08 janeiro, 2026

PSYCHO KILLER

Eu gosto de viver, daí aborrecer-me a ideia de vir uma dia a morrer. Mas se pensar na minha morte numa perspectiva teórica e neutra, devo admitir que perdi hoje a oportunidade de ficar registada nos anais das melhores performances mortais. Já perto do final de uma aula, resolvi passar a cena do chuveiro, do Psycho, parando o filme no momento em que actriz vai desfalecendo encostada à parede. Como estávamos mesmo no final da aula, dirijo-me para o quadro para levantar a tela quando, ao fazer o movimento para a baixar para depois, como uma mola, ficar enrolada na parte superior, uma das extremidades da parte metálica e pesada fica presa enquanto o resto, como um pêndulo, vem em furiosa velocidade na direcção do meu ombro, deixando-o bastante dorido. Estivesse um pouco mais ao lado e, em vez do ombro, poderia ser a cabeça. Imaginemos que tinha morrido, o que bem poderia acontecer. Eu iria cair no preciso preciso momento em que a actriz estava também a cair, coincidindo assim a minha morte com a sua. Agora, por que razão resolvi passar aquela cena no final da aula? Porque, no início, ao baixar a tela, disse que o irritante ruído que a tela faz ao descer lembra-me sempre a cena do chuveiro do Psycho. E como ninguém conhecia, resolvi então, só por graça, passá-la. Eu iria morrer devido ao ruído da tela lembrar o ruído que acompanha a morte da actriz, ficando assim as nossas mortes ligadas para sempre num sublime momento de íntima ligação entre a ficção e a realidade. Insisto, seria uma enorme chatice ter hoje morrido, mas uma coisa é certa: uma bela, teatral e barroca morte já ninguém me iria tirar.