Tendo que fazer um transbordo em Fátima, em vez de ficar meia hora na estação à espera resolvo dar uma volta. Dou então por mim, de mochila às costas, a caminhar por Fátima como um peregrino, o que logo me provocou um sentimento de vergonha. Racionalizei: "Bah, ninguém repara em mim, para os peregrinos sou apenas mais um, é como andar nu numa praia de nudismo". Racionalizei ainda mais: "Sou uma pessoa vulgar, sem traços físicos relevantes, nem sequer olham para mim". Mesmo assim não me libertei da vergonha, do ridículo por andar ali de mochila, motivado por todo aquele sagrado de pacotilha numa terra onde só se aproveita alguns restaurantes. Mas porquê vergonha se não fui apanhado a roubar, a mentir, a tirar um macaco do nariz, com uma nódoa na camisa num jantar de cerimónia? Porque, neste caso, não estava a lutar com o olhar dos outros, as consciências dos outros, o Inferno que são os outros, mas a lutar com a minha consciência, não pelo que sou ou fiz, mas pelo que a minha consciência chegou a projectar que poderia ser ou fazer. Ora, não sendo eu um empedernido protestante a lutar com a culpa num filme nórdico, só posso considerar estúpido, exagerado ou mesmo castrador, o meu psicológico prurido. Considerei e considero. Todavia, não posso deixar de pensar, mais indignada que melancolicamente, que o que alguns têm a mais, terão outros a menos. Só em Portugal não serão poucos os que não têm vergonha na cara e ainda menos dentro dela, quando não faltam fortes motivos para isso. A vergonha não é a coisa mais bem distribuída do mundo.