Desgraçadamente, vivemos tempos em que somos demasiadas vezes levados a perguntar onde está o adulto na sala. E se em vez de ser o adulto for a criança? Trazem os domingos dois excelentes cartoons, o de Cristina Sampaio, no Público, e o de Daniella Martí, no El País. O de ontem, de Martí, tem tanto de interessante como de engraçado. De onde vem a expressão "O rei vai nu"? Daqui. Os adultos que gritam que o rei vai nu, há muito que o viam nessa triste figura, mas, como é normal em adulto que se preze, a vergonha de fazer uma triste figura, a necessidade de simular, o não querer divergir do rebanho leva-o muitas vezes a não querer ver o que está diante dos olhos, ou a ver o que não está. O clássico "Lie to me" que Johnny Guitar exige a Vienna. A chatice é que quando se assume mesmo que o rei vai nu já é demasiado tarde, muitos estragos houve e alguns irreversíveis. Daí a urgente presença da criança do conto para gritar logo que vê o rei mas também as pessoas que vêem o rei, dispensando, na objetividade da sua inocência, o teatro de todos. O teatro do rei, o teatro diante do rei e ainda o teatro diante do espelho, pois tal como não assumem a nudez do rei, não assumem a própria durante demasiado tempo.
