Anna Karenina traiu, Ema Bovary traiu, Constance Chatterley traiu. Ninguém tem dúvidas. Também ninguém tem dúvidas de que Desdémona não traiu. Mas Capitu? Ter Capitu traído ou não permanece um dos grandes enigmas da literatura o qual alimenta uma já longa disputa baseada em suposições. De uma absoluta verdade não podemos escapar: apesar da apaixonante disputa, Capitu não pôde trair ou deixar de trair porque Capitu não existe, igual razão pela qual também Anna, Ema e Constance não traíram, embora os respectivos romances revelem sem qualquer dúvida que sim, e mesmo quem não leu o sabe por acreditar na autoridade de quem leu. Decidisse Shakespeare que Desdémona fosse uma traidora, e Desdémona seria uma traidora, aconteceria apenas que a história seria outra e a maldade de Iago ou o ciúme de Otelo passariam a ter outro estatuto, e devidamente justificado. Flaubert, Tolstoi e Lawrence decidiram que Ema Anna e Constance traíssem pois se não o fizessem os livros nem sequer existiriam pois só existem devido ao desejo dos seus autores de que tais personagens, que nunca existiram, traíssem. Está tudo nos livros, é lá que tudo se decide, vindo das livres elucubrações dos seus autores. Eis a Teologia, esse tão antigo e fascinante género literário.