vulgares. Mas Bismarck não é desse tempo, antes querendo ficar eternamente Otto von Bismarck, um dos "grandes da história" acima do comum dos mortais. Viveu e morreu no século XIX mas, com esta fotografia, azar dele, ao contrário de um D. João II, Carlos V, Isabel I, Frederico II, Catarina ou Napoleão, temporalmente protegidos da intrusão de uma máquina fotográfica, fica para a eternidade morrendo vulgarmente como um homem do século XX. Foi por um triz. Umas décadas antes e não teria ficado cativo dos olhares dos séculos seguintes, mas conservado em pinturas, qual borboleta preservada numa moldura para eterna apreciação das suas asas.
