30 março, 2026

A MISSÃO

Fazia tempo que não ia a uma missa. Daí a minha surpresa por poder acompanhá-la através de um monitor instalado numa das paredes frontais que antecedem o altar, ligado a um computador. Sendo duro de ouvido, graças às legendas, pude assim acompanhar as letras das canções ou as passagens relatadas pelo padre, passando assim o tempo a olhar para o monitor como em casa a ver um documentário. Mas para o ritual qual o interesse em perceber o que dizem ou cantam? As melhores missas a que assisti foram as ortodoxas, não percebendo nada do que se passava. Ou uma vez numa pequena igreja românica, tosca, nua e mal iluminada, onde apesar de não acompanhar a língua fez-me voltar aos tempos do cristianismo primitivo. Tudo o que é dito de importante numa missa está escrito na Bíblia que tenho em casa, não preciso de perceber o que diz o padre. Fosse a mensagem para ser levada a sério e os cristãos não seriam órfãos de uma doutrina que nunca perceberam e sempre rejeitaram. Fosse eu católico e teria mesmo saudades das missas em Latim a que nunca assisti. A missa vale pela acção, pela estética, pela maneira com os cinco sentidos mergulham num espaço sagrado em ruptura com o espaço profano para o qual se regressa logo após os fraternais cumprimentos ao vizinho do lado que logo deixa de ser irmão. Duro de ouvido, percebi quase tudo naquela missa embora para rapidamente tudo esquecer.  Não foi uma missa, apenas um dever social que tive de cumprir com espírito de missão.