Há quem nomeie o chef Avillez fazendo acreditar que está a falar de comida quando, na verdade a comida não é o mais importante. O mesmo se passa quando se fala mais de Sokolov ou Michelangeli do que de Schubert ou Beethoven: não é bem, bem, bem de música que se fala. A pintura ou a literatura não têm este potencial, um quadro é apenas um quadro, sem versões ou interpretações, um romance apenas um romance, embora neste caso um tradutor possa respeitar ou desvirtuar a receita original. Já na música não faltam restaurantes cujo alimento faz melhor proveito falado do que comido. Como nos vinhos, aposto que numa prova cega muitos idólatras de Michelangeli não soubessem distinguir uma receita sua da receita de um pianista desconhecido que jamais iriam registar na sua agenda semanal ou nomear durante um jantar.