As ruas de Santa Catarina, parcialmente pedonal, e Sá da Bandeira, com trânsito, são das mais movimentadas do Porto, com os seus milhares de consumidores de edifícios, azulejadas igrejas, lojas, cafés, geladarias, "natarias", "souvenirerias", enfim, de turistas que se consomem uns aos outros. Sendo ruas paralelas, as respectivas traseiras enfrentam-se, dando assim origem a duas cidades: a cidade-espectáculo, objecto de desejo, cénica, holofotizada, instagramizada,
selfizada e com entradas pagas (voos+hotel), ou até visitada por nativos que lá se deslocam para passear e consumir, e a cidade-traseiras, invisível, ignorada, silenciosa e gratuita (há o empréstimo, a renda, o IMI, mas para viver). Ora, será a primeira mais real que a segunda? Não, nenhuma "é" mais cidade do que a outra, se há frente, há traseiras, se há traseiras, há frente, porém, urbanisticamente, talvez a segunda o seja mais. Como nos bastidores do teatro, a cidade tira a sua máscara para apenas ser e já não para ser vista. As traseiras do Porto, e o Porto é uma cidade de ricas traseiras, com as suas varandas, jardins, hortas, garagens, roupa estendida, luzes de cozinhas e salas, silêncios e murmúrios domésticos, são um dos seus mais bem guardados segredos, não, claro, para os seus habitantes que, a caminho do trabalho ou vindos do supermercado para fazer o jantar, são tantas vezes apanhados nas fotos dos turistas como anónimos figurantes de uma superprodução.