Na secção de padaria do supermercado, encontro uma senhora, já bastante septuagenária, PSD ferrenha, que conheço vagamente, mas o suficiente para dois dedos de conversa. Após os habituais comentários sobre assuntos pessoais, deu-lhe, literalmente suspirando, para abordar o estado do mundo, acabando na sequência disso por desabafar: "Sou católica, acredito em Deus, e que este me perdoe, mas revolta-me a ideia de haver gente boa a morrer tão nova e o malvado do Trump continuar por aí". Pois, eu não sou católico nem Deus faz parte dos meus quadros mentais, daí nem se colocar a questão do seu perdão, mas penso exactamente como a senhora. O que nos separa é apenas a revolta. Ela revolta-se porque acredita em Deus, crença que pressupõe uma ordem e justiça no mundo. Daí ser incompreensível e injusto o balanço entre os que morrem e os que continuam vivos. É como no futebol considerar injusto o resultado quando perde a equipa que jogou melhor. Acontece que, não havendo Deus, o mundo fica entregue a si próprio, a um eterno jogo entre diversos poderes, resultando as vitórias e derrotas de vicissitudes várias que ninguém consegue prever. No futebol, o árbitro, apesar de não marcar nem defender golos, tem por missão imprimir uma certa ordem ao jogo. Pode não ganhar o melhor, mas ganha o que conseguiu fazer com que tal acontecesse, mesmo que nada tenha feito, como acontece ganhar com um auto-golo do adversário. No mundo, embora acreditemos que os há, até porque se apresentam politicamente como tal, nem sequer árbitros existem. Daí não haver razões para revoltas. É apenas esperar que passe e que melhores dias venham e que, antes disso, nunca a chegue a piorar para lá dos limites do razoável.